Garota exemplar
Nick Dunne - Três Dias Sumida
NICK DUNNE
TRÊS DIAS SUMIDA
A polícia não iria encontrar Amy a não ser que alguém quisesse que ela fosse encontrada. Isso era claro. Tudo o que era verde e marrom havia sido vasculhado: quilômetros do enlameado rio Mississippi, todas as trilhas e pistas de caminhada, nossa triste coleção de bosques esparsos. Se ela estava viva, alguém precisaria devolvê-la. Se estava morta, a natureza teria de entregá-la. Era uma verdade palpável, como um gosto azedo na ponta da língua. Cheguei ao centro de voluntários e me dei conta de que todos também sabiam disso: havia uma letargia, uma derrota que pairava no lugar. Andei sem objetivo na direção da mesa de doces e tentei me convencer a comer algo. Folheado. Passei a acreditar que não havia comida mais deprimente do que o folheado, um doce que parecia velho logo de cara.
— Continuo a achar que é o rio — dizia um voluntário ao colega, ambos pegando doces com os dedos sujos. — Logo atrás da casa do cara, o que poderia ser mais fácil?
— Ela já teria aparecido com a contracorrente agora, em uma eclusa, alguma coisa.
— Não se tiver sido esquartejada. Corte as pernas, os braços... O corpo pode ir até o Golfo. No mínimo Tunica.
Eu me virei antes que notassem minha presença.
Um antigo professor meu, o Sr. Coleman, estava em uma mesa de carteado, curvado sobre o telefone de denúncias, anotando informações. Quando o encarei, ele fez o sinal de maluco: dedo girando junto à orelha, depois apontando para o telefone. Ele me cumprimentou ontem dizendo: “Minha neta foi morta por um motorista embriagado, então...” Nós murmuramos e demos tapinhas um no outro desajeitadamente.
Meu celular tocou, o descartável — eu não conseguia achar um lugar para guardá-lo, então ficava com ele. Eu dera um telefonema e o telefonema estava sendo retornado, mas eu não podia atender. Desliguei o celular, examinei a sala para ter certeza de que os Elliott não haviam me visto fazendo aquilo. Marybeth estava digitando em seu BlackBerry, depois esticando o braço para conseguir ler a mensagem de texto. Quando me viu, veio com seus passos apertados e rápidos, segurando o BlackBerry diante de si como um talismã.
— Memphis fica a quanto tempo daqui? — perguntou.
— Pouco menos de cinco horas de carro. O que há em Memphis?
— Hilary Handy mora em Memphis. A perseguidora de Amy no ensino médio. É uma coincidência e tanto, não é?
Eu não sabia o que dizer: não?
— É, Gilpin também me deixou na mão. Não podemos autorizar a despesa por causa de algo que aconteceu há vinte e tantos anos. Idiota. O cara sempre me trata como se eu estivesse à beira da histeria; fala só com Rand quando estou bem do lado, me ignora completamente, como se eu precisasse que meu marido explicasse as coisas para mim, a pobre imbecil. Idiota.
— A cidade está falida — disse. — Tenho certeza de que eles realmente não têm o dinheiro, Marybeth.
— Bem, nós temos. Estou falando sério, Nick, essa garota era maluca. E sei que ela tentou entrar em contato com Amy ao longo dos anos. Amy me contou.
— Ela nunca me disse isso.
— Qual é o custo de ir de carro até lá? Cinquenta pratas? Tudo bem. Você vai? Você disse que iria. Por favor? Não vou conseguir deixar de pensar nisso até saber que alguém falou com ela.
Eu sabia que pelo menos isso era verdade, porque a filha sofria da mesma preocupação tenaz: Amy era capaz de passar a noite inteira com medo de ter deixado o fogão ligado, embora não tivéssemos cozinhado naquele dia. E a porta estava trancada? Eu tinha certeza? Ela era uma criadora de piores situações possíveis em grande escala. Porque nunca era só que a porta estivesse destrancada, era que a porta estava destrancada e havia homens lá dentro, esperando para estuprá-la e matá-la.
Senti uma camada de suor brotar na superfície da minha pele, porque finalmente os temores de minha esposa haviam se concretizado. Imagine a medonha satisfação de saber que todos aqueles anos de preocupação haviam dado frutos.
— Claro que irei. E no caminho pararei em St. Louis para ver o outro, Desi. Considere feito.
Eu me virei, iniciei minha saída dramática, andei seis metros e de repente lá estava Stucks novamente, seu rosto inteiro ainda flácido do sono.
— Ouvi dizer que a polícia vasculhou o shopping ontem de dia — disse ele, coçando o queixo. Na outra mão, ele tinha um donut com cobertura, intacto. Havia uma protuberância em forma de bagel no bolso da frente de suas calças cargo. Quase fiz uma piada: isso é um doce no seu bolso ou você...
