História Trágico-Marítima
Naufrágio
QUE PASSOU
JORGE DE ALBUQUERQUE
COELHO
Vindo do Brasil para este Reino no ano de 1565.
No tempo que a rainha D. Catarina avó d’El Rei D. Sebastião governava este Reino de Portugal por seu neto, veio nova do Brasil e da Capitania de Pernambuco, que os mais dos principais dos gentios, que na dita Capitania havia, estavam alevantados contra os Portugueses e tinham cercados os mais dos lugares e vilas que na dita Capitania havia. Pela qual razão a dita rainha mandou a Duarte Coelho de Albuquerque, que era herdeiro da Capitania, que a fosse socorrer. E por saber e entender quão necessário lhe era levar consigo seu irmão Jorge de Albuquerque Coelho, pediu à rainha que mandasse ao dito seu irmão que o acompanhasse no socorro daquela Capitania, e foi-se com ele para o ajudar a socorrê-la como foi, por lhe a dita senhora rainha mandar, que acudisse àquela necessidade, pelo serviço que nisso fazia a Deus, e a El Rei seu neto, e ao bem do povo desse Reino. Chegou à dita Capitania no ano de 1560, sendo ele de idade de vinte anos. E por ter já alguma experiência das cousas da guerra, assim do mar como da terra. Depois de seu irmão Duarte Coelho de Albuquerque tomar posse da Capitania, e servir de capitão e governador dela, chamou a conselho alguns padres da Companhia graves que estavam no Colégio que os ditos Padres têm na vila de Olinda, uma das principais vilas que há na Capitania de Pernambuco, e muitos homens honrados dos principais do governo da terra, e se assentou entre todos que se elegesse por geral da guerra e conquistador da terra da dita Capitania Jorge de Albuquerque Coelho, o qual como lhe disseram que cumpria muito ao serviço de Deus, e d’El Rei, e bem do povo daquela Capitania, aceitar e servir o dito cargo, o aceitou, e aventurou e arriscou perder a vida, por fazer ele serviço a Deus e a EI Rei, e bem ao povo, e fazer o que a dita senhora rainha D. Catarina lhe tinha mandado e encomendado. Começou a fazer guerra aos inimigos no dito ano de sessenta, com trazer em sua companhia muitos soldados e criados seus, a quem dava de comer, beber, vestir e calçar à sua custa. E cinco anos que gastou em conquistar a dita Capitania pelas montanhas e desertos, verões e invernos, de noite e de dia, passou muitos em si grandes trabalhos, sendo ele e os seus soldados e criados feridos muitas vezes, pelejando algumas vezes a pé e outras a cavalo. E quando se vinha recolher a alguns dos lugares ou vilas dos nossos portugueses, que via que não podia chegar com de dia, no maior e mais formoso bosque que achava, se agasalhava ao pé das árvores, com mandar fazer choupanas de rama e palma em que se agasalhassem os soldados; e estas ramas e choupanas mandava fazer por muitos escravos que trazia em sua companhia, que serviam de descobrir e vigiar o campo, e o lugar onde se agasalhavam, juntamente com alguns soldados, passando tantas fomes e necessidades, que muitas vezes não tinham que comer mais que caranguejos do mato e farinha de pão e fruta brava do campo. E com estas cousas, e com as palavras que usava com os soldados, os contentava e consolava; e quando tomava algum forte ou aldeia dos gentios, fartava os ditos soldados com muitos porcos, galinhas e outro muito mantimento da terra, que achava nas ditas aldeias: e acabada de tomar alguma aldeia, ia logo sobre outra e a tomava com facilidade, por não terem tempo de se fazerem prestes. E com essa diligência e brevidade que pôs nessa conquista, a pôde conquistar dentro em cinco anos, estando tão povoada de inimigos que quando chegou à dita Capitania por mandado da rainha D. Catarina, não ousavam os portugueses que moravam na vila de Olinda a sair fora da Vila mais que uma duas léguas pela terra dentro, e ao longo da costa três ou quatro léguas; e depois que acabou de a conquistar, seguramente podem ir quinze vinte léguas pela terra dentro, e sessenta ao longo da costa, por tantas ter a dita Capitania de jurisdição. E deixando a Capitania conquistada, e os inimigos quietos e pací cos, com pedirem paz, a qual lhe concederam, se embarcou e veio para este Reino na nau Santo António, na qual viagem lhe aconteceu o que neste naufrágio se contém.
Quebrantado Jorge de Albuquerque dos trabalhos que passara em companhia de Duarte Coelho de Albuquerque seu irmão, no descobrimento do Rio de S. Francisco, da Capitania de Pernambuco no Brasil, e assim das guerras, que por espaço de cinco anos duraram na Capitania depois do dito descobrimento, em o qual tempo se passaram grandes trabalhos, fomes e mortes, e esteve toda a Capitania em risco de se perder: deixando tudo pací co, e querendo-se vir para este Reino, determinou embarcar-se em uma nau nova de duzentos toneis, por nome Santo António, que estava carregando no porto da vila de Olinda, na mesma Capitania, para fazer viagem a esta cidade de Lisboa; de que era mestre André Rodrigues e piloto Álvaro Marinho, homens destros na arte de navegar e que tinham feito muitas viagens. E estando a nau carregada com muita fazenda, e embarcado ele e todos os que nela haviam de vir, quarta-feira dezasseis de maio do ano de 1565, com vento de viagem deram à vela e se partiram do dito porto com vento em popa. E não eram bem fora da Barra quando lhe acalmou o vento com que partiram, e se lhe tornou tão contrário, que por ser rijo e com a corrente da maré, que começava a vazar, os levou a través, de maneira que foram com a nau dar em um baixo que está na boca da Barra, onde esteve quatro marés mui perto de se perder, se os mares foram mais grossos. E por lhe acudirem com presteza muitos batéis e outras embarcações, se salvou toda a gente e a maior parte da fazenda, que era muita. E nem assim descarregada pôde sair do baixo em que estava; pelo que lhe cortaram os mastros, e com estes benefícios nadou e saiu dos baixos. Tornando ao porto da Vila foi vista por o ciais para saber se estava boa para fazer viagem, e por acharem que a nau não recebera dano que lhe fosse inconveniente para navegar, se tornou a consertar de novo e a carregar. E vendo muitas pessoas amigas de Jorge de Albuquerque que ele se queria tornar a embarcar na mesma nau, lhe foram à mão e lhe quiseram persuadir com palavras que se não embarcasse em nau tão infeliz no princípio de sua viagem, porque não podiam deixar de lhe suceder muitas desventuras no decurso dela, segundo os maus princípios que tivera. E corria isto por prática entre todos os moradores da vila, dizerem a seus amigos que se guardassem de fazer viagem em nau que prometia mil infortúnios em seu caminho. E sem embargo de tudo isto, não querendo ele Jorge de Albuquerque nem os da sua companhia o que lhe prognosticavam, antes con ando na misericórdia de Nosso Senhor, e não temendo juízos da gente vãos e sem fundamento, se tornou a embarcar na nau com todos de sua companhia e se partiu da vila de Olinda sexta-feira vinte e nove de junho dia de S. Pedro e S. Paulo do mesmo ano de 1565.
Do dia que partimos do porto a cinco dias, que foram dois de julho, vindo com o mesmo vento de viagem com que partimos, subitamente se mudou, e ventando-nos o contrário do que havíamos mister, veio a ser tão rijo, que por a nau vir muito sobrecarregada, e não poder aguardar bem a vela, nos foi forçado
começarmos1 a alijar muita fazenda ao mar, esperando que com isto mareasse a nau melhor. Mas tendo alijado o que parecia que fazia pejo à nau, no mesmo dia à tarde nos deu um tempo tão rijo e forçoso, que a nau abriu uma água muito
grande, tanto que dávamos seis mil zonchaduras2 à bomba entre noite e dia. E indo com esta água aberta, aos seis de julho nos achámos na altura da linha, e com os mares grossos. Fazendo viagem nos deu um pé de vento que nos quebrou o gurupés da cevadeira. Parece que queria Nosso Senhor dar a entender aos que na nau iam que não fossem por diante, pois em tão poucos dias de viagem se lhes ofereciam tantos trabalhos. Visto por todos os da companhia e o ciais da nau o gurupés quebrado, e a muita água que a nau fazia, se assentou que arribássemos às Antilias, ao que o piloto e mestre reponderam, que não podia ser, pelo tempo lhes ser Contrário, e não lhes servir, e que com o tempo que levávamos era impossível arribar às Antilias, nem ao porto donde partíramos. Com esta resposta algum tanto desconsolados, pelo trabalho em que íamos, seguimos nossa derrota e
viagem, porque não podíamos al3 fazer. E sendo na altura de doze graus da banda do norte, nos acalmou o vento que até ali trouxéramos, e andámos
dezanove dias em calmarias com muitas trovoadas: e como tivemos tempo 4 determinámos ir demandar a Ilha de Cabo Verde, em cuja altura estávamos, para tomarmos a muita água que fazíamos e fazermos o mastro da cevadeira, que trazíamos quebrado. E sendo com a Ilha, quase à vista dela, nos apareceram no
mar uma nau e uma zabra 5 de franceses a vinte e nove de julho, dia de Santa Marta: e havendo os franceses vista da nau, a seguiram até às três horas da noite, em que se puseram à fala connosco, dizendo que nos déssemos: e entendendo dos nossos que se aparelhavam para pelejar e defender-se, não nos ousaram acometer logo com a grande escuridão da noite e se deixaram andar na nossa esteira, para pela manhã nos abalroarem. E ao outro dia, que foram trinta de julho, antemanhã nos deu uma trovoada tamanha que lhes foi forçado apartarem-se uns dos outros, sem se verem pela cerração que fazia. E ao derradeiro de julho, querendo demandar a Ilha nos deu o vento por riba da terra tão rijo, que nos foi forçado fazer nossa viagem por não poder tomar a Ilha, indo arriscados a muito perigo, pela muita água que fazíamos. E com este tempo corremos até nos pôr na altura
de trinta e sete graus, e muito perto da Terra Nova, por a nau abater 6 muito com o tempo que trazíamos. E nesta altura, trinta e sete graus, andámos oito dias em calmarias, no m dos quais, dia da Degolação do Bem-aventurado S. João Baptista, a vinte e nove de agosto, nos ventou vento largo e próspero, com que determinámos vir demandar as Ilhas para concertarmos a nau e tomarmos a muita água que fazíamos, que, além da que trazíamos se nos abrira outra, a qual junta era tanta, que de noite e de dia continuamente dávamos à bomba. Faltava já neste tempo a água e mantimento na nau e padeciam-se muitas necessidades de fome e sede; e sabendo Jorge de Albuquerque a necessidade em que vínhamos, e que não havia na nau mais mantimento que o que ele trazia para si e para seus criados, mandou trazer diante de todos todo o seu mantimento e o repartiu pela companhia irmãmente, sem querer nada por ele, posto que todos lho queriam pagar por valer muito, e ele não quis por ele cousa alguma, com o que caram contentes todos e se consolaram e sustentaram por espaço de alguns dias. Mas o demónio, que não sofre ver ninguém contente, semeou, entre os marinheiros e passageiros que vinham na dita nau, brigas e discórdias, com que se houveram de perder de todo: e quis Nosso Senhor, por sua piedade, que fosse sabedor disso Jorge de Albuquerque, para meter a mão entre eles, como fez, e os apaziguou e pôs em paz, com a qual sentíamos menos os trabalhos que passávamos.
