No Urubuquaquá, no Pinhém
A estória de Lélio e Lina
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Na entrada-das-águas, tem po de afã em toda fazenda-de-gado
nos Gerais, um vaqueiro de fora chegou à do Pinhém . Era de tarde, sob um rebuço de calor — o quente de chuva — quando as nuvens descem com peso e a cam isa se cola em corpo de hom em ; dia de m eio-céu. A pulso fora o esforço: de trezentas vacas parideiras, quantia delas aviavam parição, com a passagem da lua; e as boiadas bravas, trazidas de outros sertões, j á ao prim eiro trovão de outubro se lem bravam de lá e queriam a arribada, se alçando dos enorm es pastos sem cercas; carecia rebatê-las. De torna da lufa, a vaqueiram a no pátio vinha de desarrear e am ilhar: ainda ali os onze cavalos se aj untavam , todos eles cabisbaixos. Da varanda, seo Senclér tirava conversa com o pessoal. E o vaqueiro foriço apareceu, m ontado num anim al pam pa; um cachorro seguia-o.
De pronto, relancearam o que nele havia a ver, a olho de vaqueiro: rapaz m oço, bôa cara e com um j eito, sem sem elho de barba nenhum , ar de novidade; com sua roupinha bem tratada: só o chapéu-de-couro baixava m uito, m aior que a cabeça do dono. Alforj es cheios, saco de dobro na garupa, capa na capoteira; laço estaço — um a “corda” bem cuidada; ham pa de vara-de-topar que provava prestança. O cavalo — recém -ferrado dos quatro, relim po de liso — estadava vistoso: assim alto oito palm os da cernelha ao casco, com as largas m alhas verm elhas desenhadas em fundo belo branco. Mal aí o cachorro, esse triste: um m iunço, rareado am arelado, m estiço de veadeiro focinho fino preto, lom bo indo se eriçando, a costela se m ostrando um bocadinho, atrás o rabo revirado. Contra ele a cachorrada cam peira arreliou, dente e dente, por rosnando, por latindo — aqueles cães troncudos, raj ados ou am arelos, m ais bem apessoados, e que os hom ens procuravam m oderar. Mas o m agro esbarrara, tão seguro de sim ples, se alegrando com a caudinha, que os outros esperaram , rodando num dim inuindo, e um m esm o ou dois, com m enos coragem , que ainda latiam , recuavam para se encostar na beirada da casa.
O vaqueiro chegado se desquadrou e esquinou na sela, com o para um dorm ido em riba. Mas zás não arm ando corpo pulou no chão, m acio em pé, sem traço. Tirou o chapéu e saudou. Riu de orêlha a orêlha.
Deixara de propósito cair o cabo do cabresto, e o cachorrinho se sentou, pata em cim a, enquanto o cavalo parava quieto. — “Oi guégue!” — seo Senclér falou. — “Meu não é, Patrão. Topei vagueando à avessa no oco do cerradão, em distância de três dias…” “— E estudou isso?!” “— Nhor não. Quis porque quer: eh certo ele j á sabia…” Aquilo não era fantasias de vaqueiro.
— “Gente, m as é o fraldo da nha dona Rosalina, o Form ôs…” — falou um dos hom ens. — “Que tem po que sum iço que levou…” “— A coisa, que entendeu faro com qualquer j aguaci-ninga, ou um a lobinha-do-cam po…” “— Ou foi o Bereba quem furtou. O Bereba gosta de cachorro…” — outro disse. Por aí tam bém os rafeiros j á o toleravam , em torno, reconhecendo-o, apesar de sabe-se lá que cheiros hostís, de silvestre e agreste, em si ele não trazia. — “E a dona é daqui? O bichinho é de estim a?” — o forasteiro perguntou. — “De aqui m esm o, um as braças. Lorindão leva, o Lorindão m ora em banda…”
Mas, seo Senclér olhando, o rapaz sentiu que ele lhe indagava a graça. — “Eu sou o Lélio do Higino. Meu pai era o vaqueiro Higino de Sás, em Deus falecido.”
“— Está passando?” “— Nhor não. Estou alheio.” “— E, assim escoteiro, vindo donde?” “— Da Trom ba-d’Anta.” “— A Serra?” “— Nhor sim senhor.” “— Gado por lá?” “— Muito gado cabeludo, tudo pé-duro de terra-branca. Mas trabalhei p’ra um seo Dom Borel, senhor uruguái, que botou fazenda p’ra boiada de raça fina…” “— Pois aqui o gadam e é burro-bruto, a vaqueirada é que é fina, nhe sabe? “ “— Pois sei, sim . Glória daqui corre longe…”
Seo Senclér dem orava. Gostava do em -ser do vaqueirinho, do rum o de suas respostas. Se j á estava com bôa chusm a de pessoal — aqueles ali e m ais três no retiro do São-Bento — por-outra a faina concedia de um cam peiro a m ais, agora o rodavej o repleto, com cabeças de cria e m eia-engorda, e ainda quantidade para recria, por chegar, boiadão levantado desse redor de gerais, onde a terra e o pasto pobrej am tanto, que o gado deixado lá às vezes nem cresce, fica de ossos m oles, se entortando, no tem po-das-águas em m uitos lugares tinham de descer com ele para as caatingas. Ah, dava pena ver, m undo a dentro, tanta vasta de sustento vazio, e o capim verde tão enganoso; as reses roendo as caveiras de outras, m uitas m orrendo engasgadas; dando um leite m agro, o queij o feito um a cortiça de rolha, sem favos am anteigados e gordos; bois ou vacas que destruíam um a parede caiada, com o rapar de língua no lam ber continuado; e que pelo resseco do salgado suor se acostum avam a m ascar devagarinho o cabelo da cauda de burros e cavalos, até a arrancarem até ao toco. Mas ali, no Ribeirão do Pinhém , e no São-Bento, era a felicidade de terrão e relva, em ilha farta — capões de cultura alternando com pastagens de chão fosfado, calcáreo, salitrado — quase tão rica quanto as do Urubuquaquá e do Peixe-Manso. Tanto, que às vezes seo Senclér se reanim ava, no entusiasm o de que dela pudesse tirar a salvação de seus negócios; m as que, outras horas, num arregalar de tristeza, pensava achando que talvez ele m esm o não soubesse aproveitar tudo aquilo, e tinha m edo de ruína próxim a.
