O Garoto do Dia e a Garota da Noite

George MacDonald · Capítulo 1 de 1 · parte 2/2

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O Garoto do Dia e a Garota da Noite

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

XIII. ALGO MUITO INÉDITO

Uma linda mariposa passou roçando os grandes olhos azuis de Nycteris. Ela se pôs de pé para segui-la — não com o espírito de uma caçadora, mas de uma amante. Seu coração — como todo coração que tivesse suas partes deterioradas removidas — era uma fonte inesgotável de amor: ela amava tudo o que via. Contudo, ao seguir a mariposa, avistou algo caído na margem do rio e, ainda sem ter aprendido a temer coisa alguma, correu para ver o que era. Ao alcançá-la, ficou surpresa. Era outra garota como ela! Mas que garota de aparência estranha! E com vestes muito curiosas! E incapaz de se mover! Estaria morta? Tomada de repente pela compaixão, ela se sentou, levantou a cabeça de Fotógeno, colocou-a no colo e começou a acariciar seu rosto. Suas mãos quentes o trouxeram a si. Ele abriu os olhos negros, dos quais havia sumido todo o fogo, e olhou-a com um estranho som de medo, algo entre um gemido e um ofego. Mas, quando viu o rosto dela, ele respirou fundo e ficou imóvel, observando-a: aquelas duas maravilhas azuis acima dele, como um céu melhor, pareciam se alinhar à coragem e amenizar seu terror. Por fim, com uma voz trêmula, admirada e meio sussurrante, ele perguntou:

— Quem é você?

— Eu sou Nycteris — respondeu ela.

— Você é uma criatura das trevas e ama a noite — disse ele, com o medo começando a se agitar novamente.

— Posso ser uma criatura das trevas — respondeu ela. — Mal sei o que você quer dizer com isso. Mas não amo a noite. Eu amo o dia, com todo o meu coração; e durmo a noite toda.

— Como pode? — disse Fotógeno, erguendo-se sobre o cotovelo, mas baixando a cabeça no colo dela de novo no momento em que viu a lua. — Como pode — repetiu —, se estou vendo seus olhos aí, bem acordados?

Ela apenas sorriu e acariciou-o, pois não o entendia e pensava que ele não sabia o que estava dizendo.

— Foi um sonho, então? — retomou Fotógeno, esfregando os olhos. Mas, com isso, a memória dele clareou, e ele estremeceu e gritou: — Ah, que horror! Que coisa horrível! Ser transformado de repente em um covarde! Um covarde infame, desprezível e vergonhoso! Estou envergonhado! Envergonhado e muito assustado! É tudo tão assustador!

— O que é tão assustador? — perguntou Nycteris, com um sorriso como o de uma mãe para o filho que acordou de um pesadelo.

— Tudo, tudo — respondeu ele. — Todas essas trevas e rugidos.

— Meu amor — disse Nycteris —, não há nenhum rugido. Acho que você é sensível demais! O que você está ouvindo é a água caminhando e a corrida da mais doce de todas as criaturas. Ela é invisível, e eu a chamo de Todo Lugar, pois ela passa por todas as outras criaturas e as conforta. Agora ela está se divertindo e brincando com as outras coisas também, sacudindo-as, beijando-as e soprando em seus rostos. Ouça: você chama isso de rugido? Deveria ouvi-la quando ela está muito zangada! Não sei por que, mas às vezes ela fica furiosa e ruge um pouco.

— Está tão horrivelmente escuro! — disse Fotógeno, que, ao ouvir enquanto ela falava, ficou satisfeito porque não havia nenhum rugido.

