Me chame pelo seu nome
PARTE 2: O penhasco de Monet
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
PARTE 2
O penhasco de Monet
No final de julho as coisas finalmente vieram à tona. Era óbvio que depois de Chiara houvera uma sucessão de cotte, casos, casinhos, casos de uma só noite, rolos, quem sabe. Para mim tudo se resumia a uma coisa: o pau dele tinha passado por toda B. Todas as garotas tinham tocado aquele pau. Havia entrado em só Deus sabe quantas vaginas, quantas bocas. A imagem me divertia. Nunca me incomodou pensar nele entre as pernas de uma garota, ela deitada olhando para ele, os ombros largos, bronzeados e reluzentes subindo e descendo como eu imaginara naquela tarde em que também coloquei seu travesseiro entre minhas pernas.
O simples fato de olhar para seus ombros quando ele estava no paraíso revisando seu manuscrito me fazia imaginar por onde ele teria andado na noite anterior. Como os movimentos de seus ombros eram livres e espontâneos, como refletiam o sol tão naturalmente. Será que tinham gosto de mar para a mulher que na noite anterior se deitou sob ele e o mordeu? Ou de bronzeador? Ou do cheiro que emanou de seus lençóis quando me deitei neles?
Eu queria muito que meus ombros fossem como os de Oliver. Assim talvez eu não os desejasse.
Muvi star.
Eu queria ser como ele? Eu queria ser ele? Ou só queria tê-lo? Ou “ser” e “ter” são verbos imprecisos no emaranhado do desejo, em que ter o corpo do outro para tocar e ser o outro que desejamos tocar são a mesma coisa, apenas margens opostas de um rio que passa de nós a ele, volta a nós e a ele novamente, em um ciclo sem fim em que as cavidades do coração, como as armadilhas do desejo, os buracos de minhoca do tempo e as gavetas de fundo falso a que chamamos identidade compartilham uma lógica sedutora, segundo a qual a distância mais curta entre a vida real e a não vivida, entre quem nós somos e o que queremos, é uma escada em caracol projetada com a crueldade impiedosa de M. C. Escher. Quando separaram nós dois, Oliver? E por que eu sabia e você não? É o seu corpo que eu quero quando penso em me deitar ao seu lado toda noite ou o que quero é entrar nele e possuí-lo como se fosse meu, do mesmo jeito que fiz quando coloquei seu calção e tirei, o tempo todo desejando como nunca desejei mais nada, sentir você entrando em mim como se meu corpo inteiro fosse seu calção, seu lar? Você em mim, eu em você…
Então chegou o dia. Estávamos no jardim, contei a ele sobre a novela que tinha acabado de ler.
— Sobre o cavaleiro que não sabe se fala ou se morre. Você já me contou.
É claro que eu esqueci que tinha mencionado.
— Isso.
— Bom, e ele fala ou não?
— Ela diz que é melhor falar. Mas fica na defensiva. Sente que há uma armadilha.
— E ele fala?
— Não, ele desconversa.
— Era de se esperar.
Tínhamos acabado de tomar café da manhã. Nenhum dos dois queria trabalhar naquele dia.
— Olha só, preciso buscar uma coisa na cidade.
Uma coisa era sempre as últimas páginas que a tradutora tinha escrito.
— Eu vou, se quiser.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Não. Vamos juntos.
— Agora?
Talvez minha vontade tenha sido dizer “Sério?”.
— Por quê? Tem alguma coisa melhor para fazer?
— Não.
— Então vamos.
Ele colocou algumas páginas na mochila verde muito gasta e a pendurou no ombro.
Desde as últimas idas de bicicleta a B., ele nunca mais tinha me convidado para ir a lugar nenhum com ele.
Larguei a caneta-tinteiro, fechei o caderno, coloquei um copo de limonada pela metade sobre meus papéis e fiquei pronto para sair.
A caminho do galpão, passamos pela garagem.
Como sempre, Manfredi, marido de Mafalda, estava discutindo com Anchise. Dessa vez o acusava de molhar demais os tomates, e que estava tudo errado, porque estavam crescendo rápido demais.
— Vão ficar farinhentos — reclamou.
— Escuta aqui, eu cuido dos tomates, você cuida de dirigir, e todos ficam felizes.
— Você não entende. Na minha época, a gente mudava os tomates de um lugar para outro, deste para outro, e plantava manjericão perto deles. Mas é claro que vocês que estiveram no Exército sabem de tudo.
— Está certo. — Anchise estava ignorando Manfredi.
— É claro que estou certo. Não é de se admirar que o Exército não quis ficar com você.
— Isso mesmo. O Exército não quis ficar comigo.
Os dois nos cumprimentaram. O jardineiro entregou a bicicleta a Oliver.
— Arrumei a roda ontem, deu trabalho. Também enchi os pneus.
O motorista não poderia ter ficado mais irritado.
— De agora em diante, eu conserto as rodas, você cuida dos tomates — disse Manfredi, irritado.
Anchise deu um sorriso irônico. Oliver sorriu de volta.
Quando chegamos à alameda ladeada de ciprestes que levava à estrada principal, perguntei a Oliver:
— Ele não parece um fantasma?
— Quem?
— Anchise.
— Não, por quê? Esses dias caí voltando para a casa e me machuquei feio. Anchise insistiu em passar uma mistura caseira. Ele também consertou a bicicleta para mim.
Mantendo uma das mãos no guidão, ele levantou a camisa e mostrou um ferimento enorme do lado esquerdo do tronco.
— Continuo achando que parece um fantasma — disse, repetindo o veredito da minha tia.
— É só uma alma perdida, na verdade.
Eu teria tocado, acariciado, amado aquele ferimento.