Num contem po, continuava: — “Travessou o rio no Passo-do-Porco?” “— Nhor não: no Porto-do-Quim -Reim undo.” “— Mas a Trom ba-d’Anta é longe, e m ais perto de cidades. Por que é que quis vir p’ra os Gerais, então? Por lá m atou alguém de crim e?…” “— Ah cruz-de-j esus, não. Quem havia de querer m orrer de m inha m ão?…”
Mas o vaqueiro Aristó desej ava falar no m eio, e sob olhar seo Senclér o autorizava. — “Patrão, se sabe que o pai dele, Higino de Sás, assentou nom e de vaqueiro-m estre, por todo esse risco de sertão do rio Urucúia…” — então o vaqueiro Aristó disse. — “Pois, veio por caçar no Chapadão o lum e da fam a do pai?” “— Tam bém nhor não. Só saudade de destino.” “— Você é solteiro, então?”
“— Nhor, sim , solto, solto.” “— Tem arm a algum a?” “— Assim , se não é dúvida, um revolvrim m eu, na patrona…” “— Disso, próprio, gosto: é arm a resguardada. Mim por m im , sou não de cobrar garrucha de algum m eu cam peiro, por tom ar conta. Não quero é desordem … Daí, olhe: será esse cavalinho é m uito seu, e pode ser bom no atual; m as aqui o que não falta é re- m onta correta e cavalhada: três anim ais por cabeça de hom em , m esm o quatro. E um a sela urucuiana, de vaquej ar, m ais em regra que essa j ereba sua curvelana… O resto é com o Aristó, que é o capataz…”
E assim o vaqueiro Lélio do Higino estava entrado, na form a do uso, com o solteiro com passadío e paga, e o m ais em nom e de Deus, am ém . Mas j á o j antar era aparecido, e foi m andado repartir gole de aguardente. Porque a chuva não vinha m as ainda podia vir — o curiango cantava, m ais cedo e m ais rouco, com o na entrada-das-águas ele gosta de cantar: — Amanhã eu vou… Amanhã eu vou… E trovej ava, repetido, no longe da Serra do Saldãe.
Aqui Lélio apanhou tam bém seu prato de folha e o garfo; e, enquanto com endo, o prim eiro rosto am igo que lhe sorriu foi o de um Delm iro, franco — rapaz m esm o de sua idade, que era retaco, de cabeça rapada. Delm iro aj udou-o no desselar o pam pa, e guiou-o até ao quarto-dos-arreios.
Os outros estavam sendo m ó de m uitos, davam para se olhar a vulto, não para se ficar de um a vez conhecendo. Mas Lorindão tom ara conta do cachorrinho Form ôs; e esse Lorindão, branquelo baixote, m eio para velho, com algum a barbicha de cavanhá, era um que parava em pé, as pernas tortas, m uito abertas — não tirava as esporas: um as im ensas nos calcanhares, de cachorro recurvo e roseta rosa-dos-ventos — e avisava, engraçado: — “Vai vigia sua pinga, que os outros bebem tudo em bora… Aqui, a gente tem de estar com u’a m ão no nariz e outra no lenço…” O alto, ruivado, era Lidebrando, que disse queria aproveitar réstia de luz, e entrou para a arrearia, onde foi fiar seda de vaca, no canzil, para fazer sedém . Soussouza era o que não esperava aqui nem ali, nervoso, pitando sem pre, e que perguntava tudo em voz, pondo m ão colhendo ao ouvido, por seu tanto de surdastro. E o Pernam bo, trigueirão, escuro, de m uito sem blante, que quis saber se Lélio tinha relógio, e se tocava algum instrum ento ou cantava. E m ais Placidino, J’sé-Jórj o, Canuto, Tom é Cássio e Fradim — esse baixinho, desinquieto, saído, fazendo m uita pergunta falando depressa, com o querendo m eter alguém em parapatas, e arrum ando cara no contra-responder, de j eito de im portância.
Tam bém escurecia, de lusco-fusco. E Lélio subiu pelo terreiro, ao fim do pátio, onde passava o rego. Chegou, se abaixou, pegou nas m ãos, lavou o rosto, bochechou, bebeu. A água dalí dava gosto, corria fria. De lá, ele avistava o volum e dos vaqueiros, sem pre à porta da Casa, que riam e conversavam , alguns j ogavam m alha. Lélio prazia em se lavar, se m olhar dem orado. Estava de alm a esvaziada, forro de som bra arrastada atrás, nenhum peso de pena, nem preocupo, nem legítim a saudade. Ia-se dar, no Pinhém . Mas tardara tem po dem ais, ali com os pés na gram a e curvado para o estreito d’água: de repente, sentiu um a ferroada na barriga, outra na perna, e j á outra no pescoço. Deu um pinote, e sapateou, se coçando. Pegou entre dois dedos um a coisica raivosa daquelas: — “Pa-pa-rá!…” — que em toda a parte era m esm o a m esm a estória — eram as daniscas form igas-pretas de beira de rego, que sabem subir ligeiro às dúzias na gente.
Lélio sacudiu a água dos cabelos, e veio vindo, voltando. Mas, a m eio, esbarrou. Surso, sobre ele um laço descia no ar, j ogado com destreza de m ovim ento curto e rápido, de quem está laçando rês pequena no fechado; m as que o colheu sem chicotear, num tirão m anso, escorregando — o corpo do couro não se esticou. O laçador m edira de atirar e bam bear, devia de ser um suj eito de toda com petência. Lélio livrara os braços, im ediato, e ele m esm o segurou a argola, quando o trem ia cerrar-se, à altura da barriga. Abriu bem as pernas. No salteio, entendera: estava alvo de um brinquedo bruto, com o nem im aginava que alguém procedesse, a não ser entre m eninos e dem os. E o que havia era não tropeçar, não se enroscar, não estouvar na corda: não se dar de m ostrado, nem j oãozinho nem caturro. Pôs m ãos à cintura e esperou. Se o outro quisesse teim ar, que com eçasse por derrubá-lo. Ainda escutou a voz do vaqueiro Aristó, que advertia: — “Canuto, faz não! Divertido de hom em vai nos aços…”
Durou um m om ento. Duraram . Enfim , o Canuto gritou de lá: — “Paz p’ra isso, am igo! Brincadeira é por bem , p’ra um aperto de m ão e um abraço…” — “Aã, estou aqui, patrício, nem por isso. Agora, traz a iapa, tam bém …” — Lélio contestou. Mas o Canuto veio, sério sendo, ele m esm o retirou a laçada, em fato declarou: — “A gente se reconhece, sincero, que nós dois som os m alungos: eu sou afilhado de padrinho Higino, de seu pai…” Podia ser m entira, podia ser verdade. Aquele — um bragado rapaz, alto, narigudo, corado, m eio em desengonço, seu com prido pescoço e extraordinário gogó, os olhos arregaladões.
