Na Praia
Capítulo 3
Quando Florence chegou ao quarto, largou a mão de Edward e, apoiando-se
numa das quatro colunas de carvalho que sustentavam o dossel da cama, inclinou-se primeiro para a direita, depois para a esquerda, deixando cair com formosura um ombro por vez, de maneira a remover a muda de sapatos que havia comprado com a mãe numa tarde chuvosa e tensa na Debenhams - era incomum e desgastante para Violet entrar numa loja. Os sapatos eram de um couro mole, azul-claro, de salto baixo e com um lacinho de couro habilidosamente retorcido na frente, num azul mais escuro. A noiva não estava apressada em seus movimentos - era mais uma das táticas de adiamento que só faziam comprometê-la ainda mais. Estava consciente do olhar encantado do marido, mas por enquanto não se sentia muito abalada nem pressionada. Ao entrar no quarto, mergulhara num estado desconfortável, onírico, que a estorvava como um escafandro ultrapassado em águas profundas. Seus pensamentos não pareciam ser seus -eram soprados até ela, pensamentos em vez de oxigênio.
E nessa condição ela havia tomado consciência de uma frase musical simples e
grandiosa, que se repetia na maneira obscura e inacessível da memória auditiva, a acompanhá-la até a cama, onde tocou novamente enquanto ela segurava um sapato em cada mão. A frase familiar - alguns podiam até considerá-la famosa - consistia em quatro notas ascendentes, que pareciam esboçar uma pergunta. Como o instrumento era um violoncelo, e não o seu violino, o interrogador não era ela, porém um observador distanciado, levemente incrédulo, mas insistente também, já que, após um breve silêncio, uma demora e a réplica inconvincente de outro instrumento, o violoncelo repetia a pergunta, em outros termos, em outros acordes, e outra vez, e mais outra, e a cada uma delas recebia uma resposta duvidosa. Não havia um conjunto de palavras que ela pudesse fazer corresponder a essas notas; não era como se alguma coisa estivesse sendo dita. A pergunta não tinha conteúdo, era pura como um sinal de interrogação.
Era a abertura de um quinteto de Mozart, causa de uma certa disputa entre
Florence e seus amigos, porque tocá-la significava recrutar outra viola, e os demais preferiam evitar complicações. Mas Florence insistia, queria alguém para tocar essa peça, e, quando convidou uma amiga de corredor a juntar-se a eles no ensaio em que a leram pela primeira vez até o final, o violoncelista, naturalmente, na sua vaidade, deixou-se seduzir e logo os outros também cederam ao seu feitiço. Quem não cederia? A abertura podia desafiar com uma questão difícil a coesão do Quarteto Ennismore - assim batizado em homenagem ao endereço do albergue das garotas -, mas o problema já estava resolvido a priori pela determinação de Florence diante da oposição, uma contra três, e por sua obstinação no que dizia respeito ao seu próprio bom gosto.
Ao atravessar o quarto, ainda de costas para Edward, ainda brincando com o
tempo, para dispor os sapatos cuidadosamente no chão ao lado do armário, as mesmas quatro notas fizeram-na lembrar desse outro aspecto da sua natureza.
A Florence que comandava o quarteto, que impunha a sua vontade com frieza,
nunca se submeteria docilmente às expectativas convencionais. Não era nenhuma ovelha para ser esfaqueada em silêncio. Ou penetrada. Perguntava a si mesma exatamente o que queria e o que não queria do casamento, estava preparada para dizê-lo alto e bom som a Edward, e esperava chegar a uma forma de acordo com ele. O que cada um desejava não podia ser, por certo, às custas do outro. O objetivo era amar e deixar o outro livre. Sim, ela precisava se manifestar, como fazia nos ensaios, e seria agora. Já tinha até o início de uma proposta na ponta da língua. Abriu a boca e tomou fôlego. E foi quando, ao som de uma tábua do chão, ela se virou e o viu, sorrindo, vindo na direção dela, com seu belo rosto um pouco rosado, e a idéia libertadora - como se nunca tivesse sido sua - se dissipou.
Sua muda de roupa era um vestidinho estival de algodão azul-piscina, a
combinação perfeita para os sapatos, que ela só foi encontrar depois de horas batendo perna entre Regent Street e Marble Arch, por sorte sem a mãe. Quando Edward a puxou para os braços dele, não foi para beijá-la, mas primeiro para apertá-la contra o corpo, e em seguida pôr a mão na sua nuca, procurando o fecho do vestido. A outra mão estava espalmada e firme sobre o delgado das costas dela, enquanto ele sussurrava alguma coisa no seu ouvido, tão forte e tão perto, que ela só ouvia um rugido de ar quente e úmido. Mas não dava para abrir o zíper com uma única mão, pelo menos não ao longo dos primeiros dois ou três centímetros. Era preciso segurar o vestido reto no alto com uma das mãos, enquanto se puxava o fecho com a outra, do contrário o tecido fino se dobrava e o zíper emperrava. Ela teria esticado e dobrado os braços por sobre os ombros para ajudá-lo, mas estava presa, e, além do mais, não parecia correto mostrar-lhe o que fazer. Acima de tudo, não queria ferir os sentimentos dele. Com um suspiro profundo, Edward puxou o zíper com mais vigor, tentando forçá-lo, mas havia chegado a um ponto em que o fecho já não se movia nem para cima nem para baixo.
Por enquanto, ela estava presa dentro do vestido.
