Informação, Conhecimento, Ação Autônoma e Big Data: Continuidade ou Revolução?

Daniel Martínez-Ávila, Edna Alves de Souza e Maria Eunice Quilici Gonzalez (orgs.) · Capítulo 1 de 17

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Informação, Conhecimento, Ação Autônoma e Big Data: Continuidade ou Revolução?

Prefácio

É no junto do que sabe bem, que a gente aprende o melhor.

João Guimarães Rosa

Estudos interdisciplinares sobre implicações éticas, epistemológicas, estéticas e políticas do desenvolvimento e uso de recursos tecnológicos de comunicação, na ciência e na ação cotidiana, estão na agenda quase que obrigatória de cientistas, filósofos e artistas contemporâneos. No universo filosófico brasileiro, estudos sobre essa problemática vêm sendo desenvolvidos, não sem controvérsia, há mais de duas décadas. A contribuição de Mariana Claudia Broens, a quem dedicamos esta obra, para celebrar o seu sexagésimo aniversário, não poderia passar despercebida.

Batalhadora incansável em defesa dos direitos humanos, Mariana Claudia Broens vem desenvolvendo profícuas reflexões sobre implicações éticas, políticas e pragmáticas do emprego desenfreado de tecnologias de computação ubíquas na ação cotidiana. Em particular, ela vem investigando, em conjunto com membros do Grupo Acadêmico de Estudos Cognitivos (GAEC) da UNESP, possíveis impactos do uso de técnicas de Big Data na dinâmica da opinião pública, da linguagem e das emoções humanas.

Na obra Por uma outra Globalização, Milton Santos (2001, p. 17) nos presenteia com uma análise lúcida e instigante do cenário contemporâneo, moldado pelo progresso das ciências e das técnicas, cuja utilização permite que o nosso mundo se torne, entre outros, “[…] esse mundo confuso e confusamente percebido”. Essa confusão parece decorrer de um paradoxo: por um lado, os recursos da tecnologia, dentre os quais se destacam atualmente os de Big Data, propiciam a comunicação sem fronteiras e o acesso a fontes informacionais relevantes, outrora inacessíveis e quiçá inimagináveis. Por outro lado, esses mesmos recursos tecnológicos vêm conduzindo à aceleração vertiginosa das ações humanas, com consequências (muitas vezes indesejáveis) políticas, ambientais, éticas, psicológicas, entre outras.

É nesse cenário que a presente obra se insere; seus vários capítulos buscam atualizar e aprofundar a análise desse mundo “confuso e confusamente percebido”, a partir de uma perspectiva interdisciplinar, falibilista, tendo como leme a interrogação “Big Data: reforma ou revolução?”. Na esteira de Milton Santos, entendemos que no passado os colonizadores enviavam exércitos e religiosos para conquistar territórios e apoderar-se de recursos ambientais considerados preciosos; hoje, com recursos avançados de tecnologias digitais, além dos exércitos, os novos colonizadores financiam técnicos qualificados para minerar e comercializar dados de fontes variadas, incluindo aquela de usuários de redes sociais. As consequências, positivas e negativas, dessa complexa atividade clamam por pensadores que, como Mariana Claudia Broens, ajudam a ampliar o campo de reflexões sobre o presente e o futuro das novas gerações influenciadas pelo acelerado avanço da tecnologia.

Inspiradas na sensibilidade poética de Guimarães Rosa (Grandes Sertões: Veredas, p. 487), expressa através do pensamento que: “É no junto do que sabe bem, que a gente aprende o melhor”, queremos manifestar a nossa profunda admiração por essa pessoa que com sentimento ético e social vem reforçando o “exército de Branca Leoni” na difícil tarefa de agregar trabalho, alunos, amigos, para abrir caminhos com tino e generosidade, disseminando, com coragem e ousadia, sempre que possível, reflexão ampla sobre os saberes e seres essenciais que nos ajudam a viver melhor.

A questão chave sobre o livro, “Big Data: continuidade ou revolução”, provoca o leitor a investigar (não pacificar nossos conflitos; posto que o seu eterno retorno é inevitável), aproveitando o extremo limite do possível, a escavar, no mundo em que estamos, o mundo que queremos e devemos criar.

Obrigada Mariana! No meio desse mundo confuso, e confusamente percebido, resta ainda o celebrar da marchinha de carnaval: “Quem sabe, sabe/Conhece bem/Como é gostoso/Gostar de alguém” (Carvalhinho, 1956).

Marília, 09 de agosto de 2019.

MARIA EUNICE QUILICI GONZALEZ

 

Referências

CARVALHINHO. Quem sabe, sabe. São Paulo: Odeon, 1956.

GUIMARÃES ROSA, João. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Nova Aguilar, 1994.

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2001.