— Pois é. Nada.
— De dia. Eles foram de dia, os idiotas — disse, se encolhendo e olhando ao redor como se preocupado que o tivessem escutado. Ele se inclinou mais na minha direção. — Você tem de ir de noite, que é quando eles estão lá. De dia eles ficam junto ao rio ou então hasteando bandeiras.
— Hasteando bandeiras?
— Você sabe, sentados nas saídas da estrada com aqueles cartazes: Demitido, Ajude, por favor, Preciso de dinheiro para a cerveja, esse tipo de coisa — falou, examinando a sala. — Hasteando bandeira, cara.
— Certo.
— De noite eles ficam no shopping.
— Então iremos hoje à noite — afirmei. — Você, eu e quem mais quiser.
— Joe e Mikey Hillsam — disse Stucks. — Eles vão topar.
Os Hillsam eram três, quatro anos mais velhos do que eu, os fodões da cidade. O tipo de cara que nascia sem o gene do medo, imune à dor. Atletas que passavam o verão de shorts, pernas musculosas, jogando beisebol, tomando cerveja, fazendo proezas estranhas: andar de skate em canais de escoamento, escalar torres de caixa-d’água nus. O tipo de cara que puxava um baseado, olhos arregalados, em uma noite tediosa de sábado e você sabia que algo iria acontecer, talvez não algo de bom, mas algo. Claro que os Hillsam iriam topar.
— Bom — falei. — Vamos hoje à noite.
Meu celular descartável tocou em meu bolso. A coisa não havia desligado direito. Tocou novamente.
— Você não vai atender? — perguntou Stucks.
— Não.
— Você deveria atender todas as ligações, cara. Deveria mesmo.
* * *
Não havia mais nada a fazer pelo restante do dia. Nenhuma busca planejada, não eram necessários mais folhetos, todos os telefones com alguém para atendê-los. Marybeth começou a dispensar voluntários; eles estavam ali à toa, comendo, entediados. Eu suspeitava que Stucks saíra com metade da mesa do café nos bolsos.
— Alguém teve notícias dos detetives? — quis saber Rand.
— Nada — respondemos Marybeth e eu.
— Isso pode ser bom, certo? — indagou Rand, os olhos esperançosos, e Marybeth e eu concordamos. Sim, claro.
— Quando você vai para Memphis? — perguntou-me ela.
— Amanhã. Esta noite meus amigos e eu faremos outra busca no shopping. Achamos que não foi feito direito ontem.
— Excelente — disse Marybeth. — É desse tipo de ação que precisamos. Suspeitamos que não havia sido feito direito da primeira vez, fazemos nós mesmos. Porque eu... Não estou muito impressionada com o que tem sido feito até agora.
Rand colocou a mão no ombro da esposa, um sinal de que esse refrão havia sido dito e ouvido muitas vezes.
— Gostaria de ir com vocês, Nick — comentou ele. — Hoje à noite. Gostaria de ir.
Rand estava vestindo uma camisa polo azul-clara e calças verde-oliva, seu cabelo um reluzente capacete escuro. Eu o imaginei tentando cumprimentar os irmãos Hillsam, fazendo sua encenação levemente desesperada de quem tentava ser um dos rapazes — ei, eu também gosto de uma boa cerveja, e como está aquele seu time? — e senti uma onda de desconforto iminente.
— Claro, Rand. Claro.
* * *
Eu tinha dez boas horas sem obrigações com que me ocupar. Meu carro estava sendo devolvido a mim — depois de vasculhado, aspirado e decalcado, suponho —, então peguei uma carona até a delegacia com uma voluntária mais velha, uma daquelas avós agitadas que pareciam ligeiramente nervosas ao ficarem sozinhas comigo.
— Estou apenas levando o Sr. Dunne à delegacia, mas estarei de volta em menos de meia hora — dissera a uma das amigas. — Não mais de meia hora.
Gilpin não transformara o segundo bilhete de Amy em evidência; ficara animado demais com a lingerie para se preocupar. Entrei em meu carro, abri mais a porta e fiquei sentado enquanto o calor saía, reli a segunda pista de minha esposa:
Imagine: estou louca por você
Meu futuro é tudo menos incerto com você
Você me trouxe aqui para que eu ouvisse sua conversa maneira Sobre suas aventuras de menino: jeans baratos e viseira
Que se dane todo mundo, deles nós vamos nos livrar
E vamos roubar um beijo... Fingir que acabamos de nos casar.
Era Hannibal, Missouri, terra da infância de Mark Twain, onde eu trabalhara nos verões quando jovem, onde circulara pela cidade vestido como Huck Finn, com um velho chapéu de palha e calças com rasgos artificiais, sorrindo maliciosamente enquanto convencia as pessoas a visitar a Ice Cream Shoppe. Era uma daquelas histórias que você pode passar um jantar inteiro contando, pelo menos em Nova York, porque ninguém consegue superá-la. Ninguém nunca podia dizer: Ah, é, eu também.
