Fanny: estudo
Capítulo LXXIV
Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado que não quer ouvir os gritos de maldição sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mão cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Cançado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...
Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura me póde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, só, meditativa,{160} austera. Estou resolvido a esperar até final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero. Fio-me não sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto. Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto, e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar! que supplicio!
As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a tentação terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.
Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque me resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais.
FIM
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ANTONIO MARIA PEREIRA
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