Fogo & Estrelas
Capítulo 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
– Sei que não. Você é forte.
– Nem sempre – falei, mas minhas bochechas arderam ainda mais com o
elogio. Ela estava flertando comigo? Que jogo perigoso seria, principalmente levando em conta as emoções incômodas que aquela ideia envolvia. Eu não podia tê-la. Era inegociável.
– Pretende vir à apresentação de música antes do jantar de hoje? – ela
perguntou.
– Não fui convidada – respondi.
– Considere este um convite formal. – Ela esticou a mão para tocar meu
bracelete de distinção, correndo os dedos pelas tiras e fazendo os pelos do meu braço se eriçarem. Se ela tivesse ideia do que aquilo me fazia sentir, pararia. Mas eu não queria que ela parasse.
– Quantos braceletes de distinção você tem? – ela perguntou. – Trinta e quatro braceletes de distinção por quarenta e três cavalos –
respondi. – O mais grosso é um bracelete equivalente a dez cavalos. Preciso mandar refazer os outros da mesma forma.
– São tantos – Denna murmurou. Seus dedos continuaram correndo pelo
meu pulso, virando e girando os braceletes de distinção até que ela finalmente colocou meu braço sobre sua barriga. Fechei os olhos, lembrando do dia em que nos havíamos conhecido, seus olhos verdes luminosos brilhando para mim enquanto eu colocava minha mão naquele mesmo lugar para fazê-la se lembrar de respirar.
Ficamos ali deitadas em silêncio, os segundos se transformando em
horas, até que chegou o momento inevitável de voltarmos para casa. Relutantes, juntamos as coisas e montamos nos cavalos, que estavam ansiosos e viravam suas orelhas na direção do celeiro e de sua refeição noturna. Voltamos devagar, conversando e rindo sem motivo, e então eu soube o que Denna tinha em mente quando dissera que apenas cavalgar a fizera se sentir tão viva.
Tipo de dança renascentista de andamento lento. (N.T.) Tipo de dança renascentista animada e cheia de saltos. (N.T.)
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VINTE E CINCO
A tarde ensolarada deu lugar a uma noite fria que se infiltrou nas pedras
do castelo e deixou todo mundo ansiando por calor quando nos reunimos na sala de estar para uma noite de música. O calor irradiava da xícara de louça que eu segurava apertada, aquecendo minhas mãos e fazendo o forte aroma de canela subir com a fumaça até o meu nariz. O cheiro formava uma ponte entre a minha vida antiga e a nova, o vinho quente me lembrando dos feriados de inverno com minha família, mas algo naquele perfume também me fazia pensar em Mare. Tremi e sorri para a minha xícara, lembrando o que eu sentira ao me deitar com a cabeça apoiada em seu corpo naquela tarde. Ela era tão forte, e ainda assim tão macia. Sob o cheiro de cavalos, terra e grama úmida havia o cheiro exclusivamente dela, doce e picante como o meu vinho.
Inspirada pelos prazeres daquela tarde, eu finalmente escrevera para
minha família. Embora eu tivesse omitido minha aventura na cidade, contei a eles o mais importante: que eu agora tinha aliados em quem podia confiar. Entre Ellaeni e Mare, eu tinha iniciado amizades que eu sabia que me dariam força e apoio nos anos vindouros em Mynaria. Tal notícia deixaria meus pais confiantes de que, apesar de tudo, as coisas estavam saindo como o esperado para a minha ascensão.
Cavalgar Shadow e escrever cartas tinham me deixado exausta mas
contente, só que a paz da noite não durou muito. Acompanhado por dois vassalos, um mensageiro entrou cambaleante na sala de estar, mal conseguindo parar em pé, suas roupas imundas devido a dias de viagem dura. Ele parou diante da Capitã Ryka e do rei, fazendo uma reverência desengonçada devido à fadiga.
Ryka deu um passo à frente do grupo.
– O que relata, soldado?
– Bandidos zumordanos – ele disse. – Eles atacaram uma cidade do nosso
lado da fronteira, no sudeste. A última cidade na estrada para Kartasha.
A sala se encheu de sussurros enquanto todos digeriam a notícia.
– O Conselho terá que se reunir esta noite – disse o rei.
– Ugh – Thandi disse baixinho ao meu lado.
Apertei seu braço para reconfortá-lo. Aquele já tinha sido um longo dia de reuniões para ele.
– Realizaremos a reunião logo após o jantar – o rei declarou. – Capitã, por favor, interrogue o mensageiro para obter mais detalhes e cuide dos preparativos.
Capitã Ryka se despediu e desapareceu para cuidar das tarefas de que o rei lhe incumbira. Eu não entendia como isso pôde acontecer. Embora o foco fosse cercar os Dissidentes em Lyrra, a segurança nas fronteiras também deveria ter sido reforçada. Aquele vinha sendo um problema mesmo antes da morte de Cas, e a Capitã Ryka era a responsável por supervisionar a defesa do reino. Talvez as suspeitas de Mare com relação a ela não fossem tão infundadas, afinal.
A partir daquele instante, as conversas entre os nobres passaram a ser sobre Zumorda e sobre as medidas defensivas que precisavam ser tomadas. Os copos se esvaziaram mais rápido que o normal, com a terceira rodada sendo servida enquanto os músicos ainda ajustavam seus instrumentos.
Apesar dos problemas maiores, minha principal preocupação era se Mare se lembraria ou não de comparecer. Com certeza ela gostaria de ter notícias sobre a fronteira imediatamente. Eu perambulava atrás de Thandi à margem de várias conversas, sorrindo quando necessário, mas com dificuldade de me concentrar. Lorde Kriantz nunca se afastava de Thandi nem do Rei Aturnicus enquanto circulávamos pela sala. Felizmente, ele estava fazendo o que podia para que a evidência de Mare fosse levada em consideração.
– Seremos os primeiros a convocar nossos cavaleiros para reforçar a fronteira – Lorde Kriantz disse a um grupo de palacianos ansiosos.
– Temos sorte de tê-lo ao nosso lado, Endalan – Thandi disse.
– Como conversamos, talvez seja aconselhável retornar às suas terras em breve – o rei falou. – Precisaremos que o seu povo esteja forte e unido para enfrentar Zumorda, se necessário. Não podemos deixar que o inimigo desgaste nossas defesas antes mesmo que uma guerra comece.
Lorde Kriantz assentiu.
– Arrumarei minhas coisas para partir assim que as medidas defensivas forem decididas e que um novo embaixador seja enviado para ficar em meu lugar. Meu povo precisará de mim mais como líder do que como diplomata nos próximos meses.
Hilara estava à direita do rei, com o semblante inflexível. Ela não disse
nada, mas sua serenidade era mais assustadora que qualquer uma de suas palavras cortantes. Sem dizer nada, ela se virou e se afastou das conversas, que continuaram sem sua presença.