Vindo com as necessidades que tenho ditas demandar as Ilhas, uma segunda-feira, três de setembro, fazendo-se o piloto com elas, veio ter connosco uma nau de corsários franceses, artilhada e concertada como elas andam: e por a nossa vir desarmada e sem artilharia, como a maior parte delas ou quase todas andavam neste tempo, vendo o piloto, e mestre, e os mais da nau, que não tinham
com que se defender, porque não trazíamos mais artilharia, que um só falcão 7 e
um berço8, e as armas que Jorge de Albuquerque trazia para si e para seus criados, determinaram de se render e entregar aos franceses. Ao que acudiu Jorge de Albuquerque dizendo que nunca Deus quisesse nem permitisse que a nau em que ele vinha se rendesse sem pelejar e se defender quanto possível fosse; por isso que trabalhassem todos por fazer o que deviam e o ajudassem a pelejar e não se quisessem entregar como covardes e fracos, que se eles ou a maior parte deles ajudassem a pelejar, que com ajuda de Nosso Senhor, somente com o berço e falcão que tinham, esperava de se defender. E para isso lhes fez uma fala, qual o tempo sofria, persuadindo-os ao ajudarem, com palavras de muito esforço. Mas como a nau vinha tão desapercebida de armas e os mais que nela vinham fossem tão fracos de coração, não achou Jorge de Albuquerque quem o quisesse ajudar a defender a nau, mais que sete homens que para isso se lhe ofereceram. E assim com eles somente, contra o parecer de todos os mais, se pôs às bombardadas, arcabuziadas e frechadas com os franceses. Durou esta briga perto de três dias, sem neles ousarem os franceses a nos abalroarem, pela brava resistência que achavam na nau, posto que os que pelejavam eram poucos, e a nau não trazia mais que um berço e um falcão, que Jorge de Albuquerque carregava e
borneava9 e lhe punha o fogo, por não vir na nau bombardeiro nem quem o soubesse fazer melhor que ele. E vendo o piloto, mestre e marinheiros, que havia perto de três dias que andavam neste trabalho, e que a nossa nau e gente tinham recebido muito dano da artilharia e arcabuzaria dos franceses, e que nos ia faltando a pólvora, requereram a Jorge de Albuquerque e aos que o ajudavam, da parte de Deus e d’El Rei, que se dessem e consentissem render-se, pois não se podiam defender, e não quisessem ser causa de os matarem a todos ou de os meterem no fundo. Os que pelejavam reponderam que se não haviam de render enquanto tivessem forças para pelejar. E vendo eles sua determinação (parece que estavam aconselhados todos) mandaram dar subitamente com as velas em baixo, e começaram a bradar pelos franceses que entrassem à nau, que já se lhe rendia. Vendo Jorge de Albuquerque, e os companheiros que o ajudavam, um caso tão súbito e não esperado, quiseram matar o piloto e o mestre, por fazerem tamanho desatino e fraqueza; mas o tempo e estado em que se viam os desviou disso porque logo na mesma hora que amainaram (que era uma quarta-feira cinco
de setembro) nos entraram pela quadra 10 dezassete franceses armados de armas
brancas, com suas espadas e broqueis 11, e pistoletes, e alguns deles com
alabardas 12: os quais, sem se lhe poder estorvar, se senhorearam da nau, e vendo-a da maneira que vinha, perguntaram com que artilharia e munições se tinham defendido deles tantos dias e quantos eram os que pelejavam? E vendo que na nau não havia mais que o berço e falcão, que está dito, caram muito espantados, e muito mais quando lhe disseram quão poucos eram os que pelejavam. E sendo dito ao capitão francês que Jorge de Albuquerque fora o que os zera defender a nau todo aquele tempo; o que os nossos disseram e zeram por carregarem nele só toda a culpa: e chegando-se o capitão francês para Jorge de Albuquerque com rosto soberbo e malencónico lhe disse: Que coração tão temerário é o teu, que quiseste provar a defender esta nau com tão poucos apetrechos de guerra, contra a nossa tão armada e que traz setenta arcabuzeiros? Ao que Jorge de Albuquerque respondeu com uma segurança mui grande: Nisso podes ver quão
mo no13 fui em me embarcar em nau tão desapercebida, que se viera concertada e aparelhada como cumpria, ou que trouxera o que a tua traz de sobejo, bem creio que tivéramos tu e eu diferentíssimos estados dos em que estamos; mas a meus pecados ponho a culpa, pois por eles permitiu Nosso Senhor que me embarcasse em nau tão desapercebida e desarmada como esta, que vês, para me poder ver como me vejo; e também podes agradecer a boa
ventura, que contra mim tiveste, à treidoice14 de meus companheiros, piloto, mestre e marinheiros, que contra mim foram, que se eles me ajudaram como estes soldados amigos e bons companheiros que me ajudaram, nem tu estiveras nesta nau como vencedor, nem eu como vencido. Vendo o capitão francês a muita segurança e con ança com que Jorge de Albuquerque falava, lhe disse: Não me espanta o teu esforço, que isso tem todo o bom soldado, mas espanta-me quereres defender uma nau tão desapercebida como esta, com tão poucos aparelhos e menos companheiros; mas não te desconsoles, que isto é fortuna de guerra, que favorece hoje a uns e amanhã a outros; e por quão bom soldado que és, eu te farei muito boa companhia, e aos que te ajudaram a pelejar, que tudo isto se deve a quem faz o que deve e cumpre a obrigação de sua pessoa. A nau dos franceses que abordou connosco trazia perto de oitenta homens, entre os quais vinham muitos ingleses e escoceses e alguns portugueses e vinha a mais apetrechada nau de guerra que podia ser; porque vinham quase todos armados
de armas brancas, e alguns deles com armas grevadas 15 e espadas, adagas,
broqueis, alabardas e pistoletes para o abalroar, e arcabuz 16 para pelejar, e cada um trazia estas armas na sua estância para lançar mão de qualquer delas quando fosse necessário conforme ao tempo: e vinham cerrados, e empavezados de popa
a proa com sua xareta 17 falsa e as gáveas cerradas e concertadas muito bem, e tão ensevados e limpos do costado, que parecia a nau andar caiada e que aquele era o primeiro dia que saíram fora, havendo muitos meses que andavam no mar e tendo roubado já outros navios.
