O Bispo: Nova «Heresia», em verso

Guilherme Braga · Capítulo 3 de 6

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O Bispo: Nova «Heresia», em verso

O Bispo

 

{XXVIII}

{XXIX}

 

I

 

Na cathedral.—Revelações d'um satyro

 

No claro azul d'um frio céu d'inverno,

Sobre a collina onde a cidade dorme,

Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme

D'antiga cathedral;

Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,

—Velho epigramma ao lugubre edificio,

—Largo covil doirado, aberto ao vicio,—

O paço episcopal...{XXX}

 

Bate o luar nos porticos escuros,

Abrigo á noite de sinistras aves;

Lá dentro, as altas, magestosas naves

Envolve a solidão.

Sobem, crescem mil sombras pelos muros,

D'um bronzeo lampadario á luz distante,

Sob as curvas da abobada ondulante

Que estampa os arcos no marmoreo chão.

 

O côro é largo e bello. Ali se abriga,

D'um capitel nos rendilhados folhos,

Um satyro, que ri, piscando os olhos,

Lascivo como Pan.

Dizer parece á cathedral antiga:

«Porque me tens aqui, mostras-te ufana?

Pobre igreja catholica-romana!

Pobre igreja christã!»

 

Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:

«Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,

Ao vêr-te assim crucificado e morto,

Ó déspota dos meus!{XXXI}

Não desejo ser Deus... se Deus é isto:

—Um cadaver perpetuo exposto ao frio—

E, velho fauno desdentado, eu rio,

Eu rio-me de ti!—de ti, que és Deus!

 

Vês alem, por detraz do lampadario,

Um satanaz assoberbando um globo?

Deitado aos pés de Deus, parece um bobo

Deitado aos pés d'um rei.

Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,

Tive dó d'aquell'alma taciturna,

E, na mudez da escuridão nocturna,

Com elle me liguei.

 

Vago rumor de vozes mal distinctas

Nos guiou para os porticos do paço:

Eu, sabendo que o bispo era um devasso,

Previa a bacchanal...

Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas

Chammejante de pejo o rosto frio,

Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,

No infame lupanar sacerdotal:{XXXII}

II

 

A humildade do bispo

 

Era um bello aposento,

Que Faublas prezaria sem desdouro...

—Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,

A que dava um revérbero sangrento,

Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,

A adamascada purpura do estôfo.—

 

Molles coxins, em largas ottomanas,

Convidavam a languidas posturas

As Aspasias catholicas-romanas,

As lúbricas sultanas

D'aquelle harem christão, meio ás escuras!

 

Mil fragrancias subtis no morno ambiente;

Ao centro a meza,—o impuro altar da orgia;—

Sobre a meza a baixella resplendente...

A baixella roubada á sacristia:{XXXIII}

Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,

Todo esse lustre a espaços reflectido,

Da luz da orgia á froixa claridade...

 

Satanaz debruçou-se ao meu ouvido

Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos

Aconselham ao bispo esta humildade!»

 

III

Dolores

 

Sentado á meza, o principe da Igreja

Inclina a calva fronte aos seios tumidos

D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,

E em cujos labios humidos,

Rindo, o prazer de beijos s'enebria!

 

Ao vêr-te assim, myrrada

Pelos impuros halitos da orgia;{XXXIV}

Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada

Dos canteiros nataes a impura alcôva,

Quem ha que se commova,

Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?

 

Tem por nome Dolores...

Por officio, vender a quem lh'os paga,

Como não tem amor, os seus amores.

 

É soberba e formosa!

Brilhante e seductora!—imagem vaga

D'Eva... já criminosa,

Escondendo a nudez por entre as flores!

 

Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,

D'éden occulto e precipicio aberto,

Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!

Para quem dorme, em extasis, coberto

Pelas ondas gentis do seu cabello,

É como no deserto

A mancenilha, que adormenta e mata!{XXXV}

Os braços nus da joven messallina

Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla

A carne branca, avelludada e fina,

Que lhe é dado gosar... mesmo sem bula.

