K4 O Quadrado Azul
30 X 65
cheios de pó de talco e sol.
30 X 65
*WINDSOR & NEWTON, Ltd.,*
LONDON, ENGLAND.
MOIST COLOUR.
*BURNT CARMINE.*
CARMIN BRULÉ
GEBRANNTER CARMIN.
*J. CHROME FONCÉ*
Chrome yellow deep
Chromegelb dunkel
*LEFRANC & C.^IE—PARIS* SÉRIE *H*
GALERIE BERNHEIM-JEUNE, 15, rue Richepanse.
O quadrado azul não era, porém, assim tão facil que não fôsse e por muitas vezes desmanchado em pertences de machina sem
intensão e logo atraídos instantáneamente por um íman luminosamente-sexo que os concertásse em movimento de belleza
ambigua doidamente-hélice-toilette. De uma vez, num passeio, o arco-iris foi quadrado até ao fundo dos raios X pra lá do caválo
transparente n'uma continuidade cinematografica contornando a apologia feminina sagradamente epilética em ss de cío todo realce e
posse de reflexos. Se eu me detinha a observar o quadrado pla perpendicular do desejo illuminava-se o palco artificialmente léve de
triangulo nú em record azuladamente feminino. Os olhos recolheram-se-me pra dentro de um estertor illuminado a escándalo
afogueado e ruivamente doido de artificio. Quando voltei outra vez havia uma carta registada para mim.
*VIGO 15 08 16 PONTEVEDRA* *1^A EXP*
Dentro só estava um quadrado azul. Nem um defeito minimo em
qualquer das faces. Apenas a côr caprichava em não se definir e de tal maneira que Eu já duvidava de o ter visto azul. Do quadrado
saltou uma espiral de cobre ascendentemente móla ofensiva d'onde se balanceava a minha cabeça congestionadamente accêsa em
embriaguez-vertigem de Carnaval-egypcio. A luz espalhou-se igual por todo o quarto sem fazer sombras por detraz dos moveis
transparentes de mêdo nas veias ôcas de azul quadrado. Talvez que o azul é que fôsse quadrado mas havia tambem e por toda a parte
um só quadrado azul que enchia o quarto todo e sempre com um dos vértices onde Eu fitásse. D'esse vértice partia um lado do
quadrado em direcção ás capitaes por um arame equilibrista de aventura. Quanto mais o vértice se aproximava de mim mais se
mudava o tal lado animado do quadrado em chicóte brutal de zig-zag écho de zinco equestre em brouaha-gallope d'inundação-
ampère. Completamente igual e sem origem a luz era sempre a face do quadrado voltada para mim em record. Ás vezes eram as duas
faces voltadas para mim dentro do mesmo quadrado e com um dos vértices a magoar-me o centro do crâneo accêso em deboche pra
dentro. Tabaco de Espanha e cinta belladona e fôgo negro batuque Loanda Cabinda Zona Equador 0^o = 40^o á sombra La creolita, la
novia del toreador *Terre Sienne Brulée*. As parêdes quando desabavam sobre o chão atapetavam o quarto de quadrado azul.
Quando desabaram as quatro parêdes e o tecto eu já era o quarto illuminado a quadrado azul e sem chão. Succediam-se juxtapostos
hieroglyphos syntheticos de expressão immediata e que apesar de não estarem gravados em nenhuma das faces do quadrado azul
reproduziam-se nitidos em golpes de Radium pra dentro do meu cérebro impresso a helzevíre. De entre muitas das frases resolvidas
archivava-se em profundidade estagnada a maldição da humanidade condenada ao prolongamento indefinidamente-
desespero da noção do instante. Outras documentações inexplicaveis de mim prós outros estavam sublinhadas de zêbras
aflitas d'imprescindivel importancia. Mas uma das que mais mordeu a minha sensibilidade foi a da Medicina das côres pla qual tudo seria
exito se se resolvêssem as proporções de um quadrado relativamente á aflição do Mysterio. Como exemplo intensificava a
energia epilética de uma espiral de caixa de surprêzas relativamente ao perigo perpendicular de um quadrado de azêbre circumscrito ao
circulo diámetro da terra e definindo a superficie exgotada quotidianamente em razão subjectiva. Outro exemplo era o da
proporção do esforço infantil pra enfiar a esfera do bill'boquet a transvazar a intensidade cerebral do chimico inovadoramente timbre
de quadrado molle mais metallismo Prussia de um quadrado com o lado igual a infinito amarello. Dos outros apontamentos
zebrantemente illegiveis depreendia-se óra a proporção do receio do debóche prá ferrugem da Intelligencia, óra a da sujeição familiar
impedindo a saída da alma, óra a do contacto dos mal-incarnados dissolvendo a irradiação do previlégio, óra a do esforço dos
déplacés demorando a Perfeição e por fim consagrando a Sensualidade como inicio do ether plo espasmo intermedio.
