Na Praia
Capítulo 1
NA PRAIA
IAN McEWAN
Título original ON CHESIL BEACH
Tradução BERNARDO CARVALHO
Companhia das Letras
Copyright 2007 by Ian McEwans
1.
Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e
viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível.
Mas nunca é fácil. Estavam sentados para jantar numa saleta do primeiro andar
de uma estalagem georgiana. No quarto adjacente, visível através da porta aberta, ficava uma cama de dossel, mais para estreita, cuja colcha era de um branco puro e espantosamente liso, como se não tivesse sido esticada por mãos humanas. Edward não mencionou que nunca estivera num hotel antes; ao passo que Florence, depois de tantas viagens com o pai na infância, já era veterana. Aparentemente, estavam bem-dispostos.
O casamento na igreja de Saint Mary, em Oxford, tinha corrido bem; o serviço
fora digno; a recepção, animada; o bota-fora dos amigos de escola e de faculdade, exaltado e arrebatador. Os pais dela não trataram os dele com ares de superioridade, como os dois chegaram a temer, e a mãe dele não cometeu nenhuma gafe significativa, nem sequer se esqueceu do propósito da ocasião. O casal partira no pequeno carro da mãe de Florence e chegara no início da noite ao hotel na costa de Dorset, sob um clima que, embora não fosse ideal para meados de julho ou para as circunstâncias, era perfeitamente adequado: não chovia, mas tampouco estava quente, segundo Florence, para comer do lado de fora, no terraço, como haviam pensado. Edward achava que sim, mas, em sua cortesia excessiva, não cogitava contradizê-la nessa noite.
Assim, estavam comendo na antecâmara, diante das janelas de batente
entreabertas que davam para uma sacada e para a vista de uma parte do canal da Mancha e da praia de Chesil, com sua restinga infinita. Dois rapazes de smoking os serviam, indo e vindo de um carrinho estacionado do lado de fora, no corredor, e a movimentação deles por aquela que em geral era conhecida como a suíte nupcial fazia as tábuas de carvalho enceradas rangerem de um modo cômico, quebrando o silêncio. Orgulhoso e protetor, o jovem noivo se mantinha atento a qualquer gesto ou expressão que pudessem parecer satíricos. Não teria tolerado nenhum risinho. Mas esses rapazes de um vilarejo próximo cumpriam suas tarefas curvados, com rostos impassíveis, maneiras hesitantes e mãos trêmulas, conforme dispunham os pratos sobre a toalha de mesa de linho engomada. Também estavam nervosos.
Aquele não era um bom momento na história da culinária inglesa, mas na época
ninguém se importava muito, à exceção dos visitantes estrangeiros. A refeição propriamente dita começou, como costumava acontecer naquele tempo, com uma fatia de melão decorada com uma cereja cristalizada. Do lado de fora, no corredor, fatias de um velho rosbife requentado num molho espesso, legumes cozidos e batatas azuladas aguardavam, em travessas de prata sobre réchauds a vela. O vinho era francês, embora nenhuma região particular fosse mencionada no rótulo, ornado com uma única andorinha que voava como uma flecha. Não poderia ter passado pela cabeça de Edward pedir um tinto.
Ansiosos por ver-se livres dos garçons, ele e Florence se viraram em suas
cadeiras para considerar a vista de uma vasta relva musguenta e, mais adiante, um emaranhado de arbustos em flor e árvores agarradas a um barranco íngreme que despencava até o caminho da praia. Podiam ver o início de uma picada, descendo em degraus lamacentos, uma vereda guarnecida de plantas de tamanho extravagante, tal qual ruibarbos e repolhos gigantes, com talos intumescidos de mais de dois metros, dobrados sob o peso de folhas escuras com nervações grossas. A vegetação do jardim erguia-se sensual e tropical em sua profusão, um efeito realçado pela luz branda e cinzenta e pela névoa tênue que vinha do mar, cujo movimento regular de avanço e retração produzia leves estrondos que se dissipavam num súbito assobio contra os seixos. O plano deles era calçar sapatos mais rústicos depois do jantar e caminhar pela restinga entre o mar e a lagoa conhecida como O Estuário, e, se não tivessem terminado o vinho, iriam levá-lo consigo e beberiam no gargalo, à maneira de salteadores.
Tinham muitos planos, planos inconseqüentes, amontoados diante deles num
futuro enevoado, tão luxuriantes e emaranhados quanto a flora da costa de Dorset no verão, e igualmente belos. Onde e como iriam viver, quem seriam seus amigos mais próximos, o emprego dele na firma do pai dela, a carreira musical que ela teria pela frente, o que fazer com o dinheiro que o pai dela lhes dera, e como não seriam iguais às outras pessoas, pelo menos interiormente. Este ainda era o tempo - que terminaria naquela década célebre - em que ser jovem era um estorvo social, um sinal de irrelevância, uma condição ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o começo da cura. Quase estranhos, mantinham-se retraidamente juntos, num novo pináculo da existência, jubilosos com a promessa do novo estado civil a alçá-los para fora da juventude infinita - Edward e Florence, enfim livres! Um dos tópicos prediletos dos dois era falar da infância deles, não tanto dos prazeres como da bruma de equívocos cômicos da qual eles emergiram, dos vários erros dos pais e das práticas ultrapassadas que já não podiam perdoar.
Do alto dessa nova condição, eles podiam ver claro, mas não descrever um para o outro certos sentimentos contraditórios: separadamente, preocupavam-se com o momento, pouco depois do jantar, quando a nova maturidade seria testada, quando deitariam juntos na cama de dossel e se entregariam um ao outro. Por mais de um ano, Edward esteve enfeitiçado pela perspectiva de que numa determinada noite de julho sua parte mais sensível habitaria, ainda que por um breve momento, uma cavidade naturalmente formada no interior dessa mulher bela, jovial e de uma tremenda inteligência. Como isso devia ser alcançado, sem maiores absurdos ou decepções, atormentava-o. Sua inquietação específica, baseada numa experiência infeliz, dizia respeito à excitação excessiva, ao que ouvira alguém descrever como "chegar antes da hora". O assunto raramente o deixava em paz, mas, embora o medo de falhar fosse grande, sua ânsia - pelo êxtase, pela resolução - era ainda maior.