"Pelo amor de Deus, Flo. Dá para ficar quieta um instante?" Obediente, ela se imobilizou, horrorizada com a agitação na voz dele, automaticamente certa de que a culpa era sua. Afinal, o vestido era seu, e o zíper também. Teria sido de alguma ajuda, ela pensou, libertar-se dos braços dele e lhe dar as costas, aproximando-se da janela para obter mais luz. Mas podia parecer pouco afetuoso, e a interrupção revelaria a dimensão do problema. Em casa, ela contava com a irmã, muito hábil com os dedos, apesar de sua interpretação abismal no piano. A mãe não tinha paciência para coisas pequenas. Pobre Edward - ela sentiu nos ombros os tremores do esforço nos braços dele quando passou a empregar as duas mãos, e imaginou seus dedos grossos tateando entre as pregas do tecido enganchado e o metal obstinado. Sentia pena dele, e também um certo temor. A mais tímida das sugestões poderia enfurecê-lo ainda mais. Por isso, ela agüentou pacientemente até que ele afinal se desgarrasse dela com um gemido e se afastasse.
Na verdade, estava contrito. "Desculpe. Que droga! Eu sou tão atrapalhado!” "Querido, acontece comigo o tempo todo." Os dois sentaram juntos na cama.
Ele sorriu, dando a entender que não acreditava nela mas agradecia o comentário. Ali, no quarto, as janelas estavam escancaradas para a mesma vista do gramado do hotel, do bosque e do mar. Uma repentina mudança no vento ou na maré, ou talvez o rasto de um navio de passagem, trouxe o barulho de várias ondas, quebrando numa seqüência de batidas vigorosas na praia. E então, com a mesma rapidez, as ondas voltaram a lamber os seixos como antes, rumorejando suavemente ao longo da restinga.
Ela pôs o braço em torno dos ombros dele. "Quer saber um segredo?” "Sim.”
Ela pegou o lobo da orelha dele entre o indicador e o polegar, puxou
gentilmente sua cabeça na direção dela e sussurrou: "Na verdade, estou com um pouco de medo".
Não era essa exatamente a verdade, mas, previdente como ela era, nunca teria
podido descrever a sucessão de seus sentimentos: uma sensação física e seca de aperto e encolhimento, uma repugnância generalizada pelo que talvez fosse solicitada a fazer, vergonha diante da perspectiva de decepcioná-lo e de se revelar uma fraude. Tinha aversão a si mesma e, ao sussurrar no ouvido dele, sentiu as palavras sibilarem em sua boca como as de um vilão no teatro. Mas era melhor falar do medo do que admitir a repulsa e a vergonha. Tinha de fazer todo o possível para baixar as expectativas dele.
Ele a olhava, e nada em sua expressão indicava que a tivesse ouvido. Mesmo
naquele estado difícil, ela ainda se admirava com seus olhos castanhos e serenos, com tanta inteligência e perdão. Talvez se os fitasse e nada visse além disso, ela fosse capaz de fazer simplesmente qualquer coisa que ele lhe pedisse. Teria confiado nele inteiramente. Mas isso era fantasia.
Por fim, ele disse: "Acho que também estou". Enquanto falava, pôs a mão logo
acima do joelho dela e a escorregou sob a barra do vestido até o interior da coxa, onde a descansou com o polegar tocando a calcinha. As pernas dela estavam nuas e lisas, bronzeadas dos banhos de sol no jardim, das partidas de tênis com velhos amigos de escola nas quadras públicas de Summertown e de dois longos piqueniques com Edward nas encostas floridas acima do belo vilarejo de Ewelme, onde fora sepultada a neta de Chaucer. Continuavam a fitar os olhos um do outro - e nisso se consumavam. A consciência do toque dele, da pressão morna e pegajosa da mão dele em sua pele, era tanta que ela até podia imaginar, podia ver, precisamente o polegar longo e curvo na penumbra azulada sob o vestido, pacientemente estacionado, como uma máquina de guerra a sitiar uma cidade do lado de fora das muralhas, a unha bem aparada, roçando a seda creme e enrugada em pequenos drapejados ao longo do arremate de renda da calcinha, a tocar também - tinha certeza disso, podia sentir claramente - um pêlo crespo e rebelde.
Ela estava fazendo de tudo para não tensionar um dos músculos da perna que
se contraía a despeito dela, sem o seu acordo; era tão inevitável e involuntário quanto um espirro. Não chegava a sentir dor, conforme o feixe traiçoeiro de músculos se travava num leve espasmo, mas era como se já não o controlasse, dando a primeira indicação da extensão do problema. Edward na certa havia sentido a pequena tormenta sob a mão, tanto que seus olhos se arregalaram, meticulosos, e a inclinação das sobrancelhas e a abertura silenciosa dos lábios sugeriam que ficara impressionado, para não dizer estupefato, ao confundir a agitação dela com sofreguidão.
"Flo...?" Disse seu nome com cautela, num tom sinuoso, como se tentasse
acalmá-la, ou dissuadi-la de uma ação precipitada. Mas ele tinha de conter a sua própria pequena tormenta. Sua respiração estava ofegante e irregular, e ele não cessava de desgrudar a língua do palato com um som baixo e viscoso.
É constrangedor como às vezes o corpo não mente, ou não pode mentir, sobre
as emoções. Quem, por conta de decoro, conseguiu alguma vez diminuir as batidas do coração ou deixar de corar? O músculo desgovernado saltava e vibrava na perna dela, como uma traça aprisionada sob a pele. Às vezes, as pálpebras dela apresentavam problemas semelhantes.