O comentário sobre a “viseira” era uma piada interna. Quando eu contara a Amy pela primeira vez que interpretava Huck, havíamos saído para jantar, estávamos em nossa segunda garrafa de vinho e ela estava adoravelmente embriagada. O grande sorriso e as bochechas coradas que ganhava quando bebia, inclinando-se sobre a mesa como se eu tivesse um ímã em mim. Ela estava me perguntando se eu ainda tinha a viseira, se eu a colocaria para ela, e quando perguntei por que em nome de tudo o que era mais sagrado ela achava que Huck Finn usava uma viseira, ela engoliu em seco uma vez e disse: “Ah, eu quis dizer chapéu de palha!” Como se fossem palavras equivalentes. Depois disso, sempre que víamos jogos de tênis, elogiávamos os chapéus de palha esportivos dos jogadores.
Mas Hannibal era uma escolha estranha para Amy, já que não me lembro de termos passado um momento particularmente bom ou ruim ali, apenas um momento. Lembro-me de nós dois passeando quase um ano inteiro atrás, apontando para coisas e lendo cartazes e dizendo “Isso é interessante” e o outro concordava, “É mesmo”. Eu estivera lá desde então sem Amy (minha veia nostálgica irreprimível) e tive um dia glorioso, um dia de sorriso largo, de bem com a vida. Mas com Amy fora parado, mecânico. Um pouco constrangedor. Recordo-me de, em dado momento, começar a contar uma história boba sobre uma viagem de infância até lá, quando a vi revirar os olhos, e fiquei secretamente furioso, passei dez minutos apenas curtindo minha raiva — porque àquela altura do nosso casamento eu estava tão acostumado a ficar com raiva dela que a sensação era quase agradável, como mastigar cutícula: você sabe que deve parar, que na verdade aquilo não é tão bom quanto você pensa, mas não consegue. Superficialmente, claro, ela não vira nada. Apenas continuamos a andar, a ler placas e apontar.
Era um lembrete bastante horrível da carência de boas lembranças que tínhamos desde nossa mudança, que minha esposa tivesse sido obrigada a escolher Hannibal para sua caça ao tesouro.
Eu cheguei a Hannibal em vinte minutos, passei pelo glorioso tribunal dos anos dourados, que tinha então apenas um restaurante de asas de frango no porão, e me desloquei por uma série de negócios fechados — bancos arruinados e salas de cinemas mortas — na direção do rio. Estacionei em uma vaga bem no Mississippi, bem na frente do barco fluvial Mark Twain. O estacionamento era gratuito. (Eu nunca deixava de me encantar com a novidade, a generosidade do estacionamento grátis.) Estandartes do homem de juba branca pendiam flácidos de postes de luz, cartazes se enrolavam sob o calor. Era um dia quente do tipo secador de cabelos, mas ainda assim Hannibal parecia perturbadoramente calma. Enquanto eu caminhava pelos poucos quarteirões de lojas de suvenir — colchas, antiguidades e caramelos —, vi mais placas de vende-se. A casa de Becky Thatchers estava fechada para reformas, a serem custeadas por dinheiro que ainda tinha de ser arrecadado. Por dez pratas você podia escrever seu nome na cerca caiada de Tom Sawyer, mas havia poucos interessados.
Sentei-me no degrau da frente de uma loja vazia. Ocorreu-me então que eu havia trazido Amy para o fim de tudo. Estávamos literalmente experimentando o fim de um modo de vida, expressão que eu aplicara apenas a tribos da Nova Guiné e a sopradores de vidro dos Apalaches. A recessão fora o fim do shopping. Computadores foram o fim da fábrica Blue Book. Carthage falira; sua cidade-irmã, Hannibal, perdia espaço para atrações turísticas mais brilhantes, barulhentas e animadas. Meu amado rio Mississippi estava sendo comido de trás para a frente por carpas asiáticas que abriam caminho rio acima até o lago Michigan. Amy Exemplar chegara ao fim. Era o fim da minha carreira, da carreira dela, o fim do meu pai, o fim da minha mãe. O fim do nosso casamento. O fim de Amy.
O chiado fantasma da buzina do navio a vapor soou, vindo do rio. As costas da minha camisa estavam molhadas de suor. Obriguei-me a levantar. Obriguei-me a comprar o ingresso para o passeio. Caminhei pela rota que Amy e eu havíamos seguido, minha esposa ainda ao meu lado em minha mente. Também estivera quente naquele dia. Você é BRILHANTE. Em minha imaginação, ela caminhava ao meu lado, e dessa vez sorria. Meu estômago revirou.
