O Garoto do Dia e a Garota da Noite
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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"Quando o mundo estiver
unido na busca do
conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e
poder, então nossa
sociedade poderá enfim
evoluir a um novo nível."
George MacDonald, 1880
I. WATHO
Era uma vez uma bruxa que queria saber de tudo. No entanto, quanto mais sábia é uma bruxa, mais forte ela bate com a cabeça na parede quando consegue isso. O nome dela era Watho, e um lobo habitava sua mente. Ela não se importava com nada, apenas queria saber de tudo. Não era cruel por natureza, mas o lobo a tornara cruel.
Era alta e graciosa, de pele branca, cabelos ruivos e olhos negros com um fogo vermelho dentro deles. Era uma mulher ereta e forte, mas de vez em quando ficava toda recurvada, estremecia e sentava-se por um momento com a cabeça virada por cima do ombro, como se o lobo tivesse saído de sua mente e ido parar em suas costas.
II. AURORA
A bruxa tinha duas damas que a visitavam. Uma delas pertencia à corte, e seu marido fora enviado a uma embaixada distante e difícil. A outra era uma jovem viúva cujo marido havia morrido recentemente e que desde então perdera a visão. Watho as alojava em diferentes partes de seu castelo, e elas não sabiam da existência uma da outra.
O castelo ficava na encosta de uma colina que descia suavemente por um vale estreito, onde havia um rio com um canal de seixos e uma canção contínua. O jardim descia até a margem, delimitado por muros elevados, que cruzavam o rio e ali paravam. Cada muro tinha uma fileira dupla de ameias e, entre suas fileiras, uma passagem estreita.
No andar superior do castelo, Lady Aurora ocupava um apartamento espaçoso com vários cômodos grandes voltados para o sul. As janelas projetavam-se salientes sobre o jardim abaixo, e através delas tinha-se uma vista esplêndida, tanto para o alto quanto para baixo, e também para o outro lado do rio. O lado oposto do vale era íngreme, mas não muito alto. Viam-se picos nevados ao longe. Aurora raramente saía desses aposentos, mas aqueles espaços arejados, a paisagem e o céu brilhante, a abundante luz do sol, os instrumentos musicais, livros, quadros, curiosidades, com a companhia de Watho, que se fazia encantadora, impediam o tédio. Ela tinha carne de aves e de cervos para comer, leite e vinho espumante dourado para beber.
Seus cabelos eram amarelo-ouro, com ondas e volutas; sua pele era clara, não branca como a de Watho, e seus olhos eram do azul dos céus mais azuis; suas feições eram delicadas, porém fortes, sua boca era grande e ligeiramente curvada, repleta de sorrisos.
III. VÉSPER
Atrás do castelo, a colina empinava abruptamente; a torre nordeste estava em contato direto com o rochedo e se comunicava com o interior dele. Pois no rochedo havia uma série de câmaras, que eram conhecidas apenas por Watho e a única serva em quem ela confiava, chamada Falca. Algum ex-proprietário havia construído essas câmaras inspirado na tumba de um rei egípcio, e provavelmente com o mesmo desenho, pois no centro de uma delas ficava o que só poderia ser um sarcófago, mas aquela câmara e as outras eram todas muradas. As laterais e os tetos eram esculpidos em baixo-relevo e curiosamente pintados. Ali a bruxa hospedava a dama cega, cujo nome era Vésper. Os olhos dela eram negros, com longos cílios negros; sua pele tinha uma aparência de prata escurecida, mas da mais pura tonalidade e textura; seu cabelo era preto, fino e liso; suas feições tinham um formato primoroso e, se não eram tão belas, a tristeza lhes dava uma aparência encantadora; ela parecia sempre querer se deitar para não se levantar mais.
Ela não sabia que estava alojada em uma tumba, embora de vez em quando estranhasse nunca ter tocado em uma janela. Havia muitos sofás para ela se deitar, forrados com a mais rica seda e macios como sua própria bochecha; e os tapetes eram tão grossos que ela poderia se deixar cair em qualquer lugar — como convinha a um túmulo. O lugar era seco e aconchegante e astuciosamente perfurado para circular o ar, de modo que estava sempre fresco, e a única coisa que lhe faltava era a luz do sol. Ali a bruxa a alimentava com leite e vinho escuro como um carbúnculo, romãs, uvas roxas e pássaros que vivem em lugares pantanosos; e ela tocava suas melodias tristes, era assistida por violinos lamentosos e contava suas histórias lúgubres, mantendo-se, assim, sempre em uma atmosfera de doce tristeza.
IV. FOTÓGENO
Watho finalmente teve seu desejo satisfeito, pois as bruxas geralmente conseguem o que querem; um menino esplêndido nasceu da bela Aurora. Assim que o sol nasceu, ele abriu os olhos. Watho o levou imediatamente para uma parte distante do castelo e convenceu a mãe de que ele só havia chorado uma vez, pois morrera no momento em que havia nascido. Tomada pela tristeza, Aurora deixou o castelo assim que pôde, e Watho nunca mais a convidou.
E agora a preocupação da bruxa era que a criança não conhecesse a escuridão. Ela o treinou com persistência, até que por fim ele aprendeu a jamais dormir durante o dia e nunca acordar durante a noite. Ela nunca o deixou ver qualquer coisa escura e até manteve todas as cores mortiças fora de seu caminho.
Se pudesse evitar, ela nunca deixaria uma sombra cair sobre ele, espreitando as sombras como se fossem coisas vivas que pudessem machucá-lo. Durante o dia inteiro ele se aquecia sob o esplendor do sol, nos mesmos cômodos amplos que sua mãe ocupara. Watho o acostumou ao sol, até que ele pudesse suportá-lo mais do que qualquer africano de sangue escuro. No momento mais quente de cada dia, ela o despia e o deitava ao sol, para que ele pudesse amadurecer como um pêssego; e o menino alegrava-se com isso e resistia a ter que se vestir novamente. Ela empregou todo o seu conhecimento para tornar os músculos dele fortes e elásticos e rapidamente responsivos — para que a alma dele, ela dizia rindo, pudesse se incorporar em cada fibra, estar em cada parte e despertar no momento em que fosse chamada.
