História Trágico-Marítima
Prólogo ao Leitor
NAUFRÁGIO QUE PASSOU
JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO
Vindo do Brasil para este Reino no ano de 1565.
ESCRITO
Por BENTO TEIXEIRA PINTO
Que se achou no dito naufrágio.
PRÓLOGO AO LEITOR
Costume foi mui bem recebido entre os antigos, quando alguma pessoa escapava de notável perigo ou enfermidade, apresentar no Templo uma tábua em que o perigo que passara, estivesse escrito. Prova ser isto assim Estrabão, no oitavo livro de sua Geogra a, dizendo que o primeiro que pôs a Medicina em arte foi Hipócrates, recolhendo todas estas tábuas e escritos, em que se continham as doenças que sucederam a cada um, e o remédio de que contra elas usara. Pois sendo assim (benigno Leitor) não creio que deixará este breve Sumário de um naufrágio tão estranho como este de ser bem recebido, pois ambas as razões tem por si. A primeira, a obrigação que temos todos os que chegámos vivos deste trabalho a porto de salvamento, de noti carmos ao mundo a mercê que a Virgem Madre de Deus nos fez em nos livrar dos estranhos e não cuidados trabalhos que passámos: e a segunda, mostrar o remédio de que nos neste caso tão temeroso aproveitámos, que foi de muitas lágrimas, contrição e arrependimento de culpas passadas, pedindo de contínuo misericórdia a Nosso Senhor. E nenhuma cousa esperei menos, que poder este naufrágio vir a ser sabido por escrito: porque ainda que nossa natureza é sujeita aos trabalhos e todavia não agasalha bem a lembrança deles, pela pena que nos dá o que vimos com os olhos. E quem diz que a lembrança dos trabalhos passados dá gosto, não se viu nunca nestes nem em outros semelhantes; porque o gosto que se recebe na memória deles nasce do descanso em que se vê quem os passou, e não do lembrar-se de ver tão particularmente a morte ao olho, como dizem. E não haja ninguém por fraqueza o que digo, porque Virgílio, excelente Poeta, em um tão valoroso e esforçado Cavaleiro, como pintou em Eneias, pôs muito receio de contar os trabalhos passados, dizendo que lhe fugia o entendimento da lembrança deles. E por esta razão não esperei de escrever este discurso. Porém por me parecer, que seria ingrato às grandes mercês que de Nosso Senhor recebemos os que deste naufrágio escapámos, dos quais eu fui um deles, e mais pecador, determinei fazer esta relação, por ver quantos anos há que isto aconteceu, sem até hoje haver pessoa que de cousa tamanha zesse memória. E persuadido de alguns meus amigos que a imprimisse, não o quis fazer sem que primeiro amostrasse a Jorge de Albuquerque, que nesta nau vinha: e como ele fosse a principal pessoa da companhia e o que mais trabalhos passou por nos animar e esforçar, assim com palavras de consolação como com obras e orações, que de contínuo fazia a Nosso Senhor, não no achei remoto desta lembrança em cousa alguma; antes me trouxe à memória outras muitas cousas, de que eu estava bem esquecido: e muitas mais deixei de escrever, as quais pediriam (a meu juízo) outro tanto papel. Mas por me parecer que estas de que faço menção bastam para dar motivo aos homens que louvem ao Senhor e tenham sempre muita con ança na sua misericórdia, quando nos maiores trabalhos se virem, quis antes ser notado de breve, que de perluxo. Porque meu intento principal é ser Nosso Senhor louvado e glori cado de todos: o qual usando de sua benignidade com a igidos os tira de perigos e chega a salvamento. Pelo que peço não olhem às palavras, que são as que são, mas ao intento, que é ser o Senhor louvado para sempre.