Ansiosa, reorganizei as cadeiras enquanto todos se acomodavam para a
apresentação, guardando um lugar para Mare ao meu lado. Puxei a cadeira tão para perto que os braços de madeira quase se tocavam, e depois a empurrei de volta na direção contrária, mas mantendo uma distância de apenas um dedo da minha.
Mare tinha que aparecer.
Enquanto os músicos tomavam seus lugares e esperavam pelo sinal para
começar a tocar, ela apareceu na porta. Meu coração acelerou ao vê-la, contrariando totalmente tudo que eu vinha dizendo a mim mesma a noite toda: que eu me sentiria mais calma assim que ela chegasse. Embora estivesse atrasada como sempre, desta vez o motivo estava estampado em seu corpo. Cada passo seu lançava uma luz bruxuleante sobre o material iridescente de sua saia, o tecido azul cascateando até seus pés feito uma cachoeira. Pela primeira vez o vestido estava devidamente ajustado, revelando sua cintura estreita e cada curva que partia dali.
Minha boca ficou seca. Os pensamentos relacionados ao mensageiro, a
Ryka e a conspirações desapareceram, restando apenas uma pontada dolorida de desejo e a agitação da minha magia formigando à flor da pele. Até seu cabelo estava perfeitamente penteado, totalmente preso para cima em uma série de ondas e caracóis tão complexa que eu não conseguia decifrar sua arquitetura. Ela sorriu para mim, seus olhos brilhando sob a luz baixa da sala.
Desviei os olhos, ciente tarde demais de que eu a estivera encarando. A
julgar pelo silêncio peculiar gerado por sua chegada, os demais presentes haviam tido reação similar.
– Boa noite, Sua Alteza – sua familiar voz de contralto soou à minha
frente.
– Olá! – guinchei.
– Até parece que é a primeira vez que as pessoas aqui veem uma princesa
– ela disse indiferente.
Ela não parecia uma princesa naquela noite. Ela parecia uma rainha.
– Feche a boca ou vai acabar engolindo uma mosca. – Ela sorriu, seus olhos dançando divertidos enquanto se sentava ao meu lado.
– Eu… eu… não estava esperando…
– Que bom vê-la vestida de forma apropriada, para variar. – A voz de Thandi passou por cima do meu ombro na direção de Mare enquanto ela se reclinava na cadeira.
– Vai se ferrar! – Mare respondeu com uma expressão plácida.
Os músicos começaram a tocar, mas eu não conseguia me concentrar neles. Nem mesmo a melodia cadenciada da flauta em uma canção que eu amava me distraiu dela. Não importava para onde eu olhasse na sala, era como se ela ardesse ao meu lado.
Meu vinho acabou em segundos, mas minha mente embotada pouco adiantou para me distrair. A mão de Mare estava apoiada no braço de sua cadeira, seus dedos tamborilando com a música. Ela tinha mandado refazer seus braceletes, os quatro maiores e os três mais finos chamando a atenção para seu pulso forte e gracioso cheio de sardas discretas. Eu mudei de posição para apoiar meu braço na cadeira até que minha mão ficasse tão próxima da dela que eu quase a pudesse tocar.
Meus olhos encontraram o caminho para o rosto dela. O pó que ela aplicara não conseguia esconder completamente as sardas delicadas espalhadas feito estrelas sobre seus malares. Eu queria traçar constelações nelas, memorizar todo e cada padrão que eu conseguisse encontrar em sua pele e aquecê-la com meu toque. Eu permaneci imóvel e tentei manter uma respiração controlada, esticando um dedo hesitante sobre o vão que separava nossas cadeiras.
A sala explodiu em aplausos, e a mão dela deixou o braço da cadeira para aplaudir também. Thandi me cutucou do outro lado e aplaudi desinteressada. Tentei clarear as ideias, mas eu mal escutara uma nota da música. Nada mais, nem mesmo Thandi, conseguia chamar minha atenção com Mare sentada ao meu lado, linda daquele jeito.
Quando a música recomeçou, ela cruzou as mãos sobre o colo e se endireitou para ouvir. Fiz o mesmo e aceitei mais uma taça de vinho que o servo oferecia, na esperança de que a bebida acalmasse minhas mãos trêmulas. Assim que a última música terminou e que os aplausos morreram, finalmente tive a chance de falar com Mare.
Eu me inclinei na direção dela.
– Mare, preciso falar com…
– Dennaleia, conhece Lorde Balenghren? – Thandi perguntou, indicando
um homem barrigudo do outro lado da sala com Ellaeni segurando seu braço.
A expressão aborrecida de Ellaeni me dizia tudo que eu precisava saber
sobre Lorde Balenghren.
– Na verdade, eu queria falar com Mare por um minuto – eu disse. –Você tem passado tanto tempo com ela ultimamente. – Ele franziu o
cenho. – Com certeza, pode esperar até amanhã.
Lancei um olhar para Mare por cima do ombro enquanto ele me conduzia
para longe. Ela deu de ombros, e, pelo canto do olho, notei que Lorde Kriantz já atravessava a sala, indo em sua direção.
Lorde Kriantz pegou seu braço e sussurrou algo em seu ouvido. Ela riu,
jogando a cabeça para trás e deixando seu pescoço elegante emoldurado pela luz que vinha de trás dela. Eles foram em direção à mesa de comes e bebes, enquanto Thandi me levava para o lado oposto. Mantive a cabeça sempre levemente virada na direção dela, esperando que ela soltasse o braço dele, tentando capturar seu olhar, mas ela o seguiu porta afora sem tirar os olhos dele. Quando ela deixou a sala, a luz dentro de mim se apagou.
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VINTE E SEIS
No corredor, as arandelas ardiam de forma constante, com a luz cálida
contrastando com o ar levemente gelado. Eu até teria gostado do farfalhar suave e desconhecido das saias em volta das minhas pernas, se a decepção não tivesse me engolido quando Thandi arrastou Denna para longe assim que a música terminou.
Suspirei. Ter me vestido de forma adequada para surpreendê-la
certamente causara o impacto que eu pretendia, e eu tinha gostado de como ela me olhara – talvez gostado mais do que deveria. Mesmo assim, eu acabara de braço dado com Lorde Kriantz ao fim da apresentação, em vez de conversando com ela em seus aposentos como eu esperara.
– O que a perturba, milady? – ele perguntou.
– Nada – respondi. Ninguém precisava saber dos meus sentimentos
confusos com relação a Denna.
– Não acredito nisso. Sua expressão mudou assim que saímos da sala. –
Ele me olhava de forma perscrutadora, com preocupação em seus olhos escuros.