— “Cuj o que faz assim de beócio, m as é escrivão, de m ão cheia, resolve qualquer carta que se pede: capricha palavreados no papel, que dá um sentim ento certo…” — o Pernam bo explicou. — “Ao que é bobalhão e em busteiro…” — opunha o Delm iro, dali a pouco, enquanto alteava a candeia para Lélio, que rem exia em seu dobro, dele retirando o de que precisava. Tinha trazido no m eio das roupas um a rapadura de geleia-m orena: — “P’ra quinhão, com todos…” — ofereceu, passando-a a Placidino, que se afoitara ao pé dali, de cócoras. — “De deveras, m ano, que eu governo a custo e j usto o reparto…” — um outro disse. Aí o baralho de cartas, sem uso quase. — “Tem os oitos e noves?” — perguntavam . A ver, o Canuto, j á m eio em nú, m as trançando por largo e cantos, desinquieto, com o se com aquelas suas tantas pernas quisesse pular por cim a das pessôas, aprovava: — “Eita!, que o do Pernam bo j á está engrossado de antigo, feito sanfona, a gente nem pode arte de arrum ar um bom m aço, no truque…” “— Aruê, m aço? Tem é gente que, p’ra bebida, cantiga e j ogo, serve pouco… Só serve p’ra barrabás…” — discutiu o Pernam bo, afundado em sua grande rede de algodão azulão, com bam bolins e varandas, que roj avam . — “Tio Pernam bo toca violas, alegra o estado de um com m odinha descantada…” — o Delm iro atravessou. — “Modinha não é p’ra se alegrar, m as p’ra um se desentristecer realegrado, m eu filho de outro…” — invocou ainda o Pernam bo, de bam balão na rede, vez querendo por acom panham ento o ninar dos arm adores, rangente.
O quarto-dos-vaqueiros, onde iam dorm ir, era um ranchão-barracão, desincum bido de tam anho, m esm o entulhado de sacos, latas de leite, pilhas de couro, caixas, cangalhas velhas e peças de carros-de-bois, espalhadas, com o que um ali podia achar de tudo. O Placidino deitado noutra rede, de buriti essa, suave m as singela. O J’sé-Jórj o preferia o chão, sua enxerga sobre um a esteira de taquara. A m ais dos de Delm iro e Canuto, havia, encostados nas paredes, os j iraus de ripas de buriti, e outros catres, de pau e de couro. Mesm o um a cam a larga, alta, estruída, de m adeira escura torneada, traste de ricos. — “Dono desta m orreu ruim , faz m eses…” — observou o Placidino. — “Será que gosta é de-rede? Tem , tam bém …” — o Delm iro falando. Lélio porém escolheu aquela cam a de patrões, com um colchão de palha e um a m anta, e algum a coisa que parecia um travesseiro. Mas o Pernam bo praguej ava contra as m ariposinhas que buscavam o reflexo lum inoso em sua cara chata; e o J’sé-Jórj o assoprou a candeia.
Lélio se estendeu, feliz de seu bom descanso. Já se abençoava de ter vindo para o Pinhém ; principalm ente, se conseguia solto, dono de si e sem estorvo. Era um novo estirão de sua vida, que principiava. Antes, nos outros lugares onde m orara, tudo acontecia j á em endado e envelhecido, igual se as coisas saíssem um as das outras por obrigação sorrateira — os parentes, os conhecidos, até os nam oros, os divertim entos, as am izades, com o se o atual nunca pudesse ter um a separação certa do j á passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra. A tanto sentia falta de um a confusão grande, que aj udasse a um não carecer de curtir a confusão pequena das coisas de todo o dia da gente, derredor. E ter tem po para ir se lem brando devagarinho das m elhores horas, consum indo. Avante e volta, gostava de galopar, no cam po, o galope, o galope. Assim queria j á ter vivido m uito m ais, senhor aproveitado de m uitos rebatidos anos, para poder ter m aior assunto em que se reconhecer e entender. A um m odo, quando descobria, de repente, algum a coisa nova im portante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, j á sabido há m uito, m uito tem po sem lugar nem data, e m esm o m ais com pleto do que agora estivesse aprendendo.
— “Vou rezar hoj e em intenção de m eu padrinho Higino, que Deus o cuide e trate…” — proferiu o Canuto, afrontando. — “Ah, está aí o que você, o novo, não viu nunca: vaqueiro rezador…” — o Pernam bo glosou. Daí, o Canuto: — “Rezo, tio velho, rezo, em pé e deitado! Sei o reino-do-céu? Tom bo um herege, e ainda posso rezar por o vosso avio um a ladainhazinha sem responso…” Os outros, no escuro, riam . Lélio sorriu tam bém , m as porque surpreendia essa bravata do Canuto: se m ostrando para que os outros o debicassem , e então poder se dem ostrar ainda m ais forte, de toda zom baria despicando. Até o sussurro de sua rezação se retardava, que nem um cochicho de m orcegos. — “Lhér, m ulher…” — depois desabafou alto o Pernam bo. Ainda quis acrescentar: — “Ai, qualquer um a, gente, agora m e servia…” E era. Era em m ulher que Lélio estava pensando.
Na Mocinha que tinha viaj ado para Paracatú. Ela era toda pequenina, brancaflôr, desaj eitadinha, garbosinha, escorregosa de se ver. Quase parecia um a m enina. Mas Lélio a escutara um dia responder: — “Olhem , que eu j á tenho um quarto de século…” E se transform ava, m uito séria, de repente, o ar de zangada sem m otivos, os olhos paravam duros, apagados, que perto os de um a cobra. Ela não baixava o queixo. Mas, depois, outras vezes, aqueles olhos relum eiavam de si, m udando, m udando, no possível dum brilho solto, que am adurecia, fazendo a gente im aginar em anj os e nas coisas que os anj os só é que estão vendo.