Vendo-se os franceses senhores da nossa nau, que importava muito o que trazia, começaram a caminhar para sua terra, e logo ao outro dia, que foram seis do mês de setembro, houvemos vista das Ilhas do Faial e Pico e Graciosa. E passámos ao longo dela, e os franceses nos quiseram botar em terra a todos e ir-se com a nau, e não no zeram por nos começar a ventar muito rijo e o mar andar alvoroçado. Por esses inconvenientes seguiram sua viagem em popa, navegando ao nordeste com determinação de nos levarem consigo à sua terra na mesma nossa nau, com que folgavam por ser nova. E o capitão francês, com os seus que nela iam, temendo-se de Jorge de Albuquerque, o fechavam de noite com dois ou três soldados de sua companhia, dos que o ajudaram a pelejar, em uma câmara, e de dia lhes fazia bom tratamento; tanto que não queria comer sem primeiro vir Jorge de Albuquerque, a quem fazia assentar na cabeceira da mesa. E pedindo-lhe um dia que benzesse a mesa ao costume dos Portugueses, ele o fez fazendo o sinal da cruz sobre o que estava na mesa. Alguns dos franceses que a ela estavam o repreenderam por fazer o sinal da cruz: ao que ele respondeu que com aquele sinal da cruz se havia de abraçar enquanto vivesse, e nele esperava de se salvar de todos seus inimigos, e com ele se havia de armar, não uma, mas muitas vezes. E
benzendo-se outra vez, arremeteram com muita malenconia18 contra ele, e se não fora o capitão e outros dois franceses nobres que com ele estavam, correra muito risco matarem-no ou botarem-no ao mar. Entendendo Jorge de Albuquerque que eram luteranos, pediu ao capitão licença para não ir comer mais com eles e poder comer em sua câmara o que lhe dessem. E posto que o capitão mostrou agravar-se disso, todavia lhe deu a licença que lhe pedia, e vinha ele algumas vezes comer com Jorge de Albuquerque. Neste tempo começaram os franceses a publicar-se por luteranos, tomando todas as contas e livros de rezar que acharam aos nossos e botando-os ao mar: e desejando sobre isso tratar mal aos nossos, o não zeram por intercessão de um português que com eles vinha, conhecido de Jorge de Albuquerque, e que zera já com ele uma viagem, e por meio deste não fomos tão avexados dos franceses como se entendeu neles que o queriam fazer. Vendo Jorge de Albuquerque que os franceses se determinavam a levar-nos a França, descobriu aos soldados que o ajudaram a pelejar que ele determinava levantar-se contra os franceses, e matá-los a todos, se o eles quisessem ajudar; e eles responderam que o fariam se eles tivessem alguma salvação nisso, mas que a nau
que tinham lhes tolhia o tal acometimento, por ser muito zorreira 19 e aguardar mal a vela, e ser ruim de leme, e sobretudo isto de ir ao fundo com a muita água que fazia, e a dos franceses, que nos havia de seguir, corria mais com só o traquete que a nossa com todas as velas: e que por andarem sempre tão juntas, que quase iam à fala, parecia impossível fazerem-no a seu salvo. Ao que Jorge de Albuquerque respondeu com palavras de muito esforço, e esforçando-os e dando-lhe razões como era possível fazer-se o que tinha cuidado, dizendo-lhe que se eles matassem os dezassete franceses que estavam na nau, com as mesmas armas deles se defenderiam da sua nau, e que já tinham eles dezassete menos contra si, os quais por serem dos principais haviam de fazer muita falta aos seus: e que com saberem os outros que esses eram mortos, haviam de descorçoar, e que nem sempre as naus haviam de ir à fala: e que pois eles se defenderam dos franceses com tão poucas armas perto de três dias, que muito melhor se defenderiam com terem mais e tão boas, como eram as dos mesmos inimigos: e tendo já dezassete menos, que tinham menos que recear: portanto, que se determinassem, que ele con ava na misericórdia de Nosso Senhor, cujos inimigos eram os franceses, pois eram hereges e luteranos, que ele os havia de ajudar, e que não temessem, porque ele lhe daria ardil como lhe fosse muito fácil matá-los todos os dezassete e muito depressa. E respondendo-lhe eles que o ajudariam, lhes descobriu o ardil, que a todos pareceu muito bem. Jorge de Albuquerque lhes encomendou a todos muito o segredo, que cumpria ter em cousa que importava não menos que a vida de todos, e que estivessem prestes para lhe acudir quando fosse necessário. E assim iam todos esperando que o
tempo lhes desse ocasião para pôr em execução seu desenho 20. E nestes dias se pôs a nau em altura de quarenta e três graus.
Estando ambas estas naus na altura que tenho dito, em uma quarta-feira doze de setembro lhes sobreveio a maior e mais estranha e diabólica tormenta de vento sueste que até hoje se viu, e pelo que fez se pode julgar; porque acalmando-nos de súbito o vento que trazíamos, nos faltou ao sueste, que começou a ventar de maneira que todos tememos o perigo que se nos aparelhava, por ver a fúria e soberba com que começava a ventar. E com este temor começámos a usar dos remédios que em tal tempo se usa, alijando a fazenda ao mar por salvar as vidas: e assim alijámos tudo quanto se achou sobre a coberta e debaixo da ponte. E embravecendo-se o mar cada vez mais com o muito vento que de contínuo crescia, alijámos os mastaréus das gáveas e todas as caixas em que cada um trazia o seu fato. E para que isto não fosse pesado a alguém a primeira que se alijou foi a em que Jorge de Albuquerque trazia seus vestidos e outras cousas de importância. E vendo que tudo isto não bastava e que cresciam os mares de maneira que nos queriam cobrir, lançámos ao mar a artilharia que trazíamos e muitas caixas de açúcar e muitas sacas de algodão.
Andando assim neste trabalho, nos deu um mar por popa que nos desmanchou o leme, de maneira que daí a muitos poucos dias cou por popa,
cando a nau de mar em través, e querendo-a nós endireitar e fazer correr em
popa, nenhum dos muitos remédios que lhe fazíamos aproveitou nada. Vendo-se todos em tão temeroso passo sem leme, com mares tão grandes e grossos, começaram alguns e quase todos desmaiar. E vendo Jorge de Albuquerque todos tão trespassados, e com tanta razão, posto que ele sentia o que todos e cada um por si sentia, os começou a esforçar com muitas palavras, e animar a todos com dar ordem para se buscarem meios com que a nau governasse, e os de mais se pusessem de joelhos a pedir a Nosso Senhor e a sua Mãe Santíssima os livrasse de tamanho trabalho e perigo. Já a este tempo (que seriam nove horas do dia) a nau dos franceses não aparecia, e os que caram dentro na nossa nau, vendo a tormenta que fazia, e o leme desmanchado, e a nau atravessada, e o grande rumor da gente, andando tão atónitos que se lançavam no convés e se chegavam aos nossos amigamente, e lhes diziam: Já todos somos perdidos, nenhum de nós pode escapar, pois temos a nau sem leme e o mar tão bravo? E assim andavam cortados de medo, que faziam tudo o que mandávamos, como se eles foram os mesmos cativos, e roubados, e criados de todos. Ordenámos então um bolso de vela para derredor dos castelos da proa, a ver se com isso queria a nau governar, e tendo-o feito nos sobreveio uma cousa espantosa e nunca vista; porque sendo às dez horas do dia, se escureceu o tempo de maneira que parecia ser noite, e o mar com os grandes encontros, que umas ondas davam nas outras, parecia que dava claridade, por encher tudo de escumas. O mar e o vento faziam tamanho estrondo que quase nos não ouvíamos nem entendíamos uns aos outros.
Neste comenos se levantou um mar muito mais alto que o outro primeiro e se veio direito à nau, tão negro e escuro por baixo e tão alvo por cima, que muito bem entenderam os que viram que seria causa de em muito breve espaço vermos todos o m de nossas vidas, o qual dando pela proa com um borbotão de vento, caiu sobre a nau de maneira que levou consigo o mastro do traquete com a vela, e verga e enxárcia: e assim levou o mastro da cevadeira, e o beque e os castelos de proa, e cinco homens que estavam dentro neles, e três âncoras que estavam arriçadas nos ditos castelos, duas de uma parte e uma da outra, e juntamente com isto abateu a ponte e a desfez de maneira, que matou um marinheiro que estava debaixo dela, e fez o batel em quatro ou cinco pedaços, e abateu todas as pipas da água e assim todo o mais mantimento que ainda aí havia, e destroçou este mar a nau de proa até ao mastro grande, de maneira que a deixou rasa com a água, e por espaço de meia hora esteve debaixo do mar, sem nela haver quem soubesse onde estava. E vendo-se todos em tão grande perigo caram assombrados e fora de si, temendo e julgando ser esta a derradeira hora de vida, e com este temor se chegaram todos a um padre da Companhia de Jesus, por nome Álvaro de Lucena, que com eles vinha, e a ele se confessaram com as mais breves palavras que cada um podia, porque o tempo não dava lugar para mais. E depois de confessados e de pedirem perdão uns aos outros, se puseram todos de joelhos pedindo a Nosso Senhor misericórdia, tomando por intercessor e advogada a Sacratíssima Virgem Nossa Senhora, Mãe do Filho de Deus, Senhora da Luz e Guadalupe. O mar e o vento cresciam cada vez mais, e andava tudo tão temeroso, com os fuzis e relâmpagos que faziam, que parecia fundir-se o mundo. Vendo Jorge de Albuquerque o miserável estado em que ele e seus companheiros estavam, tirando esforço da fraqueza (era que o tinha posto a desconsolação de ver seus amigos e a si como se via) começou em altas vozes aos esforçar, dizendo: De muitos maiores trabalhos (companheiros e amigos meus) fomos merecedores os que aqui estamos, dos em que nos vemos, porque se segundo nossas culpas houvéramos de ser castigados, já o mar nos tivera comido: mas con emos todos na misericórdia daquele Senhor cuja piedade é in nita, que por quem é se compadecerá de nós e nos livrará deste trabalho. Ajudemo-nos das armas necessárias para este lugar que são arrependimento de coração das culpas passadas, protelando de não cair em outras, e com isso rme fé e esperança na bondade de quem nos criou e remiu com seu precioso sangue, que usará connosco de sua misericórdia não olhando a nossos deméritos, porque tudo cabe nele por quão poderoso e misericordioso é: lembremos que nunca ninguém pediu a Deus misericórdia com pureza de coração, que lhe fosse negada: por tanto todos lha peçamos e façamos de nossa parte o remédio possível, uns dando à bomba, outros esgotando a água que está no convés e debaixo da ponte, e enquanto temos vida trabalhemos pela conservar, que Nosso Senhor suprirá por sua grande misericórdia e bondade a falta de nossas mãos. E quando ele outra cousa dispuser de nós, cada um o tome com paciência, pois ele só sabe o que nos é melhor. Com estas palavras, e outras muitas mais que lhes disse, foram logo uns dar à bomba e outros a esgotar a água de baixo e de cima. Os franceses que
caram dentro na nossa nau (porque a sua logo no princípio da tormenta
desapareceu) vendo-se neste trabalho, se puseram de joelhos com as mãos alevantadas a chamar por Deus, o que até então não tinham feito, e pediam perdão aos nossos portugueses, dizendo que por seus pecados viera aquela tormenta, que rogássemos a Deus por eles, que já se davam por mortos, pois a nau estava da maneira que todos viam. Estando uns dando à bomba e outros esgotando a água, e os que não faziam outra cousa em joelhos pedindo a Nosso Senhor lhes valesse em tão grande trabalho, lhes deu outro terceiro mar grandíssimo pela quadra, com um borbotão de vento que lhes levou o mastro grande, vergas, velas, enxárcia e camarotes, e alguma obra de popa, e juntamente o mastro da mezena, e levou um francês dos principais, e os nossos que estavam dando à bomba espalhou pelo convés, quebrando a uns braços e a outros pernas, e a Jorge de Albuquerque tratou de maneira que andou aleijado da mão direita perto de um ano. E a um seu criado, por nome António Moreira, quebrou um braço, de que morreu daí a poucos dias, e aos mais que com ele estavam cobriu o mar por tanto espaço, que se tiveram por afogados todos os que estavam no convés. Este mar meteu tanta água dentro, por estar já a ponte abatida, que cou a nau morta e debaixo d’água por um grande espaço, e era a água tanta no convés e na tolda, que quase dava pelos joelhos. E mandando Jorge de Albuquerque ver debaixo da coberta que água fazia a nau, acharam que lhe não faltava mais que três palmos para se acabar de encher de todo e chegar arriba. Vendo-se todos tão cercados de trabalhos, e que cada vez cresciam mais, cresciam também suas lastimosas vozes, pedindo a Nosso Senhor misericórdia com a desconsolação que lhes causava a certeza da morte que viam presente. Jorge de Albuquerque, que vendo-se a si e a seus companheiros no último da vida, e tão desamparados de remédios, e forças, e consolações, e vendo alguns tão fracos de coração se pôs entre eles, dizendo-lhes: Amigos, e Irmãos meus, muita razão tendes para sentir e temer muito o trabalho e perigo em que todos estamos, pois vedes, que os remédios humanos nos não podem valer: mas isso é o que nos há de dar muito mais motivo a con ardes na misericórdia de Nosso Senhor, com que ele costuma socorrer aos que de todo descon am de outro remédio humano: por tanto vos rogo muito a todos, que con ando nele, como devemos a cristãos que somos, lhe peçamos que da sua mão nos dê ajuda, pois de toda outra estamos desamparados. De mim vos a rmo que espero na sua bondade que nos há de livrar do perigo em que estamos, e que me hei de ver em terra ainda aonde hei de contar isto muitas vezes, para que o mundo saiba a misericórdia que Nosso Senhor usou connosco.
