Fogo & Estrelas
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"Quando o mundo estiver unido na busca do
conhecimento, e não mais lutando por dinheiro
e poder, então nossa sociedade poderá enfim
evoluir a um novo nível."
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AUDREY COULTHURST
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Of fire and stars
Copyright © 2016 by Audrey Coulthurst
Mapa – Copyright © 2016 by Saia Jordan
All rights reserved.
Copyright © 2022 by Hoo Editora
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.
Diretor editorial: Luis Matos
Gerente editorial: Marcia Batista Assistentes editoriais: Letícia Nakamura e Raquel F. Abranches Tradução: Michelle Gimenes
Preparação: Cristina Lasaitis
Revisão: Luisa Tieppo e Juliana Gregolin Arte: Renato Klisman e Valdinei Gomes Diagramação: Cristiano Martins Capa: Renato Klisman
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
C892f
Coulthurst, Audrey
Fogo & estrelas / Audrey Coulthurst ; [tradução de
Michelle Gimenes]. –– São Paulo : Hoo, 2022.
400 p. (Of fire and stars ; v. 1)
e-ISBN: 978-85-93911-25-5
Título original: Of fire and stars
1. Ficção norte-americana 2. Ficção fantástica 3. Magia -
Ficção 4. Lésbicas - Ficção 5. Homossexualidade - Ficção
I. Título II. Gimenes, Michelle III. Série
22-1121 CDD 813.6
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Para os membros da Austin Java Writing
Company –
Obrigada por alimentarem as chamas em mim
que tornaram este livro possível. Vocês
estarão sempre entre as estrelas mais
brilhantes do meu universo.
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PRÓLOGO
Quando eu tinha sete anos, minha mãe me pegou empilhando, com mãos
desnudas, pedaços de carvão em brasa dentro da lareira.
Naquela noite, Alcantilada estava gelada até a alma, um tipo de frio que
apenas Havemont conhece, quando o sol se põe mais cedo e deixa a tarde tão escura quanto a madrugada, e a neve inclemente forma um redemoinho no céu. Minha irmã Alisendi e eu nos ajoelhamos no Grande Ádito, o templo mais sagrado dos quatro Reinos do Norte, nós duas pequeninas sob a abside cavernosa com a representação do deus do fogo. As chamas que dançavam na lareira davam vida às paredes, desde a forja e as fogueiras usadas no preparo de alimentos pintadas do chão até o teto, onde os raios de sol davam lugar a um céu sombrio raiado de estrelas cadentes. Deveríamos dedicar alguns minutos à oração depois de nossos estudos, até que nossa mãe, a rainha, fosse nos buscar.
Em vez disso, arremessávamos lascas de madeira o mais longe que
conseguíamos sobre as lajotas quentes, rindo enquanto o gato do templo saltava sobre os pedaços de madeira deslizantes. Mas então o fogo diminuiu, e um pedaço de lenha em chamas rolou para fora da lareira, criando uma chuva de fagulhas. Alisendi gritou e saltou para trás. Contudo, algo me fez permanecer imóvel enquanto eu sentia a ponta dos meus dedos formigar. Quando agarrei o pedaço de madeira e o arremessei de volta à lareira, a sensação das chamas não passava de um leve roçar na minha pele, embora as pontas das minhas luvas de lã queimassem lentamente.
–Veja, Ali – falei, pegando um pouco das cinzas que haviam rolado para
fora da lareira. Na palma da minha mão que ainda formigava, chamas surgiram novamente, tão brilhantes quanto o fogo na lareira. A excitação percorreu meu corpo enquanto eu observava a chama arder. Eu não fazia ideia de que era possível segurar o fogo com as mãos, mas aquilo respondia a uma pergunta que eu me fazia e que nunca havia conseguido colocar em palavras.
– Você não deveria fazer isso – Alisendi advertiu, desenhando o símbolo do deus do fogo no ar à sua frente.
– Mas é como aquelas histórias sobre os grandes feiticeiros – falei. – E se as pessoas ainda tiverem poderes? E se as outras histórias também forem verdadeiras? Sobre dragões e fadas? E sobre pessoas que assumem a forma de animais? – Fiquei zonza só de imaginar que o mundo poderia realmente estar cheio daqueles seres incríveis. E animada ao pensar que eu poderia ser um deles.
– Essas histórias foram inventadas para nos fazer dormir – Alisendi disse. – Já somos grandinhas demais para acreditar nessas bobagens.
Fiz cara feia e continuei segurando a brasa na palma da mão.
– Então quer dizer que isto não é verdade?
– Não sei – ela respondeu e deu um passo para trás. Sua incerteza era algo estranho de se ver. Um dia ela seria rainha de Havemont, e já se portava como se soubesse de tudo. Eu sempre quisera ser como minha irmã mais velha perfeita, mas nunca estivera à sua altura: eu era tímida demais, estudiosa demais e impulsiva demais para ser uma líder de verdade. Mas agora finalmente eu conseguia fazer algo de que ela não era capaz.
– Isto é real – insisti, e enfiei as duas mãos no fogo, mostrando a ela que as chamas não me afetavam. Empurrei um pedaço de madeira para o lado, construí uma torre de brasas e desenhei o brasão de nosso reino nas cinzas perto da pilha.
Foi então que nossa mãe chegou.
Ela deu um grito agudo e me puxou para fora das chamas, seu pânico se transformando em medo enquanto ela espanava as cinzas e encontrava uma pele imaculada sob a fuligem.
– Princesas não brincam com fogo – ela me repreendeu.
Assustada com as lágrimas nos olhos dela, prometi nunca mais fazer aquilo – uma promessa que se revelaria impossível de cumprir.
Mais tarde naquela noite, minha mãe me disse que o deus do fogo deve ter me concedido um dom, porque nosso reino mantinha o deus do fogo junto aos nossos corações. Ela disse que talvez minhas orações no Grande Ádito tivessem sido respondidas com magia, porque o templo ficava num lugar tão alto nas montanhas que os Seis Deuses quase nem precisavam baixar suas cabeças para ouvir nossas preces. Àquela altura, já era tarde demais para anular meu noivado com o príncipe de Mynaria, embora o povo de seu reino acreditasse que o uso de magia era heresia. Mamãe insistiu que, se fosse ignorada em vez de estimulada, minha Afinidade com o fogo desapareceria como os pequenos dons de muitas pessoas. Ela nos proibiu – Alisendi e eu – de contar aquilo aos outros.
Nos anos seguintes, tentei ignorar a atração pelas chamas. Mas o desejo
de me entregar ao formigamento que eu sentia em minhas mãos ou bochechas era mais forte do que uma coceira irritante. Entre minhas aulas de história, etiqueta e política, eu evocava a magia quando estava sozinha e brincava com ela como se fosse um truque para entreter as visitas. Aos dez anos, eu conseguia fazer com que o fogo ardesse com mais intensidade ou com que algumas centelhas dançassem pelo piso. Minha magia era pequena e discreta, como tudo em mim, e fácil de manter em segredo.
Minha rotina continuava sendo um ensaio para o momento em que eu
conhecesse meu noivo prometido, e meu segredo parecia uma coisa trivial. Eu acreditava que, contanto que prosseguisse com meu treinamento, nada poderia dar errado.
Mas algumas coisas são mais fortes do que anos de treino. A atração do fogo.
A ânsia de liberdade.
Ou uma garota montada em um alazão.
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UM
O verão estava insuportável em Mynaria no dia em que cheguei para
conhecer meu futuro marido. Enquanto minha carruagem chacoalhava pelas ruas pavimentadas rumo ao castelo no lado oeste da cidade, eu não conseguia dizer se era o nervosismo ou o corpete apertado do meu vestido que tornava difícil respirar. Os cidadãos se enfileiravam na beira das estradas, dando vivas e agitando pedaços de tecidos coloridos, e o clamor permaneceu em meus ouvidos muito tempo depois que minha aia e meu séquito se separaram nos portões do castelo e que minha carruagem seguiu solitária até parar no pátio interno.
– Que os Seis me deem força – sussurrei para me manter firme assim que
o lacaio abriu a porta revestida de veludo.
Desci sobre lajotas claras e fui recebida por uma fileira de cavalos em
armadura completa. A armadura deles brilhava ao sol, e suas rédeas de seda bordada tremulavam. Bandeiras coloridas pendiam das muralhas acima deles, alternando entre o roxo da minha terra natal e o azul-escuro de Mynaria. Por trás da guarita assomava o castelo, uma estrutura maciça com torres quadradas que se projetavam para o céu. Pareciam nuas sem os pináculos serpenteantes que coroavam o palácio em que cresci, e tal estranheza me fez sentir um nó na garganta de tanta saudade que sentia de casa.
Antes que eu pudesse dar um passo, uma égua baia ergueu a cabeça e
esbarrou seus quartos traseiros no cavalo ao seu lado, gerando uma onda de orelhas abaixadas e cascos agitados por toda a fila. O príncipe que a montava exibia um sorriso de boas-vindas. Meu estômago se revirou de nervoso.
– Pare – murmurou a pessoa no cavalo alazão ao lado dele. Lutei contra o impulso de me encolher diante dos cavalos e, em vez
disso, botei um sorriso confiante no rosto, mantendo a postura ereta para aumentar ao máximo minha estatura diminuta. A primeira impressão que eu precisava passar era de equilíbrio e dignidade, não de ansiedade e resignação. Se Alisendi estivesse em meu lugar, àquela altura ela já teria feito sua entrada triunfal no castelo e conquistado metade da corte. Em comparação com ela, eu me sentia uma oferenda pobre.
– Sua Alteza Real, Princesa Dennaleia de Havemont! – um arauto anunciou. Os cavaleiros desmontaram todos ao mesmo tempo e se curvaram. Respondi com uma mesura. O príncipe passou as rédeas que segurava para a pessoa ao seu lado e deu um passo à frente. Os retratos dele que eu tinha visto em minha casa não lhe faziam justiça. Cada costura do gibão era perfeitamente ajustada ao seu corpo. Seus cabelos loiros brilhavam ao sol e eram compridos apenas o suficiente para serem ajeitados atrás das orelhas, e seus olhos azul-claros combinavam com o céu sem nuvens.
Eu esperava sentir alguma coisa, que uma espécie de fagulha nascesse em meu peito ante a visão de seus ombros largos e de seu queixo forte. Mesmo depois dos anos de inevitabilidade do meu casamento, parte de mim esperava que pudéssemos nos apaixonar.
Nada aconteceu e minha confiança vacilou.
– Bem-vinda a Lyrra, capital de Mynaria, Sua Alteza – o príncipe disse e se curvou. – Sou o Príncipe Thandilimon, a serviço da Coroa e dos Seis.
Fiz uma reverência formal em resposta. Outro homem, vestindo traje de administrador, deu um passo à frente para ladeá-lo. Eles tinham o mesmo nariz reto e a mesma cor de cabelo, embora os fios do administrador fossem mais grisalhos do que loiros. Ele só podia ser o irmão do rei.
– Lorde Casmiel, administrador da Coroa – ele se apresentou com um sorriso largo, e então pegou minha mão e a beijou de um jeito antiquado, como meu pai às vezes fazia. O gesto familiar me confortou. Todavia, antes que eu pudesse completar minha mesura, a égua do príncipe enfiou os dentes na manga da garota que a segurava.
– Pare! – a garota disse, afastando o focinho do cavalo com o cotovelo. A égua baixou as orelhas, agitou seus quartos traseiros novamente e acertou em cheio um coice no cavalo alazão.
O caos se instalou quando o grande animal atingido se empinou e se afastou abruptamente dos demais, indo direto para onde eu estava; faíscas saíam das ferraduras do animal quando suas patas tocavam as lajotas. O pânico cresceu em mim e minha magia emergiu enquanto eu perdia o controle de um modo jamais visto. Tentei sair do caminho do cavalo que se aproximava, mas sua espádua se chocou contra o meu ombro. Todo o ar dos meus pulmões se esvaiu quando caí de costas no chão.
– Agarrem-no! – uma voz gritou.
Botas se agitaram à minha volta e freios retiniram enquanto as pessoas
acalmavam seus cavalos e tentavam retomar o controle da situação. Eu ofegava em busca de ar.
Alguém se abaixou do meu lado e colocou uma mão suave sob minhas
costelas. Ergui o olhar até um par de olhos cinzentos com cílios compridos, surpresa em ver o rosto da garota que segurara as rédeas do cavalo que correra para cima de mim. Ela tinha sardas delicadas sobre o nariz e cabelos castanho-avermelhados que se destacavam em contraste com seu uniforme azul-escuro.
– Está tudo bem – ela disse. – Tente relaxar. Use estes músculos para
deixar o ar entrar.
A melodia de sua voz me acalmou; os músculos do meu abdômen
relaxaram. Inspirei algumas vezes de modo irregular, cada uma delas mais fácil do que a anterior. A garota me ajudou a levantar com cuidado e a me estabilizar, e, quando soltou minha mão e se afastou, minha palma se encheu de pontadas e agulhadas devido à magia mal contida. Eu já havia sentido meu dom mais próximo da superfície algumas vezes quando estava aborrecida ou com medo – mas nunca daquele jeito. Mas, também, nunca tinha visto uma ocasião importante como a daquele dia se transformar em uma catástrofe tão depressa. Eu precisava manter a calma.
A garota pegou as rédeas do cavalo alazão de um lacaio que segurava o
animal cautelosamente a um braço de distância. O cavalo bocejou como se estivesse totalmente entediado.
O príncipe passou por mim a passos largos e parou diante da garota. – Leve esse animal imundo e inútil daqui agora mesmo – ele disse. Atrás
dele, os vassalos se entreolhavam inquietos. Casmiel correu até eles, fazendo com que todos voltassem a formar uma fila.
– Se você se desse ao trabalho de repreender sua égua quando ela dá
coices, isso provavelmente não teria acontecido – a garota respondeu. O tom displicente e a falta de deferência me surpreenderam.
– Não me interessa de quem é o cavalo que fez isso. Você devia ter
mantido os cavalos enfileirados para a chegada da Princesa Dennaleia. Pelo amor dos Seis Deuses, peço a você para fazer uma coisa para mim e…
– Claro, claro… porque tudo é sobre você. – Ela fungou, um som que provavelmente seria mais apropriado para sua montaria.
O rosto do príncipe ficou vermelho.
– Você não acha que pode deixar um dos seus animais atropelar uma convidada de honra, futura integrante da família real, sem sofrer as consequências.
Pressionei minha mão no lugar em que a garota havia me tocado. Ela viera tão depressa me resgatar… Mamãe sempre dizia que os criados precisavam mais das palavras gentis do que das duras. Assim que o príncipe abriu a boca para soltar mais reprimendas à garota, eu me interpus entre eles.
– Não precisamos criar caso – falei. – Foi só um acidente. – Embora minha voz não tivesse vacilado, minha magia se agitou dentro de mim, mas não entendi por quê. Engoli em seco e baixei os olhos para a bainha do meu vestido, tentando recuperar o controle.
– Você está bem, milady? – o Príncipe Thandilimon perguntou.
Antes que eu pudesse responder, uma chama surgiu da barra da minha saia, a energia saindo de mim em um fluxo incontrolável.
– Alteza! – o lacaio gritou. Ele se jogou aos meus pés, engatinhando pelo chão para apagar o fogo com suas mãos enluvadas.
Observei horrorizada, com medo de falar e de me mexer.
– Acho que apagou, Alteza. – O lacaio se levantou ofegante, suas luvas brancas cobertas de sujeira e marcas de queimado.
