Leitura e escrita como espaços autobiográficos de formação

Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo · Capítulo 1 de 9

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Leitura e escrita como espaços autobiográficos de formação

Apresentação - Leitura e escrita como espaços autobiográficos de formação

Apresentação

 

Leitura e escrita como espaços

autobiográficos de formação

 

A composição deste tema vem em gestação encoberta, desde as primeiras reflexões que me tocaram, à medida que a preocupação com o ato de escrever vai se tornando arte; vai se deixando ver nos embates de refinada interlocução, ao orientar os trabalhos de pesquisa de mestrado e de doutorado, e toma corpo na concretude deste material que ora se articula na forma de um livro.

De início, situando-se mais no campo da intuição do que propriamente fundamentada teoricamente, a inter-relação entre o ato de ler e o do escrever parecia, de modo insistente, jogar seus tentáculos para assegurar, de algum modo, um percurso de formação; de formação acadêmica, intelectual, cultural, profissional; para orientandas e orientadora. Não demorou muito a aparecer a proposta para que, ao longo do percurso de suas pesquisas, as autoras de cada texto se posicionassem em primeira pessoa, como uma forma possível de articularem suas reflexões a respeito do objeto de estudo eleito.

Com o andar das letras escritas, das reflexões que se abriam em possibilidades compartilhadas, porque passíveis de serem lidas, por outros, por tantos outros, fomos percebendo que escrever, e ser, na primeira pessoa, não era imperativo, criava espaços contundentes de projeções, de entrelaçamentos que abarcavam as intensas e recorrentes leituras dos aportes teóricos, impressões pessoais, devaneios intelectuais, modos diversos nos mergulhos no material empírico, ressonâncias de experiências pessoais, que se agregavam em ensaios de expressão. O produto dessas conjeturas, às vezes, torna-se efetivo em um capítulo teórico-metodológico; no mais das vezes perpassa todo o texto final das dissertações e tese, como se fosse pontos de viragem, destituídos da intenção de acabamento das ideias ali ensaiadas, num (des)dobrar contínuo que vai além do ponto final, na última página.

A proposta de organizar este livro inspira-se em dois aportes de referência: o espaço biográfico tomado de empréstimo de Leo-nor Arfuch (2002) e a vida pensada como obra de arte por Michel Foucault (2006). Tais argumentos possibilitam um (novo) olhar à produção de nossas pesquisas, borrando fronteiras entre ser intuitivo e ser arcabouço teórico-metodológico que venha a delinear o percurso rumo a um (novo?) conhecimento que se articula.

Com vistas aos gêneros discursivos, abarcados em sua pluralidade, buscando apreender um excedente da literatura, a noção de espaço biográfico vai sendo ampliada de forma a contemplar para além das diversas formas que têm assumido a narração inveterada das vidas notáveis ou "obscuras", entre as quais a autobiografia moderna não é senão um "caso". Como escreve Leonor Arfuch (2005, p.22), o que convinha a seus propósitos de estudo

... no era ese espacio, concebido más bien como un reservorio

donde cada espécimen aporta un "ejemplo", el que convenía a

mis objetivos... [e sim] se abría a mi proyecto, a otro desarrollo

conceptual: una espacialización ... donde confluían en un

momento dado formas disímiles, susceptibles de ser

consideradas en una interdiscursividad sintomática, de por sí

significante, pero sin renuncia a una temporalización, a la

búsqueda de herencias y genealogías, a postular diversas

relaciones en presencia y en ausencia.

A articulação a que procedemos considera as produções aqui apresentadas no âmbito dos gêneros discursivos pela validação como textos acadêmicos (dissertações e tese). E articula-se na abertura conceitual que busca Arfuch para a proposição de espaço biográfico, pela espacialização e temporalização, juntando-se, a meu ver, às perspectivas de subjetivação a que remete a escritura de um trabalho acadêmico.

Em continuidade, a autora apresenta-nos uma obra muito rica em discussões e referências, enveredando por campos da autobiografia, tendo como um dos aportes, entre outros, escritos de Mikhail Bakhtin, no que se refere ao descolamento do "eu" autor que escreve do "eu" sobre quem [o autor] escreve. Escritos de Bakhtin, considerados na diversidade de focos temáticos, têm sido referência constante em nossas pesquisas.

Tal deslocamento abre outras perspectivas de espaços, temporalidades e modos de fazer autobiográficos, e aí entendemos a produção acadêmica como formação que interpenetra e é interpenetrada pelo ato de escrever.

A referência à vida pensada como obra de arte inspira-se em um pequeno texto (entrevista) de Michel Foucault, intitulado Uma estética da existência. Dos seus estudos, que situa no domínio da história do pensamento e remete de modo contundente à Antiguidade, diz-nos o autor que

... na Antiguidade, a vontade de ser um sujeito moral, a busca

de uma ética da existência eram principalmente um esforço

para afirmar a sua liberdade e para dar à sua própria vida uma

certa forma na qual era possível se reconhecer, ser reconhecido

pelos outros e na qual a própria posteridade podia encontrar um

exemplo.

Quanto à elaboração de sua própria vida como uma obra de

arte pessoal, creio eu, embora obedecesse a cânones coletivos,

ela estava no centro da experiência moral, da vontade de moral

na Antiguidade... (Foucault, p.290)

O que chama a atenção nesse trecho, pinçado entre tantas preciosidades do pensamento do autor, é a possibilidade viva pela qual podemos nos enveredar, rumo à elaboração de uma vida pessoal, que possa ser pensada como uma obra de arte, porque traz um sentido de construção – ética e de vontade moral – na liberdade, porque carrega singularidades em meio a cânones coletivos – situa-se aí a produção acadêmica –, porque considera-se a arte de escrever como um modo de se inscrever e ser reconhecido. E porque demarca uma efervescente e potente fronteira de ser pensante, quando o tema é formação.