Apontava depois como erro o desenvolvimento da personalidade dentro da intelligencia chicoteando o subjectivismo de satyras
vencedoras. Segundo o quadrado azul, a intelligencia era o peccado original e portanto indigna de admirações apesar de a exigir até ao
seu maximo em todos os que tivessem nascido. E por deduções espantosamente logicas concluia que afinal o genio como existe
realizado não é mais que o homem normal se a humanidade não tivesse consentido nunca que a terra vivêsse mais depressa do que
Ella. Ao passo que a terra tinha a Lua como unico satéllite a humanidade de tal maneira se dissolvera em desagregações
continúas que minúsculamente dispersas plo espaço foram minguando lentamente co'os seculos até á conclusão Homem. E
toda aquella origem luminosa do planêta humanidade se subdividiu em inteligencia hereditaria por milhões de estilhaços dispersos pelos
astros subsistentes. Admitia a hypóthese da reconstituição do planêta humanidade por escalas de accôrdo unanime em cada astro
isolado até á comunicação magnética de todos os astros alliados prá necessidade da resurreição deste planêta luminoso que não
cumpriu. Como base fundamental pra esta ressurreição elogiava em exaltação litterariamente dogmatica o dominio absoluto e tyranno da
Intelligencia sobre o limite fisico e sem a localização cerebral como que a exigir uma vertigem suspensa em discos de velocidade
acceleradamente centrípeta e de que resultásse a noção do minimo prá expressão humana. Dentro d'estas proporções mostrava
eschemáticamente em solidos construidos de excessos de energias a vida destinada pra cima da Felicidade sem a noção dos cinco
primeiros sentidos. Explicava que tendo-se o homem restringido á superficie da terra atrofiára por demencia e falsa applicação dos
sentidos aplicaveis as disposições iniciaes com que alcançaria todas as vantagens enunciadas no magnetismo. Assim, a subtileza que
fazia parte dos dons nas metamorfóses mais afastadas do primeiro homem, limitára-se, como todas as virtudes da transparencia, em
simples fantazía localizada miseravelmente ferrugenta na sensibilidade cerebral e já sem o funcionamento de placa
registradora do systema vibratorio em comunicação compensadora e sem fios co'os desejos excessivos do Ideal. A revelação mais
vulgar talvez fôsse a designação de átomo com que a Intelligencia (na proporção dos outros elementos componentes) fazia parte de
uma molécula isolada de ar atmosferico mas com receptividade exclusiva das meninges numa vibração thoráxica de digestão
translucida. A seguir vinha logo a demonstração accessivel da existencia d'intelligencia no ar atmosferico plo tacto impressionante
do ar liquefeito. E na verdade a invisibilidade do tacto experimentalmente ruido de gelatina irrita o cerebro de revelação
prá proporção maior em que Zenith choca com Nadir na dissonancia attenta da vibração ultima mais hypothese de som num dyapasão
vulgar. Immediatamente, suspenderam-se em reticencias sonóras todas as revelações e settas acceleradamente ancia cortavam no
mesmo sentido a furia de resolver numa ímpertinencia unanime de acertarem em fins. Excedia-se a tempestade obliquamente em
vermelhos genésicos de sacrificio redemptor e todos os fragmentos de luz emancipada regressaram á dimensão da transparencia em
que a terra era equilibrio inconstante do esforço prá resolução. Pouco a pouco as velocidades contrariavam-se pra uma
desigualdade de intensidade rubra cada vez mais travada de nitidez. E gerações intervaladas de epochas vazías gastavam-se em
direcções resolutas de movimento accelerado num estampído inicial de arranco e numa impotencia suicida e arrastada de se dizerem
exactamente desviando-se da noção do instante que definisse a duração da existencia. As settas perdiam-se pra infinito porque o
alvo mudou-se em transparente na passagem das settas hypnotisadas de alvo na meta do infinito cada vez maior. Mas tudo
isto era como que uma especie de tampa do quadrado azul que se abria em infinito de poço illuminado perpendicularmente á direcção
