Garota exemplar

Gillian Flynn · Capítulo 58 de 68

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Garota exemplar

Amy Elliott Dunne - a Noite do Retorno

AMY ELLIOTT DUNNE

A NOITE DO RETORNO

Ele se vira e, quando me vê de pé ali, parece estar com medo. Isso é algo útil. Porque não vou deixá-lo partir. Ele pode achar que estava mentindo quando disse todas aquelas coisas gentis para me atrair de volta para casa. Mas sei que não estava. Sei que Nick não consegue mentir assim. Sei que enquanto recitava aquelas palavras ele se deu conta da verdade. Clique! Porque ninguém pode estar tão apaixonado quanto estávamos e isso não invadir sua medula óssea. Nosso tipo de amor pode apresentar remissão, mas está sempre esperando para retornar. Como o câncer mais doce do mundo.

Você não acredita? Então que tal isto? Ele mentiu, sim. Não foi sincero em nada do que disse. Bem, então foda-se ele, que fez um trabalho bom demais, porque eu o quero exatamente assim. O homem que ele estava fingindo ser — as mulheres amam esse cara. Eu amo esse cara. É o homem que quero como meu marido. É o homem com quem achei que tinha me comprometido. É o homem que mereço.

Então, ele pode escolher me amar de verdade do modo como um dia amou, ou eu o colocarei de joelhos e farei dele o homem com quem me casei. Estou farta de lidar com as babaquices dele.

— Comporte-se bem — digo.

Ele parece uma criança, uma criança furiosa. Cerra os punhos.

— Não, Amy.

— Eu posso acabar com você, Nick.

— Você já fez isso, Amy. — Vejo a fúria brilhar sobre ele, tremeluzindo. — Por que em nome de Deus você quer estar comigo? Eu sou chato, banal, inacessível, inativo. Não estou à sua altura. Você passou os últimos anos me dizendo isso.

— Só porque você parou de tentar — explico. — Você era perfeito comigo quando começamos, e então parou de tentar. Porque faria uma coisa dessas?

— Parei de amar você.

— Por quê?

— Você parou de me amar. Somos uma fita Moebius doentia e tóxica para caralho, Amy. Não éramos nós mesmos quando nos apaixonamos, e quando nos tornamos nós mesmos... surpresa! Éramos veneno. Nós nos completamos da forma mais repulsiva e feia possível. Você não me ama de verdade, Amy. Você nem gosta de mim. Divorcie-se de mim. Divorcie-se de mim e vamos tentar ser felizes.

— Não vou me divorciar de você, Nick. Não vou. E juro, se tentar ir embora, eu devotarei minha vida a tornar a sua o mais medonha possível. E você sabe que posso torná-la medonha.

Ele começa a andar de um lado para outro como um pássaro engaiolado.

— Pense bem, Amy, em como fazemos mal um ao outro: os dois seres humanos mais carentes do mundo presos um ao outro. Eu vou me divorciar de você se você não se divorciar de mim.

— É mesmo?

— Vou me divorciar de você. Mas você devia se divorciar de mim. Porque sei o que já está pensando, Amy. Está pensando que não dará uma boa história: Amy Exemplar finalmente mata seu sequestrador estuprador maluco e volta para casa, para... um velho divórcio banal. Você está achando que não é triunfante.

Não é triunfante.

— Mas pense assim: sua história não é uma história melosa e séria de uma sobrevivente. Um filme de TV de 1992. Não é. Você é uma mulher forte, cheia de vida, independente, Amy. Você matou seu sequestrador, e então continuou com a faxina: você se livrou do seu marido idiota e traidor. As mulheres vão aplaudir você. Você não é uma garotinha assustada. É uma mulher durona que faz as coisas até o fim. Pense nisso. Você sabe que estou certo. A era do perdão acabou. É coisa do passado. Pense em todas as mulheres, as mulheres de políticos, as atrizes, todas as mulheres traídas, elas não ficam mais com o traidor. Não é mais apoie seu homem, é divorcie-se do babaca.