— Escuro! — repetiu ela. — Você devia ter estado no meu quarto quando um terremoto matou minha lâmpada. Eu não entendo. Como você pode chamar isso de escuro? Deixe-me ver: sim, você tem olhos, e olhos grandes, maiores que os de Madame Watho ou de Falca, não tão grandes quanto os meus, imagino; só que eu nunca vi os meus. Mas, então... ah, sim! Agora sei qual é o problema! Você não consegue ver com eles, porque eles são muito pretos. A escuridão não pode ver, é claro. Não importa: eu serei seus olhos e o ensinarei a ver. Olhe aqui: essas adoráveis coisas brancas na grama, com pontas vermelhas afiadas todas dobradas e formando uma só. Ah, eu as amo tanto! Eu poderia ficar sentada olhando para elas o dia todo, minhas coisinhas queridas!

Fotógeno mirou as flores de perto e pensou ter visto algo parecido antes, mas não conseguiu decifrar o que via. Assim como Nycteris nunca tinha visto uma margarida aberta, ele nunca tinha visto uma fechada.

Dessa forma, instintivamente, Nycteris tentou afastá-lo do medo; e a conversa estranha e adorável da bela criatura o ajudou muito a esquecê-lo.

— Você chama isto de escuro! — repetiu ela, como se não conseguisse se livrar do absurdo da ideia. — Ora, eu poderia contar cada lâmina verde disso que suponho que seja o que os livros chamam de grama a dois metros de mim! E olhe só para a grande lâmpada! Está mais iluminada do que o normal hoje, e eu não consigo imaginar por que você deveria estar com medo ou dizendo que está escuro!

Enquanto falava, ela continuou acariciando as bochechas e os cabelos dele, tentando confortá-lo. Mas, oh, em que estado triste ele estava! E como isso transparecia claramente! Ele estava a ponto de dizer que a grande lâmpada dela lhe parecia terrível, que parecia uma bruxa e caminhava no sono da morte; mas ele não era tão ignorante quanto Nycteris e sabia, mesmo ao luar, que ela era uma mulher, embora nunca tivesse visto uma mulher tão jovem ou adorável; e, enquanto ela apaziguava seus temores, a presença dela o deixava ainda mais envergonhado por seu medo. Além do mais, desconhecendo o temperamento dela, ele poderia irritá-la e fazer com que o abandonasse ali, entregue à própria danação. Portanto, ele ficou imóvel e mal ousou se mover, e o pouco que exibia de vida parecia vir dela; se ele se movesse, ela se moveria; e se ela o deixasse, ele choraria como uma criança.

— Como você veio parar aqui? — perguntou Nycteris, segurando o rosto dele entre as mãos.

— Descendo a colina — respondeu ele.

— Onde você dorme? — perguntou ela.

Ele sinalizou na direção da casa. Ela deu uma risadinha de deleite.

— Quando aprender a não ter medo, você sempre terá vontade de vir aqui fora comigo — disse ela.

Nycteris pensou consigo mesma que ia perguntar àquela garota em breve, quando ela se recuperasse um pouco, como havia escapado, pois ela também devia, é claro, ter saído de uma caverna, onde Watho e Falca deviam mantê-la.

— Veja que cores lindas — continuou ela, apontando para uma roseira, na qual Fotógeno não conseguia enxergar uma única flor. — Não são muito mais lindas do que qualquer uma das cores nas paredes? E eis que estão vivas e têm um cheiro tão bom!

Ele desejou que ela não o fizesse ficar abrindo os olhos para observar coisas que ele não conseguia ver; mas esses momentos se apoderavam dela com força, enquanto uma nova pontada de terror o atingia.

— Venha, venha, querida! — disse Nycteris —, você não pode continuar assim. Precisa ser uma garota corajosa e...

— Uma garota! — gritou Fotógeno, e pôs-se de pé com raiva. — Se você fosse um homem, eu deveria matá-lo.

— Um homem? — repetiu Nycteris. — O que é isso? Como eu poderia ser isso? Somos duas meninas, não somos?

— Não, eu não sou uma menina — respondeu ele —, apesar — acrescentou, mudando de tom e jogando-se no chão aos pés dela — de eu ter dado uma razão muito boa para você me chamar de menina.