Mas talvez o tumulto já estivesse cedendo - não dava para saber. Ajudava-a fixar-se no básico: a mão dele estava ali porque ele era seu marido; e ela o permitiu, porque era sua mulher. Algumas de suas amigas - Greta, Hermione, Lucy especialmente- já estariam nuas debaixo dos lençóis há horas, e teriam consumado esse casamento -alegre e espalhafatosamente - bem antes da cerimônia. Por amizade e generosidade, chegaram a pensar que fosse precisamente o que ela já tinha feito. Nunca mentira para elas, mas tampouco esclarecera coisa alguma. Pensando nas amigas, sentiu o sabor peculiar e não compartilhável da própria existência: estava só.
A mão de Edward não avançava - ele podia estar amedrontado pelo que
despertara -, em vez disso, fazia movimentos discretos no mesmo lugar, massageando o interior da coxa. Talvez por esse motivo o espasmo estivesse cedendo, mas ela já não prestava atenção. Deve ter sido acidental, porque ele não podia saber que, ao apalpar a perna dela, a ponta do polegar encostaria no pêlo crespo e solitário, saindo da calcinha, e, ao movê-lo para a frente e para trás, despertaria na raiz, ao longo do nervo do folículo, não mais que a sombra de uma sensação, quase um começo abstrato, tão ínfimo quanto um ponto geométrico que tivesse se expandido numa mancha arredondada e continuasse a se dilatar. Ela duvidava disso, e tentava negá-lo, mesmo sentindo que afundava e se dobrava para dentro de si mesma, naquela direção.
Como podia a raiz de um único pêlo tragar o corpo inteiro? Respondendo ao
ritmo das carícias da mão dele, num compasso regular, aquele único ponto sensitivo se alastrou pela superfície da pele dela, pelo ventre, em pulsações descendentes até o períneo. A sensação não era de todo desconhecida - algo entre a dor e o prurido, só que mais suave, mais quente e de alguma forma mais oco; uma comichão vazia e agradável emanando de um único folículo ritmadamente transtornado, espalhando-se em ondas concêntricas através do seu corpo e agora indo cada vez mais fundo.
Pela primeira vez, seu amor por Edward foi associado a uma sensação física e
definida, tão irrefutável quanto a vertigem. Antes, conhecera apenas um caldo reconfortante de sensações mornas, um cobertor grosso de inverno a cobri-la de gentilezas e de confiança. Aquilo sempre lhe parecera suficiente, uma realização em si mesma. Agora, aí estava por fim o início do desejo, preciso e estranho, mas claramente seu; e mais além, como que suspenso acima e atrás dela, quase fora de vista, o alívio de ser como todo mundo. Quando, aos catorze anos, continuava com corpo de menina, desesperada com o fato de todas as amigas já terem peito e ela ainda parecer uma giganta de nove anos, tivera uma revelação parecida, diante do espelho, na noite em que discerniu e examinou uma protuberância recente e firme em volta dos mamilos. Se sua mãe não estivesse preparando uma aula sobre Espinosa no andar de baixo, Florence teria berrado de felicidade. Era inegável: ela não era uma subespécie separada da raça humana. Estava triunfante, pertencia à generalidade.
Ela e Edward ainda estavam com os olhos pregados nos olhos um do outro.
Falar parecia fora de questão. Ela fingia mais ou menos que nada estava acontecendo -que a mão dele não estava sob seu vestido, seu polegar não estava movendo para a frente e para trás um pêlo pubiano desgarrado e que ela não estava fazendo uma importante descoberta sensorial. Detrás da cabeça de Edward se estendia a vista parcial de um passado remoto - a porta aberta e a mesa de jantar diante da janela de batente, com os restos da refeição abandonada -, mas ela não deixou o olhar se desviar até lá. Apesar da sensação prazerosa e do alívio, continuava apreensiva, um muro alto, não muito fácil de demolir. Nem ela queria que fosse. A despeito da novidade, não se achava num estado de entrega arrebatada, nem pretendia se apressar nessa direção. Queria demorar-se nesse momento largo, sob a completa proteção das roupas, o olhar castanho e sereno, as carícias afetuosas e o frêmito em expansão. Mas sabia que isso era impossível e que, como todos diziam, uma coisa teria de levar a outra.
O rosto de Edward continuava extraordinariamente róseo, suas pupilas
dilatadas, a boca entreaberta, a respiração como antes: ofegante, irregular e abrupta. A semana de preparação para o casamento, de uma restrição demencial, havia se abatido sobre a química jovem do seu corpo. Florence estava tão perfeita e vivida diante dele, e ele mal sabia o que fazer. Na luz do crepúsculo, o vestido azul que ele não conseguira tirar cintilava sombrio contra a colcha branca e esticada. Quando ele a tocou pela primeira vez no interior da coxa, a pele dela estava surpreendentemente fria, e por alguma razão aquilo o excitou com a grande intensidade. Ao olhar nos seus olhos, tinha a impressão de estar despencando na direção dela, num movimento constante e vertiginoso. Sentia-se encurralado entre a urgência da excitação e o peso da ignorância. Fora os filmes, as piadas chulas e as anedotas licenciosas, a maior parte do que sabia sobre as mulheres vinha da própria Florence. A perturbação sob sua mão talvez fosse um indício revelador, uma espécie de precursor do orgasmo feminino, que qualquer um teria podido lhe ensinar a reconhecer, para que ao menos soubesse como reagir. Também podia ser apenas efeito do nervosismo. Ele não sabia dizer, e se sentiu aliviado quando a contração começou a se dissipar.