Oriundos no espaço de interlocução que se estabeleceu, e continua a se estabelecer, no grupo de pesquisa por nós constituído, os textos que aqui se apresentam articulam-se particularmente a dois projetos norteadores: Escrita, Leitura e Ensino: a arte de ser professor/professora, iniciado em 2002 e em fase de conclusão, e A Aventura da Escrita: por entre práticas culturais, saberes, linguagens e cenários, iniciado formalmente em 2009; este último visando ao aprofundamento de estudos do ato de escrever (e ler) na perspectiva de sua permanente metamorfose e de metamorfose de quem escreve e/ou lê.

O livro abre-se com o texto intitulado Sobre leitura e escritos autobiográficos em que teço considerações a respeito da interpenetração da leitura, escrita e escritos autobiográficos como campos que, inter-relacionados, mudam de estatuto, geram algo novo, algo que não existia antes e se abrem a (outras) possibilidades de formação. Da leitura à escrita, ou vice-versa, ou entranhadas, o que geram inscreve-se nos textos produzidos por autores, autoras... escritores, escritoras, sobretudo sujeitos que deixam marcas de um modo subjetivo de ser e se inventar.

Os gestos de sujeitos que comportam o ser e o inventar-se pela escrita/leitura, nos apresentam feições caleidoscópicas no texto Obras de arte... Livros de areia... Territórios com infinitas possibilidades de leitura e invenção de si e do mundo. Nele, a autora, Eliana A. Bacocina compõe com uma trama especular do conto O livro de areia de Borges, das obras de arte Maná de Poussin e o quadro Las meninas de Velásquez e das leituras realizadas por educandos e educadoras da Educação de Jovens e Adultos (EJA), mesclando vozes e saberes de pintores, autores, educandos, educadoras e pesquisadora, que lhes possibilitaram, em diferentes épocas e contextos, leituras de si mesmos e do outro no exercício do ensinar, do aprender, do viver...

Uma aproximação com práticas de escrita e leitura mais intimista, a das cartas pessoais, e as possibilidades que estas oferecem para conhecer sujeitos expressivos em suas relações, mais ou menos intensivas, consigo próprios e com seus correspondentes, por meio dos textos que escrevem, é o que propõe Vivian C. C. dos Santos no texto intitulado Fazeres autobiográficos e cartas pessoais.

Leitura e escrita, práticas culturais que transitam também por processos de alfabetização, mais ou menos formais. No texto intitulado A leitura compartilhada das peças didáticas de Bertolt Brecht e os espaços para a produção de sentidos e significações, Natália K. R. Gonçalves discute a prática da leitura compartilhada das peças didáticas com um grupo de professoras, que propiciou análises, questionamentos, reformulações de ideias acerca da alfabetização e reflexões sobre a própria prática pedagógica, e sujeitos (atores/ autores) envolvidos neste processo.

Ainda focalizando atores envolvidos nas relações de ensino e aprendizagem, mas em um contexto diferente, o de mulheres em processo de alfabetização, Renata R. de Araújo tece, no texto intitulado Os paradigmas da ciência e suas influências na constituição do sujeito, considerações acerca dos diferentes saberes que se aliam na escola, a fim de possibilitar que esta se constitua como espaço de interações entre os sujeitos.

Foi também em uma classe de Educação de Jovens e Adultos que Thais Surian, desenvolvendo sua pesquisa de mestrado, encontrou alunas escritoras. Com os escritos de uma dessas alunas, em conjunto com escritos de duas outras mulheres escritoras, Carolina Maria de Jesus e Marguerite Duras, a autora compõe o texto Alinhavando contextos sociais escritos, em que traz questionamentos sobre quem são esses sujeitos – mulheres que escrevem e os contextos sociais em que estão inseridas.

Em Modos de ser criança, Sibele A. Ribeiro busca aproximar-se daquilo que crianças falavam sobre a escola e também sobre suas vidas, sobre ser criança, sobre os adultos, sobre os modos pelos quais veem o mundo, seus brinquedos, suas brincadeiras e seus amigos; tal aproximação possibilitou reflexões sobre o que pode ser o mundo da criança, onde imaginar, transformar, criar constituem atributos muito próprios.

Na elaboração de uma escrita de si, apoiada na memória enquanto recurso de (auto)formação, Josélia G. Neves contextualiza o local onde desenvolveu sua pesquisa de doutorado, o estado de Rondônia, uma parte da Amazônia brasileira. Uma busca dos prováveis entrelaçamentos entre cultura escrita e narrativa autobiográfica podem significar possibilidades de formação e experiência, um momento de olhar para o caminho percorrido, um exercício de narratologia crítica (Mclaren); é o texto que intitula Cultura escrita e narrativa autobiográfica.

É nosso desejo, ético, que as leituras em sua transversalidade, do material que aqui se apresenta, possam abrir caminhos para outros escritos, autobiográficos (ou não), que configurem espaços que de formação.

Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo

 

Referências bibliográficas

ARFURCH, L. El espacio biográfico. Dilemas de La subjetividad contemporánea. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2002.

FOUCAULT, M. Uma estética da existência. In: . Ética, Sexualidade, Política. Org. por Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2006.