História da psicologia: pesquisa, formação, ensino
Algumas reflexões acerca de minha formação como pesquisadora em história da psicologia
Algumas reflexões acerca de minha
formação como pesquisadora em
história da psicologia
Mitsuko Aparecida Makino Antunes*
Refletir sobre um percurso formativo exige a explicitação de um processo que se dá no fluxo do tempo e é, portanto, um esforço de compreensão histórica. Nesse caso, será aqui usado como recurso o exercício da memória.
Não cabe aqui uma discussão teórica sobre a memória, seja como objeto de estudo seja como recurso metodológico; entretanto faz-se necessário tecer algumas considerações. A memória, se concebida como função psicológica construída histórica e socialmente, é sempre situada numa dimensão temporal e espacial, seletiva e multideterminada.
Usar a memória como recurso é trabalhar com uma leitura que se faz a partir do presente, embora seja este um produto histórico. Resgatar o passado tal como se deu na sua totalidade não é completamente possível, nem é tarefa que consiga chegar a ser um produto acabado. Deve-se procurar, no entanto, juntar os elementos disponíveis, organizá-los, buscando compreender suas contradições e a dinâmica de seu movimento e, fundamentalmente, tentar, com a limitação inerente ao olhar do presente, mais se aproximar do passado e compreendê-lo a partir dos sinais que permaneceram. Melhor compreendendo o passado e seu processo de construção, certamente se tornará mais límpida a compreensão do presente, no qual o passado se encontra como uma determinação e base de sustentação.
Enfim, trabalhar com a memória é como brincar com fios e lanternas.
Um fio puxa outro e, este, mais outro. Um foco de luz ilumina espaços que mostram outros e mais outros. Não se anda em linha reta, assim como não se puxam todos os fios, nem se iluminam todos os cantos.
Na tentativa de refletir sobre meu percurso como pesquisadora em História da Psicologia, muitos conjuntos de fios precisam ser buscados: a pesquisa, a psicologia, a história, a filosofia, a educação. Nada disso ocorreu isoladamente, os fios encontram-se entremeados e têm sua origem num tempo já distante; buscá-los leva-me para a infância, antes mesmo da entrada na escola.
Passei minha infância e minha adolescência numa farmácia. Mais precisamente, foi no laboratório de uma “pharmacia”, cujas atividades eram em grande parte as “manipulações”, que eu passei os primeiros anos de vida. Graus, pistilos, espátulas, balanças, vidros, rolhas, cápsulas e uma infinidade de “substâncias químicas” competiam com vantagem com bonecas e panelinhas. Os primeiros eram muito mais interessantes para uma criança; era fascinante ver a mudança de cor provocada pela mistura de amoníaco com “lacto-purga” (fenolftaleína), discriminar substâncias pelo cheiro que exalavam ou tentar “fabricar” pó-de-arroz com amido, perfume e anilina.
Já alfabetizada, era particularmente interessante folhear o “Chernoviz”, a “Farmacopéia Brasileira” e o “Tratado Médico da Família”, para descobrir remédios e as doenças para as quais serviam. Na escola, principalmente no ginásio, era bastante prazeroso saber de antemão algumas coisas e, sobretudo, entendê-las melhor. Creio que nesse processo, em que se complementavam as brincadeiras (ou trabalho mesmo) na farmácia e o conhecimento sistematizado pela escola, alicerçou-se o gosto pela “pesquisa”, entendida esta como tentativa de conhecer o que era então desconhecido.
A escola, porém, nem sempre vinha ao encontro de meus interesses ou conseguia estimular minha curiosidade e gerar prazer pelo conhecimento. A disciplina “ciências” era obviamente a de que eu mais gostava e na qual sempre me saía melhor. História e Geografia, por outro lado, eram disciplinas pelas quais eu passava fazendo o mínimo necessário para ser aprovada simplesmente; considerava-as “burras” e sem sentido ou utilidade.
“Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados” era algo que eu tentava decorar, escrever nas provas e que, todavia, nunca consegui compreender essa pretensa definição. Que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, dividido em capitanias hereditárias, Tiradentes foi um inconfidente, a independência proclamada, os escravos libertados e o país tornou-se república (aliás, os conteúdos nunca passaram deste ponto) foi tudo o que vi, tentei decorar, escrever nas provas e, certamente, nunca compreendi. Disso tudo, a pior conseqüência foi o desinteresse. Durante muito tempo, considerei a história como um conhecimento morto sobre coisas mortas.