Lembrou-se da vez, num vasto milharal nos arredores de Ewelme, quando
sentara diante dos controles de uma ceifadeira-debulhadora, depois de ter se gabado da sua competência ao fazendeiro, e não ousara tocar numa única alavanca. Simplesmente não sabia o bastante. Por um lado, foi ela quem o levou até o quarto de dormir, quem tirou os sapatos com tanta desenvoltura e o deixou descansar a mão ali tão perto. Por outro, ele sabia, graças a um longo conhecimento de causa, como era fácil pôr tudo a perder com um movimento impetuoso. Ao mesmo tempo, enquanto a mão dele permanecia a apalpar-lhe a coxa, Florence parecia fitá-lo com um olhar tão convidativo seus traços mais altivos se atenuaram, ela apertava os olhos e em seguida os abria para reencontrar os dele, e agora a cabeça estava jogada para trás -, que as suas precauções só podiam ser absurdas. A hesitação era a sua própria loucura. Estavam casados, pelo amor de Deus, e ela o encorajava, incitava-o, doida para que ele assumisse o comando. Mas, ainda assim, ele não conseguia se livrar da lembrança de ter interpretado mal os sinais, e de forma especialmente espetacular uma vez no cinema, durante a sessão de Um gosto de mel, quando ela pulou da cadeira e saiu pelo corredor como uma gazela. O simples erro levou semanas para ser reparado - e ele não se arriscava a repetir o desastre; mantinha-se cético quanto à possibilidade de uma cerimônia de casamento de quarenta minutos ser capaz de provocar uma diferença tão profunda.
O ar do quarto parecia rarefeito, insubstancial; respirar demandava um esforço
consciente. Ele conseguiu conter a tempo a irrupção de um bocejo nervoso, franzindo o cenho e alargando as narinas - não ajudaria em nada ela achar que ele estava enfadado. Afligia-o tremendamente que a noite de núpcias não fosse simples, já que o amor entre os dois era tão óbvio. Considerava seu estado de excitação, ignorância e indecisão igualmente perigoso, por não confiar em si mesmo. Era capaz de agir de modo estúpido, ou até explosivo. Era conhecido entre os amigos da universidade como um daqueles tipos tranqüilos, propensos a erupções violentas ocasionais. Segundo seu pai, sua primeira infância havia sido marcada por ataques de raiva espetaculares. Durante os anos de escola e até a universidade, de vez em quando ele era atraído pela liberdade selvagem de uma briga de socos. Das rixas de escola em torno das quais garotos, entoando cantos selvagens, formavam círculos de espectadores, a um encontro solene numa clareira nos arredores do vilarejo ou às brigas desavergonhadas do lado de fora dos pubs do centro de Londres, Edward encontrou na luta uma imprevisibilidade excitante, e descobriu uma personalidade espontânea e resoluta que o eludia no resto da sua tranqüila existência. Nunca buscou tais situações, mas, quando elas surgiam, certos aspectos - os insultos, os amigos a tentar contê-lo, a preparação, a afronta absoluta do adversário - eram irresistíveis. Era tomado por algo próximo de uma visão afunilada e da surdez, e de repente lá estava de novo, adentrando um prazer esquecido, como que emergindo dentro de um sonho recorrente. Como num porre de estudantes, a dor vinha depois. Ele não era nenhum pugilista, mas tinha a vantagem da imprudência física e estava em posição privilegiada para subir as apostas. Além disso, era forte.
Florence nunca vira essa loucura nele, nem ele pretendia conversar com ela
sobre isso. Não se metia numa briga fazia oito meses, desde janeiro de 1961, no segundo trimestre do seu último ano. Havia sido um caso injusto, e incomum pelo fato de Edward ter alguma razão, um certo grau de justiça a seu favor. Estava caminhando pela Old Compton Street rumo ao French Pub na Dean Street com outro estudante do terceiro ano de história, Harold Mather. Era início de noite, e vinham direto da biblioteca na Malet Street para se encontrar com amigos.
Na escola primária que Edward freqüentara, Mather teria sido a vítima perfeita
- era baixo, mal passava de um metro e sessenta e cinco, usava óculos grossos sobre um rosto comicamente esborrachado, era de uma inteligência espantosa e falava pelos cotovelos. Na universidade, porém, ele se destacava, era uma figura respeitadíssima. Tinha uma importante coleção de discos de jazz, editava uma revista literária, teve um conto aceito pela Encounter, embora ainda não tivesse sido publicado, era hilariante nos debates acadêmicos do diretório e um bom imitador - fazia arremedos de Macmillan, Gaitskell, Kennedy, Khruchióv em falso russo, assim como de vários líderes africanos e comediantes como Al Read e Tony Hancock. Podia reproduzir todas as vozes e esquetes do espetáculo satírico Beyond the fringe e era tido, de longe, como o melhor aluno da turma de história. Edward considerava um progresso na sua própria vida, a evidência de uma nova maturidade, que agora prezasse a amizade de um homem que em outros tempos ele teria podido se dar o trabalho de evitar.