Os outros — o Assis Tropeiro, o Lino Goduino — nem a achavam tão bonita. — “Só espevitada e m alcriadinha, gostando de se sobressair…” — tanto eles diziam . — “E é até que é um a cachucha nanica, sem o ceitil de graça…” — o arrieiro Euclides falou, pelo desdém das uvas, em tom de todo desprezo. Assaz que Lélio se regozij ou de ouvir esse parecer, por m ais m uito. A beleza dela pudesse ficar para ele só, por nada e suspendida, que m esm o assim o vencia pelos olhos. Porque, desde o m om ento, nessas ocasiões, ele ouviu de si e se afirm ou que, sobre bonita, por algum destino de encanto ela para ele havia de ser sem pre linda no m undo, um confim , um a saudade sem razão.
Ah, nos dias, bem pouquinho dela pudera ter, ou não ter, pois era m oça fina de luxo e rica, viaj ando com sua fam ília cidadôa; gente tão acim a de sua igualha. Ele a via, m odo e quando. Sabia que ela não lhe dava atenção m aior, nele nem reparava. Assim m esm o, por causa dela, e do instante de Deus, tinha aventurado o sertão dos Gerais, m ais ou m enos por causa dela term inava vindo esbarrar no Pinhém . Ela doía um pouco.
Os com panheiros dorm iam . Oco, tão entregue aos passos lem bráveis, Lélio se desencontrara do prim eiro sono. Estava na Trom ba-d’Anta, e um dia não pudera continuar ali. Por conta tam bém de um a m ulher, Maria Felícia, dela viu que não estava gostando em ponto de um a decisão; e o m arido, um boiadeiro quase ausente, acabara com pondo desconfiança. O m arido era hom em legal de bondoso, não m erecia m au revento, qualquer ofensa de desgosto. Lélio pedira dispensa do serviço ao capataz de seo Dom Borel. Mas então lhe deram de últim o aj udar a levar um a boiada a Pirapora, de donde não precisaria de retornar. Em cidade, o m elhor era ir no cinem a, tom ar sorvete e variar de m ulheres, na casa pública. Conheceu um setelagoano, rapaz prestadiço, chofer de cam inhão, esse o aconselhou a deixar o cam po e aprender aquele ofício, podiam ir j untos por aí acim a, até ao Belorizonte. Experim entou com o cam inhão: não tinha nenhum j eito. Nem queria. Achava que precisava m esm o da vida de vaqueiro, era o que sabia, o de que gostava. Mas aí, ficou conhecendo tam bém um m oço m ontesclarense, que era arrieiro de profissão, estava de saída, com um a pequena tropa de com itiva, roteiro do Paracatú. Perguntou se ele queria vir j unto. O m ontesclarense se cham ava Euclides, levou-o ao Assis Tropeiro, seu patrão. E então Lélio viu, na rua, o Assis Tropeiro conversando com o pai da Moça. E viu a Moça. Naquele m om ento, o que ele sentiu foi quase diferente de sua vida toda. A m odo precisasse de repente de se ser no pino de bonito, de forçoso, de rico, grande dem ais em vantagens, m ais do que um hom em , da ponta do bico da bota até o tope do chapéu. Tinha vexam e de tudo o que era e do que não era. Ave, na vivice do rosto daquela Mocinha, nos m ovim entos espertos de seu corpo, sucedia o resum o de um a lem brança sem paragens. Dava para em hom em se estrem ecer m ais um a am bição do que um a saudade. Ou, então, um a saudade gloriada, assim confusa. Se ela olhasse e m andasse, ele tinha asas, gostava de poder ir longe, até à distância do m undo, por ela estrepolir, fazer o que fosse, guerrear, não voltar — essas ilusões. Ela tinha os cabelos quase acobreados, cortados curto, os pezinhos um pouquinho grandes. E nem o viu. A tropa saía na m anhã seguinte, por Paredão, depois do Laj eado. Num pronto, Lélio disse ao Assis Tropeiro um a conversa de que podia ir j unto, até à Novilha Brava, de onde se apartava e torava para o norte. Veio, m esm o.
A Moça, com o pai, o senhor Gabino, a m ãe, dona Luiza, um irm ão doutor e outros dois rapazes, que eram do Rio de Janeiro. Lélio estava ali para a ver, agarrar de ver, às penas que pudesse, sem pre, sem pre. Vê-la, e a ouvir, bastava. Prim eiro dia, da ponta-de-trilhos vieram até ao Laj eado. — “Será que j á é o sertão?” — ela queria saber. O Sertão, igual ao Gerais, dobra sem pre m ais para diante, territórios. — “Mas j á é o Sertão, sim !” — ela queria e exclam ava: — “Tanto sol, tanta luz! Este céu é o da Itália…” Ela m ontava vestida de hom em , com o um m enino. Às vezes dizia engraçadas palavras, se divertia a rodo, com os rapazes. Segundo dia, o trecho era do Laj eado ao Capão-do-Barreiro, onde tem um a vereda grande, com o buritizal, com um a lagôa. Sendo o m ês de setem bro, o buriti floroso — os altos cachos am arelos de um ouro. — “O burití é a palm eira de Deus!” — ela disse, disse. Lélio se lem brava dos gestos de sua m ãe, e, com o esses vaqueiros do Alto Urucúia, relatava coisas ao cavalo. Mais se contentava, sem pensam ento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, m achucado em qualquer parte. Seu nom e era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois j á estavam de saída, ele o escreveu, porção de vezes, nas costas das folhas das piteiras. Mas ao cavalinho pam pa os nom es que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Mocinhazinha, Sinhá-Linda… E vinham na terceira etapa — do Capão-do-Barreiro ao Paredão — lá iam dem orar o inteiro de um dia, por descanso e porque a Moça queria encontrar coisas de vista. Ela era elegante sem querer, parece que nem sabia que era. Perguntou a Lélio o nom e de um passarinho: era um a m aria-tola do cerrado, ele não considerou decente responder um a bobagem dessa, achou m elhor dizer que não sabia. Por que não tinha sido um sabiá ou um sofrê; m esm o o quem -quem — que em toda baixada de cam po lim po navega, aos pares, pulando atrás dos bois? Os olhos dela rebrilhavam , reproduzindo folha de faca nova. O olhar, o riso, sem elhavam a itaberaba