Decididamente, eu preferia a “ciência”, conhecimento vivo sobre a vida, interessante, inesgotável, rica e tangível, que aguçava minha curiosidade para tentar encontrar no mundo suas razões.
Ao ingressar no colegial, optei pela área de ciências físicas e biológicas, tendo consolidada a decisão pelo curso superior em Biologia ou em áreas afins. Entretanto, a firmeza de tal opção desequilibrou-se com a disciplina Filosofia.
Era início da década de 70, governo Médici, anos mais duros da repressão; o movimento estudantil que existira na escola já estava amordaçado. O professor de Filosofia, porém, discutia com os alunos se “o existencialismo era um humanismo”, questionando-os sobre o que eram, quem eram e o que faziam no mundo. Concomitantemente, participávamos do que restara do grêmio, tentando produzir um jornal, promovendo bailes e procurando “ler nas entrelinhas” as músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso. Deve-se aqui, contudo, abrir um parêntese. As disciplinas Sociologia e Psicologia, que deveriam ser dadas por Maria Nilde Mascelani e Neusa Goiano respectivamente, por “afastamento” destas, foram dadas por outras professoras. Em Sociologia, creio que as professoras cumpriram efetivamente e com competência a tarefa de substituir a professora efetiva, sendo a forma e os conteúdos por elas trabalhados somados ao esforço do professor de Filosofia, Bacan. Em psicologia, porém, os conteúdos trabalhados giraram em torno das “glândulas de secreção interna”, que eram por sua vez muito mais bem abordadas pela professora de Biologia; resumindo, passei por esta disciplina como pela História e pela Geografia.
Enfim, a Filosofia desestabilizou minha antes firme opção pela Biologia, embora eu já tivesse começado a me preparar para o vestibular nessa área. No meio do semestre, ingressei no curso de Psicologia, pois apesar da experiência com a disciplina no colegial, acreditava que ela pudesse ser uma possibilidade de conciliação entre os dois interesses básicos – Biologia e Filosofia –, isto é, uma área híbrida do conhecimento, em que se faziam presentes tanto as ciências biológicas quanto as ciências humanas.
Iniciei o curso de Psicologia em 1973, ainda sob o governo Médici. Livros, autores e idéias continuavam proibidos quando constantes do index da censura do governo militar. O medo e a desconfiança eram freqüentes entre alunos e professores, os quais nunca sabiam se quem estava ao lado era um “dedo-duro” da repressão; isso inibia o debate e a livre expressão de idéias, mas não os impedia ou eliminava essa possibilidade; em verdade, estabelecia-se uma comunicação sutil, que permitia a discussão dos problemas sociais do país à luz da Psicologia.
O behaviorismo era a abordagem hegemônica, com ênfase maior na Análise Experimental do Comportamento e, particularmente, na metodologia de pesquisa a ela vinculada. Esse fato, porém, merece uma análise especial, pois é comum a conclusão simplista e geralmente descontextualizada que identifica o behaviorismo, sobretudo as idéias de Skinner e de seus seguidores como expressão do conservadorismo de uma Psicologia que era, mais do que tolerada, articulada aos interesses do regime ditatorial.
Em primeiro lugar, muitos daqueles que faziam de sua prática docente e de pesquisa uma maneira de resistir ao regime, eram os denominados behavioristas. A maioria dos professores que discutiam em sala de aula as questões sociais mais fundamentais era do grupo dos “skinnerianos”, fazendo-o à luz das formulações por eles defendidas. Eram estes que, ao enfatizar os determinantes ambientais e, por decorrência, sociais dos problemas que eram enfrentados pela maioria da população brasileira, nos faziam pensar e refletir de maneira mais ampla e crítica. Não por acaso eram, em geral, estes que defendiam a ação educacional por meio da Psicologia, considerando-a como meio efetivo de transformação da realidade e condição para a democracia. Não posso negar que muitos desses professores influenciaram muito o posicionamento político-ideológico que fui assumindo ao longo do tempo e que se fazem presentes, indubitavelmente, na postura que assumo perante a Psicologia e a pesquisa, ainda que o behaviorismo não tenha sido para mim uma opção teórico- metodológica. Creio que o pressuposto ambientalista e a fundamentação materialista da Análise Experimental do Comportamento foram fatores determinantes do posicionamento que muitos de seus defensores assumiram. Aliás, o resgate dessa história e uma compreensão mais orgânica desses fatos devem ser urgentemente objeto de pesquisa da História da Psicologia no Brasil.