Estando-lhes dizendo isto viram todos um resplandor grande no meio da grandíssima escuridão com que vinham, a que todos se puseram de joelhos, dizendo em altas vozes: Bom Jesus valei-nos, Bom Jesus havei misericórdia de nós, Virgem Madre de Deus rogai por nós. E cada um com as mais devotas palavras que sabia e podia encomendava a si e a seus companheiros à Virgem Nossa Senhora advogada de pecadores. O mar andava tão terrível e medonho que creio que nunca se viu tão espantoso: os mares que davam na nau eram tão grossos que a abriam toda, e metiam tanta areia dentro que era cousa espantosa, e as pessoas em que os mares alcançavam, as enchiam todas de areia, de maneira que quase os cegava e não se podiam ver uns aos outros, pelo que suspeitavam estar em alguns baixos ou restingas de areia, porque parecia impossível meterem os mares tanta areia dentro na nau, senão com ser o fundo baixo; sem embargo, que era tal a tormenta, que bem se podia crer que do profundo do mar podia levantar a grande cópia de areia que nos metia dentro na nau. Ao redor da nau remoinhava o vento com tanto ímpeto que não ousava nenhum a andar por cima delia, senão Jorge de Albuquerque e o mestre e duas ou três pessoas que estavam esperando com o sinal da cruz os mares que davam na nau, que pareciam que a queriam abrir: e isto com tantos relâmpagos, que pareciam que andavam ali os demónios do inferno. A estes trabalhos nos sobreveio outro maior, e não esperado, nem cuidado, e que muito nos atribulou, e foi que o mastro grande, depois que a tormenta o quebrou e levou, cou preso pelo calcês, com a enxárcia de gilavento, e cando preso se passou por debaixo da nau à banda de barlavento, e com qualquer mar que vinha, dava tamanho encontro na nau com o vaivém, que parecia meter o castelo para dentro. Vendo todos estes encontros nos demos por perdidos de todo, sentindo cada pancada que o mastro dava na nau como se a dera em cada um de nós, e com cada trabalho, que de novo sobrevinha, alevantávamos todos as vozes, pedindo a Deus misericórdia e que nos livrasse daquele perigo em que nos punha o nosso próprio mastro. Prouve àquela in nita bondade que vieram uns mares que o apartaram da nau, e cámos livres daquele não esperado trabalho. Julgue cada um que isto ler quais podiam estar homens que se neste estado viam, cercados de tantas misérias e trabalhos, em os quais nenhum outro alívio recebiam, senão com as lágrimas e gemidos com que pediam a Nosso Senhor que se lembrasse deles, não lhes lembrando comer nem beber, havendo três dias que o não zeram, porque tanto havia que vinham com a tormenta, ainda que o mais forte dela duraria nove horas, mas todos os três dias andávamos quase debaixo da água, dando à bomba de noite e de dia, vendo sempre a morte diante, e esperando por ela cada hora. E por mais certa a tivemos quando no cabo de três dias nos achámos sem ter leme, nem mastro, nem velas, nem vergas, nem enxárcias, nem amarras, nem âncoras, nem batel, e sem nenhuma água nem mantimento, sendo com todos os franceses perto de cinquenta e tantas pessoas, e com a nau aberta por muitas partes, de maneira que se ia ao fundo, estando de terra duzentas e quarenta léguas. Foi tamanha esta tormenta que dando-nos em altura de quarenta e três graus da banda do norte, nos pôs em quarenta e sete graus, sem mastros nem velas. Uma cousa posso a rmar, que o pouco que se aqui escreve é tão diferente do muito que passámos, como do vivo ao pintado.
No cabo de três dias que a tormenta durou, começando o tempo a abonançar, ordenámos um mastro para proa, que tirámos dos pedaços da ponte que o mar abateu, o qual seria de duas ou três braças em comprido, e de três remos do batel, que escaparam, zemos verga, e de uma velazinha de contra (que esta só escapou) zemos um modo de traquete, e de alguns pedaços de cordas enxeridos uns nos outros, zemos enxárcia. Estando tudo isto aparelhado por a nau ser grande, e a vela muito pequena, parecia escárnio querermos navegar com ela. Neste tempo, por não haver mantimento e os nossos estarem lastimados dos franceses, se quiseram levantar contra eles: e sendo Jorge de Albuquerque sabedor disso, os chamou a todos e desviou do tal propósito, dando-lhes razões para isso, e a principal era que, depois de Deus, nenhum outro remédio sentia para sua salvação senão a nau dos franceses, para nela se salvarem, porque se ela escapara da tormenta, forçadamente os havia de vir demandar, por razão dos franceses que connosco iam, e vindo-nos buscar, não os achando vivos, nos matariam a todos. E assim lhes lembrou que não tinham água, nem vinho, nem mantimento, senão o que esperavam que os franceses lhes dessem; e que quando a nau francesa não aparecesse em quatro ou nco dias, então zessem o que quisessem, que ele seria o primeiro que desse neles. Estando nestas razões, apareceu a nau francesa, e tanto que a vimos lhe começámos a fazer muitos fogos e ela acudiu a nós logo num sábado, que foram quinze do dito mês de setembro, também muito desbaratada, mas não destroçada como a nossa. E vendo-nos da maneira que escapáramos, caram espantados. E sabendo que os nossos se quiseram alevantar contra os franceses, e que Jorge de Albuquerque lho estorvara, lho agradeceram muito e lhe disseram que se se quisesse ir com eles que o levariam de muito boa vontade, a ele e a três pessoas que nomeasse, e que o lançariam na primeira terra que tomassem, se nela quisesse car. Ele lho agradeceu, mas que muito mais lhe agradeceria se os quisesse levar todos; que ele só não havia de ir porque não era ele homem que desamparasse sua companhia em tal tempo; que o que Nosso Senhor tivesse determinado fazer de seus companheiros, faria dele também, e que em nome de todos lhes tornava a pedir os quisessem levar consigo e os botassem na primeira terra que tomassem. Responderam os franceses que não podiam, que a ele e a três companheiros levariam; o que Jorge de Albuquerque não quis aceitar, dizendo que já que assim era, antes queria passar trabalhos entre os seus companheiros cristãos, que escapar deles em companhia de luteranos inimigos de Deus, e hereges.
Ao segundo dia que os franceses chegaram a nós, abonançou o tempo, e sem haver dó nem piedade de nosso destroço, começaram com grande pressa a descarregar a nossa nau de muitas mercadorias que trazíamos, que escaparam da tormenta, ou do alijar que nela zemos, se sobre roubarem a nau, não contentes com isso, começaram a despir alguns dos nossos desses fatos que sobre si tinham, de maneira que tudo o que a tormenta nos deixou nos levaram os franceses. Alguns dos franceses mais humanos, enquanto outros faziam o que tenho dito, andavam curando os nossos doentes, de que havia muitos, do trabalho passado, e lhes davam de comer, o que os nossos faziam com sobeja alegria, por haver muitos dias que não comiam, e estavam fracos, pela continuação do trabalho da tormenta. Tendo roubada a nau, se partiram de nós sem piedade alguma a uma segunda-feira dezassete de setembro, e pedindo-lhes nós com muita instância, que nos levassem e nos deitassem na primeira terra que tomassem, não somente o não quiseram fazer mas nem nos quiseram prover de cousas que levavam de sobejo, muito necessárias para nosso remédio, como eram enxárcias, velas, antenas, e se foram, esperando que em breve espaço se fosse a nau ao fundo ou que à fome pereceríamos. E sendo muito importunados de nós, lembrando-lhes o desamparo em que nos deixavam, nos deram dois sacos de biscouto tão esmaltado de verde, preto, e amarelo, por ser podre e bolorento, que ainda com a muita fome que padecíamos não havia quem o pudesse comer, porque amargava como fel. E assim nos deixaram uma pouca de cerveja mais forte que vinagre, que muitos dos nossos a não ousavam beber.
