Me chame pelo seu nome

André Aciman · Capítulo 4 de 4

Páginas do PDF

Me chame pelo seu nome

PARTE 4: Canto-fantasma

PARTE 4

 

Canto-fantasma

Anchise estava esperando por mim na estação. Avistei-o logo que o trem fez a extensa curva em volta da baía, diminuindo a velocidade e quase tocando os ciprestes altos que eu tanto amava e através dos quais com frequência flagrava uma sempre bem-vinda prévia do mar reluzente da tarde. Abri a janela e deixei o vento soprar no meu rosto, avistando o vagão-motor a distância. Chegar a B. sempre me deixava feliz. Sempre me fazia lembrar da chegada no início de junho no fim do período escolar. O vento, o calor, a plataforma cinza brilhante com a antiga cabine principal fechada permanentemente desde a Primeira Guerra Mundial, o silêncio mortal, tudo lembrava minha estação do ano favorita naquela hora deserta e amada do dia. Era como se o verão estivesse para começar, como se as coisas ainda não tivessem acontecido, minha cabeça ainda zumbindo com os estudos de última hora antes das provas finais, era a primeira vez que eu avistava o mar naquele ano. Oliver? Que Oliver?

O trem parou por alguns segundos, cerca de cinco passageiros desceram. Ouvi o estrondo habitual, seguido pelo sonoro ruído hidráulico do motor. Então, tão facilmente quanto tinham parado, os vagões saíram da estação, um a um, e se afastaram. Silêncio completo.

Fiquei um tempo embaixo da cobertura de madeira. Tudo ali, incluindo a cabine na plataforma, exalava um odor forte de combustível, alcatrão, pintura lascada e mijo.

Um melro-preto solitário, sentado em um dos pinheiros, cantou algumas notas que foram imediatamente abafadas pelas cigarras.

Verão.

Tinha pensado raríssimas vezes no ano escolar que se aproximava. Agora estava grato, com tanto calor e tanto verão à minha volta, por ainda parecer que faltavam meses para que começasse.

Minutos depois da minha chegada, o direttissimo para Roma zuniu nos trilhos do lado oposto… sempre pontual. Três dias antes, pegamos exatamente aquele trem. Eu me lembrei de ter olhado pela janela e pensado: Em alguns dias, você vai estar de volta, e vai estar sozinho, e vai odiar estar sozinho, então não permita que isso o pegue de surpresa. Esteja preparado. Ensaiei o momento de perdê-lo não só para afastar o sofrimento ao antecipar pequenas doses dele, mas, como fazem todos os supersticiosos, para ver se minha disposição a aceitar o pior não poderia induzir o destino a suavizar o golpe. Como soldados que treinam para o combate à noite, eu vivia no escuro para não ficar cego quando a escuridão chegasse. Ensaiar a dor para anestesiá-la. Homeopaticamente.

Mais uma vez, então. Vista da baía: ok.

Perfume dos pinheiros: ok.

Cabine principal da estação: ok.

Vista das colinas a distância que lembra a manhã em que voltamos pedalando a B. e descemos a toda velocidade, quase atropelando a cigana: ok.

Cheiro de mijo, combustível, alcatrão, tinta esmaltada: ok, ok, ok e ok.

Anchise pegou minha mochila e se ofereceu para levá-la. Eu disse que não precisava; mochilas foram feitas para serem carregadas apenas pelo próprio dono. Ele não entendeu exatamente por que, mas me devolveu a mochila.

Perguntou se o Signor Ulliva tinha ido embora.

Sim, de manhã.

— Triste — comentou.

— Sim, um pouco.

— Anche a me duole, também estou triste.

Evitei os olhos dele. Não queria incentivá-lo a dizer qualquer coisa nem ao menos a tocar no assunto.

Minha mãe, quando cheguei, quis saber de tudo sobre a viagem. Eu disse que não fizemos nada de especial, só visitamos o Capitólio, Villa Borghese, São Clemente. Mas caminhamos muito pela cidade. Muitas fontes. Muitos lugares estranhos à noite. Dois jantares.

— Jantares? — perguntou minha mãe com um eu não disse? triunfante e discreto. — Com quem?

— Pessoas.

— Que pessoas?

— Escritores, editores, amigos do Oliver. Ficamos acordados todas as noites.

— Você não tem nem dezoito anos e já leva la dolce vita — comentou Mafalda em um tom ácido.

Minha mãe concordou.

— Arrumamos seu quarto como antes. Achamos que ia gostar de finalmente tê-lo de volta.

Logo fiquei triste e enfurecido. Quem lhes dera esse direito? Com certeza andaram bisbilhotando, juntas ou não.

Eu sempre soube que um dia teria meu quarto de volta. Mas esperava uma transição mais lenta e duradoura para o modo como as coisas eram antes de Oliver. Tinha me imaginado deitado na cama tentando reunir a coragem de ir até o quarto dele. O que não previ era que Mafalda já teria trocado seus lençóis — nossos lençóis. Por sorte, eu tinha pedido mais uma vez que ele me desse a tal camisa esvoaçante naquela manhã, depois de garantir que a usasse o tempo todo em Roma. Guardei-a em um saco plástico no hotel e provavelmente teria que escondê-la do alcance bisbilhoteiro das pessoas pelo resto da vida. Certas noites, tiraria a camisa do saco plástico, verificaria se não tinha adquirido o cheiro do plástico ou das minhas roupas, e a abraçaria, passando as mangas ao redor do meu corpo, sussurraria o nome dele no escuro. Ulliva, Ulliva, Ulliva… era Oliver me chamando pelo seu nome quando imitava o som metamorfoseado pronunciado por Mafalda e Anchise; mas também era eu chamando-o pelo seu nome, esperando que ele me chamasse de volta pelo meu, que eu falaria por ele para mim, e para ele de novo: Elio, Elio, Elio.

Para evitar entrar em meu quarto pela varanda e ver que ele não estava ali, usei a escada interna. Abri a porta, larguei a mochila no chão e me joguei na cama quente e ensolarada. Graças a Deus. Não tinham lavado a colcha. De repente eu estava feliz por estar de volta. Poderia cair no sono no exato instante, esquecendo completamente a camisa, o cheiro e o próprio Oliver. Quem pode resistir ao sono às duas ou três da tarde nesses lugares ensolarados do Mediterrâneo?

Na exaustão, resolvi pegar o caderno de música mais tarde e retomar Haydn exatamente de onde tinha parado. Ou isso ou iria até a quadra de tênis e sentaria ao sol em um daqueles bancos quentes, que com certeza lançariam um arrepio de bem-estar pelo meu corpo, para ver se alguém estava disponível para uma partida. Sempre havia alguém.

Nunca acolhi o sono com tanta serenidade na vida. Haveria tempo suficiente para o luto, pensei. Ele virá, provavelmente às escondidas, como ouvi dizer que essas coisas acontecem, e não haverá nenhuma maneira fácil de escapar. Antecipar a tristeza para neutralizar a tristeza… é desprezível e covarde, disse a mim mesmo, sabendo que era um praticante ferrenho dessa arte. E se chegasse com força? E se chegasse e não fosse mais embora, uma tristeza que veio para ficar, e fizesse comigo o que a espera por ele fez naquelas noites em que parecia haver algo tão essencial quanto uma parte do meu corpo faltando em minha vida, e perdê-lo agora fosse como perder uma mão que podia ser vista em todas as minhas fotos pela casa, sem a qual eu jamais seria o mesmo. Você perde a mão, como sempre soube que aconteceria, tendo até mesmo se preparado para aquilo; mas não consegue viver com a perda. E a esperança de não pensar nela, assim como rezar para não sonhar com ela, dói do mesmo jeito.

Então uma estranha ideia me ocorreu: e se meu corpo — só meu corpo, meu coração — clamasse pelo dele? O que fazer?

E se eu não fosse capaz de suportar a noite sem ele ao meu lado, dentro de mim? E aí?

Pensar na dor antes da dor.

Eu sabia o que estava fazendo. Mesmo dormindo, eu sabia o que estava fazendo. Está tentando se imunizar, é isso que você está fazendo… desse jeito vai acabar matando a coisa toda… seu garoto sorrateiro e ardiloso. É isso que você é, um garoto sorrateiro, sem coração, ardiloso. Eu ri daquela voz. O sol estava em mim, e eu o amei com um amor quase pagão pelas coisas da terra. Pagão, é isso que você é. Nunca tinha percebido o quanto eu amava a terra, o sol, o mar — pessoas, coisas e até a arte pareciam vir em segundo plano. Ou estaria enganando a mim mesmo?