das energias. Pra lá da vida igual ao instante já o homem não pertencia. Começára por se prevenir da mortalidade mas d'esta
ignorancia enquistaram-se-lhe os abcessos em dentaduras exteriores arreganhadas como sexos de atavismo inutil. Os proprios
repuxos por mais que subissem eram sempre repuxos; por isso que a vida dos repuxos era só certificarem-se de que eram repuxos. Por
outro lado o verde esquecera-se de si-proprio e empallidecera de esquina contra os olhos. Na manhã seguinte quando recordei o
quadrado azul já o não era sobre a secretaria. Havia era uma carta que eu ainda não tinha aberto. A letra era graphologicamente
musical e apenas entre aspas sobrepunha ideias inimigas por querem ser cada uma isoladamente a mais necessaria. «E sendo a
proporção dos priveligiados vantajosamente de 1 pra um milhão resulta que a concepção da eternidade demora-se n'uma velocidade
acceleradamente retardada de exito um milhão de vezes. Todas as luctas tumultuosamente-tantalo do cyclo das gerações dissolvem-se
pra passado conseguindo deslocar a sensibilidade prálém de Zenith na distancia exacta em que as dimensões do homem fôssem
resumidas no ponto mathematico e centro das Zonas esfericas alucinadamente concentricas na suspensão ether. Tambem todas as
energias martyres dispendidas plo genio prá Grande Libertação inutilizam-se em depositos de Imaginação santificadamente inutil e
crucificam-se involuntariamente desmemoriados da Idolatria da Perfeição Humana. Tentar divinisar o homem é o primeiro symptoma
da Amnésia. O homem é o contraste do divino. As múmias foram saqueadas e a esfinge refugiou-se-me no cerebro e espreita
colossal plos meus olhos abertos. Ao menos salve-se a esfinge! As ameias desdentadas tisnaram-se no grito da ultima posição. E eu
por ter a esfinge dentro de mim fui mais um grão de areia a tapar a esfinge no deserto. Formulásse-se a abstenção total de dimensões
prá forma humana que jamais a loucura ganharia aos repelões de regressionismo. D'este erro de proporções sofre o homem actual a
influencia dos mundos microbianos em que a duração do instante se estíca elásticamente nesta certeza da incurabilidade do cancro e
nesta rôxidão de gangrêna lentamente asfixiante da syphilis preguiçosamente deformadora. Neste alheiamento da Felicidade o
homem desceu de si pró sentimentalismo, prá impotencia da descoberta, pró limite da inovação, pró mysterio de si-proprio, pró
irremediavel, pró impossivel e neste ergueu em pedestal de raiva o fatalismo como unico alento prá resignação do cancro. Babel
eternizou-se da confusão das patrias prá lucta da autonomia das individualidades porque nem as Religiões nem as Maçonarias se
acondicionaram onde coubéssem tantas variedades de infinito. Entretanto, a Idolatria do Eu resmunga nos buzios o direito á
victoria. E toda esta ebulição permanente de energias desencontradas e vingativas da degenerescencia aperta-se
violentamente dentro do Mysterio com o insulto de preciosidade de bric-à-brac exposta no Museu repelentemente Nacional. Mas o
homem quer por fôrça ser o maior quando as energias deviam iniciar-se d'esta ambição pra infinito. A Perfeição só se define onde
não ha dimensões e é, pois, absurdo adapta-la a uma concavidade irregular. Plo contrario, concentrem-se as actividades de recepção
no mínimo e a Perfeição possuirá o limite. A vida seria o instante, a abstração mais rápida e infinitamente menor que o segundo
chronometrico. Tambem todas as variações da sensação se juntariam em uma unica a divergir luminosamente prás
compensações do ether, n'uma emancipação da vontade sobre os deslocamentos independentes dos kilos sensuaes da transparencia
ao contrario de fazer incidir sobre o cerebro os aspectos restritos desta natureza planetaria tão cançadamente exgotada. Assim
avançaria o homem sempre e tanto, até que pudésse sucessivamente deslocar de si prá terra a noção do ponto metrico,
isto é, quando o instante de hoje já fôsse toda a vida do planêta em que nos definhamos numa comprehensão enganosamente
