Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho): Esboço Biográfico
Capítulo VIII
Os romances de Julio Diniz foram profusamente apreciados pela imprensa. Além do seu valor real offereciam certa novidade para o publico portuguez,—nacionalisavam{36} o moderno romance britanico, desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, após elle, muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era mais um gravame pesado de que um galardão para a consciencia.
Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um senão apontado pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta, especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na Gazeta litteraria do Porto—era que Julio Diniz falseava a cada passo a linguagem dos seus personagens, recrutados na população dos campos, quando esta linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural aos ouvidos menos exigentes.
Pouco é o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciação, assim exigida pela natureza d'um esboço biographico, concentramos as nossas opiniões, que por menos contrahidas, não se alterariam n'um estudo de mais latas dimensões.
VIII
Em junho de 1871 annuiu Gomes Coelho a retirar-se com a familia de seu primo, o snr. José Joaquim Pinto Coelho, para a rua do Costa Cabral, na enganadora esperança, que alimentavam os seus, de que a proximidade benefica dos campos seria obstaculo à marcha, cada vez mais accelerada da molestia.
Levou comsigo alguns livros, especialmente inglezes, a cuja leitura se entregava com interesse. Não obstante os extremos carinhos da familia que o rodeava, e{37} a solicita assistencia dos seus intimos amigos, o primeiro mez foi de continuo definhar, sendo-lhe já motivo d'aborrecimento, muitas vezes, o rever as provas dos Fidalgos da casa mourisca, que se estava imprimindo, apesar de auxiliado n'este trabalho por seu primo, e podemos dizer enfermeiro, o snr. Pinto Coelho.
Assim foi declinando a vida de Gomes Coelho, até que á uma hora da madrugada do dia 12 de setembro, tendo passado a noite com seu primo, e o seu intimo amigo o snr. Custodio José de Passos, sem denunciar tão proximo desenlace, exhalou o derradeiro alento, depois d'uma longa agonia de tres quartos d'hora.
O Jornal do Porto, que fôra o primeiro a festejal-o, foi tambem a primeira folha do paiz que divulgou a triste noticia do seu passamento, n'estas sentidas palavras escriptas pelo meu amigo Sousa Viterbo, então colaborador effectivo do mesmo jornal:
Aproximam-se as tristezas do outomno e ás tristezas da natureza ajuntam-se as
melancholias do coração.
O paiz e as boas lettras acabam de perder um dos seus mais estimaveis
talentos. Joaquim Guilherme Gomes Coelho expirou esta madrugada á uma hora.
Mais que a nenhum outro jornal do paiz, ao Jornal do Porto cabe-lhe o dever de
derramar uma lagrima de saudade sobre o tumulo do grande romancista. Foi nas columnas do nosso diario que o author das Pupillas do senhor reitor principiou a sua brilhante carreira litteraria.
Era com a maior avidez que os nossos leitores seguiam os folhetins do Jornal
do Porto, quando esses folhetins publicavam as perolas da nossa litteratura, que se denominam—as Pupillas do senhor reitor, Uma familia ingleza, e a Morgadinha dos canaviaes.
A Providencia não quiz conceder a Gomes Coelho mais um momento de vida
para rever as ultimas provas do seu derradeiro romance—Os fidalgos da casa mourisca. Que saudades que não levaria elle do seu livro!
Gomes Coelho não era sómente romancista: era tambem um homem de
sciencia. Tres vezes concorreu ás cadeiras da Eschola-Medica e de tres vezes o seu talento robusto deixou um rasto fulgurante. Todos o reconheciam como uma das primeiras capacidades d'aquelle estabelecimento scientifico.
Como Soares de Passos, de quem foi amigo, Gomes Coelho deixa uma lacuna
difficil de preencher na nossa litteratura. A sua carreira litteraria estava por completar ainda. A sua imaginação estava ainda fresca como um dia de primavera. Que de{38} flores que se não perderam; que de fructos esmagados sob a lousa d'um tumulo!
Gomes Coelho deixou retratado o seu espirito nas paginas suaves, doces,
innocentes dos seus romances. Era uma alma singela como as scenas que tão delicadamente nos descrevia. Observador profundo, enamorava-se do que havia de bello na alma popular e deixava no escuro as miserias que ennegrecem a vida. Comprehendia que a litteratura tinha uma sacrosanta missão e nunca manchou a sua penna nas torpezas da comedia humana.
Gomes Coelho ha muito que se debatia com as agonias da doença. O seu
espirito de gigante debalde luctava com a debilidade do corpo. Os seus profundos estudos, a sua assiduidade no trabalho deviam-lhe minar forçosamente a existencia. Debalde procurou na ilha da Madeira allivio aos seus padecimentos. Os amigos que o viram partir da ultima vez ficaram nutrindo a esperança de que os ares purificados da perola do oceano lhe dariam novo alento. A esperança foi illudida.
Durante a sua estada na ilha da Madeira, Gomes Coelho conviveu com um
talento privilegiado, a quem o Jornal do Porto deveu tambem os thesouros opulentos da sua penna. Mais feliz que Francisco de Paula Mendes, Gomes Coelho veio morrer ao solo natal, entre os amigos que o queriam e a familia que tanto o estremecia.
Entre os membros d'essa familia conta-se um confrade nosso (era o snr. J. J.
Pinto Coelho, então nosso redactor) que a estas horas verga ao pêso d'uma dor excruciante. Enviamos ao confrade amigo e aos seus o testimunho da nossa profunda magua.