— Ah, entendi! — disse Nycteris. — Não, é claro. Você não pode ser uma garota porque as garotas não têm medo; não sem razão. Agora eu entendo: você está tão assustada porque não é uma menina.

Fotógeno se retorceu e se contorceu na grama.

— Não, não é isso — disse ele, mal-humorado. — É essa escuridão horrível que me invade, me atravessa todo o corpo, até a medula dos ossos; é isso que faz com que eu me comporte como uma menina. Se ao menos o sol nascesse!

— O sol! O que é isso? — gritou Nycteris, sentindo agora um vago medo.

Então, Fotógeno começou a entoar uma rapsódia, com a qual, em vão, procurava esquecer a sua própria.

— É a alma, a vida, o coração, a glória do universo — disse ele. — Os mundos dançam como poeira em seus raios. O coração do homem é forte e corajoso sob sua luz, e, quando ele parte, sua coragem se esvai. Vai embora com o sol e o deixa como você me vê agora.

— Então aquilo não é o sol? — indagou Nycteris, pensativa, apontando para a lua.

— Aquilo! — gritou Fotógeno, com desprezo absoluto. — Não sei nada sobre aquilo, exceto que é feio e horrível. Na melhor das hipóteses, pode ser só o fantasma de um sol morto. Sim, é isso! É isso que o torna tão assustador.

— Não — disse Nycteris, após uma pausa longa e pensativa. — Você deve estar errado. Acho que o sol é o fantasma de uma lua morta, e é por isso que ele é muito mais esplêndido, como você diz. Então, quer dizer que existe outro cômodo grande, onde o sol vive no teto?

— Não entendo o que você está querendo dizer — respondeu Fotógeno. — Mas sei que está tentando ser gentil, embora não se deva chamar um pobre sujeito na escuridão de menina. Se você me deixar ficar deitado aqui, com a cabeça no seu colo, eu gostaria de dormir. Você vai me vigiar e cuidar de mim?

— Vou, sim — respondeu Nycteris, esquecendo-se de sua própria parcela de perigo.

Então, Fotógeno adormeceu.

XIV. O SOL

Nycteris permaneceu sentada, e o jovem ficou a noite toda ali deitado, no coração da grande sombra cônica da terra, como dois faraós em uma pirâmide. Fotógeno dormiu e dormiu mais um tanto; e Nycteris ficou imóvel para não acordá-lo e, assim, deixá-lo à mercê do medo.

A lua estava alta na eternidade azul; era um triunfo de noite gloriosa; o rio corria a balbuciar e murmurar sílabas suaves e profundas; a fonte seguia avançando em direção à lua e desabrochando momentaneamente em uma grande flor prateada, cujas pétalas estavam sempre caindo como neve, com um fragor musical contínuo, no leito abaixo onde se exauria; o vento acordou, correu por entre as árvores, adormeceu e tornou a acordar; as margaridas dormiam erguidas ao redor dos pés de Nycteris, mas ela não sabia que dormiam; as rosas podiam muito bem parecer acordadas, pois seu perfume preenchia os ares, mas na verdade também dormiam, e o perfume era dos seus sonhos; as laranjas pendiam como lâmpadas de ouro nas árvores, e suas flores prateadas eram as almas de seus filhos ainda incorpóreos; o cheiro das flores de acácia preenchia o ar como o aroma da própria lua.

Por fim, desacostumada ao ar vivo e cansada de ficar sentada tão imóvel e por tanto tempo, Nycteris começou a sentir sono. O ar começou a esfriar. Aproximava-se a hora em que ela também estava acostumada a dormir. Ela fechou os olhos por um momento e meneou a cabeça — abriu-os de repente, pois havia prometido ficar vigilante.

