Descobrimento das Filipinas por Fernão de Magalhães
Capítulo III
Era a idéa predominante no espirito dos navegadores achar a passagem para o mar do Sul que incurtaria o caminho para a India.
Colombo já o pensára, Balboa estivera a ponto de o realisar, mas o Destino tinha escripto no seu insondavel livro que seria a{18} um portuguez que caberia essa gloria: e esse portuguez, esse homem da côrte de D. Manuel;—foi Fernão de Magalhães, que quizera enflorar na corôa de Portugal uma nova joia de alto valor, mas que o mesmo Destino quiz que a fosse engastar na Corôa de Castella!{19}
III
Não é proprio dos espiritos aventurosos medir as suas acções pelas regras da prudencia e da boa razão; se assim não fôra deixaria de haver a aventura para só prevalecer a fria reflexão, o que tanto monta como o mundo ter avançado metade do caminho precorrido nos progressos da humanidade: Audentes fortuna juvat.
Não se esperem aventuras donde só dominar a intelligencia sem participar o coração. Os productos da primeira serão admirados e respeitados, mas o que o segundo produzir ha-de espantar e maravilhar.
Raro se reunem estas qualidades e por isso, quando se encontram em um só homem, esse homem será um heroe, porque encherá de beneficios a humanidade.
Comtudo não menos raro é, que a esses{20} homens de espirito e coração privilegiados, a humanidade tenha aberto os braços antes de lhe mover uma guerra de morte. Porque elles vêem mais longe que o vulgar dos espritos, advinhando o que outros não comprehendem, são sempre o alvo da inveja dos maus a espicaçar a aversão dos nescios.
É por isso que em todos os tempos a intriga tem envolvido os grandes homens, deturpando-lhe as intenções, maculando-lhe o caracter, desfazendo de seus meritos, pretendendo annular-lhe as suas obras.
Quantas vezes os ferros de el-rei arroxearam os pulsos dos seus melhores servidores; quantas o desgosto matou homens a quem a posteridade tem levantado monumentos!
N'este labyrinto da Historia, que os historiadores nem sempre tem podido espurgar das paixões, quão difficil é apreciar com justiça o caracter dos homens que n'ella mais preponderam por suas acções e influencia.
É n'esta difficuldade que nos encontrâmos para definir nitidamente o caracter de Fernão de Magalhães, avaliando as rasões que o levaram a deixar a patria e o serviço do seu rei, pelo serviço do imperador das Hespanhas, por um paiz que era o emulo de Portugal, nas conquistas e descobertas.
É fóra de duvida que Fernão de Magalhães deveria ter um caracter independente{21} e ousado, porque outro não se compadecia com o seu espirito aventuroso; que esse caracter não seria facilmente maleavel como não se amoldaria ás adulações e hypocrisias da côrte, parece seguro; mas viria só d'isto o desagrado em que cahiu para com el-rei D. Manuel?
Seria Fernão de Magalhães mais ambicioso que outros, o que não é para admirar, visto que o seu espirito se dilatava tanto pelo que outros não viam, e essa ambição miraria mais á gloria do que ao interesse material? Qualquer das duas seria o bastante para o malquistar com os camaradas e com os cortezãos.