O cabelo dele era de um tom de ouro avermelhado, mas seus olhos escureciam conforme ele crescia, até ficarem tão negros quanto os de Vésper. Ele era a mais alegre das criaturas, sempre rindo, sempre amoroso, às vezes tempestuoso, apenas para tornar a verter risos. Watho o chamou de Fotógeno.
V. NYCTERIS
Cinco ou seis meses após o nascimento de Fotógeno, a dama escura também deu à luz um bebê. Na tumba sem janelas de sua mãe cega, na calada da noite, sob os raios débeis de uma lâmpada em um globo de alabastro, uma menina veio na escuridão com um lamento. E, assim como ela nasceu pela primeira vez, Vésper nasceu pela segunda e adentrou um mundo tão desconhecido para ela quanto para a filha — que teria que nascer de novo antes que pudesse ver a mãe.
Watho a chamou de Nycteris, e ela cresceu o mais parecida possível com Vésper — em todos os detalhes, exceto por um. Tinha a mesma pele escura, cílios e sobrancelhas escuras, cabelo escuro e aparência suave e triste; porém tinha os olhos de Aurora, a mãe de Fotógeno, e, se eles escureciam à medida que ela crescia, era apenas para adquirir um tom de azul mais escuro. Watho, com a ajuda de Falca, tomava o maior cuidado possível com ela — isto é, em todos os sentidos coerentes com seus planos —, e o ponto principal era que ela nunca deveria ver nenhuma luz a não ser a que vinha da lâmpada. Consequentemente, seus nervos ópticos e, na verdade, todo o seu aparato para enxergar, ficaram maiores e mais sensíveis; de fato, os olhos dela tornaram-se grandes, mas não grandes demais. Sob o cabelo escuro, a testa e as sobrancelhas, eles pareciam duas fendas em um céu noturno nublado, através do qual se podia espiar o céu onde habitam as estrelas na ausência das nuvens. Era uma criaturinha tristemente delicada. Ninguém no mundo, exceto aquelas duas, sabia da existência daquele morceguinho. Watho a treinou para dormir durante o dia e ficar acordada durante a noite. A bruxa lhe deu aulas de música, na qual ela própria era proficiente, e pouca coisa lhe ensinou fora isso.
VI. COMO FOTÓGENO CRESCEU
A depressão onde ficava o castelo de Watho era uma fenda em um terreno plano, e não um vale entre colinas, pois no topo de suas encostas íngremes, tanto ao norte quanto ao sul, havia um planalto, grande e largo. Era ricamente recoberto por relva e flores, com um arvoredo aqui e acolá, a colônia periférica de uma grande floresta. Essas terras gramadas eram os melhores campos de caça do mundo. Grandes manadas de um gado pequeno e feroz, com corcovas e crinas peludas, perambulavam pelos arredores deles, e também antílopes e gnus, além da pequena corça, enquanto a floresta fervilhava de criaturas selvagens. As mesas do castelo eram abastecidas principalmente por essa caça. O chefe dos caçadores de Watho era um bom sujeito, e quando Fotógeno começou a superar o treinamento que ela podia lhe dar, ela o entregou a Fargu. Com determinação, o caçador começou a ensinar-lhe tudo o que sabia.
Ele lhe deu um pônei após o outro, cada vez maior à medida que o menino crescia, cada vez mais difícil de manejar do que o anterior, e o fez avançar de pônei para cavalo, e de um cavalo para outro, até que ele tivesse domínio sobre qualquer animal da espécie que aquele país pudesse produzir. De maneira semelhante, ele o treinou no uso de arco e flecha, substituindo-os a cada três meses por um arco mais forte e flechas mais longas; e logo Fotógeno se tornou, mesmo a cavalo, um arqueiro formidável. Tinha apenas catorze anos quando matou seu primeiro touro, causando júbilo entre os caçadores e, na verdade, em todo o castelo, pois ali ele também era o favorito. Todos os dias, antes mesmo do sol nascer, ele saía para caçar e, em geral, passava quase o dia inteiro fora. Mas Watho impôs a Fargu apenas um mandamento, a saber, que Fotógeno não deveria em hipótese nenhuma, nem por qualquer expediente, ficar fora até o pôr do sol ou sequer perto dele, para que não lhe despertasse o desejo de ver o que aconteceria. Fargu teve o cuidado de não quebrar esse mandamento; pois, embora ter uma manada de touros correndo atrás dele a toda velocidade sobre o planalto sem que ele tivesse uma única flecha na aljava não lhe provocasse tremores, ele tinha muito mais medo de sua senhora. Dizia que, quando ela o olhava de certa maneira, ele sentia como se seu coração se transformasse em cinzas no peito, e o que corria em suas veias não parecia mais ser sangue, e sim leite e água.
De modo que, em pouco tempo, à medida que Fotógeno ficava mais velho, Fargu passou a ter seus tremores, pois sentia que era cada vez mais difícil conter o rapaz. Ele era tão cheio de vida, como Fargu disse à sua senhora, para contentamento dela, que parecia mais um raio vivo do que um ser humano. Fotógeno não sabia o que era o medo, e não era porque não conhecesse o perigo; pois sofrera uma laceração severa da presa de um javali, afiada como uma navalha — cuja espinha, entretanto, ele havia partido com um golpe de sua faca de caça, antes que Fargu chegasse para defendê-lo.