– Estou um pouco cansada, milorde – menti.
– Bem, sabendo disso, fico ainda mais feliz por você ter comparecido à
apresentação de hoje. É sempre agradável vê-la. E, já que está aqui, há algo que eu gostaria de discutir com você.
– É mesmo? – Apertei o passo. Talvez ele tivesse novidades sobre a faca. – Sim. Quem sabe você não gostaria de jantar comigo numa das salas
privativas?
– Certamente – concordei.
Deixei que ele me conduzisse até uma das muitas salas próximas ao salão
principal onde os palacianos às vezes confraternizavam em grupos menores. Lorde Kriantz devia saber que eu aceitaria seu convite, pois, quando abriu as cortinas que davam para a sala de jantar e me convidou a sentar, um banquete já nos aguardava sobre a mesa. Embora já fosse quase outono, ele escolhera uma refeição de verão: uvas, queijo de pasta mole, rolinhos recheados com carne apimentada e besuntados com molho de frutas picante e uma pequena garrafa de vinho branco doce infundido com conhaque.
– Há alguma chance de você voltar ao Conselho? – Lorde Kriantz perguntou assim que os pajens saíram.
– Para quê? Eles não me ouviriam nem que eu voltasse – respondi. – Aconteceu alguma coisa interessante esta tarde?
– Isso depende do que você considera interessante – ele disse.
Ele era um político e tanto. Não me admirava que meu pai e Thandi gostassem bastante dele.
– Sei lá. – Dei de ombros. – Algum dos Dissidentes capturados forneceu uma informação útil? – Mordi uma uva, não esperando que ele fosse me contar nada de proveitoso.
– Até agora, a investigação não teve muito sucesso – Lorde Kriantz disse. – Os interrogatórios não têm sido muito organizados, e ninguém sabe como fazer para testar se determinadas pessoas não usuárias de magia ou não. O pior é que temos recebido mais e mais relatos de que Dissidentes estão surgindo em cidades por todo o reino de Mynaria. Eles estão mais espalhados do que imaginávamos.
– É mesmo? – perguntei. Eu não imaginava que a divergência com relação à aliança fosse tão grande.
– Sim. E a discussão hoje cedo foi tensa. Aparentemente, o pessoal de Trindor fechou um acordo comercial com certos zumordanos sem consultar a Coroa. Uma das facções dos Dissidentes estava ajudando a transportar mercadorias pelo canal. Quando os fundamentalistas ficaram sabendo disso, a confusão fez o trânsito no canal ser paralisado, e, pelo barulho, ainda não chegaram a uma solução.
– É um nó bem difícil de desatar. O que o Conselho tem feito com relação aos Dissidentes nas outras cidades?
– Detido todo mundo que é capturado – ele disse. – Embora as autoridades locais não tenham procedimentos consistentes nem os mesmos recursos, dependendo do território. Estão tentando resolver parte desses problemas. Quanto à faca, a investigação parou, mas falei com algumas pessoas esta tarde.
– Típico – eu disse. A imbecilidade do Conselho era impressionante. – Deixe-me adivinhar: eles têm se concentrado em algum projeto local inútil.
– Na segurança, principalmente. Toda vez que um nobre não consegue
encontrar um de seus familiares por uma ou duas horas, o caos se instala, e mais vassalos são chamados… Com certeza, você pode imaginar o resto.
– Estupidez em todo seu esplendor – afirmei. Eu não aguentava mais
falar daquele assunto. Estava quase começando a quebrar os pratos de raiva. – Já conseguiu convencer meu pai a entregar a você um de seus cavalos premiados?
–Talvez. – Lorde Kriantz sorriu. – Envolverá certa negociação. Com
sorte, ele cederá antes que eu retorne a Sonnenborne, o que pode ocorrer antes do esperado graças à bandidagem. Ainda somos novos nessa coisa de civilização. Não posso deixar meu povo sem um líder.
– É uma pena que tenha que partir tão rápido – eu disse com sinceridade.
Ele havia chegado no início do verão, e não era incomum que diplomatas em visita ficassem um ano inteiro. Teria sido interessante ver se a influência dele beneficiaria tanto o Conselho quanto a mim.
– As tribos sob o meu brasão ainda precisam de uma mão que as guie –
ele disse. – Uma mão firme. Nós de Sonnenborne somos um povo poderoso quando estamos unidos, mas a vida é dura no deserto. Há sempre a tentação de voltar a um estado em que cada um só cuide de si.
Assenti, embora fosse difícil imaginar o tipo de sociedade que ele
descrevera. Mudamos de assunto e passamos a falar sobre cavalos, e conversamos amigavelmente durante o jantar, até só restarem migalhas. Quando a sineta soou convocando o Conselho para a reunião, nós nos levantamos e paramos na ponta da mesa, diante das longas cortinas que separavam a sala do restante do salão.
– Obrigada pelo convite – falei.
– Precisamos fazer isso mais vezes. – Ele beijou minha mão em
despedida, mas aproveitou a oportunidade para me puxar um pouco mais para perto de si. – Quem sabe não possamos cavalgar algum dia?
– Quem sabe – respondi, aumentando a distância entre nós. Eu gostava
de sua companhia, mas não queria que ele achasse que eu estava disponível para ser cortejada. Ainda assim, ele era um aliado útil, e afastá-lo seria um erro.
– Boa noite, milady. Que possamos nos encontrar em breve – Lorde
Kriantz disse, e deu um sorriso divertido antes de atravessar as cortinas e ir para a reunião.
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VINTE E SETE
Meus planos de falar com Mare sobre o ataque na fronteira foram arruinados logo de manhã, quando fui arrancada da cama para uma sessão de prova do meu vestido de noiva. Os criados corriam de um lado para o outro com alfinetes, laços, rendas e tecidos, tudo que se esperava que meu pequeno corpo aguentasse. A luz matinal lançava um brilho pálido em minha antecâmara, complementada por muitas lanternas penduradas em diferentes alturas da parede para que as costureiras pudessem enxergar direito. Mas a fofoca se mostrou muito pior que as espetadas e os cutucões.
– Ouvi dizer que talvez a Princesa Amaranthine tenha sido pedida em casamento – disse uma costureira com a boca cheia de alfinetes.
– Por quem? – outra perguntou.
– Ninguém sabe. Mina disse que foi algum lorde do norte, mas Lynette afirmou que foi um nobre do sul com vários cavalos para ela treinar. – As duas riram.
Eu me encolhi, fazendo uma das costureiras ganir ao furar a si mesma com um alfinete de bainha.
– Já terminaram? – perguntei, impaciente para escapar e conseguir algumas respostas por minha própria conta.
