Meio quilo de gente: um estudo sobre o ultrassom obstétrico

Lilian Krakowski Chazan · Capítulo 2 de 11

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Meio quilo de gente: um estudo sobre o ultrassom obstétrico

Apresentação

 

Como sombras cinzentas são transformadas em

'bebês'?

Quem quer que se lembre da impressão despertada ao ver pela primeira vez as sombras cinzentas das imagens de uma ultra-sonografia obstétrica é capaz de compreender as perguntas centrais deste livro: como e por que imagens tão estranhas tornaram-se objeto de apreciação, culto e desejo.

A idéia de realizar esta etnografia como tese de doutorado e que resultou no presente livro derivou diretamente da pesquisa desenvolvida para o mestrado, no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Naquela investigação, procurei compreender, de um ponto de vista estritamente teórico, o processo de construção do feto como objeto de interesse médico e social gerando um fenômeno intrigante: a expansão da ultra-sonografia obstétrica, bem como os diversos sentidos por ela adquiridos para além de sua utilização diagnóstica (Chazan, 2000).

A partir de fins da década de 1980, o ultra-som aplicado à gravidez se tornou uma prática médica considerada indispensável no acompanhamento das gestações. Ao longo da década de 1990, na América do Norte e na Europa, produziu-se uma série de estudos antropológicos acerca das práticas e dos significados da expansão acelerada do uso do ultra-som na gravidez. Pesquisou-se o uso político dessas imagens no contexto da discussão sobre os direitos reprodutivos, a construção do feto como Pessoa mediada pela tecnologia, a produção do feto como detentor de 'direitos civis', a 'invisibilidade' do corpo feminino no decorrer da gestação, transformando o feto 'visível' em um ser destacado do corpo da

gestante, entre diversas outras questões.1 A revisão desses estudos sobre ultra-sonografia mostrou, dos mais variados ângulos e de maneira recorrente, a importância das especificidades culturais locais na produção dos entendimentos acerca do ultra-som.

A inexistência de pesquisa similar no contexto brasileiro foi o estímulo necessário para empreender uma etnografia no Rio de Janeiro. A proposta desse tipo de investigação se caracteriza por ir além de uma mera descrição do que se passa no dia-a-dia. Uma abordagem etnográfica implica necessariamente uma observação do material empírico baseada em alguns pressupostos teóricos; desse modo, trata-se de um olhar informado por esses pressupostos. No trabalho de campo, busquei observar e compreender de que maneira os diferentes atores lidavam, em termos de discursos e práticas, com a ultra-sonografia obstétrica. A pesquisa foi focada nas negociações ocorridas em torno das imagens fetais durante os exames de ultra-som, um dos motivos pelos quais optei por não realizar entrevistas com as gestantes. O objetivo principal consistia em captar nas atitudes e falas espontâneas – tanto quanto é possível com a presença de uma observadora tomando notas – como eram significadas as imagens. Nesse sentido, portanto, as entrevistas pouco teriam a acrescentar.

A observação foi realizada ao longo do ano de 2003 e compreendeu três clínicas privadas. A proposta inicial consistia em investigar como se passava, em um determinado universo, a construção do feto como Pessoa mediada pela ultra-sonografia. A pesquisa empírica iniciou-se calcada nos estudos sobre a visualidade, mas de imediato algumas peculiaridades da prática da ultrasonografia chamaram a atenção. Gradualmente foi ficando evidente que o ponto central da questão estava em outro lugar, consistindo na produção do prazer de ver as imagens fetais – a rigor, sombras cinzentas, indistintas e fugazes na tela do monitor do aparelho de ultra-som. A expressão prática do fato de este ser um prazer construído socialmente se encontrava no modo como o ultra-som obstétrico se expandiu em determinados grupos sociais, cujo sentido tornou-se um dos focos principais da investigação. Ao encerrar a pesquisa teórica, ficou delineada uma série de hipóteses que o material etnográfico forneceu elementos para elaborar.

