Luciano Berio: legado e atualidade
Simpósio “Berio: 10 anos depois...”
Berio e a palavra 1
Flo Menezes
Abrindo nosso evento sobre Luciano Berio, pretendo abordar aqui um dos aspectos mais fundamentais de sua obra, qual seja: sua relação com a palavra. Berio foi indubitavelmente o compositor, no século XX, cujos aportes em relação ao problema da verbalidade na música são mais evidentes e relevantes. Quem é familiar à obra de Berio bem sabe da importância que adquire aí este aspecto, e é necessário, para aquele que deseja se inteirar de sua obra, que se reconheça a relevância da verbalidade em sua música.
Berio foi o autor da maior variedade de obras vocais e da maior quantidade de inovações em relação à voz em meio à produção composicional do século passado. E nesse contexto é preciso salientar desde já o envolvimento de Berio com a linguística, a fonética e a fonologia. Mas façamos logo uma distinção! Fonética e fonologia são duas coisas distintas: enquanto o objeto de estudo da primeira é a articulação dos sons da linguagem e a forma como tais sons são realizados do ponto de vista motor e acústico, abordando quais as zonas de articulação no aparelho fonador para cada som, quais os modos de produção vocal para os distintos fonemas e quais os sons que daí resultam, para a fonologia o que interessa é, após o estudo da fonética, saber como funcionam os sons e, mais especificamente, os fonemas em um dado sistema linguístico, ou seja, em uma dada língua. Tanto a fonética quanto a fonologia foram absolutamente fundamentais já para o jovem Berio, que logo tratou de dominá-las e estudá-las a fundo.
Aquele que estuda fonologia passa necessariamente, em etapa anterior, pelo estudo da fonética. A fonética constitui o estudo de base, como se fosse o contraponto e harmonia para o estudo da escritura musical, e só então chega-se a compreender a fonologia em sua abordagem dos usos sistêmicos de determinados sons em uma determinada língua.
Que tais enfoques tenham despertado o interesse do jovem Berio, não nos resta a menor dúvida. Vale a pena aqui relatar uma anedota verídica. Quando Berio conheceu Umberto Eco em meados da década de 1950, que acabou se tornando um de seus companheiros de viagem e um amigo durante toda a sua vida, houve uma curiosa troca de informações entre ambos. Berio já estava ciente das conquistas linguísticas mais importantes e mostrou a Eco o Cours de Linguistique Générale de Ferdinand de Saussure; e Eco, por sua vez, já demonstrava forte interesse pela literatura moderna e introduziu Berio à obra de James Joyce e à nova literatura. Essa troca de informações foi curiosa porque Berio acabou por assimilar, sem se desinteressar pela fonética e pela fonologia, a questão literária, fato que o perseguiu durante toda a sua vida, tendo ido beber na fonte da literatura de vanguarda de um Joyce, um Mallarmé, um cummings, enquanto Eco acabou, com o estímulo que recebera de Berio, enveredando-se pela linguística e pela semiótica, para somente bem depois retomar seu curso literário. Ambos ainda jovens, com pouco mais de vinte e cinco anos. Eco acabou por se tornar um dos maiores linguistas do século XX e somente em fase bem madura é que retornaria, a partir de seu romance medievalista O nome da Rosa, depois com O pêndulo de Foucault etc., a exercer a literatura da qual era bem próximo antes de ter conhecido Berio. Constatamos, assim, um interessante cruzamento de interesses e de informações entre ambos os criadores.
Fato é que, na obra de Berio, o fenômeno verbal toma proporções até então inusitadas na obra musical. Ao início de 1992, quando concluí meu Doutorado sobre as relações da obra de Berio com a fonologia estrutural, desenvolvi uma hipótese que, apesar de ter sido dentro de um Doutorado em Musicologia, nenhum musicólogo, em sentido estrito, teria sido capaz de esboçar. Isto porque os musicólogos, importantíssimos como de fato o são, atuam, entretanto, de uma maneira quase científica, às vezes estranha mesmo à arte, abordando apenas fatos dos quais não pousam dúvidas e abstendo-se, talvez por falta de coragem, de proferir juízos sobre o que não adquirem absoluta certeza. No meu caso, enxerguei a poética de Berio também como um criador, vislumbrando algumas de suas possíveis estratégias fundamentais. Duas dessas ideias revelavam-se, a meus olhos e ouvidos, absolutamente fundamentais para se entender sua música. São, eu admito, bastante arriscadas, mas que têm uma pertinência bastante grande para quem conhece a obra do Berio. Se non è vero, è ben trovato...
Que ideias são essas, que parecem tão “desvairadas”, mas que fazem, ao mesmo tempo, tanto sentido para aqueles que conhecem profundamente a obra de Berio? Trata-se, para rimarmos com o início de nossa abordagem e utilizarmos termos caros à fonologia estrutural, de dois traços distintivos da escritura beriana com relação justamente à verbalidade, os quais norteiam, a meu ver, todo o seu fazer musical. Elucidemos estes dois traços distintivos.
Em primeiro lugar, temos a predominância do intervalo de terça menor como constituição intervalar de base das agregações harmônicas. Quase todas as formações harmônicas de Berio têm a terça como elemento estrutural mais importante e, dentre as duas terças, a terça menor adquire maior importância do que a terça maior. E por que tal fato teria qualquer ligação com a verbalidade? Pois bem, ao estudarmos fonética e acústica vocal, percebemos que quando a fundamental de uma determinada vogal varia, altera-se a região espectral dessa vogal, sendo que o que define acusticamente a cor vocálica (ou seja, o timbre de uma vogal) são principalmente as duas primeiras regiões formânticas ou os dois primeiros formantes, enquanto zonas de certa protuberância espectral, de maior relevância dinâmica. No entanto, aprendemos também que essas duas primeiras regiões formânticas não se mobilizam com a variação da fundamental da vogal, ou seja, não acompanham a variação do tom fundamental. O que ocorre quando a fundamental caminha, por exemplo, em direção ao registro agudo das alturas, a ponto de ela transcender a tessitura excitada pelos dois formantes que caracterizam aquela determinada vogal? Quando a fundamental ultrapassa a zona de frequências dos dois formantes iniciais do espectro vocálico, perde-se o colorido vocálico e a vogal se descaracteriza. Tomemos como exemplo a vogal compacta /a/, cuja qualificação enquanto vogal “compacta” se deve ao fato de que os dois primeiros formantes estão muito próximos um do outro na região entre cerca de 800 Hz e 1200 Hz: quando se tem uma nota muito aguda como fundamental desta vogal, esta fundamental passa a quase não excitar mais essas duas regiões formânticas iniciais que caracterizam o colorido da vogal /a/. Consequentemente, não se ouve bem o /a/, por mais que haja composições na história da música, de grandes compositores, nas quais isto ocorra. Muitas são as obras do legado histórico da música nas quais constatamos uma crença ou convicção, por parte do compositor, de que ele estaria compondo de modo inteligível com relação às palavras. Mas quando, por exemplo, um Mozart, com sua inquestionável genialidade, escreve as árias da Rainha da Noite da Flauta Mágica, alçando a voz em registro extremo agudo, ouve-se tudo com clareza, menos as vogais! E isto porque os formantes não acompanham na mesma medida o deslocamento em registro do tom fundamental das vogais.