Caminhei mentalmente com minha esposa, seguindo o principal roteiro turístico. Um casal grisalho parou para espiar dentro da casa de Huckleberry Finn, mas não se deu o trabalho de entrar. No final do quarteirão, um homem vestido como Mark Twain — cabelos brancos, terno branco — saiu de um Ford Focus, se espreguiçou, olhou para a rua vazia e entrou em uma pizzaria. E então lá estávamos nós, no prédio de tábuas que fora o escritório do pai de Samuel Clemens. A placa na frente dizia: J.M. Clemens, Juiz de Paz.
Vamos roubar um beijo... Fingir que acabamos de nos casar.
Você está fazendo pistas tão legais e fáceis, Amy. Como se realmente quisesse que eu as encontrasse, para poder me orgulhar de mim mesmo. Continue assim e vou quebrar meu recorde.
Não havia ninguém lá dentro. Fiquei de joelhos nas tábuas empoeiradas do piso e olhei sob o primeiro branco. Quando Amy deixava uma pista em um local público, sempre a prendia com fita embaixo das coisas, entre o chiclete grudado e a poeira, e sempre se justificava, porque ninguém gosta de olhar debaixo das coisas. Não havia nada sob o primeiro banco, mas uma ponta de papel pendia do banco atrás desse. Fui até lá e peguei o envelope azul-Amy, um pedaço de fita adesiva grudado nele.
Oi, querido marido,
Você encontrou! Homem brilhante. Talvez ajude que eu tenha decidido não transformar a
caça ao tesouro deste ano em uma torturante marcha forçada por minhas misteriosas lembranças pessoais.
Peguei uma dica com seu amado Mark Twain:
“O que deveria ser feito ao homem que inventou a celebração de aniversários de
casamento? Só assassinato seria leve demais.”
Finalmente saquei o que você disse ano após ano, que esta caça ao tesouro deveria ser um
momento para celebrarmos um ao outro, não um teste para saber se você se lembra de cada coisa que eu penso ou digo ao longo do ano. Parece algo que uma mulher adulta compreenderia sozinha, mas... Acho que os maridos estão aí para isso. Para apontar o que não conseguimos ver sozinhas, mesmo que demore cinco anos. Então eu queria aproveitar o momento agora, no local onde Mark Twain passou a maior parte da infância, e agradecer a você pelo seu HUMOR. Você realmente é a pessoa mais inteligente e divertida que conheço. Tenho uma incrível memória perceptiva: de todas as vezes ao longo dos anos em que você se inclinou sobre minha orelha — posso sentir seu hálito fazendo cócegas em meu lóbulo, no instante em que escrevo — e sussurrou algo apenas para mim, só para me fazer rir. Eu me dou conta de quão generoso é isso, um marido fazer sua esposa rir. E você sempre escolheu os melhores momentos. Lembra-se de quando Insley e seu marido macaco amestrado nos obrigaram a admirar o bebê, e fizemos a visita obrigatória à sua casa estranhamente perfeita, exageradamente florida, exageradamente confeitada para o brunch e apresentação do bebê, e eles foram tão moralistas e superiores quanto a nosso estado sem filhos, e lá estava aquele menino horroroso, coberto de rios de baba, cenoura cozida e talvez fezes — nu a não ser por um babador de renda e um par de calçados de tricô —, e enquanto eu bebericava meu suco de laranja você se inclinou e sussurrou: “Isso é o que vou vestir mais tarde.” E eu literalmente cuspi o suco. Foi um daqueles momentos em que você me salvou, me fez rir no momento certo. Mas uma azeitona só. Então vou dizer novamente. Você tem BOM HUMOR. Agora me beije!
Senti minha alma murchar. Amy estava usando a caça ao tesouro para nos reaproximar. E era tarde demais. Quando escreveu aquelas pistas, ela não tinha ideia do meu estado de espírito. Por que, Amy, por que você não fez isso antes?
Nosso timing nunca foi bom.
* * *
Abri a pista seguinte, li, enfiei no bolso e voltei para casa. Eu sabia para onde ir, mas ainda não estava pronto. Não podia suportar outro elogio, outra palavra gentil de minha esposa, outra bandeira branca. Meus sentimentos por ela estavam passando de amargo para doce rápido demais.
Voltei para a casa de Go, passei algumas horas sozinho, bebendo café e trocando de canal de televisão, ansioso e com raiva, passando o tempo até minha carona das onze da noite até o shopping.
Minha gêmea chegou em casa pouco depois das sete horas, parecendo cansada de seu plantão sozinha no bar. O modo como ela olhou para a TV me indicou que eu deveria desligá-la.
— O que você fez hoje? — perguntou ela, acendendo um cigarro e se acomodando na velha mesa de carteado de nossa mãe.