As imagens fetais parecem ser um ponto de articulação de numerosas vertentes, dentre as quais sublinho aqui apenas algumas. Uma delas diz respeito à importância da visualidade que, apoiada na tecnologia, ao longo do século XX constituiu-se em um dos modos principais de se lidar com o mundo. Outras questões consistem na medicalização e no controle da gravidez e do corpo da mulher, na discussão bioética sobre o começo da vida humana, no modo como a visualidade incide na construção do corpo e no conhecimento confiável biomédico, no estudo semiótico das transformações dos ecos em imagens – e destas em 'bebês' – e na própria reconfiguração da Pessoa, na atualidade permeada pelos mais diversos tipos de interação entre o sujeito e a tecnologia (Chazan, 2001, 2002a, 2002b).

Em todas as sociedades humanas, a concepção de novos seres e seu nascimento é objeto de atenção e de construção de significados. Nunca será demais sublinhar que tal produção é sempre histórica, política, cultural e socialmente determinada, e que as acepções produzidas são modeladas e estão delimitadas por esses fatores, em um movimento de realimentação dinâmica. Por esse prisma, a perspectiva adotada neste livro é, portanto, de estudo do que se considera um caso particular desse tópico: o modo pelo qual as imagens fetais obtidas por meio do ultra-som vêm contribuindo para a reconfiguração da gravidez e da noção de Pessoa em um determinado segmento social no Rio de Janeiro.

Trata-se, por conseguinte, de uma 'metabusca', 2 na medida em que se procura aqui compreender qual seria o sentido dessa forma particular – medicalizada, visual – de um determinado grupo significar e construir socialmente a gestação e o surgimento de novos seres.

Este é um estudo crítico na medida em que pretende encontrar, por meio de um esgarçamento da trama de uma prática amplamente difundida e de certa forma naturalizada na sociedade em que vivemos – a realização de ultrasonografias obstétricas –, um significado mais amplo e aprofundado das condições que propiciaram a construção de tal fenômeno, assim como de suas articulações internas. Eventualmente o termo 'crítica' contém uma acepção de 'ataque'. Não se trata aqui nem de um ataque à tecnologia – o que seria, acima de tudo, anacrônico e ingênuo – nem de uma apologia. Pretendi, sobretudo, desenvolver uma reflexão sobre algo que nos parece 'dado'; busquei, portanto, por meio de desconstruções e de indagações, promover um questionamento sobre um fenômeno específico esperando, no máximo, que esta leitura seja, parafraseando Lévi-Strauss, 'boa para pensar'.

Se é possível pensar em uma linha mestra que una os aspectos aparentemente díspares do segmento teórico deste livro, esse fio consiste em compreender o processo que desembocou no deslumbramento produzido na atualidade pelas imagens fetais e, principalmente, qual o sentido desse fascínio.

 

Os caminhos da pesquisa e a estrutura do livro

Muitas vezes, insistir diretamente no porquê de uma determinada questão torna-se um exercício estéril. No entanto, ao se buscar entender o como freqüentemente acaba-se encontrando pelo meio do caminho o porquê procurado, imbricado no para quê. E, de fato, o próprio caminho da pesquisa apontou questões que não se apresentavam quando foram feitas as primeiras indagações, pois tanto a investigação teórica quanto o trabalho de campo reorientaram as perguntas e o foco iniciais, trazendo algumas respostas e – como não poderia deixar de ser, para o bem e para o mal – inúmeras novas perguntas.

No que concerne ao encaminhamento da pesquisa teórica, considerando tratar-se de um estudo envolvendo uma tecnologia de imagem médica, imagens fetais, mulheres grávidas e acompanhantes, assim como profissionais médicos, utilizei dois eixos-mestres para a construção do raciocínio. O primeiro é um aspecto que abrange e ultrapassa o tema específico da investigação. Trata-se da visualidade ou, em outros termos, da construção do olhar e do observador modernos que, em conjunto com as tecnologias de imagem, vem também reconfigurando noções sobre corpo e Pessoa, em uma via de mão dupla. O segundo eixo de raciocínio, buscando compreender de que modo o feto emergiu como objeto de escrutínio visual, aborda o processo de medicalização da gravidez e do parto, que se encontra inscrito em uma questão também mais ampla, envolvendo a medicalização social – nos termos de Michel Foucault (1998c): a tradução, em termos biomédicos, dos mais variados aspectos e etapas da vida. Desde a primeira abordagem do tema, ainda bem no início da pesquisa na pós-graduação, os dois aspectos apareciam de modo recorrente. A etnografia evidenciou as articulações existentes entre os dois eixos teóricos escolhidos, de modo dinâmico, vivo e, por vezes, surpreendente.