Ao observarmos o espectro vocálico e analisarmos com o auxílio de sonogramas o que ocorre com este deslocamento da nota em direção ao agudo quando baseada em uma dada vogal, percebemos, sim, certa “mobilização” dos formantes, mas essa mobilização é apenas relativa, sendo muito menor que a mobilidade real da nota fundamental. E então entendemos o elo desta constatação com minha formulação inicial, ou seja, com o primeiro “traço distintivo” da escritura beriana: o âmbito de variação máxima de um formante é justamente o âmbito de uma terça menor. Ou seja, o âmbito de terça menor é a região dentro da qual os formantes ainda se mobilizam sem que uma dada vogal, variando em sua fundamental, se descaracterize e deixe de ser percebida enquanto tal.
Berio tem absoluta consciência deste fenômeno quando escreve para a voz, e prova disso é o início do Quarto Movimento de Sinfonia, quando ouvimos um cochicho com as 8 vozes solistas, quase como uma prece. Berio especifica sintomaticamente na partitura: “Mobilize o cochicho no máximo dentro do âmbito de uma terça menor”. Sabemos que o cochicho nada mais é do que uma “filtragem” natural das fundamentais das cordas vocais, sobrando apenas a excitação das regiões formânticas. Quando cochichamos com a vogal /a/, incitamos tão somente as regiões dos formantes de /a/, sem que as cordas vocais estejam vibrando nem emitindo qualquer série harmônica. O cochicho é, pois, um filtro que resulta na emissão apenas dos formantes, acompanhados por um quase ruído branco. Quando Berio escreve dessa maneira, demonstra ter total consciência deste fenômeno. Não resta dúvida de que ele dominava a fonética e possuía conhecimentos sólidos de fonologia, fato que impregnou toda a sua escritura, a ponto de ele fazer justamente da terça menor o elemento mais fundamental de suas principais constituições harmônicas. E para constatarmos tal fato, basta considerarmos o famosíssimo acorde do começo do Primeiro
Movimento da mesma Sinfonia – o primeiro acorde da Figura 1 [Flo Menezes toca o acorde ao piano]: temos uma, duas, três, quatro, cinco terças menores, uma terça maior e uma quinta [toca sequencialmente os intervalos do acorde, constituindo pouco a pouco a harmonia].
Figura 1 – Os quatro primeiros acordes de Sinfonia
Claro que emergem outros intervalos na relação entre as distintas notas deste acorde, mas, levando-se em conta os intervalos adjacentes, há uma inegável predominância de terças menores, que somente vai se empalidecendo e perdendo terreno para a terça maior na medida em que o acorde vai se tornando menos denso, transmutando-se de uma densidade de 8 notas para uma densidade de 4 notas, metade de sua densidade inicial. E este acorde ao início desta obra-marco constitui uma das entidades harmônicas mais interessantes e mais fundamentais de toda a música de Berio. Ouçamos apenas este início de Sinfonia. [segue-se um exemplo sonoro com o início de Sinfonia]
Eis então no que reside o primeiro traço distintivo da obra de Berio: a preponderância da terça menor como principal intervalo constituinte de suas mais importantes agregações intervalares, devido justamente à mobilidade relativa dos formantes.
O segundo aspecto dominante da escritura beriana, que nos motivara igualmente a nomeá-lo como um segundo “traço distintivo” de sua obra, reside no fenômeno tão bem descrito pelo linguista Roman Jakobson como sílaba nuclear. Jakobson foi fundamental para Berio. Berio o conheceu pessoalmente em Harvard e tal acontecimento foi uma das coisas mais importantes de sua vida. Por sílaba nuclear entende-se a oposição mais elementar em todas as línguas do mundo, qual seja: a oposição entre consoante e vogal. Quando otimizada pela consoante surda, difusa, explosiva e bilabial /p/, oposta à vogal compacta, sonora e extensiva /a/, tal oposição constitui a sílaba nuclear que está na base de todas as línguas: a sílaba /pa/. No processo de estratificação linguística ou fonológica, tal qual descrito por Jakobson e que será, como logo veremos, fundamental para Berio ao elaborar, por exemplo, a obra eletroacústica Visage, a primeira variação de oposição que a silaba /pa/ sofrerá nas línguas do mundo será justamente a substituição, no eixo paradigmático dos fonemas, do fonema /p/ pelo fonema /m/. Em tal processo, o /p/, enquanto fonema bilabial surdo, irá se opor ao /m/ enquanto fonema ainda bilabial, porém sonoro. Não à toa Jakobson chama o /m/ de Schmerzlaut (fonema da dor) em seus
paradigmáticos estudos sobre a afasia, 2 pois seu som lembra a sucção e a criança apela a esta sonoridade para atrair a figura da mãe quando sente a dor da fome, enquanto o /p/ será entoado justamente quando a criança encontra-se já alimentada, quando já passou pelo peito da mãe e está querendo, agora saciada, brincar, evocando a figura do pai. Tal dicotomia é fundamental em todas as línguas do mundo, quer se trate das línguas dos pigmeus, da China ou do Brasil, constituindo a dicotomia ou oposição binária entre as sílabas /ma/ e /pa/. Daí decorre um curto e tão famoso quanto genial texto de Jakobson, “Why mama and papa?”, em que mostra que /papa/ e /mama/ são as bases para a evocação, respectivamente, das figuras do pai e da mãe em todas as línguas do mundo.
E podemos perguntar então: o que há de mais claro, do ponto de vista da acústica, em tal oposição presente na sílaba nuclear /pa/? Tem-se precisamente a oposição entre o /p/, que é um espectro difuso e, portanto, um agregado essencialmente inarmônico – portanto uma espécie de “dissonância espectral” –, e o /a/, que é um espectro de absoluta consonância entre os seus componentes espectrais, a ponto de você ouvir uma altura definida, constituindo, assim, um espectro harmônico. E eis aí um dos traços mais fundamentais em quase todas as obras de Berio, senão em todas as obras instrumentais escritas para grupo de câmara até a grande orquestra, qual seja: a oposição entre os uníssonos e os densos agregados harmônicos, como se o uníssono estivesse para a vogal, assim como o agregado estivesse para a consoante.