Naquele momento, ocorreu uma mudança. A lua tinha girado e agora estava à frente dela no oeste, e ela viu que sua face estava alterada, havia empalidecido, como se também estivesse lívida de medo e, de seu posto elevado, avistasse um terror que se aproximava. A luz parecia estar deixando-a; ela estava morrendo — estava indo embora! E, no entanto, tudo ao redor parecia estranhamente claro — mais claro do que qualquer coisa que ela vira antes; como a lâmpada poderia estar derramando ainda mais luz quando ela mesma tinha menos? Ah, era isso mesmo!

Veja como ela parecia débil! Ficou magra e pálida porque a luz a estava abandonando e se espalhando pelo cômodo! Ela estava abrindo mão de toda a luz! Estava derretendo do teto como uma pedra de açúcar na água.

Nycteris estava ficando com medo e buscou refúgio no rosto que jazia em seu colo. Como era linda aquela criatura! Não conseguia nem imaginar como chamá-la, pois havia ficado zangada quando ela a chamara do mesmo jeito que Watho a chamava. E, maravilha das maravilhas! Agora, mesmo com a mudança fria que se desenrolava naquele grande cômodo, a cor de uma rosa vermelha se infundia na face pálida. Que lindo era o cabelo amarelo espalhado sobre seu colo! E que respiros grandes aquela criatura dava! O que eram essas coisas curiosas que carregava? Ela já as tinha visto em suas paredes, com certeza.

Assim, ela falava consigo mesma enquanto a lâmpada ficava cada vez mais pálida e tudo ficava cada vez mais claro. O que isso poderia significar? A lâmpada estava morrendo — indo embora para o outro lugar de que falara a criatura em seu colo, para ser um sol! Mas por que as coisas estavam ficando mais claras antes de ainda haver sol? Essa era a questão. Será que isso acontecia porque ela estava se transformando em um sol? Sim! Sim! Era a morte chegando! Sabia disso, pois também estava vindo sobre ela! Ela sentiu que estava chegando! No que ela estava prestes a se tornar? Algo lindo, como a criatura em seu colo? Podia ser que sim. De qualquer forma, devia ser a morte; pois todas as forças estavam escapando dela, enquanto tudo ao redor ficava tão claro que ela não conseguia suportar! Logo ficaria cega! Ficaria cega ou morreria primeiro?

Pois o sol estava nascendo atrás dela. Fotógeno acordou, ergueu a cabeça do colo dela e se pôs de pé. O rosto dele ganhou um sorriso radiante. Seu coração estava cheio de ousadia, como o de um caçador que rasteja para o covil do tigre. Nycteris deu um grito, cobriu o rosto com as mãos e fechou as pálpebras com força. Então, cegamente, ela estendeu os braços para Fotógeno, gritando:

— Ah, estou tão assustada! O que é isto? Deve ser a morte! Não quero morrer ainda. Amo este cômodo e a lâmpada velha. Não quero o outro lugar. Isto é horrível. Quero me esconder. Quero estar nas mãos doces, suaves e escuras de todas as outras criaturas. Ai de mim!

— Qual é o problema com você, garota? — perguntou Fotógeno com a arrogância de todas as criaturas masculinas até que tenham sido ensinadas por outra espécie. Ele ficou olhando para ela por cima de seu arco, enquanto examinava a corda. — Não precisa ter medo de nada agora, criança! É dia. O sol está quase alto. Olhe! Ele estará acima do pico da colina daqui a pouco! Adeus. Obrigado pelo abrigo noturno. Estou indo. Não seja tola. Se algum dia eu puder fazer algo por você: e isso tudo, você sabe!

— Não me deixe; oh, não me deixe! — gritou Nycteris. — Estou morrendo! Estou morrendo! Não consigo me mover. A luz drena todas as minhas forças. Ah, estou tão assustada!

