Na Praia

Ian McEwan · Capítulo 5 de 5

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Na Praia

Capítulo 5

Ela o observou vindo pela praia, sua forma que de início não passava de uma

pequena mancha anil contra os seixos escurecidos, por vezes parecendo imóvel, bruxuleante e se dissolvendo em seus contornos, por outras subitamente mais próxima, como se avançasse à maneira de uma peça de xadrez, pulando algumas casas na direção dela.

Os últimos raios do sol desapareciam ao longo da costa, e atrás de Florence,

para o leste, havia pontos de luz em Portland, e a base da nuvem refletia o fulgor embotado das lâmpadas de rua de uma cidade distante. Ela o observou, desejando que diminuísse o passo, pois tinha a consciência pesada e sentia medo dele, precisava desesperadamente de mais tempo para si. Não importava o que tivessem para conversar, aquilo a apavorava. Do que conseguia compreender, não havia palavras para nomear o que acontecera, não havia linguagem comum em que dois adultos sãos podiam descrever tais fatos um para o outro. E discutir sobre isso estava bem além da sua imaginação. Não podia haver nenhum debate. Ela não queria pensar naquilo, e esperava que ele também não.

Mas do que mais podiam falar? E, além disso, por que estavam ali fora? O

assunto permanecia entre os dois, sólido como um acidente geográfico, uma montanha, um cabo. Inominável, inevitável. E ela estava envergonhada. Os tremores sucessivos ao choque do seu próprio comportamento reverberavam dentro dela e até pareciam ecoar em seus ouvidos.

Por isso correra para tão longe, pela praia, pelos seixos árduos, com a muda de

sapatos, para escapar ao quarto e a tudo o que ali ocorrera, e para escapar a si mesma. Comportara-se abominavelmente. Abominavelmente. Deixou a palavra feita, canhestra, repetir-se várias vezes nos pensamentos dela. Em última análise, o termo servia de desculpa - ela jogava tênis abominavelmente, sua irmã tocava piano abominavelmente -, e Florence sabia que apenas mascarava, em vez de descrever, o seu comportamento.

Ao mesmo tempo, tinha consciência da desonra dele quando se levantou por

cima dela, com aquele olhar cerrado, desnorteado, o espasmo reptiliano ao longo da espinha dorsal. Mas ela tentava não pensar nisso. Será que ousava admitir que estava um pouquinho aliviada por não ser só ela, por haver alguma coisa errada também com ele? Como seria terrível, mas também reconfortante, se ele sofresse de alguma forma de mal congênito, uma maldição familiar, o tipo de doença a que só se associam a vergonha e o silêncio, como a enurese ou o câncer, palavra que ela nunca pronunciara, por superstição, de medo que lhe infectasse a boca - uma tolice, na certa, que, no entanto, ela nunca confessaria. Então, eles poderiam se apiedar um do outro, unidos no amor por suas respectivas doenças. E ela realmente se condoia dele, mas também se sentia um tanto ludibriada. Se ele sofria de um estado de saúde incomum, por que não lhe confidenciara? Mas entendia perfeitamente por que ele não podia. Ela também não se abrira. Como é que ele podia encetar o assunto da sua própria deformidade, quais teriam sido suas palavras introdutórias? Elas não existiam. Tal linguagem ainda estava para ser inventada.

Mesmo durante o desenvolvimento elaborado desses pensamentos, ela sabia

muito bem que não havia nada errado com ele. Nada. Era ela e somente ela. Estava encostada numa grande árvore caída, provavelmente derrubada na praia por uma tempestade, com o córtex descascado pelo poder das ondas e a madeira acetinada e endurecida pela água salgada. Estava confortavelmente encravada no ângulo de um galho, sentindo no delgado das costas, através da circunferência maciça do tronco, o calor residual do dia. Assim teria ficado um recém-nascido, aninhado com segurança na dobra do braço da mãe, embora ela não acreditasse que alguma vez pudesse ter se aninhado em Violet, cujos braços eram finos e retesados pelo trabalho da escrita e do pensamento. Quando Florence tinha cinco anos, houve uma tal Babá Norland, muito roliça e maternal, com uma voz maviosa e escocesa, e as articulações em carne viva, que, porém, foi embora depois de alguma desonra inominada.

Florence continuava a observar o avanço de Edward pela praia, segura de que

ele ainda não podia vê-la. Daria para ela descer o barranco íngreme e esquivar-se de volta ao longo do Estuário, mas, apesar de temê-lo, achou que fugir seria demasiado cruel. Por um instante, viu o contorno dos ombros dele contra uma faixa prateada de água, uma corrente que se infiltrava mar adentro, atrás dele. Agora podia ouvir o som de suas passadas sobre os seixos, o que significava que ele também ouviria as dela. Ele tinha vindo nessa direção porque foi o que decidiram, o plano para depois do jantar, um passeio pela famosa restinga de seixos, com uma garrafa de vinho. Pretendiam coletar pedras pelo caminho e comparar o tamanho delas para ver se as tempestades realmente haviam posto ordem na praia.