O projeto inicial, como sói acontecer, revelou-se amplo demais em seu escopo no início do trabalho de campo. A princípio, eu pretendia desenvolver um estudo comparando a prática da ultra-sonografia obstétrica em um hospital público, um hospital universitário e uma clínica particular. A observação foi iniciada por esta última, e o motivo da escolha deveu-se a uma conjunção um tanto aleatória de fatores, que envolviam o tempo de que eu dispunha para a observação, a facilidade de deslocamento e a de contato com alguns ultrasonografistas que atuavam na área privada.

No decorrer dos três primeiros meses do trabalho de campo percebi a necessidade de redimensionamento do escopo da pesquisa, em virtude de ter verificado que, dada a riqueza do material etnográfico, se fosse seguido o projeto original, o número de variáveis em jogo tornaria a análise inviável no tempo disponível para a pesquisa. Contudo, mais importante do que este aspecto operacional, um dos fatores que mais pesaram na decisão de mudar o rumo da pesquisa consistiu no fato de que a observação na primeira clínica evidenciou algumas peculiaridades muito interessantes na realização da ultra-sonografia obstétrica.

A principal delas foi a existência de uma interatividade constante entre o profissional e a clientela, inexistente em outras tecnologias de imageamento médico. Surgiram perguntas acerca de aspectos idiossincráticos do operador da aparelhagem e da construção de uma cultura visual específica dos atores do universo observado, temas que me pareceram fascinantes e merecedores de uma investigação mais aprofundada. Daí o trabalho de campo ter sido redirecionado para a observação de mais duas clínicas privadas que atendiam gestantes de diferentes estratos das camadas médias da população. A estratégia de restrição do escopo da investigação possibilitou um refinamento na observação de aspectos relativos à interação entre profissionais, gestantes e acompanhantes e permitiu, ainda, um aprimoramento na distinção entre o que era devido a singularidades de cada profissional e o que era uma característica genérica desse universo.

Por meio de observação participante, procurei captar de que maneira as imagens fetais eram apropriadas, negociadas e significadas conjuntamente por profissionais da saúde, gestantes e parceiros. Desse modo, entre outros aspectos, busquei contribuir para a discussão sobre o tema da construção do feto como Pessoa, mediada pela tecnologia de imagem; e procurei ainda compreender os discursos e as práticas dos sujeitos envolvidos nessa produção. Mais precisamente, tratou-se de observar e analisar, etnograficamente, de que modo o feto era percebido e significado pelos atores presentes no decorrer da realização da ultra-sonografia obstétrica. Busquei no conjunto de observações, em especial nos discursos e atitudes de ultra-sonografistas, gestantes e acompanhantes, recorrências e regularidades a partir das quais fosse possível esclarecer como se produzia esse constructo. Tratei o conjunto como constituindo um compósito, construído pelo amálgama das diversas falas, considerando essa polifonia esclarecedora dos pressupostos subjacentes à construção do feto como Pessoa no universo observado. Por este motivo, na apresentação das vinhetas do campo utilizo 'G' para designar de modo genérico todas as gestantes, e 'P' para seus parceiros. Pelo fato de ser o feto o foco principal da atenção dos atores, os parentes presentes também foram referidos genericamente por sua relação de parentesco com ele. Outro motivo para estas designações foi de ordem ética, visando à manutenção do anonimato de meus etnografados – motivo pelo qual também todos os nomes presentes no livro são fictícios, exceto o meu, claro.

Organizei o material sob rubricas distintas, correspondentes aos temas mais recorrentes surgidos no campo ao longo do tempo da observação, dos quais os capítulos da etnografia se ocupam. Trata-se necessariamente de uma redução diante da infinidade de assuntos que se articulam nos discursos e práticas da ultra-sonografia obstétrica. Optei deliberadamente por apresentar o material etnográfico com um mínimo de edição nas falas do material de campo, mantendo gírias, eventuais erros de concordância e contrações verbais. Com esse procedimento – mesmo que incorrendo no risco de críticas por apresentálo desse modo quase bruto – procurei preservar, tanto quanto possível, a vivacidade e a espontaneidade das falas dos atores. Em algumas ocasiões, os exemplos apresentados o foram de modo extenso, com o intuito de situar e contextualizar algum ponto específico abordado no texto; por vezes, um mesmo caso, mais denso de significados, foi retomado e analisado por ângulos distintos em diferentes capítulos.