– Quase, Sua Alteza – disse a primeira costureira. – Mas não conseguimos encontrar sua convidada de honra. Lady Ellaeni? Ela deveria estar aqui há meia hora para provar seu vestido. O vestido dela não ficará pronto a tempo se ela não fizer sua prova de roupa esta manhã.
Murmurei uma oração pedindo paciência ao deus da terra. Minha conversa com Mare teria que esperar até a hora da aula de equitação.
– Imagino que tenham mandado alguém procurá-la, não? – perguntei.
– Sim, milady. Ela não tem uma aia pessoal, então não sabíamos ao certo a quem perguntar – disse a costureira.
As duas olharam para mim, esperando que eu resolvesse o problema. Eu não tinha falado com Ellaeni na noite anterior. Eu ficara preocupada com a saída de Mare com Lorde Kriantz, e Thandi nos fizera ficar perambulando pela sala, sem que tivéssemos a chance de ter uma conversa mais demorada com qualquer pessoa. Ellaeni passara a maior parte da noite de braços dados com Lorde Balenghren. Eu capturara seu olhar só uma vez, quando ela estava sozinha em uma mesa de copos usados, desenhando o símbolo do deus da água sem parar sobre um pouco de água derramada, com cara de preocupada.
–Vou encontrá-la – falei. Eu achava que sabia onde ela poderia estar. Mas
se eu estivesse certa, mandar outra pessoa buscá-la seria errado.
Assim que as costureiras tiraram meu vestido de noiva e Auna me vestiu,
saí à procura de Ellaeni. Os corredores estavam agitados graças às atividades matutinas, com pajens correndo de um lado para o outro e vassalos parados em sentinela a cada intersecção. Embora ainda faltasse mais de um mês para o baile da colheita e para o meu casamento, a decoração já havia começado. Os criados passavam festões trançados de folhas de seda laranja e vermelhas de uma arandela à outra em todos os corredores. Passei depressa por eles, tentando sacudir minhas mãos discretamente para me livrar do formigamento incessante. Se Ellaeni estivesse onde eu suspeitava, eu tinha medo do que poderia encontrar. Não era do feitio dela sumir sem ao menos enviar uma mensagem. Respirando fundo, empurrei a porta pesada e entrei no Santuário.
A porta se fechou atrás de mim, reduzindo o alvoroço do castelo a um
zumbido distante. Minha magia também diminuiu, acalmada pela paz do Santuário. Sob o altar do deus da água, Ellaeni estava sentada com as saias espalhadas à sua volta e com o rosto enterrado nas mãos, os soluços sacudindo seu corpo frágil. Eu me agachei e toquei seu ombro.
– Ellaeni – falei baixinho.
– Oh, não – ela disse, tentando enxugar as lágrimas das bochechas. –
Dennaleia… quer dizer, Sua Alteza. Sinto muito, eu… – Ela cobriu novamente o rosto com as mãos e se inclinou para a frente, engasgando com outro soluço.
– Sou apenas Denna neste instante. O que aconteceu? – Eu a envolvi em
meus braços como faria com minha irmã, e a abracei até que ela conseguisse falar.
– As cartas pararam de chegar – ela disse. – Houve uma confusão nos
canais. Eles começaram a cercar os Dissidentes em Trindor, e receio que tenham capturado Claera.
– Claera? – perguntei hesitante. Ellaeni nunca havia mencionado aquele nome.
– A cozinheira-chefe do meu navio. Ela era tudo para mim – Ellaeni disse. – Ela cuidava tanto da minha tripulação quanto de mim, principalmente. Eu costumava visitá-la na cozinha à noite, e ela sempre guardava algo especial para mim. Uma vez, tínhamos comido uma carne curada horrorosa e rabanetes pretos no jantar porque era tudo que havia restado no fim de uma longa jornada, e eu desci à cozinha e a peguei esculpindo uma linda flor em um daqueles rabanetes pretos horríveis para que pudesse me dar algo belo. – Mais uma lágrima escorreu pela bochecha de Ellaeni.
– Sinto muito, Ellaeni. Eu compreendo. Mare é assim para mim. É minha melhor amiga. Eu estaria perdida sem ela – falei.
– Não. Claera não é apenas minha amiga… ela é minha amada. Meus pais me proibiram de falar dela enquanto eu estiver aqui na corte. Eles não aceitam a ideia de alguém da minha classe se relacionando com uma cozinheira. – Ellaeni examinou meu rosto, cheia de esperança e medo.
De repente, entendi. Elas eram amantes. Corei por ter me equivocado ao comparar a relação delas com a que eu tinha com Mare.
– Por que acha que eles a capturaram? – perguntei.
– Ela tem sentido marítimo – Ellaeni disse. – E agora que os Dissidentes estão sendo perseguidos e que qualquer pessoa suspeita de usar magia está sendo caçada… Fiquei um pouco preocupada quando não chegou carta dela semana passada. Só que o correio deveria ter chegado hoje novamente, mas não havia nenhuma carta dela outra vez. Considerando isso e os tumultos… – A voz dela morreu.
– Oh, Ellaeni… – Meu coração se despedaçou por ela.
– Eu daria tudo para garantir que ela esteja segura. Minha posição social. Meu navio. O que fosse preciso – Ellaeni disse. – Toda noite, ela é o último pensamento que tenho antes de dormir. Toda manhã, sinto a falta dela quando acordo.
Não era de admirar que Ellaeni se sentisse tão infeliz por ser enviada a Lyrra. Ela não havia deixado para trás apenas a única vida que conhecia. Ela havia deixado para trás a pessoa que mais amava.
Segurei a mão de Ellaeni e a apertei com ternura.
– Tenho certeza de que ela também pensa em você todos os dias – falei.
– Você acha? – Ellaeni perguntou.
– Claro que sim – falei. – Se vier comigo, talvez consigamos fazê-la
entrar em um vestido de convidada de honra. E verei se há algo que eu possa fazer para ajudá-la a descobrir onde ela está. – Eu não tinha certeza de que poderia ajudá-la, mas só um péssimo amigo não tentaria.
Ellaeni se virou e me abraçou.
– Obrigada, Denna. É bom poder falar sobre Claera. Ter alguém que
entenda.
Retribuí o abraço e a ajudei a se levantar.
Ela fez uma careta ao ver o estado de seu vestido molhado pelas
lágrimas.
– Talvez se fizéssemos uma oração, desse para dar um jeito nessas
manchas – falei.
Ela assentiu, e foi até o altar do deus do vento. – Vamos fechar os olhos – falei. Minha magia veio devagar no Santuário,
calma e tranquila em minhas mãos. Desenhei o símbolo do deus do vento e convidei o formigamento a sair. Uma brisa suave secou as manchas de lágrimas no vestido de Ellaeni e eu liberei o meu poder. Os sinos do altar do ar soaram quando a magia se dissipou em uma lufada final.