No caminho, notei que Oliver estava curtindo o passeio. Ele não estava com a pressa habitual, não estava correndo, não subia as colinas com o ímpeto atlético de sempre. Nem parecia com pressa para voltar a seu manuscrito, para encontrar seus amigos na praia ou, como costumava acontecer, para me abandonar. Talvez não tivesse nada melhor para fazer. Aquele era meu momento no paraíso e, por mais jovem que fosse, eu sabia que não ia durar e que devia ao menos aproveitá-lo pelo que significava, em vez de estragar tudo tentando consolidar nossa amizade ou levá-la por outro caminho. Nunca haverá uma amizade, pensei, isso não é nada, só um minuto de graça. Zwischen Immer und Nie. Zwischen Immer und Nie. Entre sempre e nunca. Celan.
Quando chegamos à piazzetta com vista para o mar, Oliver parou para comprar cigarros. Ele havia começado a fumar Gauloises. Eu nunca tinha experimentado Gauloises e pedi um. Ele tirou um cerino da caixa, fez uma concha com as mãos bem próximas ao meu rosto e acendeu o cigarro.
— Nada mau, hein?
— Nada mau mesmo.
Os cigarros seriam uma lembrança dele, daquele dia, pensei, me dando conta de que em menos de um mês ele iria embora, sem deixar rastro.
Foi provavelmente a primeira vez que me permiti contar os dias restantes de Oliver em B.
— Olha só para isso — disse ele enquanto passeávamos com as bicicletas até a beira da piazzetta, olhando para as colinas lá embaixo.
Ao longe tínhamos uma vista magnífica do mar com poucas faixas de espuma, que cortavam a enseada como golfinhos gigantes quebrando a rebentação. Um ônibus pequeno subia a colina com três ciclistas uniformizados logo atrás, reclamando da fumaça.
— Você sabe quem supostamente se afogou aqui perto?
— Shelley.
— E sabe o que a esposa dele, Mary, fez quando acharam o corpo?
— Cor cordium, o coração dos corações — respondi, me referindo ao momento em que um amigo tirou o coração de Shelley antes que as chamas tivessem engolido seu corpo inchado durante a cremação na praia.
Por que ele estava me testando?
— Tem alguma coisa que você não saiba?
Olhei para ele. Era meu momento. Eu podia aproveitar ou deixar passar, mas, de qualquer forma, sabia que jamais esqueceria. Ou podia me gabar do elogio — mas passar a vida arrependido de todo o restante. Aquela foi provavelmente a primeira vez que conversei com um adulto sem planejar o que ia dizer. Estava muito nervoso para planejar alguma coisa.
— Não sei de nada, Oliver. Nada, nada mesmo.
— Você sabe mais do que qualquer um aqui.
Por que ele estava respondendo ao meu tom quase trágico com adulação simplória?
— Se você ao menos soubesse quão pouco sei sobre as coisas que realmente importam.
Eu estava me mantendo a salvo, tentando não me afogar nem nadar até a margem, apenas me mantendo no lugar, porque ali estava a verdade… ainda que eu não conseguisse dizê-la, ou mesmo apontar para ela, podia jurar que estava à nossa volta, como um colar que perdemos na água: sei que está por aqui. Se ele soubesse, se ao menos soubesse que eu estava dando todas as oportunidades para que ele somasse dois e dois e chegasse a um número maior que o infinito.
Mas, se ele entendeu, deve ter suspeitado, e, se tivesse suspeitado, chegaria lá sozinho, estaria do outro lado da alameda lançando na minha direção aquele olhar penetrante, hostil, vitrificado, incisivo e onisciente.
Ele devia ter alguma ideia, mas só Deus sabia qual era. Talvez estivesse tentando não parecer surpreso.
— Que coisas importam?
Ele estava se fazendo de desentendido?
— Você sabe que coisas. A essa altura, você deve saber.
Silêncio.
— Por que você está me contando tudo isso?
— Porque achei que você devia saber.
— Porque achou que eu devia saber. — Ele repetiu cada uma das minhas palavras, pensativo, tentando absorver o significado delas enquanto as decifrava e ganhava tempo ao repeti-las.
Eu sabia que aquela seria minha única oportunidade.
— Porque eu quero que você saiba — deixei escapar. — Porque não posso dizer isso a mais ninguém.
Pronto, eu tinha falado.
Aquilo fazia algum sentido?
Eu estava prestes a interromper e desviar a conversa com algum comentário sobre o mar e o clima no dia seguinte, e se seria uma boa ideia velejar até E. como meu pai sempre prometia naquela época do ano.
Mas ele não aliviou.
— Você sabe o que está dizendo?
Dessa vez eu olhei para o mar e, em um tom vago e cansado que era meu último desvio, meu último disfarce, minha última fuga, disse:
— Sim, eu sei o que estou dizendo e você está entendendo tudo. Não sou muito bom de conversa. Mas você não precisa nunca mais falar comigo.
— Espere. Você está dizendo o que eu acho que está dizendo?
— Siiim.
Agora que eu tinha revelado tudo podia relaxar e reunir o fôlego que permite a um criminoso que se entregou à polícia confessar mais uma vez para mais um policial que foi ele quem roubou a loja.
— Me espere aqui. Preciso subir e pegar uns papéis. Não vá embora.
Olhei para ele com um sorriso confiante.
— Você sabe muito bem que não vou a lugar nenhum.
Se isso não é mais uma confissão, o que seria?, pensei.
Enquanto esperava, peguei as duas bicicletas e fui até o memorial dedicado aos jovens da cidade que morreram na Batalha do Piave durante a Primeira Guerra Mundial. Toda cidadezinha da Itália tinha um memorial como aquele. Dois ônibus pequenos haviam acabado de parar ali perto, e os passageiros estavam descendo — mulheres mais velhas que vinham dos vilarejos próximos para fazer compras. Em volta da pequena praça, idosos, quase todos homens, estavam sentados em cadeiras frágeis de palha ou nos bancos, usando ternos velhos e desbotados. Fiquei imaginando quantas pessoas ali ainda se lembravam dos jovens que haviam perdido no rio Piave. Era preciso estar com no mínimo oitenta anos para tê-los conhecido. E pelo menos cem, se não mais, para que fossem mais velhos que eles à época. Aos cem anos, com certeza já aprendemos a superar a perda e o sofrimento — ou será que eles nos perseguem até o amargo fim? Aos cem anos, irmãos esquecem, filhos esquecem, entes queridos esquecem, ninguém se lembra de nada, até os mais desolados se esquecem de lembrar. Mães e pais já terão morrido há tempos. Alguém se lembrará?