Vendo-nos desapressados dos franceses, e que já eram de todo idos, e como
cávamos cercados de tantas misérias, necessidades e perigos, começámos todos
de novo a encomendar-nos ao Bom Jesus, e à Virgem Nossa Senhora Madre de Deus, Senhora da Luz e de Guadalupe, e a todos os Santos e Santas, que nos ajudassem e fossem nossos intercessores: e com muita devoção, tal qual o passo da necessidade presente requeria, pusemo-nos então de joelhos a rezar o Psalmo Miserere mei Deus, com as Ladainhas. E acabado isto mandou Jorge de Albuquerque buscar todo o mantimento que na nau houvesse, e nela se não achou água, nem vinho, nem mantimento, mais que obra de duas canadas de vinho em uma botija somente, e uma redoma de vidro com obra de uma cana da de água de or, e uns poucos de cocos, e uns muito poucos punhados de farinha de pão, e cinco ou seis tafalhos de carne, e de peixe-cavalo. Tendo tudo isto junto, com que já disse que os franceses nos deixaram, parecia impossível bastar aquele mantimento três dias para perto de quarenta pessoas que éramos. Contudo guardou-se para se dar e repartir por todos irmãmente até se acabar, e Nosso Senhor nos acudir com sua misericórdia a esta necessidade, e às mais que padecíamos. O mantimento repartia Jorge de Albuquerque por sua mão com todos, dando a cada um maior quinhão do que tomava para si, cousa que a todos nos fazia espantar, ver quão pouco comia e quanto trabalhava de noite e de dia: e entendia-se nele que mais sentia as necessidades de seus companheiros, assim doentes como sãos, que as próprias de sua pessoa, por não ter possibilidade para as remediar, como eles haviam mister e ele desejava.
O dia que nos deu a tormenta, mandou Jorge de Albuquerque, por conselho de alguns companheiros lançar no mar uma cruz de ouro, em que trazia uma partícula do Santo Lenho da Vera Cruz, e outras muitas relíquias, amarrando a dita cruz com um cordão de retrós verde a uma corda muito forte, com um prego grande por chumbada, e o cabo e ponta desta corda ataram à popa da nau, e depois de passar a tormenta lembrou-se Jorge de Albuquerque do seu relicário, e chegou à popa da nau a ver se via a corda em que amarrara a cruz de ouro, e vendo-a estar embrulhada em uns pregos, rogou e pediu muito a Afonso Luís
piloto, que vinha por passageiro, que se quisesse embalesar21 em uma corda e fosse desembaraçar aquela em que estava atado o relicário. E Afonso Luís o fez assim; e tendo desembaraçado a corda, disse que alassem por ela os de cima, e alando por ela um homem por nome Daniel Damil, acabando de recolher a corda toda dentro na nau caiu a cruz na coberta da tolda toda desamarrada e solta, envolta em um pequeno de algodão. Vendo todos este milagre, caram espantados e deram muitas graças a Nosso Senhor por nos consolar e esforçar com um milagre tamanho, no qual parece que nos queria mostrar que nos havia de livrar milagrosamente de tamanho naufrágio, assim como livrara de tamanha tormenta aquela cruz de relíquias: a qual estava amarrada à corda com o cordão de seda, a este mesmo cordão estava metido por uma argola da mesma cruz; e como se ela desatou, e se teve, e veio arriba, Nosso Senhor o sabe; basta que em metendo a corda e prego dentro na nau, caiu a mesma cruz entre muitos dos nossos desamarrada, e com a argola quebrada e o cordão de seda amarrado na mesma corda, quase da maneira que o lançaram. Fazendo os nossos grandes extremos de alegria por tamanho milagre, os franceses que estavam na nau se ajuntaram muitos a ver o de que os nossos folgavam tanto, e beijando todos os nossos as relíquias com muita devoção diante dos franceses, parece que permitiu Nosso Senhor que as não vissem eles, porque por sem dúvida tenho que se as viram as tomaram por terem ouro, de que eles são tão cobiçosos. E não somente as não viram então, mas nem outros dias, que as Jorge de Albuquerque trouxe consigo, porque apalpando-o muitas vezes, para ver se trazia alguma cousa escondida, nunca lhas acharam; pelo que se devem dar muitos louvores a Nosso Senhor por este milagre, e pelos mais que fez por nós outros todos que neste naufrágio nos achámos. Não deixámos de notar entre os que éramos, que porventura quis Nosso Senhor fazemos esta mercê pelo Lenho da Santa Cruz, e pelo sinal dela, que Jorge de Albuquerque fez na mesa dos franceses, pelo qual sinal que fez o quiseram matar ou lançar no mar. Parece que permitiu Nosso Senhor que esta cruz com o Santo Lenho e relíquias que nela estavam se não perdessem, e tornassem à mão do dito Jorge de Albuquerque, visto oferecer-se à morte por amor deste Santo Sinal da Cruz, de que sempre em toda a viagem se mostrou muito devoto, e nos dizia algumas vezes que desde menino o fora sempre muito, e que lhe vinha esta devoção por herança, porque em todos os quatro escudos de armas que lhe pertenciam por parte de dois avós donde descende, todos tinham cruz, como são as Armas dos Albuquerques, Coelhos, de que ele descende, Pereiras e Bulhões.
Depois de termos junto todo o mantimento que se na nau achou, no mesmo dia que os franceses se apartaram de nós, logo ao outro dia deu Jorge de Albuquerque ordem com que se zesse uma vela de alguns guardanapos e toalhas de mesa que se acharam na nau, os quais mandou que se ajuntassem a uma velinha do esquife dos franceses que nos cou, e de dois remos do batel
zemos uma verga, e sobre o pé do mastro grande pusemos um pedaço de pau de
duas braças em alto, e de uns pedaços de enxárcia, que caram, e de cordas de rede e murrões zemos enxárcia por não haver na nau outra cousa de que se pudesse fazer, porque a tormenta tinha levado tudo, enxárcia, cabos, amarras, âncoras, batel e tudo o mais de que nos podíamos aproveitar. O leme andava dependurado por um só ferro que lhe cou, e lançámos-lhe umas cordas como bragueiros para que nos pudesse assim servir dois ou três dias. E com isto seguimos nossa viagem, tomando a Nossa Senhora Madre de Deus por guia, vendo e atinando ao nascimento do Sol, por não trazermos astrolábio que prestasse, nem instrumento de marear, de que nos pudéssemos servir, porque tudo nos levaram os franceses: e uma agulha de marear que trazíamos era tão quebrada, e tal, que destemperava muitas vezes. Estaríamos neste estado do cabo de Finis terrae duzentas e trinta e seis léguas, em altura de quarenta e cinco graus da banda do norte, porque o mais tínhamos desandado com o noroeste, que até então nos ventara. O trabalho que tínhamos em dar à bomba de dia e de noite nos enfraquecia de maneira que muitos de cansados de darem à bomba, caíam no convés sem terem vista nos olhos, com pura fome e muito trabalho. Continuando todos este trabalho rogou Jorge de Albuquerque a um marinheiro grande mergulhador, por nome Domingos da Guarda, que se lançasse ao mar e visse se podia de mergulho tomar parte da muita água que fazia a nau, visto não se poder tomar por dentro, por ser muito em baixo nas picas de proa e popa e termos já cortado muitos liames de picas de proa para a podermos tomar: e lhe prometeu, que se tomasse a principal água, além de nisto salvar sua vida e a de todos seus companheiros, ele lho pagaria muito bem. Foi cousa espantosa e muito para louvar a Nosso Senhor, porque neste dia, que era vinte e três do mês de setembro, esteve o mar tão manso como se fora rio. E em se querendo o marinheiro lançar ao mar, nos pusemos todos os da nau de joelhos pedindo misericórdia e ajuda a Nosso Senhor, que nos livrasse daquele trabalho em que nos víamos, como era irmo-nos ao fundo, com darmos à bomba de noite e de dia. Permitiu Nosso Senhor, por quem ele é, apiedar-se de nós e ouvir-nos, porque de três vezes que o marinheiro mergulhou, tomou a maior parte da água que a nau fazia, cousa com que grandemente nos alegrámos e consolámos, por vermos que poderíamos ter mais algum refrigério e descanso do trabalho de dar à bomba. O marinheiro veio muito contente arriba e de todos foi abraçado com muita alegria por ver quão bem o zera; e Jorge de Albuquerque lhe cumpriu muito bem o que lhe prometeu, com lhe dar cousas com que ele cou muito satisfeito. Tomada esta água, logo ao outro dia, que foi vinte e quatro de setembro, nos tornou a ventar o vento noroeste tão rijo com tamanhos mares, e frio, que nos não podíamos valer nem nos podíamos ter dentro na nau com os grandes balanços que dava: as cadeias das mesas de guarnição por andarem soltas, faziam tamanha matinada, que pareciam uma espantosa ferraria, tanto, que quase nos não podíamos ouvir uns aos outros: os mares começaram a empolar de maneira que passavam por cima da nau, a qual por vir destroçada nos enchia de água: o mantimento por ser pouco se nos gastou em poucos dias pela gente ser muita, por mais regra que nele se pôs. Chegou a regra a ser tão estreita, que três cocos se repartiam no dia por perto de quarenta pessoas que havia, dando a cada um de quinhão tamanho como um tostão pouco mais ou menos, e da cerveja, que era mais forte que