Mas Fotógeno já havia atravessado o rio, segurando o arco bem alto para que não molhasse. Ele correu pelo planalto e se pôs a subir a colina oposta. Não ouvindo resposta, Nycteris retirou as mãos dos olhos. Fotógeno havia chegado ao topo e, no mesmo momento, os raios do sol despontaram sobre ele; a glória do rei do dia resplandeceu sobre o jovem de cabelos dourados. Radiante como Apolo, deteve-se ali, no auge de suas forças, como uma forma cintilante em meio às chamas. Ele encaixou uma flecha brilhante em um arco reluzente. A flecha disparou com um som agudo e musical da corda do arco, e Fotógeno, zarpando atrás dela, desapareceu com um grito. Apolo disparou para o alto e, de sua aljava, espalhou espanto e júbilo. Mas o cérebro da pobre Nycteris foi completamente fulminado. Ela caiu na escuridão total.

Ao seu redor havia uma fornalha em chamas. Em meio ao desespero, à fraqueza e à agonia, ela se arrastou de volta, tateando o caminho com dúvida, dificuldade e persistência forçada até sua cela. Quando, por fim, a escuridão amigável de seu quarto a envolveu com seus braços refrescantes e consoladores, ela se jogou na cama e adormeceu profundamente. E ali ela dormiu, um ser vivo em uma tumba, enquanto Fotógeno, lá em cima, na glória do sol, perseguia os búfalos no planalto sem pensar uma única vez nela, onde jazia escura e abandonada, cuja presença fora seu refúgio e cujos olhos e mãos haviam sido seus guardiões durante a noite. Ele estava em sua glória e seu orgulho; a escuridão e sua desgraça haviam desaparecido por um tempo.

XV. O HERÓI COVARDE

Mas, assim que chegou o meio-dia, Fotógeno começou a se lembrar da noite anterior à sombra desse sol que agora estava no alto e a recordá-la com vergonha. Ele provou ser — e não apenas para si mesmo, mas também para uma garota — um covarde! Era corajoso à luz do dia, quando não havia nada a temer, mas estremecia ao anoitecer. Havia, tinha que haver, algo injusto nisso! Um feitiço que fora lançado sobre ele! Ele tinha comido ou bebido algo que não combinava com a coragem! De qualquer forma, fora pego de surpresa! Como ele poderia saber o que acontecia quando o sol se punha? Não era de se admirar que ele tivesse ficado surpreso com o terror, vendo que aquilo era o que era — tão terrível em sua própria natureza! Além disso, não se conseguia ver de onde o perigo poderia surgir! Poderia ser despedaçado, arrastado ou engolido, sem sequer saber onde desferir um golpe! Abraçou todas as desculpas possíveis, ansioso para aliviar seu desprezo por si mesmo. Naquele dia, ele surpreendeu os caçadores — aterrorizou-os com sua ousadia imprudente —, tudo para provar a si mesmo que não era covarde. Mas nada diminuía sua vergonha. Apenas uma coisa lhe dava esperança: a decisão de encontrar a escuridão com uma seriedade solene, agora que ele sabia um pouco do que era. Era mais nobre enfrentar um perigo reconhecido do que se precipitar desdenhosamente sobre o que não parecia nada — e mais nobre ainda ir ao encontro de um horror sem nome. Ele poderia de um só golpe vencer o medo e acabar com sua desgraça. Para um arqueiro e espadachim como ele, disse a si mesmo, não havia perigo à altura de sua força e coragem. Não haveria derrota. Agora ele conhecia a escuridão e, quando ela viesse, ele iria enfrentá-la tão destemido e frio quanto se sentia agora. E disse novamente:

— Veremos!

Ele ficou sob os galhos de uma grande faia enquanto o sol se punha, ao longe, sobre as colinas recortadas. Antes que metade do sol se ocultasse, ele já tremia como as folhas atrás de si ao primeiro suspiro do vento noturno. No momento em que o resto do disco brilhante desapareceu, ele saltou aterrorizado para ganhar o vale, e seu medo crescia enquanto ele corria. Descendo a encosta da colina, uma criatura abjeta, ele saltou, rolou e correu; caiu em vez de mergulhar no rio e voltou a si, como antes, deitado na margem gramada do jardim.