A lembrança daquele prazer frustrado não a deixou especialmente compungida

agora, pois foi logo afastada por uma idéia, um pensamento anteriormente interrompido na mesma noite. Amar e deixar o outro livre. Era um argumento que ela podia defender, uma proposta audaciosa, ela pensou, se a fizesse para qualquer outro; para Edward, podia soar risível e idiota, talvez até mesmo insultante. Ela nunca mensurava o tamanho real da própria ignorância, porque havia assuntos em que até se considerava sensata. Precisava de mais tempo. Mas ele estaria com ela em segundos, e a terrível conversa teria de começar. Era outro dos seus defeitos não fazer a menor idéia de qual atitude ter com ele, quais sentimentos além do pavor do que ele podia dizer e do que lhe cabia responder. Não sabia se devia pedir desculpas ou esperá-las. Não estava apaixonada, nem lhe faltava amor - não sentia nada. Queria apenas ficar ali, sozinha no crepúsculo, apoiada na grandeza da sua árvore gigante.

Ele parecia trazer algum tipo de pacote na mão. Parou a uns bons metros de

distância, e apenas isso já lhe pareceu hostil, deixando-a em contrapartida propensa ao antagonismo. Por que ele viera tão logo atrás dela?

De fato, havia exasperação na voz dele. "Aí está você.” Ela não tinha o que responder a uma observação tão inane. "Você realmente tinha de vir tão longe?”

"Sim.”

"Devem ser mais de três quilômetros de volta até o hotel.” Ela se surpreendeu com a dureza na própria voz. "Tanto faz a distância. Eu

precisava sair.”

Ele deixou passar. Quando mudou de posição, as pedras tilintaram sob seus

pés. Agora, ela viu que era o paletó que ele carregava. Estava quente e úmido na praia, mais quente do que durante o dia. Incomodava-a que ele tivesse trazido o paletó. Pelo menos não pusera a gravata! Deus, como ela pôde ficar tão irritável de repente, quando minutos antes estava tão envergonhada?

Logo ela, em geral tão interessada na boa opinião dele, agora não estava nem

aí.

Ele se preparava para iniciar o que viera dizer, e deu um passo à frente. "Olha,

isso é ridículo. Foi injusto sair correndo daquele jeito.”

"Foi mesmo?”

"Na verdade, foi desagradável pra burro.”

"Ah, é? Bem, desagradável pra burro foi o que você fez.” "O quê?”

Ela manteve os olhos fechados ao dizer isto. "Você sabe muito bem do que

estou falando." Acabaria torturada pela lembrança do seu papel nesse diálogo, mas na hora completou: "Foi absolutamente revoltante".

Teve a impressão de ouvi-lo grunhir, como se tivesse levado um soco no

peito. Se ao menos o silêncio que se seguiu tivesse durado mais uns poucos segundos, a culpa teria tido tempo de se erguer contra ela, e talvez ela tivesse acrescentado alguma coisa menos cruel.

Mas Edward rebateu com toda a força. "Você não faz a menor idéia de como se

comportar com um homem. Se fizesse, isso nunca teria acontecido. Você nunca me deixou chegar perto. Você não conhece nada disso, não é? Leva as coisas como se estivéssemos em mil oitocentos e sessenta e dois. Você nem ao menos sabe beijar.”

Ela ouviu a si mesma dizer tranqüilamente: "Eu reconheço o fracasso quando o

vejo". Mas não era o que queria dizer, essa crueldade nada tinha a ver com ela. Era apenas o segundo violino respondendo ao primeiro, uma defesa retórica provocada pela brusquidez, pela precisão do ataque dele, pelo escárnio que ela ouviu em todos aqueles repetidos "você". Quanta acusação ela devia suportar num pequeno discurso?

Se é que ela o havia ferido, ele não dava sinais, embora ela mal pudesse ver seu

rosto. Talvez tivesse sido a escuridão que a encorajara. Quando voltou a falar, ele nem sequer levantou a voz.

"Não vou ser humilhado por você.”

"E eu não vou ser intimidada por você.”

"Não estou te intimidando.”

"Está, sim. Sempre está.”

"Isso é ridículo. Do que é que você está falando?” Ela não estava segura, mas sabia qual o caminho que tomava. "Você está

sempre me forçando, me forçando, querendo tirar alguma coisa de mim. Nunca podemos apenas ser. Nunca podemos apenas ser felizes. Tem sempre essa pressão. Você sempre quer alguma coisa a mais de mim. Essa engambelação interminável.”

"Engambelação? Não estou entendendo. Espero que você não esteja falando de

dinheiro.”

Ela não estava. Aquilo nem passava pela cabeça dela. Que coisa mais

despropositada, falar em dinheiro. Que ousadia da parte dele. E assim ela disse: "Está bem, agora você falou. Pelo visto, é o que está na sua cabeça".