Quando ele esporeava seu cavalo em meio a um rebanho de touros, carregando apenas seu arco e sua espada curta, ou atirava uma flecha em um rebanho e ia atrás dele como se quisesse recuperar a flecha fugitiva, chegando a tempo de atravessar a presa com um golpe de lança antes que o animal ferido soubesse para que lado atacar, Fargu pensava aterrorizado como seria quando ele conhecesse a tentação dos leopardos-pintados e dos linces com garras em faca que assombravam a floresta. Pois o menino tinha vivido tão mergulhado no sol, desde a infância tão embriagado por sua influência, que encarava cada perigo com uma coragem soberana. Portanto, quando ele estava se aproximando dos dezesseis anos, Fargu aventurou-se a implorar a Watho que ela desse ordens ao próprio jovem e libertasse Fargu dessa responsabilidade. Era mais fácil segurar um leão-de-juba-amarela do que Fotógeno, disse ele. Watho chamou o jovem e, na presença de Fargu, deu-lhe a ordem de nunca mais estar fora de casa quando a borda do sol tocasse o horizonte, reforçando a proibição com sugestões de consequências não menos terríveis do que obscuras. Fotógeno ouviu-a com respeito; contudo, sem conhecer o sabor do medo nem a tentação da noite, as palavras da bruxa não eram mais do que ruídos para ele.
VII. COMO NYCTERIS CRESCEU
A pouca educação que Watho pretendia que Nycteris tivesse, ela lhe deu sem palavras escritas. Sem ter luz suficiente para ler, além de outros motivos não mencionados, ela nunca colocou um livro nas mãos da garota. No entanto, Nycteris enxergava muito melhor do que Watho supunha, e a luz que ela lhe dera era suficiente. Nycteris conseguiu persuadir Falca a ensinar-lhe as letras, das quais ela lançou mão para aprender a ler sozinha, e Falca de vez em quando levava para ela um livro infantil. Mas seu maior prazer era tocar seu instrumento. Seus dedos o adoravam e vagavam pelas teclas como se estivessem alimentando ovelhas. Ela não era infeliz. Ela não conhecia nada do mundo, exceto a tumba em que morava, e obtinha algum prazer em tudo o que fazia. Entretanto, ela desejava algo mais, algo diferente. Não sabia o que era, e o mais perto que conseguia chegar de expressar isso para si mesma era que ela queria mais espaço. Watho e Falca iam e vinham além dos limites do brilho da lâmpada; portanto, certamente devia haver mais espaço ali em algum lugar. Sempre que era deixada sozinha, ela se debruçava sobre os baixos-relevos coloridos nas paredes. Eles tinham o intuito de retratar vários dos poderes da Natureza em forma de alegorias, e como nada neste mundo existe fora de um esquema geral, ela não conseguia deixar de imaginar pelo menos uma fagulha de relação entre alguns daqueles elementos, e, desse modo, uma sombra da realidade das coisas conseguia alcançá-la.
Havia uma coisa, no entanto, que a comovia e a ensinava mais do que todo o resto: a lâmpada, a saber, aquela pendurada no teto, que ela sempre via acesa, embora nunca tivesse visto uma chama, apenas a leve condensação em direção ao centro do globo de alabastro. E, além das funções da própria luz como coisa que era, a indefinição do globo e a suavidade da luz, dando a ela a sensação de que seus olhos podiam adentrar e mergulhar em sua brancura, também se associavam de algum modo à ideia de espaço e amplidão. Ela podia ficar sentada por uma hora inteira observando a lâmpada, e seu coração parecia inflar enquanto ela olhava. Ela se perguntava o que a machucara quando descobria o próprio rosto molhado de lágrimas, e então se indagava como poderia ter se ferido sem saber. Ela nunca olhava assim para a lâmpada, exceto quando estava sozinha.
VIII. A LÂMPADA
Watho, ao dar ordens, presumiu que elas seriam obedecidas e que Falca passaria a noite toda com Nycteris, não importando o dia. Mas Falca não conseguia adquirir o hábito de dormir durante o dia e muitas vezes a deixava sozinha durante metade da noite. Portanto, Nycteris tinha a impressão de que era a lâmpada branca quem estava cuidando dela. Como nunca era permitido que se apagasse — pelo menos enquanto ela estava acordada —, Nycteris, exceto quando fechava os olhos, sabia ainda menos sobre escuridão do que sobre a luz. Além disso, com a lâmpada fixa bem no alto e no centro de tudo, ela também não sabia muito sobre as sombras. As poucas que existiam caíam quase inteiramente no chão ou ficavam restritas ao pé das paredes como se fossem ratos.
Certa vez, quando estava sozinha, ribombou um estrondo distante; ela nunca tinha ouvido um som cuja origem não conhecesse, e ali estava, novamente, um sinal de que havia algo além daquelas câmaras. Então veio um tremor, depois um abalo; a lâmpada caiu do teto e foi ao chão com um grande estouro, e ela sentiu como se seus olhos tivessem se fechado com força e ambas as mãos estivessem sobre eles. Ela concluiu que foi a escuridão que causou o estrondo e o tremor e, correndo para o cômodo, jogou a lâmpada no chão. Ela se sentou tremendo. O barulho e o tremor cessaram, mas a luz não voltou. A escuridão a tinha devorado!
Sem a lâmpada, despertou nela imediatamente o desejo de ir embora daquela prisão. Ela mal sabia o que significava “ir embora”; passar de um cômodo para outro, onde não havia nem mesmo uma porta divisória, apenas um arco aberto, era tudo o que ela conhecia do mundo. Mas, de repente, ela se lembrou de que tinha ouvido Falca falar sobre a luz da lâmpada “indo embora” — era isso que ela queria dizer? E, se a luz da lâmpada tinha ido embora, para onde fora? Certamente para o mesmo lugar aonde Falca costumava ir e, assim como ela, depois voltaria. Mas ela não podia esperar. O desejo de ir embora tornou-se irresistível. Ela devia seguir a luz de sua bela lâmpada! Devia encontrá-la! Devia ver do que se tratava!