 

Collam-se, em longo beijo,

As duas bocas ávidas, famintas...

 

Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas

O rosto frio a chammejar de pejo!

 

IV

 

Supplicas e promessas.—Caracter

evangelico do bispo

 

DOLORES

 

Prende-me ás tranças formosas,

Se tu és o meu amante,

As joias mais preciosas

Da tua mitra brilhante!{XXXVI}

 

Fulgirão co'as pedras tuas,

Cheias de raios inquietos,

Meus soltos cabellos pretos

Nas alvas espaduas nuas!

Haja depois quem se affoite

A julgar outras mais bellas...

São tranças da côr da noite,

Precisam d'essas estrellas!

 

O BISPO

 

Rainha das feiticeiras!

Venus, que sahes d'este mar!

Pede tudo o que tu queiras,

Tudo o que eu te possa dar.

 

Louca, aos meus beijos entrega

Teus hombros, teus seios nus!...

Dou-te a igreja, o paço, a adega,

O báculo, o annel, a cruz;{XXXVII}

 

As altas seges vermelhas

Que tem cem annos, ou mais,

E as gordas, rijas parelhas

Das mulas episcopaes...

 

Toda a riqueza que brilha

No pomposo altar de Deus,

E um dos meus cónegos, filha,

Por cada beijo dos teus!...

 

DOLORES

 

Eu gosto de sentir nos braços froixos

O enorme pezo do teu corpo exangue,

Mas, se te collo a boca aos labios roixos

Acho em teus labios um sabor a sangue!...

 

Amas o sangue?

 

O BISPO

 

Adoraria a gloria

De ter sentido, eu só, n'esta existencia,

Todo o sangue dos martyres da historia

Cair-me, gota a gota, na consciencia!{XXXVIII}

 

Quizera ter colhido o goso ardente

De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;

Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,

Nos braços nús das ébrias prostitutas!

 

Os pallidos christãos,—torpes escravos,—

Expirando entre as garras das pantheras,

E a turba inquieta prerompendo em bravos...

Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!

 

Quizera, quando as sombras da heresia,

Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,

Rasgava, escurecendo a luz do dia,

Do Santo Officio o pavoroso facho.

 

Quizera dar a humanidade inteira

Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,

E, dos pôtros no horror, e na fogueira,

Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!{XXXIX}

Mil peçonhentas viboras no seio

A infame contra nós, sem medo, abriga.

Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,

A humanidade, a nossa escrava antiga!

 

Podesse eu ter, ó pallida Dolores,

Do sangue d'ella trasbordando o calix!...

Era um rebanho vil; nós, os pastores,

E a Realeza era o canis pastoralis...

 

Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,

Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!

Quebrou, raivando, as solidas algemas,

E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!

 

Mas que aurora, mulher! que vasto incendio

Nos sombrios dominios do passado!

Que opprobrio para nós! que vilipendio!

Que roubo infame ao senhorio herdado!{XL}

 

E assim ficamos nós, sem que lavasse

De sangue um rio a nodoa!...—escura ideia!

E assim trazêmos na orgulhosa face

Perpetua a marca vil da mão plebeia!»

 

V

Movimentos de fera.—Risos longinquos

 

Ergueu-se, febril, d'um salto,

Como um tigre nos juncaes;

Seus olhos chispavam lume

Como os dos lobos cervaes;

Crispava as mãos como garras;

Tinha rugidos na voz!

—Satanaz tremia, ao vêr-lhe

O rude aspecto feroz.

 

Correu á larga janella

E, abrindo-a de par em par,

D'um anáthema ruidoso{XLI}

Fez os espaços vibrar...

—Ouvia-se, ao longe, ao longe,

O rir convulso do mar.

 

VI

 

O anáthema, fragmento do «Syllabus».—

Angustias d'uma alma piedosa

 

«Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!

Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;

Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;

Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!

 

Vêde: por toda a parte as hydras do peccado

Erguem altivo o collo, iradas contra nós,

E o nosso bom cutello esconde-se embotado

Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!{XLVII}

Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos

Como as feras no matto, os reis d'origem pura;

Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...

