Homenagem ao Marquez de Pombal
Capítulo II
Dizei a vossos filhos,
Que estão calcados já os gloriosos trilhos
Que hão-de conduzir ao fundo de seu peito A força da Justiça e a força do Direito!
II
A noite tenebrosa, a noite dos horrores,
Estendia feroz as suas negras cores
Sobre a Europa abatida e sobre a terra inteira;
Apenas o clarão sinistro da fogueira
Illuminava a custo aquella triste scena;
Sentia-se um rumor como o rugir da hyena, Havia um cheiro forte e acre e nauseabundo
Subindo em espiraes pelo azul profundo; A carne a crepitar!.. Os gritos lancinantes!..
Como orgia infernal de velhos Corybantes!
Uma sombra indecisa, impavida e soturna Fluctuava ali á viração nocturna;
Era a sombra do Mal—o negro pavilhão
Que tinha escripto em sangue um lemma: Religião!
E sobre cada corpo, e sobre esses destroços. Conjuncto informe e nú de carnes e de ossos,
Andavam a pairar abutres esfaimados,
Despedaçando ainda os membros trucidados!
Humildes, evocavam o nome de Jesus,
—O nome da Justiça, o explendor, a Luz; Traziam n'uma mão um velho Breviario;
A outra segurava o facho incendiario,
Um Christo sobre o peito, aos hombros uma estola…
Era a turba feroz dos filhos de Loyolla.
Portugal acordou, emfim, do seu lethargo; Esgotára de todo o calix mais amargo.
Um homem, um gigante, um genio portentoso
Erguera-se de pé, n'um brado poderoso,
E disse sem temor áquellas turbas vis.
«Hyenas! recolhei ao fundo dos covis!
Largai a vossa presa, oh tigres sanguinarios! De joelhos, chacaes! malditos salafrarios!
Hei-de lavar com sangue o sangue da Innocencia, Matar-vos como cães, matar-vos sem clemencia,
E arrojar, porfim, ás fauces do abysmo,
Os vossos corpos nús e o vosso Fanatismo…
«A verdadeira Fé succede à Hypocrisia;
A Noite terminou, reaparece o Dia!»
E o braço poderoso e forte de Pombal
Arrebatou da treva o velho Portugal,
Para lançar a Luz, para lançar a Gloria,
Sobre elle, que era só recordação na Historia.
Exhausto e abatido ao sopro da desgraça,
Vergado ao Fanatismo—esse tufão que passa E tenta destruir os brilhos da Rasão—
Sentia emmurchecer na sua heroica mão Os louros que colhêra ao sol de cem batalhas.