Mensagem

Fernando Pessoa · Capítulo 38 de 42

Páginas do PDF

Mensagem

Os Tempos

III

PRIMEIRO

NOITE

A nau de um deles tinha-se perdido

No mar inde nido.

O segundo pediu licença ao Rei

De, na fé e na lei

Da Descoberta, ir em procura

Do irmão no mar sem m e a névoa escura.

Tempo foi. Nem primeiro nem segundo

Volveu do m profundo

Do mar ignoto à pátria por quem dera

O enigma que zera.

Então o terceiro a El-Rei rogou

Licença de os buscar, e El-Rei negou.

*

Como a um cativo, o ouvem a passar

Os servos do solar.

E, quando o veem, veem a gura

Da febre e da amargura,

Com xos olhos rasos de ânsia

Fitando a proibida azul distância.

*

Senhor, os dois irmãos do nosso Nome — O Poder e o Renome —

Ambos se foram pelo mar da idade

À tua eternidade;

E com eles de nós se foi

O que faz a alma poder ser de herói.

Queremos ir buscá-los, desta vil

Nossa prisão servil:

É a busca de quem somos, na distância

De nós; e, em febre de ânsia,

A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.