Livro de Mágoas

Florbela Espanca · Capítulo 24 de 31

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Livro de Mágoas

Para quê?!

Horas benditas, leves como pênas,

Horas de fumo e cinza, horas serênas,

Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,

Que poisam sôbre duas violetas,

Azas leves cançadas de voar...

E a minha bôca tem uns beijos mudos...

E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar...

 

Para quê?!

 

PARA QUÊ?!

 

Tudo é vaidade neste mundo vão...

Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!

E mal desponta em nós a madrugada,

Vem logo a noite encher o coração!

Até o amôr nos mente, essa canção

Que o nosso peito ri á gargalhada,

Flôr que é nascida e logo desfolhada,

Pétalas que se pisam pelo chão!...