As angústias de Florence eram mais sérias, e houve momentos durante a
viagem desde Oxford em que ela esteve a ponto de invocar toda a sua coragem para se abrir com o marido. Mas o que a atormentava era inexprimível, ela mal conseguia defini-lo para si mesma. Enquanto ele sofria apenas do nervosismo convencional da primeira noite, ela experimentava um horror visceral, uma náusea irremediável, tão palpável quanto um enjôo no mar. Na maior parte do tempo, durante todos os meses dos preparativos matrimoniais, ela tentou ignorar essa nódoa na sua felicidade, mas, sempre que seu pensamento voltava a um abraço mais íntimo - preferia não usar outro termo -, ficava com o estômago embrulhado e tinha engulhos no fundo da garganta. Num manual moderno e antecipatório, supostamente útil para jovens noivas, escrito em tom estimulante, com pontos de exclamação e ilustrações numeradas, ela deparou com frases ou palavras que por pouco não lhe deram ânsia de vômito: membrana mucosa, e a sinistra e cintilante glande. Outras frases ofenderam sua inteligência, em particular aquelas que diziam respeito a entradas: Não muito antes de ele ter entrado nela... ou agora, por fim, ele entra nela e felizmente, logo depois de ele ter entrado nela...
Será que ela precisava servir de portal para Edward na noite de núpcias? Ou se
ver transformada em ante-sala através da qual ele pudesse evoluir? Quase tão freqüente era uma palavra que não lhe sugeria nada além de dor, de carne cortada por faca: penetração.
Nos momentos otimistas, ela tentava se convencer de que sofria apenas de uma
forma mais intensa de fastio, que logo iria passar. Sem dúvida, a imagem dos testículos de Edward, pendentes sob o pênis ingurgitado - outro termo horripilante -, era capaz de contrair seu lábio superior, e a idéia de ser tocada "lá embaixo" por alguém, mesmo por alguém que ela amasse, era tão repugnante quanto, digamos, um procedimento cirúrgico nos olhos. Mas sua aversão não se estendia aos bebês. Gostava deles; houve ocasiões em que cuidou dos meninos pequenos da prima e sentiu grande prazer. Achava que ia adorar ficar grávida de Edward e, em teoria, não temia o parto. Se ao menos pudesse, como a mãe de Jesus, chegar ao estado de gestação por um passe de mágica.
Florence suspeitava que houvesse alguma coisa profundamente errada com ela,
achava ter sempre sido diferente e que enfim seria desmascarada. Seu problema, ela pensava, era maior e mais profundo do que a simples repulsa física; todo o seu ser se rebelava contra a perspectiva do contato e da carne; sua tranqüilidade e felicidade essencial estavam para ser violadas. Simplesmente não queria ser "entrada" ou "penetrada". Sexo com Edward não era a soma do seu prazer, mas, antes, o preço que devia pagar por ele.
Ela sabia que devia ter se aberto muito tempo antes, assim que ele a pedira em
casamento, bem antes da visita ao vigário sincero e de fala mansa, e dos jantares com os respectivos pais, antes de mandar os convites de casamento, organizar a lista de presentes e deixá-la numa loja de departamentos, antes de contratar a tenda e o fotógrafo, e antes de todos os demais arranjos irreversíveis. Mas o que teria podido dizer, que termos poderia ter usado se não conseguia nomeá-los nem para si mesma? E ela amava Edward, não com a paixão ardente e úmida sobre a qual lera, mas de um jeito cálido, profundo, às vezes como filha, e outras quase como mãe. Amava acariciá-lo, ter o braço dele, enorme, em volta dos seus ombros e ser beijada por ele, embora não gostasse da língua dele em sua boca e, sem precisar abri-la, deixara isso bem claro. Achava-o original, diferente de todas as pessoas que jamais encontrara. Ele invariavelmente trazia uma brochura, em geral de história, no bolso do paletó, no caso de se encontrar em alguma fila ou numa sala de espera. Marcava o que lia com um toco de lápis. Era possivelmente o único homem que Florence conhecera que não fumava. Suas meias nunca combinavam. Tinha apenas uma gravata fina, de tricô, azul-escura, que usava quase sempre com uma camisa branca. Ela adorava a curiosidade dele, o leve sotaque do campo, a imensa força das mãos, as guinadas e os desvios imprevisíveis da sua conversa, a gentileza com ela, e o modo como seus olhos castanhos, ternamente pousados sobre ela enquanto ela falava, faziam-na sentir-se envolvida numa afetuosa nuvem de amor. Aos vinte e dois anos, não tinha dúvidas de que queria passar o resto da vida com Edward Mayhew. Como podia ter ousado arriscar-se a perdê-lo?
Não havia ninguém com quem ela pudesse ter falado. Ruth, sua irmã, era jovem demais, e sua mãe, totalmente maravilhosa à maneira dela, era demasiado intelectual e frágil, uma sabichona ultrapassada. Sempre que se via confrontada com um problema íntimo, tendia a adotar o tom público das palestras e usar palavras cada vez mais compridas, fazendo referência a livros que achava que todos deviam ter lido. Só quando o assunto já estava seguramente imobilizado por esse discurso é que ela às vezes, embora raramente, permitia-se alguma ternura, e mesmo então não dava para você saber que tipo de conselho estava recebendo. Florence tinha alguns grandes amigos de escola e da faculdade de música que apresentavam o problema oposto: adoravam as conversas íntimas e se deleitavam uns com os problemas dos outros. Todos se conheciam entre si e eram ávidos por telefonemas e cartas. Ela não podia confiar-lhes um segredo, nem por isso os reprovava, já que fazia parte do grupo. Não teria confiado em si mesma. Estava sozinha com um problema que não sabia nem como começar a enfrentar, e toda a sabedoria que lhe restava se resumia ao manual para noivas. Na capa vermelha e espalhafatosa, estavam retratadas duas figuras sorridentes, de mãos dadas, como se fossem palitos de fósforos com olhos esbugalhados, um desenho canhestro com giz branco, que poderia ter sido feito por uma criança inocente.
