Meio quilo de gente: um estudo sobre o ultrassom obstétrico
Prefácio
Este livro baseia-se na tese de doutorado de sua autora, Lilian Krakowski Chazan, defendida no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Trabalho de grande qualidade e envergadura, sofreu necessárias adaptações para o formato livro. Não perdeu, entretanto, o brilhantismo que o destacou como uma das melhores teses defendidas no IMS nos últimos anos.
Vinda de uma longa experiência como psicanalista, Lilian soube transformar sua escuta analítica em cuidadosa e sensível observação etnográfica. Uma 'conversão' tão bem-sucedida que nos perguntamos o quanto de talento etnográfico se faz necessário para a boa performance analítica...
A autora foi a campo perguntando-se como um punhado de borrões acinzentados transforma-se em um 'neném'. Como esses borrões se transformam, para quem se transformam e (talvez o mais difícil) por que se transformam? Esta pergunta levou-a a áreas de investigação e produção teórica diversificadas e razoavelmente complexas, dentre as quais destacam-se, de um lado, a questão da visualidade no mundo contemporâneo e, de outro, a medicalização e o controle do corpo da mulher, em especial da gestante. Sem poder se deter de forma mais aprofundada na complexidade dos diversos campos que necessariamente percorreu, Lilian nos apresenta seu percurso de forma sucinta, mas nem por isso menos esclarecedora. Aprendemos na leitura de seu trabalho que o horror causado pela visão do interior do corpo humano transformou-se paulatinamente em fascínio, processo que a autora busca desvendar.
Sendo este um trabalho essencialmente antropológico, seu foco está, como não poderia deixar de ser, na etnografia. E sendo um trabalho antropológico de qualidade, sua força está no modo como sustenta uma análise extremamente competente que, ao mesmo tempo, se baseia na etnografia e a supera, suscitando questões cruciais acerca da reconfiguração da Pessoa no mundo contemporâneo. Esse incessante trabalho da antropologia, que vai da experiência etnográfica singular à busca de uma teorização universalizante, já apontada por Luiz Fernando Duarte como o dilema da 'universalização romântica', está presente de forma exemplar no texto de Lilian.
Texto cuja relevância é dupla. Em primeiro lugar, relevância pedagógica: é uma ótima demonstração do fazer antropológico – o delineamento de um objeto de pesquisa, a busca de bases teóricas de discussão, o campo e sua metodologia, a análise que volta às bases teóricas apresentadas. Em segundo lugar, relevância propriamente científica: apresenta-nos a primeira etnografia brasileira acerca da ultra-sonografia fetal (ou mesmo a ultra-sonografia de um modo geral). Apesar de se restringir à observação de clínicas particulares freqüentadas por gestantes de camadas médias e altas, o interesse científico permanece pelas possibilidades comparativas abertas e pelo pioneirismo da investigação.
Na sua introdução, Lilian fala em "reconfiguração da gravidez e da noção de Pessoa". Já faz algum tempo que a barriga da gestante deixou de ser opaca. Há apenas vinte ou trinta anos, o nascimento de uma criança envolvia sempre uma boa dose de surpresa: acerca da criança em si (se tinha os cinco dedos previstos em cada mão e pé, isto é, se tinha alguma má-formação) e, sobretudo, acerca da pergunta fundamental – menino ou menina? Havia casos de gestações gemelares que passavam indetectadas até o momento do parto. A gravidez era uma experiência vivenciada pela mulher, de forma mais ou menos solitária, o 'bebê' existindo basicamente mediante suas sensações. A opacidade da barriga foi aos poucos sendo vencida. Hoje em dia, a ultra-sonografia em 3D fornece uma 'fotografia' do futuro bebê ainda na barriga da mãe, que passa a fazer parte do álbum da criança. O neném é uma Pessoa bem antes de nascer. E, segundo as observações da autora, necessariamente é uma pessoa de um determinado gênero. Dizendo de forma mais simples: o neném só é pessoa se é menino ou menina – o que se define a partir de sua genitália. Em meio aos borrões acinzentados, a visualização ou não de um 'piruzinho' terá um conjunto de conseqüências que vão desde uma barulhenta comemoração do pai pelos corredores da clínica, como se fosse um artilheiro de futebol que acabou de marcar um gol, até a determinação das cores das roupinhas, do quarto, passando pela construção de uma certa subjetividade do futuro ente. O que Lilian percebeu na sua etnografia é que, apesar de todos os avanços e da ampla difusão de um discurso acerca da igualdade entre homens e mulheres, sobretudo entre as camadas médias urbanas, as concepções acerca das diferenças entre os 'sexos' permanecem extremamente polarizadas, demarcando com sua força a construção de Pessoas inapelavelmente masculinas ou femininas. A tão discutida imbricação entre sexo e gênero opera a todo o vapor, constituindo as expectativas de pais e familiares e, por este meio, construindo a experiência da criança ainda por nascer.
A riqueza dos dados colhidos torna difícil escolher, dentre as temáticas tratadas, as mais relevantes. Mas, sem dúvida, um dos achados mais originais de Lilian foi seu insight acerca da produção do 'prazer de ver' as imagens fetais. Qual o sentido, ela nos pergunta, desse deslumbramento pelo conjunto de manchas acinzentadas?
Para chegar a essa pergunta, e tentar respondê-la, foi necessário, antes de mais nada, delinear o modo como, no decorrer das próprias sessões de ultrasonografia, os 'borrões acinzentados' são transformados em um 'neném'. Lilian buscou capturar essa transformação em ação, ou seja, o processo mesmo de produção do 'neném' por meio da ação e do discurso dos médicos, mas também da cooperação ativa da gestante e de seus parceiros. Estes são ensinados a ver, mas além da pedagogia mais explícita, cria-se neles o 'desejo' de ver. E eles voltam ao ultra-sonografista, com uma freqüência cada vez maior, e cada vez menos justificável do ponto de vista estritamente médico, para 'ver seu neném'.
Bem mais que um relato sobre ultra-sonografia fetal em mulheres de camadas médias do Rio de Janeiro, o livro de Lilian propõe uma reflexão refinada sobre o papel da tecnologia médica na (re)definição do corpo e da própria realidade em que vivemos. Em um mundo em que a intervenção médica é cada vez mais mediada por uma tecnologia vista como desumanizante e promotora de uma visão fragmentada do ser humano, a ultra-sonografia fetal é, ao contrário, uma espécie de tecnologia humanizadora e totalizante – no sentido de produzir um ser humano inteiro onde antes não havia. É assim que o feto – transformado em criança, com vontade, personalidade e jeito de ser próprios – destaca-se do corpo da mãe, fenômeno que tem implicações éticas importantíssimas. De fato, o surgimento do feto como sujeito moral, político e jurídico tem conseqüências para a noção moderna de Pessoa ainda difíceis de serem avaliadas. Abrindo mão de respostas fáceis, o livro de Lilian Krakowski Chazan dirige nossa reflexão para um conjunto de questões em torno da medicalização e da difusão das biotecnologias sobre as quais ainda há muito o que pensar, revelando-se um livro muito bom para ler, mas sobretudo muito bom para pensar, como queria a autora.
Jane Araujo Russo
Doutora em antropologia social, com pós-doutorado na École des
Hautes Étudesen Sciences Sociales, Paris, França, professora
adjunta do Instituto de Medicina Social (IMS/Uerj)