Um aspecto freqüente ao longo da etnografia consistiu em situações um tanto cômicas – e sublinho esse ponto para deixar claro que, ao descrever ou reproduzir diálogos e/ou situações por vezes muito engraçados, não pretendi em momento algum ridicularizar os atores do universo observado. Penso que o humor, voluntário ou involuntário, consiste em uma forma bastante eficaz de se lidar com situações potencialmente causadoras de ansiedade e preocupação – como era o caso de exames em que se buscava, por princípio, ter certeza de que fetos e gestantes gozavam de boas condições de saúde. O fato de tais emoções nem sempre serem explicitadas, no decorrer dos exames ultrasonográficos, não significava que estivessem ausentes. Por outra vertente, o humor que se encontra esparso ao longo do texto, por ser capaz de produzir um distanciamento analítico do material, foi utilizado deliberadamente.

A estrutura do livro, como um todo, assemelha-se de certo modo à tecnologia de imagem que lhe é central. A ultra-sonografia produz imagens de cortes do corpo que, trabalhadas por um sistema computacional, apresentam-no de modo bidimensional. Dependendo do grau de sofisticação desse sistema, a recomposição por meio de computação gráfica produz imagens que parecem tridimensionais. A analogia consiste em considerar que os eixos escolhidos para abordar a cultura visual e os desdobramentos produzidos e/ou permitidos pelo ultra-som obstétrico, em conjunto com a etnografia, corresponderiam aos cortes; as conclusões equivaleriam à produção final de uma ultra-sonografia que constrói a imagem virtual de uma situação concreta e complexa – no caso do ultra-som, a existência do feto; no caso do livro, a de um fenômeno que, por sua complexidade, só pode ser alcançado de modo fragmentário.

O primeiro capítulo delineia, do ponto de vista teórico, um panorama do campo que permita alguma compreensão sobre os desdobramentos ocorridos com o ultra-som obstétrico, tratando especialmente de dois tipos de construção. Para situar o lugar e o papel desempenhados na cultura por uma tecnologia visual médica, tornava-se necessário buscar uma compreensão sobre a construção do olhar e, em especial, do lugar ocupado pelas tecnologias de imagem nesse olhar. Assim, uma questão dizia respeito a como se constituiu a visualidade tal como a vivemos na atualidade, e de que modo ela veio ocupar esse lugar de destaque em relação aos outros quatro sentidos na produção de 'verdades', na sociedade ocidental contemporânea. Outra questão, relacionada à primeira, consistia em como e por que a imagem técnica médica adquiriu o grau de credibilidade que hoje detém.

O segundo eixo de investigação teórica envolveu a exploração do tema da construção da gravidez e do parto como assuntos médicos e de que modo esse tipo de constructo configurou a construção social do feto. A constituição da obstetrícia médica como campo profissional transformou a gravidez e o parto em 'patologias potenciais', e ao longo da segunda metade do século XX entrelaçaram-se a reforma da profissão obstétrica e as diferentes concepções acerca da gestação e do parto, que contribuíram de modo relevante para a construção do feto como Pessoa. Muito longe de pretender construir uma história da medicina ou da obstetrícia, visei apenas esboçar um pano de fundo com elementos que permitissem entender como uma tecnologia de imagem atingiu um determinado e específico status dentre as tecnologias de acompanhamento pré-natal. No processo de consolidação da obstetrícia como pertencente ao campo da biomedicina, as diversas tecnologias de 'diagnóstico' e acompanhamento da gravidez desempenharam um papel de grande importância. Delineio neste capítulo algumas das intervenções tecnológicas na gestação, com foco especial na ultra-sonografia.