vinagre, se dava duas vezes ao dia quanto pudesse molhar o padar22, e o que se dava era cousa que não bastava para um trago, e além disso era tão forte, que muitos a não queriam beber. Assim íamos seguindo nossa viagem para onde o mar e vento nos queriam levar, gastando todo o tempo em orações e em dar à bomba. Jorge de Albuquerque, sobre todos estes trabalhos, a que ajudava irmãmente, tinha mais o consolar e animar seus companheiros, que tão quebrantados andavam das forças corporais e do espírito: e já não tinha com que os consolar, senão com lhe trazer à memória a Sagrada Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e o muito que por nós padeceu, para que com esta lembrança se lhes zessem mais leves os trabalhos em que estavam, e lhes persuadia, que pois estavam esperando pela derradeira hora, sem poderem ser ajudados de remédio algum humano, senão o da misericórdia de nosso Senhor, que se encomendassem a ele, para que por sua piedade dispusesse deles aquilo que mais cumpria a seu serviço e salvação de suas almas. Isto nos dizia com palavras tão amigas, brandas, e devotas, que nos alevantávamos quase sem nenhumas forças para tornarmos ao trabalho; e muitas vezes dizendo-nos estas cousas e outras, lhe faltavam as lágrimas de compaixão de nos ver em o mesmo perigo em que ele estava, mas porventura menos lembrado de si, que de seus companheiros. Uma cousa nos espantava muito a todos, e era ver que a maior parte da viagem viera Jorge de Albuquerque doente, por se embarcar maltratado de algumas indisposições que o trabalho da guerra lhe causara, e depois que pelejámos com os franceses e nos sobreveio a tormenta, nunca mais se queixou da má disposição, e o víamos andar tão são e esforçado, e tão continuador nos trabalhos, que nos espantava e envergonhava a todos. Além de todas estas cousas, que atrás digo, dizia que tinha tanta con ança e fé na misericórdia de Nosso Senhor, que nos a rmava, como se o tivera por certo, que nos havia Nosso Senhor de livrar daquele perigo e havíamos de ver a terra, como se a viramos, ou tivéramos nau que nos pudera trazer a ela. Todavia com tudo isto vínhamos tão faltos de forças, que quase não havia quem pudesse ir dar à bomba. E vendo-nos ele assim quase desesperados da vida, sem forças, e sem mantimento com que as sustentássemos, com grande segurança de rosto se pôs no meio de seus companheiros, e lhes disse. Amigos e irmãos meus, cada um de vós tem entendido o miserável estado em que estamos, e quão alheios estamos de remédio humano, pois a nau em que navegamos não tem velas, nem mastros, nem leme, nem enxárcia, nem nenhum aparelho dos que para a navegação havemos mister: além disto não sabemos onde estamos nem para onde caminhamos, porque de nenhuma cousa destas temos certeza: e o pior de tudo é que não temos em toda esta nau cousa com que nos possamos sustentar, pois o mantimento é acabado. Bem sei que são todas estas cousas que vedes com os olhos tais e tão inimigas de nossas vidas, que qualquer delas vos será, e pode ser a todo o homem, por esforçado que seja, muito temerosa, pois são cousas contra as quais não vai força de corpo, nem esforço de ânimo, que são fome, fúria de mar, nau rota e sem aparelho, e não saber caminho nem carreira. Mas se vos lembrardes do que tendes nesta viagem passado, e não vos esquecerdes daquele terrível vulcão que nos deu, e dos mares que nos cobriram, e de quantas vezes esta nau cou amadornada e morta debaixo da água, e que todos vos destes por mortos, vendo do tudo que parecia ser conjurado contra nossas vidas, a água, vento, relâmpagos, até o nosso mastro que nos queria alagar: se nada disto vos esquece, vereis claro quanta razão tendes para con ar na grandeza da misericórdia de Nosso Senhor, e terdes fé rme nele, que vos há de salvar; porque quem de tantos trabalhos nos livrou até gora, muito certo deveis de ter que vos há de livrar dos que vos
sobrevierem; pois se ele quisera por meios naturais alagar-vos23, qualquer dos mares que vistes bastava para vos meter no fundo do mar. E que sabeis se são estes trabalhos com que quer provar vossa fé, mimos de nosso Senhor? Eu certo como se o visse, espero que ele nos há de levar à terra, para que a gente saiba este milagre, que connosco usa, porque não que isto sem ser sabido: e a gente, a cuja notícia vier este nosso naufrágio, dê sempre louvores a Nosso Senhor e glori que e exalte com graças seu Santo Nome; e mais que nos não há de levar a qualquer terra, senão à cidade de Lisboa, aonde possamos contar cousas tão novas como estas, e não é necessário para irmos seguros e con ados de isto ser assim, mais que fé em o Senhor, pois ele diz em um dos Evangelhos, que quem tiver fé fundada em pureza de coração, tamanha como um grão de mostarda, fará mudar e traspassar um monte de uma parte para outra. Portanto, irmãos meus, postos neste estado de fé e con ança neste Senhor, esperemos que neste pedaço de pau nos livrará do profundo abismo do mar. Estas cousas, e outras como estas, que ele dizia melhor do que eu as sei relatar, vinha dizendo à sua piedosa companhia, com que nós todos muito nos consolámos muito mais com o ver a ele andar tão ledo, e com rosto tão prazenteiro, que parecia não ser este aquele que padecia os trabalhos e fomes que perseguiam a todos: e sempre andava consolando a quem lhe parecia que mais fraco estava, sem dar a entender que sentia o perigo em que vínhamos: mas ninguém o entendia melhor que ele, porque algumas vezes de noite o achávamos em lugar apartado, com muitas lágrimas e exclamações a Nosso Senhor, pedindo-lhe tivesse por bem de nos salvar; e de dia a todos animava e consolava, e com tanto ânimo e esforço o víamos andar nestes trabalhos, que nos animávamos muitas vezes e bem parecia ser lho de seu pai nisto, e sobrinho de seu tio, o grande Afonso de Albuquerque, aos quais é certo que imitava.
Era tão rijo o vento que trazíamos, que por as velas serem fracas, da matéria que tenho dito, se romperam por algumas partes, de sorte que foi necessário consertá-las, e estando-as consertando e remendando-as, se nos acabou de desapegar o leme e quebrar o ferro em que só vinha pegado, e de roer e quebrar as cordas com que o trazíamos atado, e assim cou por popa. Vendo-se o piloto e mestre e a mais gente sem leme, mastros, velas, enxárcia, âncoras e batel, e com o mantimento, que atrás disse, já gastado, e tão longe de terra como suspeitavam, caíram no convés desacorçoados com tristeza e fraqueza, dando-se de todo por perdidos, vendo-se desamparados de todo o remédio, porque ainda que o leme lhes servia mal, por vir como vinha, assim com ele nos consolávamos muito. Vendo Jorge da Albuquerque tamanho espanto na gente, foi cercado de grandíssima tristeza e dor, por ver que já não tinha nenhum modo de mantimento nem que beber; havendo já muitos dias que não bebíamos água nem vinho, e que o vinagre que se dava para molhar o padar estava já na borra, e que já não havia quem pudesse dar à bomba, nem terem-se nas pernas com fraqueza; pôs-se assim muito triste a cuidar que meio teria para consolar seus companheiros, e supitamente se levantou tão rijo e ledo, como se saíra de alguma festa, e começou a chamar a todos cada um por seu nome, e tirando de um livro de rezar seu, que escondera dos franceses, duas folhas, em uma delas estava Nosso Senhor Jesus Cristo Cruci cado, e em outra a Imagem de Nossa Senhora, as quais pôs pregadas ao pé do mastro, que todos vissem, e chamando-os a todos
lhes disse em alta voz: Ora sus 24 companheiros, não haja quem enfraqueça nem desmaie, ponhamos os olhos naquelas imagens, com cuja vista nos podemos alegrar e consolar, conhecendo que quem tanto padeceu por nós, pois é todo misericordioso e piedosíssimo, nos salvará deste temeroso perigo e nos levará a salvamento, e mais tendo nós por advogada e intercessora a Sacratíssima Virgem Maria Nossa Senhora Rainha dos Anjos, por cuja intercessão, rogos e merecimentos eu espero e con o, que nos havemos de ver fora de tamanho perigo: e torno-vos a dizer que não havemos de ir a qualquer terra senão que pela intercessão da Virgem Nossa Senhora havemos de ir ter a Lisboa, para que nossa chegada em salvo faça notórios os milagres que por nós obrou. E sabei amigos quão con ado estou nisto, que antes me quero aqui convosco que na nau dos franceses, porque levando-me, não quis ir como vistes, senão mantendo-vos companhia, e ser testemunha de vista dos perigos que passámos e das grandes misericórdias que Deus connosco usou.
Acabando estas palavras nos pusemos todos de joelhos diante das imagens de Cristo Cruci cado e de sua Mãe Santíssima, pedindo em altas vozes misericórdia, com tão dolorido e lastimoso som que por sem dúvida tenho que de ninguém pudéramos ser ouvidos que, se pudera, nos não socorrera, doendo-se de nossa desaventura por duro e bárbaro que fora: porque era cousa lastimosa e de grandíssima compaixão ver o estado em que esta mísera gente estava, de trabalhos e necessidades, e tão disformes e magros que nos íamos já desconhecendo uns aos outros. Jorge de Albuquerque, posto que o não dava a entender a pessoa alguma, vendo que a miséria que passavam não dava lugar a terem muitas esperanças de salvação nem vida, fez uma declaração por escrito de cousas que cumpriam a cousas de sua consciência, a qual com outros muitos papéis que relevavam, meteu em um barril de pau pequeno, e o fechou e breou muito bem para o deitar no mar quando se todos vissem na derradeira hora da vida, para que pelos papéis que se nele achassem se soubesse o m que todos houvéramos. Mas isto se fez com tanto segredo, que nenhum de nós outros então o soube. Vendo-nos sem leme, ordenámos um modo de espadela, como remo, de tábuas, e paus, que tirámos da nau, e todas estas cousas, e algumas mais que eram feitas, fazíamos com um machado velho e um escopro, e os furos que se haviam de fazer com verrumas, os fazíamos com pregos quentes, e Jorge de Albuquerque era sempre o inventor de todas estas cousas, e dos primeiros que lançavam mão de tudo o que se fazia. A espadela que zemos em lugar de leme aproveitou tão pouco que não queria a nau governar com ela, e contudo, com caçar e alargar as pobres e fracas escotinhas, e com remarem dois remos por banda, dava a nau algum jeito de si, e com uma cevadeira, que zemos de dois mantos com que se os companheiros cobriam: mas tudo isto não aproveitava por ser o vento rijo e os mares grossos, e somente nos servia quando havia bonança. Já Jorge de Albuquerque nos não consolava, senão que ava que como se acabasse o mês de setembro (que estávamos já a vinte e sete dele) se haviam de acabar os trabalhos, e com o mês de outubro esperava, que havia de vir bonança, e o favor do Bom Jesus e da Virgem Nossa Senhora.