— Cuidei do centro de voluntários... Depois vamos vasculhar o shopping, às onze — respondi.
Não queria contar a ela sobre a pista de Amy. Já me sentia suficientemente culpado.
Go jogou um pouco de paciência, a batida constante das cartas na mesa uma repreensão. Comecei a andar de um lado para outro. Ela me ignorou.
— Só estava assistindo à TV para me distrair.
— Eu sei, mesmo.
Ela virou um valete.
— Tem de haver algo que eu possa fazer — refleti, circulando pela sala de estar dela.
— Bem, você vai vasculhar o shopping em algumas horas — disse Go, e não encorajou mais. Virou três cartas.
— Você fala como se achasse que é perda de tempo.
— Ah. Não. Ei, tudo merece ser verificado. Pegaram o Filho de Sam por causa de uma multa de estacionamento, certo?
Go era a terceira pessoa que mencionava aquilo para mim; devia ser o mantra dos casos que demoravam para ser resolvidos. Sentei-me na frente dela.
— Não estou triste o bastante por causa de Amy — disse. — Sei disso.
— Talvez não — concordou ela, finalmente olhando para mim. — Você anda esquisito.
— Acho que em vez de entrar em pânico apenas me concentrei em sentir raiva dela. Porque estávamos tão mal um com o outro ultimamente... É como se eu achasse errado me preocupar demais porque não tenho o direito. Acho.
— Você anda esquisito, não posso mentir. Mas é uma situação esquisita. — Go apagou o cigarro. — Não me importa como você é comigo. Mas tome cuidado com todos os outros, está bem? As pessoas julgam. Rápido.
Ela voltou à sua paciência, mas eu queria a atenção dela. Continuei falando.
— Eu provavelmente deveria ir ver o papai em algum momento — comentei. — Não sei se vou contar a ele sobre Amy.
— Não — disse ela. — Não faça isso. Ele era ainda mais esquisito em relação a Amy do que você está.
— Sempre achei que ela devia lembrar a ele uma antiga namorada ou algo assim; a mulher que ele não conseguiu ter. Depois que ele... — Fiz um gesto com o polegar para baixo que significava seu Alzheimer — Ele era meio grosso e desagradável com ela, mas...
— É, mas ao mesmo tempo meio que queria impressioná-la — arrematou Go. — Um típico garoto chato de doze anos preso no corpo de um babaca de sessenta e oito.
— As mulheres não acham que no fundo todos os homens são garotos chatos de doze anos?
— Ei, se a carapuça serviu...
* * *
Às onze e oito da noite, Rand esperava por nós do lado de dentro das portas de correr automáticas do hotel, os olhos semicerrados no escuro para conseguir nos enxergar. Os Hillsam estavam em sua picape; Stucks e eu íamos na caçamba. Rand trotou até nós usando bermuda de golfe cáqui e uma camiseta de Middlebury engomada. Subiu na traseira, acomodou-se no estepe com surpreendente facilidade e fez as apresentações como se fosse o dono de um programa de entrevistas móvel.
— Lamento realmente por Amy, Rand — disse Stucks em voz alta enquanto saíamos do estacionamento com velocidade desnecessária e tomávamos a rodovia. — Ela é uma pessoa tão doce... Uma vez me viu pintando uma casa, suando para caral... para caramba do lado de fora, e foi até o 7-Eleven, comprou um refrigerante enorme e levou para mim, bem lá em cima da escada.
Isso era mentira. Amy se importava tão pouco com Stucks e seu calor que não teria se dado o trabalho de mijar em um copo para ele.
— Isso é a cara dela — disse Rand.
Senti uma onda de incômodo nada bem-vinda e nada cavalheiresca. Talvez fosse o jornalista em mim, mas fatos eram fatos, e as pessoas não podiam transformar Amy na melhor amiga adorada de todos apenas porque era emocionalmente oportuno.
— Middlebury, é? — continuou Stucks, apontando para a camiseta de Rand. — Eles têm um senhor time de rúgbi.
— Isso aí, temos mesmo — concordou Rand, o grande sorriso novamente, e ele e Stucks iniciaram uma improvável discussão sobre rúgbi na faculdade acima do barulho do carro, do ar, da noite, durante todo o caminho até o shopping.
Joe Hillsam estacionou a picape em frente à gigantesca loja de departamento Mervyns de esquina. Todos saltamos, esticamos as pernas, nos sacudimos para acordar. A noite estava abafada e iluminada aqui e ali pela lua. Percebi que Stucks vestia — talvez ironicamente, possivelmente não — uma camiseta que dizia: Economize gás, peide em um pote.
— Então, esse lugar, o que estamos fazendo, é perigoso para caramba, não vou mentir — começou Mikey Hillsam.
Ele ganhara corpo ao longo dos anos, assim como o irmão; eles não tinham apenas troncos grossos, tinham tudo grosso. De pé lado a lado eles somavam uns duzentos e vinte quilos de homem.