O segundo capítulo traz uma revisão dos estudos antropológicos produzidos no exterior na década de 1990 sobre o tema. Estes enfatizavam o quanto os aspectos culturais vigentes no campo delimitavam e modelavam a maneira como a tecnologia de ultra-som era apropriada, significada e manipulada pelos atores nela envolvidos. Incluir essa revisão teve como objetivo estabelecer uma base comparativa para o estudo etnográfico desenvolvido nos capítulos subseqüentes.

No capítulo 3 introduzo a etnografia, discutindo a minha entrada no campo e as diversas questões relativas ao fato de, sendo graduada em medicina, buscar uma abordagem antropológica em ambiente médico. Existiram vantagens e desvantagens relacionadas com essa dupla identidade, pois se, por um lado, ser médica abriu portas por meio de contatos pessoais e profissionais, por outro essa formação prévia por vezes dificultava o estranhamento e o distanciamento antropológicos indispensáveis à tarefa à qual me propunha: produzir um trabalho etnográfico.

A especialidade à qual me dedicava – basicamente psicanálise, proveniente de anos iniciais em psiquiatria – também emergiu como uma questão a problematizar, embora não tão significativa quanto a primeira. No que concerne a esta segunda questão, a multiplicidade da identidade profissional se revelou também com dupla face, oferecendo prós e contras, tanto na interação com os profissionais quanto na elaboração da escrita etnográfica. No contato com os profissionais, notei que por vezes evocava neles sentimentos um tanto persecutórios, enunciados de modo jocoso: "O que que ela vai pensar da gente? Que somos um bando de doidos!" Em outras ocasiões, entretanto, fui brindada com confidências dos médicos que demonstravam a confiança deles em mim e estreitaram laços de sociabilidade, com resultados bastante produtivos para a pesquisa.

Quanto à escrita, do mesmo modo, houve aspectos duplos: existiu uma preocupação epistemológica em não misturar os referenciais teóricos da antropologia e da psicanálise, embora por vezes os – inevitáveis – olhar, escuta e compreensão psicanalítica tenham sido ferramentas úteis para a observação no campo. Percebi, por exemplo, que a oscilação entre a imersão no campo e o distanciamento antropológico – imprescindível para essa abordagem – guardava estreita similaridade com a dinâmica do trabalho de escuta psicanalítica. Nesse sentido, a formação e o treinamento em psicanálise mostraram-se bastante proveitosos para a construção da etnografia. Toda essa discussão pareceu-me mandatória para estabelecer o(s) ponto(s) de vista a partir do(s) qual(is) foi produzido o material etnográfico. A divisão e o modo de apresentação da etnografia nos quatro capítulos subseqüentes, baseados nas recorrências que me chamaram a atenção no decorrer da observação, implicitamente evidenciam a abordagem analítica que foi dispensada ao material empírico.

No capítulo 4, trato do tema que foi responsável pela mudança de rumo da etnografia: a interatividade característica da tecnologia de ultra-som em geral. A ultra-sonografia obstétrica leva ao limite esse aspecto interacional e de intimidade, em contraste com o exame ultra-sonográfico de outras partes do corpo, como fígado, rim, músculo esquelético, por exemplo.

Em primeiro lugar, a ultra-sonografia é – no dizer dos próprios profissionais – uma tecnologia 'operador-dependente', na medida em que é um procedimento dinâmico no qual, em tempo real, o médico busca as imagens de estruturas corporais com base nas informações visuais que vai obtendo e decodificando ao longo do próprio exame. Acrescente-se ainda que nesse tipo de prática existe um contato físico, inexistente em outras tecnologias de imagem, entre o profissional e o sujeito examinado. Esse contato entre ultrasonografista e cliente é mediado pelo transdutor do ultra-som que ou desliza diretamente sobre um gel que é espalhado sobre a região do corpo a ser examinada ou, protegido por preservativos descartáveis, é introduzido em cavidades corporais – no caso do

ultra-som obstétrico, a vagina da mulher. 3

Em segundo lugar, o médico, em virtude de o objeto principal do exame ser o feto, entra necessariamente em contato com uma gama de aspectos interpessoais – aí incluídas demandas e ansiedades manifestadas explicitamente tanto pela gestante como pelos acompanhantes ali presentes – muito mais ampla do que nos outros tipos de exames de ultra-som. O atendimento e a compreensão – ou não – dessas demandas estabelecem diferenças marcantes no renome que os especialistas em ultra-sonografia obstétrica adquirem entre a clientela atendida.