Ellaeni abriu os olhos e examinou seu vestido. – O deus do vento é realmente poderoso aqui – ela disse. – De fato – falei, zonza pela descarga de magia, e mais que surpresa por
aquilo ter funcionado. Realmente era mais fácil controlar minha magia dentro do Santuário.
Ela pegou minha mão e a apertou carinhosamente. – Obrigada.
Nós circulamos pelo local e rezamos para cada um dos deuses, um por
vez. Minhas emoções se agitaram quando joguei uma lasca de madeira para o deus do fogo. Ellaeni possivelmente não conseguiria ficar na corte por mais de um ano. Ela precisava voltar para Claera, e eu a apoiaria nisso. Mas se eu perdesse Ellaeni, eu torcia para que Mare pudesse ficar. Eu precisava ter ao meu lado pelo menos uma pessoa em quem pudesse confiar, e não conseguia me imaginar como rainha sem ter a amizade e os conselhos de Mare.
Todas as entediantes refeições, leituras de poesia e provas de roupa que
eu teria que aguentar seriam suportáveis se eu soubesse que poderia buscar sua companhia quando quisesse. Ela havia me dado a perspectiva de que eu precisava, me mostrando o mundo de uma maneira que eu jamais teria imaginado. Mas se casamento fosse o que ela queria, eu não poderia ficar em seu caminho.
Eu precisava descobrir quais eram seus planos para o futuro.
Eu não poderia falar com Thandi; ele não entenderia. Ele já tinha conselheiros confiáveis e confidentes que conhecia desde a infância. Infelizmente, o Rei Aturnicus era a única outra pessoa com autoridade que poderia me dar respostas. Assim que acompanhei Ellaeni até minha antecâmara para a prova do vestido, pedi que um pajem marcasse uma audiência com o rei antes que eu pudesse fazer suposições.
No entanto, o nervosismo me atingiu assim que me vi diante do rei, que olhava para mim ansioso de trás de uma enorme mesa em seu escritório. Respirei fundo para me controlar, assim como havia feito nas minhas primeiras aulas de equitação.
– O que a traz aqui, Princesa? – o Rei Aturnicus me perguntou.
– Ouvi rumores, Sua Majestade – falei, torcendo minhas saias nas mãos. – Ouvi dizer que Amaranthine possivelmente se casará até o fim do ano, mas ela não me disse nada a respeito, o que me faz achar que talvez ela não saiba disso, mas se ela não sabe, então alguém deve estar planejando tal coisa, mas não posso imaginar quem estaria planejando isso sem…
– Pare. – O rei ergueu a mão, e minha fala desconexa cessou imediatamente. – Quem lhe disse isso?
– Alguns criados estavam comentando a respeito. Mas eles não sabiam com quem ela se casaria – acrescentei, percebendo que talvez eu estivesse implicando alguém ao falar daquele rumor. Ele soltou um longo suspiro.
– É uma pena que esse rumor tenha começado, e ele não é muito preciso. Foi feita uma proposta de casamento a Amaranthine, mas nenhum acordo de união foi confirmado. Seu pretendente foi gentil o bastante para lhe dar tempo para pensar na proposta, e deixou que você e Thandilimon continuassem sendo a prioridade por enquanto.
Arregalei os olhos ao ouvir as palavras “acordo de união”.Aquele acordo de união levaria embora a única pessoa em quem eu confiava plenamente. Será que era isso que ela queria?
– Por gentileza, refresque minha memória e diga por que tem interesse nisso, Princesa Dennaleia – o rei disse. Ele franziu a testa e se recostou em sua cadeira, que rangeu quando ele se mexeu.
– Não quero interferir em nada que beneficie o reino – falei –, mas descobri que Mare é boa conselheira e ótima companhia nesse tempo que estou aqui em Mynaria. Eu jamais a manteria aqui contra a vontade dela, mas acho que talvez ela possa ser importante, se um dia eu ascender ao trono. Valorizo alguém que dá conselhos tão bons e sinceros.
– Estamos falando da mesma pessoa? Aquela que se apresentou
devidamente vestida ontem pela primeira vez em sua vida adulta? – o rei disse num tom sarcástico.
– Creio que sim – falei, deixando que meus lábios se contraíssem num
meio-sorriso. Ela me parecera extraordinária. Mas eu não podia contar a ele os outros motivos que me faziam querer que ela ficasse: como ela me levara para ver a cidade, como havíamos invadido a sala de comando de Ryka e como eu sentia que poderia voar quando ela me olhava.
– Amaranthine ainda tem coisas a aprender. Ela precisa aceitar que seu
reino vem em primeiro lugar. Ela tem dezoito anos e já passou da idade de ser prometida em casamento. Eu esperava que você fosse um exemplo para ela, não o contrário – ele disse.
– Oh, eu tentei, Sua Majestade. – A mentira saiu com facilidade, mas eu
me odiei por isso. Eu não queria que ela fosse como eu. Eu queria que ela fosse ela mesma.
– Tenho certeza que sim, querida. Talvez você devesse passar mais tempo
com outros nobres e com os cônjuges dos membros do Conselho. Isso seria de grande valor para Thandi.
– Sim, Sua Majestade. Peço desculpa por me intrometer em assuntos de
família. Eu só queria comentar como Amaranthine poderia ajudar a Coroa no futuro.
– Falando na minha filha geniosa, mandarei Thandi descer para observar
sua aula de equitação de hoje. Ele precisa de uma folga dos assuntos do Conselho, e tenho certeza de que se interessará em ver o que você já aprendeu.
– Claro, Sua Majestade. – Como se o assunto do casamento de Mare não
fosse ruim o bastante, eu ainda não poderia falar com ela abertamente com Thandi ali perto.
Eu devia ter me importado com a oportunidade de cavalgar com Thandi e
de impressioná-lo com o que eu havia aprendido.
Mas não me importei.
– Foi muita gentileza sua ter passado por aqui, Princesa. – O rei
gesticulou indicando que eu saísse da sala.
Saí a passos largos e confiantes para o corredor, mas minha fachada desmoronou em minutos assim que me afastei. O rei já havia tomado sua decisão. Eu só podia esperar para ver qual seria a de Mare.
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VINTE E OITO
Thandi chegou trotando em Zin enquanto eu conduzia Flicker e Shadow para fora dos estábulos para a aula de Denna.
– O que está fazendo aqui? – perguntei. Eu esperava finalmente ficar a sós com Denna para contar a ela o que Lorde Kriantz me dissera sobre os Dissidentes e o tumulto em Trindor.
–Vendo se você ensinou algo útil à minha futura esposa. – Ele deu uns tapinhas carinhosos no pescoço de seu cavalo. – Além disso, seria bom para mim e para Zin fazer um pouco de exercício.