Um pensamento me ocorreu: Meus descendentes saberiam o que foi falado nesta piazzetta hoje? Alguém saberia? Ou as palavras se dissolveriam no ar, como parte de mim desejava que acontecesse? Saberiam que o destino estava prestes a mudar neste dia nesta piazzetta? A ideia me agradou e ofereceu a distância necessária para encarar o restante do dia.
Em trinta, quarenta anos, voltarei aqui e pensarei na conversa que sabia que nunca esqueceria, por mais que talvez um dia quisesse. Voltaria com minha esposa, meus filhos, mostraria a eles a vista, apontaria para a enseada, os caffès, o Le Danzing, o Grand Hotel. Então viria até aqui e pediria à estátua, às cadeiras de palha e às mesas bambas de madeira que me fizessem lembrar de alguém chamado Oliver.
Quando voltou, a primeira coisa que ele disse foi:
— A idiota da Milani misturou as páginas e vai ter que datilografar tudo de novo. Então não tenho no que trabalhar hoje à tarde, e isso vai me atrasar um dia inteiro.
Era a vez dele de arranjar desculpas para se esquivar do assunto. Eu deixaria passar tranquilamente se ele quisesse. Poderíamos falar sobre o mar, o Piave, ou Heráclito: “Procurei-me a mim mesmo.” Ou: “A harmonia oculta é superior à aparente.” Ou: “A natureza ama esconder-se.” E ainda tinha a viagem a E. sobre a qual falávamos havia dias. E também o conjunto de música de câmara que chegaria a qualquer momento.
No caminho, passamos por uma loja onde minha mãe costumava encomendar flores. Quando criança, eu gostava de assistir à vitrine imensa ser inundada por uma cortina de água que descia com delicadeza, dando à loja uma aura misteriosa e encantada que me fazia lembrar dos filmes nos quais a imagem saía de foco para anunciar um flashback prestes a acontecer.
— Eu queria não ter dito nada — falei, por fim.
Logo que falei soube que tinha quebrado o frágil feitiço que havia entre nós.
— Vou fingir que você não disse — continuou ele.
Bom, aquela era uma atitude que eu jamais esperaria de um homem que parecia tão à vontade com o mundo. Nunca tinha ouvido uma frase como aquela na nossa casa.
— Isso quer dizer que voltamos a conversar… mas não de verdade?
Ele pensou um pouco.
— Olha só, não podemos falar sobre essas coisas. Não podemos mesmo.
Ele mudou a mochila de ombro e começamos a descer a colina.
Quinze minutos antes eu estava em completa agonia, cada terminação nervosa, cada emoção despedaçada, pisoteada, golpeada como no pilão de Mafalda, todas pulverizadas até que não desse mais para diferenciar medo de raiva, de desejo puro e simples. Mas, naquele momento, havia algo no horizonte. Agora que tínhamos colocado as cartas na mesa, o segredo e a vergonha haviam desaparecido, mas com eles também havia sumido qualquer traço de esperança tácita que vinha mantendo tudo aquilo vivo nas últimas semanas.
Apenas o cenário e o tempo podiam balizar meu humor agora. Assim como o passeio juntos na estrada vazia, que era só nossa naquela hora do dia e onde o sol começava a bater, destacando remendos pelo caminho. Eu disse a ele para me seguir, que mostraria um lugar que a maioria dos turistas nunca viu.
— Se você tiver tempo — completei, sem querer ser insistente desta vez.
— Eu tenho tempo.
Havia um tom descompromissado em sua voz, como se ele tivesse achado graça do cuidado excessivo das minhas palavras. Mas talvez fosse apenas uma pequena concessão para compensar o fato de não discutirmos o assunto em questão.
Saímos da estrada principal e fomos em direção à beira do penhasco.
— Aqui — disse, como se fosse um prefácio para manter o interesse dele vivo — é onde Monet costumava pintar.
Palmeiras minúsculas e atrofiadas e oliveiras nodosas decoravam o pequeno bosque. Depois das árvores, em um aclive que levava até a beira do penhasco, ficava o cimo parcialmente sombreado por altos pinheiros-bravos. Encostei a bicicleta em uma das árvores, ele fez o mesmo, e então mostrei o caminho até o penhasco.
— Olhe isso — falei, extremamente satisfeito, como se revelasse algo mais eloquente do que qualquer coisa que pudesse dizer a meu favor.
Havia uma enseada silenciosa lá embaixo. Nem sinal de civilização por perto, nenhuma casa, nenhum píer, nenhum barco. A distância, como sempre, dava para ver o campanário de São Tiago e, se estreitássemos os olhos, o contorno de N. e, mais além, algo que parecia nossa casa e as villas próximas, da família de Vimini, dos Moreschi, cujas duas filhas provavelmente já tinham dormido com Oliver, separadas ou juntas, quem poderia saber, quem ligava àquela altura.
— É meu lugar preferido. Todo meu. Venho aqui para ler. Nem sei dizer quantos livros já li aqui.
— Você gosta de ficar sozinho? — perguntou ele.
— Não. Ninguém gosta de ficar sozinho. Mas aprendi a conviver com a solidão.
— Você é sempre sábio assim?
Estava prestes a adotar um tom professoral, paternalista e a se juntar a todos os outros que achavam que eu precisava sair mais, fazer mais amigos e, tendo mais amigos, não ser tão egoísta com eles? Ou seria uma introdução a seu papel de psicólogo e amigo da família? Ou mais uma vez eu estava me precipitando quanto a sua atitude?
