Estrelas Funestas
Capítulo II
Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos cabellos, e exclamou:
—Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!
Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão, que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.{103}
II
Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante, vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.
O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e esperou.
Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo{104} Malafaya, dizendo que o conde de Monção sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!
Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro, perguntou-lhe o conde:
—Vae para o Porto?
—Sim, senhor.
—Então podemos ir de camaradas.
—Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.
—Se não é mais do que isso, ahi vamos—disse o conde, atirando o acicate aos ilhaes do cavallo.
Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo—vamos, se é que Filippe Osorio podia rir.{105}
Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão. O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.
—O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...
—Tenho...—disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra de ferro lhe batesse no peito.
—Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.
—Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.
—Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.
—Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...{106}
Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de notar as perturbadas perguntas de companheiro.
—O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada n'um collegio, e fala o francez perfeitamente.
Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de taes revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear falando de Maria, quando mais não fosse.
—Mas,—insistiu elle—com que fim o sr. Gonçalo Malafaya mostrou ao meu amigo o retrato d'essa menina?
—Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o senhor não me conhece?
—Não tenho a honra...
—Eu sou o conde de Monção.
Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao peito, e outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.
—Nunca ouviu falar de mim?—tornou o conde, notando a nenhuma reverencia com que o militar ouvira o seu nome.
—Ouvi, sim, senhor.
—Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.
—Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.{107}
—Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá. Meus avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa tres generaes velhos como a Sé de Braga.
—Mas vamos á historia, se lhe não custa—disse Filippe com simulado e affectuoso sorriso.
—Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa, porque lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus peccados, meu caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar! E olhe que em Pariz um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal tamanho!... Como lhe vinha contando, quando voltei a Portugal, e vi o empenho em que estava a minha casa, resolvi tomar estado com menina rica, ainda que me ficasse a perder de vista em fidalguia. Não póde ser tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta ás regalias, e fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No inferno esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei as minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor morgadio era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao Porto, ha tres annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me encontrar com o Malafaya. Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro que diz, e deixei-me dizer que me{108} não desconviria ligar á minha casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha d'elle. Não arranjei bem o palavreado?
—Perfeitamente—disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não tivesse adivinhado, desde que soube que falava com um conde, que tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:
Continuou o conde:
—O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa, deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:—Deixemos completar a educação de minha filha, e depois falaremos.— Passados quasi dois annos, recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas palavras!...
Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher—que é o diabo de saias segundo ouço—de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver quinze dias que o{109} Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?
—Digo que faz muito bem; mas se me dá licença—continuou Felippe com a mais destra e bem fingida serenidade—farei uma advertencia.
—Diga lá sem cerimonia.
—Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se ella?
—É Maria.
—Pela sr.ª D. Maria?
—Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.
—Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, vendo-o?
—O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus caseiros, quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o besouro diabolico. Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe que estive para me bater muitas vezes por causa de namoros muito serios com as açafatas da côrte.
—Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas supponha por um momento que D. Maria o não ama?{110}
—Porque não ha de amar-me? Essa é fina!
—Supponha que ella ama outro homem?
—Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.
—E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.
—Está claro.
—E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira desculpar esta pergunta.
—Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?
—É uma supposição...
—Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para essas brincadeiras. Ou eu ou elle.
—Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?
—Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho pelos meus lacaios.
Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando soltou uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso, entendeu que a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E riu tambem, em prova de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.
Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou adiantava para não emparelhar com elle.
Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da ceia, durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe chamou á meia{111} noite o seu lacaio, e mandou arrear os cavallos. Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde no seu primeiro somno, o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas palpebras as suas narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as dulcissimas visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.