O Farol
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Edgar Allan Poe
O FAROL
Tradução
Laura Scaramussa Azevedo
Revisão
Lilian Scaramussa Azevedo
OceanofPDF.com
O FAROL
The Light-House — Iniciado em 1849
1º de janeiro de 1796
Neste dia — meu primeiro no farol — escrevo essa entrada em meu diário, assim como combinei com De Grät. Manterei a regularidade do diário o tanto quanto eu puder, mas não há como saber o que pode acontecer com um homem tão solitário como eu, posso adoecer, ou pior... Até agora tudo está bem! O veleiro estava com um pequeno vazamento, mas por que se preocupar com isso já que eu estou aqui, seguro? Meu espírito já está começando a se revigorar com o mero pensamento de estar — pelo menos uma vez em minha vida — completamente sozinho; pois, é claro, Netuno, por maior que seja, não deve ser considerado parte da “sociedade”. Se, por um milagre, eu tivesse encontrado na “sociedade” alguém com pelo menos metade da fé, como nesse pobre lugar; nesse caso, eu e a “sociedade” nunca teríamos cortado relações — nem por um ano... O que mais me surpreende é a dificuldade que De Grät teve em conseguir o emprego para mim — eu, um nobre deste reino! Não que a assembleia tivesse alguma dúvida da minha habilidade para controlar a lâmpada. Um homem já havia feito isso antes — e teve sucesso assim como seus antecessores. A tarefa era simples, quase insignificante, e as instruções foram escritas do jeito mais claro possível. Nunca seria necessário que Orndoff me acompanhasse. Eu não deveria ter escrito mais nenhuma página de meu livro enquanto ele estivesse comigo, com suas fofocas insuportáveis — sem contar aquele cachimbo inseparável. Além disso, eu desejo ficar sozinho… É estranho pensar que eu nunca notei, até esse momento, quão aterrorizante essa palavra soa — “sozinho”! Eu podia até imaginar que havia certa peculiaridade no eco dessas paredes cilíndricas — mas oh, não! — isso é tudo bobagem. Acredito mesmo que ficarei nervoso com o meu isolamento. Isso não pode acontecer. Não me esqueci da profecia de De Grät. Agora pegarei a lanterna e darei uma boa olhada pelo lugar para “ver o que eu posso enxergar”... Para de fato ver o que posso enxergar! — não muito bem. O inchaço está diminuindo um pouco, eu acho, mas de qualquer forma, o veleiro enfrentará um caminho tempestuoso até seu destino. Mal chegará a ver Norland antes do meio-dia de amanhã, apesar de não estar a mais de trezentos metros daqui, ou algo assim.
2 de janeiro.
Passei o dia em uma espécie de êxtase que creio ser impossível descrever. Minha paixão pela solidão não poderia estar sendo mais bem recompensada. Não digo que satisfeita, pois acredito que nunca ficarei tão saciado quanto com o que presenciei hoje… O vento se acalmou no amanhecer e, pela tarde, a baixa da maré foi significante… Nada a ser visto, mesmo pelo telescópio, além do céu e do mar, de vez em quando uma gaivota.
3 de janeiro.
Durante todo o dia, reinou uma calmaria fúnebre. Enquanto a noite se aproximava, o mar se assemelhava muito a vidro. Vi algumas algas marinhas, mas nada além delas durante todo o dia, nem mesmo o menor sinal de uma nuvem… Ocupei a mente explorando o farol... Era um farol muito alto — algo que percebo quando tenho que subir suas escadas intermináveis — não deveria chegar a cinquenta metros, devo dizer, do nível do mar ao topo da lâmpada. No entanto, do chão do interior da cabana, a distância até o topo era ao menos de sessenta metros, logo, o chão fica dez metros abaixo do nível do mar, mesmo na maré baixa... Parece-me que o interior vazio no fundo deveria ter sido preenchido com tijolos. Sem dúvidas, toda a estrutura ficaria mais segura — mas sobre o que estou pensando? Uma estrutura como essa é segura sob qualquer situação. Devo me sentir seguro mesmo durante o furacão mais selvagem que já existiu, ainda assim ouvi marinheiros dizerem, de vez em quando, que quando o vento vem do sudoeste, as ondas daqui ficam mais altas do que as de qualquer outro lugar, com a exceção da abertura ocidental do Estreito de Magalhães. No entanto, não era um mar comum que poderia enfrentar essa parede sólida, revestida de aço que, quinze metros acima do nível do mar, tem uma espessura de um metro e meio se, numa polegada… A base na qual a estrutura se encontra me parece ser feita de giz…
4 de janeiro.
[Fim do manuscrito]
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