Para demonstrarmos a evidência desta constatação, a qual revela-se como estratégia composicional dificilmente apreensível aos olhos de um musicólogo não compositor, ouçamos um trecho de Laborintus II em que tal fenômeno é mais que evidente. [segue-se um exemplo sonoro com um trecho de Laborintus II]
Eis um típico exemplo da escritura de Berio! Quando ouvimos um uníssono que pouco a pouco se abre até atingir a densidade de um agregado quase inarmônico, porque deveras complexo, temos como que uma espécie de “silaba nuclear retrogradada”: um /ap/, digamos assim, para fazermos aqui uma metáfora. Ao início temos uma “vogal” (uníssono); ao final, uma “consoante” (agregado harmônico). Tal traço estilístico pode ser ouvido em inúmeras obras de Berio, e por diversas vezes: em Laborintus II, Sinfonia, Il ritorno degli Snovidenia, Sincronie, Passaggio, Coro etc. Em praticamente todas as obras de Berio para efetivos de câmara ou orquestrais, haverá vários momentos em que toda a trama intervalar resume-se em um uníssono para, em seguida, caminhar rapidamente em direção a um grande adensamento intervalar, a um agregado, a uma entidade inarmônica, digamos assim, a uma grande densidade, diríamos, “dissonante”.
Portanto, vejo uma clara relação desses dois traços distintivos que caracterizam a escritura de Berio – quais sejam: a presença hegemônica da terça menor e a frequente oposição entre uníssonos e grandes agregados harmônicos – com a questão da verbalidade em dois de seus aspectos mais prementes: por um lado, a mobilidade relativa dos formantes no âmbito de terça menor, representada na música de Berio pela importância inelutável da terça menor; por outro lado, a oposição fundamental das línguas do mundo entre ruído e som de altura definida, ou seja, entre consoante e vogal, representada em Berio como oposição entre agregados e uníssonos em sua escritura instrumental.
Eis o cerne em que consiste minha tese de Doutorado do final dos anos 1980 e início dos anos 1990: provar que a obra de Berio é impregnada de verbalidade mesmo quando a voz se faz ausente de sua escritura. Mesmo em meio à sua escritura puramente instrumental, portanto sem voz, a música de Berio refletia os elementos fundamentais em torno do Verbo e da verbalidade.
* * *
Seguindo adiante nossa exposição, podemos observar outros desdobramentos do conhecimento dessas esferas linguísticas na obra de Berio, ou seja, outras formas pelas quais as esferas da fonologia, da fonética e da linguística vertem-se em música. E o primeiro desses desdobramentos que nos vem à cabeça é precisamente o papel da onomatopeia em James Joyce. Tal abordagem em Berio se dá logo quando conhece Umberto Eco, que, como afirmei antes, mostrara a Berio a obra de Joyce. Daí resulta, ao início de 1958, na rádio italiana RAI de Milão, um programa de rádio de Berio e Eco justamente sobre a onomatopeia em Joyce, e desse contexto nasce, naquele mesmo ano, a composição Thema (Omaggio a Joyce), a primeira grande obra eletroacústica de Berio. Thema nada mais é que um estudo sobre a questão da onomatopeia, ou seja, da similaridade direta dos sons vocais em relação aos fenômenos denotados pelas inflexões verbais. As onomatopeias, no entanto, estão longe de constituir a parte mais expressiva das línguas. A bem da verdade, a onomatopeia, tal como bem afirmara Jakobson, situa-se na periferia da linguagem. Existem outros veículos expressivos da língua que não operam por similaridade direta, mas antes por contiguidade, ou seja, por elos que vão se transformando paulatinamente no próprio decurso histórico das línguas, e que se revelam como muito mais elaborados do que as onomatopeias em si. Quando Joyce utiliza a onomatopeia, entretanto, o faz utilizando-se da onomatopeia no contexto da função poética, em meio às aliterações e a outros recursos fônicos, e com claras referências à música. E foi sob este ângulo que Berio e Eco decidem estudar a questão, a ponto de termos, como resultado, uma obra como Thema, cujo voo ao universo já dessemantizado dos sons eletroacústicos de origem vocal é dos mais radicais já em plena década de 1950, portanto em plena emergência do que poderíamos designar como uma subcategoria da música eletroacústica: composição verbal. Não nos esqueçamos que apenas dois anos antes Stockhausen havia realizado em Colônia o Cântico dos adolescentes (Gesang der Jünglinge) e que quatro anos mais tarde Herbert Eimert estaria realizando outra obra-prima, marco da composição verbal eletroacústica: Epitaph für Aikichi Kuboyama.
Outro aspecto a se relevar nesse contexto é a preferência de Berio pelo fonema /s/. O /s/ era, para Berio, o fonema mais complexo de todos, por sua aproximação às filtragens do ruído branco. E efetivamente o fonema /s/ está presente estrategicamente em muitas obras de Berio, como por exemplo logo ao início de Visage, obra-prima da composição verbal eletroacústica de 1961. [seguem-se apenas os segundos iniciais de Visage]
Como pudemos ouvir, o primeiro fonema de Visage é justamente um /s/. E se ouvirmos a conclusão de Thema (Omaggio a Joyce), o que teremos? [segue-se o final de Thema] Ouvimos a voz de Cathy Berberian estendendo o /s/ da frase “Liszt’s rhapsodies” de Joyce, e Thema conclui justamente com o fonema /s/. É como se o final de Thema se encadeasse com o início de Visage, que, aliás, dá seguimento à leitura de Joyce, como me fora revelado, pela primeira vez, pelo próprio Berio em uma entrevista que fiz com ele em Salzburg, em 1989. Ou seja, numa obra o /s/ situa-se estrategicamente no fim, na outra o mesmo fonema situa-se no começo, e isto se deve ao fato de que Berio o considerava como especialmente complexo, do ponto de vista sonoro.
Quando analisei Visage como parte central de meu Doutorado sobre Berio, tinha à época não mais que um computador doméstico Atari ST 1040, um dos primeiros computadores domésticos de estúdios da década de 1980, e mal dispunha de editores de texto. Mesmo assim, munido com os precários programas de desenho da época, consegui editar eu mesmo uma font fonética e realizei, com auxílio de um programa gráfico, a partitura da obra, tão precária quanto os meios de que dispunha. Como quer que seja, a partitura, que passou a ser referência obrigatória da bibliografia sobre Visage juntamente com sua análise, teve por mérito a transcrição de todos os fonemas emitidos pela voz de Cathy Berberian. Lembro-me bem do assombro que acometeu Berio quando a viu pela primeira vez: tomando-a de minha mão, tirou seus óculos de graus elevados de miopia, aproximou ao máximo a partitura da ponta do nariz para ver em detalhes o que eu havia feito, e exclamou: “Ma tutti i fonemi...!?” (“Mas todos os fonemas...!?”). Trata-se efetivamente de uma transcrição fonológica de todos os sons emitidos pela Cathy Berberian naquela peça, desde que se trate de sons fonêmicos, de fonemas. Para os ruídos, inventei sinais mais ou menos arbitrários de representação, mas tudo que ao menos se aproximava do fonema, transcrevi por linguagem fonológica universal, para poder então proceder com minha análise.
