O Bispo: Nova «Heresia», em verso
Ao Povo Ingenuo
Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!
Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,
Ir, de joelhos, á capella ardente
Beijar os santos pés ao bispo morto...
No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,
Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...
Tu, que poisas na mão que te despoja
Mil ósculos d'amor crente e sincero!{LVIII}
Se elle houvesse o «direito do mais forte»
Arrastarias vergonhosa algema;
Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!
Derradeira abjecção! baixesa extrema!
Quando has de tu deixar as vis doutrinas,
As vis superstições dos tempos velhos,
E fazer cathedraes das officinas,
E procurar na Sciencia os Evangelhos?
Quando has de tu surgir calcando arminhos,
Nos salões onde, altivos do seu nada,
Ri a mitra da c'roa dos espinhos,
E o sceptro inutil da prestante enxada?
Quando has de tu entrar na grande liça,
E, saccudindo o teu grilhão desfeito,
Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»
Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?{LIX}
Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;
As armas do trabalho á carabina!
Onde estava a prisão surja uma eschola,
E um theatro onde estava a guilhotina!
Da liberdade atalayando o asylo,
Sê magestoso e bom, sê grande e puro;
Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,
A sagrada bandeira do futuro!
É já longo o caminho do Calvario
Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...
Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!
Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!
Porto, 12 de novembro de 1873.