Naquela época, o Soho numa noite de inverno durante a semana ainda era um
lugar pacato. Os pubs ficavam cheios, mas os clubes não existiam ainda, e as calçadas eram desertas. Foi fácil notar o casal vindo na direção deles pela Old Compton Street. Eram roqueiros - ele, um sujeito alto, de vinte e poucos anos, com costeletas compridas, jaqueta de couro com tachinhas, jeans bem justos e botas, e a namorada roliça, de braço dado com ele, com uma roupa idêntica. Quando se cruzaram, e sem interromper o ritmo das suas passadas, o homem volteou o braço para acertar por trás a cabeça de Mather com uma bofetada de mão cheia que o fez cambalear e seus óculos estilo Buddy Holly irem parar, derrapando, do outro lado da rua. Foi um ato de desprezo casual pela altura de Mather e por sua aparência estudiosa, ou pelo fato de ele parecer e ser judeu.
O motivo talvez tivesse sido impressionar ou divertir a garota. Edward não
parou para pensar. Ao sair a passos largos no encalço do casal, ouviu Harold gritar algo como um "não" ou "não faça isso", mas esse era justo o tipo de súplica para a qual ele ficava surdo nessas horas. Estava de volta àquele sonho. Teria achado difícil descrever seu estado: a raiva tinha se erguido e subia em espiral para uma espécie de êxtase. Com a mão direita, segurou o homem pelo ombro e o girou, e, com a esquerda, agarrou-o pelo pescoço e o esmagou contra um muro. A cabeça do homem bateu com toda a força contra um cano de ferro fundido. Ainda apertando sua garganta, Edward lhe deu um soco na cara, só um, mas bem forte. E, então, voltou para ajudar Mather a achar os óculos, que estavam com uma das lentes quebrada. Seguiram em frente, deixando o sujeito sentado na calçada, com as duas mãos sobre o rosto, enquanto a namorada, muito nervosa, debruçava-se sobre ele.
Levou algum tempo para Edward se dar conta, no meio da noite, da falta de
gratidão de Mather, e do seu silêncio - ou pelo menos do silêncio em relação a ele, Edward -, e mais ainda, um dia ou dois, para entender que o amigo não apenas lhe reprovara o ato, mas, pior, ficara envergonhado por ele. No pub, nenhum dos dois mencionou o incidente aos amigos, e depois nunca mais Mather tocou no assunto com Edward. Uma reprimenda teria sido um alívio. Sem fazer nenhum alarido, Mather retraiu-se. Embora continuassem a se ver na companhia de terceiros, e ele jamais tenha manifestado sua distância em relação a Edward, a amizade nunca mais foi a mesma. Edward se atormentava ao pensar que, na verdade, Mather se afastara por causa de seu comportamento, mas não tinha coragem de puxar o assunto. Além do mais, Mather tomava as precauções para nunca estarem os dois a sós. No início, Edward achou que seu erro havia sido ferir o orgulho de Mather ao testemunhar a humilhação dele, e corroborá-la ao agir como seu defensor, demonstrando que era forte, enquanto o amigo era um poltrão vulnerável. Mais tarde, porém, Edward se deu conta de que o que fizera simplesmente não pegava bem, e sua vergonha foi ainda maior. Briga de rua não combinava com poesia e ironia, com bebop e história. Sentiu-se culpado pelo deslize de mau gosto. Não era a pessoa que imaginara. O que acreditara ser uma peculiaridade interessante, uma virtude bruta, revelou-se simples vulgaridade. Era um garoto do interior, um idiota provinciano que achava que um soco com as mãos nuas podia impressionar um amigo. Ficou mortificado ao cair em si. Estava dando um passo típico do começo da idade adulta: a descoberta de que existiam novos valores pelos quais preferia ser julgado. Desde então, ficou fora de brigas.
Mas agora, na noite de núpcias, não confiava em si mesmo. Não podia garantir
que a visão afunilada e a surdez seletiva não o dominariam de novo, envolvendo-o como um nevoeiro de inverno em Turville Heath, obnubilando o seu mais recente e mais sofisticado eu. Estava sentado ao lado de Florence, com a mão sob o vestido dela, massageando-lhe a coxa fazia mais de um minuto e meio. Seu desejo torturado aumentava de um modo intolerável; estava assustado com a própria impaciência primitiva, e com as palavras ou ações furiosas que ela podia provocar, e temia que assim terminasse a noite. Ele a amava, mas queria sacudi-la daquela dormência, libertá-la com uma bofetada daquela postura empertigada de átril, de suas boas maneiras de North Oxford, e fazê-la ver como era simples: ali estava uma liberdade sensual e ilimitada, à disposição deles, e ainda com a bênção do vigário - com meu corpo eu Te venero -, uma liberdade indecente, alegre, com as pernas de fora, que se erguia em sua imaginação como uma catedral vasta e aérea, em ruínas talvez, sem o telhado, com a abóbada abrindo-se para os céus, por onde eles se deixariam levar às alturas, sem gravidade, numa união poderosa, possuindo um ao outro, afogando-se nas ondas de um êxtase arquejante e insensato. Era tão simples! Por que ainda não estavam lá, em vez de ficarem sentados, contidos por tudo o que não sabiam dizer, ou não ousavam fazer?