Havia uma cortina cobrindo um nicho na parede, onde alguns de seus brinquedos e coisas de ginástica eram guardados; e era por trás daquela cortina que Watho e Falca sempre apareciam, e era atrás dela que desapareciam. De que modo elas saíam de uma parede sólida, Nycteris não fazia nenhuma ideia; tudo até aquela parede era um espaço aberto, e tudo além da parede parecia ser só mais parede; mas claramente a primeira e única coisa que ela podia fazer era tatear o caminho por trás da cortina. Estava tão escuro que um gato não conseguiria pegar o maior dos ratos. Nycteris era capaz de enxergar melhor do que qualquer gato, mas agora seus grandes olhos não tinham a menor utilidade. Enquanto ela caminhava, pisou em um pedaço da lâmpada quebrada. Ela nunca tinha usado sapatos ou meias, e o fragmento, sendo de alabastro macio, não a cortou, mas mesmo assim machucou seu pé. Ela não sabia o que era, mas, como aquilo não estava lá antes de a escuridão chegar, ela suspeitou que tivesse a ver com a lâmpada. Então se ajoelhou e procurou com as mãos e, juntando dois grandes pedaços, reconheceu o formato da lâmpada. Assim, ocorreu-lhe que a lâmpada estava morta e que esse estilhaçar-se era a morte, sobre a qual ela havia lido sem entender, e que as trevas haviam matado a lâmpada. Não seria o mesmo que Falca quis dizer quando falou sobre a luz da lâmpada “ir embora”?
Lá estava a lâmpada — bem morta, e com sua forma tão mudada que ela nunca teria pensado que era uma lâmpada! Não, não era mais a lâmpada, agora que estava morta, pois tudo o que a tornava uma lâmpada havia ido embora, ou seja, seu brilho intenso. Por isso mesmo era o brilho, a luz, que havia ido embora. Era como Falca havia dito — e devia estar em algum lugar do outro lado da parede.
Então ela retomou a busca e tateou até a cortina. Nunca em toda sua vida ela havia tentado sair, por isso não sabia como; mas instintivamente começou a mover as mãos sobre uma das paredes atrás da cortina, meio que esperando que afundassem nela, como supôs que Watho e Falca faziam. Mas a parede a repelia com uma dureza implacável, e ela se voltou para a parede oposta. Ao fazer isso, pisou sobre um dado de marfim e, quando ele encontrou o mesmo ponto que o alabastro quebrado já havia ferido, ela caiu para a frente com as mãos estendidas contra a parede. Alguma coisa cedeu, e ela caiu cambaleando para fora da caverna.
IX. FORA
Que lástima! O lado de fora era muito parecido com o de dentro, pois a mesma inimiga, a escuridão, também estava ali. Entretanto, no instante seguinte, sobreveio uma grande alegria: um vaga-lume vindo do jardim. Ela viu a pequena faísca a distância. Com um pulsar de luz em um desmaio vagaroso e uma cintilação, ele veio singrando os ares, aproximando-se cada vez mais, movendo-se de um jeito que mais parecia um nado que um voo, e a luz parecia a fonte de seu próprio movimento.
— Minha lâmpada! Minha lâmpada! — gritou Nycteris. — É o brilho da minha lâmpada, que a escuridão cruel expulsou. Minha boa lâmpada estava esperando por mim aqui o tempo todo! Ela sabia que eu viria atrás dela e esperou para que eu a acompanhasse.
Nycteris seguiu o vaga-lume, que, assim como ela própria, procurava a saída. Mesmo que não soubesse o caminho, ainda assim era uma luz; e, uma vez que todas as luzes são uma só, qualquer luz poderia guiá-la até mais luz. Caso estivesse enganada ao pensar que este era o espírito de sua lâmpada, ainda era parte do mesmo espírito, e com asas. O barquinho verde-dourado, turbinado pela luz, passou latejante à frente dela e através de uma longa e estreita passagem. De repente, ele subiu mais alto, e no mesmo instante Nycteris deparou-se com uma escada ascendente. Ela nunca tinha visto uma escada antes, e a subida lhe causou uma sensação curiosa. Assim que alcançou o que parecia ser o topo, o vaga-lume parou de brilhar e desapareceu. Ela estava na escuridão total mais uma vez.
Mas, quando estamos seguindo a luz, até mesmo sua desaparição é um guia. Se o vaga-lume continuasse brilhando, Nycteris teria visto a escada virar e teria subido para o quarto de Watho; ao passo que agora, tateando adiante, ela chegou a uma porta trancada, que depois de muitas tentativas conseguiu abrir — e encontrou-se em um labirinto de perplexidade maravilhada, admiração e deleite. O que era?
Isso estava mesmo acontecendo fora dela ou era algo dentro de sua cabeça? Diante dela estava uma passagem muito longa e muito estreita, que se vergava para o alto ela não sabia dizer como, e se espalhava por cima e por todos os lados a uma altura, largura e distância infinitas — como se o próprio espaço crescesse para fora de uma vala. Era mais claro do que seus aposentos jamais haviam sido — mais claro do que se houvesse seis lâmpadas de alabastro acesas neles. E havia uma profusão de traços e manchas estranhas, muito diferentes das formas em suas paredes.
Ela estava em um sonho de agradável perplexidade e delicioso espanto.
Não sabia dizer se estava de pé ou vagando como o vaga-lume, movida pelas pulsações de uma felicidade interior. Mas ela ainda sabia pouco sobre sua herança. Inconscientemente, deu um passo à frente da soleira, e a menina que desde seu nascimento havia sido uma criatura das cavernas agora se via na glória arrebatadora de uma noite do sul, iluminada por uma lua perfeita — não a lua de nosso clima setentrional, mas uma lua feito prata incandescendo em uma fornalha —, uma lua que podia ser vista como um globo — não um mero disco achatado na face do azul distante, mas algo que jazia pendente a meio caminho e que nos dava a impressão de poder enxergar seus contornos simplesmente inclinando o pescoço.
— É a minha lâmpada — disse ela, e ficou muda com os lábios entreabertos.
Ela parecia e se sentia petrificada em êxtase silencioso desde então.
— Não, não é minha lâmpada — disse depois de um tempo. — É a mãe de todas as lâmpadas.