lentissima da eternidade. Mas de tal maneira a maldição do homem estava impregnada do Odio de Deus que este horrôr da Eternidade
estava multiplicado por infinito. A eternidade existe sim, mas não tão devagar. E teve o homem a illusão de que creando com a
intelligencia a insensibilidade quotidiana talvez se morfinizásse no habito da indiferença! Mas por mais que exagerásse o homem essa
demencia forçada a que se exgota na intenção de alcool permanente, toda a premeditação excitada se adaptaria a não
consentir antídotos pró Odio de Deus. Resultaram consequencias vantajosas pró homem na inconsciencia mas Deus vingava-se em
permitir-lhe victorias de democracia mais e mais atulhantes de paralysia geral na agravante da longevidade nata. E em tal esforço
de desenvencilhar-se de atilhos que proclamava a independencia pla razão, a aristocracia pla intelligencia, o dominio pla fôrça mas
sempre na condenação de viver no alheiamento absoluto do deslocamento das proporções. Em vez de assignatura estava mal
impresso um quadrado azul n'uma impaciencia de côr á espera do que viésse da distancia diminuida em frio telegrafico de noite. Os
sentidos reproduziam-se em listas fosforescentes plas diagonaes dedadas de teclado onde se crucificava um W entrelaçado em
peixe-desespero fóra d'agua. E outra vez as diagonaes dividiam o quadrado em raios X separação sectores transbordantes de praça
de touros onde o eu-querer-me-dizer fôsse o touro mais forte contra toureiros transparentes a sangrarem-me o cachaço. Eu existia
apenas na febre da cidade e sempre atento, a ver quando os meus sentidos se distraiam pra me raspar de dentro de mim-proprio. Mas
o circulo cançado de se procurar dentro de si-proprio em velocidade-mania parava nitidamente em quadrado azul. Tambem o cone azul
da chama num gesto de emancipação planificava-se em quadrado azul esticado perpendicularmente no plano mais proximo numa
transparencia de só se ver pra lá a mola das cidades e as ambições-segrêdos. O quadrado azul inchava-se pra harmonium asmático
co'a voz de candieiro rouca de ventania e dizia esta quadra de 4 vertices: Amar = A + M + A + R. Primeiro um A, o primeiro A de
amar. A seguir um M, o unico M de amar. Depois um outro A, o segundo A de amar. E por fim um R, o R do fim de amar. Todos os
outros AA eram independentes como estes, todos pertenciam ás suas palavras, aos seus logares nas palavras. Eu-proprio que tantas
vezes julguei que eu era um genio descobri que afinal não passava de ser o A do azul quadrado do quadrado azul. O meu olfato
desprendera-se da quilha e desfocando-se do projector pra sexo-nódoa vestido de rêde, oscillava em anel perdido prá profundidade
de ser um cadaver com pezos nos pés pra não dar á praia. Os outros sentidos desapareciam plos cantos em arrancos instantaneos
de bichos surpreendidos e illuminavam os vértices de olhos inchados de mêdo e accêsos de curiosidade na entrada de buracos
que só existissem por desaparecerem os peixes espantados. O meu atavismo viscoso tinha caído no fundo. Tinham-se-me dissolvido as
formas, pouco a pouco, desde a superficie e por fim o meu anel já enfiava só a psicologia a tingir de raiva a nostalgia subsistente do
respirar. E como um acontecimento maravilhoso rodearam-me o anel chusmas neutras de animaes microscopicos e cabeçudos que
se deixavam atravessar pla irradiação luminosa do diamante cujo ponto brilhante apertava avarentamente-dolorosa a minha
intelligencia fabricada de substancia de eternidade. Mas com o tempo o brilho do diamante passou a ser a extremidade-cilada da
antêna fluctuante da fishingfrog numa importancia capital de ser Eu a origem de todas as luzes. Recordava ainda, por vezes, o meu
cérebro a deformar-se pra Zeppelin perseguido por cascatas alienadas e invertidas em jórros de obseção accêsos por dentro de
funis desde os olhos da praia sem luar. O remorso refugiara-se em veado cercado de mortes antropofagas por todos os lados mal