Vamos ouvir os momentos iniciais de Visage e acompanhá-los com minha partitura. [seguem-se os momentos iniciais de Visage, com Flo Menezes explicando fonema a fonema que ia aparecendo na partitura]
Se vocês prestaram bem atenção no que aconteceu, terão visto que temos aí, logo ao início da obra, a clara presença dos fonemas /a/, /i/ e /u/, e nesta precisa ordem de aparição. Por que esses três fonemas, e por que em tal sequência? Deparamo-nos aí com o que se designa em fonética e fonologia por triângulo vocálico, que é a base a partir da qual as línguas do mundo se articulam, desde os rudimentos vocálicos até a aquisição de todas as vogais de um dado sistema fonológico. Começa-se com uma oposição entre /a/, como vogal compacta, e /i/, como vogal difusa – cujo aspecto de difusão se dá pelo fato de que os dois primeiros formantes estão bem separados em registro um do outro –, ou entre /a/ e /u/, sendo a situação dos dois formantes principais no fonema /u/ bastante semelhante à do fonema /i/, ou seja, com uma oposição entre uma vogal compacta (/a/) e duas vogais difusas (/i/ ou /u/). Entretanto, no eixo dos fonemas difusos /i/ e /u/, uma segunda oposição binária tem lugar, num típico processo de estratificação linguística ou de ramificação das oposições binárias das línguas, que se tornam cada vez mais complexas; neste caso, refiro-me à oposição entre o claro e o escuro, pois, enquanto o primeiro formante tanto de /i/ quanto de /u/ estão praticamente na mesma região de frequência, o segundo formante da vogal /u/, apesar de estar bem separado do primeiro formante (a ponto de caracterizarmos o /u/ também como uma vogal difusa), situa-se em uma região muito mais grave do que a região em que se encontra o segundo formante de /i/. Por tal razão, enquanto as vogais /i/ e /u/, fonemas difusos, opõem-se à vogal /a/, fonema compacto, a vogal /i/, fonema claro, opõe-se à vogal /u/, fonema escuro.
Esse triângulo vocálico é o triângulo elementar e fundamental de todas as línguas do mundo, e as duas grandes oposições vocálicas elementares das línguas consistem, respectivamente, nas oposições compacto contra difuso e claro contra escuro. E vemos então que não é à toa que Berio se vale desses aspectos basilares das línguas para articular Visage em seus momentos iniciais, nos quais se tem a simulação do nascimento da língua e da própria palavra. Pois onde irá desaguar todo este processo? Justamente na palavra italiana parole (palavras), única palavra que adquire um sentido conhecido ao longo de todos os 21 minutos da obra, como se a palavra mesma estivesse nascendo.
A escolha desta palavra é bastante sintomática, pois, além de ser um tributo ao mesmo tempo que uma despedida de Berio em relação à rádio, que ele definira àquela época como a “maior dispensadora de palavras inúteis”, o vocábulo parole é, do ponto de vista fonológico, já em si muito elaborado. Por quê? Ora, temos logo em sua primeira sílaba a sílaba nuclear /pa/ de que havíamos falado, seguida dos fonemas /r/ e /l/, dois fonemas ditos, respectivamente, vibrante e lateral, e que são os últimos a serem adquiridos pela criança no processo de aprendizagem da linguagem, dada a dificuldade de realização fonética de ambos os fonemas, rebatendo a ponta da língua contra o palato – no caso de /r/ – para que se produzam sons iterativos e muito rápidos, ou dobrando-se a língua – no caso de /l/ – para fazer os sons saírem pelo lado da boca. Portanto, dentro da própria palavra parole, ao nascer das próprias palavras na obra, temos a reprodução encapsulada em uma única palavra tanto da base da oposição binária de todas as línguas, através da sílaba nuclear /pa/, quanto dos fonemas vibrante e lateral /r/ e /l/, ao mesmo tempo que uma variação de /i/ e /u/, e consequentemente uma variante elaborada do triângulo vocálico, pois o fonema /o/ é variação de /u/, assim como o fonema /e/ é variação de /i/. Assim sendo, aquele triângulo vocálico já se desdobra em outras oposições: /o/ versus /u/; e /e/ versus /i/, resultando na sequência vocálica /a-o-e/ como uma variação do triângulo vocálico /a-u-i/ apresentado nos momentos iniciais da obra. E tudo isso dentro de parole, palavras...! Eis a simulação toda do nascimento da palavra tal como ocorre genialmente em Visage, passando pelos elementos fundamentais da língua, tal como o triângulo vocálico, mas também corroborada pelo espelhamento do triângulo vocálico no triângulo consonantal, em que o fonema /k/, como linguopalatal de espectro central e portanto compacto, está para o fonema /a/ assim como os fonemas /p/ e /t/, ambos de espectro difuso, estão, respectivamente, para os fonemas /u/ e /i/, sendo o fonema bilabial /p/ mais escuro que o fonema linguodental /t/. Podem-se ouvir tais fonemas claramente enunciados ao início de Visage, em meio ao processo de nascimento da palavra.
Figura 2 – Triângulo vocálico e consonantal
Desta forma, quando ouvimos Visage, não estamos ouvindo simplesmente uma elaboração “intuitiva” de un italiano che voleva fare dei suoni belli ou algo que o valha. É óbvia a procura pelo belo nesses sons de Visage, mas a obra é bem mais que isso: há nela um denso pensamento, um profundo conhecimento da fonética e da fonologia, uma estratégia poética de se instituir, no nível linguístico mesmo, toda uma gama de significados em meio a uma elaboração que é, a rigor, nonsense. Um nonsense, pois, de profundos sentidos...!
Mas, se Visage narra o surgimento da palavra, narra também a destruição do discurso, e não há quase um aspecto fundamental das línguas que não seja de alguma maneira abordado em Visage. O pendant da emergência e invenção das próprias palavras, delle parole, é constituído pelo fenômeno da afasia. Observemos a forma global de Visage a partir do diagrama original em francês tal como o elaborei quando de meu velho Doutorado e tal qual saiu publicado em um de meus livros europeus sobre Berio (publicado em 1993 pela Mucchi Editore, como consequência do prêmio internacional que me fora concedido em 1990 pela análise de Visage no primeiro Concurso Internacional de Musicologia, de Latina, Itália, antes mesmo da conclusão de meu Doutorado).