Por outro lado, foi precisamente esse grupo que fortaleceu a preocupação com a metodologia da pesquisa e o incentivo para o desenvolvimento de atividades nesse âmbito. Algumas disciplinas ocuparam-se diretamente com este tema: Metodologia Científica, Observação, Laboratório de Psicologia Geral e Experimental, Estatística e pelo menos três semestres de Psicologia Experimental (planejamento experimental, elaboração de projetos e execução de pesquisa em diferentes situações). Outras disciplinas ocuparam-se dessa questão indiretamente, trabalhando os conteúdos a partir da leitura de pesquisas realizadas ou incluindo algumas ações próprias da pesquisa em situações práticas, para o desenvolvimento de atividades acadêmicas. Acrescentam-se a isso muitas aproximações com o que consideramos pesquisa bibliográfica, a título também de elaboração de trabalhos acadêmicos, sendo muitas vezes exigidos procedimentos rigorosos não apenas na coleta de dados e amplitude da bibliografia disponível, mas também na apresentação formal do produto obtido; devo ressaltar, inclusive, que um dos trabalhos que realizei nesse nível, para a disciplina Psicologia Escolar e Problemas da Aprendizagem, foi a base da minha dissertação de mestrado.
Estas disciplinas foram justamente as que mais me interessaram, sendo que exerci em várias delas atividades de monitoria. Não existindo na época programas de Iniciação Científica, este era o caminho para o envolvimento com projetos de pesquisas e grupos de estudo com equipes de professores, além da colaboração em sala de aula nas atividades de ensino.
A conjugação do incentivo à pesquisa, o aprofundamento teórico numa abordagem e as atividades de monitoria, ainda que colocados numa única concepção de Psicologia e pesquisa, foi, a meu ver, um privilégio na minha formação. A despeito da unidirecionalidade, considero que uma base teórica sólida, sobretudo, numa abordagem que prima pelo rigor metodológico, deu-me condições para transitar com mais segurança e facilidade por outras perspectivas teóricas e metodológicas.
Ainda na graduação, outro elemento marcante em minha formação foi a disciplina História da Psicologia, que me trouxe concomitantemente a compreensão da Psicologia como produção histórica e os conteúdos filosóficos, que desde o colegial se encontravam latentes. Não é necessário dizer que o encontro com essa disciplina foi um momento fundamental para minha formação, pois além de legitimar minha opção pela Psicologia, mostrou-me um caminho possível para me dedicar no futuro. Essa disciplina constituiu-se para mim num momento de síntese, cujo conteúdo foi catalisador de questionamentos e impasses que outros professores nos levavam a discutir e refletir. História da Psicologia contribuía não apenas para a compreensão dos fundamentos filosóficos da Psicologia, mas também para pensá-la global, histórica e, sobretudo, criticamente.
Por outro lado, o antigo interesse pela Biologia encontrou na Etologia uma possibilidade de concretização. Não havia uma disciplina específica que abordasse os estudos etológicos, mas alguns professores estavam vinculados a essa área e realizavam pesquisas no Departamento de Psicologia Experimental da USP. Por intermédio deles, procurei suprir a lacuna com leituras nessa área; foram particularmente relevantes a coletânea denominada “Psicobiologia” da revista Scientific American, as obras de Lorenz e de Tinbergen, além do conhecimento de algumas pesquisas que estavam sendo realizadas.
Entretanto, no quarto ano de graduação, tive as disciplinas Psicologia Escolar e Problemas da Aprendizagem I e II, que não apenas retomavam as questões e discussões feitas em outras disciplinas, como passavam a ocupar-se especificamente da questão educacional brasileira. Era 1977, ampliava-se a resistência à ditadura militar e esta já dava mostras de enfraquecimento; não apenas o movimento estudantil se ampliava, mas as salas de aula podiam então ser palco de discussões de idéias e obras até pouco tempo proibidas. A dimensão política da educação vinha a ser o “chão” sobre o qual se discutiam as possibilidades e as potencialidades da atuação da Psicologia na Educação.
No final do curso, então, mais uma vez encontrava-me dividida: o gosto pela Biologia e a opção pela Etologia de um lado, e de outro a Educação e sua articulação com a ação política e a Filosofia. A solução foi política. Optei pela Educação pelos motivos já mencionados, sobretudo pela idéia de que a atuação educativa poderia ser uma contribuição para a tentativa de superação de uma Psicologia elitista e muitas vezes atrelada a interesses que não os da maioria da população.
