Estrelas Funestas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 14 de 25

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Estrelas Funestas

Capítulo V

Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se vislumbram{136} nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos antigos tempos.

Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá, ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.{137}

 

V

 

N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.

Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.

Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó{138} para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.

O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:

—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...

Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.

Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!

Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado,{139} e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.

Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.

Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:

—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos amigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites{140} uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.

A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.

O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.

Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.

Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.

—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.

—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.

Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.{141}

—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?

—Pois então!

—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.

—Não subo.

—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.

O conde encarou-o com arremesso e disse:

—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya, que ou eu ou elle?

—Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.

—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!

—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!

—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.

—Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.

—Adiante o que?

—Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.{142}

A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.

—E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?

—Os seus fóros?

—Os meus fóros de fidalgo, pergunta?

—Sim.

—Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?

—Não me meço com peões.

—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.

—Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...

—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,{143} os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!

O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava{144} as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados: