Fogo & Estrelas
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Assim que a música chegou ao fim, a princesa fez uma mesura para Cas
em meio a aplausos ensurdecedores. Foi um show e tanto, sem dúvida – ele era um dos melhores dançarinos da corte. Então Cas ofereceu o braço à sua esposa, Ryka, capitã da guarda. Eu não fazia ideia do que ele vira em seu comportamento sério e em sua farda austera, mas ele era o único que conseguia fazê-la rir. Fui tomada por uma ternura súbita por meu tio, apesar da decepção que eu tivera com ele mais cedo.
Os músicos escolheram uma canção alegre e interiorana que tirou da
minha cabeça a imagem da princesa dançando. Se uma música bonita conseguia me fazer achá-la atraente, sem dúvida era hora de ir embora. Deslizei discretamente pela porta, atirei meus sapatos repulsivos atrás de um arbusto e fui para os meus aposentos. Para mim, já bastava da vida de princesa aquele dia.
“Mare” em inglês quer dizer égua. (N. T.)
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TRÊS
Cheguei ao café da manhã em meu segundo dia em Mynaria com uma
missão: me redimir depois dos desastres do primeiro dia. Cortinas brancas e finas do lado leste de um balcão elevado bloqueavam o sol da manhã, oscilando levemente como nuvens passageiras. Depois dos arcos, a cidade de Lyrra se estendia abaixo de nós em uma explosão de telhados coloridos que desciam pela encosta da montanha e continuavam pelas planícies. O Príncipe Thandilimon se aproximou para me cumprimentar assim que cheguei.
– Bom dia, milady – ele disse. – Acredito que tenha dormido bem, não? Eu não tinha dormido bem porque ficara acordada me lembrando de tudo
que havia dado errado no dia anterior. O calor incessante tampouco ajudara. Felizmente, ele não esperou pela minha resposta para continuar falando.
– Alguns dos conselheiros mais confiáveis do meu pai estão aqui hoje –
ele disse, indicando um grupo de dignitários que conversavam sobre tiro com arco.
O Rei Aturnicus estava perto da cabeceira da mesa, tendo uma discussão
mais séria com uma mulher de pele escura que lançou para mim um olhar que faria vidro derreter. Eu a reconheci imediatamente: era Hilara, a conselheira para assuntos exteriores. Minha mãe havia me falado dela. O voto de Hilara a favor de uma aliança com Zumorda fora vencido por aqueles que preferiam uma união com Havemont, e aparentemente sua ira não havia diminuído. Um vestido azul-escuro quase tão leve quanto as cortinas cobria seu corpo esbelto, e, embora ela parecesse jovem, considerando sua longa história no Conselho Real, devia ter no mínimo a mesma idade que minha mãe.
Retribuí seu olhar com um sorriso gentil, ainda que meu coração
estivesse acelerado de medo e a magia pinicasse as pontas dos meus dedos. Desde que eu saíra de Havemont, sentia meu dom mais aflorado, surgindo diante da menor provocação emocional.
– Vamos lá falar com meu pai – disse o príncipe.
Felizmente, o rei se afastou de Hilara para nos receber. Ele tinha o mesmo cabelo claro de Thandilimon e Casmiel, mas seus olhos eram mais cinzentos que azuis, como os de Amaranthine, o que me fez lembrar que eu ainda não a tinha visto. Onde ela estaria?
– É um prazer tê-la aqui, Princesa – o rei falou.
– Obrigada, Sua Majestade. – Fiz uma reverência.
– Não precisa ser tão formal em família – ele disse divertido. – Conto com você para manter este meu filho na linha. Já faz muito tempo que não temos um toque feminino neste lugar.
Eu o fitei, tentando decidir como reagir. Eu não sabia ao certo o que ele queria dizer com aquilo, já que havia muitas mulheres no Conselho Real. Olhei para Thandilimon em busca de orientação, mas ele apenas deu de ombros encabulado.
– Vamos nos sentar – o rei disse, e nos conduziu para a mesa.
Antes que pudéssemos nos sentar, as cortinas se agitaram quando Amaranthine entrou depressa no terraço, com o rosto vermelho.
– Atrasada, como sempre – o príncipe resmungou enquanto me levava até o meu assento na ponta da mesa, entre Hilara e o rei.
Mais ninguém prestou atenção em Amaranthine, mas eu não conseguia parar de olhar discretamente à minha volta, chocada por não a terem obrigado a pedir desculpa. Seu vestido verde fazia seus cabelos brilharem feito fogo, e ela usava o traje assim como usara sua farda no dia anterior.
Finalmente desviei o olhar quando Thandilimon se sentou à minha frente. Ele sorria calorosamente, o que eu esperava que fosse um sinal de que havia superado os acontecimentos do dia de minha chegada.
Os criados andavam depressa, entregando mais um talher – uma colherzinha do tamanho do meu dedo mínimo – a ser usado no primeiro prato. Fiquei maravilhada com aquilo, imaginando se comeríamos pulgas escaldadas ou alguma outra iguaria absurda. Mas em vez disso serviram uma tigela rasa cheia de raspas de gelo, sobre as quais havia o que parecia ser um naco acinzentado e molenga de fígado velho dentro de uma concha de bordas serrilhadas. A aparência era de algo vomitado pelos gatos do castelo. Tentei não entrar em pânico.
– Sua Alteza, Casmiel me falou que está tendo aulas de equitação com Mare, é verdade? – Hilara disse.
Ela tinha que me perguntar sobre a única coisa que me aterrorizava mais
do que aquela iguaria medonha no meu prato.
– Sim, Conselheira – respondi, forçando um sorriso benevolente. – Quero
muito aprender mais sobre os cavalos de guerra.
A expressão sombria no rosto de Amaranthine quase me convenceu de
que era ela, e não eu, a única pessoa à mesa que gostaria de tacar fogo em alguma coisa.
Todos os demais comensais estavam ocupados com a comida em seus
pratos, alguns deles acrescentando o que, pelo cheiro, pareciam ser vinagre e cebolinhas brancas. Eles engoliram aquela coisa direto da concha, com lodo e tudo.
– Tem gosto de um dia perfeito no mar – Hilara comentou com um
sorriso maligno. Um desafio.
Levei a concha aos lábios e deixei a coisa deslizar pela minha garganta
abaixo, assim como os outros haviam feito. A salmoura encheu minha boca, gelada e salgada… e surpreendentemente deliciosa. Sorri e coloquei a concha vazia de volta em meu prato.
– Uma delícia – falei. – De onde vêm?
– São ostras de Royal Cove, da província de Trindor –Thandilimon
respondeu. – Geralmente só as comemos no inverno, mas uma fidalga de Trindor está visitando a corte nesta estação, e a família dela as enviou como presente para a Coroa. Estas são as únicas que eles colhem no verão, ainda mais fundo no oceano, onde a água é mais fria, e eles têm esse equipamento de mergulho…
– Ora, ora, Thandi, duvido que a Princesa Dennaleia seja tão interessada
em exploração marítima ou na vida marinha quanto você – o rei disse.
– Desculpe – o príncipe falou embaraçado. – Eu sempre quis ver o mar. – Entendo – falei. Assim como eu, ele certamente levara um bom tempo
em seus estudos para descobrir o quão vasto o mundo era de fato; e para perceber quão pouco tempo teria para explorá-lo, graças aos seus deveres de rei. – Também nunca vi o mar, mas pelo menos cresci em um reino e agora estou tendo a oportunidade de morar em outro. Mal posso esperar para conhecer melhor Mynaria.
– Oh, mas temos que fazer algo a respeito dos Dissidentes antes de
permitir que você ande pela cidade. – Hilara recostou-se na cadeira com um ar arrogante.
– Dissidentes? – perguntei. Eu nunca tinha escutado aquela palavra, nem ouvido falar de qualquer problema que pudesse afetar minha apresentação ao povo de Mynaria.
– Nada com que se preocupar demais – Casmiel disse. – Os Dissidentes são um grupo elusivo de hereges insatisfeitos com a aliança, já que isso impedirá que os usuários de magia tenham acesso ao Grande Ádito em Havemont.
Franzi a testa. Aquilo não fazia parte dos termos da aliança. A maioria dos usuários de magia era do reino oriental de Zumorda. Eles não tinham seus próprios templos, pois não acreditavam nos Seis Deuses – apenas nos poderes da magia –, mas tinham o Grande Ádito como um lugar de peregrinação em seus rituais de meados de verão. Em Havemont, os cidadãos de Zumorda e outros usuários de magia sempre puderam ir e vir em paz.
– Marcar edifícios com seu símbolo e queimá-los descaradamente são motivos de preocupação suficientes para mim – Hilara disse.
– Já era algo de se esperar de um bando de traidores que adoram magia – o rei grunhiu, limpando pedacinhos de caviar de seu bigode. – Nós os eliminaremos dos dois reinos quando chegar a hora.
O metal do meu garfo ficou tão quente em minha mão que eu larguei o talher na mesa. Estava chocada. Ninguém havia me dito que meu casamento significaria que os usuários de magia não seriam bem-vindos não apenas em Mynaria, mas também em minha própria terra natal. Se um banimento oficial fosse aprovado, certamente haveria conflitos.
– É claro que proteger nossos cidadãos é nossa prioridade – Casmiel disse. – Mas devemos agir com cautela e de acordo com as leis para que o povo continue satisfeito com o governo. Não gostaríamos de arriscar o carinho que o povo tem por Sua Majestade.
– É claro que não – o rei disse, tranquilizado pelo argumento de Casmiel.
– Mas se os Dissidentes são os responsáveis pela violência na cidade, deveríamos cercá-los e puni-los agora, antes que se tornem um problema maior – falou Thandilimon. – Não podemos deixá-los ameaçar a segurança do reino.
– Os fundamentalistas antimagia são os responsáveis pela maior parte da violência explícita – disse a Capitã Ryka. Seu tom sugeria que ela era o tipo de pessoa com pouca paciência para qualquer coisa que não fossem fatos.
– Tudo isso teria sido evitado se tivéssemos formado uma aliança com
Zumorda – Hilara disse, claramente adorando a discussão que ela mesma havia provocado.
– Não podemos nos unir a um reino governado por hereges. – O rei
acenou com a faca para enfatizar suas palavras.
– Obviamente, a melhor resposta para algo que não se compreende é
atacar o que é incompreensível – Amaranthine disse com um sarcasmo tão afiado que era capaz de cortar.
Posicionei minhas mãos firmemente em volta do meu copo gelado,
desesperada para conter minha magia e não demonstrar minha raiva nem meu medo. O rei e o Conselho não só odiavam os usuários de magia, mas também planejavam persegui-los com base na consolidação da aliança. Eu tinha que tentar acalmar os ânimos até que pudesse obter mais informações.
– Talvez haja uma forma de aplacar os Dissidentes e impedir o aumento
da violência? – falei. – São poucos os que fazem a peregrinação ao Grande Ádito em suas existências. Talvez seja questão de encontrar um lugar onde eles possam fazer seus rituais em seu próprio território.
Casmiel assentiu pensativo.
– Mas eles são apóstatas – Thandilimon disse. – A Coroa não pode correr
o risco de dar a entender que apoiamos um grupo de hereges usuários de magia.
– Claro que não – concordei. – É crucial encontrar uma solução que
satisfaça os dois lados e que previna uma reação violenta dos fundamentalistas. Talvez seja útil saber melhor sobre o que cada grupo deseja, não?
– Verdade – Thandilimon disse. – Não faria mal obter mais informações. Hilara fechou a cara, sem dúvida irritada por não ter conseguido
encontrar uma falha em minha sugestão.
– A Princesa Dennaleia tocou num ponto importante – Casmiel falou. –
No entanto, rastrear os Dissidentes não tem sido fácil. Ninguém está disposto a revelar nada relacionado a magia.
Amaranthine olhou animada para Casmiel e disse: – Quem sabe se eu tivesse as tardes livres, poderia ajudar… –Você tem lições a ensinar – o rei a cortou. – Esta é a última vez que
quero ouvir você tentando se esquivar dessa obrigação.
Eu me encolhi quando ela voltou a afundar em sua cadeira. Nós mal nos
conhecíamos e ela já me odiava. Eu tinha que mudar isso. Se eu não conseguia conquistar outra princesa, seria absurdo achar que um dia eu usaria a coroa de rainha. Depois de tantos anos de aulas de etiqueta, eu deveria ser capaz de convencer um dia de verão a fazer nevar.
– Eadric, o que sugere com relação a este assunto? – o príncipe perguntou. – Certamente nosso conselheiro de religião deveria se pronunciar, já que isto tem estreita relação com a devida adoração dos Seis.
Todos se voltaram para a extremidade mais distante da mesa, onde o Conselheiro Eadric comia lentamente um fio de macarrão de extensão interminável tentando adiar sua fala. Ele tinha cabelos quase brancos e a aparência distinta de um palaciano experiente, mas seu olhar parecia vazio.
– Mostrar aos Dissidentes um caminho para a luz é o único jeito – Eadric disse por fim. Ele desenhou preguiçosamente o símbolo do deus do vento sobre a mesa com seu garfo, um fio de macarrão ainda pendurado no talher.
Todos olharam fixamente para o conselheiro de religião, com exceção do rei, que já mastigava uma coxa de frango defumado, comendo a carne direto do osso. As notícias de revolta na cidade e de mudanças políticas na aliança me fizeram pensar em que outras informações adulteradas Havemont vinha recebendo, me deixando desinformada.
A conversa voltou a engrenar depois de um tempo, desviando para assuntos mais genéricos, mas eu não conseguia parar de pensar sobre o que mais eu não sabia. Era cada prato mais exótico e delicioso que o outro, mas mesmo assim mal senti o sabor da comida. Nós deixamos nossos assentos para conversarmos mais à vontade durante o último prato, uma sobremesa que parecia uma joia e tinha sabor de violetas, servida com frutas silvestres e caramelo de leite suavizado com creme batido. Amaranthine aproveitou a oportunidade para sumir, dando a todos algo de que reclamar durante o resto do desjejum, entre um comentário e outro sobre os eventos formais que eles gostariam que eu ajudasse a planejar. Quando o café da manhã acabou, fui para os meus aposentos o mais rápido que pude. Eu queria fazer algo útil, não ser responsável pelo calendário de eventos sociais de cada nobre de Lyrra.
– Sua Alteza. – Casmiel me alcançou no corredor antes que eu pudesse chamar um pajem. – Posso acompanhá-la aos seus aposentos?
– Claro, milorde – falei e segurei em seu braço.
– Peço desculpa pela atitude de Amaranthine com relação às aulas de equitação – Casmiel disse.
– É compreensível – falei. – Ela é tão ocupada, e detesto mantê-la
afastada de suas outras obrigações. Talvez outra pessoa possa me ensinar? – Não custava tentar escapar das lições pela última vez, principalmente se isso pudesse me deixar em termos melhores com Amaranthine.
– Não há instrutor melhor do que ela – Casmiel disse. – Ela é meio rude
por fora, mas tem bom coração. De verdade. Dê uma chance a ela.
– Certamente. Sem dúvida ela é muito habilidosa. – Forcei um sorriso
tímido. Suas habilidades de instrutora não eram o problema. De nós duas, era ela quem não estava interessada em me dar uma chance. Parecia que ela preferia passar seu tempo fazendo qualquer outra coisa.
– Ninguém dentro ou fora destes muros sabe montar como ela. E ela sabe
como conseguir informações úteis às vezes, ainda que suas fontes não sejam… convencionais, digamos.
– É mesmo? – falei, curiosa para saber o que ele queria dizer com isso. Paramos no final do meu corredor, fora do alcance dos ouvidos dos
vassalos que guardavam minha porta.
– Mas eu gostaria de falar sobre você um instante – ele disse. – Você
acabou de chegar, mas vejo em sua pessoa tudo que gostaria de ver nos outros. Você escuta e observa. Presta atenção nas pessoas e nas relações. Sabe ajudar aqueles com opiniões divergentes a chegar a um acordo, como fez durante a discussão sobre os Dissidentes esta manhã. Você também se adiantou para impedir que Mare e Thandi pulassem na garganta um do outro ontem, e isso não é pouco.
Seus elogios floresceram em mim como ipomeias abrindo sob o sol.
Desde a minha chegada, tudo não parecia passar de uma série de acidentes, e me alegrava saber que ele tinha visto mais em mim do que aqueles contratempos.
– Thandilimon é muito parecido com o pai – ele disse. – São pessoas
fortes e carismáticas que precisam de temperança vez ou outra. Para eles, é importante ter conselheiros confiáveis que possam ajudá-los a se manter equilibrados. É isso que sou para o Rei Aturnicus. É isso que espero que você seja para Thandi.
Assenti, me sentindo desnudada pela profundidade de seu olhar. Ele tinha
a intensidade de Amaranthine sem sua rudeza.
– É o meu maior desejo servir ao reino da melhor forma que eu puder –
falei.
– Fico feliz em ouvir isso – ele falou. – Se estiver interessada, gostaria de me encontrar com você todos os dias após suas aulas de equitação para discutirmos assuntos referentes ao Conselho Real e ao governo do reino. É muita coisa para acomodar em sua agenda já lotada, mas sei que você se importa com isso. Espero que me veja como um amigo e mentor durante sua ascensão.
A esperança nasceu em mim. Não me importava que os encontros com ele tomassem o único tempo livre que eu tinha nos meus dias, que logo seriam preenchidos por manhãs repletas de desjejuns sociais com palacianos, tardes dedicadas à equitação com Amaranthine e noites de jantares ou atividades de lazer com a família real. Casmiel poderia me ajudar a preparar o terreno para ser a governante que eu queria ser.
– Nada me deixaria mais feliz – falei.
– Excelente. Podemos começar amanhã – ele disse, pés de galinha surgindo ao redor de seus olhos enquanto ele sorria e se curvava num cumprimento de despedida.
Entrei em meus aposentos atordoada diante da promessa de mentoria de Casmiel, empolgada demais para fechar a porta. O formigamento da magia percorria meus braços e dedos. Auna, minha aia, sentada perto da janela, ergueu os olhos do bordado em que trabalhava e sorriu ao me ver tão feliz.
Imaginei uma brisa purificadora passando pelos meus aposentos e levando embora todos os meus medos e dúvidas. Atrás de mim, a porta que dava para o quarto fechou com um estrondo e eu parei onde estava. A sensação em meus braços havia desaparecido completamente, e minha cabeça girava um pouco.
– Milady… havia um peso mantendo a porta do seu quarto aberta? – Auna perguntou com a voz trêmula.
– Não sei – respondi. O medo tomava o lugar que a magia ocupara segundos antes.
– Uma brisa deve tê-la fechado. – Ela desenhou o símbolo do deus do vento no ar.
– Sim, uma brisa – murmurei em resposta.
Mas assim como estivera por todo o castelo a manhã inteira, o ar continuava completamente parado.
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QUATRO
Depois de quase uma semana de cansativos eventos na corte após a chegada da Princesa Dennaleia, eu não tinha a mínima intenção de passar minha última manhã de liberdade dentro dos muros do castelo. Pouco depois do alvorecer, entrei no alojamento dos vassalos e puxei as cobertas de cima do meu melhor amigo, Nils.
– Hora de ir para a cidade! – falei animada.
Ele resmungou.
– Pelos Seis, por que você faz isso comigo?
Eu lhe dei uns bons tapas, até que ele lançou as pernas para fora da cama para se sentar.
– É cedo demais para uma de suas garotas vir ao alojamento – um de seus companheiros de alojamento reclamou, virando de lado e cobrindo a cabeça com o travesseiro.
Nils ficou em pé e foi pegar uma camisa em seu baú. Nós tínhamos a mesma idade, mas, de algum modo, nos últimos anos, ele havia crescido mais que eu e se transformado em um vassalo de ombros largos, com o tipo de bíceps que deixava óbvia sua vocação, e a maioria das mulheres – e alguns homens – do castelo haviam reparado nisso.
– Encontro você no café da manhã daqui a quinze minutos – falei. – Não se atrase.
Apesar de praguejar às minhas costas, eu sabia que ele não demoraria muito.
Fizemos um desjejum rápido e partimos a cavalo – Nils em seu cavalo cinzento, Holler, e eu em uma égua desinteressante que peguei emprestada sem permissão na área em que ficavam os potros. O som dos cascos de nossos cavalos e o rangido metálico que minha égua fazia ao mastigar seu freio rapidamente desapareceram em meio ao ruído do tráfego enquanto rumávamos para Lyrra. Enormes casas de pedra dos nobres abastados se erguiam de ambos os lados por trás de portões que deixavam ver jardins e alamedas que já haviam sido limpos para o dia que nascia.
– O que diabos é tão importante que fez você me arrancar da cama assim
que os passarinhos acordaram? – Nils perguntou.
– Mostrar a Cas que ele está cometendo um erro ao me fazer desperdiçar
meu verão com aquelas aulas de equitação idiotas – falei. Se eu obtivesse novas informações sobre os Dissidentes, ele teria que reavaliar sua decisão.
– Aulas de equitação?Você não precisa disso. – Ele me olhou confuso. – Não são para mim, cabeça-oca. Recebi ordens para ensinar a Princesa
Dennaleia a montar, começando hoje à tarde. No momento, quando se trata de cavalos, a garota tem tanta utilidade quanto tetas numa sela.
– Não é tão ruim assim. Descobri que há muitas vantagens em ser amigo
das damas nobres da corte – ele disse com um sorriso malicioso.
– Talvez para você – bufei. – Se eu ficar amiga de Dennaleia, estarei
fazendo exatamente o que meu pai e Cas planejam. Eles provavelmente esperam que ela faça de mim uma princesa de verdade, que estaria feliz e casada antes do inverno. Prefiro comer aparas de casco. Além disso, nenhum nobre com metade do juízo deles ia querer ser meu amigo.
– Eu sou seu amigo – ele disse.
– Você é diferente – respondi. Ele não era nobre, então não tinha uma
reputação a arruinar. Nós estávamos sempre nos metendo em confusão quando fazíamos aulas de equitação. A amizade fora inevitável, assim como o que veio depois… ainda que não tenha durado.
– Ou então não tenho nenhum senso de autopreservação – ele provocou.
– E então, para onde estamos indo?
Fiz minha égua parar no fim da rua seguinte. Acima de nossas cabeças, o
desenho de um círculo pintado de branco decorava a lateral de uma loja, e, do outro lado da rua, um edifício havia sido quase totalmente destruído pelo fogo. Senti meu estômago revirar.
– Dissidentes – Nils disse sombrio.
– Vamos começar pelo Cão Surdo – falei. Favorita dos vassalos quando
não estavam de serviço, era uma das tavernas mais limpas da cidade, e um bom lugar para trocar dinheiro por informação. Eu pretendia arrastar Nils para a Barbela, mas o edifício queimado me fez pensar duas vezes sobre ir direto para a taverna mais decadente de Lyrra.
Amarramos nossos cavalos no varão de amarração do lado de fora do
Cão Surdo e, lá dentro, nos sentamos perto da janela. As pessoas na rua riam ou zombavam umas das outras, com pressa ou a passos lentos, sem formalidades nem protocolos. Minha tensão desapareceu. Fora do castelo eu não tinha que lidar com pessoas que se curvavam quando eu passava, ou que davam risadinhas maliciosas que eu fingia não ver.
– Café para vocês, rapazes? – uma voz retumbante de barítono perguntou.
Ergui os olhos e sorri para Graum, o proprietário.
– Quero um duplo – Nils disse.
– Pois não! É bom ver vocês. Fazia tempo que não apareciam por aqui. – Graum deu um tapinha nas minhas costas com sua mão gorda e quase me fez cair sobre a mesa. – Chá-preto sem açúcar?
– Isso mesmo. Obrigado – respondi com um sorriso.
– Sempre tão educado, rapaz. – Ele sorriu. – Sua mãe o criou bem.
Meu sorriso murchou quando ele mencionou minha mãe, mas ele não pareceu notar e se afastou.
Quando Graum voltou, ele mal olhou para a moeda que eu havia deixado sobre a mesa, com a coroa voltada para baixo. No entanto, ela desapareceu em sua mão em algum momento entre ele servir meu chá e perguntar se eu queria mais alguma coisa.
Coloquei dois dedos no canto da mesa, o código para política.
Ele moveu minha caneca de chá para o lado esquerdo do meu prato. Informação nova.
Peguei meu garfo para indicar que eu ficaria.
Ele pôs quatro dedos na beirada da mesa, e eu olhei para Nils. O que eu queria saber não sairia barato.
Hesitei por um instante, sem querer demonstrar a facilidade com que eu pagaria o preço.
– A comida é boa – falei enfim, aceitando os termos dele.
Ele assentiu e se afastou, sorrindo novamente.
Poucos minutos depois, um homem deslizou para o banco do outro lado de nossa mesa. Seu rosto sem traços marcantes tinha uma barba bem aparada cor de azeviche. Suas roupas tinham um corte que era quase simples demais, e estavam definitivamente limpas demais para seu estilo “classe trabalhadora” – os sinais sutis de um espião.
– Duas canecas? – ele perguntou.
– Sim – respondi, passando um punhado de moedas para ele por debaixo da mesa. Senti a palma de sua mão quente e áspera sob meus dedos.
– Muitos acham que a Coroa enfraqueceu graças à falsa segurança
resultante da aliança com Havemont – ele disse com uma voz que mal dava para ouvir com todo o barulho da taverna. – Um grupo de hereges conhecido como Dissidentes é contra a aliança. Os extremistas entre eles querem reivindicar que o Grande Ádito seja utilizado somente por usuários de magia, não mais por adoradores dos Seis. Por outro lado, aqueles que defendem mais fortemente que magia é heresia acreditam que o Conselho e o rei não estão se empenhando, de fato, para acalmar esses focos de revolta e para manter Mynaria pura e em segurança.
Mordi o lábio, ansiosa. Aquilo não era nada que eu já não soubesse. Mas
embora eu concordasse que o Conselho estava cheio de velhos falastrões conservadores que raramente faziam alguma coisa, a aliança vinha sendo trabalhada havia tanto tempo que parecia inevitável, e nossos reinos estavam em paz desde a assinatura do acordo, anos antes. O Grande Ádito não podia ser o único problema.
– O que mais? – perguntei.
– Os Dissidentes sempre contaram em poder usar Havemont como porta
de entrada indireta para Zumorda. Alguns dizem que Zumorda também contava com isso, para o comércio de produtos ilegais. As fronteiras de Havemont são bem menos vigiadas que aquelas entre Mynaria e Zumorda, já que o povo de Havemont é menos rigoroso em sua oposição à magia.
– O que isso significa para a Coroa? – Nils perguntou. – Dizem que os zumordanos podem se unir aos Dissidentes para lutar – o
espião falou.
– O quê? – guinchei. – Se um reino inteiro estava disposto a se apresentar
e lutar pelos interesses de um pequeno grupo de rebeldes, os problemas eram bem maiores do que Cas dissera. Ninguém sabia ao certo o quão poderoso o reino de Zumorda poderia ser, mas, considerando que era o único a oferecer refúgio aos usuários de magia, tê-lo como nosso inimigo seria no mínimo estupidez.
O homem sustentou o olhar, mas um músculo de sua bochecha direita
teve um espasmo.
– Usuários de magia do leste… – O espião foi interrompido por uma
gritaria que vinha da rua.
Nils colocou sua caneca na mesa e esticou a cabeça na direção da janela. – Pelos Seis Infernos!
– O está acontecendo? – perguntei.
Outros fregueses já se levantavam e saíam pela porta da frente.
Eu me virei para o espião bem a tempo de vê-lo se retirar de fininho para não ser pego em uma situação que parecia prestes a sair do controle. Uma moeda fora deixada sobre a mesa – o preço por não ter me dado toda a informação que prometera. Praguejei baixinho.
Nils e eu corremos direto para o tumulto. Socos vinham de todas as direções em meio à multidão, que parecia aumentar sem parar. Nossos cavalos estavam agitados, presos ao varão de amarração, e dava para ver a parte branca de seus olhos.
– Temos que sair daqui – Nils disse enquanto soltava Holler.
Mas então vi o que dera início à briga. No fim de um beco próximo, havia meio círculo branco pintado na lateral de um prédio, e a tinta ainda estava fresca. Meu coração quase saiu pela boca.
– Isso começou com os Dissidentes – falei, enquanto me esquivava de um homem que cambaleava para cima de mim depois de ter sido atingido por um soco.
– Mais um motivo para irmos embora – Nils respondeu.
Sentamos em nossas selas e conduzimos nossos cavalos para longe do tumulto. Assim que nos livramos da multidão, vimos um homem fazendo o mesmo, com outros três em seu encalço. Olhei de relance e depois voltei a olhar para ele. Havia respingos de tinta branca em seus braços. Devia ser o Dissidente que havia começado a confusão. Os quatro homens correram para um beco estreito entre dois edifícios altos, e dei uma guinada à direita para segui-los.
– Maldição! – Nils exclamou atrás de mim. Eu esperava que ele me seguisse.
Os três homens alcançaram a vítima na metade do beco e a jogaram contra a parede de pedra de um edifício. O homem atacado deslizou e caiu sobre um líquido que escorria e fedia a lixo.
– E agora, como se sente, seu verme? – um deles disse enquanto desferia um chute.
– Ei! – gritei.
Os três homens ergueram os olhos, seus rostos com expressões idênticas de ódio.
– Você também é fã de magia? – o homem mais alto disse com desprezo. Ele tinha um dos dentes de frente quebrado, e parecia que seu nariz já havia sido ajustado a socos mais de uma vez.
– Ah, pelo amor dos Seis! – Nils murmurou ao parar ao meu lado. – O que ele fez para você? – perguntei, torcendo para que soasse mais
arrogante do que eu me sentia.
Um dos homens cuspiu no que estava caído.
–Vendeu meu filho mais novo para os zumordanos, foi o que eles
fizeram.
E então os homens começaram a me atacar. Um deles tentou me derrubar
da sela puxando minha perna enquanto o outro procurava alcançar as rédeas da minha égua.
Holler saltou para a frente. Nils pegou um cabo de vassoura quebrado de
uma pilha de lixo e o brandiu como se fosse uma lança de combate. Um dos homens tentou arrancar o cabo de vassoura de suas mãos, mas Nils bateu com a madeira no peito do homem e o derrubou. Então ele incitou Holler a dar coices, não acertando o segundo por pouco. Estiquei a mão e peguei o cabo de vassoura de Nils, torcendo para que a pequena égua nervosa aguentasse firme por mim. Eu a fiz avançar e bati com a madeira na cabeça do homem alto, e depois joguei o cabo de vassoura por cima do ombro para Nils, que me ultrapassava. Quando os homens viram Holler indo na direção deles novamente, fugiram feito cães sem dono.
Desci da sela e me agachei perto do homem caído, ajudando-o a se
sentar. Ele estava mais bem-vestido que os outros, mas não tanto, e parecia ser mensageiro. O cabelo desgrenhado, escuro com alguns fios brancos, cobria seus olhos, e sangue pingava de seu lábio machucado.
– Se responder às minhas perguntas, talvez o deixemos ir embora – falei.
– Para começar, qual é o seu nome?
Ele olhou para nós, desconfiado, se encolhendo ao tatear as próprias
costelas. Nils passou o cabo de vassoura de uma mão para a outra, e o homem ergueu as suas.
– Alen! – ele disse. – Meu nome é Alen.
– É verdade que você vendeu o filho daquele homem para Zumorda? –
Eu precisava saber se ele merecia mesmo a nossa ajuda, ou se era melhor tentarmos prendê-lo.
– Não vendemos crianças. Nós as salvamos – Alen disse, limpando o
sangue que secava em seu queixo.
– Salvam-nas de quê? – falei rispidamente.
– De pais que acham que rituais de purificação livrarão as crianças de
suas Afinidades – Alen respondeu com amargura. – Enviamos crianças que têm dons para Zumorda, onde podem ser treinadas e ensinadas a não machucar ninguém por acidente. Só queremos manter todo mundo em segurança.
Se Cas sabia algo sobre isso, não havia mencionado. Teoricamente, Alen e seu grupo estavam prestando um serviço útil ao reino, ainda que seus métodos fossem questionáveis.
– “Nós” quem? – perguntei.
– O Círculo Sincrético – ele disse.
Aparentemente, os Dissidentes atendiam por mais de um nome. Sentei nos calcanhares e ergui os olhos para Nils. Ele franziu o cenho, sem dúvida pensando no tamanho da encrenca em que havíamos nos metido.
Passos ecoaram nas pedras do calçamento, e três homens e uma mulher apareceram na outra ponta do beco. Alen acenou debilmente para eles.
–Vamos. Agora – Nils disse, e me lançou um olhar que significava “sem discussão”.
Subi relutante em meu cavalo. Eu queria continuar interrogando Alen, mas não poderíamos enfrentar mais quatro pessoas, principalmente se alguma delas tivesse a magia do seu lado.
– Conseguiremos mais informações na taverna Barbela – falei, assim que tive certeza de que ninguém nos ouviria.
– Ah, não. Não mesmo – Nils disse. – Não podemos correr o risco de nos metermos em outra briga. Você já está coberta de sangue, e não tem uma aula para dar esta tarde?
– Prefiro ir até a Barbela – respondi.
– Mare. – Nils implorou com o olhar.
– Tudo bem – resmunguei.
Vários minutos se passaram antes que voltássemos a conversar.
– Sabe que eu faria qualquer coisa por você – ele disse gentil, franzindo a testa. – Mas, como vassalo, não posso sair por aí bancando o justiceiro. Ainda bem que aqueles brutamontes eram covardes. É claro que sou treinado para derrubar três homens… usando uma espada ou uma lança, não um cabo de vassoura quebrado.
– Desculpe – falei, e estiquei minha mão para tocar a dele. – Se alguma coisa acontecesse a você… – Nem consegui completar a frase.
Sua expressão não mudou, mas ele segurou minha mão. Mantivemos os cavalos lado a lado por um tempo, até a tensão da luta diminuir.
– Você não colocaria minha vida em risco de propósito. Sei disso – Nils
disse.
– Não mesmo – falei com firmeza. Eu não devia ter sido tão imprudente.
Embora não tivéssemos mais um relacionamento amoroso, ele era muito mais que um segurança para mim, e sempre seria. Eu esperava que ele soubesse disso.
Quanto a mim, depois de ensinar Dennaleia a montar, eu já planejava
escapar sozinha para ter um segundo encontro com aquele espião.
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CINCO
Minhas mãos tremiam de nervoso enquanto eu ia para minha primeira
aula de equitação. Thandilimon me acompanhou, parecendo indiferente ao quanto eu estava ridícula naquela calça de montaria. O sol daquela tarde quente incidia sobre nós, aumentando meu pavor enquanto atravessávamos os jardins do castelo rumo aos estábulos. Thandilimon andava rápido e me contava sobre a vez em que ele e Amaranthine tinham se encrencado com a Capitã Ryka por terem tentado o tiro com arco a cavalo antes de terem recebido qualquer instrução.
– Nós mal conseguíamos fazer nossos pôneis andarem em linha reta,
quanto mais acertar alguma coisa. As flechas estavam por toda parte, menos nos alvos. Se fôssemos filhos de outra pessoa, Ryka provavelmente teria nos matado. Foi ideia de Mare, é claro. – Ele riu.
– Parece que Amaranthine cria suas próprias regras – falei. A história
dele quase foi uma boa distração, mas eu não conseguia não me sentir estranhamente exposta naquela roupa e ansiosa por ter que lidar com Amaranthine.
– O livro de regras de Mare é um mistério para todos nós. Sua irmã
também tem histórias desse tipo para contar sobre você quando vier nos visitar? – ele provocou.
– Você jamais saberá de nada. Ali guarda meus segredos. – Tentei abrir o
que eu esperava ser um sorriso sedutor.
– Tem alguma coisa no seu olho? – ele perguntou. – Não, é só o sol – respondi envergonhada. A arte do flerte obviamente
não me fora ensinada como se deve nas minhas aulas de etiqueta. Mudei rápido de assunto. – O Conselho fez algum progresso no sentido de obter mais informações sobre os Dissidentes?
– Não muito – Thandilimon disse. – Muitas pistas que os espiões de
Casmiel seguiram acabaram num beco sem saída. Os fundamentalistas têm espalhado um monte de acusações sem provas, na esperança de incriminar os Dissidentes sempre que têm chance. Temos recebido cada vez mais petições à Coroa todos os dias.
– Que pena – falei. Uma sensação de medo me invadiu. Mais paranoia significava que os olhos das pessoas estariam bem atentos a qualquer coisa que cheirasse a magia.
Assim que entramos nos estábulos, fiz uma breve oração aos Seis para que me ajudassem a sobreviver à minha aula sem parecer uma idiota desengonçada. Eu precisava impressionar Amaranthine com minha habilidade se quisesse conquistá-la.
– Bem, vou pegar Zin e dar uma volta – Thandilimon disse. – Boa sorte na sua aula.
Com uma mesura e um sorriso, ele foi embora e me deixou parada no meio do celeiro. Os cavalos estavam imobilizados em vários padrões de contenção, sendo banhados e tendo selas colocadas ou removidas, e mais outras coisas que não conheço as palavras certas para descrever. Palha voava enquanto os cavalariços limpavam as baias e passavam por mim com carrinhos de mão ou vassouras. Eu não fazia ideia se devia procurar Amaranthine em algum lugar dentro do celeiro ou do lado de fora, em uma das diversas arenas de treino.
– Com licença. Está procurando sua instrutora, Sua Alteza? – Um homem alto com a pele envelhecida pelo sol veio falar comigo.
– Sim, obrigada – respondi e endireitei os ombros.
– Jamin Theeds. – Ele se apresentou e se curvou. – Sou o mestre do estábulo e o principal treinador aqui.
– Prazer em conhecê-lo – falei.
–Venha por aqui. – Ele me guiou pelo celeiro e para fora do lugar com passos acelerados. Na área externa, um cavalo troncudo cor de mel estava parado no centro de uma pequena arena redonda. Suas orelhas caíam para os lados como as de uma mula enquanto Amaranthine as coçava. Minha boca estava seca e, por reflexo, tentei agarrar as saias que eu não vestia naquele momento. Theeds entrou comigo no cercado, erguendo nuvens de poeira com as solas de suas botas.
Amaranthine estava voltada para nós com o quadril jogado para o lado, usando camisa simples e calça de montaria como se fossem as vestes de uma rainha. Assim como o irmão, ela também era mais alta que eu. Seu antebraço direito era adornado por braceletes de todas as cores, finos e sobrepostos quase até o cotovelo. Apesar do meu traje de montaria feito sob medida, eu me sentia tão sem graça e pequena quanto um pardal ao lado dela. Algumas mechas de cabelo estavam soltas e contornavam seu rosto, que exibia uma expressão desafiadora.
Eu me encolhi quando ela olhou para mim.
– Obrigada, Theeds. – Ela o dispensou com um gesto de cabeça enquanto
preparava os estribos.
Senti um nó no estômago e um formigamento desceu pelo meu braço.
Enfiei as unhas na palma da mão até a magia se transformar em dor.
Amaranthine terminou de prender a sela e enfim olhou para mim. Apesar
de me lembrar de seus olhos, eles ainda me surpreenderam: eram de um cinza mutável que me fazia pensar em terra e céu ao mesmo tempo.
– Princesa Amaranthine – finalmente consegui falar. – Agradeço o que
está fazendo por mim.
Ela rosnou.
– Pelo amor dos Seis, não me chame disso. É apenas Mare. Sim, como a
fêmea do cavalo. Idiota, eu sei, mas não suporto Amaranthine. Que sequência longa e pretensiosa de sílabas.
Eu não conseguia dizer aquilo. Em Havemont, se qualquer pessoa que
não fosse da família chamasse alguém da realeza por um apelido ou diminutivo, isso seria considerado ofensivo.
– Enfim… estamos perdendo tempo. Vamos pôr você em cima deste
cavalo. Fique de frente para a sela e dobre o joelho esquerdo, erguendo a perna.
Fui para o lado esquerdo do cavalo, envergonhada por estar de calça e me
perguntando se eu deixaria de me sentir estranha naquela roupa depois de algumas aulas.
– A propósito, este é Louie – ela disse, indicando o cavalo. – “Ôa” é sua
palavra favorita. – Ele balançou a cauda como se concordasse.
Antes que eu pudesse perguntar o que deveria fazer em seguida, as mãos
dela estavam unidas sob a minha perna dobrada, lançando-me na sela como se eu não pesasse mais que um saco de farinha. Eu me ajeitei, tentando encontrar o equilíbrio.
– Obrigada por avisar – resmunguei.
Amaranthine não respondeu. O canto da sua boca se curvou, mas eu não
sabia dizer se era um riso de desdém ou se ela estava se divertindo.
Enfiei meus pés nos estribos e me sentei, grata por Louie parecer tão
pouco a fim de se mover.
– Mantenha o estribo sob a ponta dos pés, se conseguir. Assim. – Ela puxou o estribo de debaixo do arco do meu pé.
– Como ao dançar. – Lembrei do banquete de boas-vindas, quando os olhos de Amaranthine se encontraram com os meus enquanto eu dançava com Casmiel. Naquele momento, enquanto eu fazia algo que sabia fazer muito bem, eu me sentira no mesmo nível que ela.
– A dança pode ajudá-la a cavalgar – ela disse. – Equilíbrio e coordenação são importantes nos dois casos. – Ela deu um passo à frente e pôs a mão de leve em meu joelho. Seu toque gerou um formigamento na minha perna que não tinha nada a ver com magia, mas tudo a ver com o nervosismo que eu sentia.
– Aperte o cavalo com os joelhos – ela disse. – Isso, assim mesmo. Percebe como ao fazer isso a parte de baixo das suas pernas se afastam completamente dele?Você não tem como controlá-lo se quiser que ele vire ou siga em frente. Agora pare de apertá-lo com os joelhos. Isso. Relaxe totalmente. Use os músculos de suas coxas e das panturrilhas. É daí que vem a força do seu assento.
Ela botou sua mão na parte de trás da minha coxa e eu deixei uma risadinha escapar. Ninguém jamais havia me tocado ali.
– Desculpe. Não estou tentando fazer cócegas. É aqui – seu toque era firme – que você terá que ganhar muito músculo. Agora fique de pé nos estribos. Toda vez que tiver dificuldade com sua posição, esse é um bom jeito de fazê-la se lembrar onde suas pernas devem ficar. Ao se levantar, você é obrigada a colocar a parte de baixo de suas pernas na posição correta, ou não conseguirá sair da sela.
Eu me sentei pesadamente, minhas coxas tremendo com o esforço de me manter em pé por alguns segundos. Aquilo não ia ser agradável.
Ela fez Louie se mover, amarrado a uma corda comprida, estalando a língua para que ele seguisse.
– Agora sinta como ele anda. Preste atenção em que lado os músculos traseiros dele jogam você e concentre-se nesse movimento. Sente-se com as costas retas, mas relaxe o quadril.
Tentei fazer o que ela pedia. Era estranho ter alguém falando sobre meu quadril. Claro que os professores de dança já haviam falado do assunto antes, mas eles nunca tinham sido tão… diretos.
– Peito empinado, ombros para trás. Mantenha seus faróis iluminando a estrada à sua frente!
Eu teria corado se não estivesse tão tensa. O linguajar dela era mais
apropriado para um dono de taverna inculto do que para um membro da família real. Onde é que ela tinha aprendido a falar daquele jeito?
Louie e eu continuamos andando a passos lentos pela arena, com
Amaranthine disparando instruções mais depressa do que eu conseguia assimilá-las. Enquanto eu penava para manter minha posição, algo mais além das outras arenas chamou minha atenção. As camisas claras de três homens que se destacavam nos campos de verão, os pescoços de seus cavalos escuros de suor. Eles se aproximaram em um trote ligeiro e o cavalo do meio virou a cabeça, o branco de seus olhos austero contra sua pelagem baia.
Em vez de diminuírem o passo ao se aproximarem do celeiro, o cavalo
líder começou a galopar e deslizou para o lado em uma trilha de terra entre os cercados. Quando os cavaleiros chegaram mais perto, reconheci o Príncipe Thandilimon com um largo sorriso montando a égua indomável. Endireitei a postura e tentei me lembrar de tudo que Amaranthine havia me ensinado. Seria bom que ele e os outros nobres me vissem cavalgando.
Sorri e ergui a mão para acenar. Antes que Thandilimon pudesse
responder ao meu cumprimento, a poeira levantada pelos cavalos nos envolveu e Louie deu um grande espirro. Fui lançada para a frente na sela quando ele abaixou a cabeça, e rolei por cima de sua espádua, aterrissando no chão. Meu quadril doía e eu tossia em meio à nuvem de poeira. Louie parou bruscamente, mais plácido que nunca, e olhou para mim antes de se virar e continuar andando com um suspiro.
– Não se mexa – Amaranthine disse encurtando a distância entre nós com
uns poucos passos.
Fiquei tensa quando ela se aproximou, esperando pela inevitável
reprimenda.
Em vez disso, ela se agachou e pôs a mão no meu ombro. Seu toque me
confortou com a dose certa de segurança e gentileza.
– Vá devagar. Veja se está tudo funcionando – ela instruiu. – Desculpe – falei envergonhada. Sentir-me ridícula naquela calça de
montaria aparentemente era o menor dos meus problemas.
– Não foi culpa sua – ela disse, olhando feio na direção do celeiro. –
Aquele idiota do meu irmão ainda vai acabar matando alguém ao deixar seu cavalo vir correndo das trilhas e entrar desse jeito. Eu já disse a ele mil vezes para não fazer isso.
– Mesmo assim eu não deveria ter caído – falei. – Tudo que Louie fez foi espirrar.
– O que importa é que você está bem. – Ela me ajudou a levantar. – Se eu deixar você se machucar, meu pai, meu irmão, o meu reino e o seu vão querer minha cabeça.
– Estou bem – falei, batendo na calça para tirar a terra. Meu quadril doía, mas ela não precisava saber disso. – O príncipe me viu? – perguntei hesitante.
Amaranthine revirou os olhos.
– Duvido. O idiota provavelmente estava ocupado demais tentando permanecer sentado naquela sua égua sem modos.
Lancei um olhar para o celeiro, mas os homens já haviam desaparecido lá dentro. Eu me importava com o que o príncipe achava, mas de certo modo era pior saber que eu havia decepcionado Amaranthine.
– Pernas e braços ainda funcionam?
– Acho que sim. – Mexi todos os membros para testar, ainda um pouco abalada pela queda.
– Então volte para a sela. – Amaranthine indicou impaciente o estribo esquerdo.
Engoli o medo, andei até a lateral de Louie e deixei que ela me lançasse sobre o cavalo novamente.
Uma hora depois, a sensação que eu tinha era que minhas pernas eram feitas de pudim. Cambaleei feito um gatinho atrás de Amaranthine enquanto ela me mostrava como tirar a sela e a cabeçada de Louie e a guardar o equipamento na selaria. Ela cumpriu a tarefa com uma eficiência tão implacável que não permitia conversa-fiada, o que me fazia pensar no meu fracasso e em como melhorar sua opinião a meu respeito.
O alívio tomou conta de mim quando entramos no celeiro e vi Casmiel se aproximando. Ele nos cumprimentou e beijou minha mão. Até Amaranthine sorriu ao vê-lo. A presença dele tornava tudo mais leve.
– Recebemos relatórios novos da fronteira que achei que você gostaria de ver, então vim para acompanhá-la ao castelo – ele disse, e virou-se para Amaranthine. – Você vem conosco?
Ela balançou a cabeça.
–Você sabe como é aqui embaixo. Tem sempre merda para juntar.
– Cuidado para não sujar as botas! – ele disse com uma risada e tocou o ombro dela com carinho.
Enquanto rumávamos para o castelo, fiz uma prece ao deus do vento,
torcendo para que os assuntos do Conselho me ajudassem a esquecer minha total falta de habilidade em uma sela.
O escritório de Casmiel era ainda mais agradável do que eu esperava.
Havia estantes de livros encostadas nas paredes dos dois lados de sua mesa, com folhagens entremeadas com as lombadas multicoloridas dos volumes. Sininhos do deus do vento soavam baixinho em uma das janelas, e os cristais pendurados debaixo dos badalos lançavam feixes de luz por toda a sala.
– Sente-se – ele pediu, indicando um círculo de pesadas cadeiras de
couro. Ele se sentou de frente para mim assim que escolhi meu assento, uma posição estratégica que nos deixava em pé de igualdade para a conversa que viria em seguida. Apesar de sua natureza jovial, eu diria que Casmiel não deveria ser subestimado jamais.
– Obrigada – falei quando ele me entregou um copo alto cheio de um chá
claro servido com gelo picado e com uma folhinha de hortelã na borda. Tinha cheiro de planta e era vibrante e verde como a primavera.
– Como tem se saído até agora? – ele perguntou. – Bem. As aulas de equitação serão difíceis. – Ou, melhor dizendo,
minha instrutora será. – Os cafés da manhã têm sido agradáveis, mas as conversas geralmente são sobre festas e moda. Eu adoraria saber mais a respeito de assuntos importantes para a Coroa também.
– Os outros nobres podem tentar distraí-la com seus chás e frivolidades –
Casmiel disse. – Você terá que conquistar seu lugar aqui. Mostre ao meu irmão, a Thandi e aos Conselheiros que sua voz deve ser ouvida. A Rainha Mirianna era mais que uma figura decorativa e anfitriã. Ela era a consciência do rei. Sua âncora. Que ela descanse com os Seis. – Ele cerrou o punho e o levou ao coração.
– Que seu descanso seja eternamente tranquilo – murmurei, imitando seu
gesto e desenhando o símbolo do deus da sombra.
Nós fizemos um minuto de reflexão silenciosa e deixei meus olhos
correrem pelas estantes de Casmiel. A maioria dos volumes em seu escritório não eram livros, e sim registros do reino. Ele os mantinha categorizados por tipo e ano, e as cores de suas capas permitiam uma consulta rápida. O homem tinha as rédeas do reino nas mãos.
– Espero estar à altura da memória da Rainha Mirianna – confessei por
fim. – E também espero poder fazer meu próprio futuro.
– Nesse caso, vamos dar uma olhada nos relatórios da fronteira para ver o que você acha. Aparentemente, os bandidos estão agitados, principalmente no sudeste. – Ele empurrou a bandeja de chá para o lado e passamos uma hora analisando os relatórios e registros que o Conselho havia examinado na manhã anterior, vendo se conseguíamos arrancar deles alguma informação adicional. Os mensageiros nos interrompiam de tempos em tempos, trazendo a Casmiel as últimas notícias sobre os assuntos do Conselho, deixando-me espantada com a habilidade com que ele atendia às necessidades conflitantes de todos que confiavam nele.
– Você aprende rápido, milady – Casmiel disse quando estávamos para encerrar nossa sessão. – A maioria dos membros do Conselho não conhece tão bem as rotas do leste quanto você.
– Obrigada – falei encantada. Minha cabeça estava lotada de informação. Eu ficaria acordada até mais tarde fazendo anotações, mas, ao contrário da equitação, aquilo era algo que eu sabia que era capaz de fazer.
Ouvimos mais uma batida à porta e um pajem entrou.
– A residência de um nobre foi atacada pelos Dissidentes e ele exige retaliação – anunciou o pajem. – O rei pediu ao Conselho que se reúna daqui a meia hora.
Casmiel dispensou o pajem e suspirou.
– Receio que nosso tempo tenha acabado – ele disse. Lá fora, a tarde ia se transformando em noite. – Se você tiver tempo de examinar aqueles acordos comerciais que estão para expirar, será de grande ajuda para mim.
– Farei isso com prazer – falei, animada por ele ter confiado a mim uma tarefa tão importante.
Ele se despediu beijando minha mão e eu deixei o escritório com a confiança renovada e um maço de papéis debaixo do braço. Manquei pelo corredor, minhas pernas duras e doloridas por eu ter ficado tanto tempo sentada após o castigo que fora a minha aula de equitação. Mas quando eu mal havia dado dez passos, ouvi um barulho. Parei onde estava, e o pajem que passava apressado fez o mesmo. Talvez Casmiel tivesse derrubado alguma coisa das estantes. Talvez ele precisasse de ajuda para botar tudo no lugar.
– Milorde? – chamei ao voltar e bater à porta do escritório.
Silêncio foi a única resposta. Senti a magia pinicar as pontas dos meus dedos, enquanto o pavor fazia minha pulsação soar em meus ouvidos.
Bati mais forte e então abri a porta.
Papéis espalhados dançavam pelo chão enquanto uma brisa entrava pela
janela aberta. Casmiel estava deitado de costas em meio a eles, com um braço jogado para o lado. Um olho seu lançava um olhar vazio na minha direção. Uma flecha branca se projetava para fora do outro, a haste cintilando com uma luz sobrenatural.
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SEIS
Quando consegui escapar de volta para a cidade a pé, a tarde tinha dado
lugar ao crepúsculo. Lampiões tremeluziam nas janelas e na rua. Eu ansiava pela noite, quando as luzes brilhariam como pirilampos por toda a cidade – até que o chamado pesaroso de uma trompa de caça soou ao longe.
O tráfego diminuiu o ritmo até parar. Cabeças se curvaram e mãos foram
levadas ao coração.
Meus dedos trêmulos encontraram o caminho até meu peito, embora
penando para manter o coração lá dentro. Uma amazona solitária chegou galopando pela rua e abrindo caminho na multidão, as ferraduras de seu cavalo levantando poeira e soltando faíscas. Sua capa branca flutuava atrás de si, o capuz levantado para manter seu rosto nas sombras. Ela levou a trompa aos lábios e soprou mais uma nota gélida, o instrumento de metal refletindo a luz trêmula dos lampiões enquanto borlas azuis balançavam debaixo dele.
Senti um enorme vazio. Os Cavaleiros Brancos significavam a morte de
alguém da realeza. Quem diabos poderia ser?
O burburinho começou assim que a última nota da trompa se calou. – Certamente não é o rei.
– A princesa de Havemont, talvez?
– Não! Os Cavaleiros Brancos são só para a família real de Mynaria. Ela
ainda não faz parte da família. Além disso, um forasteiro é um forasteiro, não importa quanto tempo…
– A filha! Pode ter sido a filha – uma voz interrompeu. – Os usuários de magia devem estar por trás disso – alguém disse. Com aquelas palavras, a multidão virou um caos. Eu não tinha tempo para me envolver em uma briga de rua nem para
completar minha missão original. Precisava voltar ao castelo, de preferência antes que alguém notasse minha ausência. Fui abrindo caminho na multidão, lutando para percorrer a rua. Mais perto dos muros do castelo, os vassalos rondavam com espadas em punho. Praguejei e engoli o medo e a ansiedade.