Comeram o melão em menos de dois minutos, enquanto os rapazes, em vez de
esperar do lado de fora, no corredor, permaneciam mais atrás, próximos à porta, remexendo na gravata-borboleta e no colarinho apertado, ou às voltas com os punhos da camisa. Seus rostos impassíveis não se alteraram ao observar Edward oferecer a Florence, com um floreio irônico, sua cereja cristalizada. De brincadeira, ela a sorveu dos dedos dele, mantendo os olhos fixos nos dele enquanto mastigava lentamente, deixando-o ver sua língua, consciente de que flertar com ele dessa maneira apenas piorava as coisas para si mesma. Não devia ter começado o que não podia manter, mas agradá-lo do jeito que pudesse a ajudava: fazia com que não se sentisse tão completamente inútil.
Se, ao menos, tudo o que lhe pedissem fosse comer uma cereja viscosa. Para mostrar que não estava incomodado com a presença dos garçons, ainda
que desejasse ardentemente que fossem embora, Edward sorriu ao se recostar com o copo de vinho na mão e pediu por sobre o ombro: "Sobrou alguma coisa disso?". Acabou, senhor. Desculpe, senhor.”
Mas a mão que segurava o copo tremia conforme ele lutava para conter a súbita
felicidade, e a exaltação. Ela parecia resplandecer diante dele, e estava encantadora - era bela, sensual, talentosa, dotada de uma boa índole além do imaginável.
O rapaz que tinha falado se adiantou para tirar a mesa. Seu colega acabara de
sair do quarto e estava servindo o segundo prato, o rosbife, no corredor. Não dava para entrar com o carrinho na suíte nupcial, e servi-los diretamente das travessas de prata, por conta de uma diferença de dois degraus entre o quarto e o corredor, conseqüência da falta de planejamento quando a casa de fazenda elisabetana fora "georgianizada" em meados do século XVIII.
O casal ficou a sós por um breve instante, embora ouvissem pela porta aberta o
chiado das colheres raspando nos pratos e o murmúrio dos rapazes. Edward pôs a mão sobre a de Florence e disse, pela centésima vez naquele dia, num sussurro: "Eu te amo", e ela lhe correspondeu imediatamente, dizendo o mesmo, que era o que realmente sentia.
Edward se graduara com louvor em história pelo University College, de
Londres. Em três breves anos, tinha estudado guerras, rebeliões, fomes, pestes, a ascensão e a queda de impérios, revoluções que consumiram seus filhos, penúrias na agricultura, a imundície industrial, a crueldade das elites dirigentes - um desfile vivido de opressão, miséria e esperanças perdidas. Entendeu quão submissa e pobre a vida podia ser, uma geração após a outra. Numa visão ampla das coisas, os tempos prósperos e pacíficos que a Inglaterra vivia agora eram raros, e, no seu interior, a felicidade dele e de Florence era excepcional, até mesmo única. No último ano da faculdade, fizera um trabalho de final de curso sobre a teoria dos "grandes homens" na história - seria de fato ultrapassado acreditar que indivíduos vigorosos fossem capazes de dar forma ao destino das nações?
Sem dúvida, era o que pensava o orientador dele: na sua visão, a História, com
maiúscula, avançava graças a forças inelutáveis em direção a fins inevitáveis e necessários, e logo a disciplina seria entendida como uma ciência. Mas as vidas que Edward examinara em detalhes - Júlio César; Carlos Magno; Frederico II; Catarina, a Grande; Nelson e Napoleão (Stálin ficara de fora, por insistência do orientador) -sugeriam o contrário. Uma personalidade implacável, oportunismo descarado e sorte, Edward argumentara, podiam determinar o destino de milhões, uma conclusão teimosa que lhe custaria um B-menos, e por pouco não lhe comprometeria o louvor no diploma.
Chegara à descoberta fortuita de que mesmo o sucesso lendário trazia pouca
felicidade; só inquietação redobrada e o tormento da ambição. Ao se vestir para o casamento naquela manhã (fraque, cartola, um banho completo de perfume), concluíra que nenhuma das figuras na lista de convidados teria podido conhecer satisfação daquele tipo. Sua exaltação já era uma forma de grandeza em si mesma. Ali estava ele, um homem gloriosamente realizado, ou quase. Aos vinte e dois anos, já eclipsara todos os outros.
Agora, fitava a mulher, os olhos dela intrigadamente castanhos e raiados, o
branco ao redor da íris tingido pelo mais suave azul leitoso. Os cílios eram grossos e escuros, como os de uma criança, e também havia algo infantil na solenidade do seu rosto em repouso. Era um rosto adorável, com uma aparência escultural que sob certa luz fazia lembrar uma índia americana, uma pele-vermelha de alta estirpe. Tinha um maxilar acentuado e um sorriso largo e franco, a prumo em relação aos vincos no canto dos olhos. Sua constituição era ossuda - e algumas matronas no casamento notaram com malícia suas ancas generosas. Os seios, que Edward já havia tocado e até beijado, ainda que levemente, eram pequenos. As mãos de violinista eram pálidas e vigorosas, assim como os longos braços; no tempo de esporte na escola, ela fora uma exímia arremessadora de dardos.
