O Bispo: Nova «Heresia», em verso

Guilherme Braga · Capítulo 4 de 6

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O Bispo: Nova «Heresia», em verso

Ao Povo Ingenuo

 

 

Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!

Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,

Ir, de joelhos, á capella ardente

Beijar os santos pés ao bispo morto...

 

No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,

Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...

Tu, que poisas na mão que te despoja

Mil ósculos d'amor crente e sincero!{LVIII}

 

Se elle houvesse o «direito do mais forte»

Arrastarias vergonhosa algema;

Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!

Derradeira abjecção! baixesa extrema!

 

Quando has de tu deixar as vis doutrinas,

As vis superstições dos tempos velhos,

E fazer cathedraes das officinas,

E procurar na Sciencia os Evangelhos?

 

Quando has de tu surgir calcando arminhos,

Nos salões onde, altivos do seu nada,

Ri a mitra da c'roa dos espinhos,

E o sceptro inutil da prestante enxada?

Quando has de tu entrar na grande liça,

E, saccudindo o teu grilhão desfeito,

Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»

Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?{LIX}

 

Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;

As armas do trabalho á carabina!

Onde estava a prisão surja uma eschola,

E um theatro onde estava a guilhotina!

 

Da liberdade atalayando o asylo,

Sê magestoso e bom, sê grande e puro;

Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,

A sagrada bandeira do futuro!

 

É já longo o caminho do Calvario

Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...

Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!

Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!

 

Porto, 12 de novembro de 1873.