— Viemos aqui uma vez, eu e Mikey, só para... Não sei, para ver, acho, ver no que havia se transformado, e quase nos fodemos. Então não vamos dar mole esta noite — disse Joe.
Pegou uma comprida bolsa de lona na cabine e abriu o zíper, revelando meia dúzia de tacos de beisebol. Começou a distribuí-los solenemente. Quando chegou a Rand, hesitou.
— Ahn, quer um?
— Quero sim, porra, com certeza — disse Rand, e todos acenaram com a cabeça e sorriram aprovando, a energia no círculo como um tapinha amistoso nas costas, um bom para você, coroa.
— Vamos lá — incentivou Mikey, e nos guiou pelo lado de fora. — Tem uma porta com a tranca quebrada perto da Spencer’s.
Nesse instante passamos pelas vitrines escuras da Shoe-Be-Doo-Be, onde minha mãe trabalhara durante metade da minha vida. Ainda me lembro da animação dela indo pedir um emprego naquele que era o lugar mais maravilhoso — o shopping! —, saindo certa manhã de sábado para a feira de empregos em seu terninho pêssego-brilhante, uma mulher de quarenta anos procurando emprego pela primeira vez, e dela voltando para casa com um sorriso empolgado: não podíamos imaginar como o shopping era movimentado, quantas lojas diferentes! E quem sabia em qual ela poderia trabalhar? Ela se candidatara a nove! Lojas de roupas, lojas de equipamentos de som e até mesmo uma loja de pipocas especiais. Quando anunciou uma semana depois que era oficialmente uma vendedora de sapatos, seus filhos ficaram pouco animados.
“Você vai ter de tocar em todo tipo de pés fedorentos”, reclamou Go.
“Vou conhecer todo tipo de pessoas interessantes”, corrigiu nossa mãe.
Espiei pela vitrine melancólica. O lugar estava totalmente vazio a não ser por um medidor de pé apoiado inutilmente na parede.
— Minha mãe trabalhava aqui — disse a Rand, forçando-o a ficar para trás comigo.
— Que tipo de lugar era?
— Era um lugar legal, eles foram bons para ela.
— Quer dizer, o que eles vendiam aqui?
— Ah, sapatos. Eles vendiam sapatos.
— É isso aí! Sapatos. Gostei. Algo de que as pessoas realmente precisam. E no final do dia você sabe o que fez: vendeu sapatos a cinco pessoas. Não é como escrever, certo?
— Dunne, venha! — chamou Stucks, apoiado na porta aberta à frente; os outros haviam entrado.
Imaginei que o shopping tivesse um cheiro específico quando entramos: aquele vazio de temperatura controlada. Em vez disso, senti cheiro de grama velha e terra, o cheiro do exterior do lado de dentro, onde ele não deveria estar. O prédio estava quente e abafado, quase fibroso, como dentro de um colchão. Três de nós tinham enormes lanternas de acampamento, o brilho iluminando imagens perturbadoras: era suburbano, pós-cometa, pós-zumbi, pós-humanidade. Um conjunto de trilhas enlameadas de carrinhos de compras fazia várias voltas loucamente ao longo do piso branco. Um guaxinim mastigava um brinquedo de cachorro na entrada do banheiro feminino, os olhos brilhando como moedas.
O shopping inteiro estava silencioso; a voz de Mikey ecoava, nossos passos ecoavam, o riso bêbado de Stucks ecoava. Não seríamos um ataque-surpresa, caso ataque fosse o que tínhamos em mente.
Quando chegamos à praça central do shopping, a área inteira cresceu: quatro andares, escadas rolantes e elevadores se cruzando no escuro. Nós nos reunimos perto de uma fonte seca e esperamos que alguém assumisse a liderança.
— E então, pessoal, qual é o plano aqui? — perguntou Rand, em dúvida. — Todos vocês conhecem o lugar, e eu não. Precisamos descobrir como sistematicamente...
Ouvimos estalidos metálicos altos bem atrás de nós, um portão de segurança subindo.
— Ei, lá está um! — gritou Stucks.
Ele apontou a lanterna para um homem em uma capa de chuva esvoaçante, saindo em disparada da entrada de uma loja Claire’s, fugindo a toda de nós.
— Peguem ele! — berrou Joe, e começou a persegui-lo, tênis pesados batendo no piso de cerâmica, Mikey logo atrás, lanterna apontada para o estranho, os dois irmãos gritando em voz áspera: espere aí, ei, cara, só queremos fazer uma pergunta.