– Cavalgaremos para longe. Você provavelmente não tem tempo.
– Ah, tenho sim. O pai me deu a tarde de folga do Conselho. Eles estão encerrando a discussão sobre quanto apoio é necessário na fronteira para evitar novos ataques. Eu já dei meu voto.
– Tudo bem. – Eu me demorei checando as selas e os estribos dos dois cavalos enquanto aguardávamos a chegada de Denna.
A égua dele estava inquieta, e virava a cabeça para morder suas botas.
– Não devia deixá-la fazer isso – falei.
– E você não devia montar um cavalo que será descartado. Ou um usado na reprodução de cavalos de guerra – ele retrucou.
– Desculpe se me recuso a ouvir conselhos de alguém com apenas quatro braceletes de distinção em seu nome.
Thandi fez cara feia para mim.
– Algumas pessoas não têm tempo para passar o dia todo no celeiro, Mare. Algumas pessoas levam suas responsabilidades a sério e se importam com a coroa.
Resfoleguei.
– Se você governar este reino do mesmo jeito que treinou essa égua…
– Nem finja que você sabe qualquer coisa sobre o que eu faço – ele disse ríspido. –Vamos nos ater ao que cada um de nós sabe fazer.
Denna pigarreou para indicar sua presença. Olhei feio para Thandi uma
última vez antes de me virar para Denna e lhe entregar as rédeas de Shadow. Ela sorriu ao segurá-las, e minha tensão se dissipou.
– É um prazer vê-la novamente, milady – Thandi cumprimentou Denna. – É sempre um prazer vê-lo, milorde – ela respondeu, subindo na sela
com facilidade. – Desculpe pelo atraso.
– Sem problema. Tive a oportunidade de conversar com meu irmão
encantador – falei com a afabilidade de uma tempestade de inverno.
– Creio que pegaremos as trilhas das montanhas, não? – Thandi colocou
seu cavalo em movimento na direção da trilha sem esperar pela resposta.
– Creio que sim – resmunguei baixinho.
Denna me olhou com ar pesaroso.
– Cavalgue comigo, milady. – Thandi gesticulou para que Denna
cavalgasse ao seu lado. Ela fez Shadow dar uma corridinha para alcançá-lo, restando a mim segui-los quase fora do alcance da audição.
– Talvez tenhamos feito um grande avanço com relação aos Dissidentes –
Thandi disse.
– É mesmo? – Denna perguntou.
– Mais um líder deles aqui em Lyrra foi capturado com algo bem mais
valioso. Ele tem um tipo de artefato, uma tigela de prata, que parece identificar pessoas com Afinidades. Ele se recusa a dizer como a coisa funciona, mas é só uma questão de tempo até arrancarmos a informação dele. Então poderemos começar a testar qualquer um suspeito de ser usuário de magia.
Eles deviam ter capturado Barba Grisalha. Eu não sabia ao certo se
aquilo era bom ou ruim.
– Mas e a lâmina zumordana? – Denna perguntou. Shadow dançou um
pouco para os lados, revelando a tensão de Denna.
– Descobrir o segredo da tigela é prioridade. Sabemos que os Dissidentes
são os responsáveis pela morte de Casmiel. E descobrir quem são os usuários de magia poderia nos levar direto aos zumordanos que estão por trás do ataque.
Seu raciocínio não fazia muito sentido, principalmente levando em conta
o que eu vira de Barba Grisalha e da reunião realizada por ele no Santuário abandonado. Mas antes que eu pudesse apontar a estupidez galopante do Conselho pela enésima vez, Thandi fez seu cavalo sair trotando.
Eu queria que meus olhos abrissem buracos em sua jaqueta vermelha que ondulava por entre as árvores. Ele não merecia Denna; ela jamais desenvolveria todo o seu potencial com ele. Ele a faria escrever cartas e sair em turnês pela cidade e bordar malditos cobertores de bebê a vida toda, quando ela poderia fazer pesquisas para o Conselho e aprender a ser uma monarca de verdade, não apenas um rostinho bonito.
Flicker aumentou o ritmo e cabeceou, reagindo à tensão do meu corpo. Eu tinha que pensar em outra coisa, ou acabaria caindo do cavalo antes de chegarmos à metade do caminho para as montanhas. Percorri furiosa a trilha até chegarmos a um campo, a vasta paisagem coberta por grama dourada era um respiro bem-vindo. Flicker e eu nos afastamos em um galope suave, dando uma volta pela beira do campo. Foquei em suas passadas, esperando encontrar paz no ritmo familiar de três batidas dos seus cascos sobre a grama. Meu corpo assumiu o controle sobre minha mente, e relaxei em um lugar tranquilo onde não havia mais nada além de mim, de Flicker e de nosso movimento.
Pedi a Flicker que fizesse uma mudança de mão a galope quando nos voltamos para os outros, a jaqueta vermelho-vivo de Thandi e a jaqueta azul-escura de Denna brilhando contra o campo dourado. Flicker trocou de pé sem esforço, suas orelhas castanho-avermelhadas voltadas para os outros cavalos. Eu o fiz diminuir a velocidade para um trote, e depois para caminhada, sem pressa de chegar perto o bastante para conversar. Ao longe, Denna fez Shadow entrar no seu ritmo. Elas formavam uma dupla agora, um contraste delicado e belo com Thandi e Zin. Eu mal conseguia me lembrar de Denna como uma iniciante desajeitada que caíra do cavalo por causa de um espirro.
–Você fez seu trabalho, irmã – Thandi disse quando eu me aproximei. Pela primeira vez na vida, ele parecia satisfeito comigo, e aquilo me deixou inesperadamente emocionada. Eu nem conseguia me lembrar qual fora a última vez que ele me dera um olhar de gratidão ou aprovação.
– Fez mesmo – Denna disse. – Eu poderia ter aprendido sem ela, mas não acho que teria achado tão divertido. – Seu rosto estava radiante ao falar.
– Na verdade, ela cavalga tão bem que acho que você não precisa mais ensiná-la – Thandi continuou. – Pode ter suas tardes de volta. Informarei nosso pai.
Meu breve momento de camaradagem com ele terminara.
– Mas não me sinto pronta! – Denna exclamou, lançando um olhar de
pânico para mim.
– Está, sim. – Eu odiava concordar com Thandi, mas ela estava. Para o
que ela precisava saber, já havia ultrapassado o nível de competência necessário. Obrigá-la a continuar com as aulas seria egoísmo da minha parte.
– Mas…
– Você ainda pode cavalgar Shadow quando quiser – Thandi a
tranquilizou. – Talvez devêssemos combinar de cavalgarmos juntos regularmente. Eu gostaria disso.
