O Ensino da Historia da Arte nos Lyceus

Joaquim de Vasconcellos · Capítulo 2 de 2

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O Ensino da Historia da Arte nos Lyceus

Documento Ii

1.º O estudo dos Monumentos Nacionaes é necessario no ensino secundario dos

Lyceus centraes, pelo menos.

2.º Este estudo não póde realisar-se proficuamente sem um estudo parallelo dos

elementos essenciaes da historia da arte.

3.º Este estudo póde e deve ser feito como Commentario ao Curso de Historia,

pelos seguintes meios:

a) Excursões escolares dos alumnos das classes mais adeantadas.

b) Commentario technico e esthetico perante o monumento, á altura da

capacidade dos alumnos.

c) Notas, esboços e reproducções photographicas, tiradas nas respectivas

localidades.

4.º É necessario crear, desde já, os Cursos livres sobre historia da Arte,

especialmente da Arte nacional, junto dos Lyceus centraes, emquanto não se incluir o ensino regular das fórmas da Arte no Quadro das disciplinas do Lyceu para ambos os sexos, conforme existe ha muito nos Lyceus de França e Allemanha.

5.º É necessario ir juntando, desde já, o material de demonstração,

colleccionando estampas, photographias e reproducções em gesso, que sirvam para o estudo, o que póde ser feito, aproveitando os trabalhos dos alumnos e quaesquer publicações nacionaes de valor, por exemplo, a excellente collecção da Casa Biel do Porto: A Arte e a Natureza em Portugal, que já apresenta um inventario artistico muito variado e muito valioso (73 fasc. a 4 est., total 292, com texto em portuguez e francez), publicação economica que está até ao alcance dos alumnos, porque os fasc. vendem-se separadamente a 500 reis.

 

P. S. A obra está agora concluida em 8 vol. a 12 fasc. cada um. Cada fasc. a 500

reis, com 4 est. e 8 pag. de texto (Nota accrescentada em Outubro de 1908).

 

DOCUMENTO II

Ill.mo Ex.mo Snr.

Alguns collegas meus do Lyceu, que V. Ex.a dignamente dirige e ainda outros do Lyceu da 1.ª zona, alguns dos quaes assistiram ás minhas Conferencias sobre Historia da Arte nacional, realisadas no Museu da Academia portuense de Bellas-Artes nos meses de junho e julho—manifestaram-me o desejo de as ouvir novamente, seguidas.

Raros foram os que assistiram a todas as cinco; e aquelles que só ouviram fragmentos transmittiram-me, com o desejo acima formulado, os votos dos collegas que, por dever do officio, não lograram assistir a nenhuma; estes ultimos, com mais razão ainda, pediam e pedem a repetição.

Parece-me, Ex.mo Snr., que n'este caso devo ser grato a manifestações tão honrosas e corresponder ao desejo com a offerta de serviço maior e mais effectivo do que aquelle que tentei em julho proximo passado.

Em vez de um Curso de historia da arte romanica archaica, da historia de um periodo, embora de capital importancia—offereço-me para organisar um Curso graduado e completo da Historia da Arte comparada, especialmente da Arte Nacional, em lições semanaes, ás quintas-feiras, e se fôr necessario e a Lei o permittir, poderei reforçar esse Curso com uma prelecção ao domingo, em quanto durar o anno lectivo.

Os meus dignos collegas que em ambos os Lyceus regem proficientemente as cadeiras de Historia geral e especial, foram os primeiros a applaudir a ideia que, em embrião, exponho a V. Ex.a, para que se digne submettel-a á consideração, ao superior criterio do Conselho do Lyceu, que a poderá corrigir e completar, pois sendo uma innovação poderia parecer excesso de trabalho n'um programma de estudos, já carregado soffrivelmente.

Trata-se, porém, de uma materia que só pede ouvintes voluntarios e não obriga a nenhum exame nem despeza—pois todo o material illustrativo é offerecido por mim, (sendo aliás consideravel, raro e dispendioso) sem nenhum encargo para o Estado.

N'este caso parece-me que presto algum serviço no sentido de uma Proposta fundamentada sobre o modo de tornar proficuas, para o Estudo da Arte, as excursões escolares, a qual durante o anno lectivo findo apresentei por escripto a V. Ex.a e mereceu o louvor do

Conselho escolar6.

Solicito de V. Ex.a e do Conselho a mesma benevolencia para a offerta, que ora faço, do Curso graduado.