Obviamente, a opção pela pesquisa já havia sido feita muito tempo antes. Ingressei então na pós-graduação em Filosofia da Educação, em busca de um contato mais próximo com autores e idéias com os quais tive contato no final da graduação e que traziam uma reflexão bastante crítica do sistema educacional brasileiro.
Nessa mesma época comecei a lecionar em faculdades particulares, tendo me dedicado especialmente ao ensino de Metodologia Científica e Psicologia Geral, abordando nesta última os conteúdos de História da Psicologia, pois não havia tal disciplina nos currículos destes cursos. Desde que me formei, praticamente nunca deixei de trabalhar com estes conteúdos e considero esse trabalho como talvez uma das principais fontes de aprendizagem e aprofundamento destes temas, sendo que o contato com os alunos foi um dos principais canais de interlocução das minhas atividades de pesquisa.
No curso das disciplinas do mestrado tive a oportunidade de tomar contato e aprofundar discussões com diversas idéias filosóficas e sociológicas, assim como com a crítica à Psicologia e muitas de suas influências na Educação. Estas idéias, calcadas, sobretudo, no materialismo Histórico e Dialético, privilegiavam, por seus pressupostos, a necessidade da compreensão histórica; esse veio analítico fazia-se presente na maioria das disciplinas, mas em “História da Educação Brasileira” ele se concretizava mais radicalmente, tentando aprofundar a compreensão histórica da educação no país e nas relações que se estabeleciam entre esta e os fatores econômicos, políticos, sociais e culturais.
Esta disciplina veio mudar o que eu pensava da História até então. Desvelava-se para mim a possibilidade da História poder constituir-se numa disciplina viva sobre coisas vivas. Comecei a conhecer um pouco da História do Brasil e, principalmente, dei-me conta da impossibilidade de compreensão da realidade brasileira sem o conhecimento de sua história. O mesmo poderia ser dito em relação à Educação. Foi, todavia, no estudo da História da Educação Brasileira que me deparei com inúmeros elementos que sugeriam a História da Psicologia no Brasil; mais precisamente o desenvolvimento das idéias escolanovistas e as tentativas de sua implantação no país mostravam nitidamente a influência das teorias psicológicas, a implementação de algumas de suas técnicas – principalmente a psicometria – e a ampliação da difusão de seus conteúdos. Embora devesse ser óbvio, dei-me conta que trabalhava com História da Psicologia, mas nunca tivera a preocupação com sua história específica no Brasil.
Esse momento coincidiu com a necessidade de elaboração do projeto de pesquisa para o mestrado. Muitas idéias e temas competiam para esse fim, porém, este fato então recente facilitou a decisão. Decidi-me por estudar as relações entre as idéias escolanovistas e a constituição da Psicologia no Brasil, enfocando especificamente a contribuição de Lourenço Filho. A dificuldade de localização dos materiais necessários ao trabalho e a escassez de tempo levaram-me, porém, a adiar este projeto, reservando-o para o doutorado. Mantendo-me, no entanto, na finalidade de buscar articular o pensamento escolanovista e a Psicologia, decidi-me por desenvolver um trabalho que tivera sua origem na graduação, qual seja: o estudo do Sistema Educacional e da Psicologia em Maria Montessori.
Nesse processo, descobri que a História da Psicologia no Brasil era um campo fértil e rico e, no entanto, praticamente intocado. Poucos trabalhos existiam a esse respeito: Lourenço Filho, Annita Cabral, Isaías Pessotti, Samuel Pfromm Neto e Antonio Gomes Penna eram autores dos poucos artigos disponíveis na época. Marina Massimi, Regina Helena de Freitas Campos e Iris Goulart ainda não haviam concluído seus primeiros trabalhos. Já no doutorado, conheci os trabalhos de Marina Massimi e Regina Helena de Freitas Campos, que me foram fundamentais, não apenas no sentido de reforçar minha opção, mas como experiências teórico- metodológicas bem-sucedidas. Deveu-se esse contato fundamentalmente à professora Maria do Carmo Guedes, que orientou minha tese de doutoramento. O projeto original, acima citado, objetivava enfocar a atuação de Lourenço Filho. Entretanto, fazia-se necessário compor o quadro histórico no qual sua produção estivesse organicamente inserida. Logo no início da pesquisa, esta necessidade estabelecida a priori acabou por tornar-se a própria pesquisa. Esse período da história e, sobretudo, seus antecedentes haviam sido muito pouco estudados e explorados; os “fatos” encontravam- se meramente citados e organizados em seqüência cronológica; poucos estudiosos, com exceção de Antonio Gomes Penna, haviam se debruçado sobre a produção da Psicologia nessa época.