das encostas pontilhadas de m alacacheta, ao com prido do sol. Com o podia se guardar tanto poder num a criaturinha tão m indinha de corpo? Aí Lélio não queria alçar o galho, nem dar-se em espetáculo; m as carecia, necessitava de serví-la, de oferecer-lhe algum a coisa. Com o viu que ela desej ava sem pre provar das com idas e bebidas sertanej as — achara choco o chá de congonha, m as apreciara m uito o de cagaiteira, que é dourado lindo e delicado e tem os suaves perfum es. No Porto-do-Cavalo, ele pensou o proj eto, m al pôde dorm ir. Acordou antes do dia, m ontou e galopou m eia-légua, até onde estavam dizendo que se conseguia achar um dôce de buriti, bom especial. Com prou, m esm o com a tigela grande — não queriam vender aquela tigela, bonita, pintada com avoej os verdes e rôxas flores. Trouxe, deu a ela, receoso, labasco, sem nenhum a palavra podida. Ela riu, provou, e sacudiu a cabecinha: disse aos rapazes que era um dôce grosseiro, ruim . Nem olhara m ais para Lélio. Mas ele ouviu, desriu em cara cuj a, e coube em si pelo resto do dia. Porém , no seguinte, na Fazenda da Extrem a, à tarde por um acaso ele pôde ver seus pezinhos, que ela lavava, à beira de água corrente. Dem orou agudo os olhos, no susto de um roubado m om ento, e era com o se os tivesse beij ado: nunca antes soubera que pudesse haver uns pezinhos assim , bonitos alvos e rosados, aquela visão j am ais esqueceria. Custou assentar cabeça. Modo outro não foram todos aqueles dias, que m udavam o estranho de sua vida, e eram dias desigualados, no riso rodante do m undo, da ponta das m anhãs até ao subir extenso das noites, com o m ilm ilhar de estrelas do sertão. E força foi que enfim ele apartasse e se despedisse, no partirem do pouso na Fazenda da Novilha Brava, depois do Ribeirão do Gado Bravo, que então ele devia beiradear, rum o das nascentes. Até que se alegrava, nem sabia exato por que, na hora de pedir adeus. Talvez pela im portância de ter de ser então notado, de poder dirigir-se altam ente a ela, ele risonho e perturbado, em seu cavalo de duas cores. Tanto ela sorriu, estendeu-lhe a m ãozinha abreviadam ente, nem m acia, perguntando-lhe m esm o por que não persistia j unto, até ao Paracatú. Ah, sentia, não podia… — ele produziu de responder. Nem tudo podia ser com o nós querem os… Mas j á ela se afastava, o am esquinhando, de certo, gracej ava com um dos rapazes, por últim o que falou ainda se ouvia: — “…Mesm o porque, ora essa!…”
Um vivido. O resto era o que-há-de-vir. Lélio não se entristecia, sabia que nunca m ais havia de encontrá-la, m as tudo de com eço tinha sido m esm o sem nenhum a esperança pequena, ele não era louco, o fôgo é que corre com os pés para cim a. Mas tam bém não atinava com m aneira de verdade para a esquecer, por m ais difícil do que m atar um a palm eira ouricurí — que até cortada e caída no chão reenraíza: guarda sua água no profundo. Pensar nela dava a sobre-coragem , um gole de poder de futuro. Mesm o agora, descido no com um da vida, querendo outras m ulheres, de carinhos fortes; m as, depois, um instante, prim eiro de dorm ir, pensava nela, ao acautelado, ao leve. Pensava nela, assim só com o se estivesse rezando.
E ele foi o que antes de todos se despertou — nas frinchas nem clareava — m as acordado de bom repouso, e presto para se afazer. Se estirou ainda um pedação de hora, tem porej ando. Ouvia os bezerros e esperava os pássaros, e que os com panheiros tam bém cobrassem de se m exer. Quando o Pernam bo se espreguiçou cham ando que se aprontassem , ainda era m anhã m orcega. Não chovera. E na m adrugada parda, com Delm iro, Placidino e Canuto, Lélio baixou ao orvalho do pasto pequeno, pelos cavalos — tarefa dos m ais m oços. A anim alada era sã de m ansa: com preendiam espertam ente os grandes sons em a, e alguns j á aplaudiam pés no chão, querendo vir ao curral. Montaram , em pelo, e tangeram os de que precisavam . Aconselhavam a Lélio os cam peões que devia escolher para uso, e ele guardou por experim entar à clara entre um preto m urzêlo m elroado, um branco de pão puro, cam braia, um isabel, um castanho e um entrem eado no pingo de pintas: cor-de-pedra e flôr-de-cardo, que o olhara com olhos bons. Mas naquele prim eiro dia queria se suprir m esm o em seu pam pa — o Agrado — sabido de sim na confiança. Quando chegaram , tocava a arrear; quase todos os casados j á vinham aparecendo. Tom ava-se café, e a cozinheira velha, Maria Nicodem as, repartia farofa de carne, que cada um levava na capanga. Subiram em sela. Aí qual e qual em punhando sua vara. O vaqueiro Aristó tirava-os a cam po. O vaqueiro Aristó era um hom em positivo: — “Com Deus, m inha gente, que hoj e é dia de m uito apuro!” “— Se vai é no Saco-Dôce, por com eçar?” — o Fradim se m etia com pergunta, na dianteira. — “Uê, é m exendo que um vai vendo…” — o Aristó não explicava. — “Mas o Lélio ainda não sabe o cam peio daqui, sistem a da gente…”— o Fradim m ais falou. — “Vaqueiro, se vê quem é, é no m eio do largo!” — Aristó encerrava. Ele tinha o sestro de bulir com o nariz e os beiços, falando, com o um boi revolve as ventas ao pastar.
— “Não se tira leite?” — Lélio perguntou a Delm iro. — “Por enquanto, o costeio aqui m esm o é a pouco: só para o gasto de casa um as vinte vaquinhas pasteiras, o Ilídio Carreiro, o Zé-Am arel, e até com a aj uda m esm a do patrão, logo dão conta… As novilhas que vão parindo ainda estão sendo levadas para o São-Bento…” O dia com eçava aos tantos, e os gaviãozinhos pulavam no capim , catando gafanhotos. Passarinhos em desarripio cantavam nas m ôitas e árvores. Torta, ao norte, a Serra do Saldanh’ se desvendava. Delm iro vinha noticiando.