O sarcasmo dele a atiçara. Ou sua impertinência. Ela se referia a algo mais

fundamental que o dinheiro, mas não sabia como dizê-lo. Era a língua dele se enfiando cada vez mais fundo na sua boca, a mão dele avançando debaixo da sua saia ou da blusa, puxando sua virilha para a dele, um jeito de desviar os olhos dela e se calar. Eram as expectativas que ele alimentava em relação a ela dar mais - e, porque não dava, ela era uma decepção e um pé no freio. A cada nova fronteira que ela ultrapassava, sempre havia outra a esperá-la mais adiante. A cada concessão que fazia, aumentavam as exigências, e a decepção. Mesmo nos momentos mais felizes entre os dois, havia sempre a sombra da acusação, o desalento mal disfarçado da insatisfação dele, avultando como um alpe, uma forma de mágoa perpétua, aceita pelos dois como sendo de responsabilidade dela. Ela queria estar apaixonada sem deixar de ser ela mesma. Mas, para ser ela mesma, tinha de dizer não o tempo inteiro. E aí já não era ela. Tinha sido relegada à doença, em oposição à vida normal. Irritava-a que ele tivesse vindo atrás dela tão depressa pela praia, em vez de lhe dar mais tempo para ficar sozinha. E o que eles discutiam ali, às margens do canal da Mancha, não passava de um detalhe de um quadro bem maior. Ela já podia ver o que viria em seguida. Teriam essa briga, fariam as pazes, ou em parte, ela seria persuadida a voltar para o quarto, e mais uma vez as expectativas recairiam sobre ela. E ela fracassaria de novo. Não conseguia respirar. Seu casamento tinha oito horas, e cada uma delas fora um peso nas suas costas, tanto maior por ela não saber como lhe descrever esses pensamentos. Então, o dinheiro teria que servir de assunto - na verdade, veio a calhar, já que agora ela estava inflamada.

Ele disse: "Nunca liguei para dinheiro, nem para o seu nem para o de

ninguém".

Ela sabia que era verdade, mas não disse nada. Ele tinha trocado de posição, de

modo que agora ela via nitidamente o seu contorno contra o brilho evanescente na água às suas costas.

"Guarde o seu dinheiro, o do seu pai, gaste com você. Compre um violino

novo. Não desperdice com nada que eu possa usar.”

A voz dele estava apertada. Ela o ofendera profundamente, mais até do que

pretendia, mas por enquanto não dava a mínima, e não ver o rosto dele a ajudava. Nunca falaram de dinheiro antes. O pai dela lhes dera duas mil libras como presente de casamento. Ela e Edward falaram apenas vagamente sobre algum dia comprar uma casa com o dinheiro.

Ele disse: "Você acha que eu te engambelei para arrumar aquele emprego? Foi

idéia sua. E eu não quero ficar com ele. Está entendendo? Não quero trabalhar para o seu pai. Pode dizer a ele que mudei de idéia".

"Diga você mesmo. Ele vai ficar agradecido. Ele se desdobrou por você.” "Está certo. Eu digo.”

Ele se virou e se afastou dela, na direção do mar, e voltou depois de poucos

passos, chutando os seixos com uma violência descarada e lançando no ar uma chuva de pedrinhas, algumas das quais aterrissaram junto aos pés dela. Seu ódio atiçou o dela, e de repente ela achou ter entendido o problema deles: eram demasiado educados, demasiado embaraçados, demasiado tímidos, andavam às voltas um do outro na ponta dos pés, murmurando, sussurrando, adiando, submetendo-se. Mal se conheciam, e nunca puderam se conhecer por causa da cortina de fumaça que enevoava suas diferenças com uma quase-mudez amistosa e os cegava tanto quanto os limitava. Haviam temido discordar um dia, e agora o ódio dele a liberava. Queria magoá-lo, puni-lo, para tornar-se diferente dele. O impulso rumo à excitação da destruição lhe era tão desconhecido, que ela não tinha como lhe oferecer resistência. Seu coração batia com força, e ela queria lhe dizer que o odiava, e estava mesmo prestes a dizer essas palavras ásperas e maravilhosas que nunca pronunciara antes na vida quando ele falou primeiro. Voltara ao ponto de partida, invocando toda a sua dignidade para repreendê-la.

"Por que você fugiu? Foi errado da sua parte, e ofensivo.” Errado. Ofensivo. Que patético!

Ela disse: "Eu já falei. Tinha que sair. Não estava agüentando ficar lá com

você".

"Você queria me humilhar.”

"Bom, se é isso que você quer. Eu estava tentando te humilhar. E o mínimo

que você merece por nem mesmo conseguir se controlar.”

"Você parece uma piranha falando desse jeito.”

A palavra foi como a explosão de uma estrela no céu noturno. Agora, ela podia

dizer o que quisesse.

"Se é isso que você pensa, então me deixe em paz. Simplesmente suma daqui,

está bem? Edward, por favor, vá embora. Você não está entendendo? Vim até aqui para ficar sozinha.”

Ela sabia que ele havia se dado conta de ter ido longe demais ao usar aquela

palavra, e agora estava num beco sem saída. Ao lhe dar as costas, sabia que estava representando, sendo tática de uma forma que sempre desdenhara em suas amigas mais expansivas. Estava cansada da conversa. Mesmo o melhor resultado apenas a levaria de volta às velhas estratégias silenciosas. Quando ficava infeliz, costumava imaginar o que mais gostaria de estar fazendo. Nesse caso, soube imediatamente. Imaginou se na plataforma da estação ferroviária de Oxford, esperando o trem para Londres às nove da manhã, com a caixa do violino na mão, um maço de partituras e um feixe de lápis apontados na velha bolsa escolar de lona pendurada no ombro, indo para um ensaio com o quarteto, para um encontro com a beleza e a dificuldade, com problemas que podiam de fato ser resolvidos por amigos trabalhando juntos. Ao passo que ali, com Edward, não havia solução que ela pudesse imaginar, a não ser que fizesse sua proposta, e agora já não sabia se tinha coragem. Estava realmente encurralada, sua vida presa a esse estranho de um vilarejo nas colinas de Chutem, que conhecia o nome das flores silvestres e das plantas e de todos os reis e papas medievais. Agora lhe parecia realmente extraordinário que tivesse escolhido essa situação, esse embaraço, para si.