Figura 3 – Forma global de 3 Visage (no original em francês)
Se observarmos atentamente a forma global da obra, tal qual a interpretei e elaborei, veremos que há construção da linguagem, mas também sua desconstrução, sua destruição. É como se Berio tivesse absoluta consciência de todo o processo de aprendizado da língua, mas também dos problemas que levam à sua destruição, tal como sistematicamente estudado pela fonologia de Roman Jakobson e, posteriormente, pela própria medicina, devedora dos aportes que a linguística lhe trouxe neste campo. No livro sobre a afasia de 1942 que já citei um pouco antes (Linguagem infantil, afasia e leis gerais de fonação, inexplicavelmente inexistente até hoje em português!), Jakobson diagnosticou com muita perspicácia que o afásico, quando é acometido por um problema cerebral e perde gradualmente o domínio da língua, começa por perder o dom da fala justamente pela perda dos últimos fonemas que a criança adquire ao longo de seu aprendizado (em especial os fonemas vibrantes e laterais, os mesmos, pois, presentes no meio e no fim da palavra parole), ou seja, que o afásico, ao perder progressivamente o domínio da língua, o fará exatamente no sentido retrógrado do caminho trilhado pela criança que aprende a falar. E é justamente isso que Berio elabora em Visage: a primeira seção ou parte da obra diz respeito à construção da linguagem; na segunda parte, temos, logo após o surgimento da palavra parole, a constituição da linguagem e do discurso, quando então Cathy Berberian começa inclusive a falar como se estivesse contando uma fábula dirigida a uma criança, ainda que se trate de uma fábula totalmente nonsense; ou seja, a obra parte de uma linguagem infantil para depois virar o discurso em direção à própria criança; e aí temos a terceira parte, na qual destrói-se a linguagem, como se se tratasse de uma “narrativa afásica”, ou de uma não-narrativa, ou simplesmente de afasia, parte na qual os sons são os mais radicais em toda a obra e onde menos se ouvem fonemas propriamente ditos; e por fim, na quarta e última parte, temos uma autêntica apoteose da prosódia: uma bela e comovente declamação poética nonsense, mas que constitui uma das mais lindas poesias que já ouvi, como se fosse um Goethe, um Baudelaire, uma coisa assim, e no entanto é Cathy Berberian que está falando palavras sem qualquer sentido, em que a poesia apoia-se tão somente na prosódia de uma suposta recitação poética; ouve-se uma verdadeira poesia, extremamente bem declamada, que se contrapõe pouco a pouco a um canto ligeiramente polifônico que se desnuda e se desprende do tecido poético. Ao final de Visage, poesia e música se dão as mãos, a despeito de tudo o que ocorrera antes na odisseia da linguagem, e não mais sabemos qual delas é mais musical, qual delas, mais verbal!
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A problemática em torno da verbalidade implica uma outra, não menos importante: a que diz respeito a certa textualidade. Ou seja, o Verbo, almejando seu significado, não se articula apenas por fonemas e significantes, mas também por um discurso. E uma das concepções mais fundamentais de Berio consiste justamente em considerar a música como um texto. Em seu livro póstumo, Remembering the future, ou Un ricordo al futuro, que traduzi do inglês e do italiano em edição crítica com mais de 300 notas de rodapé e que aguarda (talvez ad infinitum) a autorização de sua viúva para que seja publicado por aqui (Berio já o teria autorizado há muito tempo se estivesse vivo...), Berio manifesta-se de forma bastante substancial sobre essa questão: “A história da música, diferentemente da história da ciência, jamais é feita de intentos, mas antes de conquistas. Não é feita de formas potenciais, esperando serem definidas, mas antes de Textos, com T maiúsculo, e com o maior número possível de conotações musicais, de textos que esperam ser interpretados de modo conceitual, emotivo e prático”.
Um exemplo desse fenômeno é o que poderíamos chamar de transtextualidade, termo que me parece mais pertinente do que intertextualidade. Deparamo-nos com transtextualidade na obra de Berio quando certos elementos, por mais simples que possam parecer, implicam reenvio a outras coisas pelo viés de uma referencialidade mais ou menos explícita, como, por exemplo, aquele famoso acorde menor com sétima maior que resulta do
encadeamento harmônico logo ao início de Sinfonia (Figura 1). Trata-se evidentemente de uma entidade tonal, com pronunciada estabilidade por ter a sétima maior junto com a terça menor, mas ao mesmo tempo abre-se um leque para referências não necessariamente explícitas por Berio, mas que certamente estiveram presentes em sua mente ao escrever aquele acorde. Deixem-me dar um exemplo concreto [Flo Menezes dirige-se ao piano e toca um exemplo musical]. O que seria isto que acabo de tocar? Trata-se dos últimos compassos da Paixão Segundo São Mateus [Flo Menezes toca ao piano novamente a passagem de Bach, realçando o último compasso, em que se ouve o mesmo acorde de Berio: Dó menor com sétima maior].
Figura 4 – Final da Paixão Segundo São Mateus de Bach
Temos claramente um acorde de Dó menor com sétima maior. E se ouvirmos agora o próximo exemplo que vou tocar, que é esse aqui... [Flo Menezes toca ao piano o próximo exemplo musical, de Mahler]
Figura 5 – Trecho de Das Lied von der Erde de Mahler (exemplo
extraído de um texto em francês de Flo Menezes)
...vemos que o mesmo acorde representa o cume do desenvolvimento harmônico deste trecho da última grande canção de Das Lied von der Erde (A Canção da Terra), Abschied (Despedida), de quase uma hora, de Gustav Mahler [Flo Menezes toca e canta ao mesmo tempo mais uma vez trechos da obra de Mahler]; e Mahler chega neste mesmo acorde sem antes deixar de passar por isso [toca o acorde de Tristão presente no mesmo trecho mahleriano], que nada mais é do que um acorde de Fá menor com sexta maior acrescentada (ao invés de sétima maior), ou seja, Fá, Lá bemol, Dó, Ré natural, sendo que se transpusermos o Ré uma oitava abaixo [toca] e o Fá uma oitava acima [toca], temos o “acorde de Tristão”. Tanto em Mahler quanto em Bach ouvimos a mesma entidade, na mesma transposição: um acorde de Dó menor com sétima maior (Dó, Mi bemol, Sol, Si natural).
Qual a razão de tal referencialidade em Berio? Sinfonia é visto como uma sinfonia, como o próprio título enuncia, uma sinfonia em cinco movimentos, e esboça uma evidente paráfrase da história do gênero sinfônico. No entanto, em meu novo ensaio que está para sair nos dois volumes de cerca de duas mil páginas sobre as principais teorias musicais do século XX, organizados pelos musicólogos do
IRCAM,4 revelo que esse acorde menor com sétima maior nada mais é, na realidade, que uma elucidação da verdadeira intenção do Berio: o de fazer de Sinfonia uma Paixão, não propriamente uma sinfonia. Lidamos aqui com uma Paixão que narra morte e ressurreição de um herói. Não se trata aqui, contudo, de Cristo, mas antes do líder negro norte-americano Martin Luther King, a quem a obra presta homenagem explícita. Na homenagem, a obra é explícita; em seu teor musical, a referencialidade ao gênero da Paixão é implícita. Temos o nascimento e a morte do mito nos Primeiro e Segundo Movimentos, através dos textos do Lévi-Strauss, que narram exatamente isso em O Cru e o Cozido, e de O King, orquestração da peça de câmara que Berio escreveu em homenagem a Luther King quando de seu assassinato (a morte de Luther King em O King se dá quando chegamos naquele Sol agudo: “King!”, uma espécie de “onomatopeia” do tiro que o matou). Em seguida, no Terceiro Movimento, bem sabemos que se trata da ressurreição, o que se dá pela apropriação do Scherzo da Segunda Sinfonia de Mahler, intitulada precisamente Ressurreição. O Quarto Movimento consiste naquela prece que já mencionei anteriormente, e que nesse contexto mais nos parece uma prece dos “apóstolos” após a morte de Luther King, em que se tem o cochicho com a mobilidade máxima de terça menor. E, por fim, o Quinto Movimento constitui uma densa narração de tudo o que ocorrera antes. Assim sendo, o Quinto Movimento é, na realidade, o Evangelho Segundo Berio: é como se Berio estivesse narrando o nascimento, a morte e a ressurreição do mito de Martin Luther King.