– Não sei o que aconteceu – menti. Minhas emoções exacerbadas desde a chegada deviam ter causado as chamas. Independentemente disso, eu tinha de garantir que ninguém adivinhasse a verdade.
– Tem sido um verão seco – Thandilimon disse. – As faíscas da ferradura do cavalo devem ter gerado as chamas. – Ele se aproximou, observando minha saia chamuscada com ar de preocupado.
– Bem, com certeza foi uma recepção animada – falei. – Talvez eu pudesse ir com minha aia trocar de roupa?
– Certamente – ele disse, como se de repente se lembrasse das boas maneiras. E dispensou a criada com um gesto.
O semblante dela permanecia incomumente calmo, considerando a situação. Seu olhar encontrou o meu por cima do ombro do príncipe, e ela sorriu com discrição antes de dar meia-volta e sair gingando do pátio, com seu cavalo acompanhando-a tranquilo.
– Dias como este me fazem pensar em como eu gostaria de poder enviá-
la junto ao seu cavalo horroroso para um lugar tão ao sul que as estações do ano fossem invertidas – o príncipe resmungou enquanto criada e cavalo desapareciam do pátio. Ele me ofereceu o braço e eu o segurei. Quatro braceletes delicados apareceram por debaixo da manga da jaqueta do príncipe: sinal de distinção. Como todos os cidadãos de Mynaria, ele usava braceletes trançados feitos a partir dos pelos da cauda de cada cavalo que já havia montado.
Uma vez restaurada a ordem na festa de boas-vindas, Casmiel surgiu de
novo ao lado do príncipe.
– Milady, peço desculpa pela recepção atribulada em nosso reino. Por
favor, permita que a acompanhemos até seu novo lar.
– Ninguém se machucou – falei enquanto entrávamos no castelo. O teto
do hall, feito da mesma pedra arenosa do exterior, formava um arco acima de nós, com arandelas no formato de cabeças de cavalo dispostas em uma fileira pelo corredor, apagadas. A luz do sol aquecia o latão polido.
– Perdoem-me pela pergunta, milordes, mas a garota cujo cavalo
escapou… Por que a mantêm empregada se ela é tão incompetente? – perguntei. Meu pai a teria dispensado sem pestanejar.
O príncipe suspirou, e eu poderia jurar que Casmiel deu um sorriso
malicioso.
– Não há alternativa – o príncipe respondeu. – Mare não serve mais para
nada a esta altura, então meu pai a deixa treinar os cavalos. Ela é boa nisso, e é praticamente a única atividade útil que ela deseja fazer.
– Ela é uma vassala? – perguntei.
– Desculpe. Deveríamos ter feito uma apresentação apropriada – Casmiel
disse, lançando um olhar para Thandilimon.
O príncipe suspirou outra vez.
– Mare é minha irmã mais velha. Amaranthine, Princesa de Mynaria.
Garanto a você que ela não é uma imagem precisa de nosso povo nem da família real.
Minha mente fervilhava. A Princesa Amaranthine fora mencionada tão
pouco na minha orientação que deduzi que já estivesse casada. Aos dezoito anos – dois a mais do que eu – ela deveria estar. Grande parte do que eu sabia sobre a família real de Mynaria, além do Rei Aturnicus e do Príncipe Thandilimon, dizia respeito à maneira como interagiam com o Conselho, o grupo de representantes que ajudava a governar o reino. Mas, mesmo que Amaranthine não estivesse envolvida com política, ou casada, bancar a treinadora de cavalos me parecia a última coisa que uma princesa deveria fazer. Eu estava confusa… e curiosa.
– Ela não devia ter assumido as obrigações de senhora da casa quando a Rainha Mirianna faleceu? – perguntei.
– Mare pode ser difícil de persuadir… – Casmiel começou a dizer.
– É teimosa como uma mula, isso sim – Thandilimon interrompeu. Casmiel lhe lançou um olhar de advertência, mas o príncipe continuou do mesmo jeito. – Ela não faz ideia do que significa servir à Coroa. Se tivesse juízo, escolheria alguém para ser seu marido e acabaria logo com isso, antes que meu pai tome a decisão por ela. Pelo menos agora ela ainda tem escolha.
– É bom ter escolha – falei gentilmente. As palavras dele me incomodaram. Nós nunca tivemos escolha. Se em virtude disso ele não gostasse de mim, eu não sabia como iríamos sobreviver. Com sorte encontraríamos algo além das obrigações que nos unisse, como livros ou determinado estilo musical, ou até algo mais simples, como doces de frutas azedas que vinham de Sonnenborne no inverno.
–Verdade – ele disse com uma expressão resoluta. – Pelo menos a aliança forçará Mare a fazer algo da vida. No que depender de mim, não tenho a intenção de deixar que continue correndo solta por aí.
Depois de subirmos um lance de escadas, dois vassalos se afastaram para que pudéssemos entrar nos aposentos preparados para mim. Uma antecâmara com lareira e uma área espaçosa para se sentar levava ao quarto de dormir, separado dessa primeira por portas duplas. Grandes janelas davam para os terrenos e campos mais além. Ao longe, imaginei que conseguia ver as montanhas da minha terra natal envoltas em nuvens distantes, embora eu soubesse que era uma jornada de duas semanas rumo ao norte.