O homem nem sequer olhou para trás. Eu disse para esperar, desgraçado! O sujeito permaneceu calado em meio aos gritos, mas ganhou velocidade e disparou pelo corredor do shopping, entrando e saindo do foco da lanterna, sua capa sacudindo atrás dele como um manto. Então o cara se transformou em acrobata: pulando por cima de uma lata de lixo, desviando da beirada de uma fonte e finalmente deslizando sob um portão de segurança metálico para a Gap e desaparecendo.
— Desgraçado!
O rosto, o pescoço e os dedos dos Hillsam haviam ficado vermelhos tipo ataque cardíaco. Eles se revezaram bufando no portão, esforçando-se para erguê-lo.
Tentei ajudá-los, mas não havia como levantar mais de quinze centímetros. Deitei no chão e tentei passar sob o portão: dedos, panturrilhas, depois fiquei preso pelo peito.
— Nada, não dá — grunhi. — Merda!
Levantei-me e apontei a luz da lanterna para a loja. Estava vazia exceto por uma pilha de prateleiras de roupas que alguém arrastara para o centro, como se para iniciar uma fogueira.
— Todas as lojas se ligam nos fundos a passagens para lixo, encanamentos — expliquei. — A esta altura ele provavelmente está do outro lado do shopping.
— Bem, então vamos para o outro lado do shopping — disse Rand.
— Saiam daí, seus merdas — berrou Joe, a cabeça inclinada para trás, os olhos semicerrados.
Sua voz ecoou pelo prédio. Começamos a caminhar desordenadamente, arrastando os bastões ao lado de nós, com exceção dos Hillsam, que usavam os deles para bater em portões de segurança e portas, como se estivessem em patrulha militar em uma zona de guerra particularmente tensa.
— Melhor virem até nós antes de nós irmos atrás de vocês! — gritou Mikey. — Ah, olá!
Na entrada de um pet shop, um homem e uma mulher enrolavam-se em cobertores do exército, os cabelos molhados de suor. Mikey elevou-se acima deles, respirando pesado, enxugando a testa. Era a cena do filme de guerra em que os soldados frustrados se deparam com aldeões inocentes e coisas ruins acontecem.
— Que diabo vocês querem? — perguntou o homem no chão.
Ele era esquelético, o rosto tão fino e chupado que parecia estar derretendo. O cabelo embaraçado chegava aos ombros, os olhos infelizes e erguidos: um Jesus espoliado. A mulher estava em melhor forma, com braços e pernas limpos e roliços, os cabelos escorridos, oleosos, mas penteados.
— Você é um Garoto Blue Book? — perguntou Stucks.
— Num sou garoto nenhum — murmurou o homem, cruzando os braços.
— Tenha um pouco de respeito, porra — interrompeu a mulher. Depois pareceu que ela ia chorar. Desviou os olhos, fingindo olhar para algo distante. — Estou cansada de ninguém ter respeito nenhum.
— Nós fizemos uma pergunta, camarada — falou Mikey, aproximando-se do cara, chutando a sola do pé dele.
— Não sou Blue Book — respondeu o homem. — Só tenho azar.
— Mentira.
— Tem muita gente diferente aqui, não só Blue Books. Mas se é isso que vocês estão procurando...
— Vão lá, vão lá, então, e encontrem eles — disse a mulher, a boca se curvando para baixo. — Vão incomodar eles.
— Eles fazem negócio lá no Buraco — completou o homem. Quando fizemos cara de que não entendemos, ele apontou. — A Mervyns, no final, depois de onde ficava o carrossel.
— E vão se foder — murmurou a mulher.
Uma mancha circular marcava o lugar onde o carrossel costumava ficar. Amy e eu havíamos dado uma volta nele pouco antes de o shopping fechar. Dois adultos, lado a lado em coelhinhos que levitavam, porque minha esposa queria ver o shopping onde eu passara tanto tempo da minha infância. Queria ouvir minhas histórias. Nem tudo era ruim entre nós.
O portão para a Mervyns fora arrombado, de modo que a loja estava tão escancarada e receptiva quanto na manhã de uma liquidação. O lugar estava vazio a não ser pelas ilhas onde antes havia máquinas registradoras e que agora abrigavam cerca de uma dezena de drogados em estágios diferentes, sob placas que diziam Joias, Beleza e Roupas de cama. Eram iluminadas por lampiões a gás de acampamento que bruxuleavam como archotes decorativos. Alguns caras mal abriram um olho quando passamos, outros estavam apagados. Em um canto distante, dois garotos recém-saídos da adolescência recitavam maniacamente o Discurso de Gettysburg. Estamos agora envolvidos em uma grande guerra civil... Um homem estava esparramado no carpete com short jeans imaculado e tênis brancos, como se estivesse a caminho do jogo de T-Ball dos filhos. Rand olhou para ele como se pudesse conhecer o sujeito.