E o que é que os impedia? Suas personalidades e seus passados, sua ignorância
e seu medo, o acanhamento, os melindres, a falta de habilitação ou de experiência ou de desembaraço, e depois o cortejo de uma proibição religiosa, a sua alma inglesa, a sua classe, e a própria história. Nada de muito importante. Ele retirou a mão, puxou Florence para si e a beijou nos lábios, com toda a prudência de que era capaz, represando a língua. Recostou-a sobre a cama de modo que ela ficasse com a cabeça apoiada no braço dele. E se deitou de lado, sustentando-se no cotovelo do mesmo braço, a observá-la de cima. A cama rangeu pesarosa quando se mexeram, a lembrança de outros casais que por ali passaram em lua-de-mel, todos sem dúvida mais competentes do que eles. Ele conteve o impulso repentino de rir da idéia de uma fila solene de casais a se estender pelo corredor e escada abaixo, até a recepção, de volta no tempo. Era importante não pensar neles; a comédia era um veneno para o erotismo. Também precisava manter afastado o pensamento de que ela pudesse estar aterrorizada por ele. Se acreditasse nisso, não poderia fazer mais nada. Ela estava entregue em seus braços, os olhos fixos nos dele, o rosto indolente e difícil de ler. A respiração regular e profunda, como a de alguém dormindo. Ele sussurrou seu nome e lhe disse mais uma vez que a amava, ela pestanejou e entreabriu a boca, talvez em consentimento, ou até em reciprocidade, com a mão livre, ele começou a tirar a calcinha dela. Ela se retesou, mas não resistiu, e levantou as nádegas, ou metade delas, da cama. De novo, o ruído triste das molas do colchão ou do estrado da cama, como o balido de um cordeiro recém-nascido.
Mesmo com seu braço livre esticado ao máximo, não dava para ele continuar
escorando a cabeça dela e tirar ao mesmo tempo a calcinha pelos joelhos e pelos tornozelos. Ela o ajudou, dobrando os joelhos. Um bom sinal. Ele não podia enfrentar outra tentativa com o zíper do vestido, de modo que, por enquanto, o sutiã - de seda azul-clara, pelo que tinha vislumbrado, com um belo enfeite de renda - também devia permanecer no lugar. Tanto pior para a união despida nas alturas.
Mas ela era bonita assim como estava, recostada no seu braço, com o vestido
vincado na altura das coxas e as madeixas do cabelo emaranhado espalhadas sobre a colcha.
Uma rainha solar. Beijaram-se de novo. Ele estava nauseado de desejo e
indecisão. Para se despir, teria que interromper esse arranjo promissor dos seus corpos, e arriscar quebrar o encanto. À menor mudança, uma combinação de mínimos fatores, pequenos zéfiros de dúvida, ela podia voltar atrás. Mas ele estava convicto de que fazer amor - e pela primeira vez - apenas abrindo a braguilha era pouco sensual e grosseiro. E deselegante.
Depois de alguns minutos, ele escorregou para longe dela e se despiu
apressado ao lado da janela, deixando uma zona imaculada em volta da cama, livre de toda essa banalidade. Pisou atrás dos sapatos para tirá-los dos pés, e arrancou as meias a golpes rápidos dos polegares. Notou que os olhos dela não estavam voltados para ele, mas para cima, para o dossel arqueado sobre ela. Em segundos, só lhe faltava tirar a camisa, a gravata e o relógio de pulso para ficar nu. De alguma forma, a camisa, em parte encobrindo em parte revelando sua ereção, como um lençol sobre um monumento público, correspondia educadamente ao código estabelecido pelo vestido dela. A gravata era claramente absurda, e, quando ele voltou para Florence, desvencilhou-se do nó com uma das mãos, enquanto desabotoava o colarinho com a outra.
O movimento era uma bravata confiante, e por um instante sobreveio-lhe a
idéia que certa vez tivera de si, de um sujeito sem polimento embora fundamentalmente decente e capaz, mas a imagem logo se dissipou. O fantasma de Harold Mather ainda o assombrava.
Florence decidiu não sentar, nem mesmo mudar de posição; ficou deitada de costas, olhando para o tecido plissado, de um tom esmaecido de marrom, sustentado por colunas que deviam evocar, ela supunha, uma velha Inglaterra de castelos de pedra fria e amor cortês. Concentrou-se na trama irregular do tecido, numa mancha verde do tamanho de uma moeda - como teria ido parar ali? - e num fio que pendia e balançava com a corrente de ar. Tentava não pensar no futuro imediato, nem no passado, e se imaginava agarrada àquele momento, ao precioso presente, como um alpinista sem cordas num penhasco, a esmagar o rosto contra a pedra, sem coragem de se mexer. O ar fresco percorria suavemente as suas pernas nuas. Ela escutou as ondas distantes, o grito das gaivotas prateadas e os ruídos de Edward se despindo. Lá vinha o passado de qualquer jeito, o passado indistinto. Convocado pelo cheiro de maresia. Ela estava com doze anos, deitada, imóvel como agora, esperando, tremendo no beliche estreito com guarnições de mogno polido. Sua cabeça era um espaço vazio, ela achava que tinha caído em desgraça. Após dois dias de travessia, estavam mais uma vez na tranqüilidade do porto de Carteret, ao sul de Cherbourg. Era tarde da noite, e seu pai se movia na cabine apertada e escura, despindo-se, como Edward agora. Ela se lembrava do farfalhar das roupas, do tinido de um cinto desatado ou de chaves ou moedas soltas. Sua única incumbência era manter os olhos fechados e pensar numa música de que gostasse.
Ou em qualquer música. Lembrava-se do cheiro adocicado de comida quase
podre no ar confinado de um barco depois de uma viagem agitada. Costumava enjoar muitas vezes durante a travessia, tornando-se incapaz de prestar assistência ao pai nas tarefas de marinheiro, e essa era sem dúvida a fonte da sua vergonha.