E, com isso, caiu de joelhos e estendeu as mãos para a lua. Ela não conseguia articular o que se passava em sua mente, mas o gesto era, na verdade, apenas um apelo para a lua ser o que era — aquele incrível esplendor pendurado no teto distante, aquela glória essencial para a existência de pobres meninas nascidas e criadas em cavernas. Para Nycteris, foi uma ressurreição — ou melhor, um nascimento propriamente dito. O que poderia ser o vasto céu azul, cravejado de minúsculas centelhas como gemas de diamante, e a lua, com sua aparência tão absolutamente plena de luz — ora, ela sabia menos sobre eles do que eu e você! Mas até o maior dos astrônomos invejaria o êxtase de tal primeira impressão aos dezesseis anos. Era incomensuravelmente imperfeita, mas não podia ser falsa a sua impressão, pois ela enxergava com olhos que foram feitos para enxergar e deveras via o que muitos homens são sábios demais para ver.
Quando ela se ajoelhou, algo a atingiu suavemente, a abraçou, a acariciou, a afagou. Ela se levantou, mas não viu nada, não sabia o que era. Parecia a respiração de uma mulher. Pois ela não sabia nada sobre o ar, nunca tinha respirado o frescor calado e recém-nascido do mundo. A respiração desse mundo só chegara a ela por meio de longas passagens e espirais na rocha. Sabia ainda menos do ar vivo com movimento — daquela coisa três vezes abençoada, o vento de uma noite de verão. Era como um vinho espiritual, enchendo todo o seu ser com uma embriaguez da mais pura alegria.
Respirar era uma existência perfeita. Parecia que ela respirava a própria luz para dentro dos pulmões. Possuída pelo poder da noite belíssima, ela parecia ao mesmo tempo fulminada e enaltecida.
Ela estava na passagem aberta ou galeria que contornava o topo dos muros do jardim, entre as ameias fendidas, mas não olhou para baixo para ver o que existia ali. Sua alma foi atraída para a abóbada acima, com sua lâmpada e seu espaço infinito. Por fim, ela começou a chorar, e seu coração ficou aliviado, como a própria noite se alivia com os raios e a chuva.
Depois ficou pensativa. Deveria guardar este esplendor! Que estupidez suas carcereiras fizeram com ela! A vida era um imenso júbilo, e elas a haviam privado de tudo! Elas não deviam descobrir que ela sabia. Precisava ocultar seu conhecimento — escondê-lo até de seus próprios olhos, mantendo esse segredo trancado no peito, contente por saber que ela o tinha, mesmo quando não podia estar em sua presença, deleitando os olhos com sua glória. Portanto, ela deu as costas para a visão com um suspiro de felicidade absoluta e, com passos suaves e silenciosos e mãos tateando, voltou para dentro da escuridão do rochedo. O que era a escuridão ou a morosidade dos passos do Tempo para quem viu o que ela vira naquela noite? Sentia-se acima de todo cansaço — acima de todo erro.
Quando Falca entrou, soltou um grito de terror. Mas Nycteris disse para não ter medo e contou-lhe como ocorrera um estrondo e um tremor e depois a lâmpada caíra. Falca se foi e contou isso à sua senhora, e, dentro de uma hora, havia um novo globo pendurado no lugar do antigo. Nycteris achou que não parecia tão brilhante e claro quanto o anterior, mas não lamentou a mudança; ela era rica demais para dar atenção a isso. Por enquanto, prisioneira como se entendia, seu coração estava cheio de glória e alegria; às vezes ela precisava se segurar para não pular e sair cantando e dançando pelo recinto. Quando dormia, em vez de sonhos monótonos, tinha visões esplêndidas. É verdade que havia momentos em que ficava inquieta e impaciente para olhar para suas riquezas, mas então raciocinava consigo mesma, dizendo:
— Que importa se eu ficar sentada aqui por séculos com minha pobre e pálida lâmpada, quando lá fora existe uma lâmpada queimando, para a qual milhares de outras pequenas brilham maravilhadas?
Ela jamais duvidou que tinha visto o dia e o sol, sobre os quais havia lido; e sempre que lia sobre o dia e o sol, tinha a noite e a lua em mente; e quando lia sobre a noite e a lua, pensava apenas na caverna e na lâmpada que estava ali pendurada.
X. A GRANDE LÂMPADA
Demorou algum tempo até que ela tivesse uma segunda oportunidade de sair, pois, desde a queda da lâmpada, Falca passou a ser mais cuidadosa e raramente a deixava sozinha por muito tempo. Mas, uma noite, com um pouco de dor de cabeça, Nycteris estava deitada na cama de olhos fechados quando ouviu Falca se aproximar e sentiu que a mulher se curvou sobre ela. Sem vontade de falar, ela não abriu os olhos e se manteve imóvel. Satisfeita por ela estar dormindo, Falca a deixou, movendo-se com tanta suavidade que sua cautela fez Nycteris abrir os olhos e observá-la por trás — bem a tempo de vê-la desaparecer através de um quadro, ao que parecia, pendurado na parede muito longe do local usual de saída. Ela deu um salto, esquecida da dor de cabeça, e correu na direção oposta; saltou, tateou o caminho até a escada, subiu e alcançou o topo da parede. Por azar, aquele grande cômodo não era tão iluminado quanto o pequeno quarto que ela havia acabado de deixar. Por quê? Tristeza das tristezas! A grande lâmpada tinha ido embora! Será que seu globo havia caído? E sua adorável luz teria saído com suas grandes asas, como um vaga-lume resplandecente, voando por um salão ainda mais grandioso e adorável? Ela olhou para baixo para ver se estaria quebrada em algum lugar no tapete abaixo; mas não conseguia nem ver o tapete. Mas certamente nada muito terrível devia ter acontecido — nenhum estrondo ou tremor; pois havia todas as pequenas lâmpadas brilhando mais claras do que antes, nenhuma delas dando a impressão de que algo incomum tivesse acontecido. E se cada uma daquelas pequenas lâmpadas estivesse se transformando em uma grande lâmpada, e depois de ser uma grande lâmpada por um tempo, tivesse que ir embora para se tornar uma lâmpada ainda maior — lá fora, além deste fora? Ah! Ali estava a coisa viva que não podia ser vista, vindo até ela novamente — ainda maior esta noite! Com beijos tão amorosos e carícias líquidas em suas bochechas e testa, bagunçando e brincando suave e delicadamente com seus cabelos! Mas a coisa parou, e tudo permaneceu quieto. Tinha ido embora? O que aconteceria depois? Talvez as pequenas lâmpadas não tivessem que se tornar grandes lâmpadas, mas será que caíam uma a uma e sua luz ia embora? Com isso, veio de baixo um perfume doce, depois outro e mais outro. Ah, que delícia! Talvez todas essas coisas viessem a ela ao bater em retirada, atrás da grande lâmpada! Em seguida veio a música do rio, que ela estivera muito absorta no céu para notar pela primeira vez. O que era? Ai! Que tristeza, devia ser só mais uma coisa doce e viva indo embora também. Estavam todas marchando lentamente em uma longa e adorável fila, uma após a outra, cada uma se despedindo dela enquanto passava! Era o que devia estar acontecendo: aqui surgiam mais e mais sons doces, passando e sumindo! Tudo o que existia Fora estava indo embora de novo; tudo indo atrás da grande e adorável lâmpada! Ela seria deixada ali como a única criatura naquele dia solitário! Não havia ninguém para pendurar uma lâmpada nova no lugar da antiga e impedir as criaturas de irem embora? Ela voltou muito triste para o rochedo. Tentou se consolar dizendo que, de qualquer maneira, haveria espaço lá fora; mas, ao dizer isso, estremeceu ao pensar naquele espaço vazio.