Senti um aperto no peito. As tardes sem ela seriam vazias. Ele tomaria
meu lugar de amiga e confidente na vida dela. Enquanto Thandi e Denna discutiam seus planos, permaneci em silêncio, fitando a grama ressecada sob as patas de Flicker. Eu me esforcei ao máximo para manter a fachada – o que já fora minha segunda natureza – de total impassividade a qualquer custo. Mas aquilo simplesmente não funcionava com Denna. Durante aquele último mês, ela havia derrubado todos os muros que eu erguera para me proteger, me deixando indefesa.
– Devemos voltar agora? – Denna perguntou.
A náusea enfiava suas garras no meu estômago, uma resposta física à
ideia de um futuro sem tê-la por perto.
– Mare? – Denna finalmente olhou para trás, seus olhos verdes cheios de
preocupação.
– Não me sinto bem – falei, desviando o olhar e encarando as orelhas de
Flicker.
– Provavelmente por causa da andadura horrorosa desse cavalo de
descarte – Thandi zombou.
Denna fez Shadow se aproximar.
– Falando sério, você está bem?
– Algo que comi no almoço não me fez bem. Vão na frente. Alcanço
vocês depois.
Thandi resfolegou irritado e esporeou Zin para que pegasse a trilha com
um trote vigoroso.
– Vá! – repeti, me recusando a olhá-la nos olhos. – Se você tem certeza – ela disse, virando Shadow devagar e lançando
um último olhar para mim antes de sair a galope atrás de Thandi.
Assim que eles desapareceram por entre as árvores, desmontei do cavalo e me sentei apática no chão. Flicker baixou sua cabeça para fuçar a grama em busca de algo para comer. Eu esperava vomitar, rezando por algum tipo de alívio das minhas emoções, mas o enjoo nunca veio.
Quinze dias se passaram, e durante esse período não vi nem ouvi falar de Denna, e tanto minha vida quanto o clima se tornaram mais frios. O outono finalmente havia chegado. Os poucos convites que lhe fiz foram declinados com pesar e a cada recusa sua meu sofrimento crescia. Sempre havia algo em sua agenda – ela tinha sido totalmente engolida pela vida na corte e não tinha tempo para mais nada. Eu sentia sua falta com uma espécie de dor pungente que era revivida diante dos menores sinais: quando o som radiante de uma harpa escapou de uma das salas de estar enquanto eu andava pelo castelo numa madrugada, quando cavalguei pelo campo onde quase havíamos sido atingidas por flechas, e quando um atendente na taverna Cão Surdo me serviu a bebida errada e acabei com a boca cheia de cerveja de damasco.
Uma noite após a cerveja de damasco e de uma tentativa mal-sucedida de descobrir alguém que soubesse do paradeiro de Morland, voltei aos meus aposentos e encontrei um bilhete selado de Denna sobre minha penteadeira. No início, eu nem quis olhar para ele. Eu me demorei no banho, fugindo do clima frio e aliviando as leves dores resultantes de uma cavalgada dura e da minha ida à cidade. Eu não sabia o que esperar. Provavelmente um bilhete educado agradecendo pelas aulas, ou talvez um convite para outro evento social onde eu conseguiria ter cinco minutos de sua atenção antes de meu irmão arrastá-la para longe. Pensei até em queimar o bilhete sem abri-lo.
Mas quando a água da banheira esfriou, eu havia decidido que o leria. Eu me sentei diante da penteadeira enrolada em um roupão, apertando o tecido grosso contra o corpo, como se ele pudesse me proteger do conteúdo do bilhete de Denna. O selo de cera, que era roxo-escuro e gravado com um pinheiro solitário e uma estrela, soltou-se facilmente do papel e deixou uma mancha cor de ameixa no pergaminho.
Querida M,
Preciso falar com você. Por favor, encontre-me no jardim dos fundos, três
horas depois do pôr do sol.
Sua, D
Dobrei o bilhete e imediatamente o desdobrei e o reli, meu coração
pulsando em meus ouvidos. Ela queria me ver a sós. Eu disse a mim mesma para não me empolgar com algo tão insignificante, mas não consegui fazer minha pulsação desacelerar.
Eu me sequei depressa e peguei minha calça de montaria preta, e então
mudei de ideia e peguei todos os vestidos mais escuros que eu tinha, jogando tudo em cima da cama. Quando meu cabelo já estava quase seco, o quarto havia se transformado em um verdadeiro caos. Dispensei Sara quando ela tentou me ajudar – eu não queria que ela soubesse dos meus planos. Quando Nils apareceu para me buscar para o jantar, me encontrou em meio ao desastre, vestida apenas com as roupas de baixo.
– Nossa! Devo tentar entrar aqui? – Ele abriu caminho em meio a roupas
descartadas espalhadas pelo chão até conseguir se aproximar o suficiente de mim para me abraçar.
– Cale a boca – murmurei em seu ombro.
– Alguém vem cortejá-la esta noite? – Ele se afastou e me deu uma
piscadinha.
– Acho difícil! – Eu me virei com as bochechas vermelhas. – Então o que vai vestir? Não conseguiremos bons lugares na mesa se
você não tiver escolhido algo para usar. E imagino que roupas de baixo não eram o que você tinha em mente.
Revirei os olhos.
– Preciso de um vestido, mas tem que ser escuro. – Acho que você deveria usar este – ele disse e pegou um vestido azul-
marinho de cima da cama.
– Por quê? Já descartei esse por causa do decote. Revelador demais. Ele sorriu.
– Mas é exatamente por isso que é uma boa escolha. Principalmente se
estiver tentando impressionar alguém.
–Você é desagradável. – Denna era uma amiga, e um vestido justo
provavelmente não causaria nenhum impacto nela. Embora eu devesse admitir que a reação dela ao meu vestido formal naquele último evento de música fora gratificante.
– Conheço você muito bem, Mare. Está acontecendo alguma coisa com você. Mas não vou perguntar. Uma dama deve sempre ter seus segredos.
– Contanto que seus segredos não envolvam o que ela pegou do último vassalo com quem se deitou. Certo, Nils? – Ergui as sobrancelhas.
– Agora é você quem está sendo desagradável. – Ele riu. – Estou falando sério, use este vestido. Fica um arraso em você.
– Tudo bem. – Finalmente cedi, enfiando o vestido pela cabeça. – Pode me ajudar com a amarração? Com certeza deve saber como fazer isso, depois de tantas garotas que você enfiou e tirou de vestidos.
– Bem, às vezes não preciso tirá-las totalmente de dentro dos vestidos – ele disse.
– Amarre logo, seu bobo. Não precisa nem apertar demais. Gosto de respirar.
– Como quiser, milady – ele disse, puxando os cordões.