E assim chamaes aurora á noite escura... escura!

 

Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;

Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,

—Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,

E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!

 

Erguendo para os céus a pavorosa fronte

O anjo da Assolação atraz de vós caminha;

Quando o incendio alumia a extrema do horisonte

Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!

 

E para que desmaie o fogo da heresia,

O fogo a que se aquenta a sordida relé,

Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,

Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!{XLIII}

 

Ó pavidos heroes da lugubre tragedia

Que a historia do passado aos seculos ensina!

Ó despotas feudaes da torva idade-media!

Ó soffregos irmãos das aves de rapina!

 

Padres, em cuja mão fulgia a núa espada

Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,

E em cujo ferreo peito a veste consagrada

Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!

 

Monges de frio aspecto e d'animo impassivel

Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;

Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,

Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!

 

Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,

Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,

Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,

O clero envilecido, os infamados reis?{XLIV}

 

No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,

—A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,

E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,

Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.

 

Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,

Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,

E do eterno Voltaire a eterna gargalhada

Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!

 

Fervem inda no espaço os odios implacaveis

De que innundára a terra uma sinistra ideia,

—A ideia que do lodo exalta os miseraveis

E inspira «Oitenta e nove»,—a tragica epopeia!

 

Para que espante os céus, para que o mundo aterre,

Quantos éccos talvez de novo accordará,

Fria como uma espada, a voz de Robespierre,

Ardente como um raio, o grito de Marat?!{XLV}

 

Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,

A ignobil multidão, potente em seu reinado,

Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,

Onde expia a Realeza as glorias do passado;

Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!

Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,

Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,

Passando sobre a terra, a terra assolarão!

 

Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha

Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;

Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha

Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!

 

Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:

Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,

E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,

Das barbaras legiões a marcha triumphal!{XLVI}

 

Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,

Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,

Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada

Nos braços varonis dos povos da Germania...

 

Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas

Co'a sussurrante voz das santas orações:

Os servos do Senhor descem ás catacumbas;

Acolhem-se do nada ás frias solidões!

 

Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,

Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?

«É tarde!» disse alguem.—Não! inda não é tarde!

Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!

 

Os que são contra nós inspiram medo e asco,

—Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...

Ah! podesse eu punir,—punir, como o carrasco!

Ah! podesse eu vencer,—vencer, como o chacal!{XLVII}

 

Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,

Approveitando o amor, o lubrico pretexto,

Encher pelos festins as taças de veneno!

Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»

 

VII

 

Remeniscencias da canção dum proscripto

 

Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,

Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,

Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,

Vibrarem mil clarins ao som da Marselheza,

E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»

 

Loucuras da hespanhola,

Que uma vez, n'um café da Andaluzia,

Tinha ouvido soltar-se aquelle grito

Dos labios d'um francez, moço e proscripto,

Que depois de cantar pedia esmola...{XLVIII}

 

VIII

Orgia.—Amor e vinho.—

Ainda o caracter evangelico do bispo.—

Mane, Thezel, Phares!

 

Eil-os de novo no calor da orgia:

 

O BISPO

 

O symbolo da Fé,

O largo calix d'oiro

Do velho altar da Sé,

Enche-o de vinho transparente e loiro!

 

Bebamos! Quem bebe acalma

Todas as máguas que tem.

Cá dentro, ás vezes, noss'alma

Parece beber tambem.

 

Não sabes como eu abranjo

Os mundos que tu não vês?

Colla aos teus hombros d'archanjo

As azas da Embriaguez!{XLIX}

 

Ai! verás como te elevas

Nos sonhos que ella produz...

Passarás da luz ás trevas!

Irás das trevas á luz!

 

Ha de abrazar-te em desejos

Que ella mesma apagará;

Has de sentir muitos beijos

Sem nunca vêr quem t'os dá!

Ora, a nudez, que enthusiasma,

Pelo abysmo encobrirás,

Fugindo como um phantasma

Aos braços de Satanaz;

 

Ora, ante os olhos do Eterno,

Rolarás sem um só véu,

Tentando, em nome do inferno,

A castidade do céu!{L}

 

Ai! bebe, flôr do serralho,

Como a rosa, a tua irmã,

Bebe as perolas do orvalho

De que se enfeita a manhã!