No capítulo 5, exponho a produção de 'verdades' médicas e não-médicas a partir das imagens ultra-sonográficas, uma atividade que tem como pedra basilar o que designei por 'mito da objetividade da imagem técnica', discutindo também de que modo este mito opera no campo observado. Para minha surpresa, talvez ingênua, observei que os profissionais especialistas em imagem mostravam-se bastante cientes do aspecto subjetivo necessariamente presente na área de imagem técnica médica, relativizando a 'verdade' produzida apenas pelas imagens, em contraste com as expectativas do público leigo e de especialistas de outras áreas da medicina. Analiso as implicações dessa produção de variadas verdades e algumas das conseqüências e vicissitudes relacionadas à existência do mito da objetividade, assim como os seus desdobramentos na cultura em geral e nas práticas médicas em particular.

O capítulo 6 é dedicado à investigação da questão talvez mais marcante em termos de seu alcance cultural e que parece ser uma característica do universo observado, em contraste com outros países: a expansão da ultrasonografia como espetáculo e objeto de consumo em si. O aspecto 'consumo', envolvido na prática de ultra-som, é um elemento fundamental para a construção e a articulação de três questões distintas, embora inter-relacionadas. Por meio da espetacularização e do consumo das imagens fetais são produzidas, simultaneamente, uma cultura visual específica e uma estetização das imagens fetais, e por meio deste modo de apropriação do exame pelos atores envolvidos, um reforço do panopticismo envolvendo a gravidez e o feto. Os três elementos, em um movimento de realimentação positiva, aprofundam e servem como combustível para a medicalização da gravidez. À medida que foi sendo elaborada a etnografia, dei-me conta de que a produção do prazer de ver as imagens fetais era uma questão central, a pedra de toque de todo esse processo, uma discussão desenvolvida na conclusão do livro.

No capítulo 7, trato especificamente de um fenômeno todo o tempo presente no campo e que conjuga várias das questões anteriores: a construção de gênero e a subjetivação do feto. Tratava-se de uma atividade conjunta dos atores observados – médicos, gestantes e acompanhantes – com início, na maior parte das vezes, no momento em que ou se arriscava uma probabilidade ou se definia visualmente o sexo fetal, o que dependia do estágio da gravidez no qual a gestante se encontrava. A curiosidade – espontânea ou, se ausente, instigada pelos profissionais – era uma constante no universo etnografado. Apenas uma mulher, entre cerca de duzentas observadas, declarou explicitamente não querer saber o sexo fetal.

A construção de gênero fetal é uma atividade discursiva que se dá freqüentemente apoiada nas imagens fetais decodificadas e explicadas pelo profissional, mas que por vezes prescinde delas. Está ao mesmo tempo fortemente modelada por concepções bastante tradicionais, circulantes no senso comum no Brasil acerca de identidades, códigos e relações de gênero e servelhes de reforço, constituindo um dos momentos fundamentais na transformação do feto em Pessoa, na medida em que a construção

de subjetividade fetal é, na maior parte das vezes, generificada.4 Além deste aspecto, o consumo de objetos para o futuro bebê ocupa um lugar relevante na construção tanto de gênero como de subjetividade fetais. A construção de gênero fetal é também um momento importante de produção de 'verdades' sobre o feto, de caráter não-médico e subjetivante.

Finalmente, nas considerações finais, procuro articular em um conjunto coerente todos os aspectos anteriormente apresentados. Busco em especial estabelecer uma compreensão e desenvolver algumas reflexões sobre o significado biopolítico do fenômeno da ultra-sonografia obstétrica tal como se apresentou no campo observado, assim como propor questões. Tento, sobretudo, formular possíveis respostas ao problema de como e por que imagens tão estranhas tornaram-se objeto de apreciação, culto e desejo. A construção do prazer de ver as imagens fetais pareceu ser o ponto central de conexão de numerosas questões, sendo, simultaneamente, produto destas e motor de realimentação da ampliação do controle dos corpos e da produção precoce de novos indivíduos fetais que, tornados visíveis, medicalizados, normatizados, subjetivados e generificados, são transformados em Pessoa antes de virem ao mundo.