Depois de um jantar divertido com Nils e seus amigos, pedi licença e fui discretamente para o jardim. Eu me enfiei na escada de serviço mais próxima do lado de fora do salão principal para evitar os vassalos da patrulha, indo para o jardim dos fundos por um caminho intrincado, de ouvidos atentos ao som de qualquer pessoa que pudesse estar do lado de fora.
Apesar da minha paranoia, a noite estava tranquila e fria, e até os animais apareciam protegidos em seus ninhos e tocas. Quando me aproximei do meu destino, me ocorreu que talvez Denna estivesse brincando comigo, ou que Thandi tivesse mandado o bilhete. Tentei acalmar o ritmo acelerado do meu coração apenas com a força de vontade, meu hálito formando fumaça à minha frente no ar frio de outono.
Quando finalmente cheguei ao jardim dos fundos, estava vazio. Eu me sentei em um banco de pedra do lado norte do pátio quadrado, esfregando os pés no piso de lajotas. Eu tremia no escuro, enfiando minhas mãos nas dobras da minha capa e mantendo os braços pressionados contra o corpo. Eu gostaria de saber que horas eram. Será que eu estava adiantada ou atrasada?
Assim que me levantei para andar e me manter aquecida, Denna apareceu feito uma sombra se movendo pela escuridão. Ela veio até o outro lado do jardim para sorrir para mim, seus olhos brilhantes por debaixo do capuz de sua capa.
– Que bom que você veio! – Ela se aproximou correndo.
– Claro. – Sorri.
– Está um gelo aqui fora. – Ela envolveu o corpo com os próprios braços
e começou a dar pulinhos sem sair do lugar.
– A ideia foi sua, não minha. Você sempre pode me fazer subir pelas
paredes e pular sua janela – eu disse, brincando.
– Da próxima vez, fique à vontade para fazer isso. Na verdade, talvez
você devesse me ensinar como escalar também.
Ri ao ver sua cara de séria.
– Duvido que Thandi aprove ter sua esposa escalando paredes no meio da
noite.
– Provavelmente não, mas isso não cabe a ele decidir. – Não? O que está havendo, Denna? – perguntei. – É tudo culpa minha – ela disse com tristeza, sentando-se no banco de
pedra de onde eu levantara minutos atrás.
– Do que está falando?
– É tudo culpa minha – ela repetiu, baixando a cabeça enquanto seu
sorriso desaparecia.
– Explique. – Eu me sentei ao seu lado. Ela se virou para mim, seu rosto
pálido ao luar.
– Falei com o rei umas semanas atrás. – Ela inspirou. – Ouvi dizer que
alguém lhe faria uma proposta de casamento.
– O quê? – Era a primeira vez que eu ouvia aquela história. – Por mim, tudo bem se você quiser se casar, de verdade. Mas eu não
tinha ouvido de sua boca nada a respeito, o que me fez pensar que talvez você não soubesse de nada. Então fiquei preocupada. E fui um pouco egoísta. Não quero que o rei a mande para longe, a menos que ir embora seja algo que você queira, então tentei explicar a ele o quanto você é importante para mim. Mas acabou que eles encerraram minhas aulas de equitação e arranjaram coisas para eu fazer todos os dias até a data do casamento. Jogos na sala de estar. Leituras de poesia no jardim. Um desfile de moda e um debate com as damas do palácio.
Gemi. Agora tudo fazia sentido. Qualquer interesse de Denna por mim
sem dúvida faria com que meu pai e meu irmão desejassem nos separar, para que eu não fosse uma má influência para ela. Se eles estavam planejando um casamento para mim, eliminar Denna do meu dia a dia poderia fazer com que o casamento me parecesse uma opção mais razoável.
– Oh, por favor, não fique brava. – Ela agarrou meu braço. – Eu… eu não posso perder você.Você é a única coisa que importa para mim aqui, a única pessoa que fez com que eu me sentisse em casa… bem, não exatamente em casa, mas viva. Feliz. Sinto tantas coisas que eu não sabia que podia sentir, e tudo graças a você.Valorizo suas opiniões e ideias, você é tão perspicaz, não posso ficar aqui e fazer isso sem você, não posso.
– Oh, Denna – falei baixinho. Eu não estava chateada com ela. Cada palavra que ela dissera eu poderia ter dito sobre ela também. Mas eu não ousava confessar tal coisa. – Não estou brava – falei. – Mas você está certa. Deve ter sido por causa da sua conversa com meu pai que Thandi tem inventado todos esses eventos. Provavelmente, meu pai achou que você estivesse próxima demais de mim e não quis que você fosse corrompida pela minha má influência.
– Eu sei, mas minha intenção era exatamente a oposta. Eu queria que ele soubesse o quão boa você é, o quão maravilhosa você é.Tudo o que ele estava perdendo por não tê-la ao lado dele e por não prestar atenção ao que você tem a dizer. Agora criei essa confusão, e é tudo minha culpa, e sinto tanto a sua falta… – Ela mordeu o lábio.
– Shhh, está tudo bem – falei, passando o braço pelos seus ombros. Ela batia os dentes, e eu a estreitei mais em meus braços para protegê-la do frio. Meus batimentos cardíacos aceleraram quando ela se aconchegou no meu braço. Ela parecia perfeita ali, o cheiro doce de rosas de seus cabelos me aquecendo como se o verão não tivesse acabado.
– Serei sua amiga para sempre – falei. E embora as palavras fossem sinceras, não soaram como tal. Mas o que mais eu poderia oferecer?
–Você é a melhor amiga que já tive – Denna falou, e me surpreendeu ao passar seus braços em volta do meu pescoço.
Ela me abraçou um instante, e depois mais um pouco, e eu retribuí seu abraço com cautela. Ela se derreteu em meus braços e encostou sua cabeça no meu pescoço.
– Sinto muito por estar tão frio aqui fora – ela sussurrou, sua voz abafada pelas dobras da minha capa. – Este não é o melhor jeito de a gente se encontrar. Preciso vê-la de novo… Não me importam os planos de Thandi.
– Também quero vê-la de novo. – A proximidade entre nós me assustava. Eu sentia que as coisas poderiam tomar um rumo perigoso, mas de jeito nenhum eu fugiria daquilo.
– Temos que dar um jeito – ela disse com firmeza, se afastando dos meus
braços. – Ainda precisamos descobrir quem está por trás da forja daquela faca.
Relutante, eu a soltei, e o frio voltou a me envolver. – Tem algo em mente? – perguntei. – Porque este jardim só ficará cada
vez mais frio quando o inverno chegar, e haverá ainda mais olhares atrás de você do que agora. Se começarmos a nos visitar, eles vão reorganizar sua agenda de novo para tornar nossos encontros impossíveis.
– Ugh! – Ela golpeou um arbusto com a mão. – Teremos que ser