Dizia do Pinhém . Dos apertos em que o seo Senclér ultim am ente navegava, por via do despreço em que estava caindo o gado puro zebú: no arranco da alta, ele tinha venturado de com prar touros e bezerras da Uberaba, por um custo fora de j uízo. Toleim a, baldear reprodutores de m arca para ali, por aqueles pastos selvaj ados, sem fechos quase, sem cam po-feito. No durar da seca, o gado se espalhava, por dem ais, procurando procurando, e então m uitos caíam de barranco alto, por quererem com er o capim das bordas. E bastava um bote escondido de cobra, ou um a folhagem de trem e-trem e pastada em encosto úm ido de m ato, e estava a rês m orta, perda de m ais de cem , duzentos contos-de-réis. Pior, m as, era agora: zebú assim , desvalendo, seo Senclér se arrancava pelo, fio a fio, vivia atrás de dáfida e dem oratório — aj uda do Governo — e acom pridava seu desânim o. Mesm o com isso, m uita vez praceava alegre festoso, por ser um hom em verdadeiram ente, sertanej o de coração em cim a. Terra do Pinhém , é que era um braço de m undo. Capim gotava leite e boi brotava do chão… Ali no Sertão dos Gerais nem dava bicheiras, nem bernes: o couro saía de prim eira qualidade. A m ulher de seo Senclér, dona Rute, era excelência de pessoa, sabia ter confiança em quem m erecesse. Ela apreciava o valor dele, Delm iro, m andava que ele tom asse conta, se o seo Senclér andasse atrás de algum a outra saia… De certo que ele não ia delatar, por fazendo feio, nem que visse coisa, de j eito nenhum . Só que convinha agradar à boa dona Rute. Mas, olhe, isso era segredo, segredo de m orte, Lélio não podia contar, m as p’ra ninguém … Lélio prom etia, e perguntava se os patrões tinham filhos. — “Ah, aqui não tem sinhá-m oça… Iaiá nenhum a, aqui não há, o que é o m elhor!” Só dois filhos, m eninos, que eles tinham , m as estavam em casa da avó, no Curvelo, botados no estudo.
Mostrava, por onde passavam , casas de vaqueiros. — “Ali, é o Lidebrando. Mulher dele, Benvinda, é filha de Aristó. Eles dois são gente de todo valor de respeito. O Aristó é que m erece m enos do que tem , m andão-chefe…” Outra, cham inezinha de fum aça acim a: — “O Tom é. Ora vive com um a m ulata escura, m as recortada fino de cara, e corpo bem feito, acinturado, que é um a beleza sensível, m esm o: é a Jiní, que se cham a…” Tom é Cássio, tão m oço, o m ais m ocinho de todos, quase um m enino, m as tam bém o m ais sisudo e calado — era o m elhor topador à vara, entre os vaqueiros dali. — “Ele não tem um tico de nervoso, não pisca, não estrem ece, não enruga. Tem m edo de nada! Boi bravo, com ele, é que acaba não se reconhecendo…” Assim , tam bém , ainda que pandorgas, o Canuto seria o m elhor laçador. Cavaleiro m elhor, e peão am ansador, era Lorindão. Prim eiro benzedor, Soussouza: capaz de reform ar doença até no rastro de um a rês. E quem entendia regra do gado, no geral, Lidebrando. Mas o que sabia o antigo certo, por riba de todos, por tudo, era m esm o o danado do Aristó. — “Daí, tem o que não é tolo, m as que quer m uito ser o que não é, esse espoleta de Fradim …” E de si m esm o Delm iro declarado não falava; m as, conform e discorria dos outros, sentenciando, frisava um riso e um j eito de dizer, que arm ava ao gabo m ais distinto e superior de sua pessôa.
O sol saía, redondo no chão serrano do fim de leste. Lélio nunca tinha visto tantos gaviões, dos grandes, que vinham no céu e gritavam . Os cavaleiros tom avam pela m eia-encosta de um resfriado, e na vereda abaixo os buritis estalavam de verde novo, sob o agarrar de m uitos pássaros, rem exendo nas frondes, nos cachos de coquinhos m al nascidos, clam ando fino e transvoando. Cada palm eira ficava de um a raça: quando era sofrê, am adurecia só de sofrê; quando m aitaca, o verde até azulava; os papagaios sarapintavam am arelos pontos; m as as araras m andavam e ralhavam onde queriam , toda a parte.
— Rum o, hoj e, é para os Olhos-d’Água. Bom pasto…
Sem pre a par com Delm iro, Lélio notava o m odo de Canuto — a cara averm elhada, em quadro na cisgola branca, de fino trançado, e enfeitada até com anéis — que de distância vigiava-os, com o que sério de ciúm e. O Pernam bo entoara, pouco adiante, um a trova de três versos. Aquele resfriado rendia longe, seguindo os todos volteios da vereda. Mas, Delm iro, o que ele queria m esm o era falar de si, seus proj etos, de sua raiva de não poder prosperar, de ter de rem ar com o pobre vaqueiro. — “Sabe, m eu pai foi boiadeiro de renom e, e m eu avô dono de fazenda, pom peano!” Ele, Delm iro, ainda havia de se fazer, lidava nesse cam inho, não baixava o topete por nada nenhum , não se entregava! O que carecia era de um com eço de cabedal, para m ascatear, revender gados; am ouxava, j á tinha oito contos-de-réis, a j uros, com seu prim o Astórgio, em Arinos. E proteção de gente graúda, isto sim , é que era im portante. Ainda esperava m ais uns dois anos, e então ia para outro lugar — pra Mato-Grosso, ou, agora se dizia que o m elhor era o Paraná, quem sabe… De nervoso, pegava a fum ar, e cotucar dedo no nariz. A m ote, perguntando a Lélio: que planos que tinha? Lélio se atalhava, não estava com disposição para nisso pensar — a vida regulada no estreito o desconcertava, assustava. Por algum a coisa em Delm iro, a gente podia gostar dele; e j á era seu am igo. Mas fazia m al aquela sua fúria de tenção, o com panheiro recordava ideia de um chaleirão que fervesse, e a fervura fazendo pular a tam pa; esse cobiçar, esse ronco interior, de gana encorrentada, chega cheirava a breu, secava os espíritos da gente, dava até sede.