illuminados. Os balões cativos tinham-se embebedado com loucura julgando ser licôr vêrde. Lembrava-me tambem de já ter sido a
minha intelligencia a materia córante das porções cubicas do Oceano. Depois um cío furta-côres alastrou-se alegremente-jovem
pr'álém do brilho femenino resignadamente-cárcere da nudez da madrepérola. E a minha intelligencia ía escorregando ventosa plo
fundo do mar, plo fundo do mar de todas as substancias do fundo do mar, plo fundo do mar de todas as coisas que não vivem no mar. E
por tudo o que eu pensava iam ficando pedaços solidos da minha fantazía como marcas salientes de práta utensilio. O proprio genio
de Vinci accendia-me as meninges pra me revelar a tatuagem indelével e desenhada a congestão pla idolatria com que me
antecedeu. Toda a minha fantazía era cardinalmente, por instantes ininterruptos, a intensidade exacta das vidas já resolvidas e a das
vidas que ainda se demoravam pra nascimento. E tudo se sucedia por formas de belleza revelada e de belleza intacta. Por todas estas
realidades das noções orgánicas nunca se denunciava a existencia das particulas representativas das intelligencias aventureiramente
transportadas ao interêsse das invenções realizadas, das futuras e das impossiveis. Isto é, o Radium não podia ter sido descoberto
antes do seculo xx por não existirem ainda sobêjos de energias transbordantes suficientes pra illuminarem essa minima quantidade
de Radium resolvido. Esta vontade que me occorria de quando saisse de manhã pró passeio eu não saisse todo, saisse só metade
por exemplo, ou só as pernas, ou só a intelligencia desalojada do cérebro, ou só sensualidade, ou só o desejo de ser um fio, onde
estivéssem enfiados os valores, interessantes das formas em geral resolve-se excedentemente no quadrado azul. As conchas por
exemplo, deixaram de ser symbolos indecifraveis pra serem a expressão e o movimento dos que pensaram nas conchas. Verdade
é que essas intelligencias é que lhes permitem a intensidade de vibração psichica mas a vontade da direcção das conchas por todos
os deslocamentos do capricho e da necessidade e da abstração é uma autonomia irrevogavel das proprias conchas absolutamente
alheias da causa que lhes concede sentir. N'este momento o quadrado azul era o sitio exácto onde existia perpendicularmente a
maior profundidade oceanica. Esta seria a minha altura depois de sommar a quatro e quatro e sem intervallos todos os grãos de areia
cheios das fantasias de todos os que até este instante pensaram em mim quer fôsse com a noção exácta da minha intensidade quer
fôsse até a inconsciencia de terem pensado num qualquer que fôsse exáctamente Eu. A creada veiu trazer-me n'uma bandeja de cristral
contente a rir cerimonia uma imensidade de compotas e refrescos. Devia ser uma creada nova com certeza, porque eu não a
reconheci. Mas tão pouco podia comprehender que tivessem tido o espirito de acceitar como servente uma extravagante que logo no
primeiro dia entrava completamente núa no meu quarto a servir-me um primeiro almoço que nunca fôra tão exuberantemente de meu
habito. E com uma d'estas naturalidades impressionantes desdobrou os guardanapos quadradamente azues sobre uma meza
que eu tambem nunca conheci no meu quarto e foi dispondo com requinte decorativo pró meu apetite os cristaes, os reflexos, os
dôces e as côxas. Eu ia pouco a pouco enchendo-me daquella extranheza de nunca ter estado naquelle quarto e pra sentir melhor
esse palpitar nervoso do meu coração levei a mão sobre o meu peito mas tinha um seio de mulher. Ella descerrou as janellas
cautelosamente e então reparei espantado que estando eu todo descoberto o meu corpo nú era de mulher. A pelle viciosamente
perfumada tinha um tacto desmaiado de setim-velludo interminavel inexgotavel no meu desejo. Eu proprio sentia em mim uma diferença
de peso que me favorecia uma agilidade fragil que eu tanto quizera resolvida. E eu que apenas tinha sentido no meu cérebro a alegria
dos reflexos dos cristaes, o requinte do perfume das compotas, a musica de um quarto de accordar, o servilismo dos apanhados das