Impunha-se, pois, pela opção metodológica assumida – que não se limitava a uma perspectiva internalista na abordagem do objeto de estudo, mas no entendimento de que era também necessário compreendê-lo na sua historicidade –, a tentativa de melhor compor o quadro mais amplo em que Lourenço Filho, o escolanovismo e a Psicologia se inseriam. Buscava-se, em última instância, a composição de um quadro, cujas peças estavam em geral soltas, perdidas, escondidas ou misturadas.
A composição desse quadro iniciou-se a partir dos poucos trabalhos sobre a História da Psicologia no Brasil; alguns estudos sobre a História da Medicina – particularmente a Medicina Social e a Psiquiatria –, em número e qualidade relativamente superiores ao que havia sobre a Psicologia; os estudos, em profusão, sobre a História da Educação Brasileira e obras de História do Brasil. Por esse caminho, principalmente, cheguei a muitas das fontes primárias com as quais trabalhei.
Nessa busca, cujo percurso foi difícil, frustrante e, ao mesmo tempo, apaixonante, constituiu-se o trabalho que apresentei como tese de doutorado: O processo de autonomização da Psicologia no Brasil-1890/1930: uma contribuição aos estudos em História da Psicologia.
Foi difícil, porque as fontes não estavam disponíveis; era necessário partir de indícios, muitas vezes precários, para se chegar a elas; certamente há muitas fontes ainda não identificadas que precisam sê-lo. Frustrante, porque muitas obras são já consideradas quase que definitivamente perdidas; a preservação da memória não é realmente um traço de nossa cultura. Apaixonante, por inúmeros motivos; como Marina Massimi, encontrei autores e obras de grande originalidade e atualidade, com Ulysses Pernambucano e principalmente Manoel Bomfim; deparei-me com fatos, obras e autores nunca antes imaginados da maneira como eram; mudou profundamente e ampliou-se minha compreensão da Psicologia, do Brasil e, particularmente, da Psicologia no Brasil.
A afirmação da Psicologia e, sobretudo, da História da Psicologia no Brasil foi a decorrência mais importante desse trabalho. Ao mesmo tempo em que ficava cada vez mais nítida a opção por trabalhar nessa área do conhecimento, vinha também a clareza de sua relevância acadêmica e social. Explicitava-se que a compreensão da Psicologia implicava necessariamente no conhecimento de sua história; em outras palavras, ficava nítido que o entendimento do presente exige a consideração de seu processo histórico de construção, assim como seus projetos para o futuro implicam no reconhecimento profundo do presente e seus determinantes.
Na seqüência, debrucei-me sobre a obra de Manoel Bomfim, este autor banido da memória do pensamento brasileiro e só muito recentemente resgatado como talvez um dos mais brilhantes intelectuais deste país. Tenho-me detido particularmente em suas obras educacionais e psicológicas, em que o fenômeno psíquico é por ele concebido como eminentemente histórico-social, mediatizado pela linguagem e portador de uma complexidade que só pode ser apreendida no estudo da obra humana ao longo da história. A expectativa desse trabalho é restituir-lhe a vida, resgatando-o para a memória da Psicologia brasileira e tentar compreender os motivos de seu “esquecimento”.
Paralelamente, tenho me dedicado ao ensino da História da Psicologia no Brasil e me empenhado na divulgação de seus conteúdos. Creio mesmo que se poderia falar em militância, cujo objetivo é fundamentalmente socializar conhecimentos, ainda que reconhecidamente precários, com vistas a contribuir com a consolidação dessa área de conhecimento e, de maneira esperançosa e talvez pouco modesta, estimular novos pesquisadores a dedicarem-se a esta temática.
Não posso negar que me considero privilegiada, quando releio o que acabei de escrever e entrevejo os caminhos por que passei. Fatores que podem ser considerados conjunturais, como ter crescido numa farmácia “antiga”, ter sido aluna de professores que faziam de seu trabalho docente também uma maneira de participar ativamente de seu tempo, foram condições fundamentais para minha formação. Por outro lado, elementos mais diretos; como a ênfase na pesquisa e o contato com idéias e teorias comprometidas com determinadas concepções de Psicologia e Educação e, particularmente, com a afirmação de sua historicidade, deram as bases para minha formação, embora esta não esteja e nem jamais poderá estar acabada;, assim como a leitura histórica, a formação do pesquisador (em verdade, toda e qualquer formação) será sempre incompleta, inacabada e passível de superação.
* Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da PUC-SP.