— “E o J’sé-Jórj o?” — perguntou, por desconversa. — “Bugre, de diabo…”
“— E o Placidino?” “— Ara, coitado. Idiota…” Delm iro respondia abrutado, com o se estivesse dando soco no am igo. Agora, quando se esquentara naqueles pensam entos, parecia tom ar raiva de todo o m undo. Mas falava assim sem principal, zangado no instante, por Lélio ter tapado seus assuntos. Tanto, que, voltando rastro, em endava: — “J’sé-Jórj o é com panheiro correto, hom em que j á achou os desgostos da vida… Placidino tam bém é bom rapaz, nunca fez m al a ninguém …” E logo tornava a falar no de antes. Que o perigo era a gente se em beiçar por um a m ocinha sertanej a, surgir casam ento, um se prendendo e inutilizando para todo o resto da vida. Casar, só com um a fazendeira viúva, um a viúva ainda bem conservada. Mesm o ali no Gerais a gente cam peava algum as, que valer valiam . Aí era o que Lélio tam bém devia de ter em cautela: nam oro com m oça pobre, filha de vaqueiro, era am eaça de aleij ão… E ali tinha, por dizer? — Lélio perguntava. Ah, bonitas, em algum a condição, tinha só três: Mariinha e Biluca, filhas de Lorindão; e Manuela — irm ã de Maria Júlia, m ulher de Soussouza. Com essas, então, ele carecia de m edir cuidado! Menos com a Biluca, j á noiva do Marçal, filho do Aristó, e vaqueiro tam bém , que agora estava no retiro do São-Bento, porque depois de casados eles dois queriam m orar lá, e nas horas de folga ele m esm o ia levantando sua casinha. O Marçal era o m elhor de todos, alegre e sincero, Lélio ia ver…
Lélio escutava, anuindo com a cabeça, se esforçando por guardar, desde logo, todos os nom es e parentescos. Delm iro continuava: — “No São-Bento estão m ais dois com panheiros, que você vai conhecer: o Ustavo, que vive com a Adélia Baiana, e o José Miguel, solteiro com o nós, que alguns tratam de ‘Mingôlo’…” Mas Lélio olhava os adiantes, e tinha algum a coisa no desej o. Perguntou, por fim : — “E m ulher, m ulher no sim ples, para a precisão da gente? Será que por aqui não tem ?…” Delm iro riu, e fez um gesto de poder-deixar; disse: — “Tem as ‘Tias’. Depois de depois-d’am anhã é dia-de-dom ingo, a gente vai lá. Você está em estado de esperar?” Lélio enfifou. — “Perguntei só por perguntar…” — disse.
Pela m ão esquerda, deixavam o resfriado, para um com eço de pasto suj o. Aristó, esbarrado acolá, esperava que todos se rearreunissem , determ inava o rodado do vaquej o. Era para se aj untar de arrebanho tudo o que fosse possível, bater a gadaria para os currais. — “Pra o sal…” — arrazoou Delm iro. Com o sal, venciam seu sentim ento. Se não, se iam : — “Chuva forte endoidece esse trem : faz boi achar saudade da querência. Foge. Corta um a reta…” Longe dali, que nem perguntando e pedindo, um a novilha corneteou. — “Tom em tristes…” — caçoava o Pernam bo, atando as tiras de couro do j aleco. Aristó fechou a cara. Andaram . Vararam um cerradinho. Depois, era o retom bar do cam po, desconform e. Ali desem bocaram , passo a dois, passo a três. Reses se avistavam , que com iam . Mais rem oto, um m agote vasto. — “Oi, os sem oventes!” — Soussouza saudou. Aristó, adiante, tardou um m om ento, m ão em pala. E m andou que se abrissem . — “Você fica perto de m im …” — disse a Lélio. Iam contra o vento. Era um espalhar-se dos vaqueiros, form ando as grandes m alhas de um a rede. Pronto, sabiam : sem um tranco, sem tinir freios, sem sacolej ar caçam bas, sem ranger selas; m esm o fazendo os cavalos escolher o chão a dedo curto. Ensinavam m ansidão.
Além , nos extrem os dum arco, só os chapéus de J’sé-Jórj o e Placidino apareciam , ondulando por sobre m ôitas e m acegal. Com um gesto alto, Aristó enviava, seguidos, três com andos. Lélio guardou, de aprendido; que aqui tudo era outro uso. Dôcem ente, desdem ente, de lenta subida, com eçavam a aboiar.
O gado entendia, punha orêlhas para o abôio, olhavam , às vezes hesitavam . Uns furavam em bora, às pragas. Ficavam para depois. Mas o grosso da parte restava, se englobavam em m anada extensa, obedeciam de vir. Uns dois centos, sem m enos, e Soussouza, Fradim , Placidino e J’sé-Jórj o, que se dividiam dos com panheiros, bastavam para tom ar conta deles, conduzí-los lá.
Os outros tornavam a cerrar-se, para as ordens de Aristó. Verificavam -se. Lélio acertou barrigueira e sobrecilha. — “Agora é que é com a m ãe de Deus; m enino, tu vê…” — o Lorindão lhe falava. Aí era, à m acha. Galopavam , atalhavam , perseguiam , cercavam . A Lélio pesava a estreita presença de Aristó, que o punha em prova. Dentro dum bando, só um touro expedia inquietação, o todo a grosso. — “Cam inha nele e aparta!” — Aristó m andou. Lélio sopesou a vara e atirou o cavalo contra aquele, topou-o de ferrão no focinho; que ele furiou, depois fugiu. — “Vam os atacar de laço…” Entregavam as varas ao Pernam bo, pegavam sendos laços, se botavam . De repente, enquanto corriam em parelhados, Aristó atirava o seu e logo abria para o lado, a voo, que quando. Mais um m om ento, e Lélio teria dado na corda esticada do laço, e caído “na ronda”. — “Êp’ ôp’!” — sem estacar se desviou por sua vez, banda oposta; e tam bém atirou: o touro estava em dois laços! — “Tacou bom , m ocinho! Duro…” — Lorindão louvou. Mas Lélio cobrou tem po para raiva. Aquilo do capataz tinha sido tram oia m alina, fora de regra, estratagem a de vaqueiros desavindos, só em porfia. Por causa disso, m uita vez se traçavam rixas, no sangue, na faca. Reteve-se de piores palavras; o m ais que resm ungou: — “Diacho, aqui é no estatuto coiceiro…” E Aristó, encarando-o a sério: — “Dou garupa, m as não forro traseiro do cavalo…” Lélio ainda desabafava: — “Por via dessas…” Mas Aristó não saía do sossego: — “Pega com Deus, que tu pode…” Os outros se cosiam de rir. A Lélio o que o irritava m ais era a laçada de Aristó ter provado m elhor que a sua — apanhara os chifres sem enredar orêlha. E ele sabia que o capataz o estava puxando debaixo de vistorias. Que gente… E Canuto: laçar era aquele — fazia o que queria, o tudo, tudo. Canuto laçava até para trás, m al espiando por cim a do om bro. Ou rezava o pelo-sinal, depois nem boleava, ou só riscava curto, e avisava: — “Um rodopio por riba da cabeça deste, e ele fecho estreito nos pés dos chifres, a argola vai estalar no esquerdo…” E era. — “Aprendeu com sucurí, ô?” Um estiro de relâm pago, e era. Ou aquela ida no ar, vagarosa de-propósito, sirripiando curvas lado e lado. E era! Laçava e fazia qualquer touro virar as patas para o ar. Canuto m esm o se festej ava, pinoteando na sela, dando gritos de doido. Parecia um boneco. Assoviava. Ô gente do Urucúia, ô gente!