Aos vinte e sete deste mesmo mês, que foi dia de S. Cosme e S. Damião, começámos a lançar ao mar algumas pessoas que nos morreram de fraqueza e com pura fome e trabalhos: e foi tanta a necessidade da fome que padecíamos, que alguns dos nossos companheiros se foram a Jorge de Albuquerque e lhe disseram: Que bem via os que morriam e acabavam de pura fome, e os que estavam vivos não tinham cousa de que se sustentar; e que pois assim era, lhes desse licença para comerem os que morriam, pois eles vivos não tinham outra cousa de que se manter. Abriu-se a alma a Jorge de Albuquerque de lástima e compaixão, e arrasaram-se-lhe os olhos de água quando ouviu este espantoso requerimento, por ver a que estado os tinha chegado sua necessidade, e lhes disse com muita dor que aquilo que lhe diziam era tão fora de razão, que erro e cegueira muito grande seria consentir em tão bruto desejo; mas que bem via, que vencidos da necessidade presente tomavam aqueles conselhos que lhes dava tão ruim conselheira como a fome era, mas que lhes pedia que olhassem bem o que queriam fazer, porque ele enquanto fosse vivo tal não havia de consentir, e que depois dele morto podiam fazer o que quisessem e comê-lo a ele primeiro. Bem pode, quem quer que isto ler, julgar que tais estariam os homens, que chegaram a termos de fazer cousa nunca ouvida, senão no Cerco de Jerusalém. Começou Jorge de Albuquerque a consolá-los com palavras de esperanças em Deus, em cuja mão está todo o remédio. E vendo o perverso inimigo que os não podia levar fora da esperança, em que as palavras de Jorge de Albuquerque os punham, e a particular con ança em Deus com que cada um de nós esperava de se salvar, desejando que afracassem nela, como inimigo de nossas almas, começou a usar um novo e não cuidado ardil contra nós, o qual foi este. Vendo que a braveza do mar e fúria da tormenta nos não pudera acabar, encaixou nos corações de alguns dos nossos uma persuasão infernal de se não poderem salvar nem escapar daquele perigo, e que todos havíamos de morrer forçadamente.
Vencidos de tão mau conselho do falso inimigo, consultaram alguns deles entre si, que pois não podiam escapar por nenhum caso, por estarem tão desamparados de todo o remédio humano, e a fome que padeciam lhes fazia ser a vida penosa, para escusarem a pena que padeciam com ela que arrancassem uma tábua do fundo da nau para com mais brevidade se irem ao fundo, e com isso
carem sem vida e sem trabalhos, que com a ter padeciam. Quis Nosso Senhor
por quem é que se descobrissem estas danadas determinações e conselhos diabólicos a Jorge de Albuquerque, para poder impedir sua execução, como fez. E pedindo a Nossa Senhora da Graça lhe alcançasse de seu Unigénito Filho graça para que pudesse remediar tamanho mal, e outro não menor que este que juntamente veio a saber, e era que estavam todos os que havia vivos na nau postos em bandos e brigas, estando tão vizinhos da morte, como dito tenho, sem forças e sem armas, porque na nau não havia mais que uns pedaços de facas e paus para poder brigar e nenhum deles se podia ter nas pernas. Parece que a fome que padeciam e a desesperação que tinham concebida os punha em tamanho desatino e desconcerto, e principalmente o demónio, que com meio tão infernal os queria acabar em tão mau estado: e que uns aos outros acabassem o que nem o mesmo demónio, nem o mar, nem a fúria da tormenta puderam fazer. E com assaz melanconia e agastamento se pôs Jorge de Albuquerque entre eles e os começou a repreender do diabólico conselho que aceitavam em se quererem ir ao fundo do mar, e juntamente estando em estado tão piedoso, quererem ter brigas, que era cousa vergonhosa: e sabida a razão por que as queriam ter, não era alguma mais, que cizânia, que o demónio entre eles semeava; pelo que de novo lhes começou a rogar que quisessem estar em paz como irmãos; e que devendo fazer isto em todo o tempo, pois eram cristãos, neste principalmente se haviam de envergonhar muito lembrar-lhe cousa alguma de ódio para seus próximos; e que naquele perigo em que estavam se não deviam de lembrar mais que de somente pedir a Deus misericórdia, e ter rme fé em Cristo Senhor Nosso, que pela sua in nita bondade os levaria a porto de salvamento, e que não descon assem, nem quisessem tomar a morte com suas mãos, pois com isso matavam corpo e alma, cousa que todo o cristão deve tanto temer e fugir: e que quem naqueles trabalhos ou em outros tamanhos (se os no mundo havia) se punha nas mãos do Senhor, recebia sempre mais e maiores mercês das que esperava; e que assim con ava ele em Nosso Senhor, que não somente os havia de livrar do perigo em que estavam, mas que os havia de levar a Lisboa, como lhes tinha dito algumas vezes; por isso lhes rogava que lançassem de si todo o ódio e má querença, porque tendo ódio se faziam incapazes das mercês que esperavam da Divina Majestade. Prouve a Nosso Senhor que com estas palavras, e outras muitas, que lhes Jorge de Albuquerque disse, lhes tirou do pensamento os danados propósitos que tinham, e assim caram livres do diabólico laço que o inimigo lhes tinha armado, o qual era o mais perigoso passo em que se viram, pois com os outros perigos podiam morrer os corpos e salvar-se as almas com a contrição, que em todos parecia; e neste se perdiam corpos e almas, por quererem tomar a morte com suas mãos, desesperando da misericórdia de Nosso Senhor.
Aos vinte e nove de setembro dia do Anjo S. Miguel, pela manhã houvemos vista de uma nau, à qual capeámos e fazíamos como desejosos de remédio para nos salvar, por vir muito perto de nós; mas tiveram tão pouca caridade quem quer que eram, que nos não quiseram acudir, vendo-nos em um pedaço de nau da maneira que vínhamos.
Andávamos já todos de maneira que quase nos não podíamos alevantar com fome, com sede e com trabalho contínuo que tínhamos em dar à bomba um espaço de hora, e outro descansávamos, porque ainda que com a ida do marinheiro abaixo tomámos muita água, todavia nunca deixámos de fazer tanta que nos era necessário dar à bomba. Estando no mísero estado que tenho dito, com a necessidade, fome, sede e trabalho que contei, sem sabermos onde estávamos nem para onde caminhávamos, a misericórdia de Nosso Senhor, que nunca faltou a quem por ela chama, nos socorreu tão favoravelmente, que milagrosamente, a dois dias do mês de outubro, a uma terça-feira, sem o cuidarmos, nos achámos entre as Berlengas e a Roca de Sintra, defronte de Nossa Senhora da Pena, a qual casa vimos a horas de meio-dia, acabando-se de desfazer um grande nevoeiro e neblina, que se zera pela manhã, e porque quando vimos terra cuidávamos que podia ser Galiza, depois que conhecemos bem aonde estávamos nos alegrámos como cada um pôde cuidar; mas fez-nos tristes o não ter com que ir a ela. E chegando-se a nau para terra muitos zeram prestes tábuas e paus para se lançarem ao mar com eles, quando a nau desse à costa, na qual se desse parecia cousa impossível escapar nenhum de nós, por aquela paragem de costa ser tão fragosa e brava, como todos sabem. E querendo por conselho do piloto e mestre fazer jangadas para sair, lhes disse Jorge de Albuquerque: Ah senhores, que vergonha é esta? tão pouca fé tendes, e tão pouco con ais na misericórdia de Nosso Senhor, que livrando-nos de tantos trabalhos e perigos, vos havia de trazer à vista de terra para vos perderdes? Não creiais tal, porque quem vos aqui trouxe, e à vista de tal casa, como é a de Nossa Senhora, não há de permitir que nos percamos, senão que nos salvemos todos; porque eu espero que nos leve a parte onde todos saltemos em terra a pé enxuto, assim como eu vo-lo disse algumas vezes lá nesse golfão, e bem longe de terra, que agora vemos. Neste comenos houvemos vista de muitas velas, às quais capeámos, e o bem era, que quanto mais lhes capeávamos, mais se desviavam de nós; e alguns dos nossos cuidavam que haviam medo de nossa nau, por lhes parecer fantasma, porque nunca se viu no mar cousa tão dessemelhada para navegar como o pedaço da nau em que vínhamos.