 

Molha os labios á vontade

No santo vinho hespanhol:

As gôtas d'essa humidade

Hei de eu seccar, como o sol!

 

Quanto prazer se resume

Nem tu calculas, talvez,

No suavissimo perfume

Do Madeira e do Gerez!

 

É justo que me acompanhe

Tua alegria sem par:

Venha o Champanhe! o Champanhe!

Saltem as rolhas ao ar!{LI}

 

Canta, ó deusa, que me abraças

Cheia d'indomito ardor!

D'entre o tinido das taças

Solte-se um canto d'amor!

 

Qu'importa o grito da plebe

Que a miseria escravisou?

Eu folgo; tu canta e bebe!

És quem és: eu sou quem sou!

 

Dizem que por essas ruas

Andam vagando, ao desdem,

Descalças e quasi nuas,

Umas crianças sem mãe;

 

Que, onde a miseria rebrame

Contra a nossa ostentação,

Avulta uma cousa infame

Chamada prostituição;{LII}

 

Que a sombra é vasta e profunda

Nos desherdados casaes,

Que a espaços a chuva innunda

E abalam os temporaes;

 

Que, entre a noite escura e triste,

Por terem fome, uns atheus

Perguntam se Deus existe,

E, se existe, onde está Deus?;

 

Que uns velhos, a quem se deve

Profiqua gloria sem fim,

Dormem, cobertos de neve,

Ás portas do meu jardim;

Que, sem tecto onde se acoite,

Um bando de paes e mães

Inveja, durante a noite,

A casota dos meus cães;{LIII}

 

Que a Justiça, em vis calvarios

Onde é vergonha morrer,

Crucifica os operarios

Que já não tem que fazer!

 

Será, póde ser verdade...

Mas, tão distante do céu,

O archanjo da caridade

Decerto que não sou eu!

 

Canta! Bebamos! Scintille

Noss'alma d'amor jovial!

Haja um quarto do Mabile

No palacio episcopal!

 

Quando, nas lagens marmóreas

D'igrejas, ditas christãs,

Já se exaltaram as glorias

E o nome das certezas,(1){LIV}

 

Qu'importa que n'estes paços,

Longe do olhar de Jesus,

Morra, na cruz de teus braços,

Um sacerdote da Cruz?

 

Canta, como as filomelas!

Canta, como os roixinoes,

Á flôr, ao lago, ás estrellas

Dos teus jardins hespanhoes!

 

Mas não cedes ao meu rôgo?

Filha, em que estás a scismar?

 

DOLORES

 

Scismo nas letras de fogo

Dos muros de Balthazar...{LV}

 

IX

 

Pejo do satyro.—Satanaz e Deus.—

A immobilidade de Jesus.

 

Não posso dizer mais... não sei... não quero!

Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,

E ambos, deixando o tenebroso paço,

Voltamos para aqui:

 

Rudes convivas dos festins de Nero!

Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!

Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!

Vós sabeis o que eu vi!

 

Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto

Do eterno tentador... N'aquella orgia,

Se lá coubesse Deus, Deus rolaria

Aos pés de Satanaz!...»{LVI}

 

Calou-se de repente e, meio occulto

Do capitel nos rendilhados folhos,

Ria cada vez mais, piscando os olhos,

O fauno,—o hereje audaz.

 

Jesus, no entanto, immovel, silencioso,

A fronte morta para o chão pendia,

Na terrivel postura da agonia

A que o forçára a cruz...

 

E ha quem espere um grito doloroso

D'aquell'alma sublime? Ha quem espere

Vêr passar o sorriso de Voltaire

Nos labios de Jesus!

 

X

 

Na immensidade

 

Longe, ao longe, na abobada do espaço

Calma, impassivel, luminosa e fria,

Pairava ancioso, vigiando o paço,

Das orgias o archanjo,—a Apoplexia...{LVII}