Carthage tinha uma epidemia de drogas maior do que eu imaginava. A polícia estivera aqui ainda ontem e os drogados já haviam se instalado outra vez, como moscas determinadas. Enquanto abríamos caminho entre as pilhas de humanos, uma mulher obesa veio até nós silenciosamente em um patinete elétrico. O rosto dela era cheio de espinhas e molhado de suor, os dentes como os de um gato.
— Estão comprando ou indo embora? Porque isto aqui não é uma exposição — disse ela.
Stucks apontou a luz da lanterna para o rosto dela.
— Tire essa porra da minha cara.
Ele obedeceu.
— Estou procurando minha esposa — comecei. — Amy Dunne. Está desaparecida desde quinta-feira.
— Ela vai aparecer. Vai acordar e se arrastar para casa.
— Não estamos preocupados com drogas — expliquei. — Estamos mais preocupados com alguns dos homens aqui. Ouvimos boatos.
— Pode deixar, Melanie — falou uma voz.
No limite da seção juvenil, um homem esguio se apoiava no tronco nu de um manequim, observando-nos, um sorriso torto no rosto.
Melanie deu de ombros, entediada, aborrecida, e acelerou para longe.
O homem manteve os olhos em nós, mas gritou para o fundo da seção juvenil, onde quatro pares de pés se projetavam para fora dos provadores, sujeitos acampados em seus cubículos individuais.
— Ei, Lonnie! Ei, todo mundo! Os babacas voltaram. Cinco deles — informou o homem.
Ele chutou uma lata de cerveja vazia na nossa direção. Atrás dele, três pares de pés começaram a se mover, homens se levantando. Um par permaneceu imóvel, seu dono dormindo ou desmaiado.
— É, seus merdas, estamos de volta — disse Mikey Hillsam. Ele segurava o bastão como um taco de sinuca e acertou o tronco do manequim entre os seios. O manequim se inclinou na direção do piso e o cara Blue Book retirou o braço graciosamente enquanto ele caía, como se tudo fosse parte de uma cena ensaiada. — Queremos informações sobre uma garota desaparecida.
Os três homens dos provadores se juntaram aos amigos. Todos vestiam camisetas de festas de fraternidades: Pi Phi Tie-Dye e Fiji Island. Os bazares eram inundados com essas camisetas no verão — formandos se livrando de antigos suvenires.
Os homens eram todos musculosos, braços fortes marcados por veias azuis em alto-relevo. Atrás deles, um cara com um comprido bigode curvado e o cabelo preso num rabo de cavalo — Lonnie — saiu do maior provador do canto, arrastando um grande pedaço de cano, vestindo uma camiseta Gamma Phi. Estávamos olhando para os seguranças do shopping.
— Que que é? — perguntou Lonnie.
Não podemos dedicar... não podemos consagrar... não podemos santificar este solo..., recitavam os garotos em um timbre que era quase um grito.
— Estamos procurando por Amy Dunne, você provavelmente a viu nos noticiários, desaparecida desde quinta — explicou Joe Hillsam. — Uma moça legal, bonita, gentil, tirada da própria casa.
— Eu ouvi falar. E daí? — perguntou Lonnie.
— Ela é minha esposa — falei.
— Sabemos o que vocês fazem aqui — continuou Joe, se dirigindo apenas a Lonnie, que balançava o rabo de cavalo atrás dele, contraindo os maxilares. Tatuagens verdes desbotadas cobriam seus dedos. — Sabemos sobre a gangue de estupradores.
Olhei para Rand para ver se ele estava bem; ele olhava para o manequim nu no chão.
— Gangue de estupradores — repetiu Lonnie, jogando a cabeça para trás. — Que merda é essa que você está falando sobre gangue de estupradores?
— Vocês aí — disse Joe. — Vocês, Garotos Blue Book...
— Garotos Blue Book, como se fôssemos alguma espécie de equipe — bufou Lonnie. — Não somos animais, seu babaca. Não roubamos mulheres. As pessoas querem se sentir bem por não nos ajudarem. Está vendo, eles não merecem, são um bando de estupradores. Bem, porra nenhuma. Eu daria o fora desta cidade se a fábrica me desse meu salário atrasado. Mas não recebi nada. Nenhum de nós recebeu nada. Então aqui estamos.
— Nós lhes daremos dinheiro, uma boa grana, se puderem nos dizer algo sobre o desaparecimento de Amy — falei. — Vocês conhecem muita gente, talvez tenham ouvido alguma coisa.
Peguei a foto dela. Os Hillsam e Stucks pareceram surpresos, e eu me dei conta, é claro, de que aquilo era apenas uma diversão de macho para eles. Empurrei a foto para o rosto de Lonnie, achando que ele mal iria olhar. Mas ele se inclinou mais para perto.
— Eita, porra — reagiu. — Ela?
— Você a reconhece?
Ele parecia realmente abalado.
— Ela queria comprar uma arma.
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