Descobrimento das Filipinas por Fernão de Magalhães

Caetano Alberto da Silva · Capítulo 8 de 21

Páginas do PDF

Descobrimento das Filipinas por Fernão de Magalhães

Capítulo VIII

Soube-se na côrte de D. Manuel do que se estava passando em Hespanha com os dois portuguezes, e calculando-se quanto poderiam perigar as possessões portuguezas na India, se Fernão de Magalhães levasse por diante seu intento, necessario era combatel-o.

Era embaixador portuguez em Hespanha D. Alvaro da Costa, que ali fôra pedir a mão da infanta D. Leonor para el-rei D. Manuel. Sob este pretexto e quantos mais se podem imaginar, representou contra as concessões feitas por Carlos V a Fernão de Magalhães, e com tal arte se houve que o monarcha das hespanhas se abalou, chegando a ponto de quasi revogar o que estava contractado.

Foi ainda o citado bispo de Burgos que demoveu todas as duvidas.

Fernão de Magalhães iria finalmente á descoberta.{48} {49}

 

VIII

 

Decorreram seis mezes entre a assignatura do contracto e a partida de Magalhães. Foram seis mezes de luctas para o ousado portuguez, em que se lhe levantaram difficuldades por todos os lados, desde aquellas que Rodrigo Faleiro lhe criou com o seu genio irascivel, até ás que o povo de Sevilha, instigado pelos agentes portuguezes para impedirem a empreza, oppôz, tentando destruir os navios que estavam a construir para a viagem, e contra a vida de Magalhães, desconfiando da lealdade do seu procedimento.

Não foi menos importante a falta de dinheiro para occorrer ás despezas da expedição, falta que suppriu Christovão de Haro e Affonso Gutierres a que tambem acudiram{50} alguns negociantes de Sevilha a instancias do bispo de Burgos, devotado protector da empreza.

Faleiro, investido de poderes eguaes aos de Magalhães e de genio mui differente d'este, foi impossivel dirigir os trabalhos de commum accordo e a tal ponto chegou a desintelligencia entre os dois, que Carlos V sem querer melindrar nem um nem outro, mas vendo a impossibilidade de se consertarem, determinou por uma real cedula datada de 26 de julho de 1519, que Faleiro ficasse em Sevilha tratando de aprestar uma outra expedição, que seguiria a Magalhães, e que o capitão portuguez partisse com o exclussivo de unico commandante superior da esquadrilha.

Tudo se aprestou alfim: a esquadrilha que ia a descoberta compunha-se de cinco navios, de que Fernão de Magalhães era o almirante. O primeiro d'aquelles navios era o Trindade, em que ia Magalhães; o segundo Santo Antonio commandado por João de Cartagena, que era ao mesmo tempo vedor da armada e tinha o titulo de adjunto de Fernão de Magalhães; o terceiro, Conceição do commando de Gaspar de Quesada; o quarto, Victoria tendo por commandante Luiz de Mendonça, que era tambem o thesoureiro da armada; o quinto, Santiago, que{51} era o mais pequeno, commandado pelo piloto João Serrano.

Foi a 10 de agosto de 1519 que a esquadrilha levantou ferro, e descendo o Guadalquivir, veiu fundear no porto de S. Lucar de Barrameda, para quarenta dias depois, a 20 de setembro, soltar as velas ao vento, em monção favoravel e aventurar-se por esses mares fóra, sem temor dos perigos, á procura da passagem para o mar do sul.