Ao outro dia, três de outubro, véspera do bem-aventurado S. Francisco, amanhecemos muito perto da Roca, e da Rocha, e indo já quase a nau para dar à costa, passou por nós uma caravela, que ia para a Pederneira, e pedindo-lhes nós outros, que à honra da Morte e Paixão de Nosso Senhor nos quisessem socorrer, dando-lhes conta de todos nossos trabalhos, e que além de fazerem serviço a Nosso Senhor lho pagaríamos muito bem, que nos tomassem consigo para nos porem onde quisessem, pois estava em sua mão salvar-nos: e pedindo-lhe isto com a instância que nossa necessidade requeria, nos responderam: Que Jesus Cristo nos valesse, que eles não podiam perder tempo de viagem; e se foram sem nenhuma piedade de nós outros. Vendo-os assim partir, cámos tão desconsolados, que não houve nenhum de nós que se lhe não arrasasse os olhos de água, por vermos a crueza que connosco usavam homens portugueses e nossos naturais. Foi crueza esta muito para se estranhar, e para um rei mandar castigar. E indo assim já para darmos à costa, sem termos remédio algum de salvação, pela parte em que íamos dar, nos socorreu a misericórdia divina com uma barca pequena, que ia para a Atouguia, a qual vendo-a começámos a capear e a bradar postos de joelhos, gritando e pedindo-lhe da parte de Jesus Cristo nos valesse: e estando a barca de nós um tiro de berço, nos acudiu com muita pressa, como próximos e cristãos. E tanto que os da barca chegaram a nós, caram espantados de nos verem da maneira que vínhamos e nos disseram que logo, posto que estavam longe, nos ouviram o requerimento, que à parte do Nome de Jesus lhes
zemos: cousa por certo muito para notar, porque não podendo nenhum de nós
de fraqueza falar alto, foram ouvidas nossas vozes tão longe. Na barca vinha um Rodrigo Álvares da Atouguia, mestre e senhorio desta, e Francisco Gonçalves de Aveiro, e João Rodrigues da Atouguia, e um moço lho do mesmo Francisco Gonçalves; e todos eles em vendo os nossos e o perigo em que estávamos, nos começaram a consolar e esforçar, dizendo que não temêssemos, que eles nos não desamparariam, ainda que se pusessem a risco de perder-se, e que todo o possível fariam por nos pôr em terra a salvamento; e que por esse trabalho não queriam prémio algum, porque o queriam fazer por serviço de Nosso Senhor, visto como parecia cousa milagrosa tê-los trazido ali, onde havia três dias que se não podia ir para diante nem para trás, andando sempre dando bordo ao mar e bordo à terra para fazerem seu caminho: que parecia que Nosso Senhor não quis que se pudessem ir dali; porque esperassem por nós para nos levar à terra, e que em lhe nós bradando nos ouviram, e logo nos acudiram com muita pressa, vindo com vento em popa para nossa nau, que até então lhes não ventara. E vendo a nau tão destroçada, e qual vinha, e a nós outros tão disformes de fome, caram atónitos: e com muita compaixão começaram a chorar, e nos deram logo do pão, água e fruta que para si traziam: dos nossos uns não puderam comer de sobeja alegria de ver terra, e em que ir a ela, e outros por terem já o padar cerrado da fome e necessidade passada: e averiguadamente se andáramos mais dois ou três dias no mar, não cara nenhum de nós vivo, porque os que vínhamos vivos não nos podíamos ter nas pernas pelo trabalho de dar à bomba, e haver dezassete dias que não bebíamos água, nem vinho, e quase em todo esse tempo não comíamos cada dia mais que três ou quatro cocos, se eram pequenos, porque se eram maiorzinhos, três somente repartíamos por todos, que éramos perto de quarenta pessoas. O senhorio da barca, tanto que nos acabou de dar de comer, nos deu um cabo com que afastámos a nau da Rocha, e assim à toa trouxeram a nau ao longo de terra, até a porem em Cascais a horas de Sol-posto, e em as barcas, que logo acudiram de terra, se passaram alguns de nós, que desembarcaram em Cascais, outros viemos desembarcar a Belém a pé enxuto. Uns e outros logo dali começaram a cumprir suas romarias que traziam prometidas, dando muitas graças a Nosso Senhor pelas grandes e misericordiosas mercês que connosco usara. Jorge de Albuquerque, antes que se desembarcasse, satisfez ao senhorio da barca e aos mais companheiros seus a boa obra que nos zeram em nos trazer até ali, e na mesma noite que chegámos cou a nau amarrada por popa da barca, por não ter com que se amarrasse; e com a barca não ter mais que uma só fateixa ao mar se teve a si e à nau toda aquela noite, que foi quinta-feira o dia seguinte quatro de outubro. No mesmo dia o infante D. Henrique Cardeal neste reino de Portugal, que nesse tempo governava, mandou uma galé para que trouxesse a nau pelo rio acima, como fez, e se pôs a dita nau defronte da Igreja de S. Paulo, que ora é freguesia, e por espaço de um mês ou mais que ali esteve, ia tanta gente vê-la que era cousa espantosa, e todos cavam admirados vendo seu destroço e davam muitas graças e louvores a Nosso Senhor, por livrar os que nela vinham de tantos perigos como passaram. E assim parece razão, que toda a pessoa, a cuja notícia vier a grande misericórdia que Deus usou connosco, lhe dê muitas graças e louvores, por nos trazer a salvamento em um pedaço de nau, estando afastados de terra duzentas e quarenta léguas, sem termos leme, nem velas, nem mastros,
nalmente nenhum aparelho daqueles de que se tem necessidade para navegar, e
a nau aberta que se ia ao fundo; e sobre tudo isto, fome e sede, sem ter que comer, nem que beber, andando vinte e dois dias, como tenho dito, em dezassete dos quais nenhum de nós bebeu água, nem vinho, nem comemos mais que três quatro cocos, repartidos cada dia por quarenta pessoas.
Moveu-me escrever este discurso de nosso naufrágio querer que soubesse toda a gente os trabalhos que nas navegações se passam, e quão forte fraqueza é esta de nosso corpo, à qual se se lhe representassem para passar os trabalhos com que pode, cuido por certo que desmaiaria de os ouvir: e mais para que todos vejam claro com quanta razão devemos todos esperar, e con ar na misericórdia do Senhor, a qual não desempara ninguém em trabalhos, por grandes que sejam, se buscarmos com pureza de coração, com que é necessário aparelharmo-nos para a recebermos: e para que se saibam as grandezas da misericórdia de Nosso Senhor, e as maravilhas que usa com os pecadores, que na sua bondade e misericórdia con am, me pus a escrever este compêndio de trabalhos, que servirão de espelho e aviso, e consolação para os que se virem em quaisquer outros semelhantes a este saberem ter grande fé e con ança na misericórdia de Nosso Senhor os livrar e salvar, assim como fez a nós. E por tudo seja o Senhor sempre bendito e louvado.
Posso a rmar com verdade a todos os que isto lerem, que não escrevo aqui a metade de tudo o que passámos, porque nem quando passei estes trabalhos tinha lembrança nem comodidade para os escrever, nem depois de passados me sofria a memória querer que se lhe representasse: mas somente é aquilo que me pode lembrar do muito que padeci nesta viagem: mas seja louvado o Nome Santíssimo de Jesus, cuja bondade e misericórdia me trouxe a salvamento. Os que chegámos à terra vivos foram estes: Jorge de Albuquerque Coelho, que foi o que mais trabalho sofreu e perda recebeu neste naufrágio que todos, o piloto Álvaro Marinho, o mestre André Rodrigues, Afonso Luís piloto, mas não da nossa nau, André Gonçalves, Domingos da Guarda, António da Costa, um homem por nome o Velho, um moço por nome António, Baltazar Álvares, um padre da Companhia, por nome Álvaro Lucena, um lho bastardo de Jerónimo de Albuquerque, Graviel Damil, Simão Gonçalves, Simeão Gonçalves, Gomes Leitão, dois Irmãos por nome os Bastardos, um Velho, mestre de fazer açúcar, Brás Alvares Pacheco, uma escrava de Jorge de Albuquerque, por nome Antónia, e outros escravos mais.
A gente que o mar levou foram o contra-mestre Toríbio Gonçalves, António Fernandes, um moço por nome António, lho do Velho, Gaspar Mouco, um francês piloto, Domingos Gonçalves, António Moreira. Os mais morreram pelo caminho com fome, sede e trabalho. Uma só cousa quero contar, para se poder ver o muito trabalho que sofremos, e a que estado nos chegou este naufrágio, que saindo Jorge de Albuquerque com alguns que o acompanhámos em Belém, e encaminhando em romaria a Nossa Senhora da Luz, pelo caminho de Nossa Senhora d’Ajuda, sendo sabido na cidade dos parentes e amigos que era chegado ali, D. Jerónimo de Moura seu primo, lho de D. Manoel de Moura, e outras muitas pessoas o foram logo buscar, e sabendo que era já desembarcado e aonde ia e que caminho levava, foram após ele; e chegando o primo a nós outros, que íamos juntos, nos saudou, perguntando-nos se éramos nós os que nos salváramos com Jorge de Albuquerque? e dizendo-lhe que sim, nos perguntou: Jorge de Albuquerque vai diante ou ca atrás, ou tomou por outro caminho? E Jorge de Albuquerque, que estava diante dele, lhe respondeu: Senhor Jorge de Albuquerque não vai diante, nem ca atrás, nem vai por outro caminho.
Cuidando D. Jerónimo que zombava, quase se houve por descon ado, e lhe disse que não gracejasse, que respondesse ao que lhe perguntava. Disse-lhe Jorge de Albuquerque: Senhor D. Jerónimo, se virdes Jorge de Albuquerque, conhecê-lo-eis? Disse-lhe que m. Pois eu sou Jorge de Albuquerque, e vós sois meu primo D. Jerónimo lho de D. Isabel de Albuquerque minha tia; aqui podeis ver, e julgar o trabalho que passei. E criando-se ambos, e não havendo mais que um ano que se deixaram de ver, sendo muito amigos, e conversando muito tempo, o desconhecia de maneira que nem com isto o pode acabar de conhecer. Foi então necessário a Jorge de Albuquerque mostrar-lhe sinais na pessoa, por onde com muitas lágrimas o abraçou, espantando-se de quão dessemelhado vinha ele e assim vinham todos os mais. A tudo isto fui testemunha de vista, por isso o contei. Seja louvado Nosso Senhor, que me chegou a estado de poder escrever isto, cousa que muitas vezes cuidei que não poderia ser; mas somente Deus é o que sabe tudo; seja ele bendito e louvado para todo do sempre.
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