Tampouco podia evitar contemplar o futuro imediato. Sua esperança era que, a
despeito do que viesse pela frente, fosse capaz de recuperar alguma versão daquela sensação de prazer a se disseminar, e que esta se alastrasse até rendê-la, e anestesiasse seus medos e a salvasse da humilhação. Parecia improvável. A verdadeira lembrança da sensação de se sentir em seu interior, de realmente saber como era, já se reduzira a um fato histórico ressequido. Acontecera uma vez, como a Batalha de Hastings. Apesar de tudo, era a sua única chance, e por isso era tão preciosa, como um cristal delicado e antigo, que podia cair facilmente, outra boa razão para não se mexer.
Ela sentiu a cama afundar e chacoalhar quando Edward subiu, e o rosto dele,
substituindo o dossel, ocupou sua visão. Obsequiosamente, ela levantou a cabeça, de modo a que ele pudesse enfiar o braço de novo debaixo dela, como uma almofada. Ele a apertou ao longo de todo o lado do corpo. Ela podia ver a escuridão das narinas dele e um único pêlo torto dentro da esquerda, em pé como um homem curvado à entrada de uma gruta, tremelicando a cada expiração. Ela gostava das linhas bem definidas do recorte em forma de insígnia no lábio superior dele. Do lado direito do filtro nasal havia uma nódoa rósea, uma irritação ligeiramente elevada, o início ou o vestígio de uma inflamação. Ela sentiu a ereção contra os seus quadris, dura como um cabo de vassoura e pulsante, e para seu espanto aquilo não a incomodou muito. O que ela não queria, não ainda, era vê-la.
Para selar a união, ele baixou a cabeça, e eles se beijaram, a língua dele mal
roçava a ponta da dela, e, mais uma vez, ela se sentiu grata. Inibidos pelo silêncio do bar no andar de baixo - nenhum rádio, nenhuma conversa -, sussurraram seus "eu te amo". Foi um alívio para ela recorrer, ainda que baixinho, à fórmula inabalável que os unia, e isso sem dúvida provava que seus interesses eram idênticos. Ela se perguntava se não devia talvez entrar no jogo, e ser forte o bastante para fingir convincentemente, e depois ainda, em sucessivas ocasiões, podar suas angústias por meio da simples familiaridade, até que pudesse de fato sentir e dar prazer. Ele não precisaria saber, pelo menos não até ela lhe contar tudo, de dentro do conforto da sua nova autoconfiança, como uma história engraçada, do tempo em que ela não passava de uma garota ignorante e infeliz com seus tolos temores. Agora, já não se incomodava de ele tocar-lhe os seios, quando no passado o teria rechaçado. Havia esperança para ela, e, diante desse pensamento, aproximou-se do peito dele. Ele não tinha tirado a camisa, e ela deduziu que fosse porque os preservativos estavam no bolso de cima, de fácil acesso. A mão dele percorria todo o corpo dela e levantava a barra da saia até a cintura. Ele sempre fora reticente quanto às garotas com quem transara, mas ela não duvidava da riqueza de sua experiência. Ela sentiu o ar estival entrando pela janela e fazendo-lhe cócegas nos pêlos pubianos descobertos. Já avançara muito num novo território, o suficiente para não poder voltar atrás.
Nunca havia passado pela cabeça de Florence que os preâmbulos do sexo se
dariam numa demonstração muda, num silêncio tão intenso e cauteloso. Mas, além das óbvias três palavras, o que ela própria podia dizer que não soasse artificioso ou idiota? E, já que ele estava calado, ela supôs que essa era a convenção. Teria preferido que houvessem murmurado carinhos tolos como os que trocavam deitados no quarto dela em North Oxford, devidamente vestidos, jogando a tarde fora. Precisava sentir-se próxima dele para acalmar o demônio do pânico que ela sabia estar prestes a subjugá-la. Precisava saber que ele estava com ela, do lado dela, e não iria usá-la, que ele era seu amigo, que era gentil e delicado.
Senão, podia dar tudo errado, de um modo muito solitário. Ela dependia dele
para lhe dar segurança, além de amor, e afinal não conseguiu se conter, proferindo a ordem vazia: "Diga alguma coisa".
Um efeito imediato e benéfico foi a mão dele parar abruptamente, não longe de
onde antes estivera, centímetros abaixo do umbigo. Ele olhou sobranceiro para ela, os lábios um pouco trêmulos - nervosismo talvez, ou o esboço de um sorriso, ou um pensamento tomando a forma de palavras.
Para alívio dela, ele pegou a deixa e recorreu à velha forma de estupidez. Disse
solene: "Você tem um rosto adorável e uma bela constituição, cotovelos e tornozelos sensuais, e uma clavícula, um putâmen e um vibrato que todo homem deve adorar, mas você é toda minha, e estou muito contente e orgulhoso".