Ainda lhe dava as costas. Sentiu que ele se aproximara, imaginava-o bem atrás

de si, com as mãos caídas ao lado do corpo, a abri-las e fechá-las brandamente, conforme considerava a possibilidade de tocar o seu ombro.

Da escuridão sólida das colinas, transportado através do Estuário, veio o canto

de um único pássaro, convoluto e mavioso. Pela beleza do canto e pela hora do dia, ela o teria tomado por um rouxinol. Mas os rouxinóis viviam na costa? Cantavam em julho? Edward saberia, mas ela não estava em condições de perguntar.

Ele disse à maneira de arremate: "Eu te amava, mas você torna isso tão difícil". Ficaram em silêncio enquanto as implicações do tempo verbal que ele usara se

consolidavam ao redor deles. E então ela disse por fim, abismada: "Você me amava?".

Ele não se corrigiu. Talvez ele próprio não fosse um tático tão ruim. Disse

apenas: "Podíamos ser tão livres um com o outro, podíamos estar no paraíso. Em vez disso, nos metemos nesta encrenca".

Essa verdade sem rodeios a desarmou, assim como a reversão a um tempo

verbal mais promissor. Mas a palavra "encrenca" trouxe-lhe de volta a cena infame no quarto, a substância tépida secando em sua pele até virar uma crosta rachada. Estava segura de nunca mais deixar isso se repetir.

Respondeu, com neutralidade: "Sim".

"Sim o quê?”

"É uma encrenca.”

Fez-se um silêncio, uma espécie de impasse, de duração indeterminada,

enquanto eles se puseram a escutar as ondas e o canto intermitente do pássaro, que se afastara e cujo pio, agora desfalecido, tornara-se ainda mais claro. Afinal, como ela previa, ele pousou a mão em seu ombro. Foi um toque cordial, que lhe espalhou calor ao longo da espinha, pela curva das costas. Ela não sabia o que pensar. Desagradava-a que estivesse calculando o momento em que iria se virar, ela se via como ele a via, tão inábil e quebradiça quanto sua mãe, difícil de conhecer, criando dificuldades quando podiam estar em paz no paraíso.

Então, devia tornar as coisas simples. Era sua obrigação, sua obrigação

conjugal. Ao se virar, afastou-se do toque dele, porque não queria que a beijasse, não assim de cara.

Precisava estar com a cabeça desanuviada para lhe contar seu plano. Mas ainda

estavam bastante próximos para que ela discernisse parte das feições dele sob a pouca luz. Talvez naquele momento a lua atrás dela estivesse parcialmente descoberta. Ela achou que ele a observava como costumava fazer - era um olhar de admiração - sempre que estava para lhe dizer como ela era bonita. Nunca acreditara realmente nele, e a incomodava que dissesse aquilo, porque podia estar querendo alguma coisa que ela não podia dar. Perdida nessas divagações, não poderia chegar ao seu propósito.

Viu-se perguntando: "É um rouxinol?".

"Um melro.”

"À noite?" Não conseguia esconder a decepção.

"Deve ser um local de acasalamento. O coitado está tendo que dar duro." E

acrescentou: "Como eu".

Ela riu, imediatamente. Foi como se tivesse em parte se esquecido dele, de sua

verdadeira realidade, e agora o visse de novo diante dela, o homem que ela amava, seu velho amigo, que dizia coisas imprevisíveis e carinhosas. Mas era um riso de desconforto, pois se sentia um pouco louca. Nunca chegara a conhecer os próprios sentimentos, seus estados de espírito, com tantas quedas e oscilações. E agora estava para fazer uma sugestão que, de um ponto de vista, era totalmente sensata e, de outro, muito provavelmente - ela não podia ter certeza -, um verdadeiro ultraje. Sentia como se estivesse tentando reinventar a própria existência. Estava condenada ao erro.

Inspirado pelo riso dela, ele se aproximou de novo e tentou pegar sua mão, e

mais uma vez ela se afastou. Era crucial poder pensar direito. Ela deu início ao seu discurso conforme o havia ensaiado em pensamento, com a declaração mais importante.

"Você sabe que eu te amo. Muito, muito mesmo. E sei que você me ama.

Nunca duvidei disso. Amo estar ao seu lado e quero passar a vida com você, e você diz que sente o mesmo por mim. Tudo devia ser muito simples. Mas não é - estamos numa encrenca, como você disse. Mesmo com todo esse amor. Também sei que a culpa é toda minha, e ambos sabemos por quê. Deve estar bem claro para você agora que...”