cortinas, o dever confidencial dos moveis, a selecção afectiva dos tapêtes, a embriaguez intima dos bibelots, agora era com todo o
meu corpo que possuia essas sensibilidades tão intensificadamente independentes nos seus contornos, nas suas transparencias, nos
seus logares, nas suas substancias que a carne toda me deliciava demoradamente em spásmos de póros alternadamente em desafios
de mais gôso. Mas agora, como prova da verdade, eu já sentia tambem nos meus joelhos, n'uma satisfação convexa de
abundancia, as ondulações sensuaes do tecto no mesmo rithmo de cío em que se mastrobava a americana viciosamente esguia de
music-hall. E as paredes despegavam-se de serem definitivas e ou se enrolavam num gesto de conquista ou se confessavam
finalmente sáphicas n'uma apologia oriental de serpentes do peccado, venenosamente magnetisadas plo meu sexo musical. Por
fim, eu cria já absolutamente em Deus; aquelle meu imprudente impossivel de nunca poder vir a ter a Italia toda sobre o meu
travesseiro excedia-se a tal ponto em realização que eu já admitia enthusiasticamente na minha opinião a superioridade do Homem se
não plo que elle exprimia ao menos plo que elle sentia. Ah! mas dóe muito mais vir a ter a certeza que nunca houve nenhum homem
estupido pra dentro quando pra fóra a maioria transpôe o ignobil. Mas assim, sim! nem ha a necessidade do spásmo animal quando
se domina o instante total de uma nacionalidade por todas as nuances da depravação. Que deficiente que é a expressão do
genio! Pra que havêmos de comprovar o restricto da expressão em tentar litterariamente archivar a vida? É preferivel vivê-la, realça-la
no decorrer, não pla necessidade da divulgação artistica mas pla intensidade do momento unico. Não te lastimes, meu polidor das
unhas, eu não te serei ingrato como os outros. Eu saberei transparecer em ti esta minha paixão ardente por esse teu gesto
curvado de espelhar as unhas em que escondes por vergonha todos os desejos intimos de meio mundo que te usa. Meu Deus! permites
que eu pense na Felicidade da vida se todos tivessem a brutalidade da minha Intelligencia? Repára tu, ó Deus, como eu faço o possivel
pra não te comprehender! que básta eu desencantar-te em qualquer fórma de jarra pra ella deixar logo de ser a minha amante pra ser um
gesto teu! Como queres tu que eu não te admitta, se o meu sexo nunca repetiu um espasmo? E não fui eu que revelei que a
elegancia do toilette me emendou as ancas? julgavas que eu não sabia que me espreitavas do espêlho quando eu não me via ao
espêlho? Eu vi-te ainda a fugir. Se sabes que eu valho tanto porque me não dizes a razão de ser aquella moldura igual ao recordar-me
triste? Já nem preciso recordar-me triste, já existe n'aquella moldura. Se tu soubésses a minha dôr por aquella pedra ser
irregular! Porque não lhe dás um nôme? Faz-me lembrar as coisas iguais a mim mas que ainda não sabem do quadrado azul. Se és
Deus porque me não deixas dizer o segrêdo da felicidade a esta gente? Doe-me tanto vê-los parvos! E a creada núa disse-me em
italiano se eu queria tomar banho primeiro porque os dôces estavam cançados de pensar e que se eu não soubésse responder lógo a
seguir já uma das americanas tinha tomado o absyntho mais cêdo pra me vir beijar o sexo. Preferi o banho.—Sim, menina, disse em
italiano tendo-se ajoelhado n'uma reverencia antes de sair. Corri ao espêlho. Eu era a minha amante! Mas a inteligencia era
absolutamente a minha. Extranhava tudo: o atrito das coxas, a curva das pernas, o paladar, o perfume natural da pelle, os cabellos
compridamente macios e loiros, os habitos da lingua, a direção dos gestos, as atitudes, tudo diferente e tudo melhor. De repente o corpo
começou a desmanchar-se-me como duas metades mal-coladas sempre com os movimentos d'ella intersecionados do meu corpo nú
a regressar lentamente de um desaparecimento. E outra vez se diluia pra ser apenas a minha amante toda núa mas com a minha
intelligencia. Eu não tinha absolutamente vontade nenhuma sobre os seus gestos quotidianos, sobre os seus habitos. Eu era como que