Lembro-me de, ainda no início do mestrado, na conferência de abertura do primeiro congresso de antropologia do qual participei, ter ouvido um experiente antropólogo dizer que "havia finalmente descoberto que o orixá dos antropólogos era Exu, por ser ele o senhor das encruzilhadas" (professor doutor Ordep Serra, Universidade Federal da Bahia. Conferência inaugural da 22ª Reunião Brasileira de Antropologia, Brasília, julho de 2000). E que esta era a principal característica desses profissionais: colocar-se em encruzilhadas. Em uma delas me coloquei. O propósito do presente estudo é manter-me firmemente nela, após ter explorado alguns dos caminhos que dela saem ou que nela desembocam. A meu ver, este é o melhor lugar estratégico para continuamente se fazer perguntas e buscar respostas.

 

Redigir os agradecimentos de um livro é uma tarefa ingrata. Fica-se diante de duas perspectivas, igualmente desconfortáveis: montar uma lista enfadonha para quem se disponha a lê-los – em razão da quantidade de pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este trabalho chegasse ao final – ou perpetrar grandes injustiças. Por uma certa praticidade optei pela segunda alternativa, considerando que, mesmo que escolhesse a primeira, de um modo ou de outro também cometeria diversas omissões, algumas delas imperdoáveis. Agradeço então:

Em primeiro lugar, a Jane Araujo Russo pela orientação atenta, inteligente e sobretudo bem-humorada, pela paciência em ler o manuscrito e por suas valiosas sugestões. Ao professor Luiz Fernando Dias Duarte, que acompanhou o trabalho desde o início, pela interlocução sempre rica e instigante.

Ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), que ao me aceitar como pós-graduanda possibilitou anos inesquecíveis de aprendizado, convívio e trabalho.

Aos médicos e médicas e, em especial, às inúmeras gestantes e acompanhantes que, anônimos, generosamente permitiram minha intrusão em momentos importantes de suas vidas, sem o que esta pesquisa não teria sido possível.

Aos amigos Cristina Werner, Patrícia Montenegro, Cristiana Lima, Renata Nogueira, Márcia Jazbik, Cláudia Cabral e Suzana Garcia, cuja colaboração foi fundamental para a realização do trabalho de campo. A Maria de Lourdes de Almeida Lima, Heron Werner e Sérgio Simões, em particular, pela 'assessoria técnica' e pela paciência em responder às minhas infindáveis perguntas.

A Diana Lima, Thomas Lewinsohn e José Guaranys, pelas críticas e pela colaboração na fase final do trabalho com os originais.

A meus pais, Nicha e Dawid, e a meu filho Sérgio, simplesmente por tudo.

Finalmente, à Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), pela bolsa que possibilitou a dedicação necessária à realização da pesquisa que resultou na tese, sintetizada neste livro.

 

Notas

1 O uso de maiúscula em 'pessoa' vincula a presente pesquisa à Antropologia da Pessoa, iniciada por Marcel Mauss (1974) em 1938, que originou uma série de estudos ao longo do século XX. Destacam-se dentre eles o clássico de Fortes (1973), a revisão de La Fontaine (1985), Allen (1985), Beillevaire & Bensa (1984) e, mais recentemente, Dumit (1997, 2004). No Brasil, seguindo esse referencial teórico, essa produção inclui Duarte (1983, 1986), Duarte & Giumbelli (1995), Duarte & Venâncio (1995), Leal & Lewgoy (1995), Novaes & Salem (1995), Russo (1997), Salem (1997), Seeger (1980), Seeger, DaMatta & Viveiros de Castro (1979) e, mais recentemente, Bonet (2003) e Luna (2001, 2002a, 2002b, 2004).

2 Aspas simples são de minha autoria, assim como as ênfases em itálico no corpo do texto. Utilizei aspas duplas quando o termo é de autor citado ou para falas dos atores do campo observado, estas em itálico.

3 Optei pelos termos 'cliente' ou 'gestante', e não 'paciente', porque este último pressupõe uma situação medicalizada que é justamente parte da discussão desenvolvida.

4 Alguns autores preferem o neologismo 'genderificada', para frisar a vinculação a questões de gênero (gender). Neologismo por neologismo, considerei que 'generificada' preenchia a finalidade semântica desejada.