Ela vacilou; ele tentou falar, mas ela levantou a mão. "Que eu não tenho jeito, absolutamente nenhum jeito, para o sexo. Não é só

que não sou boa na cama, parece que não preciso disso como os outros, como você precisa. Simplesmente não faz parte de mim. Não gosto de sexo, não gosto de pensar em sexo. Não faço a menor idéia do porquê, mas não acho que vá mudar. Não imediatamente. Pelo menos, não consigo me imaginar mudando. E, se eu não disser isso agora, vamos passar a vida nos debatendo, e isso vai te fazer muito infeliz, e a mim também.”

Dessa vez, quando ela fez uma pausa, ele permaneceu em silêncio. Estava a dois

metros dela, agora não passava de uma silhueta, totalmente imóvel. Ela ficou receosa, e se forçou a prosseguir.

"Talvez eu devesse me submeter a uma psicanálise. O que preciso talvez seja

realmente matar minha mãe e casar com meu pai.”

A galhardia da pequena piada que ela concebera antes, para abrandar a

mensagem, ou fazê-la soar menos inexperiente, não provocou nenhuma reação de Edward. Ele permanecia absolutamente parado, como uma forma inescrutável e bidimensional contra o mar ao fundo. Num movimento incerto e nervoso, ela levantou a mão para tirar da testa um fio de cabelo pendente e imaginário. No seu nervosismo, passou a falar mais depressa, embora suas palavras fossem enunciadas precisamente.

Como um patinador sobre gelo fino, ela acelerava para evitar o afogamento.

Disparava com as frases, como se bastasse a velocidade para fazer sentido, como se também pudesse propeli-lo além das contradições, girá-lo com tal rapidez em torno da curva das suas intenções que já não lhe restaria objeção a que se agarrar. Por não atropelar as palavras, ela soava desgraçadamente animada, quando na verdade estava perto do desespero. "Pensei nisso com cuidado, e não é tão estúpido quanto parece. Quero dizer, quando se ouve pela primeira vez. Nós nos amamos - isso é incontestável. Nenhum de nós duvida. Já sabemos que nos fazemos felizes. Agora estamos livres para fazer nossas próprias escolhas, nossas próprias vidas. É sério, ninguém pode nos dizer como viver. Somos agentes livres! E as pessoas vivem de várias maneiras hoje em dia, podem viver segundo suas próprias regras e padrões, sem ter de pedir permissão a mais ninguém. Mamãe conhece dois homossexuais que vivem juntos num apartamento, como marido e mulher. Dois homens. Em Oxford, na Beaumont Street. São muito discretos. Ambos ensinam em Christ Church. Ninguém os amola. E nós também podemos fazer nossas próprias regras. É porque eu sei que você me ama que na verdade posso dizer isso. O que eu quero dizer, Edward, é o seguinte: eu te amo, e não precisamos viver como os outros, quero dizer, ninguém, ninguém mais... ninguém tem de ficar sabendo o que fizemos e o que não fizemos. Podemos ficar juntos, viver juntos, e, se você quiser, se quiser realmente, ou seja, sempre que acontecer, e é claro que vai acontecer, eu vou entender, mais que isso, vou desejar que aconteça, porque quero que você seja feliz e livre. Nunca vou sentir ciúmes, enquanto souber que você me ama. Vou amá-lo e tocar música, é tudo o que eu quero da vida. Sinceramente. Só quero estar ao seu lado, cuidar de você, ser feliz com você, e trabalhar com o quarteto, e um dia tocar alguma coisa, alguma coisa bela para você, como o Mozart, no Wigmore Hall.”

Parou de repente. Não tinha previsto falar de suas ambições musicais, e achou

que fora um erro.

Ele emitiu um ruído entre os dentes, mais um silvo que um suspiro, e, ao falar,

deixou escapar o som de um ganido. Sua indignação era tão violenta que soava como um triunfo. "Meu Deus! Florence. Será que entendi bem? Você quer que eu saia com outras mulheres! É isso?”

Ela disse, com tranqüilidade: "Não se você não quiser". "Está me dizendo que posso fazer com quem eu quiser menos com você.” Ela não respondeu.

"Você de fato esqueceu que nos casamos hoje? Não somos duas bichas vivendo

em segredo na Beaumont Street. Somos marido e mulher!”

As nuvens mais baixas se dissiparam de novo, e, embora não houvesse luz

direta da lua, um brilho tênue, difuso pelas camadas mais altas, moveu-se pela praia até incluir o casal em pé ao lado da grande árvore caída. Na sua fúria, ele se curvou para pegar uma pedra grande e lisa, com a qual acertou em cheio a palma da mão direita, para em seguida esmagá-la de volta contra a palma da esquerda.

Agora estava quase gritando. "Com meu corpo eu Te venero! Foi o que você

prometeu hoje. Na frente de todo mundo. Você não percebe como a sua idéia é nojenta e ridícula? E o tamanho do insulto. Um insulto a mim! O que eu quero dizer é, é" - ele procurava as palavras - "como você ousa?”