No meio da tarde, percebi que estava curtindo o sono, não só fazendo dele um refúgio, o sono dentro do sono, como o sonho dentro do sonho, não existe nada melhor. Um acesso de algo tão delicado quanto a pura felicidade começou a se apoderar de mim. Deve ser quarta-feira, pensei, e de fato era quarta-feira, quando o amolador se instala em nosso quintal e começa a trabalhar em cada faca da casa, Mafalda sempre de pé ao seu lado, conversando com ele e segurando um copo de limonada para o homem enquanto ele faz seu trabalho. O som rouco e fricativo de sua roda crepitando e chiando no calor da tarde, enviando ondas sonoras de felicidade para o meu quarto no andar de cima. Ainda não tinha sido capaz de admitir para mim mesmo o quanto Oliver me deixou feliz no dia em que engoliu meu pêssego. É claro que aquilo me emocionou, mas também me deixou lisonjeado, como se o gesto me dissesse Eu acredito com cada célula do meu corpo que cada célula do seu não deve, nunca deve morrer, e se tiver que morrer, que seja dentro do meu corpo. Ele abriu a porta já entreaberta da varanda pelo lado de fora e entrou — não estávamos nos falando naquele dia; não perguntou se podia entrar. O que eu ia fazer? Dizer Você não pode entrar? Foi quando levantei o braço para cumprimentá-lo e dizer que não queria mais brigar, que estava cansado de brigar, chega de briga, para sempre, e deixei que ele levantasse os lençóis e deitasse em minha cama. Assim que ouvi o som do amolador em meio às cigarras, soube que acordaria ou continuaria dormindo, e que as duas coisas eram boas, sonhar ou dormir, a mesma coisa, eu aceitaria qualquer uma ou ambas.

Acordei perto das cinco horas. Não queria mais jogar tênis, e também não tinha nenhuma vontade de estudar Haydn. Hora de nadar, pensei. Vesti o calção e desci as escadas. Vimini estava sentada no muro baixo perto da casa de seus pais.

— Por que você está indo nadar? — perguntou ela.

— Não sei. Deu vontade. Quer vir?

— Hoje não. Estão me obrigando a usar esse chapéu ridículo se quiser ficar aqui fora. Pareço um bandoleiro mexicano.

— Pancho Vimini. O que vai ficar fazendo se eu for nadar?

— Vou ficar assistindo. A não ser que você possa me ajudar a subir em uma daquelas pedras, aí vou ficar sentada, molhando os pés, com o chapéu na cabeça.

— Então vamos.

Nunca era preciso pedir a Vimini que desse a mão. Ela dava naturalmente, como as pessoas cegas aceitam nosso cotovelo de modo automático.

— Só não ande muito rápido — disse ela.

Descemos a escadaria e, quando chegamos às pedras, encontrei aquela de que Vimini mais gostava e sentei ao seu lado. Era seu lugar favorito com Oliver. A pedra estava quente, e amei a sensação do sol na minha pele àquela hora da tarde.

— Estou feliz por estar de volta — falei.

— Você se divertiu em Roma?

Assenti com a cabeça.

— Nós sentimos sua falta.

— Nós quem?

— Eu. Marzia. Ela procurou por você outro dia.

— Ah — respondi.

— Contei a ela onde você estava.

— Ah — repeti.

Eu sentia que a menina estava analisando meu rosto.

— Acho que ela sabe que você não gosta tanto assim dela.

Não havia por que debater a questão.

— E? — perguntei.

— E nada. Só senti pena dela. Eu disse que você saiu às pressas.

Era óbvio que Vimini estava satisfeita com sua astúcia.

— Ela acreditou em você?

— Acho que sim. Não foi exatamente uma mentira, não é?

— Como assim?

— Bom, vocês dois foram sem se despedir.

— Tem razão. Não era nossa intenção.

— Ah, por você eu não me importo. Mas por ele, sim. Bastante.

— Por quê?

— Por quê, Elio? Você vai ter que me desculpar por dizer isso, mas você nunca foi muito inteligente.

Demorei um tempo para entender aonde ela queria chegar com aquilo. De repente, percebi.

— Talvez eu também nunca mais o veja — falei.

— Não, pode ser que você ainda o veja. Já eu…

Senti um nó na garganta, então deixei Vimini sentada na pedra e comecei a ir em direção à água. Aconteceu exatamente como eu havia previsto. Eu olhava para a água naquele fim de tarde e por uma fração de segundo me esquecia de que ele não estava mais aqui, que não tinha por que voltar e olhar para a varanda, de onde sua imagem ainda não havia desaparecido. Ainda assim, poucas horas antes, seu corpo e meu corpo… Agora ele provavelmente já teria feito a segunda refeição no avião e estaria se preparando para pousar no aeroporto JFK. Eu sabia que ele estava cheio de tristeza quando finalmente me beijou pela última vez em uma das cabines no banheiro do Fiumicino, e que, ainda que no avião as bebidas e o filme o tivessem distraído, quando estivesse sozinho em seu quarto em Nova York ele também ficaria triste de novo, e eu odiava pensar nele triste, assim como sabia que ele odiaria me ver triste em nosso quarto, que muito de repente se tornou meu quarto outra vez.

Alguém estava vindo em direção às pedras. Tentei pensar em algo que dissipasse minha tristeza e acabei me dando conta da ironia de que a distância que me separava de Vimini era exatamente a mesma distância que me separava de Oliver. Sete anos. Em sete anos, comecei a pensar, e de repente senti algo quase explodir em minha garganta. Mergulhei na água.

Depois do jantar, o telefone tocou. Oliver tinha chegado bem. Sim, em Nova York. Sim, mesmo apartamento, mesmas pessoas, mesmo barulho — infelizmente a mesma música vinda lá de fora, dava para ouvir agora. Ele colocou o fone para fora da janela e deixou que sentíssemos o gostinho dos ritmos hispânicos de Nova York. A 104 th Street, disse ele. Saindo para jantar com uns amigos. Minha mãe e meu pai estavam conversando com ele, cada um em um aparelho na sala. Eu estava no telefone da cozinha. Aqui? Bom, você sabe. Os convidados de sempre para o jantar. Acabaram de sair. Sim, muito calor aqui também. Meu pai esperava que tivesse sido produtivo. O quê? Ficar conosco, explicou meu pai. A melhor coisa da minha vida. Se pudesse, embarcaria no mesmo avião e voltaria com a roupa do corpo, um calção de banho extra, uma escova de dentes. Todos riram. De braços abertos, caro. Piadas eram lançadas de um lado para o outro. Você conhece nossa tradição, explicou minha mãe, o hóspede sempre deve voltar, nem que seja só por alguns dias. Nem que seja só por alguns dias queria dizer por não mais do que alguns dias — mas ela estava sendo sincera, e ele sabia disso.

— Allora ciao, Oliver, e a presto — disse ela.

Meu pai meio que repetiu as mesmas palavras, então completou:

— Dunque, ti passo Elio… vi lascio.

Ouvi os cliques das extensões, o que significava que não havia mais ninguém na linha. Como meu pai era discreto. Mas a liberdade tão repentina de estarmos sozinhos em algo que parecia uma barreira temporal me fez congelar. Fez boa viagem? Sim. Odiou a comida? Sim. Pensou em mim? Fiquei sem perguntas e devia ter pensado melhor em vez de ficar encurralando Oliver.

— O que você acha? — Foi sua resposta vaga.

Era como se temesse que alguém acidentalmente entrasse na linha? Vimini manda lembranças. Muito chateada. Vou sair e comprar alguma coisa para ela amanhã e enviar pelo correio. Nunca esquecerei Fiumicino enquanto eu viver. Nem eu. Você gosta do seu quarto? Mais ou menos. Janela de frente para um pátio barulhento, nunca tem sol, não cabe nada, não sabia que eu tinha tantos livros, cama pequena demais agora. Queria que pudéssemos começar tudo de novo naquele quarto, falei. Os dois debruçados na janela à noite, ombro a ombro, como em Roma… todos os dias da minha vida, falei. Todos os dias da minha também. Camisa, escova de dentes, caderno de música e estou a caminho, então não me tente. Peguei uma coisa do seu quarto, disse ele. O quê? Você nunca vai adivinhar. O quê? Descubra sozinho. Foi quando eu disse, não porque era o que queria dizer, mas porque o silêncio estava pesando sobre nós, e aquela era a coisa mais fácil de enfiar na conversa durante uma pausa… e pelo menos eu teria dito: Não quero perder você. Escreveríamos. Eu ligaria da agência do correio… teríamos mais privacidade. Falamos sobre o Natal, até sobre o Dia de Ação de Graças. Sim, no Natal. Mas o mundo dele, que até aquele momento não parecia mais distante do meu do que a espessura da pele que Chiara arrancara de seus ombros, de repente foi sugado do meu e jogado a anos-luz de distância. Até o Natal, talvez não importasse. Quero ouvir o barulho da janela mais uma vez. Ouvi uma crepitação. Quero ouvir o barulho que você fez quando… Um barulho fraco e tímido, porque havia outras pessoas na casa, disse ele. Rimos. Além disso, estão me esperando para jantar. Desejei que ele não tivesse ligado. Queria ouvi-lo dizer meu nome. Queria perguntar, agora que estávamos tão distantes, o que tinha acontecido entre ele e Chiara. Também me esqueci de perguntar onde ele tinha deixado o calção de banho vermelho. Provavelmente esqueceu e levou embora.

A primeira coisa que fiz depois da conversa ao telefone foi ir até o meu quarto e ver o que ele poderia ter levado para se lembrar de mim. Então vi um espaço vazio na parede. Ah! Ele tinha levado um cartão-postal emoldurado do penhasco de Monet, mais ou menos de 1905. Um dos hóspedes americanos anteriores tinha garimpado o postal em uma feira em Paris dois anos antes e enviado para mim como lembrança. O cartão desbotado fora enviado originalmente em 1914… havia alguns rabiscos apressados em alemão desbotados no verso, dirigidos a um médico na Inglaterra, e ao lado o estudante americano escreveu suas próprias saudações para mim em tinta preta: Pense em mim algum dia. A foto seria uma lembrança para Oliver do dia em que admiti pela primeira vez meus sentimentos. Ou do dia em que passamos pedalando pelo penhasco fingindo não notá-lo. Ou do dia em que decidimos fazer um piquenique lá e juramos não nos tocar, para aproveitar melhor o momento em que nos deitaríamos juntos na cama naquela mesma tarde. Queria que ele tivesse a foto diante dos seus olhos o tempo todo, a vida inteira, na frente da sua mesa de trabalho, da sua cama, em todos os lugares. Pendure em todos os lugares para onde for, escrevi.

O mistério foi solucionado, como sempre acontece comigo, enquanto eu dormia naquela noite. Nunca tinha percebido até então. E esteve bem na minha cara durante dois anos inteiros. O nome dele era Maynard. Certa tarde, quando devia saber que todos estavam descansando, ele bateu à minha porta para ver se eu tinha tinta preta… a dele havia acabado, disse, e ele só usava tinta preta, como eu. Ele entrou. Eu estava só de calção e fui até a escrivaninha e entreguei o frasco. Ele ficou olhando para mim antes de pegá-lo. Na mesma noite, deixou o frasco do lado de fora da porta da varanda. Qualquer outra pessoa teria batido de novo e devolvido. Eu tinha quinze anos. Mas não teria dito não. Durante uma das nossas conversas, eu tinha falado sobre meu lugar favorito nas montanhas.

Nunca pensei nele, até Oliver roubar o postal.

Um pouco depois do jantar, vi meu pai sentado no lugar de sempre à mesa do café da manhã. A cadeira dele estava virada de frente para o mar e em seu colo havia provas do último livro. Estava bebendo o chá de camomila de sempre, aproveitando a noite. Ao seu lado, três velas grandes de citronela. Os mosquitos estavam com tudo naquela noite. Desci para me juntar a ele. Era o momento do dia em que costumávamos nos sentar juntos, e eu não aparecia fazia um mês.

— Me conte sobre Roma — disse ele assim que percebeu que eu estava pronto para sentar ao seu lado.

Também era o momento em que ele se permitia fumar pela última vez no dia. Colocou o manuscrito de lado com um movimento cansado que sugeria um impaciente agora-chegamos-à-parte-boa e acendeu o cigarro com um gesto malandro, usando uma das velas de citronela.

— E então? — insistiu.

Não havia nada para contar. Repeti o que tinha contado à minha mãe: o hotel, o Capitólio, Villa Borghese, São Clemente, restaurantes.

— Comeu bem também?

Assenti com a cabeça.

— E bebeu bem também?

Repeti o gesto.

— Fez coisas que seu avô aprovaria?

Eu ri. Não desta vez. Contei sobre o incidente próximo ao Pasquino.

— Que ideia, vomitar na frente da estátua falante! Cinema? Concertos?

Comecei a me dar conta de que ele estava tentando chegar a algum lugar, talvez sem que ele mesmo soubesse. Percebi porque, enquanto ele seguia fazendo perguntas que quase abordavam o assunto, comecei a sentir que já estava colocando em prática manobras evasivas muito antes de o assunto que nos esperava ao dobrar a esquina se tornar visível. Falei sobre a condição permanente de sujeira e degradação das praças de Roma. Do calor, do tempo, trânsito, freiras demais. Tais e tais igrejas fecharam. Detritos em todos os lugares. Reformas malfeitas. E reclamei das pessoas, dos turistas, dos micro-ônibus que levavam e traziam inúmeras hordas com minicâmeras.

— Viu alguma das praças privativas de que falei?

Acho que nos esquecemos de visitar as praças privativas de que ele falou.

— Foram até a estátua de Giordano Bruno por mim? — perguntou ele.

Claro que sim. Quase vomitei lá também naquela noite.

Rimos.

Pausa breve. Mais uma tragada do cigarro.

Agora.

— Vocês dois tinham uma amizade bonita.

Foi muito mais ousado do que qualquer coisa que eu poderia imaginar.

— Sim — respondi, tentando deixar meu “sim” suspenso no ar, como que impulsionado pela ascensão de um qualificador negativo que acabou suprimido.

Só esperava que ele não tivesse percebido o Sim, e daí? hostil, evasivo e aparentemente cansado em minha voz.

Também esperava, no entanto, que ele aproveitasse a oportunidade do Sim, e daí? não dito para me repreender, como costumava fazer quando eu era desagradável, indiferente ou crítico demais com as pessoas que tinham toda razão em se considerar minhas amigas. Em seguida, talvez acrescentasse o clichê de sempre a respeito de como as boas amizades eram raras e que, mesmo que as pessoas se revelassem difíceis depois de um tempo, ainda assim a maioria delas tinha boas intenções e cada uma tinha algo de bom para compartilhar. Nenhum homem é uma ilha, você não pode se fechar para os outros, pessoas precisam de pessoas, blá-blá-blá.

Mas eu estava errado.

— Você é inteligente demais para não saber como era raro e especial o que havia entre vocês.

— Oliver era Oliver — falei, como se isso resumisse as coisas.

— Parce que c’était lui, parce que c’était moi — acrescentou meu pai, citando a explicação abrangente de Montaigne para sua amizade com Étienne de la Boétie.

Já eu, estava pensando nas palavras de Emily Brontë: porque “... ele é mais eu do que eu mesma.”

— Oliver pode ser muito inteligente — comecei.

Mais uma vez, a falsa ascensão na entonação anunciou um mas invisível entre nós. Qualquer coisa para impedir que meu pai me fizesse avançar por aquele caminho.

— Inteligente? Ele era mais do que inteligente. O que havia entre vocês tinha tudo e nada a ver com inteligência. Ele era bom, e vocês dois tiveram sorte de se encontrar, porque você também é bom.

— Acho que ele era melhor do que eu, pai.

— Tenho certeza de que ele diria o mesmo sobre você, o que diz muito dos dois.

Ele estava prestes a bater as cinzas do cigarro e, inclinando-se em direção ao cinzeiro, estendeu o braço e tocou minha mão.

— O que está por vir vai ser muito difícil — começou a dizer, alterando a voz.

Seu tom dizia: Não precisamos falar sobre isso, mas não vamos fingir que não sabemos do que estou falando.

— Na verdade, não sei o que eu sinto. Nem acho que sinta alguma coisa.

Falar de modo abstrato era o único jeito de falar a verdade para ele.

— Não tenha medo. Virá. Pelo menos eu espero que venha. E quando você menos espera. A natureza sabe como encontrar nossos pontos mais fracos. Apenas se lembre: estou aqui. Agora talvez você não queira sentir nada. Talvez você nunca tenha desejado sentir nada. E talvez não seja comigo que você vai querer falar sobre essas coisas. Mas você sentiu algo, sim.

Olhei para ele. Era o momento de mentir e dizer que estava completamente enganado. Eu estava prestes a fazer isso.

— Olha só. Vocês tinham uma bela amizade. Talvez mais do que amizade. E invejo vocês. No meu lugar, muitos pais esperariam que a coisa simplesmente sumisse, ou rezariam para que seus filhos se reerguessem logo. Mas eu não sou um desses pais. No seu lugar, se houver dor, cuide dela, e se houver uma chama, não a apague, não seja bruto com ela. Arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos das coisas mais rápido do que deveríamos, que declaramos falência antes mesmo dos trinta e temos menos a oferecer a cada vez que iniciamos algo com alguém novo. A abstinência pode ser uma coisa terrível quando não nos deixa dormir à noite, e ver que as pessoas nos esqueceram antes do que gostaríamos de ser esquecidos não é uma sensação melhor. Mas não sentir nada para não sentir alguma coisa… que desperdício!

Eu não consegui nem começar a absorver tudo aquilo. Estava em choque.

— Falei o que não devia? — perguntou ele.

Balancei a cabeça.

— Então permita que eu diga mais uma coisa. Vai esclarecer tudo. Talvez tenha chegado perto, mas nunca tive o que vocês tiveram. Alguma coisa sempre me impediu ou ficou no caminho. Como você vive sua vida é problema seu. Mas lembre-se, nossos corações e nossos corpos nos são dados apenas uma vez. A maioria de nós teima em viver como se tivesse duas vidas, uma é a maquete, a outra a versão final, e todas as versões entre elas. Mas a vida é só uma, e antes que você se dê conta, seu coração se cansa e, quanto ao seu corpo, chega um momento em que ninguém mais olha para ele, muito menos quer chegar perto dele. Agora há tristeza. Não invejo sua dor. Mas invejo sua dor.

Ele respirou fundo.

— Talvez nunca mais falemos sobre isso. Mas espero que você nunca ressinta o fato de termos falado. Terei sido um pai terrível se, um dia, você quiser falar comigo e encontrar a porta fechada ou não suficientemente aberta.

Eu queria perguntar como ele sabia. Mas como poderia não saber? Como qualquer pessoa poderia não saber?

— Minha mãe sabe? — perguntei.

Eu ia dizer suspeita, mas me corrigi.

— Acho que não. — A voz dele queria dizer, Mas mesmo que saiba, tenho certeza de que a atitude dela não seria diferente da minha.

Dissemos boa-noite. Subindo as escadas, jurei perguntar a ele sobre sua vida. Sabíamos tudo sobre as mulheres de quando ele era jovem, mas nunca houve nem sugestão a algo mais.

Meu pai era outra pessoa? E, se ele era outra pessoa, quem eu era?

* * *

Oliver cumpriu a promessa. Voltou um pouco antes do Natal e ficou até o Ano-novo. No início, pareceu distante. Ele precisa de tempo, pensei. Mas eu também precisava. Ele passava a maior parte do tempo com meus pais, e então com Vimini, que ficou feliz por sentir que nada tinha mudado entre eles. Eu estava começando a temer que tivéssemos voltado aos primeiros dias quando, à exceção dos gracejos no pátio, a evasão e a indiferença eram a norma. Por que suas ligações não me prepararam para aquilo? Eu era o responsável pelo novo tom da nossa amizade? Meus pais tinham dito alguma coisa? Ele voltou por mim? Ou por eles, pela casa, para fugir? Ele voltou pelo livro, que já tinha sido publicado na Inglaterra, na França, na Alemanha e finalmente estava prestes a sair na Itália. Era um exemplar elegante, e todos estávamos muito felizes por ele, incluindo o livreiro de B., que prometera uma festa de lançamento no verão seguinte.

— Talvez. Vamos ver — respondeu Oliver quando passamos lá de bicicleta.

A sorveteria estava fechada. Assim como a floricultura e a farmácia onde havíamos parado ao voltar do penhasco naquele primeiro dia quando ele me mostrou que tinha se machucado feio. Tudo pertencia a outra vida. A cidade parecia vazia, o céu estava cinza. Certa noite ele teve uma longa conversa com meu pai. Provavelmente estavam falando de mim, ou de minhas perspectivas para a faculdade, ou do verão anterior, ou de seu livro novo. Ouvi risadas no corredor lá embaixo, minha mãe o beijou. Um tempo depois alguém bateu à minha porta, não a da varanda… aquela entrada ficaria permanentemente fechada.

— Quer conversar?

Eu já estava deitado. Ele estava agasalhado e parecia vestido para sair para uma caminhada. Sentou na beirada da minha cama, parecendo tão inquieto quanto eu devo ter parecido naquela primeira vez, quando este quarto era dele.

— Talvez eu me case na primavera — contou ele.

Aquilo me pegou de surpresa.

— Mas você não disse nada.

— Bom, estamos enrolados há mais de dois anos.

— É uma notícia maravilhosa — falei.

Casamentos sempre eram notícias maravilhosas, eu estava feliz por ele, casar era bom, e o sorriso largo em meu rosto era bastante genuíno, ainda que depois de um tempo eu tenha percebido que uma notícia como aquela não tinha como ser boa para nós. Eu me importava?, perguntou ele.

— Não seja bobo — respondi. Um longo silêncio. — Você vai deitar agora? — perguntei.

Ele olhou para mim com cautela.

— Um pouco. Mas não quero fazer nada.

Parecia uma versão atualizada e muito mais educada do Depois, talvez. Então voltamos a isso, não é? Tive o ímpeto de imitá-lo, mas me contive. Ele deitou ao meu lado em cima do cobertor, sem tirar a blusa. Só tirou os sapatos.

— Quanto tempo acha que isso vai durar? — perguntou ele com ironia.

— Não muito, espero.

Ele me beijou na boca, mas não foi o beijo depois do Pasquino, quando me pressionou com força contra a parede na Santa Maria dell’Anima. Reconheci o gosto imediatamente. Não tinha percebido o quanto eu gostava daquilo ou a falta que tinha sentido. Mais um item para acrescentar à lista de coisas de que sentiria falta antes de perdê-lo para sempre. Eu estava prestes a sair de baixo das cobertas.

— Não posso fazer isso — disse ele, e se afastou.

— Eu posso — respondi.

— Sim, mas eu não posso.

Meus olhos devem ter parecido duas lâminas gélidas, pois de repente ele percebeu o quanto eu estava com raiva.

— Não tem nada que eu queria mais do que tirar a roupa e pelo menos abraçá-lo. Mas não posso.

Envolvi sua cabeça em meus braços.

— Então talvez seja melhor você ir. Eles sabem sobre nós.

— Eu imaginava — disse ele.

— Como?

— Pelo modo como seu pai falou. Você tem sorte. Meu pai me mandaria para um reformatório.

Olhei para ele: eu queria mais um beijo.

Eu poderia, deveria tê-lo agarrado.

Na manhã seguinte, as coisas esfriaram oficialmente.

Uma coisinha aconteceu naquela semana. Estávamos sentados na sala depois do almoço, tomando café, quando meu pai trouxe uma pasta grande na qual estavam seis inscrições com fotos 3x4. Os candidatos do verão seguinte. Meu pai queria a opinião de Oliver, então passou as inscrições para minha mãe, para mim e para outro professor e sua esposa, também colega da universidade, que tinham vindo almoçar pelo mesmo motivo no ano anterior.

— Meu sucessor — disse Oliver, pegando uma das inscrições e passando adiante.

Meu pai instintivamente lançou um olhar em minha direção, e em seguida desviou.

O mesmo acontecera quase um ano antes. Pavel, sucessor de Maynard, veio para o Natal e, ao analisar as inscrições recomendou com veemência um candidato de Chicago. Na verdade, o conhecia muito bem. Pavel e todos os outros não demonstraram entusiasmo pelo jovem pós-doutor que dava aula em Columbia e tinha se especializado nos pré-socráticos. Fiquei olhando para sua foto por mais tempo do que o necessário e fiquei aliviado ao perceber que não sentia nada.

Lembrando agora, eu não poderia estar mais certo de que tudo entre nós começou naquela sala durante as férias de fim de ano.

— Foi assim que eu fui selecionado? — perguntou ele com uma inocência sincera e estranha, que minha mãe sempre achou encantadora.

— Eu queria que fosse você — falei para Oliver mais tarde naquela noite, quando o ajudei a carregar suas coisas minutos antes de Manfredi levá-lo até a estação. — Fiz com que escolhessem você.

Naquela noite revirei o gabinete do meu pai e encontrei a pasta das inscrições do ano anterior. Achei a foto dele. Colarinho aberto, a camisa esvoaçante, cabelo comprido, o ar de uma estrela de cinema fotografada contra a vontade por um paparazzo. É claro que fiquei olhando para o retrato. Queria poder me lembrar do que tinha sentido naquela tarde exatamente um ano antes… a explosão imediata de desejo seguida por seu antídoto imediato, o medo. O Oliver real e cada Oliver depois dele, cada um com um calção diferente a cada dia, ou o Oliver que se deitava nu na cama, ou o que se debruçou na janela do nosso quarto de hotel em Roma me impedia de ver a imagem confusa que tive dele ao ver sua foto pela primeira vez.

Olhei para o rosto dos outros candidatos. Este aqui não era tão ruim. Comecei a me perguntar que caminho minha vida teria tomado se outro candidato tivesse sido escolhido. Eu não teria ido a Roma. Mas talvez tivesse ido a outro lugar. Não saberia nada sobre São Clemente. Mas talvez tivesse descoberto outras coisas, que jamais saberia agora. Não teria mudado, não seria quem sou hoje, teria me tornado outra pessoa.

Agora me pergunto quem essa outra pessoa é hoje. É mais feliz? Eu não poderia mergulhar em sua vida por algumas horas, alguns dias, e ver com meus próprios olhos… não só para checar se essa outra vida é melhor, ou para atestar que nossas vidas não poderiam ser mais distantes por causa de Oliver, mas também para considerar o que eu diria para esse outro eu se lhe fizesse uma visita um dia? Eu gostaria dele, ele gostaria de mim, algum de nós entenderia por que o outro se tornou quem é, algum de nós ficaria surpreso ao descobrir que cada um de nós acabou encontrando um Oliver de um jeito ou de outro, homem ou mulher, e que muito possivelmente éramos, independentemente de quem tivesse vindo passar aquele verão conosco, exatamente a mesma pessoa?

Foi minha mãe, que odiava Pavel e teria obrigado meu pai a recusar qualquer pessoa que ele tivesse recomendado, que finalmente coagiu o destino. Podemos ser judeus discretos, dissera ela, mas esse Pavel, é um antissemita e eu jamais aceitarei outro antissemita em minha casa.

Eu me lembrei dessa conversa. Também estava impresso na sua foto de rosto. Ele também é judeu, pensei.

Então fiz o que pretendia fazer naquela noite no escritório do meu pai. Fingi não saber quem era aquele tal de Oliver. Foi no Natal anterior. Pavel ainda estava tentando nos persuadir a hospedar seu amigo. O verão ainda não tinha começado. Oliver provavelmente chegaria de táxi. Eu levaria suas malas, mostraria seu quarto, o levaria à praia pela escada que ia até as pedras e, se o tempo permitisse, mostraria a propriedade até a velha parada de trem e diria alguma coisa sobre os ciganos que viviam nos vagões abandonados que carregavam a insígnia real da Casa Savoia. Semanas depois, se tivéssemos tempo, talvez pedalássemos até B. Pararíamos para beber alguma coisa. Eu mostraria a livraria. E depois o penhasco de Monet. Nada disso tinha acontecido ainda.

* * *

Ficamos sabendo do casamento no verão seguinte. Enviamos presentes, e eu inclui um pequeno mot. O verão veio e foi embora. Várias vezes fiquei tentado a contar a ele sobre seu “sucessor” e enfeitar todo tipo de história sobre meu novo vizinho de varanda. Mas nunca enviei nada. A única carta que mandei no ano seguinte foi para contar que Vimini tinha morrido. Ele escreveu para todos nós expressando seu pesar. Estava viajando pela Ásia, então, quando a carta chegou, sua reação à morte da Vimini, em vez de aliviar uma ferida aberta, pareceu arranhar uma ferida que tinha se curado sozinha. Escrever para ele a respeito dela foi como cruzar a última ponte entre nós, principalmente depois que ficou claro que nunca mais mencionaríamos o que tinha acontecido, nem, aliás, o fato de nunca o mencionarmos. Escrever também foi a maneira que encontrei de contar qual faculdade cursaria nos Estados Unidos, caso meu pai, que mantinha correspondência ativa com todos os hóspedes, não tivesse contado ainda. Ironicamente, Oliver enviou a reposta para meu endereço na Itália — outro motivo para o atraso.

Então vieram os anos em branco. Se eu pontuasse minha vida com as pessoas cuja cama compartilhei, e se elas pudessem ser divididas em duas categorias — antes e depois de Oliver —, o maior presente que a vida poderia me conceder foi o de avançar esse divisor ao longo do tempo. Muitos me ajudaram a dividir a vida entre Antes de X e Depois de X, muitos trouxeram alegria e sofrimento, muitos tiraram minha vida dos eixos, e outros não fizeram a menor diferença. Então Oliver, que durante tanto tempo agigantou-se como um alicerce na escala da vida, com o tempo ganhou sucessores que o eclipsaram ou o reduziram a uma placa no início da viagem, uma bifurcação menor na estrada, um Mercúrio pequeno e ardente em uma jornada em direção a Plutão e além. Imagine só, eu diria: na época em que conheci Oliver, ainda não tinha conhecido fulano e sicrano. E a vida sem fulano e sicrano era simplesmente inimaginável.

Em um verão, nove anos depois da última carta que ele escreveu, eu estava nos Estados Unidos quando recebi uma ligação dos meus pais.

— Você nunca vai adivinhar quem está aqui para passar dois dias conosco. No seu antigo quarto. E bem aqui na minha frente agora.

Eu já tinha adivinhado, é claro, mas fingi que não sabia.

— O fato de você se recusar a dizer que já adivinhou diz muita coisa — continuou meu pai, abafando uma risada antes de se despedir.

Meus pais discutiram sobre quem entregaria o telefone. Finalmente, ouvi a voz dele.

— Elio — disse.

Eu ouvia meus pais e vozes de crianças ao fundo. Ninguém era capaz de dizer meu nome daquele jeito.

— Elio — repeti, para dizer que era eu quem estava falando mas também para relembrar nossa antiga brincadeira e mostrar que eu não tinha me esquecido de nada.

— É o Oliver — falou. Ele tinha esquecido. — Eles me mostraram fotos, você não mudou nada — continuou ele.

Falou sobre os dois filhos que naquele instante estavam brincando na sala com minha mãe, oito e seis, eu precisava conhecer a esposa dele, estou tão feliz por estar aqui, você não faz ideia, não faz ideia. É o lugar mais lindo do mundo, falei, fingindo inferir que ele estava feliz por causa do lugar. Você não sabe como estou feliz por estar aqui. As palavras dele estavam sumindo, ele passou o telefone de volta para minha mãe que, antes de falar comigo, disse algumas palavras carinhosas a ele.

— Ma s’è tutto commosso, ele está comovido — disse ela, finalmente falando comigo.

— Eu queria estar aí com vocês — respondi, me deixando abalar por uma pessoa em quem praticamente eu não pensava mais.

O tempo nos deixa sentimentais. Talvez, no fim, o tempo seja o motivo pelo qual sofremos.

* * *

Quatro anos depois, de passagem pela cidade onde ele lecionava, fiz o incomum. Decidi aparecer. Assisti à aula dele à tarde e, quando acabou, enquanto ele guardava os livros e colocava umas folhas soltas em uma pasta, fui até ele. Eu não pretendia obrigá-lo a adivinhar quem eu era, mas também não ia facilitar as coisas.

Um aluno queria fazer uma pergunta. Então esperei minha vez. O aluno enfim foi embora.

— Você não deve se lembrar de mim — comecei, enquanto ele estreitava os olhos, tentando me reconhecer.

De repente, ficou distante, como se tomado pelo medo de que tivéssemos nos conhecido em algum lugar do qual ele não queria ser lembrado. Assumiu um olhar hesitante, irônico e questionador, um sorriso desconfortável e franzido, como se ensaiasse para dizer Acho que você está me confundindo com outra pessoa. Então, ficou paralisado.

— Meus Deus! Elio!

Foi minha barba que o confundiu, disse ele. Então me abraçou, deu vários tapinhas na minha cara peluda como se eu fosse ainda mais jovem do que naquele verão tão distante. Ele me deu o abraço que não foi capaz de dar naquela noite em que entrou em meu quarto para me contar que ia se casar.

— Quantos anos se passaram?

— Quinze. Contei ontem à noite a caminho daqui. — Em seguida, acrescentei: — Não é verdade. Eu sempre soube.

— Quinze anos, então. Olha só para você! Escuta — acrescentou depois de um instante —, venha tomar alguma coisa com a gente, jantar com a gente, hoje, agora, conhecer minha esposa, meus filhos. Por favor, por favor, por favor.

— Eu adoraria…

— Preciso deixar uma coisa no escritório e podemos ir. É uma ótima caminhada até o estacionamento.

— Você não entendeu. Eu adoraria. Mas não posso.

O “não posso” não queria dizer que eu não estava livre para ir à casa dele, mas que não seria capaz de fazê-lo.

Ele me olhou enquanto ainda guardava os papéis na pasta de couro.

— Você nunca me perdoou, não é?

— Perdoar? Não havia o que perdoar. Seja como for, tenho gratidão por tudo. Só guardei as coisas boas.

Eu ouvira as pessoas dizerem isso nos filmes. Pareciam acreditar.

— Então, por quê? — perguntou ele.

Saímos da sala de aula e fomos para o pátio, onde um longo e lânguido pôr do sol, típico do outono na Costa Leste, lançava luminosas sombras alaranjadas sobre as montanhas.

Como eu poderia explicar a ele, ou a mim mesmo, por que eu não podia ir à sua casa conhecer sua família, embora cada pedaço do meu ser quisesse muito fazer isso? A esposa de Oliver. Os filhos de Oliver. Os animais de estimação de Oliver. O escritório, a mesa, os livros, o mundo, a vida de Oliver. O que eu esperava? Um abraço, um aperto de mão, um olá-companheiro superficial e, em seguida, o inevitável Até depois?

A possibilidade de conhecer a família dele de repente me assustou — real demais, repentina demais, direta demais, suficientemente não ensaiada. Ao longo dos anos, acomodei Oliver no passado permanente, meu amante mais-que-perfeito, coloquei-o no gelo, enchi-o de memórias e bolinhas de naftalina como um ornamento caçado que confabulava com os fantasmas de todas as minhas noites. Tirava o pó de vez em quando e o colocava de volta na prateleira. Ele não pertencia mais à terra ou à vida. Tudo o que eu descobriria àquela altura não seria apenas como os caminhos que tomamos eram distantes; o tamanho da perda é que me atingiria — uma perda na qual eu não me importava de pensar em termos abstratos, mas que machucaria quando a olhasse de frente, do mesmo modo que a nostalgia é capaz de machucar muito tempo depois de pararmos de pensar nas coisas que perdemos e às quais talvez nunca tenhamos dado valor.

Ou será que eu estava com inveja de sua família, da vida que ele tinha construído, das coisas que nunca compartilhei e que jamais poderia saber? Coisas que ele tinha desejado, amado e perdido, cuja perda o destruíra, mas cuja presença em sua vida eu não pude testemunhar e que jamais começaria a entender. Eu não estava lá quando ele as conquistou, não estava lá quando desistiu delas. Ou será que era muito, muito mais simples? Eu tinha vindo para ver se sentiria alguma coisa, se algo ainda estaria vivo. O problema era que eu não queria que estivesse.

Em todos aqueles anos, sempre que eu pensava nele, pensava em B. ou nos últimos dias em Roma, tudo levando a duas cenas: a varanda com todas as suas agonias e a via Santa Maria dell’Anima, onde ele me pressionou contra a parede, me beijou e no fim deixou que eu colocasse uma perna em volta da dele. Sempre que volto a Roma, volto àquele lugar. Ainda está vivo para mim, ainda ressoa como algo totalmente presente, como se um coração roubado de um conto de Poe ainda palpitasse sob o antigo chão de ardósia para me lembrar de que, aqui, finalmente encontrei a vida que era certa para mim, mas que não pude ter. Nunca pensava nele na Nova Inglaterra. Quando morei um tempo lá, a menos de oitenta quilômetros de onde ele morava, ainda o imaginava preso em algum lugar da Itália, irreal e espectral, e os lugares onde ele vivia também pareciam inanimados; assim que tentava pensar neles, também flutuavam e desapareciam, não menos irreais e espectrais. Agora, afinal, não só as cidades da Nova Inglaterra se revelavam bem vivas, mas ele também. Eu poderia facilmente ter me lançado nele anos antes, casado ou não… a menos que fosse eu quem, apesar de todas as aparências, estivesse vivendo uma vida irreal e espectral.

Ou será que eu tinha vindo com um objetivo muito mais baixo? Para encontrá-lo sozinho, esperando por mim, ansiando por ser levado de volta a B.? Sim, nossas vidas no mesmo respirador artificial esperando pelo momento em que finalmente nos encontraríamos e faríamos o caminho de volta ao memorial do Piave.

Então, as palavras saíram de mim:

— A verdade é que não sei se sou capaz de não sentir nada. E, se eu conhecer sua família, prefiro não sentir nada. — Seguiu-se um silêncio dramático. — Talvez nunca tenha superado.

Eu estava falando a verdade? Ou o momento, tenso e delicado como era, estava me fazendo dizer coisas que nunca admiti para mim mesmo e ainda não era capaz de apostar que eram totalmente verdadeiras?

— Talvez nunca tenha superado — repeti.

— Então... — disse ele.

Seu “então” era a única palavra que poderia resumir minha situação complicada. Mas talvez ele quisesse mesmo dizer E daí?, como se questionasse o que poderia ser tão chocante no fato de eu ainda desejá-lo depois de tantos anos.

— Então... — repeti, como se me referisse às dores e tristezas voluntariosas de um terceiro, um exagerado que calhava de ser eu mesmo.

— Então, é por isso que você não pode tomar alguma coisa com a gente?

— Então é por isso que não posso tomar alguma coisa com vocês.

— Que pateta!

Eu tinha me esquecido completamente que ele usava essa palavra.

Chegamos ao escritório de Oliver. Ele me apresentou a dois ou três colegas que estavam no departamento, me surpreendendo ao demonstrar completa familiaridade com cada aspecto da minha carreira. Ele sabia tudo, se manteve a par dos detalhes mais insignificantes. Em alguns casos, deve ter desenterrado informações sobre mim que só poderiam ser obtidas pesquisando na internet. Fiquei comovido. Achava que ele tinha me esquecido completamente.

— Quero mostrar uma coisa — disse ele.

Seu escritório tinha um grande sofá de couro. Sofá do Oliver, pensei. Então é aqui que ele senta para ler. Havia papéis espalhados pelo sofá e pelo chão, a não ser por uma almofada no canto, que ficava sob uma luminária. Luminária do Oliver. Eu me lembrei dos lençóis beirando o chão do seu quarto em B.

— Reconhece isso? — perguntou ele.

Na parede estava o postal emoldurado do penhasco de Monet.

— Era meu, mas passou muito mais tempo com você do que comigo.

Nós éramos um do outro, mas tínhamos passado tanto tempo separados que agora éramos de outras pessoas. Posseiros, nada mais que posseiros, eram os verdadeiros requerentes de nossos corações.

— É uma longa história — falei.

— Eu sei. Quando mandei emoldurar vi as dedicatórias atrás, e é por isso que também é possível ler o verso do cartão agora. Pensei várias vezes nesse tal de Maynard. Pense em mim algum dia.

— Seu predecessor — falei para provocá-lo. — Não, não é nada disso. Para quem você vai dar o postal um dia?

— Eu esperava deixar que um dia um dos meus filhos levasse pessoalmente quando fosse o hóspede do verão. Já acrescentei a minha própria dedicatória… mas você não pode ver. Vai ficar na cidade? — perguntou para mudar de assunto enquanto vestia o casaco.

— Sim. Uma noite. Vou encontrar umas pessoas na universidade e vou embora.

Ele olhou para mim. Eu sabia que ele estava pensando naquela noite durante as férias de fim de ano, e ele sabia que eu sabia.

— Então estou perdoado.

Apertou os lábios em um pedido de desculpas mudo.

— Vamos tomar alguma coisa no meu hotel.

Senti seu desconforto.

— Eu disse tomar alguma coisa, não dar umazinha.

Ele olhou para mim e literalmente corou. Fiquei olhando para ele. Ainda era incrivelmente belo, não tinha perdido cabelo, nem engordado, ainda corria todas as manhãs, disse, a pele tão macia quanto antes. Apenas algumas manchas de sol nas mãos. Manchas de sol, pensei, e não consegui parar de pensar naquilo.

— O que é isso? — perguntei, apontando para sua mão e tocando-a.

— Tenho no corpo todo.

Manchas de sol. Partiram meu coração, e eu queria beijar cada uma delas até sumirem.

— Muito sol na juventude. Além disso, não devia ser tão surpreendente. Estou velho. Em três anos, meu filho vai ter a idade que você tinha naquela época… na verdade, ele está mais próximo da pessoa que você era quando estivemos juntos, do Elio que eu conheci, do que você. Isso, sim, é perturbador.

É assim que você chama, quando estivemos juntos?, pensei.

No bar do hotel na Nova Inglaterra, encontramos um lugar tranquilo com vista para o rio e um grande jardim que estava muito florido naquele mês. Pedimos dois martínis — gin Sapphire, especificou ele — e sentamos próximos um do outro em um banco em formato de ferradura, como dois maridos obrigados a permanecer a uma distância desconfortável um do outro enquanto as esposas usam o toilette.

— Em oito anos, eu terei quarenta e sete e você quarenta. Cinco anos depois, eu terei cinquenta e dois e você quarenta e cinco. Será que depois desse tempo você vai jantar conosco?

— Sim. Prometo.

— Então quer dizer que você só irá quando estiver velho demais para se importar. Vai ser quando meus filhos já tiverem ido embora. Ou quando eu for avô. Já consigo ver a cena… nessa noite, vamos nos sentar juntos e beber um conhaque forte, como a grapa que seu pai costumava servir à noite.

— E falaremos sobre dois jovens que encontraram muita felicidade por algumas semanas e viveram o resto de suas vidas mergulhando cotonetes naquela taça de felicidade, com medo de gastar tudo, sem ousar beber mais do que um dedal em datas comemorativas.

Mas essa coisa que quase nunca aconteceu ainda dá sinais de estar viva, era isso que eu queria dizer. Eles nunca poderão desfazê-la, nunca desescrevê-la, nunca desvivê-la, ou revivê-la… está presa no passado como vaga-lumes ao anoitecer em um campo no verão, que parecem dizer Você poderia ter vivido isso. Voltar é falso. Ir em frente é falso. Desviar o olhar é falso. Tentar corrigir tudo que é falso acaba se revelando tão falso quanto.

Silêncio.

— Meu Deus, como eles nos invejavam do outro lado da mesa de jantar naquela primeira noite em Roma — disse ele. — Nos encarando, os jovens, os velhos, homens, mulheres… cada um deles naquela mesa de jantar… boquiabertos, porque éramos tão sortudos.

— Eles sabiam muito, muito mais do que qualquer um de nós.

— E na noite em que estivermos velhos falaremos sobre aqueles dois jovens como se fossem duas pessoas que conhecemos em um trem, completos estranhos que admiramos e queremos ajudar. E vamos querer chamar de inveja, porque chamar de arrependimento vai partir nossos corações.

Silêncio de novo.

— Talvez eu não esteja pronto para falar deles como se fossem estranhos — afirmei.

— Se vale de alguma coisa, não acho que nenhum de nós estará um dia.

— Acho que precisamos de mais um martíni.

Ele aceitou antes mesmo de dar o fraco argumento de que precisava ir para casa.

Tiramos as introduções do caminho. A vida dele, minha vida, o que ele fazia, o que eu fazia, o bom, o ruim. Onde ele queria estar, onde eu queria. Evitamos nossos pais. Imaginei que ele soubesse. O fato de não ter perguntado me disse que ele sabia.

Uma hora.

— Seu melhor momento? — interrompeu ele finalmente.

Pensei por um instante.

— A primeira noite é a que mais lembro… talvez por ter sido tão atrapalhado. Mas também Roma. Há um lugar na via Santa Maria dell’Anima que visito sempre que estou lá. Fico olhando para ele por um tempo, e de repente tudo volta. Eu havia acabado de vomitar e no caminho de volta para o bar você me beijou. As pessoas passavam por nós, mas eu não me importava, nem você. Aquele beijo ainda está gravado lá, graças a Deus. É tudo que tenho de você. Isso e a camisa.

Ele lembrou.

— E você? — perguntei. — Qual momento?

— Roma também. Nós cantando juntos até o anoitecer na Piazza Navona.

Eu tinha esquecido completamente. Não foi apenas uma canção napolitana que acabamos cantando naquela noite. Um grupo de jovens holandeses tocava violão e cantava uma música dos Beatles atrás da outra, e todos que estavam em volta da fonte principal se juntaram a eles, e nós também. Até Dante apareceu de novo e também cantou com seu inglês capenga.

— Eles fizeram uma serenata para nós ou estou inventando?

Ele me olhou perplexo.

— Eles fizeram uma serenata para você… e você estava completamente bêbado. No fim, pegou o violão de um deles emprestado e começou a tocar “Lascia ch’io pianga”, e depois, do nada, começou a cantar, Deus do céu. Todos ficaram boquiabertos. Todos os drogados do mundo ouvindo Handel como ovelhas. Uma das holandesas enlouqueceu. Você queria levá-la para o nosso hotel. E ela também queria ir. Que noite. Acabamos nos sentando na varanda de um caffè fechado atrás da praça, só você, eu e a garota, assistindo ao nascer do sol, cada um jogado em uma cadeira.

Ele olhou para mim.

— Estou feliz por você ter vindo.

— Também estou feliz por ter vindo.

— Posso fazer uma pergunta?

Por que de repente aquilo começou a me deixar nervoso?

— Manda.

— Você começaria tudo de novo se pudesse?

Olhei para ele.

— Por que está perguntando isso?

— Porque sim. Só responda.

— Se eu começaria tudo de novo se pudesse? Em um piscar de olhos. Mas já bebi dois deste, e estou prestes a pedir o terceiro.

Ele sorriu. Obviamente era minha vez de fazer a mesma pergunta, mas eu não queria constrangê-lo. Aquele era meu Oliver preferido: o que pensava exatamente como eu.

— Ver você aqui é como acordar de um coma de vinte anos. Você olha em volta e descobre que sua esposa o deixou, seus filhos, cuja infância você perdeu por completo, já são homens, alguns casados, seus pais morreram, você não tem amigos, e aquele rostinho olhando para você através dos óculos pertence a ninguém menos que seu neto, que trouxeram para dar as boas-vindas ao vovô que acordou de seu longo sono. Seu rosto no espelho está tão branco quanto o de Rip Van Winkle. Mas tem uma pegadinha: você ainda é vinte anos mais jovem do que os que estão reunidos à sua volta. Então, já que você quase perguntou mas não o fez, como na teoria de Einstein, neste instante, quinze anos depois, posso ter vinte e quatro em um segundo… tenho vinte e quatro. E se avançarmos a parábola alguns anos, poderia acordar e ser mais jovem que meu filho mais velho.

— O que isso diz da vida que você viveu, então?

— Parte dela… só parte… foi um coma… mas prefiro chamar de vida paralela. Soa melhor. O problema é que a maioria de nós tem… ou melhor, vive… mais do que duas vidas paralelas.

Talvez tenha sido por causa do álcool, talvez fosse a verdade, mas senti que devia dizer, porque aquele era o momento para dizer.

— Você é a única pessoa de quem eu gostaria de me despedir quando morrer, porque só assim essa coisa que chamo de vida vai fazer algum sentido. E se eu ficar sabendo que você morreu, a vida como a conheço, o eu que está falando com você agora, vai deixar de existir. O que provavelmente significa que em algum lugar ainda estou esperando alguma coisa. Às vezes tenho a sensação terrível de acordar na casa em B. e, olhando para o mar, ouvir as ondas trazerem a notícia, Ele morreu ontem à noite. Perdemos tanta coisa. Foi um coma. Amanhã vou voltar ao meu coma, e você ao seu. Desculpe, eu não quis ofendê-lo… tenho certeza de que no seu caso não é um coma.

— Não, uma vida paralela.

Talvez toda a tristeza que conheci na vida de repente tenha decidido convergir naquela. Eu precisava lutar contra aquilo. E, se ele não via, provavelmente era porque ele mesmo não era imune.

Casualmente perguntei se ele já tinha lido um romance de Thomas Hardy chamado A bem-amada. Não, não tinha. Sobre um homem que se apaixona por uma mulher que, anos depois de deixá-lo, morre. Ele visita a casa dela e acaba conhecendo sua filha, por quem se apaixona e, depois de perdê-la também, muitos anos depois, encontra a filha dela, mais uma paixão.

— Essas coisas morrem sozinhas ou algumas precisam de gerações e vidas para serem resolvidas?

— Eu não gostaria que meu filho acabasse na sua cama, assim como não gostaria que o seu, se você tivesse um filho, acabasse na cama do meu.

Rimos.

— Me pergunto quanto a nossos pais, no entanto.

Ele pensou por um tempo, então sorriu. Ambos professores universitários, mesma universidade, mesmos anos.

— É uma possibilidade — disse ele.

— O que eu não quero é receber uma carta do seu filho com a má notícia: A propósito, estou enviando o postal emoldurado que meu pai pediu que eu devolvesse a você. Nem quero responder com algo como: Você pode vir quando quiser, tenho certeza de que ele gostaria que ficasse no quarto que era dele. Prometa que isso não vai acontecer.

— Prometo.

— O que você escreveu no verso do postal?

— Era para ser surpresa.

— Estou muito velho para surpresas. Além disso, surpresas sempre vêm com uma ponta afiada para nos ferir. Não quero ser ferido… não por você. Me conte.

— Só duas palavras.

— Vamos ver se adivinho: Se não depois, quando?

— Duas palavras. Além do mais, isso seria cruel.

Pensei por um instante.

— Desisto.

— Cor cordium, coração dos corações. Nunca disse nada mais verdadeiro a ninguém na vida.

Fiquei olhando para ele.

Ainda bem que estávamos em um lugar público.

— É melhor irmos embora.

Ele estendeu o braço para pegar o casaco, que estava dobrado ao seu lado, e começou a se levantar.

Eu o levaria até a entrada do hotel e o veria ir embora. A qualquer momento nos despediríamos. De repente fui pego de surpresa pela violenta constatação de que parte da minha vida seria tirada de mim e nunca mais voltaria.

— Vamos supor que vou acompanhá-lo até o seu carro — falei.

— Vamos supor que você vai jantar conosco.

— Vamos supor que sim.

Do lado de fora, a noite caía depressa. Eu gostava da paz e do silêncio do interior, com o pôr do sol rosado nas montanhas e a vista enigmática do rio. A terra do Oliver, pensei. As luzes mosqueadas do outro lado do rio brilhavam na água, me fazendo lembrar de Noite estrelada sobre o Ródano, de Van Gogh. Bem outonal, bem início do ano letivo, bem veranico e, como sempre no crepúsculo do veranico, a mistura persistente da alegria inacabada do verão e da lição de casa inacabada, e sempre a ilusão dos meses de verão adiante, que acaba assim que o sol se põe.

Tentei imaginar a família dele feliz, os meninos imersos em lição de casa, ou se arrastando depois de um dia pesado de aulas, irritados e mal-humorados, com as botas enlameadas, todos os clichês passando pela minha cabeça. Foi na casa dele que eu fiquei quando morei na Itália, diria ele, seguido dos “aham” rabugentos de dois adolescentes que não podiam ser incomodados pelo homem que veio da Itália, ou pela casa da Itália, mas que ficariam em choque se ouvissem Ah, a propósito, este homem, que na época tinha quase a sua idade e passava a maior parte dos dias transcrevendo As sete últimas palavras do redentor na cruz pela manhã, entrava escondido no meu quarto à noite e nós trepávamos até não aguentar mais. Então cumprimentem-no e sejam educados.

Pensei no caminho de volta, tarde da noite, ao longo do rio iluminado pelas estrelas até este hotel antiquado na Nova Inglaterra, seguindo pela margem que eu esperava que nos fizesse lembrar da baía de B., e das noites estreladas de Van Gogh, da noite em que me juntei a ele na pedra e beijei seu pescoço, e da última noite, quando andamos juntos na estrada, sentindo que não haveria nenhum milagre de última hora para adiar sua partida. Imaginei estar em seu carro me perguntando Quem sabe se eu ia querer, se ele ia querer, talvez uma bebida no bar decidisse, sabendo que, durante todo o jantar naquela noite, ele e eu nos preocuparíamos com a mesma coisa, esperando que pudesse acontecer, rezando para que não acontecesse, talvez uma bebida no bar decidisse… Eu conseguia ler seu rosto enquanto o imaginava desviando o olhar ao abrir uma garrafa de vinho ou trocar a música, porque ele também iria flagrar o pensamento passando pela minha cabeça, e ia querer que eu soubesse que estava debatendo exatamente a mesma coisa, porque, enquanto servia o vinho para a esposa, para mim, para si mesmo, finalmente perceberíamos que ele era mais eu do que eu mesmo tinha sido, porque, quando se tornou eu e eu me tornei ele na cama tantos anos antes, ele foi e para sempre seria, muito depois de cada bifurcação da vida ter feito seu papel, meu irmão, meu amigo, meu pai, meu filho, meu marido, meu amante, meu eu. Nas semanas que passamos juntos naquele verão, nossas vidas mal se tocaram, mas nós atravessamos para o outro lado, onde o tempo para e o céu alcança a terra e nos oferece o que é divinamente nosso desde o nascimento. Desviamos o olhar. Falamos de tudo, exceto disso. Mas sempre soubemos, e não dizer nada agora confirmava ainda mais isso. Encontramos as estrelas, você e eu. E isso só acontece uma vez na vida.

* * *

No verão passado ele finalmente voltou. Foi uma visita de uma noite, no caminho de Roma para Menton. Chegou de táxi pela entrada arborizada, e o carro parou mais ou menos onde tinha parado vinte anos antes. Saltou do carro com o laptop, uma mochila enorme e uma caixa grande embalada, obviamente um presente.

— Para sua mãe — disse ao perceber que eu olhava para a caixa.

— É melhor contar a ela o que tem dentro — falei assim que o ajudei a deixar as coisas no hall de entrada —, ela desconfia de todo mundo.

Ele entendeu. Aquilo o entristeceu.

— Quarto de antes? — perguntei.

— Quarto de antes — confirmou ele, embora já tivéssemos combinado tudo por e-mail.

— Então, quarto de antes.

Eu não estava exatamente ansioso para subir com ele e fiquei aliviado ao ver Manfredi e Mafalda saírem da cozinha para cumprimentá-lo assim que ouviram o táxi chegar. Os abraços e beijos vertiginosos deles dissiparam um pouco do desconforto que eu sabia que sentiria assim que ele se instalasse na nossa casa. Queria que as boas-vindas exageradas durassem ao menos pela primeira hora. Qualquer coisa que evitasse que sentássemos frente a frente para tomar café e finalmente falássemos as duas palavras inevitáveis: Vinte anos.

Em vez disso, deixaríamos as coisas no hall e esperaríamos que Manfredi as levasse para o andar de cima enquanto Oliver e eu caminhávamos rapidamente pela casa.

— Você deve estar ansioso para ver tudo — diria, me referindo ao jardim, à cerca, à vista para o mar.

Passaríamos por trás da piscina, voltando à sala onde o velho piano ficava perto da porta francesa e de onde finalmente voltaríamos ao hall e descobriríamos que de fato suas coisas já haviam sido levadas para o andar de cima. Parte de mim talvez desejasse que ele percebesse que nada tinha mudado desde a última visita, que a orla do paraíso ainda estava ali, e que o portãozinho que levava à praia ainda rangia, que o mundo estava exatamente como ele o deixara, a não ser por Vimini, Anchise e meu pai. Era o gesto de boas-vindas que eu queria oferecer. Mas outra parte de mim queria que ele percebesse que não havia sentido em tentar colocar a conversa em dia… viajamos e passamos por muita coisa sem a presença do outro para que ainda houvesse qualquer coisa em comum entre nós. Talvez eu quisesse que ele sentisse uma pontada de perda, e pesar. Mas, no fim, e como um modo de ceder, talvez, decidi que a maneira mais fácil seria mostrar que eu não tinha me esquecido de nada. Fiz menção de levá-lo ao terreno baldio que seguia tão seco e improdutivo quanto estava duas décadas antes. Mal terminei a oferta.

— Já fizemos isso — respondeu ele.

Era o jeito dele de fazer com que eu soubesse que também não havia esquecido.

— Talvez você prefira dar uma passada rápida no banco.

Ele caiu na gargalhada.

— Aposto que eles nunca fecharam minha conta.

— Se tivermos tempo, e se você quiser, posso levá-lo ao campanário. Sei que nunca foi lá.

— O “de morrer”?

Sorri de volta. Ele se lembrava de como o chamávamos.

Ao atravessarmos o pátio olhando para a imensidão azul à nossa frente, fiquei o observando se debruçar na cerca que dava para a baía.

Lá embaixo estava sua pedra, onde ele ficava sentado à noite, onde ele e Vimini passavam tardes inteiras juntos.

— Ela teria trinta anos — disse ele.

— Eu sei.

— Ela me escrevia todos os dias. Todos.

Oliver estava olhando para o lugar onde eles costumavam sentar. Eu me lembrei de como eles davam as mãos e desciam juntos até a praia.

— Um dia ela parou de escrever. E eu soube. Simplesmente soube. Guardei todas as cartas, sabe.

Olhei para ele com tristeza.

— Guardei as suas também — acrescentou ele imediatamente, para me tranquilizar, embora vagamente, sem saber se aquilo era algo que eu queria ouvir.

Era minha vez.

— Tenho todas as suas também. E outra coisa. Que talvez eu mostre. Depois.

Ele não se lembrava da camisa esvoaçante ou estava sendo modesto demais, cauteloso demais para demonstrar que sabia exatamente do que eu estava falando? Voltou a olhar para o mar.

Tinha vindo no dia certo. Nem uma nuvem, nem uma ondulação, nem um vento mais agitado.

— Eu tinha esquecido o quanto amava este lugar. Mas era exatamente assim que me lembrava dele. Ao meio-dia é o paraíso.

Eu o deixei falar. Era bom ver seus olhos se perderem no mar. Talvez ele também quisesse evitar o cara a cara.

— E Anchise? — perguntou finalmente.

— Nós o perdemos para o câncer, pobre homem. Eu costumava pensar que ele era velho demais. Mas não tinha nem cinquenta anos.

— Ele também amava este lugar… ele, seus enxertos e seu pomar.

— Ele morreu no quarto do meu avô.

Silêncio outra vez. Pensei em acrescentar Meu antigo quarto, mas mudei de ideia.

— Você está feliz por estar de volta?

Ele imediatamente percebeu o que havia por trás da minha pergunta, antes mesmo de mim.

— Você está feliz por eu estar de volta? — devolveu a pergunta.

Olhei para ele, me sentindo completamente desarmado, embora não ameaçado. Como as pessoas que ficam coradas facilmente, mas não têm vergonha disso, eu sabia que não devia sufocar o sentimento, e me deixei ser dominado por ele.

— Você sabe que sim. Mais do que deveria, talvez.

— Eu também.

Isso dizia tudo.

— Venha, vou mostrar onde espalhamos um pouco das cinzas do meu pai.

* * *

Demos a volta e descemos até o jardim onde costumava ficar a mesa do café da manhã.

— Aqui era o canto do meu pai. Chamo de canto-fantasma. Meu canto costumava ser ali, não sei se você lembra.

Apontei para onde minha mesa ficava antes, perto da piscina.

— Eu tinha um canto? — perguntou ele com um meio sorriso.

— Você sempre vai ter um canto.

Eu queria dizer a ele que a piscina, o jardim, a casa, a quadra de tênis, todos os lugares, até o mar eram seus e sempre seriam. Em vez disso, apontei para as portas francesas da varanda do seu antigo quarto. Seus olhos ficarão lá para sempre, eu queria dizer, presos às cortinas transparentes, olhando do meu quarto lá em cima onde hoje ninguém dorme. Quando há uma brisa e elas voam, e eu olho aqui debaixo ou estou na varanda, me pego pensando que você está lá dentro, olhando do seu mundo para o meu mundo, dizendo, como disse naquela noite em que o encontrei na pedra, Sabe, tenho sido feliz em B. Você está a milhares de quilômetros daqui, mas basta eu olhar para essa janela para pensar no calção de banho, na camisa vestida às pressas, e de repente você está ali, debruçado no corrimão, acendendo o primeiro cigarro do dia… vinte anos hoje. Enquanto esta casa estiver em pé, aquele será seu canto-fantasma… e o meu também, eu queria dizer.

Ficamos por alguns segundos no lugar onde um dia meu pai e eu conversamos sobre Oliver. Agora ele e eu estávamos falando sobre meu pai. Amanhã, vou me lembrar desse momento e deixar os fantasmas de suas ausências vaguearem no lusco-fusco.

— Eu sei que ele gostaria que algo assim acontecesse, principalmente em um dia de verão tão lindo.

— Tenho certeza que sim. Onde vocês espalharam o restante das cinzas? — perguntou ele.

— Ah, por toda parte. No Hudson, no Egeu, no Mar Morto. Mas é aqui que venho quando quero estar com ele.

Ele não disse nada. Não havia o que dizer.

— Venha, vou levá-lo à igreja de São Tiago antes que você mude de ideia — falei finalmente. — Ainda temos tempo antes do almoço. Você se lembra do caminho?

— Eu me lembro do caminho.

— Você se lembra do caminho — ressoei.

Ele olhou para mim e sorriu. Isso me deixou animado. Talvez por saber que ele estava me provocando.

Vinte anos atrás foi ontem, e ontem foi esta manhã, e esta manhã parecia a anos-luz de distância.

— Sou como você — disse ele. — Eu me lembro de tudo.

Parei por um instante. Se você se lembra de tudo, eu quis dizer, e se realmente gosta de mim, então antes de ir embora amanhã, ou quando estiver prestes a fechar a porta do táxi e já tiver se despedido de todos os outros e não houver mais nada a ser dito nesta vida, então, só desta vez, vire para mim, ainda que de brincadeira, ou como um adendo que significaria tudo para mim, e, como fez naquela vez, olhe nos meus olhos, sustente meu olhar e me chame pelo seu nome.

Você terminou Me chame pelo seu nome

André Aciman

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.