alguem que a disfructásse na intimidade espreitando-a de dentro dos olhos d'ella. Fui inconscientemente abrir um dos guarda-
vestidos e vi-a ter todos os gestos que se teem pra se escolher um vestido que vá bem com a disposição do accordar mas o vestido
preferido era o meu corpo mólle. N'isto entrou a creada ainda toda núa e ajudou-a a vestir-lhe o meu corpo molle tendo ficado muito
contente com ella por ter resolvido pôr hoje aquelle vestido que lhe ficava tão bem. Eu quiz dizer qualquer coisa que me não lembra
mas a minha bôcca disse sem querer em italiano: traga-me os sapatos de velludo! Mas a creada sem gestos que confirmassem o
que dizia poz-se a declamar cadenciadamente: Porque o desejo tem limite e quando se é homem, isto é, quando se não atingiu ainda
uma forma das imediatamente superiores ao genero humano tudo o que aspire o ao-de-lá prehenche a deficiencia mais proxima plo
deslocamento da intellectualidade sem intervenção de nenhuma das duas vontades. Depois, saiu do quarto por um instante e a voz d'ella
continuou a declamar da mesma distancia: Se tua mãe fôsse viva não tinhas tu um galgo que te lambe as mãos. O galgo lambe-te as
mãos por tua mãe te ter morrido. Se tua mãe não tivesse morrido com pêna de te deixar o galgo não te lambia as mãos. Se tua mãe
não tivesse morrido antes de te fazer sentir o grande amor que ela sentia por ti não tinhas tu um galgo que tem a mania de te lamber as
mãos. Se tua mãe não se sufocásse no desejo de querer por fôrça que tu soubésses, dentro dos teus 2 annos, que ella estoirava no
excesso de uma paixão por ti não tinhas tu um galgo damnado que te morde as canellas se o não deixas constantemente beijar-te as
mãos. É que todo esse excesso de paixão eternizou-se em transparencia e foi-se adaptando pouco a pouco no cérebro do teu
galgo, elemento de vida mais proximo de ti. Mas não te creias feliz porque toda essa raiva do teu galgo tem a consciencia dos sentidos
vivos de tua mãe. Essa massa fluída e indesagregravel que é toda a energia da paixão de tua mãe por ti tem a consciencia de se ter
acondicionado no crâneo do teu galgo. Por isso tua mãe tem a maldição de assistir á lucidez da sua intelligencia na inexpressão do
teu galgo que te lambe as mãos por uma vontade alheia á do teu galgo e diferente à da tua mãe.» E ainda esta dissertação não tinha
terminado e já a creada tinha voltado co'os sapatos de velludo. Eu estremeci sacudido por um choque tão violento como se o proprio
Sol se suicidásse de lá de cima sobre a minha cabeça e nos tivéssemos esmigalhado os dois em escuridão. Mas Eu não era Eu
nem Eu era a minha amante. Eu era apenas a minha intelligencia fechada dentro da cabeça da minha amante e sem comunicação
absolutamente nenhuma co'a minha amante. Eu tinha a excitação extacticamente atropelada da paralysia geral mas o meu cérebro
pretendia rebentar em congestão de estrondo que parásse a terra estampada contra o Sol como uma laranja esmigalhada que
deixásse o Sol todo apagado em nódoa nêgra de sangue pisado. E era a bocca d'ela que a minha intelligencia via plo espêlho e que tão
longe da minha Dôr perguntava á creada se não tinha outro avental para pôr. De repente o Eu vê-la plo espêlho já não era de tão alto.
Agora Eu era um Zumbir que não vibrásse senão achar-me muito bello. Eu era delicadamente o motivo de um abrígo compensador e
suave e afectivamente dedicado. E ella começou a perfumar prevertídamente o sexo n'uma delicia de segrêdos que me
acondicionavam lucidamente a minha inteligencia no sexo d'ella. A Natureza não era mais do que o cérebro explodia pra todos os
lados. Oh! puff!! como Eu odeio a humanidade que se exprime! O que é o escandalo senão o Homem? escandalo no sentido obscêno!
Ha coisa mais obscêna que a Humanidade? esta coisa que pretende dominar na terra e que escorrega em desordem plos
continentes até secar em morte! Que forma terá a lêsma que nos segréga? Nenhum outro excremento é venenoso como o da terra!