Edward nunca se interessou por música clássica, mas agora estava aprendendo
o jargão lépido - legato, pizzicato, con brio. Devagar, graças a uma cruel repetição, já conseguia reconhecer certas peças e até gostar delas. Havia uma, que ela tocava com amigos, que o emocionava em especial. Quando ela praticava suas escalas e arpejos em casa, usava um arco nos cabelos, um toque cativante que o levava a sonhar com a filha que um dia poderiam ter. A interpretação de Florence era sinuosa e precisa, e era conhecida pela riqueza dos seus tons. Um professor disse que nunca havia encontrado um aluno que fizesse uma nota mais longa soar tão calorosa. Quando ela estava diante do átril, na sala de ensaios, em Londres, ou no quarto dela na casa dos pais, em Oxford, com Edward estendido na cama, a observá-la e desejá-la, mantinha uma postura graciosa, com as costas eretas e a cabeça erguida orgulhosamente, conforme lia a música com uma expressão sobranceira, quase altiva, que o comovia. Aquele olhar tinha tanta convicção, tanto conhecimento do caminho para o prazer.
Quando se tratava de música, seus movimentos eram sempre fluidos e
confiantes - ao passar resina no arco, ao encordoar o instrumento, ao rearrumar o quarto a fim de acomodar os três amigos de faculdade para o quarteto de cordas que era a sua paixão. Ela era a líder incontestável e sempre ficava com a palavra final nos vários desentendimentos musicais entre eles.
Mas no resto de sua vida era surpreendentemente desajeitada e insegura,
sempre dando topadas, ou derrubando coisas, ou batendo com a cabeça. Os dedos que podiam tocar duas notas simultâneas numa partitura de Bach eram igualmente ágeis quando se tratava de derramar uma xícara de chá sobre uma toalha de mesa de linho ou deixar cair um copo no chão de pedra. Ela podia tropeçar nos próprios pés se se sentisse observada - tinha confidenciado a Edward que era um suplício caminhar na rua na direção de um amigo à distância. Sempre que estava demasiado ansiosa ou constrangida, levantava a mão repetidas vezes para afastar um fio de cabelo imaginário da testa, gesto comedido e nervoso que continuava bem depois de ter desaparecido a fonte de tensão.
Como ele podia deixar de amar alguém tão estranha e calorosamente especial,
tão sofridamente honesta e ciente de si, cujos pensamentos e emoções se expunham em toda a sua nudez, como partículas energizadas em torrentes através de seus gestos e expressões? Mesmo sem a beleza dela, robusta e angulosa, ele teria que amá-la. E ela o amava com tamanha intensidade, com tamanha e excruciante reticência física. Não eram só as paixões dele, intensificadas pela falta de escoadouro, que acabavam excitadas, mas também seus instintos protetores. Mas será que ela era realmente vulnerável? Certa vez, ele dera uma espiada na pasta em que ela guardava os boletins da escola e vira o resultado dos testes de inteligência: cento e cinqüenta e dois, dezessete pontos acima do seu próprio escore. Naquela época, esses quocientes serviam para medir algo tão tangível quanto a altura ou o peso. Quando ele assistia a um ensaio do quarteto e ela discordava de Charles, o violoncelista gordinho e assertivo, cujo rosto brilhava com acne recém-desabrochada, quanto a um fraseado, um ritmo ou uma dinâmica, Edward ficava intrigado com a frieza de Florence. Ela não argumentava; escutava com tranqüilidade e então anunciava sua decisão.
Nenhum sinal do cabelo caído na testa. Ela sabia do que estava falando, e estava
determinada a liderar, como cabia ao primeiro violino. Parecia capaz de levar o pai, amedrontador em princípio, a fazer o que ela quisesse. Muitos meses antes do casamento, ele tinha, por sugestão dela, oferecido um emprego a Edward. Se é que ele realmente queria isso, ou ousava recusá-lo, era outra questão. E ela sabia, por alguma osmose feminina, exatamente o que era necessário à cerimônia, do tamanho da tenda à quantidade de pudim de frutas vermelhas, e justo o que devia esperar que o pai pagasse.
"Aí vêm eles", ela sussurrou, enquanto apertava a mão dele, a alertá-lo contra
uma nova e súbita intimidade. Os garçons chegavam com os pratos de carne, o dele com o dobro de altura do dela. Também traziam bolo embebido em xerez, queijo cheddar e chocolates recheados de hortelã, que arrumaram num aparador. Depois de resmungar as instruções de como tocar a campainha ao lado da lareira para chamá-los - deviam pressioná-la com força e mantê-la apertada -, os rapazes se retiraram, fechando a porta com extremo cuidado. Em seguida, ouviu-se o tinido do carrinho se afastando pelo corredor e, depois de um silêncio, um pio ou um berro que podia muito bem ter vindo do bar do hotel no andar de baixo, e, finalmente, os recém-casados estavam a sós.
Uma mudança ou a intensificação do vento trouxe-lhes o barulho das ondas,
quebrando como um distante estilhaço de copos. A névoa começava a se levantar, revelando parte do contorno das colinas baixas, que se afastavam em curva acima da orla para o leste. Dava para avistar uma luminosidade cinzenta e suave, que podia ser a superfície sedosa do próprio mar ou a lagoa ou o céu - era difícil dizer.
A mudança da brisa trouxe um alento pelas janelas de batente entreabertas, uma
fragrância salgada de oxigênio e de ar livre que parecia incompatível com a engomada toalha de mesa, o molho engrossado com farinha de milho e os talheres muito lustrosos que tinham nas mãos. O almoço de casamento fora farto e prolongado. Não estavam com fome. Em teoria, podiam abandonar seus pratos, agarrar a garrafa de vinho pelo gargalo, correr até a praia, livrar-se dos sapatos e exultar de tanta liberdade. Ninguém no hotel haveria de impedi-los. Afinal, eram adultos em férias, livres para fazer o que bem entendessem. Em poucos anos, seria o tipo de coisa que todo jovem faria. Mas, por enquanto, a época os retinha. Mesmo quando Edward e Florence estavam a sós, mil regras não ditas continuavam a se impor. Era precisamente por serem adultos que não se entregavam a infantilidades como abandonar no meio uma refeição que outros se deram o trabalho de preparar. Era hora do jantar, apesar de tudo. E ser infantil ainda não era louvável nem tinha entrado na moda.