Na typographia estava-se compondo o segundo volume do seu romance, quando a noticia da morte de Gomes Coelho corria de bocca em bocca, despertando geral commoção. Mezes depois, em janeiro de 1872 sahiam a lume os Fidalgos da casa mourisca. E todavia, áquella hora em que a triste nova circulava de praça em praça, de casa em casa, restava apenas do grande talento de Gomes Coelho um cadaver preparado para o sepulchro, ao sopé d'um Christo alumiado pela luz arquejante dos cirios.
O Jornal do Porto, fazendo-se cargo de acompanhar á ultima morada os despojos mortaes do escriptor cuja gloria primeiro prophetisara, escrevia no dia seguinte:
Baixou hontem á terra o cadaver do chorado e talentoso escriptor, cuja morte
prematura noticiamos na nossa folha de terça-feira.
Os responsos de sepultura foram rezados na velha Igreja de{39} Cedofeita. Era
grande o numero das pessoas que assistiram a este acto funebre: entre ellas o corpo docente da Eschola-Medica, de que o finado fazia parte, e alguns professores de outras corporações scientificas e litterarias.
Pegaram ás azas do caixão seis dos antigos condiscipulos do snr. Gomes
Coelho, a quem elle tinha na conta de seus mais caros amigos. Foram os snrs.: Ernesto Pinto d'Almeida, Augusto Luso da Silva, Eduardo Augusto Falcão, José Augusto da Silva, Miguel Teixeira Pinto e José de Macedo Araujo Junior.
A chave do caixão foi depositada nas mãos d'um dos mais intimos do fallecido,
o irmão do grande poeta que escreveu a Visão do Resgate. No rosto do snr. Custodio de Passos desenhava-se a dor do triste sacrificio que lhe impunha a amizade.
Entrou no seio da natureza o corpo d'aquelle que tão bem a tinha sabido
representar nos seus quadros de poesia campestre. O seu espirito, porém, ficou encarnado nos seus livros e viverá entre nós emquanto se souber prezar a belleza das grandes obras d'arte.
O nome de Gomes Coelho não é d'estes nomes ephemeros que se gravam em
lettras douradas no marmore d'um tumulo luxuoso.
Eu, profundamente impressionado pela morte de Gomes Coelho e obrigado a sahir do Porto, por motivos extranhos á minha vontade, no dia do seu enterro, fui dos primeiros a depôr uma flôr de saudade no tumulo havia pouco cerrado, porque era realmente um dos seus mais sinceros admiradores. Nas ultimas paginas do livro—Esboços e episodios—escrevia eu emboscado n'umas paragens sombrias do concelho de Sinfães:
D'esta vez já cá não encontrei as andorinhas. Sahi do Porto dias depois d'ellas
partirem, e mais uma vez averiguei que sempre com ellas emigra para mais lucidas espheras a alma d'um poeta que succumbe á melancolia do outomno. Este anno as andorinhas e a alma de Julio Diniz partiram ao mesmo tempo. Estava a natureza de lucto, e a litteratura tambem.
Era um dia triste, pesado, chuvoso.
As andorinhas poisaram em bando nas cornijas musgosas da igreja de
Cedofeita. Estavam a discutir provavelmente a necessidade de emigrar, a combinar talvez a hora da partida.
Michelet no seu formoso livro denominado—L'Oiseau—cita um exemplo
eloquente d'estas discussões animadas das andorinhas momentos antes da partida. As pobrezinhas sacudíam, tremendo, os pingos d'agua que lhes emperlavam as pennas. Estavam amedrontadas da neblina. Deviam partir. De repente reboam os echos do campanario com uma toada lugubre. Era a{40} voz do sino que annunciava o passamento de Gomes Coelho. Não pensaram mais um
momento, não reflectiram siquer.[2]
Partiram em direcção ao mar, atravessando os campos.
Pobre scismador, que sentia dentro do craneo a chamma dos predestinados para a gloria e no peito a urna embalsamada d'um coração sem macula, com que inexplicavel melancolia, e porque longas horas de dilacerante angustia, não veria elle destacarem-se, nos campos visinhos, sobre o céo pardacento do outomno, os troncos das arvores cada vez mais despidos e solitarios! Era aquelle um sentir-se resvalar para o tumulo, dia a dia, um despedir-se lentamente das suas affeições, dos seus romances que resumiam horas de enlevo e melancolia, e do seu ultimo livro, especialmente do seu ultimo livro, folha, que, ao voar do recinto da familia para a officina typographica, fôra talvez rociada pelas lagrimas furtivas d'um presentimento pungente.
Era que tinha de ser a ultima d'uma primavera que, em pleno esplendor de suas galas, via enovelar-se ao longe, avançando sempre, a nuvem negra do simoun que levaria após si folhas e flores para abysmar umas e outras nos despenhadeiros do sepulchro.
E a nuvem aproximou-se, e o simoun passou, e tudo o que estava ainda enthesourado nos cofres opulentos da primavera perdeu-se, mas a folha verde dos intimos vergeis tinha já voado, nas brisas suavissimas da gloria, a enastrar-se n'uma corôa entretecida por outras, suas irmãs, porque da mesma seiva se nutriram, e que pairava a uma altura superior ás impetuosas correntes que impellem o homem desde a vida inconsciente do berço até aos abysmos insondaveis da eternidade.
De Gomes Coelho só morrera o homem; o escriptor ficara.
FIM
[1] A Caldeira de Pero Botelho, romance, pag. 200.
[2] N'esta ruim profissão das lettras, tão escassa de rendosos
benesses, é licito orgulhar-se a gente de certos galardões espontaneos que lhe dão á alma um momento de conforto. Por tal razão se transcrevem as palavras que nos enviava o snr. D. Antonio da Costa com relação ao artigo transcripto:
«Mando-lhe um abraço pelo sentido artigo biographico que escreveu a
respeito do pobre Juio Diniz. Li-o, e muito gostei d'elle.»
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Alberto Pimentel
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