Assim é que se a ideia da Sinfonia está presente nesta obra-prima de Berio, a ideia da Paixão encontra-se igualmente presente, e de modo categórico, e isso já se escancara justamente na referência àquele primeiro acorde tonal de Dó menor com sétima maior. Este acorde, ao qual tudo se direciona, está ao mesmo tempo se reportando à Paixão Segundo São Mateus, de Bach, e à Despedida (Abschied), de Mahler. Temos aí então uma referência musical e semântica ao mesmo tempo. Eis aí um claro exemplo de transtextualidade, reportando-se, portanto, a alguma coisa que está no passado dos “textos”, e atravessando vários eixos, de Bach a Mahler, instituindo com isso uma referencialidade semântica que encontrará seu esteio no texto de O cru e o cozido de Lévi-Strauss e no texto de O inominável de Beckett, narrando, porém, em primeira e última instância, justamente a morte de Martin Luther King. Aquele acorde é, para mim, uma inesquecível lição de composição: o de como usar elementos absolutamente apreensíveis, mas que estão nos reportando a uma série de conexões musicais e semânticas de tempos remotos e atuais. Trata-se aqui de um accord valise, para parafrasearmos o mot valise de Lewis Caroll, tão caro a Joyce, outra referência fundamental para Berio: um acorde que tem dentro dele inúmeras referencialidades, apontando para diferentes direções, presentes na mente de Berio e prontas para serem captadas por aqueles que estejam em condições de desvendar tais referências e tais costuras da densa trama beriana.
Estar apto a decifrar ou não as referencialidades é uma questão crucial para a consciência compositiva em Berio, para quem a composição é uma espécie de “labirinto”, que ele preferirá chamar, valendo-se do termo de seu amigo poeta Edoardo Sanguineti, de laborinto, uma elaboração na qual o ouvinte – e o próprio compositor – pode se perder e se achar da maneira como quiser ou puder. E nesse perder-se e achar-se, defrontamo-nos com uma concomitância de fluxos verbais dentro do laborintus de Berio. Quando a música de Berio é vocal, estamos defronte de múltiplos elementos de significação, em geral em várias línguas, que entendemos apenas parcialmente, quer seja pela complexa concomitância mesma desses elementos, quer seja por nosso conhecimento (ou pela sua falta) diante de dada língua. A decifração das referências irá depender de nossa bagagem, de nosso dia, de nosso conhecimento das línguas em uso e de condições concretas de escuta que nos possibilitem o reconhecimento desses elementos. Berio enunciou uma frase que bem caracteriza sua estratégia em Laborintus II, mas que serve para compreender toda a sua poética quanto a este aspecto da recepção de sua obra, e que reproduzo aqui da forma como a lembro: “Laborintus II é uma obra na qual cada ouvinte ouve à sua maneira: conseguindo ou não decifrar as referências, o ouvinte poderá ouvi-la de modo diverso”. A música de Berio tem a capacidade de arrebatar o ouvinte pela sua beleza, independentemente de suas referências, mas se quisermos procurar, acharemos nela um monte de coisas lá dentro. E esse tipo de preocupação fenomenológica, de que a música aconteça e funcione por si só, mas que, ao mesmo tempo, se você refletir e procurar, descobrirá um monte de coisas dentro dela, ouvindo-a de uma maneira totalmente transformada, é típico da poética beriana e bem caracteriza o que podemos chamar de transtextualidade.
Por outro lado, em meio à pluralidade verbal do tecido beriano, percebemos que o verbo advoga por uma “monofonia” para que seja entendido. Se duas pessoas falam ao mesmo tempo, já não se entende nada, ou apenas muito pouco do que se fala. O entendimento da linguagem verbal repousa na monofonia da fala, enquanto a música trilhou, ao longo da história da escritura musical, o caminho de uma simultaneidade crescente. Ou seja, se há algo que muito aproxima a música da verbalidade, há, ao mesmo tempo, também o que as distancia consideravelmente. Algo que faz com que a música seja essencialmente diversa da verbalidade, e esse algo é justamente sua busca pela simultaneidade polifônica de eventos, inclusive de textos. Isso faz com que música e texto sejam acometidos por certo deslize nos níveis de significação. A música não se apresenta pari passu com a estrutura verbal e é incapaz de representar de uma maneira única e inequívoca certo texto, pois sua relação é equívoca e ambivalente em relação ao texto e ao Verbo, justamente por fazer prevalecer níveis de simultaneidade, em contraposição ao verbo e à necessária monofonia para sua compreensão. A simultaneidade do verbo reside nas significações implícitas do significado em seus múltiplos desdobramentos (algo, no entanto, também presente nas formulações musicais, pelas vias daquela referencialidade transtextual de que tratamos), mas esse significado necessita ser, para que seja entendido, enunciado de maneira monofônica, enquanto a música, quando lida com o verbo, tende a destruir ou relativizar o significado verbal, em face principalmente dos níveis de simultaneidade do tecido musical. E é assim que emerge o significado múltiplo e propriamente musical, que é da ordem das simultaneidades.
Toda esta problemática fez com que Berio enxergasse o texto musical como essencialmente pluridimensional, e essa pluridimensionalidade será relativizada conforme a cultura e o contexto cultural. Há uma interessantíssima passagem, presente em vários textos de Berio, na qual reporta-se mais uma vez a Roman Jakobson para elucidar essa relatividade de sistemas e significações no bojo dessa “contextualidade” a que nos referimos: “O próprio Jakobson já havia expresso algo de análogo quando escreveu que o aparato linguístico inteiro – dimensão fonética, fonológica, retórica e sintática da linguagem – contribui para o processo poético, e não apenas os versos, os metros, as rimas, as simetrias e os paralelismos”. Berio afirma aqui que o próprio texto é pluridimensional, e se o é, podemos imaginar quanto mais não seja a própria música, considerada como texto. E continua: “Isso implica que as prioridades das funções poéticas e, em nosso caso, das musicais, devem ser novamente selecionadas, reinventadas e combinadas a cada vez”, o que irá depender da visão e da cultura, bem como da situação cultural daquela dada articulação linguística. E acrescenta, com sua costumeira ironia: “Jakobson dá um notório exemplo de um missionário na África que tentava convencer um grupo de indígenas a não andarem pelados por aí: ‘Mas você também está nu’, responderam-lhe, apontando para o seu rosto [do missionário]”, ao que responde o missionário: “‘Mas apenas é minha cara que está pelada’, ao que então disseram os indígenas implacavelmente: ‘Você vê? Para nós, a cara está por toda parte’.” [risos na plateia]
Nesse episódio bem-humorado e pitoresco a que Berio se referia tão comumente, ele acaba por demonstrar a relatividade desse pluridimensionalismo, conforme a leitura que se faz de acordo com seu contexto cultural específico. Aquilo que é o “pelado” para você pode não ser o “pelado” para outro homem de outra cultura... Um muçulmano sectário, por exemplo, vai achar que até mesmo a cara realmente está pelada e, quando se tratar de mulheres, irá exigir que cubram seus rostos...