Ainda assim, Edward sentia-se inquieto com o chamado da praia, e, se soubesse
como introduzir o assunto, ou como justificá-lo, teria podido sugerir que saíssem imediatamente. Lera em voz alta para Florence, num guia, que milhares de anos de pancadas de tempestade tinham peneirado e organizado o tamanho dos seixos ao longo dos vinte e oito quilômetros de praia, com as pedras maiores na extremidade leste. Rezava a lenda que os pescadores locais, ao voltar para terra no meio da noite, sabiam exatamente onde estavam, pelo tamanho dos seixos. Florence havia sugerido que fossem verificar por conta própria, comparando punhados coletados com um quilômetro de distância um do outro. Teria sido melhor arrastar-se ao longo da praia do que ficar ali sentado. O teto, que já era bastante baixo, parecia ainda mais baixo, e cada vez mais próximo de sua cabeça. Do seu prato, misturado à brisa do mar, vinha um cheiro de marisco, como o hálito do cão de sua família.
Talvez ele não estivesse tão feliz quanto tentava se convencer de que estava.
Sentiu uma terrível pressão estreitando-lhe o pensamento, constrangendo-lhe a fala, sofria de um desconforto físico agudo - parecia que suas calças ou as cuecas tinham encolhido.
Mas, se um gênio tivesse surgido à mesa para realizar o desejo mais urgente de
Edward, ele não teria pedido nenhuma praia no mundo. Tudo o que queria, tudo em que podia pensar era em deitar com Florence, os dois juntos e nus, na cama do quarto adjacente, confrontados por fim com a experiência aterradora que parecia tão distante do dia-a-dia quanto a visão de um êxtase religioso, ou até da própria morte. A perspectiva será que ia de fato acontecer? Com ele? - mais uma vez lhe deu um frio na barriga, e ele teve a sensação momentânea de que pudesse desmaiar, o que disfarçou com um suspiro de satisfação.
Como a maioria dos moços do seu tempo, ou de qualquer outro, desprovido
de um modo fácil ou de meios para a expressão sexual, ele se satisfazia constantemente com o que uma autoridade esclarecida agora chamava de "autoprazer". Edward ficou encantado ao descobrir o termo. Nascera muito tarde no século, em 1940, para crer que estivesse abusando do seu corpo, que sua visão ficaria comprometida ou que Deus estivesse de olho, com uma incredulidade implacável, conforme ele se curvava para a tarefa diária. Ou mesmo que todos deduzissem sua prática com base em seu olhar baço e introvertido. De todo jeito, uma certa desonra indistinta pesava sobre os esforços dele, um sentido de fracasso ou desperdício e, é claro, de solidão. O prazer era realmente um benefício incidental. O objetivo era o alívio - do desejo limitador do pensamento e urgente do que não podia ser imediatamente possuído. Era extraordinário que uma simples colherada produzida pelo seu corpo, ao ser expelida, pudesse num instante liberar sua mente para um novo confronto com a determinação do almirante Nelson na batalha da baía de Abu Qir.
A única e mais importante contribuição de Edward para os preparativos do
casamento fora se conter por mais de uma semana. Nunca desde os doze anos havia sido tão casto consigo mesmo. Queria estar em plena forma para a noiva. Não era fácil, especialmente à noite na cama, ou de manhã quando acordava, ou durante as longas tardes, ou nas horas que precediam o almoço, ou depois do jantar, nas horas antes de deitar-se. Agora, finalmente, estavam casados e a sós. Por que não largou o rosbife e se levantou para cobri-la de beijos e conduzi-la à cama de dossel ali ao lado? Não era tão simples. Ele tinha uma longa e repetida história de enfrentamento com a timidez de Florence. Terminara por respeitá-la, e mesmo reverenciá-la, confundindo-a com uma forma de recato, um véu de convenções a encobrir uma rica natureza sexual. No conjunto, parte da sua personalidade intricada e profunda, e a prova da sua qualidade. Convenceu-se de que a preferia dessa maneira. Não chegou a formular para si mesmo, mas a reticência dela convinha à sua própria ignorância e falta de confiança; uma mulher mais sensual e exigente, uma mulher fogosa, teria podido aterrorizá-lo.
O namoro deles foi uma pavana, um desdobramento solene, demarcado por
protocolos nunca acordados ou ditos, apesar de geralmente cumpridos. Nada jamais era discutido - tampouco sentiam a falta de conversas íntimas. Esses eram assuntos além das palavras, além das definições. A linguagem e a prática da terapia, a moeda corrente dos sentimentos diligentemente compartilhados, mutuamente analisados, em geral ainda não tinham entrado em circulação. Embora fosse possível ouvir falar de gente rica fazendo psicanálise, ainda não era comum ver-se em termos diários como um enigma, um exercício de história narrativa ou um problema à espera de ser resolvido.