Deu um passo na direção dela, levantando a mão fechada com a pedra, e então

se virou e, na sua frustração, arremessou a pedra no mar. Antes mesmo de a pedra tocar o chão, pouco antes da água, ele voltou a encará-la. "Você me enganou. Na verdade, você é uma fraude. E eu sei muito bem o que mais. Sabe o quê? Você é frígida, é isso. Completamente frígida. Mas achou que precisava de um marido, e eu fui o primeiro babaca que apareceu.”

Ela sabia não ter premeditado enganá-lo, mas todo o resto, assim que ele falou,

pareceu inteiramente verdadeiro. Frígida, aquela palavra terrível - ela compreendeu como se aplicava a si. Ela era exatamente o que a palavra dizia. Sua proposta era nojenta- como não vira antes? - e um insulto óbvio. E o pior de tudo era que tivesse quebrado sua promessa, feita em público, numa igreja. Assim que ele falou, tudo se encaixou perfeitamente. Aos seus próprios olhos, como aos dele, ela não valia nada.

Ela não tinha mais nada a dizer, e se afastou da proteção da árvore abatida. Para

voltar ao hotel, tinha de passar por Edward, e, ao fazê-lo, parou bem diante dele e disse, não mais do que num sussurro: "Desculpe, Edward. Eu lamento profundamente".

Por um instante, ela ficou ali, à espera de uma resposta, e então seguiu seu

caminho.

As palavras dela, sua construção particularmente arcaica, ainda o assombrariam

por muito tempo. Despertaria no meio da noite a ouvi-las, ou algo como o seu eco, e o tom compassivo e triste, e gemeria diante da recordação daquele momento, do seu silêncio e da maneira como dera as costas a Florence, irritado, de como ficara mais uma hora na praia, saboreando toda a delícia da injúria e da afronta e do insulto que ela lhe infligira, exaltado pelo sentido lamuriento de estar inteira e tragicamente coberto de razão. Andou para cima e para baixo sobre os exaustivos seixos, atirando pedras ao mar e gritando obscenidades. Então, despencou ao lado da árvore e se perdeu em devaneios de autopiedade até conseguir novamente insuflar sua raiva.

Ficou na beira da água, pensando nela, e, na sua distração, deixou as ondas lhe

encharcarem os sapatos. Por fim, arrastou-se de volta pela praia, parando de vez em quando para se dirigir a um juiz implacável e imparcial, em sua cabeça, que compreendia perfeitamente o seu caso. No seu infortúnio, sentia-se quase superior.

Quando chegou ao hotel, ela já tinha feito a mala de pernoite e ido embora.

Não deixou nenhum bilhete no quarto. Na recepção, ele falou com os dois rapazes que serviram o jantar no carrinho. Apesar de não dizerem nada, ficaram claramente surpresos de ele não saber que alguém da família caíra doente e que sua mulher fora chamada às pressas. O auxiliar de gerente fez a gentileza de levá-la de carro até Dorchester, onde ela pretendia pegar o último trem e fazer uma conexão tardia para Oxford. Ao lhes dar as costas para subir à suíte nupcial, Edward não teria podido ver os rapazes trocarem olhares sugestivos, mas podia muito bem imaginá-los.

Passou a noite acordado, jogado na cama de dossel, vestido, ainda furioso. Os pensamentos se sucediam numa dança circular, num delírio de eterno retorno. Que ela tivesse se casado com ele para depois rejeitá-lo era monstruoso, ela queria que ele saísse com outras mulheres, talvez quisesse observá-lo, era uma humilhação, inacreditável, ninguém ia acreditar naquilo, disse que o amava, e ele mal chegara a ver os seios dela, ela o enredou no casamento, nem sabia beijar, e o enganou, iludiu, ninguém podia saber, tinha de ser o seu segredo vergonhoso, que ela tivesse se casado com ele para depois rejeitá-lo era monstruoso...

Pouco antes do amanhecer, ele se levantou e foi até a antecâmara e, em pé atrás

da cadeira onde sentara, raspou o molho solidificado da carne e das batatas no seu prato e as comeu. Depois, limpou o prato dela - para ele, tanto fazia de quem era o prato. Então, comeu todos os chocolates recheados de hortelã e, em seguida, o queijo. Deixou o hotel com o nascer do sol e dirigiu o pequeno carro de Violet Ponting por quilômetros de pistas estreitas flanqueadas por sebes altas, com o cheiro de estéreo e de grama cortada se precipitando pela janela aberta, até chegar à estrada principal e vazia na direção de Oxford.

Deixou o carro do lado de fora da casa dos Ponting, com as chaves no contato.

Saiu sem olhar para a janela de Florence e atravessou a cidade, apressado, com sua mala, para pegar um trem matutino. Entorpecido de exaustão, fez a pé o longo caminho entre Henley e Turville Heath, tomando as precauções para não repetir o mesmo trajeto que ela percorrera no ano anterior. Por que haveria de seguir os passos dela? Uma vez em casa, recusou-se a dar explicações ao pai. A mãe já tinha se esquecido de que ele se casara. As gêmeas o atormentaram sem parar com perguntas e especulações perspicazes. Ele as levou ao fundo do jardim e fez Harriet e Anne prometerem, solenemente, uma por vez, com a mão no coração, que nunca mais diriam o nome de Florence.