Na próxima vez que conseguiu sair, uma meia-lua pairava no leste: uma nova lâmpada havia surgido, pensou, e tudo ficaria bem.
Seria infindável descrever as fases de sentimento pelas quais Nycteris passou, mais numerosas e delicadas que as de mil luas mutantes. Uma nova felicidade floresceu em sua alma com todos os aspectos variados da natureza infinita. Em pouco tempo, ela começou a suspeitar que a lua nova era a lua velha, que, assim como ela, havia saído e retornado; também que, ao contrário dela, tinha minguado e tornado a crescer; que era realmente uma coisa viva e, como ela, sujeita a cavernas, guardiães e solidões, escapando e brilhando quando podia. Será que estava trancada em uma prisão como a dela? E será que escurecia quando a lâmpada ia embora? E qual seria o caminho para esse lugar? Com isso, primeiro ela começou a olhar para baixo, bem como para cima e ao redor; e notou as copas das árvores entre si e o solo. Havia palmas com as mãos de dedos vermelhos cheios de frutos; eucaliptos apinhados de caixinhas de pó de arroz; oleandros com suas rosas híbridas; e laranjeiras com suas nuvens de jovens estrelinhas de prata e suas esferas de ouro envelhecidas. Os olhos dela eram capazes de ver cores invisíveis aos nossos sob o luar, e tudo isso ela conseguia distinguir bem, embora a princípio as tenha interpretado como as formas e cores do tapete da grande sala. Ela ansiava por descer entre elas, agora que via que eram criaturas reais, mas não sabia como. Ela percorreu toda a extensão do muro até o fim que cruzava o rio, mas não soube como descer. Acima do rio, ela parou para olhar com admiração a água corrente. Não sabia nada sobre a água, exceto a que bebia e na qual se banhava; e, enquanto a lua brilhava na correnteza escura e veloz, cantando vigorosamente enquanto fluía, ela não tinha dúvidas de que o rio estava vivo, uma serpente veloz de vida — estaria indo embora? Para onde? Ela se perguntou se a água que era levada aos seus aposentos havia sido morta para que ela pudesse beber e se banhar.
Uma vez, quando ela pisou sobre o muro, foi no meio de uma ventania forte. Todas as árvores rugiam. Grandes nuvens corriam pelos céus e se embolavam sobre as pequenas lâmpadas: a grande lâmpada ainda não tinha chegado. Era tudo um tumulto. O vento agarrou suas roupas e cabelos e os sacudiu como se fosse arrancá-los. O que ela poderia ter feito para deixar aquela criatura gentil com tanta raiva? Ou essa seria outra criatura — do mesmo tipo, mas muito maior e de temperamento e comportamento muito diferentes? Mas o lugar todo estava com raiva! Ou será que as criaturas que moravam nele, o vento, as árvores, as nuvens e o rio, haviam brigado, cada uma com todo o resto? Acabaria tudo em confusão e desordem? Mas, enquanto ela observava maravilhada e inquieta, a lua, maior do que nunca, ergueu-se acima do horizonte para espiar, larga e vermelha, como se também estivesse inchada de raiva por ter sido despertada de seu descanso com aquele barulho e fora obrigada a vir depressa ver o que seus filhos andavam fazendo, bagunçando assim na sua ausência, para que não destruíssem toda a estrutura das coisas. E, quando a lua se levantou, o vento forte se aquietou e passou a fustigar com menos ferocidade, as árvores ficaram mais imóveis e suas lamúrias ficaram mais baixas, e as nuvens passaram a se caçar e se engalfinhar com menos violência pelos céus. E, como se estivesse satisfeita por seus filhos obedecerem à sua presença, a lua ficou menor enquanto subia a escada celestial; suas bochechas inchadas afundaram, sua tez ficou mais clara e um doce sorriso se espalhou por seu semblante enquanto ela se elevava cada vez mais, em paz. No entanto, houve traição e rebelião em sua corte; pois, antes que ela alcançasse o topo de sua grande escadaria, as nuvens se reuniram, olvidando suas últimas batalhas, e puseram-se a conspirar muito quietas, com as cabeças unidas. Então, combinando-se e esperando silenciosamente até que ela se aproximasse, as nuvens se lançaram sobre a lua e a engoliram. Do telhado precipitaram manchas molhadas, cada vez mais rápidas, e molharam as bochechas de Nycteris; e o que poderiam ser senão as lágrimas da lua, chorando porque seus filhos a estavam sufocando? Nycteris também chorou e, sem saber o que pensar, voltou para seus aposentos, consternada.