— Não sou nem um pouco sábio. Já disse, não sei de nada. Conheço livros, e sei como concatenar palavras… isso não quer dizer que eu saiba falar sobre as coisas que mais importam para mim.
— Mas você está fazendo isso agora… de certa forma.
— Sim, de certa forma… é assim que sempre digo as coisas: de certa forma.
Com o olhar distante para não encará-lo, sentei na grama e percebi que ele estava agachado a alguns metros de mim, como se a qualquer momento fosse se levantar e voltar para onde tínhamos deixado as bicicletas.
Nunca imaginei que o tinha trazido até ali não só para mostrar meu mundo a ele, mas para pedir ao meu mundo que o deixasse entrar, para que o lugar onde eu vinha para ficar sozinho nas tardes de verão o conhecesse, o julgasse, para ver se ele se encaixava, para que o lugar o absorvesse, para que então eu pudesse voltar a ele e lembrar. Aqui eu viria para fugir do mundo conhecido e encontrar outro que eu mesmo tinha inventado; estava apresentando Oliver à minha plataforma de lançamento. Eu só precisava listar as obras que tinha lido ali e ele saberia todos os lugares para os quais eu tinha viajado.
— Eu gosto da forma como você diz as coisas. Por que você sempre se diminui?
Dei de ombros. Oliver estava me criticando por eu me criticar?
— Não sei. Para que você não faça isso, talvez.
— Você tem medo do que os outros pensam?
Balancei a cabeça. Mas não respondi. Ou talvez a resposta fosse tão óbvia que eu não precisava responder. Eram momentos como esse que faziam eu me sentir tão vulnerável, tão exposto. Você me provoca, me deixa nervoso e, se eu não revidar, você já me expôs. Não, eu não tinha o que dizer em resposta. Mas também não saí do lugar. Meu impulso era deixar que ele voltasse para casa sozinho. Eu chegaria a tempo para o almoço.
Oliver esperava que eu dissesse alguma coisa. Estava me encarando.
Aquela, acho, foi a primeira vez que ousei encará-lo de volta. Eu costumava lançar um olhar e desviá-lo… desviava o olhar porque não queria nadar na bela e límpida lagoa de seus olhos a não ser que fosse convidado… e nunca tinha esperado tempo suficiente para saber se era bem-vindo ali; desviava o olhar porque tinha medo demais para encarar qualquer pessoa de volta; desviava o olhar porque não queria revelar nada; desviava o olhar porque não podia reconhecer como ele era importante para mim. Desviava porque aquele olhar penetrante sempre me fazia pensar em como ele era superior e no quanto eu estava abaixo dele. Ali, no silêncio do momento, encarei-o de volta, não para desafiá-lo ou para mostrar que não tinha mais timidez, mas para me render, para dizer a ele que esse sou eu, esse é você, isso é o que eu quero, não há nada além da verdade entre nós agora, e onde há verdade não há barreiras, não há olhares desviados e, se nada acontecer, que jamais seja porque algum de nós não estava ciente das possibilidades. Eu não tinha qualquer esperança. E talvez o tenha encarado de volta porque não havia nada a perder. Encarei-o de volta com um olhar consciente de desafio-você-a-me-beijar, alguém que desafia e foge com o mesmo e único gesto.
— Você está dificultando muito as coisas para mim.
Será que ele estava se referindo aos nossos olhares?
Não recuei. Nem ele. Sim, ele estava se referindo aos nossos olhares.
— Por que estou dificultando as coisas?
Meu coração começou a bater tão rápido que eu mal conseguia manter um discurso coerente. Nem sentia vergonha de mostrar o quanto estava corado. Deixe que ele saiba, deixe.
— Por que seria muito errado.
— Seria?
Então existia um fio de esperança?
Ele se sentou na grama, então deitou de costas, com os braços embaixo da cabeça, olhando para o céu.
— Sim, seria. Não vou fingir que não passou pela minha cabeça.
— Eu seria o último a saber.
— Bem, passou. Pronto! O que você achou que estava acontecendo?
— Acontecendo? — balbuciei uma pergunta. — Nada. — Pensei um pouco mais. — Nada — repeti, como se o que eu estava começando a entender fosse tão amorfo que poderia facilmente ser desconsiderado pelo “nada” que eu repetia, preenchendo os momentos insuportáveis do silêncio. — Nada.
— Entendi — respondeu Oliver. — Você entendeu errado, meu amigo… — Havia certo tom de censura condescendente em sua voz. — Se vale de alguma coisa, eu tenho que me segurar. Está na hora de você aprender também.
— O melhor que posso fazer é fingir que não ligo.
— Isso já está claro há um bom tempo — rebateu ele.
Fiquei arrasado. Todas aquelas vezes que pensei que o estava insultando ao deixar claro o quanto era fácil ignorá-lo no jardim, na sacada, na praia, ele nunca se deixou enganar e viu claramente minha jogada irritadiça e óbvia.
Aquela confissão, que parecia abrir todas as comportas que existiam entre nós, foi exatamente o que afogou todas as minhas esperanças. Para onde ir agora? O que mais havia para dizer? E o que aconteceria da próxima vez que fingíssemos não conversar, mas não tivéssemos mais certeza de que a frieza entre nós era falsa?
Falamos um pouco mais, até que a conversa acabou. Agora que tínhamos colocado as cartas na mesa, era hora de jogar conversa fora.
— Então Monet vinha aqui pintar?
— Vou mostrar para você lá em casa. Temos um livro com reproduções incríveis dessa área.
— Sim, você tem que me mostrar.
Ele estava fazendo o papel de paternalista. Eu odiava.
Apoiados em um braço só, ficamos admirando a vista.
— Você é o garoto mais sortudo do mundo — disse ele.
— Você não sabe nem a metade.
Deixei que ele refletisse sobre minha declaração. Então, talvez para preencher o silêncio que estava ficando insuportável, soltei:
— Mas tem tanta coisa errada aqui…
— O quê? Sua família?
— Isso também.
— Passar o verão todo aqui, lendo sozinho, participando das labutas prandiais que seu pai propõe em todas as refeições?
Ele estava tirando sarro de mim de novo.
Sorri. Não, também não era isso.
Ele parou por um instante.
— Você está falando de nós.
Não respondi.
— Vejamos, então…
E antes que eu percebesse, ele veio na minha direção. Estávamos perto demais, pensei, nunca estive tão perto dele a não ser em um sonho ou quando ele colocou as mãos em concha para acender meu cigarro. Se aproximasse um pouco mais o ouvido, poderia ouvir meu coração. Eu tinha lido aquilo em romances, mas nunca acreditei até aquele momento. Ele ficou olhando diretamente para mim, como se gostasse do meu rosto e quisesse estudá-lo, gravá-lo, então tocou meu lábio inferior com o dedo e o percorreu da esquerda para a direita e da direita para a esquerda várias vezes enquanto eu estava ali deitado, vendo-o sorrir de um jeito que me fazia temer qualquer coisa que pudesse acontecer porque não teria volta, aquele era seu jeito de pedir, e aquela era minha chance de dizer não ou de dizer algo e ganhar tempo para discutir mais a questão comigo mesmo, agora que havíamos chegado a esse ponto… mas eu não tinha mais tempo, porque ele aproximou os lábios dos meus, em um beijo terno, conciliatório, encontro-você-no-meio-do-caminho-mas-não-além, até perceber o quanto os meus estavam famintos. Gostaria de saber calibrar meu beijo como ele. Mas a paixão nos permite esconder mais e, naquele momento no penhasco de Monet, se queria esconder alguma coisa sobre mim naquele beijo, eu também estava desesperado para me perder nele, como quando desejamos que o chão se abra sob nossos pés e nos engula.
— Melhor agora? — perguntou ele.
Não respondi, mas levantei o rosto e o beijei mais uma vez, um beijo quase selvagem, não porque eu estivesse cheio de paixão ou porque não tivesse encontrado no primeiro o fervor que procurava, mas porque não tinha certeza de que nosso beijo tivesse me convencido de qualquer coisa sobre mim. Nem tinha certeza de que havia gostado tanto quanto esperava gostar, e precisava testar de novo. Mesmo no ato em si, ao que parece, eu preciso testar o teste. Em minha mente surgiam os pensamentos mais mundanos. Tanta negação?, teria comentado um discípulo menor de Freud. Tentei sanar minha dúvida com mais um beijo violento. Eu não queria paixão. Não queria prazer. Talvez nem mesmo quisesse provas. E não queria palavras, conversas bobas, conversas importantes, conversas sobre bicicletas, sobre livros, nada disso. Só o sol, a grama, a brisa do mar e o cheiro do seu corpo emanando de seu peito, seu pescoço, suas axilas. Apenas me pegue e me molde, me vire do avesso, até que, como um personagem de Ovídio, eu e sua luxúria sejamos um só, era isso que eu queria. Coloque em mim uma venda, segure minha mão e não me peça para pensar — você pode fazer isso por mim?
Eu não sabia aonde tudo aquilo levaria, mas estava me entregando a ele, centímetro a centímetro, e Oliver devia saber, porque senti que ele ainda mantinha certa distância entre nós. Embora nossos rostos se tocassem, os corpos estavam distantes. Eu sabia que qualquer coisa que fizesse agora, qualquer movimento poderia desfazer a harmonia do momento. Então, imaginando que provavelmente não haveria outro beijo, comecei a testar a eventual separação de nossas bocas e descobri, ao fazer menção de terminar o beijo, o quanto não queria parar, o quanto queria a língua dele na minha boca e a minha na dele — porque, após todas aquelas semanas e todas as discussões e todos os conflitos que sempre me causavam arrepio, tudo o que havíamos nos tornado eram duas línguas movendo-se na boca um do outro. Apenas duas línguas, o restante era conversa. Quando, finalmente, levantei um joelho e me mexi para virar de frente para ele, soube que tinha quebrado o feitiço.
— É melhor a gente ir.
— Ainda não.
— Não podemos fazer isso… eu me conheço. Até agora nós nos comportamos. Ninguém fez nada de que possa se envergonhar. Vamos manter as coisas assim. Quero me comportar.
— Não se comporte. Eu não ligo. Quem vai saber?
Em um movimento desesperado do qual eu sabia que jamais esqueceria se ele não cedesse, me aproximei e deixei que minha mão pousasse em sua genitália. Ele não se mexeu. Eu devia deslizar a mão para dentro do calção, pensei. Ele deve ter lido meus pensamentos pois, com total compostura, em um gesto ao mesmo tempo muito gentil e também glacial, levou a mão até lá e a deixou pousada sobre a minha por um segundo, e então, entrelaçando os dedos nos meus, ergueu a minha mão.
Um momento de silêncio insuportável se instalou entre nós.
— Eu ofendi você?
— Não faça isso.
Aquilo soou um pouco como o Até depois! na primeira vez que ouvi, semanas antes — mordaz, direto e monótono, sem sinal da alegria ou da paixão que tínhamos acabado de compartilhar. Oliver me deu a mão e me ajudou a levantar.
Ele se contorceu de repente.
Lembrei do machucado na lateral do tronco.
— Preciso cuidar disso para que não infeccione — disse ele.
— Vamos parar na farmácia no caminho.
Ele não respondeu. Mas era a coisa mais sensata que poderíamos ter dito. Permitia que o mundo real se intrometesse em nossas vidas — Anchise, a bicicleta remendada, a briga por causa dos tomates, a partitura deixada de qualquer jeito sob o copo de limonada, tudo aquilo parecia tão distante.
Enquanto nos distanciávamos do meu lugar preferido, vimos duas vans de turistas indo em direção a N. Devia ser quase meio-dia.
— Nunca mais vamos conversar — falei enquanto descíamos a ladeira infinita, o vento em nossos cabelos.
— Não diga isso.
— Eu tenho certeza. Vamos falar do dia, do sol, do vento. Só isso. E o engraçado é que eu acho que aguento.
— Rimou — disse ele.
Eu amava aquela irreverência.
Duas horas depois, durante o almoço, tive todas as provas necessárias de que não aguentaria.
Antes da sobremesa, enquanto Mafalda tirava os pratos e todos estavam envolvidos em uma conversa sobre Jacopone da Todi, senti um pé casualmente roçar o meu.
Pensei que, no penhasco, eu devia ter aproveitado a chance de sentir se a pele do pé de Oliver era tão macia quanto eu imaginava. Agora aquilo era o máximo que eu conseguiria.
Talvez tenha sido o meu pé que tocou o dele. Que recuou, não no mesmo instante, mas rápido o suficiente, como se tivesse esperado conscientemente o intervalo de tempo apropriado para não dar a impressão de ter recuado em pânico. Também esperei mais alguns segundos e, sem planejar meus movimentos, permiti que meu pé procurasse pelo outro. Mal tinha começado a busca quando meu dedão de repente atingiu o pé dele; Oliver quase não tinha se afastado, como um navio pirata que dá todos os sinais de ter fugido para longe, mas na verdade está se escondendo na névoa a não mais do que cinquenta metros, esperando para atacar assim que tiver chance. Mal tive tempo de fazer algo com o pé e, sem aviso, sem me dar um tempo para que eu fosse até ele ou deixasse meu pé descansar a uma distância segura, de súbito, suave e gentilmente, o pé dele veio até o meu e começou a acariciá-lo, massageá-lo, sem parar um segundo, o calcanhar redondo e macio imobilizando meu pé, às vezes o pressionando, mas aliviando o peso em seguida com mais carinho dos dedos, o que indicava, o tempo todo, que aquilo era mera diversão, porque era o modo que ele tinha encontrado de desafiar todas as pessoas à mesa, mas ao mesmo tempo de deixar claro que não tinha nada a ver com os outros e que ficaria só entre nós, porque só dizia respeito a nós dois, mas eu não devia levar a sério demais. O sigilo e a teimosia de suas carícias fizeram meu corpo se arrepiar. Fui tomado por uma vertigem súbita. Não, eu não ia chorar, não se tratava de um ataque de pânico, era um “desfalecimento”, e eu também não ia gozar no meu calção, embora estivesse gostando muito, muito, principalmente quando o arco do pé dele se encaixou sobre o meu. Quando olhei para o meu prato de sobremesa e vi o bolo de chocolate coberto com calda de framboesa, parecia que alguém estava derramando mais calda do que o normal, e que a calda vinha do teto, até que de repente percebi que estava vindo do meu nariz. Respirei fundo, amassei o guardanapo e o levei até o nariz, jogando a cabeça para trás o máximo que podia.
— Ghiaccio, gelo, Mafalda, per favore, presto — eu disse calmamente, para demonstrar que estava no controle da situação. — Fui até o penhasco hoje de manhã. Isso sempre acontece — continuei, me desculpando com os convidados.
Ouvi uma confusão de sons apressados conforme as pessoas entravam e saíam da sala de jantar. Eu tinha fechado os olhos. Controle-se, dizia a mim mesmo, controle-se. Não deixe que seu corpo revele tudo.
* * *
— A culpa foi minha? — perguntou ele ao entrar no meu quarto depois do almoço.
Não respondi.
— Sou todo errado, não sou?
Ele sorriu e não disse nada.
— Sente um pouco.
Ele sentou na ponta da cama. Tinha ido visitar um amigo hospitalizado que se feriu em um acidente enquanto caçava.
— Você vai ficar bem?
— Eu achei que estivesse. Vou superar.
Eu ouvira muitos personagens dizerem a mesma coisa em muitos romances. Libertava o amado fugidio das amarras. Permitia que todos se redimissem. Restaurava a dignidade e a coragem daquele cujo disfarce havia sido totalmente revelado.
— Vou deixar você dormir — disse ele, como se fosse uma enfermeira cuidadosa.
Enquanto saía, acrescentou:
— Vou ficar por aqui — disse, talvez do modo como as pessoas falam “vou deixar a luz acesa para você”. — Comporte-se.
Enquanto eu tentava cochilar, vinha à minha mente o incidente na piazzetta — perdido entre o memorial da Batalha do Piave, o passeio até o penhasco, o medo e a vergonha e sabe-se lá mais o quê me pressionando —, e parecia ser de verões e eras passadas, como se eu tivesse pedalado até a piazzetta quando era um garotinho antes da Primeira Guerra Mundial e retornado de lá como um soldado de noventa anos, aleijado e confinado a um quarto que nem era meu, porque o meu havia sido emprestado a um jovem que era a luz dos meus olhos.
A luz dos meus olhos, eu disse, luz dos meus olhos, luz do mundo, é isso que você é, luz da minha vida. Eu não sabia o que luz dos meus olhos queria dizer, e parte de mim se perguntava de onde eu tinha tirado aquilo, mas eram coisas bobas como essa que traziam lágrimas aos meus olhos, lágrimas que eu queria afogar em seu travesseiro, em seu calção, lágrimas que eu queria que ele tocasse com a ponta da língua, para afastar minha tristeza.
Eu não entendia por que ele tinha colocado o pé no meu. Seria uma jogada ou um gesto bem-intencionado de solidariedade e camaradagem, como aquele abraço-massagem, uma cutucada leve entre amantes que não dormem mais juntos, mas que decidiram permanecer amigos e às vezes vão ao cinema? Queria dizer Eu não esqueci, isso sempre ficará entre nós, mesmo que não dê em nada?
Eu queria fugir de casa. Queria que já fosse o próximo outono e eu estivesse o mais longe possível dali. Queria deixar a cidade com seu Le Danzing idiota e sua juventude idiota com quem ninguém sequer gostaria de fazer amizade. Deixar meus pais, meus primos e meu sobrinho que sempre competiam comigo e aqueles hóspedes horrorosos de verão com seus projetos acadêmicos obscuros que sempre monopolizavam todos os banheiros do meu lado da casa.
O que aconteceria se eu o visse novamente? Eu sangraria, choraria, gozaria no calção? E se o visse com outra pessoa, como costumava andar à noite perto do Le Danzing? E se, em vez de uma mulher, fosse um homem?
Eu devia aprender a evitá-lo, cortar cada laço, um a um, como neurocirurgiões quando separam um neurônio do outro, um desejo atormentado do outro, parar de voltar ao jardim, parar de espiá-lo, parar de ir à cidade à noite, me desligar um pouco a cada dia, como um viciado, um dia, uma hora, um minuto, um segundo melado após o outro. Era possível. Eu sabia que não havia futuro naquilo. Supondo que ele viesse ao meu quarto hoje à noite. Melhor ainda, supondo que eu bebesse demais e fosse ao quarto dele e dissesse a verdade nua e crua em sua cara, Oliver: quero que você me possua, Oliver. Alguém precisa fazer isso, e pode muito bem ser você. Correção: Eu quero que seja você. Vou tentar não ser a pior transa da sua vida. Faça comigo exatamente o que faria com alguém que espera não ver mais. Sei que não soa nada romântico, mas estou preso a tantos nós que preciso de um tratamento górdio. Acabe logo com isso.
Transaríamos. Então eu voltaria ao meu quarto para me limpar. Depois disso, eu é que colocaria o pé sobre o dele de vez em quando, para ver se ele ia gostar.
Esse era meu plano. Era como eu planejava me livrar daquele vício. Esperaria que todos fossem dormir. Que a luz do quarto dele se apagasse. Entraria em seus aposentos pela sacada.
Toc, toc. Não, sem bater à porta. Eu tinha certeza de que ele dormia nu. E se ele não estivesse sozinho? Eu ficaria ouvindo da sacada antes de entrar. Se houvesse alguém com ele e fosse tarde demais para não ser percebido, bateria em retirada, dizendo: “Ops, quarto errado.” Sim: Ops, quarto errado. Um toque de leveza para livrar minha cara. E se ele estivesse sozinho? Eu entraria. De pijama. Não, só com o short do pijama. Sou eu, diria. O que está fazendo aqui? Não consigo dormir. Quer que eu pegue uma bebida? Não é de bebida que eu preciso. Finalmente cheguei ao ponto de ter coragem de vir do meu quarto até o seu. Foi por sua causa que eu vim. Agora eu sei. Não dificulte as coisas, não fale, não me dê motivos e não aja como se fosse gritar pedindo ajuda a qualquer momento. Sou muito mais novo, e você pareceria um bobo se fizesse soar o alarme da casa e ameaçasse contar à minha mãe. E na mesma hora eu tiraria o short do pijama e deitaria em sua cama. Se ele não me tocasse, então eu o tocaria, se ele não reagisse, então eu deixaria que minha boca fosse a lugares onde nunca esteve antes. Aquelas meras palavras já me divertiam. Melação intergaláctica. Minha estrela de davi, sua estrela de davi, nossos pescoços como um só, dois judeus circuncidados unidos desde tempos imemoriais. Se nada disso funcionasse, eu avançaria sobre ele, que resistiria, lutaríamos, e eu faria de tudo para excitá-lo quando ele me prendesse, envolveria seu corpo com minhas pernas como uma mulher, mesmo machucando o quadril que ele feriu na queda da bicicleta, e se tudo isso não funcionasse cometeria a indignidade derradeira, e com essa indignidade mostraria que a vergonha é toda dele, não minha, que eu vim trazendo a verdade e a gentileza humana em meu coração e que as estava deixando em seus lençóis para lembrá-lo de como tinha dito não a um jovem que implorava pela comunhão. Negar uma coisa dessas devia garantir passagem direta para o inferno.
E se ele não gostasse de mim? Dizem que à noite todos os gatos… E se ele não gostar de nada disso? Vai ter que experimentar, então. E se ele ficar muito transtornado e ofendido? “Saia daqui seu merdinha infeliz.” O beijo era prova suficiente de que poderia acontecer. E o que dizer do pé? Amor ch’a null’amato amar perdona.
O pé. A última vez que alguém causou uma reação como aquela em mim não foi quando ele me beijou, mas quando pressionou meu ombro com o dedo.
Não, houve mais uma vez. Enquanto eu dormia, quando ele entrou no meu quarto e deitou em cima de mim, e eu fingi estar dormindo. Mais uma correção: enquanto dormia suspirei muito levemente, só o bastante para dizer não vá, pode continuar, só não diga Eu sabia.
* * *
Quando acordei naquela tarde, senti um desejo intenso por iogurte. Memórias da infância. Fui até a cozinha e encontrei Mafalda guardando preguiçosamente a louça que fora lavada horas antes. Ela também devia ter cochilado e acabado de acordar. Vi um pêssego grande na fruteira e comecei a descascá-lo.
— Faccio io — disse ela, tentando tirar a faca da minha mão.
— No, no, faccio da me — respondi, tentando não ofendê-la.
Eu queria abri-lo ao meio e cortar os pedaços em pedaços menores, e então esses pedaços em ainda menores. Até virarem átomos. Terapia. Então peguei uma banana, descasquei devagar e comecei a cortar fatias finíssimas, que depois piquei. Então um damasco. Uma pera. Tâmaras. Então peguei a embalagem grande de iogurte na geladeira e despejei o conteúdo e as frutas picadas no liquidificador. Finalmente, para obter um pouco mais de cor, alguns morangos frescos colhidos do jardim. Eu amava o ronronar do liquidificador.
Não era uma sobremesa com que Mafalda estivesse familiarizada, mas ainda assim permitiria que eu fizesse as coisas do meu jeito na sua cozinha, sem interferir, como se cedesse a alguém que já havia se magoado demais. A desgraçada sabia. Ela deve ter visto o pé. Seus olhos me seguiam a cada passo como se estivessem prontos para arrancar a faca da minha mão antes que eu cortasse os pulsos.
Depois de bater minha mistura, despejei-a em um copo grande, joguei um canudo como se fosse um dardo e fui para o pátio. No caminho, entrei na sala e peguei o livro com as reproduções de Monet. Coloquei-o em um banquinho perto da escada. Eu não ia mostrar o livro para ele. Ia apenas deixar ali. Ele saberia.
No pátio, vi minha mãe bebendo chá com duas irmãs que tinham vindo de S. jogar cartas. A quarta jogadora chegaria a qualquer momento.
Nos fundos, vindo da garagem, eu ouvia o motorista discutir sobre jogadores de futebol com Manfredi.
Segurando minha bebida, fui até o limite do pátio, peguei uma espreguiçadeira e, de frente para a cerca, tentei aproveitar a última meia hora de pleno sol. Gostava de ficar sentado assistindo ao dia se espalhar na luz pré-crepuscular. O fim da tarde era bom para um último mergulho, mas também para ler.
Eu gostava de me sentir tão descansado. Talvez os antigos estivessem certos: não faz mal sangrar de vez em quando. Se eu continuasse me sentindo assim, depois talvez tentasse tocar um ou dois prelúdios e fugas, talvez uma fantasia de Brahms. Tomei mais um pouco de iogurte e coloquei a perna na cadeira ao lado da minha.
Demorei um tempo para perceber que estava forçando uma postura.
Eu queria que ele voltasse e me encontrasse super-relaxado. Mal sabia o que eu estava planejando para aquela noite.
— O Oliver está por aí? — perguntei, virando para minha mãe.
— Ele não saiu?
Não respondi nada. “Vou ficar por aqui”, aham.
Depois de um tempo, Mafalda veio buscar o copo vazio. Vuoi un altro di questi, eu queria mais um desses?, pareceu perguntar, como se estivesse se referindo a uma mistura estranha cujo nome estrangeiro, não italiano, se é que havia um, ela não estava interessada em saber.
— Não, acho que vou sair.
— Mas para onde a uma hora dessa? — perguntou ela, referindo-se ao jantar. — Principalmente depois do que aconteceu no almoço. Mi preoccupo, fico preocupada.
— Vou ficar bem.
— Eu não aconselho.
— Não se preocupe.
— Signora — gritou ela, tentando angariar o apoio da minha mãe.
Ela concordou que era uma má ideia.
— Então vou nadar.
Qualquer coisa que não fosse ficar contando as horas até a noite.
No meio da escada a caminho da praia, encontrei um grupo de amigos. Estavam jogando vôlei na areia. Se eu queria me juntar a eles? Não, obrigado, andei me sentindo meio mal. Deixei-os e andei em direção à grande pedra, olhei para ela por um tempo e depois para o mar, que parecia lançar um raio de luz solar bem na minha direção, como uma pintura de Monet. Entrei na água quente. Eu não estava infeliz. Queria estar com alguém. Mas não me incomodava estar sozinho.
Vimini, que devia ter vindo com um dos outros, disse que tinha ouvido que eu não estava bem.
— Nós, doentes... — começou.
— Você sabe onde o Oliver está? — perguntei.
— Não sei. Achei que ele tinha ido pescar com Anchise.
— Com Anchise? Ele é louco! Quase morreu na última vez.
Nenhuma resposta. Ela desviava o olhar do sol se pondo.
— Você gosta dele, não gosta?
— Sim — respondi.
— Ele também gosta de você… mais do que você dele, eu acho.
Era essa a impressão que ela tinha?
Não, era do Oliver.
Quando ele tinha dito aquilo?
Havia um tempo.
Correspondia à época em que quase não estávamos nos falando. Até minha mãe me chamou para conversar e sugeriu que eu fosse mais educado com nosso kaiboy — eu andava entrando e saindo sem nem cumprimentar, indelicado.
— Acho que ele está certo — disse Vimini.
Dei de ombros. Nunca havia encontrado contradições tão poderosas. Era uma agonia, algo que parecia raiva estava surgindo dentro de mim. Tentei acalmar a mente e pensar no pôr do sol diante de nós, como as pessoas que estão prestes a passar por um polígrafo gostam de visualizar uma paisagem serena e plácida para disfarçar sua agitação. Mas também estava me obrigando a pensar em outras coisas porque não queria tocar ou mesmo gastar qualquer pensamento que tivesse a ver com aquela noite. Pode ser que ele diga não, pode ser até mesmo que decida ir embora da nossa casa e, se pressionado, explicar por quê. Eu só permitia que minha imaginação fosse até esse ponto.
Um pensamento terrível me ocorreu. E se, neste momento, entre alguns dos amigos que tinha feito na cidade, ou entre as pessoas que insistiam em convidá-lo para jantar, ele deixasse escapar, ou simplesmente sugerisse o que tinha acontecido durante nosso passeio de bicicleta? No lugar dele, será que eu seria capaz de manter segredo? Não.
Ainda assim, ele tinha sinalizado que aquilo que eu queria podia ser dado e tirado com muita naturalidade, de modo que era possível se perguntar por que seriam necessárias tanta tormenta e vergonha, uma vez que não era algo mais complicado do que, digamos, comprar um maço de cigarros, passar o baseado, ou parar tarde da noite diante de alguma das garotas atrás da piazzetta e, depois de combinar um preço, subir por alguns minutos.
Quando voltei depois de nadar, ainda não havia nem sinal dele. Perguntei por Oliver. Não, ele não tinha voltado. A bicicleta estava no mesmo lugar onde a tínhamos deixado antes do meio-dia. E Anchise estava de volta fazia horas. Fui até o meu quarto e, pela varanda, tentei entrar no quarto dele. As portas estavam fechadas. Tudo o que vi pelo vidro foi o calção que ele tinha usado no almoço.