Entre Edward e Florence nada acontecia rápido. Avanços importantes,
permissões implicitamente concedidas quanto ao que ele podia ver ou acariciar, eram alcançados apenas gradualmente. O dia em outubro quando ele viu pela primeira vez os seios dela nus precedeu em muito o dia em que pôde tocá-los - 19 de dezembro. Ele os beijou em fevereiro, embora não os mamilos, os quais roçou com os lábios uma vez, em maio. Ela se permitia avançar sobre o corpo dele ainda com maior cautela. Movimentos súbitos ou sugestões radicais da parte dele podiam arruinar meses de trabalho. A noite no cinema durante uma sessão de Um gosto de mel em que ele puxou a mão dela e a enfiou entre as próprias pernas fez todo o processo retroceder semanas. Ela não ficou gélida, nem mesmo fria - não era esse o jeito dela -, mas imperceptivelmente remota, talvez tenha se decepcionado, ou até se sentido ligeiramente traída. Retraiu-se sem jamais deixá-lo duvidar do amor dela. E então, por fim, as coisas retomaram seu curso normal: quando estavam a sós numa tarde de sábado no final de março, com chuva forte nas janelas da sala bagunçada da pequena casa dos pais dele, em Chiltern Hills, ela deixou a mão descansar brevemente sobre seu pênis ou perto dele. Por menos de quinze segundos, com uma esperança e um êxtase crescentes, ele a sentiu através de duas camadas de tecido. Assim que ela retirou a mão, ele entendeu que já não podia agüentar. E a pediu em casamento.
Ele não podia imaginar o tanto que havia custado a ela pôr a mão - as costas da
mão - em tal lugar. Ela o amava, queria agradá-lo, mas tinha que superar uma aversão considerável. Foi uma tentativa honesta - ela podia ter sido mais clara, mas não era movida por malícia. Manteve a mão ali pelo tempo que conseguiu, até sentir uma agitação e um endurecimento sob as calças de flanela. Sentiu uma coisa viva, totalmente separada de Edward - e recuou. Foi quando ele proferiu a proposta de casamento, e, no ímpeto da emoção, da alegria, do júbilo e do alívio, entre abraços súbitos, ela por um instante esqueceu o pequeno choque. E ele ficou tão espantado com a própria determinação, assim como estava mentalmente paralisado pelo desejo irresoluto, que nem pôde fazer idéia da contradição que, a partir daquele dia, passou a viver com ela, o caso secreto entre o asco e o prazer.
Em teoria, uma vez sozinhos, estavam livres para fazer o que quisessem, mas
seguiram comendo o jantar para o qual não tinham nenhum apetite. Florence pousou a faca sobre o prato, estendeu a mão até a de Edward e a apertou. Ouviram, vindo do rádio no andar de baixo, as batidas do Big Ben no início do jornal das dez horas. Ao longo desse trecho da costa, a recepção de TV era ruim, por causa das colinas bem na direção do interior. Os hóspedes mais velhos deviam estar lá embaixo, na sala de estar, inteirando-se das novidades do mundo com o último trago - o hotel tinha uma boa seleção de maltes escoceses -, e alguns dos homens deviam estar preparando seus cachimbos para a derradeira pitada do dia. Reunir-se em volta do rádio para o principal boletim de notícias era um hábito do tempo da guerra que eles nunca perderiam. Edward e Florence reconheceram entre as manchetes abafadas o nome do primeiro-ministro, para um ou dois minutos depois ouvir sua voz familiar, elevada num discurso. Harold Macmillan acabava de fazer uma conferência em Washington sobre a corrida armamentista e a necessidade da proibição dos testes. Quem poderia discordar de que era insensatez prosseguir com os testes da bomba H na atmosfera, irradiando todo o planeta? Mas ninguém com menos de trinta anos - certamente, não Edward e Florence -acreditava que um primeiro-ministro britânico pudesse ter alguma ascendência sobre assuntos globais. A cada ano o Império encolhia, conforme uma nova leva de países conquistava sua independência por direito. Agora já não sobrava quase nada, e o mundo pertencia aos americanos e aos russos. A Grã-Bretanha, a Inglaterra era uma potência menor - e dizer isso dava um certo gosto blasfematório. No andar de baixo, é claro, eles tinham uma visão diferente. Qualquer um com mais de quarenta havia lutado ou sofrido na guerra, conhecia a morte numa escala incomum e não teria podido acreditar que a passagem à irrelevância fosse o prêmio por tanto sacrifício.
Edward e Florence votariam pela primeira vez nas eleições gerais seguintes, e
estavam entusiasmados com a idéia de uma vitória esmagadora dos trabalhistas, como a de 1945. Em um ou dois anos, a velha geração, que ainda sonhava com o Império, teria certamente que ceder a vez a políticos como Gaitskell, Wilson e Crosland - novos homens com uma visão de país moderno, onde houvesse igualdade e as coisas fossem de fato realizadas. Se os Estados Unidos tinham um presidente exuberante e boa pinta como Kennedy, a Grã-Bretanha podia ter algo semelhante - pelo menos no espírito, já que não havia ninguém tão glamouroso no Partido Trabalhista. O tempo tinha passado para os ultraconservadores, que continuavam a lutar a última guerra, nostálgicos de suas disciplinas e privações. Edward e Florence compartilhavam o sentimento de que em breve o país seria transformado para melhor, que novas energias estavam querendo desafogar-se, como uma máquina a vapor sob pressão, e isso se fundia com a excitação da sua própria aventura juntos. Os anos 60 eram a primeira década da vida deles como adultos, e certamente lhes pertencia. Os fumantes de cachimbo no andar de baixo, com seus paletós de botões de prata, suas doses duplas de Caol Ila, as memórias das campanhas na África do Norte e na Normandia, e os cultuados restos de gíria militar, não podiam reivindicar nada do futuro. Seu tempo acabou, senhores. Por favor!
O nevoeiro continuava a subir, descortinando as árvores próximas, as colinas
verdes e nuas atrás da lagoa e trechos do mar prateado, conforme o ar suave da noite também envolvia a mesa à qual eles fingiam seguir comendo, aprisionados por suas angústias íntimas naquele instante. Florence apenas empurrava a comida de um lado para outro do prato. Edward comia nacos simbólicos de batata, que entalhava com a ponta do garfo. Escutaram impotentes a segunda notícia da noite, conscientes da idiotice de manter a atenção em sintonia com a dos hóspedes no andar de baixo. Era sua noite de núpcias, e não tinham nada a dizer. Conseguiram discernir "Berlim" entre as palavras indistintas que subiam de sob os pés deles, e logo compreenderam que se tratava da história que vinha cativando a todos ultimamente. Uma fuga do lado oriental comunista para o lado ocidental da cidade, por meio de um vapor tomado à força no lago Wannsee, com os refugiados agachados na casa do leme para se esquivar das balas dos guardas do leste. Escutaram a notícia e depois, intoleravelmente, a terceira, sobre a sessão de encerramento de uma conferência islâmica em Bagdá.
