História Pitoresca: Palavras e Frases Célebres
LXXXVI Annel de Gyges
LXXXVI
Annel de Gyges
Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.
—Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?
D'aqui a frequente applicação que se faz do annel de Gyges, em litteratura e na conversação.
O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu modo n'estes versos:
«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso «Nos casos falsos, ou na pura phantasia,
«—Agora o sei—a si se engana em demasia, «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso. «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador, «Com um brilhante que tenha um subido valor,
«E vereis como faz a sua claridade,
«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido, «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto. «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo, «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»