Se fôr acceite, apresentarei o programma, sem demora, que de certo modo se ajusta e combina com o Programma official do Curso

de Historia. Nào é copia de nenhum programma estrangeiro7: é uma adaptação rigorosamente nacional, especialmente para estudo do que é nosso, embora os lineamentos geraes se baseiem no que traçou magistralmente Mr. de Caumont no seu Curso de archeologia e historia da arte (civil, religiosa e militar) Caen, 1870, 5.ª ed., em 3 vol.—e Mr. Ch. Blanc—para a Historia das Artes decorativas (Grammaire des arts du dessin, 6.ª edição; e Grammaire des arts décoratifs).

Como compensação—se a V. Ex. a e ao Conselho parecer justo— peço apenas que me sejam contadas as horas de serviço d'esse Curso como serviço normal do horario, e pelo preço da tabella official, sem nenhuma gratificação a mais.

Algumas horas de menos no ensino das linguas, que professo, podem ser preenchidas por outro collega, sem prejuizo algum, creio eu.

Em compensação, offereço um ensino novo, nos Lyceus, que está introduzido nos principaes paizes cultos, para ambos os sexos, no quadro do ensino secundário desde 1875.

Se a troca de certas lições de linguas, pelas lições de materia nova, não parecer acceitavel, por qualquer motivo ponderoso, então offereço-me para accumular o serviço novo com o antigo, mediante a remuneração da tabella official. E se a peço, é porque a organisação do Curso importa para mim, em todo o caso, a acquisição constante de novo material de estudo, além do que tenho accumulado durante cerca de quarenta annos.

O material para o ensino da Historia propriamente dita e da Historia da Civilisação—no sentido em que os allemães a classificam de: Culturgeschichte, que vi e examinei demoradamente no Lyceu, ha meses, é—a bem dizer—inintelligivel, sem uma Exposição parallela da Historia da arte antiga comparada, sobretudo da arte egypcia e greco-romana.

Em face das descobertas capitaes no dominio da arte pre-historica e proto-historica, feitas em Portugal durante os ultimos trinta a quarenta annos, é inadmissivel querer separar as questões ethnologicas, ethnographicas e archeologicas, n'uma especialisação esteril, que a ninguem aproveita, salvo ao pedantismo de alguns raros eruditos bisonhos.

O ensino da historia deve ser vivo, hoje, palpitante, em face do monumento, da estatua, da tela, da gravura, da photographia, da planta topographica, do desenho e do esboço. O livro illustrado pela Arte invadiu tudo.

Todo o enorme material dos Museus europeus foi posto em movimento ha meio seculo.

O que sabe o alumno dos Lyceus de tudo isso?

O que sabe elle do material accumulado nas collecções nacionaes? —quando uma imagem, um retrato supre, ás vezes, uma lição?

Fui talvez prolixo n'esta justificação; mas, confessando o defeito, peço a benevola attenção de V. Ex.a e do Conselho para os motivos, que são puros e sinceros.

Deus guarde a V. Ex.a Porto, 9 de agosto de 1908.

 

Ill.mo mo e Ex. Snr. Reitor do Lyceu Central do Porto—2.ª zona.

O PROFESSOR EFFECTIVO

Joaquim de Vasconcellos.

1 Por exemplo: o compendio de Historia do snr. Marques Mano (Porto, 1908

—Preço 2$000 reis) tem 96 estampas. O compendio de Geographia do

mesmo auctor, (Porto, 1908—Preço 1$200 reis) tem 66 estampas; aqui, uma

boa escolha e cuidadosa reprodução; acolá, confusão e falta de criterio

esthetico e pedagogico.

2 Na Revista: Educação Nacional. 8 de nov. 908.==A arte nos livros do

Ensino.

3 No mez de maio de 1907.

4 Vid. Boletim da Dir. Geral de Inst. Publ.—Anno I, 1902, fasc. 1-5, pag. 70-

88.

5 Foi traduzida por Oliveira Martins; as gravuras do original inglez

apparecem, porém, mal reproduzidas.

6 Está transcripta no Documento I.

7 A prova já a dei no Elencho de Quatro Conferencias (aliás cinco) que fiz

nos mezes de junho e julho d'este anno, na Academia Portuense de Bellas-

Artes. O programma impresso—Porto, 1908, 8 paginas, versa sobre o Estylo

romanico archaico e o Romanico dos seculos XI e XII. Este programma nada

tem de commum com o espetaculoso prospecto da 13.ª cadeira da Escola de

Bellas-Artes de Lisboa—que trata da Historia geral da arte na Edade Media e

envolve Portugal, por incidente, em appendice.

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