Atraídos para os acontecimentos mundiais por sua própria estupidez! Não era
possível continuar assim. Chegara a hora de agir. Edward afrouxou a gravata e se desfez com determinação do garfo e da faca, pousando-os em paralelo no centro do prato.
"Podíamos descer e escutar direito.”
Esperava estar demonstrando senso de humor, ao dirigir seu sarcasmo contra ambos, mas suas palavras emergiram com uma ferocidade surpreendente, e Florence corou. Achou que ele a estivesse criticando por preferir o rádio a ele e, antes que ele pudesse atenuar ou suavizar o comentário, adiantou-se e disse: "Ou podíamos nos deitar na cama", furtando-se nervosa a um fio de cabelo invisível sobre a testa. Para mostrar a que ponto ele estava enganado, ela agora propunha o que sabia ser o que ele mais queria e o que mais a apavorava. Ela realmente teria ficado mais feliz, ou menos infeliz, se tivessem descido ao saguão e passado o tempo a conversar tranqüilamente com as matronas nos sofás estampados com motivos florais, enquanto os homens se inclinavam com seriedade sobre as notícias e o rebuliço da história.
Tudo menos isso.
Seu marido sorria, em pé do outro lado da mesa, estendendo-lhe as mãos
cerimoniosamente. O rosto também estava um pouco corado. O guardanapo ficou grudado por um instante na cintura dele, pendurado de uma forma absurda, como uma tanga, antes de adejar até o chão em câmera lenta. Não havia nada que ela pudesse fazer, além de desmaiar, e ela era péssima atriz. Então, levantou-se e tomou a mão dele, certa de que o sorriso com que lhe correspondia era de uma rigidez inconvincente. Não teria sido de nenhuma ajuda saber que Edward em seu estado enlevado nunca a achara tão atraente. Alguma coisa em relação aos braços dela - ele se lembrava de ter pensado depois -, esguios e vulneráveis, prestes a se entrelaçarem em adoração em volta do pescoço dele. E seus belos olhos castanho-claros, reluzentes de uma paixão inegável, e o leve estremecimento no lábio inferior, que até nesse momento ela umedecia com a língua.
Com a mão livre, ele tentou agarrar a garrafa de vinho e os copos ainda pela
metade, mas era demasiado difícil e complicado - os copos bojudos, arqueados um contra o outro, faziam as hastes se entrecruzarem em sua mão, derramando o vinho. Pegou só a garrafa pelo gargalo. Mesmo naquele estado exaltado e irrequieto, ele ainda achava que entendia a reticência habitual dela. Tanto maior, portanto, a causa da alegria, que enfrentassem juntos esse momento importante, a fronteira da experiência. E o mais excitante era que tivesse sido Florence a sugerir que fossem deitar na cama. A mudança de estado civil a liberara. Ainda segurando a mão dela, ele deu a volta na mesa e se aproximou para beijá-la.
Achando que pudesse ser vulgar fazê-lo com uma garrafa de vinho na mão,
devolveu-a à mesa.
"Você está muito bonita", murmurou.
Ela se esforçou para lembrar o quanto o amava. Ele era gentil e sensível,
amava-a, e não lhe faria nenhum mal. Ela se encolheu ainda mais dentro daquele abraço, apertada contra o peito dele, a aspirar o cheiro familiar, que lembrava madeira e a tranqüilizava.
"Estou tão feliz aqui com você.”
"Também estou feliz", ela disse, com serenidade.
Quando se beijaram, ela sentiu imediatamente a língua dele, retesada e robusta,
avançar entre seus dentes, como um rufião abrindo caminho à força até um quarto. Entrando nela. A sua própria língua se dobrou e retraiu numa aversão automática, dando ainda mais espaço à de Edward. Ele sabia muito bem que ela não gostava desse tipo de beijo, e nunca fora tão impositivo. Com os lábios firmemente pregados nos dela, devassou-lhe o fundo carnudo da boca, e em seguida fez um movimento circular por trás dos dentes da arcada inferior até o vazio onde três anos antes um dente de siso crescera torto, para acabar removido sob anestesia geral. Era nessa cavidade que a língua dela normalmente se perdia, quando ela própria estava perdida em pensamentos. Por associação, tinha mais a ver com uma idéia do que com uma localização, era mais um lugar privado e imaginário do que um vão na gengiva, e a ela parecia estranho que outra língua também pudesse ter a permissão de chegar até lá. Era a ponta aguçada e dura desse músculo alienígena, vivo e palpitante, que a repugnava. A mão esquerda dele estava espalmada acima das omoplatas dela, logo abaixo do pescoço, alavancando a cabeça dela contra a dele. A claustrofobia e a falta de ar se igualavam quando ela decidiu que não suportaria ofendê-lo. Ora ele estava sob a língua dela, empurrando-a para cima, contra o céu da boca, ora sobre a língua, empurrando-a para baixo, e depois deslizando com suavidade pelos lados e em círculo, como se achasse que podia dar-lhe um nó simples. Queria enredar a língua dela em algum tipo de atividade própria, induzi-la a um abominável dueto mudo, mas ela só conseguia se encolher e se concentrar em não reagir, não ter engulhos e não entrar em pânico. Se vomitasse na boca dele - e esse era um pensamento desvairado -, o casamento estaria terminado num instante, e ela teria de voltar para casa e explicar aos pais. Entendia perfeitamente que esse negócio de línguas, essa penetração, era uma representação em escala menor, um ritual do que ainda estava por vir, como um tableau vivant, o prólogo de uma velha peça que anuncia tudo o que acontecerá em seguida.