Uma semana depois, soube pelo pai que a senhora Ponting tinha tratado com

eficiência de devolver todos os presentes de casamento. Reservada e discretamente, Lionel e Violet deram entrada num pedido de divórcio com base na não-consumação do ato.

Por sugestão do pai, Edward escreveu uma carta formal a Geoffrey Ponting,

presidente da Ponting Electronics, lamentando uma "mudança de idéia" e, sem mencionar Florence, apresentou suas desculpas, sua demissão e uma breve despedida.

Mais ou menos um ano depois, com a ira já aplacada, ele ainda era impedido

pelo orgulho de procurá-la ou lhe escrever. Temia que Florence estivesse com alguém, e, como não soubera mais dela, acabou convencido disso. Lá pelo fim daquela década tão celebrada, quando sua vida sofreu a pressão de novos estímulos, liberdades e modas, assim como do caos de vários casos amorosos - tornara-se afinal razoavelmente competente -, ele pensava vez por outra na estranha proposta que ela lhe fizera, a qual já não lhe parecia tão ridícula, e por certo nada repugnante ou insultuosa. Nas novas e atuais circunstâncias, a oferta parecia, ao contrário, liberada e muito à frente do seu tempo, inocentemente generosa, um ato de auto-sacrifício que ele simplesmente fora incapaz de compreender. Meu caro, que proposta!, seus amigos poderiam ter lhe dito, embora nunca tivesse falado daquela noite com ninguém. Agora, no final dos anos 60, ele vivia em Londres. Quem poderia ter previsto tais transformações - a súbita exaltação do prazer sensual sem culpa, a disposição descomplicada de tantas belas mulheres? Edward vagou por aqueles anos breves como uma criança feliz e confusa, liberada de um longo castigo, sem ainda acreditar completamente na sua sorte. A série de livros concisos de história e todas as considerações sobre uma vida acadêmica séria ficaram para trás, embora nunca houvesse um objetivo preciso e especial quando tomava uma decisão firme sobre seu futuro. Assim como o pobre Sir Robert Carey, ele simplesmente descera do trem da história para viver no aconchego do presente.

Envolveu-se com a organização de vários festivais de rock, ajudou a abrir um

restaurante de comida natural em Hampstead, trabalhou numa loja de discos próxima do canal em Camden Town, escreveu críticas de rock para pequenas revistas, viveu uma seqüência caótica e imbricada de amantes, viajou pela França com uma mulher que se tornaria sua esposa por três anos e meio, e com ela viveu em Paris. No fim das contas, tornou-se sócio da loja de discos. Sua vida era demasiado agitada para que pudesse ler os jornais, e, além disso, durante um tempo, foi da opinião de que não dava para acreditar honestamente na "grande" imprensa, pois todo mundo sabia que ela era controlada pelos interesses do Estado, militares ou financeiros - um ponto de vista que mais tarde Edward renegou. Mesmo se lesse os jornais naquela época, era improvável que abrisse as páginas de cultura e chegasse às resenhas sérias e longas sobre os concertos. Seu interesse precário por música clássica se dissipara inteiramente em prol do rock and roll. De modo que nunca soube da estréia triunfal do Quarteto Ennismore no Wigmore Hall, em julho de 1968. O crítico do Times saudou a chegada de "sangue novo e paixão jovial à atual cena lírica". Elogiou a "perspicácia, a intensidade meditativa, a interpretação incisiva", que sugeria "uma espantosa maturidade musical em intérpretes ainda na casa dos vinte anos. Dominaram com magistral desenvoltura toda a panóplia de efeitos harmônicos e dinâmicos e a rica notação contrapontística que caracteriza o estilo tardio de Mozart. Seu Quinteto em ré maior nunca foi executado de maneira tão sensível". No fim da crítica, ele destacou a líder do grupo, o primeiro violino. "Veio, então, um Adágio de expressividade seca, grande beleza e poder espiritual. A senhorita Ponting, na cadência suave do seu tom e na delicadeza lírica da sua frase, tocou, se é que posso assim dizer, como uma mulher apaixonada, não apenas por Mozart, ou pela música, mas pela própria vida.”

E, mesmo se Edward tivesse lido aquela crítica, não teria podido saber -

ninguém podia além de Florence - que, ao se acenderem as luzes da sala, quando os jovens músicos ofuscados se levantavam para agradecer aos aplausos de êxtase, o primeiro violino não podia evitar que seu olhar corresse sempre para o meio da terceira fila, até a poltrona C.

Anos depois, sempre que Edward pensava nela e se dirigia a ela em sua cabeça,

ou imaginava escrever-lhe, ou esbarrar nela na rua, parecia-lhe que uma explicação de sua vida tomaria menos de um minuto, menos de meia página. O que fizera de si? Deixou-se levar, semi-adormecido, desatento, sem ambições, leviano, infantil, acomodado.

Suas modestas realizações foram na maioria materiais. Possuía um

apartamento mínimo em Camden Town, metade de uma casa de campo de dois quartos na Auvérnia e duas lojas de discos especializadas em jazz e em rock and roll, empreendimentos precários que estavam sendo lentamente minados pelo comércio na internet. Supunha ser considerado um amigo decente pelos amigos, e de fato tinham passado bons momentos, momentos entusiásticos, especialmente nos primeiros anos. Era padrinho de cinco crianças, embora só tenha começado a agir como tal quando já estavam no final da adolescência ou com pouco mais de vinte anos.