Ela disse: "Muito bem, você pode beijar o meu vibrato". Ele tomou a sua mão esquerda e chupou as pontas dos dedos dela
sucessivamente, pondo a língua nos calos de violinista. Eles se beijaram, e foi nesse momento de relativo otimismo para Florence que ela sentiu os braços dele tensos - de repente, num movimento hábil e atlético, ele havia rolado por cima dela, e, embora seu peso estivesse em grande parte apoiado nos cotovelos e antebraços dos dois lados da cabeça de Florence, ela estava presa, indefesa e um pouco sufocada debaixo daquele corpanzil. Ficou desapontada por ele não se alongar em carícias na área pubiana, desatando de novo aquele frêmito estranho e progressivo. Mas sua preocupação imediata - um desdobramento da repulsa ou do medo - era manter as aparências, não deixar de lhe corresponder e não se humilhar, não parecer uma pobre escolha entre todas as mulheres que ele conhecera. Ela precisava conseguir passar por isso. Nunca o deixaria saber a luta que foi, o que lhe custou, parecer calma. Não tinha outro desejo além de querer agradá-lo e fazer da noite um sucesso, nenhuma outra sensação além da consciência da ponta do pênis, estranhamente frio, batendo e socando repetidamente à entrada e ao redor da sua uretra. Achou que seu pânico e sua repugnância estavam sob controle, amava Edward, e todos os pensamentos dela se concentravam em ajudá-lo a obter o que tanto desejava e em fazê-lo amá-la ainda mais. Foi com esse espírito que ela escorregou a mão por entre a sua virilha e a dele. Ele se levantou um pouco para permitir-lhe a passagem. Ficou satisfeita consigo mesma ao lembrar que o manual vermelho informava ser perfeitamente aceitável que a noiva "conduzisse o homem para dentro".
Primeiro tocou os testículos e, agora sem medo nenhum, curvou os dedos delicadamente em volta desse corpo extraordinário e enrugado que tinha visto nas formas mais variadas em cães e cavalos, sem nunca acreditar realmente que pudessem se acomodar em humanos adultos. Puxando os dedos pela parte inferior, chegou à base do pênis, que segurou com extremo cuidado, já que não fazia idéia de quão sensível ou robusto ele era. Arrastou os dedos ao longo do seu comprimento, notando com interesse a textura sedosa, até a ponta, que acariciou ligeiramente; e então, espantada com a sua própria impudência, recuou um pouco para baixo, para segurar o pênis com firmeza, lá pela metade, e empurrá-lo para baixo, um leve ajuste, até senti-lo tocar os grandes lábios.
Como podia saber que cometia um erro terrível? Teria puxado a coisa errada?
Será que apertara demais? Ele soltou um gemido, uma série complicada de vogais agonizantes e ascendentes, o tipo de som que ela ouvira certa vez numa comédia no cinema quando o garçom, dando voltas de um lado para outro, parecia estar prestes a derrubar uma enorme pilha de pratos de sopa.
Horrorizada, ela o soltou, enquanto Edward, levantando-se com um olhar
atordoado, e os músculos das costas arqueados em espasmos, esvaiu-se em gotas sobre ela, enchendo seu umbigo, cobrindo sua barriga, as coxas, e até uma parte do queixo e da rótula, com um fluido viscoso e tépido. Foi uma calamidade, e ela entendeu na hora que a culpa era sua, que era inepta, ignorante e estúpida. Não devia ter interferido, nunca devia ter acreditado no manual. Se a jugular dele tivesse arrebentado, não teria parecido mais terrível. Era próprio dela intrometer-se cheia de si num assunto de impressionante complexidade; deveria saber muito bem que sua atitude nos ensaios do quarteto de cordas não tinha nenhuma pertinência ali.
E havia outro elemento, a seu modo bem pior e muito além do controle dela,
evocando memórias que ela decidira fazia muito tempo não serem realmente suas. Enchera-se de orgulho, apenas meio minuto antes, por dominar os sentimentos e parecer calma. Mas agora era incapaz de conter o nojo original, o horror visceral de estar encharcada daquele fluido, do muco de outro corpo. Em segundos, o líquido se enregelara sobre sua pele, sob a brisa do mar, e ainda assim, bem como ela imaginara, parecia escaldá-la. Nada na sua natureza teria impedido o grito momentâneo de asco. A sensação do fluido escorrendo pela pele em riachos caudalosos, sua estranheza leitosa, o cheiro íntimo de goma, e com ele o fedor de um segredo guardado no mofo do seu confinamento - ela não conseguia, tinha de se ver livre daquilo. Enquanto Edward se encolhia diante dela, ela se virou e se pôs de joelhos, arrancou um travesseiro de sob a colcha e passou a se limpar freneticamente. Ao fazê-lo, deu-se conta da repulsa e da indelicadeza do seu comportamento, e de que devia contribuir para a humilhação dele vê-la remover desesperadamente da pele uma parte dele. Na verdade, não era assim tão fácil.
Grudava nela conforme ela esfregava e em algumas partes já estava secando
num verniz rachado. Ela era duas pessoas - a que arremessou o travesseiro longe em sinal de exasperação e a que refletia e se odiava por isso. Era insuportável que ele estivesse a observá-la, a mulher histérica e punitiva com quem ele insensatamente se casara. Ela podia odiá-lo pelo que ele testemunhava e que nunca mais esqueceria. Tinha de se afastar dele.
Num acesso de raiva e de vergonha, ela pulou da cama. E, ainda assim, o seu
outro eu observador parecia lhe pedir que se mantivesse calma, não propriamente em palavras: Mas é isso justamente enlouquecer. Ela não podia olhar para ele. Era um suplício ficar no quarto com alguém que a conhecia a esse ponto. Ela recolheu os sapatos no chão, correu através da antecâmara, passando pelos restos do jantar, saiu pelo corredor, desceu as escadas, transpôs a entrada principal e, contornando o hotel pelo lado, ganhou o gramado musguento. E, mesmo depois de finalmente chegar à praia, não parou de correr.