Ignobeis parasítas omnívoros que vos atulhaes em impotencia dentro de um peníco inconvenientemente convencional! que
pretendeis Vós com essa fúria de subjectivismo? pra que complicaes tão enterradamente-viva a Ignorancia? Deus certamente
enganou-se em me nascer! oh! Como Eu odeio a Humanidade que se exprime! se Eu não soubésse lêr os gestos e as proporções diria
que a Humanidade era tão bêsta como os genios humanos quando pretendem desenvencilhar-se da inspiração. Ser génio quer dizer
reproduzir-se igual a si-proprio, totalmente igual a si-proprio, exageradamente igual a si-proprio. Logo: não ha génios. E bastaria
Um só pra que se revelásse o segrêdo de ser génio, o segrêdo do mysterio onde está enterrada a Felicidade, o segrêdo de todos os
segrêdos. E bastaria Um só pra que a Humanidade toda num só instante se imancipásse unanimemente prá Verdade que eu creio
plenamente nunca ninguem ter pensado apesar de se escrever co'as mesmas sete lettras V, E, R, D, A, D, E. Mas o diccionario está
errado, morra o diccionario! Ha palavras como spleen e saudade que são como mulêtas de paciencia pró Homem se arrastar na sua
molenguice. A Velocidade parou em absoluto estes significados. Spleen é a tatuagem da impotencia. É o symptoma definitivo do
cancro proveniente de uma intelligencia paráda. Saudade é a mastrobação passiva dos que não sabem que a Natureza é
suficientemente variada pra que não haja necessidade de voltar atraz. A Velocidade move-se por enthusiasmo e nunca descarrila da
Felicidade. Eu penso mais depressa que a invenção do apáro e da canêta. Eu ganho em Velocidade á yost, á underwood á smith-
premier a todas! Eu penso mais rápido que os transatlanticos os sud-express as telegrafias sem fios! Eu penso no instante igual á
duração de todos os Mundos! Eu tenho a raiva de não pensar senão co'o cérebro. O meu cérebro é que me arrasta a mim atraz d'ele no
gallópe victoria da velocidade Maior! E Eu quero descobrir o cérebro das minhas pernas. Eu quero pensar co'as minhas pernas plo
menos tão depressa como penso com o cérebro. Eu quero fazer despertar os cérebros dos meus nervos, dos meus movimentos, o
cérebro das minhas unhas, o cérebro dos meus gestos. Eu quero emancipar todos os cérebros dos meus póros pra independentes do
cérebro da minha intelligencia. O gramofóne, o cinematografo, a Arte e a lynotipe reproduzem os sentidos, as qualidades, os
defeitos, a sensibilidade, a ideia mas tudo subjectivamente, tudo deficientemente, tudo convencionalmente. Invente-se a machina de
reproduzir o cérebro! industrialise-se o génio! e co'a morte perpétua do subjectivismo, da deficiencia e do convencionalismo proclamar-
se-ha a paz definitiva erguida de entre todos os cérebros absolutamente iguaes pra dentro. O unico dado imprescindivel prá
invenção da machina de reproduzir o cérebro é profetisa-la. Fui Eu, portanto, o poeta José de Almada-Negreiros quem a inventou. De
resto a velocidade resolve-a praticamente. E a velocidade é o triunfo da Europa que elucida o Mundo. Julio Verne a par de ter sido o mais
infimo dos literatos foi tambem o grande Profeta da Primeira geração Exclusivamente Europeia co'a Capital na velocidade. Viva a
velocidade! O coração de minha mãe ainda era um coração de gente, o meu coração já é um helice que abrevia o dia porque faz
girar a terra mais depressa! Viva a Velocidade acceleradamente premio! Morra a Saudade e o regresso! Morra o verbo parar e o
verbo recuar! Viva o verbo ganhar sempre por correr demais! A minha amante não é uma mulher, Puff! A minha amante é a
velocidade que Eu monto. Bravo!!. Morram os relogios, mentira! O mez é que tem 24 horas! o anno são só 12 dias! A Eternidade existe
sim mas não é tão devagar! Os meus olhos são holofotes a policiar o infinito. Morra o Kilometro! o Kilometro não existe, o mais pequeno
que ha são 20 leguas! Eu sou Millionario. A minha Fortuna é o Seculo XX. O meu groom chama-se T. F. S. Bravo ao meu groom!
ice-berg s. o. s. titanic titan-tan tan-tan tan-tania lusitania s. o. s. wanderbilt U^35 berlim kronprinz prussia kaiser 300 hp + 42 krupp
canet 75 joffre 38 goritza 914 neo-salvarsen europa super-dreadnought monitor alta-tensão perigo de morte [símbolo: infinito]
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