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À guisa de conclusão, gostaria de abordar como Berio, a partir desta problemática em torno do entendimento do texto verbal na música enquanto texto, procurou diagnosticar quais seriam as possibilidades de interação da música com o texto. E foi assim que chegou à conclusão de que existem, na história da música, basicamente três tipos de afrontamentos da composição com o texto. O primeiro ocorre tipicamente durante a Idade Média e se faz presente até a Alta Renascença e diz respeito ao uso de um texto de origem comum, tal qual o ordinário da Missa. Quando se ouvia uma música vocal naquele período, já se conhecia e, por conseguinte, já se sabia o texto que iria ser entoado pelos cantores. Todos conheciam as palavras que seriam cantadas em um Kyrie. Tal fato – qual seja: o conhecimento prévio e tácito do texto cantado – deu margem para que os compositores pudessem dar livres asas à invenção polifônica, a ponto mesmo de chegar a “desrespeitar” o texto, pois, mesmo desconsiderando sua inteligibilidade, seu conhecimento era previamente garantido pela origem comum desses textos. Isso deu luz às grandes obras polifônicas da Alta Renascença, as mesmas que, à época da Camerata Fiorentina de Caccini, Peri e mesmo de Monteverdi, seriam classificadas como sendo um laceramento della poesia, ou seja, uma dilaceração da poesia. Não se tem mais a inteligibilidade do texto, que passa então em grande parte a ser ininteligível no canto. Em meio à densa trama verbal do canto polifônico, o que se tem como transparente é o contraponto das vozes, das notas, não o Verbo.
O segundo grande momento histórico da relação música/texto, segundo Berio, é quando se dá a busca por um isomorfismo entre texto musical e texto verbal. É o que ocorrera tipicamente no Romantismo, e o ápice desse processo se dá com o Lied alemão ou com o Lied romântico. A música busca representar ou expressar a veracidade do texto e de seus significados. Quando o compositor romântico elege um dado texto, o faz com o intuito de transpassar a verdade sonora mais genuína daquele texto. Quando Schumann elege o texto de um Heine, de um Eichendorff, quando Beethoven escolhe uma poesia de Goethe, ou mesmo quando Schumann e Schubert e outros selecionam o mesmo texto de Goethe, fazem-no com a crença e a convicção, cada qual, de que estavam compondo, do ponto de vista sonoro, a representação musical máxima, portanto musicalmente isomórfica, daquele dado texto. Mas aí surge um grande paradoxo irônico: como é que explicamos o mesmo texto de Goethe usado isomorficamente em músicas tão distintas quando empregado por Hugo Wolf, Schubert, Beethoven e outros, cada qual com sua genuína “verdade musical” diante daquelas mesmíssimas palavras? Se o isomorfismo é possível, como é que seriam possíveis musicalizações do texto que sejam tão diversas em Schubert, Hugo Wolf e outros em relação a um mesmo texto? O isomorfismo, aponta Berio, é uma ilusão: a ilusão de uma relação inequívoca entre texto e música.
E, curiosamente, se levarmos às últimas consequências essa visão de Berio, veremos que no século XX ainda existiram dois outros momentos em que tal busca isomórfica é revisitada. Um deles é claramente o caso Pierre Boulez. Toda a teoria de Boulez que diz respeito ao texto como centro e ausência do tecido musical revela-se como uma espécie de resgate da pretensão isomórfica, na medida em que se pretende absorver o texto de tal maneira que este mesmo texto já pode até mesmo se fazer ausente da trama musical, sem que para isso deixe de, subcutaneamente, impregnar a textura ou escritura musical. O texto alimenta a música sem estar nela necessariamente, ou factualmente, presente. Ao início de Don, por exemplo, primeira peça de Pli selon pli, Boulez faz enunciar apenas a primeira linha da primeira estrofe do poema de Mallarmé, e ao final de Tombeau, concluindo a obra como um todo, o soprano volta a enunciar a última linha do mesmo poema. Mas tudo o que acontece no entremeio, entre a primeira e a última linha do poema, como que se perde em Don e em Tombeau; os três movimentos intermediários de Pli selon pli utilizam-se de outros poemas do próprio Mallarmé, mas aquele poema inaugural da obra, e que serve tanto para Don quanto para Tombeau, só é enunciado muito parcialmente, com suas linhas inicial e derradeira. De resto, todo o poema consiste, nas intenções de Boulez, no centro do tecido musical, mas deste se ausentando. O isoformismo é aqui revisitado de tal forma que o próprio texto sequer encontra-se presente, de tal forma que a música toma o lugar do texto enquanto sua mais genuína representação. Trata-se, pois, da mesma ilusão isomórfica romântica, mas, ao mesmo tempo, também de uma interessante solução, na medida em que, a rigor, não se tem algum “tratamento” do texto, em face da ausência do poema. A abstinência textual relativiza, por assim dizer, o erro isomórfico.
Um outro momento do isomorfismo se dá quando a poesia concreta brasileira foi visitada nas obras de Willy Corrêa de Oliveira e de Gilberto Mendes. Ambos buscavam, explicitamente, um isomorfismo musical com os textos elegidos desses poetas (Augusto e Haroldo de Campos; Décio Pignatari; meu pai, Florivaldo Menezes; e outros). E tais feitos são igualmente ilusórios, pois, da mesma forma como Gilberto Mendes elegeu a poesia Beba coca-cola de Décio e compôs a obra-prima coral que bem conhecemos, este mesmo poema poderia ter sido “musicado” de milhões de outras maneiras, por outros compositores ou por ele mesmo! O isomorfismo, ainda que interessante, revela-se como paradoxal e ilusório.