Ao lado de uma das poltronas luxuosas da antecâmara, minha aia, Auna, fez uma mesura quando entramos no cômodo. Seu rosto familiar fez com que eu me sentisse um pouquinho mais à vontade.
Um pajem bateu à porta e sussurrou um recado para o príncipe.
– Sinto muito, mas tenho negócios a tratar – Thandilimon disse depois que o pajem foi embora. – Casmiel lhe mostrará a propriedade, e nos veremos mais tarde no banquete de boas-vindas. Amanhã teremos um café da manhã, e então você poderá conhecer alguns dos conselheiros mais importantes do meu pai numa ocasião mais íntima.
– Mal posso esperar, Alteza. – Fiz uma reverência. – Eu tampouco, milady. – Ele se inclinou e deixou a sala, e o vassalo
fechou a porta em silêncio logo atrás.
Depois de uma vida inteira de preparação, nosso primeiro encontro fora
breve demais e calamitoso demais, o que me deixou insegura sobre como eu deveria me sentir. Mais do que tudo, eu queria ir para casa.
Pedi licença para que Auna me ajudasse a colocar um vestido limpo e
não chamuscado, tudo isso tendo plena consciência de que Casmiel me aguardava do outro lado da porta. A surpresa da presença de Amaranthine me fez pensar em que outras lacunas havia em meus conhecimentos sobre Mynaria, mas sua figura nada convencional me intrigava. O decoro sugeria que eu fosse educada e a procurasse para agradecê-la devidamente por ter ido ao meu socorro, e parecia que só havia um lugar em que ela poderia estar. Olhei da minha janela para onde ficavam os estábulos reais na encosta da montanha. Eu sabia qual seria o primeiro lugar a que pediria para Casmiel me levar.
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DOIS
Eu cantarolava uma música de taverna indecente enquanto removia terra
compactada do casco da frente de Flicker, feliz por voltar a uma tarefa que estava acostumada a fazer, depois do desastre na chegada da Princesa Dennaleia. Embora a inútil da égua do meu irmão tivesse sido a culpada, eu não me importava em levar a culpa. Isso significava que meu pai e Thandi não iriam querer minha ajuda para mais nada por um tempo. E isso queria dizer liberdade – minha palavra favorita. Mas eu mal havia terminado de arrancar a terra da ferradura de Flicker quando um guincho encheu o ar dos estábulos, um som estridente o suficiente para fazer meu coração acelerar. Flicker assustou-se e arrancou sua pata das minhas mãos, quase pisoteando meus dedos ao botar o casco no chão.
– Calma, garoto – falei, colocando minha mão em sua espádua. Se aquele
fosse mais um caso de cavalariço mostrando a uma criada de cozinha o verdadeiro incômodo de “rolar na palha”, os dois teriam que descolar minhas botas de seus traseiros. De cara feia, limpei as mãos no tecido rústico da minha calça de montaria e marchei para fora da baia.
A Princesa Dennaleia estava parada do outro lado do corredor, segurando
a própria mão, com o rosto pálido. Maravilha. Como eu era o bode expiatório da família, o que quer que tivesse acontecido sem dúvida seria culpa minha, apesar de o meu tio Cas estar ao seu lado.
– O que está acontecendo? – perguntei.
– Ela me mordeu – a princesa disse com a voz trêmula. Dennaleia era meia cabeça mais baixa que eu, o tipo de garota delicada
que fazia com que eu me sentisse uma idiota suja e desastrada. Ela havia trocado o vestido amarelo de seda por um traje lavanda cheio de babados, e parecia que deveria estar em cima de um bolo, não no meio do meu celeiro.
– Vamos levá-la para a selaria – falei para Cas. Cada um de nós a segurou
por um braço, conduzindo a princesa para fora do corredor, e a sentamos em um baú. Ela choramingou um pouco enquanto eu examinava a mordida. Era só um arranhão superficial, e provavelmente um hematoma surgiria. Eu já tinha visto machucados bem piores. Em mim mesma, na verdade. Aquele cicatrizaria em menos de uma semana.
– Mare cuidará de você e vai ficar tudo bem – Cas disse, entregando a ela um lenço para que secasse as lágrimas.
Suspirei e peguei um produto para limpar a ferida e um cataplasma no kit de primeiros socorros. O sangue em sua mão foi removido e revelou uma pele alva e macia marcada apenas pela mordida do cavalo e por uma mancha de tinta escura no dedo médio. Uma estudiosa, pensei. Não me admirava que ela parecesse tão deslocada nos estábulos quanto rendas no equipamento de montaria. Depois de aplicar o cataplasma com cuidado, cobri sua ferida com uma faixa de algodão limpa.
– Prontinho – falei, ansiosa para que ela e Cas fossem embora.
Ela olhava para o chão, sua cabeça coroada por cabelos castanhos tão escuros que absorviam a luz.
– Sinto muito, Sua Alteza – a princesa disse, ainda de olhos baixos. – Acho que eu não deveria ter vindo. Mas é que li tanto sobre os cavalos de guerra e sua importância para a criação do reino, e o próprio estábulo é um dos poucos exemplos que restam da arquitetura de pedras da era inicial…
Minha mente devaneou quase de imediato assim que ela abriu a boca. A garota estava vomitando um livro de história que eu não tinha o menor interesse em ler.