Em 1976, a mãe de Edward morreu, e passados quatro anos ele se mudou de

volta para o sítio, a fim de cuidar do pai, que sofria de um Parkinson galopante. Harriet e Anne estavam casadas e com filhos, e ambas viviam no exterior. Por essa época, Edward, aos quarenta anos, trazia um casamento fracassado na bagagem. Viajava até Londres três vezes por semana para tomar conta das lojas. Seu pai morreu em casa, em 1983, e foi enterrado no cemitério de Pishill, ao lado da mulher. Edward permaneceu na casa como locatário - as irmãs eram as proprietárias legais agora. Inicialmente, usou o lugar como refúgio e alternativa a Camden Town, e depois, no começo dos anos 90, mudou-se de vez para lá, para viver sozinho. Fisicamente, Turville Heath - ou o que ali era o seu canto - não mudara muito em relação ao lugar onde ele crescera. Em vez de trabalhadores rurais ou artesãos, os vizinhos agora ou eram pessoas que trabalhavam na cidade e só voltavam à noite para dormir ou proprietários de casas de campo de fim de semana, mas todos eram muito simpáticos. E Edward nunca teria descrito a si mesmo como um infeliz - entre seus amigos de Londres, havia uma mulher por quem nutria algum afeto; até cinqüenta e muitos anos, jogou críquete pelo Turville Park; participou ativamente de uma sociedade histórica em Henley, e teve um papel importante na restauração dos antigos canteiros de agrião em Ewelme. Trabalhava dois dias por mês para um consórcio, com sede em High Wycombe, que assistia crianças com lesões cerebrais.

Mesmo aos sessenta anos, um homem grande e robusto, com entradas e cabelo

branco, o rosto rosado e saudável, ele continuava fazendo longas caminhadas. Sua excursão diária ainda seguia pela alameda dos limoeiros, e, quando o tempo estava bom, ele dava uma volta para ver as flores silvestres nas terras do Estado em Maidensgrove, ou as borboletas na reserva natural em Bix Bottom, retornando pelos bosques de faias até a igreja de Pishill, onde acreditava que um dia também seria enterrado. Às vezes, chegava a uma bifurcação do caminho no fundo de um bosque de faias e pensava inutilmente que devia ter sido bem ali que ela fizera uma pausa para consultar o mapa naquela manhã de agosto, e ele a imaginava vivida, a pouco mais de um metro dele, fazia quarenta anos, decidida a encontrá-lo. Ou então ele fazia uma pausa diante da vista do vale de Stonor e se perguntava se não teria sido ali que ela havia parado para comer sua laranja. Afinal, ele podia admitir para si mesmo que nunca encontrara ninguém a quem tivesse amado tanto quanto a amara, que nunca achara ninguém, homem ou mulher, que lhe igualasse em seriedade. Talvez, se houvesse ficado com ela, pudesse ter sido mais ambicioso e ter se concentrado mais em sua própria vida, talvez tivesse escrito aqueles livros de história. Ele não tinha nada a ver com aquele mundo, mas sabia que o Quarteto Ennismore era notável e que continuava a ser um destaque reverenciado na cena da música clássica. Nunca assistiria aos concertos, não compraria, nem mesmo olharia, as caixas de CDS de Beethoven ou de Schubert. Não queria ver a fotografia dela e descobrir o trabalho dos anos, ou ouvir detalhes sobre sua vida.

Preferia preservá-la do jeito que ela estava em suas memórias, com o dente-

de-leão numa casa de botão da blusa e a tira de veludo no cabelo, a bolsa de lona pendurada de través no ombro, e o belo rosto anguloso com seu sorriso largo e sincero. Quando pensava nela, parecia-lhe surpreendente que tivesse deixado aquela garota com seu violino ir embora. Agora, é claro, via que a proposta recatada que ela lhe fizera era totalmente irrelevante. Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia de que não havia pressa, pois tinham a vida pela frente. Amor e paciência -se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo - certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades. E que dizer das crianças que poderiam ter tido, e da menininha com um arco no cabelo que poderia ter se tornado sua filha querida? É assim que todo o curso de uma vida pode ser desviado - por não se fazer nada. Na praia de Chesil, ele poderia ter gritado o nome de Florence, poderia ter ido atrás dela. Ele não sabia, ou não teria querido saber, que, enquanto ela fugia, certa na sua dor de que o estava perdendo, nunca o amara tanto, ou mais desesperadamente, e que o som da voz dele teria sido seu resgate, e que ela teria voltado atrás. Em vez disso, ele permaneceu num silêncio frio e honrado, na penumbra do verão, a observá-la em sua precipitação ao longo da orla, o som do seu avanço difícil perdendo-se entre o das pequenas ondas a quebrar na praia, até ela ser apenas um ponto borrado, desaparecendo na estrada estreita e infinita de seixos brilhando sob a luz pálida.

{1}

Antigo imposto territorial.

{2}

Chapéu m ole de feltro

{3} CND, na sigla em inglês.

Você terminou Na Praia

Ian McEwan

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