Essa visão crítica quanto ao isomorfismo nos leva à terceira maneira de afrontamento da música com o texto segundo a visão de Berio, e que corresponde à própria maneira como o próprio Berio aborda o texto verbal em sua obra: a música como veículo de análise do texto, em que o texto será enfocado por diversas formulações musicais, e isto no interior de uma mesma obra musical. Cada vez que a música afrontar o texto, ela irá apontar para caminhos distintos, suscitando outros possíveis tratamentos musicais do mesmo texto. Típico exemplo dessa postura múltipla da música em relação ao texto, como uma espécie de polimorfismo, é sua obra Circles, constituída de cinco partes, A-B-C-B’-A’. E por que consideramos sua forma como cíclica? Porque a obra elege como texto três poemas de e. e. cummings, poeta radical americano que era muito apreciado por Berio, e esses três poemas habitam as três primeiras partes (o primeiro poema em A; o segundo poema em B; e o terceiro poema em C). As quarta e quinta partes reutilizam então, respectivamente, os poemas das partes B e A, ciclicamente. Porém, quando a quarta seção B’ retoma o segundo poema, o faz de modo musicalmente diverso, da mesma maneira como a revisita do primeiro poema na última parte A’ é musicalmente diversa de seu tratamento musical tal qual ocorre na primeira parte da obra. O segundo poema, revisitado na quarta seção B’, recebe tratamento musical semelhante à primeira seção A, enquanto o primeiro poema, ao ser retomado na última seção A’, recebe tratamento musical semelhante à segunda seção B, num curioso entrelaçamento das dimensões musical e poética. Se do ponto de vista dos textos utilizados temos um ciclo, musicalmente temos uma outra direcionalidade, e dois dos três poemas utilizados submetem-se a tratamentos musicais contrastantes e entrecruzados, enquanto o terceiro poema, o mais radical deles do ponto de vista poético, aparece com um único tratamento musical bem ao centro da obra.
Um outro exemplo deveras radical é o de La Vera Storia (A Verdadeira História), ópera em dois atos de Berio com libreto de Italo Calvino. Berio emprega o texto do Calvino no Primeiro Ato. Entretanto, no Segundo Ato, quando se espera a continuidade da narratividade verbal, temos, contrariando toda a história do gênero operístico, o retorno praticamente do mesmo texto, porém com tratamento musical totalmente distinto. Trata-se da única ópera na história do gênero na qual o libreto se repete de um Ato para o outro. Ainda que com pequeníssimas variações contextuais e mínimos ajustes, o texto do Segundo Ato é o mesmo do Primeiro. Estamos diante de uma ideia absolutamente genial, um verdadeiro achado! E outro exemplo que me ocorre nesse momento é A-Ronne, obra para oito vozes (versão original: para cinco vozes) baseada em texto homônimo de Edoardo Sanguineti, em que o poema de Sanguineti é revisitado por Berio cerca de vinte e três vezes, sempre com tratamento musical diferente. Toda vez que o texto recomeça, recomeça de outra maneira, totalmente distinta da anterior, deflagrando a possibilidade quase infinita de releitura musical do texto. E outro exemplo ainda, “clássico”, é justamente a Sequenza III para voz, na qual um mesmo texto (de Marcus Kutter), que consiste em uma poesia diagramada em um quadrado verbal, suscetível a diversas leituras possíveis, é relido pela música das maneiras as mais variadas durante os seus cerca de sete minutos. O texto, quando entoado pela música, verte-se em um caleidoscópio.
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Creio que me foi possível abordar alguns dos aspectos cruciais da escritura beriana em relação à palavra, revelando sua plena consciência com relação ao fenômeno linguístico de suas estruturações mais básicas, fonéticas e fonológicas, a suas estruturações mais complexas, tal como estas se nos apresentam no nível semântico e transtextual. Berio foi um dos compositores mais geniais da história da música com relação a isso. Sua consciência acústica e, concomitantemente, do fenômeno linguístico enquanto totalidade expressiva do verbo, e ao mesmo tempo sua clara visão de que a música se comporta como um Texto, como uma Escritura, mas que, quando defrontada com o texto verbal, deixa aflorar vieses muito diferentes em sua relação com o Verbo, revelam-se como uma de suas mais notáveis contribuições.
Agradeço muito a atenção de todos e, diante de nosso tempo escasso, abro para alguma questão do público.
Debate público
Yara Caznók: Como você vê a questão dos melismas? Na música da antiguidade, os melismas foram usados como tratamento musical da voz monofônica, ou seja, instituíram um tratamento musical do Verbo sem fazer apelo ao tecido polifônico que, segundo você, tipifica a música em contraposição à linguagem falada...
Flo Menezes: O caminho a uma cada vez maior simultaneidade de camadas, de índole polifônica, deu-se ao longo de 800 anos de escritura musical, mas tua questão é das mais interessantes. Recentemente, em uma de minhas 13 emissões radiofônicas dentro da série Ideias Musicais da Rádio Cultura, abordei o tema “Grandes Polifonias”, e assim iniciei o programa: “Caros ouvintes, ouçamos um exemplo de música polifônica!” Seguiu-se, de modo provocativo, não uma música polifônica, mas um cantochão, um canto gregoriano. Certamente, aquele que ouvia a emissão e que possuía conhecimentos musicais deve ter indagado: “O que esse Flo Menezes está fazendo? Dando exemplo de música polifônica tocando um canto gregoriano totalmente monofônico?” E prossegui ao término do exemplo: “Isso que vocês acabaram de ouvir é o primeiro exemplo de polifonia”. Por quê? Expliquei: porque ali já se fazia presente uma clara distinção entre o nível verbal e o nível musical! Na medida em que os melismas fazem a melodia se desprender da trama verbal, estendendo radicalmente as vogais da palavra no tempo, existe uma reivindicação do nível musical que se distingue da inteligibilidade do verbo. E ali existe já um princípio de “polifonia”, uma polifonia que não é de ordem musical, mas que deita raízes na dicotômica relação da música com o texto. Eu diria mesmo que essa ambivalência música/texto tem suas origens já nos primórdios mais arcaicos da escritura musical justamente através do melisma, que é na verdade um protomodelo de polifonia, mesmo sendo ainda essencialmente monofônico.
Obrigado a todos pela atenção.
Referências bibliográficas
MENEZES, Flo. Luciano Berio. In: DONIN, Nicolas; FENEYROU, Laurent. (org.).
Théories de la Composition Musicale au XXème Siècle, v.2. Lyon: Symétrie, 2013.
______. Un Essai sur la Composition Verbale/Electronique “Visage” de Luciano Berio, Quaderni di Musica Realtà, n.30*. Modena: Mucchi Editore, 1993.
JAKOBSON, Roman. Kindersprache, Aphasie und allgemeine Lautgesetze. Frankfurt am Main: Surhkamp Verlag, 1969.
1 Conferência de Flo Menezes ministrada em 24 de outubro de 2013. Seu título reporta-se ao clássico texto de Henri Pousseur sobre Luciano Berio: “Berio und das Wort” (“Berio e a palavra”), in: LP WERGO (WER 60021), Mainz, janeiro de 1967. Não tendo tido por base um texto escrito, trata-se aqui de uma transcrição realizada por Helen Gallo a partir da gravação da conferência, revisada em forma de texto pelo autor para a presente publicação.
2 Jakobson, Kindersprache, Aphasie und allgemeine Lautgesetze.
3 Cf. Menezes, Un Essai sur la Composition Verbale/Electronique “Visage” de Luciano Berio, p.126.
4 Neste meio-tempo, o ensaio já foi publicado sob o título “Luciano Berio” em: Donin; Feneyrou (org.), Théories de la Composition Musicale au XXème Siècle, p.1095-1120.