Na vez seguinte, ela saiu temerosa e trêmula. A lua estava parada! Longe no oeste — pobre e velha, parecendo terrivelmente desgastada, como se todos os animais selvagens no céu a estivessem roendo — mas, mesmo assim, lá estava ela, viva e capaz de brilhar!
XI. O PÔR DO SOL
Sem saber nada sobre a escuridão, as estrelas ou a lua, Fotógeno passava seus dias caçando. Em um grande cavalo branco, ele varria as planícies relvadas, glorificando-se ao sol, lutando contra o vento e matando os búfalos.
Certa manhã, quando por acaso estava de pé um pouco mais cedo do que o usual e antes de seus assistentes, ele avistou um animal desconhecido, saindo de um buraco onde os raios de sol ainda não haviam chegado. Como uma sombra furtiva, o animal disparou pela grama, esgueirando-se para o sul, na direção da floresta. Ele o perseguiu, descobriu o corpo de um búfalo que ele havia comido pela metade e o rastreou com ainda mais empenho. Mas, com grandes saltos, a criatura disparou mais e mais à frente dele e desapareceu. Virando-se, derrotado, ele encontrou Fargu, que o seguia o mais rápido que seu cavalo era capaz.
— Que animal era aquele, Fargu? — perguntou. — Como ele corria!
Fargu respondeu que podia ser um leopardo, mas, pelas passadas e pela aparência, achava que era um jovem leão.
— Deve ser muito medroso! — disse Fotógeno.
— Não tenha tanta certeza disso — respondeu Fargu. — Ele é uma das criaturas que o sol incomoda. Assim que o sol se pôr, ficará muito corajosa.
Mal disse isso e já havia se arrependido; e não se arrependeu menos quando viu que Fotógeno não respondeu. Que lástima, mas agora estava dito.
— Então — disse Fotógeno a si mesmo —, aquela besta desprezível é um dos terrores do pôr do sol de que falou Madame Watho!
Ele caçou o dia todo, mas não com seu espírito costumeiro. Não se esforçou na cavalgada e não matou um único búfalo. Fargu, para sua consternação, observou, também, que ele usava todos os pretextos para se aproximar mais do sul, perto da floresta. Mas, de repente, com o sol agora se pondo no oeste, ele pareceu mudar de ideia, pois virou a cabeça do cavalo e cavalgou para casa tão rápido que o restante não conseguiu mantê-lo à vista. Quando chegaram, encontraram seu cavalo no estábulo e concluíram que ele havia entrado no castelo. Mas, na verdade, ele havia saído de novo pelos fundos. Atravessando o rio bem acima no vale, ele subiu ao solo que eles haviam deixado e, pouco antes do pôr do sol, atingiu a orla da floresta.
A esfera solar brilhava baixo por entre as hastes nuas, e, dizendo a si mesmo que não podia deixar de encontrar o animal, ele correu floresta adentro. Porém, enquanto entrava, virou-se e olhou para o oeste. A borda vermelha tocava o horizonte, todo recortado de colinas.
— Agora — disse Fotógeno — veremos.
Mas disse isso em face de uma escuridão que nunca havia experimentado.
No momento em que o sol começou a afundar entre os espinhos e serrilhados, com uma espécie de batida repentina de seu coração, um medo inexplicável se apoderou do jovem; e, como ele nunca havia sentido nada parecido, o próprio medo o aterrorizou. Conforme o sol se punha, o medo se erguia como a sombra do mundo e ficava ainda mais escuro e profundo. Ele não conseguia nem pensar no que poderia ser, de modo que isso o enfraqueceu completamente. Quando a última cimitarra flamejante do sol se apagou como uma lâmpada, o horror dele pareceu desabrochar até a loucura. Como as pálpebras dos olhos se fechando — pois não havia crepúsculo, e nesta noite não havia lua —, o terror e a escuridão insurgiram juntos, e ele os reconheceu como um só. Ele não era mais o homem que conhecia, ou melhor, que pensava que era. A coragem que outrora tivera não estava mais em seu domínio — ele apenas tivera coragem, não fora corajoso; ela o havia deixado, e ele mal conseguia suportar — certamente não conseguia ficar em pé, pois nenhuma de suas juntas conseguia se firmar e evitar os tremores. Ele era apenas uma centelha do sol, não era nada em si mesmo.
O animal estava atrás dele — prestes a atacá-lo! Ele se virou. Estava tudo escuro na floresta, mas, em sua imaginação, a escuridão transformava-se, aqui e acolá, em pares de olhos verdes, e ele não tinha sequer forças para erguer a mão do arco. Com a força do desespero, ele se empenhou para despertar coragem suficiente — não para lutar, que ele nem mesmo desejava, mas para correr. Coragem para fugir para casa foi tudo o que ele pôde desejar, mas ela não compareceu. No entanto, o que ele não tinha lhe foi dado de forma desonrosa. Um grito na mata, que pareceu meio um guincho, meio um rosnado, o fez correr como um cão ferido por um javali. Nem mesmo foi ele quem se pôs a correr, foi o medo que ganhou vida em suas pernas; ele nem sabia que elas estavam se movendo. Mas, enquanto corria, por sua própria conta, ganhou coragem para pelo menos ser um covarde. As estrelas forneciam um pouco de luz. Ele acelerou sobre a relva, e nada o seguiu. “Tão mudado e tão acabado”, em relação ao jovem que subira a colina enquanto o sol se punha! Um mero desprezo contra si mesmo, o eu que ele desprezava era um covarde assim como o eu que o estava desprezando! Lá estava a corcunda preta e informe de um búfalo na grama. Ele correu um amplo contorno e avançou como uma sombra levada pelo vento. Pois o vento aumentou e fez engrossar seu terror: soprava de trás dele. Ele alcançou a borda do vale e disparou pela descida íngreme como uma estrela cadente. Instantaneamente, toda a região superior atrás dele se levantou e o perseguiu! O vento veio uivando atrás dele, repleto de gritos, guinchos, berros, rugidos, risos e tagarelice, como se todos os animais da floresta viessem no bojo desse vento. Em seus ouvidos, havia sons de atropelo, o trovejar dos cascos do gado, avançando de todos os quadrantes do amplo planalto até o cume da colina acima dele. Fotógeno correu direto para o castelo quase sem fôlego suficiente para ofegar.