– Tudo bem – interrompi. – Não precisa se desculpar. Mas pelo amor dos Seis, não me chame de “Alteza”. Pode me chamar de Mare.
– Princesa Dennaleia de Havemont, a serviço da Coroa e dos Seis. – Ela usou a mão que não estava machucada para fazer uma mesura surpreendentemente graciosa sem se levantar.
Revirei os olhos. Protocolos me davam dor de cabeça, e não era como se eu já não soubesse seu nome.
– A mordida não foi culpa dela – Cas disse.
– Então como foi exatamente que ela acabou com a mão na boca de Shadow? – Olhei feio para ele.
– Eu estava mostrando a propriedade para a Princesa Dennaleia e ela pediu que a trouxesse aos estábulos. Não achei que Shadow causaria problemas.
Suspirei. Shadow era bem-comportada quando selada, mas todo mundo sabia que tinha tendência a mordidas, um hábito estimulado pelos cavalariços, que deixavam que ela pegasse petiscos direto de suas mãos. Cas já havia passado tanto tempo perto dos cavalos que deveria saber disso.
– Supus que Shadow seria a montaria dela na Cavalgada e na cerimônia
de casamento – ele prosseguiu. – Eu estava tentando apresentá-las. Mas Dennaleia não tem experiência com cavalos, e…
– Como diabos isso é possível? – interrompi. A simples ideia de que um
nobre não soubesse cavalgar era tão absurda quanto um cavalariço que não soubesse empurrar um carrinho de mão.
Cas esfregou a têmpora.
– Visitei Havemont uns dez anos atrás. As estradas que levam até
Alcantilada mal comportam bodes, quanto mais cavalos. Eles a mandaram para Mynaria para que fosse ensinada. Até a carruagem que a trouxe aqui teve que encontrar com seu séquito em uma cidade no sopé da montanha. Provavelmente faria mais sentido esperar, mas ela deverá ser treinada a tempo para o casamento.
A garota finalmente ergueu os olhos, que eram de um verde-claro
inesperado.
– Preciso aprender o básico o quanto antes – ela disse com um ar
surpreendentemente decidido, considerando que parecia ser amaldiçoada no que se referia a cavalos.
– É uma ideia excelente. – Cas sorriu e então me lançou um olhar
significativo.
Balancei a cabeça e projetei meu queixo para a frente. A última coisa que
eu queria era ensinar uma pessoa totalmente inexperiente que estaria o tempo todo sob a vigilância do meu irmão e do meu pai.
– Deixe-a com Theeds. Ele pode colocá-la com os vassalos aprendizes –
falei.
– Essa não é uma opção. Ela só tem alguns meses antes do casamento, e
você sabe muito bem que colocá-la em uma turma mista de nível acima do dela não a ensinará nada. Além disso, não há instrutor melhor que você.
Ignorei o elogio de Cas. O tom veemente que ele usava com os membros
mais relutantes do Conselho não funcionaria comigo.
– Sem chance.
– Cavalgar com os vassalos provavelmente não será um problema –
Dennaleia disse. Ela parecia tão entusiasmada para aprender quanto eu me sentia em ter que lhe ensinar. – Sem dúvida, você sabe o que é melhor…
Ignorei sua tentativa de diplomacia e falei diretamente com Cas.
– Você vai dar um jeito.
Deixei a selaria, mas Cas me segurou pela manga assim que passei pela porta.
– Mare, sinto muito, mas você tem que fazer isso – ele disse em voz baixa.
Puxei meu braço para soltá-lo.
– Imagine como seu pai ficaria satisfeito por você estar fazendo algo para ajudar a princesa.
– Não tenho tempo para consertar cada flor delicada que perambula pelo celeiro tendo um idiota como guia – falei.
Cas deixou que meu insulto escorresse por ele feito chuva sobre couro encerado e olhou sério para mim.
–Você precisa ocupar suas tardes de outra maneira até que a aliança seja concretizada.
Aquilo me chocou. Ele estava quebrando nosso acordo. Nas tardes em que não estava ocupada com os cavalos, eu geralmente escapulia do castelo. Cas fazia vista grossa às minhas escapadas e não contava nada ao meu pai, em troca de informações úteis que eu lhe trazia às vezes.
– Virão pessoas de todos os Reinos do Norte para assistir ao casamento do seu irmão. Nem todas elas estarão felizes com isso – Cas disse. – A cidade não será mais tão segura como antes.
Ele devia saber que nem sempre eu ia a partes da cidade ou a locais que ele aprovava. Que ele e seus espiões se danassem!
– Ensinar Dennaleia a montar é importante – ele continuou. – Ela precisa ser vista como uma de nós o quanto antes. O povo dela pode acreditar em nossos deuses, mas isso não faz sumir todos os anos durante os quais eles fingiram não saber que os cidadãos de Zumorda usavam Havemont para ter acesso ao nosso reino.
– Isso não é problema meu – falei.
– Agora é. Não me obrigue a contar ao seu pai o que você tem aprontado.
– Tudo bem – falei furiosa. Ele não me dava escolha. – Apenas a mantenha longe daqui até que eu tenha ensinado a ela qual lado do cavalo pode lhe morder. – Fervendo de raiva, voltei à baia de Flicker.