Enquanto esperava que esse momento particular passasse, com as mãos
apoiadas por convenção nos quadris de Edward, Florence se deu conta de que havia topado com um lugar-comum, bastante evidente em retrospecto, tão primitivo e antigo
quanto danegeld{1} ou droit de seigneur, e cuja definição era quase tão elementar: ao decidir casar-se, foi exatamente isso que ela aceitou. Tinha concordado que era certo fazer isso, e que isso fosse feito com ela. Quando ela e Edward e seus pais seguiram em fila para a lúgubre sacristia depois da cerimônia, para assinar o registro, foi nisso que puseram seus nomes, e todo o resto - a suposta maturidade, os confeitos e o bolo - era só uma distração educada. Se não gostasse, a responsabilidade era só dela, uma vez que todas as suas escolhas ao longo do ano anterior convergiram para isso, a culpa era toda sua, e agora ela realmente achava que ia vomitar.
Direito do senhor feudal de ter relações sexuais com a noiva do súdito na noite
de núpcias.
Ao ouvi-la gemer, Edward sentiu que sua felicidade estava quase completa.
Tinha a impressão de uma agradável falta de gravidade, de flutuar a muitos centímetros do chão, pairando altaneiro sobre ela. Era com um misto de prazer e dor que ele sentia o coração bater mais forte na base da garganta. Estava excitado pelo leve toque das mãos dela, não muito longe da sua virilha, pela anuência daquele corpo adorável envolvido em seus braços e pelo som exaltado que ela fazia ao respirar rapidamente pelas narinas. Alcançou um estado de êxtase desconhecido, frio e agudo logo abaixo das costelas, quando a língua dela envolveu a sua e a empurrou. Talvez pudesse convencê-la em breve - talvez esta noite, e talvez ela nem precisasse ser convencida - a pôr o pau dele em sua boca macia e bela. Mas esse era um pensamento que ele precisava afastar para o mais longe que pudesse, pois corria o risco de realmente chegar antes da hora. Já podia sentir o início das palpitações a empurrá-lo para a desonra. Bem a tempo, pensou nas notícias, no rosto do primeiro-ministro, Harold Macmillan, alto e curvado, com cara de morsa, um herói de guerra, um antiquado, ele era tudo o que o sexo não era, e ideal para aquele propósito. Déficit da Balança Comercial, Suspensão de Pagamento, Manutenção do Preço de Revenda. Alguns o amaldiçoaram por ele ter entregado o Império, mas realmente não tinha escolha, com os novos ventos soprando na África. Ninguém teria engolido a mesma mensagem de um trabalhista. E ele acabava de exonerar um terço do seu gabinete na "noite dos longos punhais". Era preciso ter coragem para tanto. "Mac, o Estripador", dizia uma das manchetes; "Macbeth!", dizia outra. Pessoas sérias o acusaram de enterrar a nação sob uma avalanche de televisores, carros, supermercados e outras sucatas. Ele deu às pessoas o que elas queriam. Pão e circos. Uma nova nação, e agora queria que nos juntássemos à Europa, e quem podia garantir que ele estivesse errado?
Por fim, tudo se equilibrou. Os pensamentos de Edward se dissolveram, e ele
voltou a ser a sua língua, a pontinha dela, bem na hora em que Florence decidiu que já não agüentava. Sentia-se atada e asfixiada, estava sufocando e com enjôo. Podia ouvir um som progressivo, subindo constante, não em graus como numa escala, mas num lento glissando, não como um violino ou uma voz, mas entre os dois, um crescendo insuportável, sem nunca deixar o campo auditivo, uma voz-violino no limiar do sentido, dizendo-lhe alguma coisa urgente em sibilantes e vogais mais primitivas do que as palavras. Podia ser no interior do quarto, ou no corredor, ou somente nos seus ouvidos, como um zumbido. Podia ser até que ela mesma estivesse fazendo aquele barulho. Não importava - tinha de se libertar.
Deu uma guinada com a cabeça e se liberou dos braços dele. Enquanto ele
ainda a olhava surpreso, boquiaberto, com o rosto tomando a forma de uma pergunta, ela o segurou pela mão e o levou para a cama. Era perverso da parte dela, até insano, já que queria fugir do quarto, pelos jardins e pelo caminho até a praia, onde poderia sentar-se sozinha. Um único minuto a sós já teria ajudado. Mas o sentimento do dever era doloroso e forte, e ela não conseguia resistir a ele. Não podia nem pensar em abandonar Edward. E não tinha dúvida de que estava completamente errada. Se todos os convidados do casamento e os familiares estivessem invisíveis e socados no quarto a observálos, todos esses fantasmas tomariam o partido de Edward e de seus desejos urgentes e justos. Admitiriam que havia algo errado com ela - e estariam certos.
Também sabia que seu comportamento era deplorável. Para sobreviver, para
escapar a esse momento hediondo, tinha que elevar as apostas e se entregar à seguinte, dando a impressão inútil de que a desejava. O ato final não podia ser adiado infinitamente. O momento vinha ao seu encontro, ao mesmo tempo que ela avançava insensatamente na direção dele. Era refém de um jogo cujas regras não podia questionar. Não podia fugir à lógica que a fizera conduzir, ou rebocar, Edward através da antecâmara, na direção da porta aberta do quarto e da cama estreita de dossel com a colcha branca e lisa. Não tinha a menor idéia do que faria quando chegassem lá, mas pelo menos aquele som medonho havia cessado, e, nos poucos segundos que lhe restavam até lá, sua boca e sua língua lhe pertenciam, ela podia respirar e tentar se recuperar.