Sinto uma onda de ódio indo na direção dele, por ainda estar tentando se desvencilhar do nosso casamento mesmo que eu tenha lhe dito, três vezes, que ele não pode. Ele ainda acha que tem poder.

— E se eu não me divorciar de você, você se divorcia de mim? — pergunto.

— Não quero ser casado com uma mulher como você. Quero ser casado com uma pessoa normal.

Seu merda.

— Entendo. Você quer regredir ao seu eu capenga, fraco, perdedor? Quer simplesmente ir embora? Não! Você não vai ser um americano mediano entediante com uma garota entediante da esquina. Você já tentou isso, lembra, querido? Mesmo se você quisesse, não poderia fazer isso agora. Você será conhecido como o babaca mulherengo que abandonou a esposa sequestrada e estuprada. Você acha que alguma mulher boa vai encostar em você? Você só vai conseguir...

— Psicóticas? Piranhas psicóticas e malucas? — pergunta ele apontando para mim, o dedo em riste furando o ar.

— Não me chame assim.

— Piranha psicótica?

Seria tão fácil para ele me descartar assim... Ele iria adorar isso, ser capaz de me dispensar de forma tão simples.

— Tudo o que faço é por uma razão, Nick. Tudo o que faço demanda planejamento, precisão e disciplina.

— Você é uma piranha psicótica mesquinha, egoísta, manipuladora e disciplinada...

— Você é um homem — digo. — Você é um homem medíocre, preguiçoso, entediante, covarde, que tem medo de mulher. Sem mim, é o que você teria continuado a ser, ad nauseam. Mas eu o transformei em algo. Você foi o melhor homem que já tinha sido na vida quando estava comigo. E sabe disso. O único momento da sua vida em que gostou de si mesmo foi fingindo ser alguém de quem eu poderia gostar. Sem mim? Você não é mais que seu pai.

— Não diga isso, Amy — fala, cerrando os punhos.

— Você acha que ele também não foi ferido por uma mulher, que nem você? — digo com minha voz mais condescendente, como se estivesse falando com um cachorrinho. — Você acha que ele não acreditava merecer mais do que tinha, assim como você? Acha mesmo que sua mãe foi a primeira escolha dele? Por que você acha que ele odiava tanto vocês?

Ele vem na minha direção.

— Cale a boca, Amy.

— Pense, Nick, você sabe que estou certa: mesmo que você achasse uma garota legal, normal, pensaria em mim todo dia. Diga que não.

— Não pensaria.

— Com que rapidez você se esqueceu da pequena Andie, a Capaz, assim que achou que eu o amava novamente? — digo, com minha voz de coitadinha. Chego a fazer beicinho com o lábio inferior. — Um bilhete de amor, queridinho? Bastou um bilhete de amor? Dois? Dois bilhetes nos quais eu jurava amar você e querê-lo de volta e eu achava que afinal de contas você era simplesmente ótimo; bastou isso? Você TEM HUMOR, você é CALOROSO, você é BRILHANTE. Você é tão patético... Acha que algum dia vai poder ser um homem normal outra vez? Vai achar uma garota boazinha, e vai continuar pensando em mim, e ficará totalmente insatisfeito preso a sua vida tediosa e normal com sua esposa comum e seus dois filhos medíocres. Vai pensar em mim e então vai olhar para sua esposa e pensar: piranha burra.

— Cale a boca, Amy. Estou falando sério.

— Igualzinho ao seu pai. No fim das contas somos todas piranhas, não é, Nick? Piranha burra, piranha psicótica.

Ele me agarra pelo braço e sacode com força.

— Eu sou a piranha que o torna melhor, Nick.

Ele então para de falar. Está usando toda sua energia para manter as mãos ao lado do corpo. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Está tremendo.

— Eu sou a piranha que faz de você um homem.

E então as mãos dele estão em meu pescoço.

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