– Mare… – Cas me chamou, mas não havia mais nada a dizer. Eu deveria me sentir mais culpada por ter sido tão rude. Ele concordava com meu ponto de vista mais que meu pai ou meu irmão, e ainda defendia meus interesses uma vez ou outra. Mesmo assim, ele jamais entenderia como era, para mim, perder minha ínfima liberdade. Agora que meu irmão tinha uma princesa para usar no pulso como se fosse mais um bracelete de distinção, eu deveria sofrer menos pressão para ser a senhora do castelo. Eu contava com isso.
Fui limpar o último casco de Flicker. Depois de remover mais um torrão
compactado de sua pata, escovei o casco e o botei no chão com delicadeza. O cavalo esticou o pescoço para olhar para mim enquanto mastigava o feno.
– Desculpe, garoto. Agora acabei. – Acariciei seu pescoço, sua pelagem
de verão tão brilhante quanto cobre mesmo sob a luz tênue do celeiro. Geralmente eu teria me demorado mais ali, mas o sol já estava sobre as montanhas, enchendo o céu de tons de rosa. Naquela noite eu seria obrigada a usar um traje formal que não vestia havia anos para o banquete de boas-vindas da Princesa Dennaleia, e minhas aias teriam muito trabalho pela frente para dar um jeito nos meus cabelos emaranhados.
Saí dos estábulos e peguei o caminho menos usado para ir do celeiro até
o castelo, sentindo como se os muros dos jardins do palácio se fechassem sobre mim. A ideia de ficar trancada durante o resto do verão graças às aulas idiotas que eu deveria ministrar a Dennaleia fazia com que eu desejasse fugir – me misturando à multidão, arrancando as informações mais valiosas dos informantes ou simplesmente pechinchando com os vendedores no mercado da Praça dos Catafractários. Para os músicos de rua e de bares, eu era um patrono como qualquer outro, uma mão que dava uma moeda para comprar uma maçã ou um pedaço de pão. O anonimato me permitia fazer coisas que meu título jamais autorizaria – me dava a chance de fingir, nem que fosse por um instante, que um dia eu poderia ser uma simples treinadora de cavalos em alguma cidadezinha, que poderia fazer a única coisa que importava para mim.
Pelo menos no banquete eu teria um lugar para despejar meus problemas
– no fundo de um garrafão de vinho.
Horas depois, eu olhava feio para os cavalos prateados que me encaravam nas pontas dos meus talheres usados enquanto conversas pairavam sobre minha cabeça. Na outra extremidade da mesa estavam os restos do banquete de verão: montes de frutas silvestres frescas esparramadas em poças de creme derretido, ossos do veado assado com uma camada de mel, espigas de milho sem grãos e migalhas de pão de aveia esparramadas por todo lado. Meu estômago revirava só de pensar em mais comida, principalmente na deliciosa torta cremosa de chocolate com cobertura de merengue em formato de picos que o cozinheiro havia criado em homenagem às montanhas da terra natal da Princesa Dennaleia. Eu girava meus braceletes, contando os minutos para estar em outro lugar – qualquer outro lugar.
Meu pai ergueu sua taça e bateu com o garfo nela seis vezes.
– Eu gostaria de agradecer aos Seis Deuses pela chegada em segurança da nossa convidada, Princesa Dennaleia de Havemont, e pelo lauto banquete que tivemos em sua homenagem. Nós lhe damos as boas-vindas ao nosso reino e esperamos poder cavalgar com ela ao nosso lado. Que os Seis abençoem a Coroa e aqueles que a servem.
Enquanto o salão se enchia de bênçãos, levantei minha taça e tomei um gole de vinho, examinando a princesa. Com sua taça no ar e a cabeça erguida, ela não demonstrava nenhum sinal de seu trauma anterior. A luz tremeluzente de uma arandela na parede dava vida à sua pele pálida. Cachos soltos e compridos desciam por suas costas, quase pretos, contra o vestido de gala bordô que deixava suas omoplatas à mostra. Eu me diverti por um instante com a ideia de fazê-la limpar as baias, sentindo prazer em pensar o que o esterco faria com a bainha de um vestido como aquele.
Sua ignorância com relação aos cavalos seria engraçada, se ela não fosse agora problema meu. Bebi o resto do vinho e enchi a taça novamente.
– Como está o vinho esta noite? – disse o homem sentado ao meu lado. Seu gibão branco tinha um corte incomum e ele usava um anel fino de ouro no quinto dedo da mão esquerda. Devia ser o embaixador de Sonnenborne, o mais próximo de um governante que aquele reino já tivera desde que ele havia conseguido unir várias de suas tribos nômades sob seu brasão. Embora ele tivesse chegado um ou dois meses atrás, eu ainda não havia falado com aquele homem.
– Está bom – respondi, dando mais um gole demorado. O que ele não sabia é que eu tinha aprendido a beber nas tavernas simples da cidade. Mesmo com a ajuda do álcool, o risco que eu corria de me deixar levar por seu charme era pequeno.
– A princesa nova é adorável, não?
– Sem dúvida. – Sorri com malícia. – Ela é mais princesa do que eu jamais serei.
– Sabe que isso não é verdade, Princesa Amaranthine – ele falou com delicadeza, sem saber como aquela escolha de palavras me irritava.
– Odeio esse nome – resmunguei.
– Como?