Quando alcançou o fundo do vale, a lua apareceu por cima de sua borda. Ele nunca tinha visto a lua — exceto durante o dia, quando a tomava por uma nuvem fina e clara. Ela era um novo terror para ele. Tão fantasmagórica! Tão medonha! Tão horrível! Tão astuta enquanto ele espreitava por cima do muro do jardim o mundo lá fora! Aquilo era a própria noite! A escuridão viva — e o estava perseguindo! O horror dos horrores descendo do céu para coalhar seu sangue e transformar seu cérebro em cinzas! Ele deu um soluço e foi direto para o rio, no lugar onde ele corria entre os dois muros, no fundo do jardim. Ele mergulhou, lutou para atravessar, escalou a margem e caiu sem sentidos na grama.
XII. O JARDIM
Embora Nycteris tomasse cuidado para não ficar fora por muito tempo e tomasse todas as precauções, ela dificilmente poderia ter escapado da descoberta se não fossem os ataques estranhos a que Watho estava sujeita e que andavam acontecendo com maior frequência ultimamente, até que por fim redundaram em uma doença que a manteve na cama. Fosse por excesso de cautela ou por desconfiança, Falca, que agora precisava fazer companhia à sua senhora dia e noite, decidiu fechar a porta sempre que passasse por seu lugar de saída habitual, de modo que, uma noite, quando Nycteris empurrou a parede, ela descobriu, para sua surpresa e consternação, que a parede a empurrara de volta, não a deixando passar. Por mais que procurasse o motivo, não conseguiu descobrir a causa da mudança. Então, primeiro ela sentiu a pressão das paredes de sua prisão e, virando-se, meio em desespero, tateou o caminho até o quadro onde uma vez vira Falca desaparecer. Ela logo encontrou o local e, quando o pressionou, a parede cedeu. Isso permitiu que entrasse em uma espécie de porão, onde havia o bruxulear das luzes de um céu cujo azul era empalidecido pela lua. Do porão ela entrou em uma longa passagem, na qual a lua brilhava, e chegou a uma porta. Conseguiu abri-la e, para sua grande alegria, encontrou-se no outro lugar, não no topo do muro, mas no jardim em que ela tanto desejara entrar. Silenciosa como uma mariposa, ela fugiu para o esconderijo das árvores e arbustos, tendo os pés descalços acolhidos pelo mais macio dos tapetes, que, pelo simples toque, seus pés sabiam estar vivo, razão pela qual parecia tão doce e amigável com eles. Um vento suave soprava entre as árvores, correndo agora aqui, agora ali, como uma criança movida por suas vontades. Ela saiu dançando sobre a grama, olhando a sombra atrás de si enquanto seguia. A princípio, achou que fosse uma criaturinha escura que brincava com ela, mas, quando percebeu que era apenas um recorte onde ela mantinha a lua afastada e que cada árvore, por maior e mais imponente que fosse, também tinha um desses estranhos acompanhantes, logo aprendeu a não se importar com isso e, aos poucos, tornou-se fonte de tanta diversão para ela quanto a cauda é para qualquer gatinho. No entanto, demorou muito para que se sentisse à vontade com as árvores. Às vezes, elas pareciam desaprová-la; outras vezes, nem mesmo saber de sua presença, completamente ocupadas com seus próprios negócios. De repente, enquanto ela ia de uma para outra, observando com admiração o mistério sussurrante de seus galhos e folhas, avistou uma que estava um pouco mais longe e que era muito diferente de todas as outras. Era branca, escura e cintilante e se esparramava como uma palma — uma palma pequena e delgada, sem uma cabeça significativa; e que crescia muito rápido e cantava enquanto crescia. Mas nunca crescia demais, pois tão rápido quanto podia vê-la crescer, a árvore continuava caindo aos pedaços. Quando chegou perto, Nycteris descobriu que era uma árvore de água — feita exatamente da água com que ela se banhava —, só que estava viva, é claro, assim como o rio; um tipo de água diferente daquela, sem dúvida, visto que uma rastejava rapidamente pelo chão, e a outra esguichava para o alto, caía, engolia-se e erguia-se de novo. Ela colocou os pés na bacia de mármore, que era o vaso de flores em que ela crescia. Estava cheia de água de verdade, viva e fresca — e foi muito agradável, porque a noite estava quente!
Mas as flores! Ah, as flores! Tornou-se amiga delas desde o início. Que criaturas maravilhosas eram! Tão gentis e tão lindas — sempre aspergindo suas cores e aromas — perfume vermelho, perfume branco e perfume amarelo — sobre as outras criaturas! E aquela coisa invisível pegava uma grande quantidade desses aromas em toda parte e carregava consigo! Contudo, as flores pareciam não se importar. Essa era a conversa delas, para mostrar que estavam vivas, e não pintadas como aquelas nas paredes e tapetes de seus aposentos.
Nycteris vagou pelo jardim até chegar ao rio. Incapaz de ir mais longe — pois estava com um pouco de medo, e com razão, daquela serpente aquosa e veloz —, ela se deixou cair na grama à margem, mergulhou os pés na água e a sentiu correr e empurrá-los com sua força. Por muito tempo ela ficou sentada assim, e sua felicidade parecia completa, enquanto contemplava o rio e observava a imagem fragmentada da grande lâmpada ao alto, que subia de um lado do teto para descer do outro.