— “Alevantou!” Um zebú ruim se revoltava. Se plantava num terro m ole de chão, em cim a de form igueiro, querenciava, escarvava — ficava ali cavando-e-m edindo, despachando baba por suas costas. Era a hora de Tom é Cássio. Ele desem bainhava a ponteira do ferrão, ia apear para atacar, num resum o tranquilo, feito viesse apanhar algum a fruta em árvore. O zebú abria o furro daquele berro, fundo um arquêj o, a barriga toda encolhida — ele puxava todas as entranhas. Mesm o na claridade do dia, aquilo toava agouro feio de luto, o m undo ficava preto. Sem pensar, Lélio gritava que deixassem para ele, entestava. Indireto, pelo receio de m elindre do com panheiro, m esm o assim Delm iro conversava um aviso: — “A carga dum boi erado desses é de assustar qualquer um , m esm o…” Lélio não queria ouvir. Já estava a pé, ferrão nú, vara em trato. Com eçava posição, afastava zangado o Pernam bo e Delm iro, que queriam aj udar. O touro alteava cabeça, tom ava ar, se inchava. Obrando e rabeando, sapateava num lugar só, e trem ia-lhe a carne do pescoço. Lélio citava-o, obrigou-o. Ele vinha.
— “Topou, tu! Deu direito!…” — os com panheiros conheciam . Mas, não, topar bem era o Tom é Cássio. Mesm o antes, a gente j á via que o boi que avançava no Tom é era porque queria se m achucar. Tom é aparava-o, sem dar de sentir o engolpe, castigava-o no ferrão; cedia, m as estava era deduzindo um galeio leviano do corpo, se torcendo de banda: em purrava com o bichão em terras! E Aristó m esm o não declarava valor certo no lance de Lélio, despicava num m uxoxo: — “Por um bom pio, só, tié não vira sabiá…” Que coisa esse capataz Aristó queria então que ele com portasse?! Mordia um m order, retom ava o laço. Boi zunia por ali, escouceando, o laço cascava: ô! — colhia a rês pelas duas patas de diante, num tirão lindo. Canuto m esm o m udava de cor, fingia não ter enxergado. Mas aquele em -ponto podia ter sido puro de sorte, Lélio pensava. Tam bém , tivesse errado, que vergonha dele não exclam avam ? E Aristó só o olhava de esquinta. Com o sozinho, Aristó falava, devagar: — “Correr atrás de boi no cerrado é um a doideira… Mas tem cavalo — este Repuxo-o-Puxo m eu — que faz… É bom -de-cam po…” E corria. Lélio se j ogava tam bém , no seu Agrado, não ficava atrás. Sinuoseavam por entre paus, galhos se quebravam , não largavam do encalço dos bois. Saíam no lim po. — “Dar a cabeceira a um a rês, é que é danado…” Lá ia Lélio, galopava diabo, passava à frente do novilho bravo, repontava-o. — “Tirar gado bagual do capão não é fácil… Barbatão estranha…” Ia. Gosto de ver o fraquear, Lélio a ninguém não regalava. Já tinha conseguido m uitos, engarupado, dado m uçuca, ou derribado à vara, no hom em -a-boi, sendo exato. E esse capataz velho tinha m ais prim eiro de se cansar! Um boi cerej o berim bou seus chifres, surgindo de detrás do cravo-do-cam po, fugiu nos vaqueiros, danou p’r’ ali, varou por todos. — “Atravesso? A laço?” — Lélio perguntou. E não era que agora o Aristó achava de sua bôa-vontade desm erecer? — “Diabo, hom em , você quer o tudo num dia só?…” — ele destravava. Bem feito, p’ra m im — Lélio pensou — por estar querendo m e proceder; que é que eu tenho, se este ou os outros acham que eu sou ou não sou um vaqueiro de prim eiras qualidades? De agora por diante, bem que ele havia de se encolher, fazer só o m esquinho que m andassem , ganhar sua paga sem luxo de influência nem pressa de em penhoso.
Mas o Pernam bo foi quem falou j usto: — “Esse boiote é o boi do alm oço; com panheiro não está vendo?” Tinham fom e. E o alm oço foi lá perto, à beira dos olhos-d’água, que m inavam em borbulho rom pido m uito alegre, do sopé de um m orro am arelo, de terra de chapada, e baciavam em poços quase de azul e leite, onde os passarinhos bebiam e se banhavam . Cada um se servia de sua capanga, calado com ia seus punhados de farofa de carne. Os cavalos ganhavam um lom bo, desenfreados e desapertados, pastavam . Lélio se cansara, se sentia aperreado. De bom provo seria hom em poder se estender m esm o ali no capim , barriga para cim a, puxar para a cara a aba do chapéu, e se enviar um cochilo dem orado. Por um m om ento, pensou na Mocinha, a Sinhá-Linda: gostaria que ela pudesse vê-lo topar um boi bravo na vara-de-ferrão, arriscando a vida com toda a coragem ; chegava a im aginá-la, ali, m olhando os pezinhos outra vez na água bonita do poço, e falando e sorrindo, ou m esm o não sorrindo e calada. Ah, Paracatú era o lugar m ais longe do m undo.