– Eu disse que aceito mais um gole. – Ergui minha taça, que estava pela
metade.
– Barão Endalan Kriantz de Sonnenborne, ao seu dispor – ele disse, e
botou um pouco mais de vinho na minha taça. – Ouvi dizer que você é a pessoa certa para falar sobre cavalos.
– É mesmo? – Eu me sentei mais ereta. Pelo menos alguém queria falar
sobre algo interessante, para variar.
– Um dos homens a quem fui apresentado lá nos estábulos me falou de
você. Ele disse que poucos sabem tanto sobre linhagens de cavalos de guerra. – Ele virava sua taça de vinho preguiçosamente e observava o líquido girar dentro dela. – Pode me dizer o que acha da linhagem Flann? Estou tentando decidir se eles seriam um bom cruzamento para meus cavalos do deserto. – Ele sorriu, e os cantos de seu sorriso desapareceram em sua barba negra bem aparada.
– Cavalos Flann são bem resistentes, o que seria um bom complemento
para um cavalo do deserto, mas eles ficam altos. Como os seus cavalos são muito mais baixos que os nossos, não daria para garantir muita consistência com relação à estatura ou à constituição física. Eu escolheria uma linhagem com menor resistência, porém mais confiável quanto à altura. Azura, talvez?
– Estou impressionado – ele comentou, e bebeu um gole de vinho. Um calor percorreu meu corpo diante daquele elogio. – Os cavalos serão usados exatamente para quê? – Como meu povo já não é tão nômade, precisamos dar prioridade à
defesa – ele disse. – Nossas raças do deserto são velozes e muito resistentes, mas não tão robustas quanto seus cavalos de guerra. Bons para quando temos que escapar de um inimigo, mas ruins quando precisamos enfrentar alguém em campo.
– Se você estiver falando de combates, sem dúvida é melhor manter seus
cavalos pequenos – falei. – Dá para fazê-los ganhar musculatura sem sacrificar a velocidade em curtas distâncias.
– É exatamente isso que espero, Sua Alteza – ele disse. – Não suporto essa baboseira de “Sua Alteza”. Deixe para usar com
aqueles que se importam com isso. Indiquei com a cabeça a ponta da mesa, onde Dennaleia sorria de forma insípida para o idiota do meu irmão.
– Então devo lhe chamar de…?
– Mare.1 – Ergui a cabeça, desafiando meu interlocutor a zombar de mim.
– Como preferir, Mare. – Ele sorriu sem nenhum traço de zombaria em sua voz e em sua expressão.
– Obrigada – falei, impressionada com ele apesar da minha atitude. Ou o povo de Sonnenborne tinha modos excelentes para um monte de tribos quase sem lei ou ele ainda não sabia da minha reputação.
– Gostaria de dançar? – ele convidou.
– Por que não? – Surpreendi a mim mesma aceitando o convite. Em geral, nem todo o vinho do reino era suficiente para me arrastar para a pista de dança. Eu tinha toda a graça de um antílope manco, graças à minha habilidade de me esquivar das aulas.
Lorde Kriantz se levantou tranquilamente de sua cadeira e me ofereceu seu braço. Eu me levantei cambaleante com meus sapatos de salto alto e me agarrei ao encosto da cadeira até me equilibrar. Xinguei baixinho e jurei que exigiria sapatos sem salto da próxima vez. Eu ficava pasma com o fato de mulheres conseguirem andar o tempo todo com aqueles cascos pontudos do demônio, e mais ainda com o fato de conseguirem dançar com eles. Era absurdo.
Saias em tons de joias giravam em padrões hipnotizantes pelo piso de madeira, acompanhadas por uma pequena orquestra de câmara no canto do salão. Nós nos unimos a elas e rodopiamos em meio à multidão, eu toda desajeitada seguindo os passos do barão. Quase imediatamente trombei com dois homens que dançavam. Eles olharam feio para nós, mas não me importei. Apesar da minha falta de habilidade, eu estava adorando a sensação de leveza que sentia quando Lorde Kriantz me fazia girar. Além disso, se eu tivesse calculado certo, estaríamos perto da porta quando a música terminasse, e então eu poderia escapar dali.
Completamos os últimos passos da dança sorridentes e ofegantes, bem ao lado da saída.
– Obrigada – falei num tom que deixava claro que não haveria uma segunda volta pelo salão.
– Espero que nos encontremos novamente, talvez para uma cavalgada – Lorde Kriantz disse. Ele se curvou educadamente e sumiu na multidão.
Eu havia quase alcançado a porta quando a orquestra diminuiu o ritmo e começou a tocar uma versão de uma das minhas músicas favoritas. Os convidados ficaram em silêncio quando a Princesa Dennaleia surgiu para sua primeira dança da noite com Cas ao seu lado. Ela inclinou a cabeça na minha direção e olhou para cima através de seus cílios, seu olhar capturando o meu enquanto fazia um floreio com as mãos. A intensidade de seus olhos foi como um choque percorrendo meu corpo. Se a mão dela ainda doía por causa da mordida de cavalo, ela não deixava transparecer nem um pouco pela forma como se movia. Senti minha pulsação nos ouvidos, até que ela foi rodopiando para longe, com as chamas das arandelas parecendo tremeluzir e saltar enquanto passava. Se ela não significasse um problema para mim, eu a teria achado atraente.