Mas, quando abriu os olhos, não havia olhos de garota olhando para ele; havia apenas as estrelas no deserto da Noite sem sol — o terrível inimigo que ele ousou encontrar novamente, mas não conseguiu enfrentar. Talvez a garota ainda não tivesse saído da água! Tentaria dormir, pois não ousava se mexer, e talvez ao acordar encontrasse a cabeça no colo dela, e o lindo rosto escuro, com seus profundos olhos azuis, curvado sobre ele. No entanto, quando acordou, encontrou-se com a cabeça ainda na grama e, embora tenha se levantado com a coragem restaurada, tal como era, não saiu para caçar como no dia anterior; e, apesar da glória do sol no coração e nas veias, sua caçada naquele dia foi menos ardorosa; ele comeu pouco e desde o início se manteve pensativo ou até mesmo triste. Havia sido derrotado e desonrado pela segunda vez! Sua coragem não era mais nada além do jogo da luz do sol em seu cérebro? Será que ele era uma mera bola jogada entre a luz e a escuridão? Se assim fosse, que pobre criatura desprezível era! Porém, uma terceira chance estava diante dele. Se falhasse pela terceira vez, não ousou prever o que pensaria de si mesmo. Já era ruim o suficiente agora — mas então!

Que lástima! As coisas não se saíram nada melhor. No momento em que o sol se pôs, ele fugiu como se corresse de uma legião de demônios.

Sete vezes ao todo ele tentou enfrentar a noite que se aproximava com a força do dia anterior, e por sete vezes falhou — falhou com tal piora em seus fracassos, com um sentimento crescente de ignomínia que dominava todas as longas horas de sol e somava-se noite após noite, que, com tristeza, culpa e sem confiança própria, sua coragem diurna também começou a desvanecer e, por fim, por exaustão, por se molhar no rio e, em seguida, dormir ao relento durante toda a noite, noite após noite — e, pior de tudo, de tanto se deixar consumir pelo medo mortal e pela vergonha da própria vergonha, seu sono o abandonou e, na sétima manhã, em vez de ir caçar, ele rastejou para o castelo e foi direto para a cama. Sua generosa saúde, com a qual a bruxa tanto havia se importado, degringolou, e, dentro de uma hora ou duas, ele estava gemendo e gritando em delírio.

XVI. UMA ENFERMEIRA MÁ

Como contei, a própria Watho estava doente, e isso a deixava de péssimo humor; além disso, é uma peculiaridade das bruxas que o que funciona nos outros por atração, funciona nelas por repulsão. Além disso, a esta altura, tinha restado a Watho um fiapo muito pobre e rudimentar de consciência pesada, que era apenas bastante para deixá-la desconfortável e, portanto, mais perversa. Então, quando ela soube que Fotógeno estava doente, ficou furiosa. Doente, oras! Depois de tudo que ela fizera para fazê-lo transbordar com a vida do mundo, com a força do próprio sol? Era um infeliz fracasso, esse menino! E, porque esse fracasso era dela, ela ficou irritada com ele, começou a desgostá-lo e passou a odiá-lo. Ela olhava para ele como um pintor olha para um quadro ou um poeta para um poema que só conseguira transformar em uma catástrofe irrecuperável. No coração das bruxas, o amor e o ódio vivem muito próximos e frequentemente tropeçam um no outro.

E, fosse porque seu fracasso com Fotógeno também frustrou seus planos em relação a Nycteris ou porque sua doença a tornou ainda mais uma esposa do demônio, agora Watho também estava farta da garota e detestava saber que ela vivia no castelo.

Entretanto, ela não estava doente demais para deixar de ir ao quarto do pobre Fotógeno para atormentá-lo. Ela contou a ele que o odiava tanto quanto a uma serpente e sibilou igual a uma quando disse isso, com sua aparência bem afilada no nariz e no queixo e achatada na testa. Fotógeno pensou que ela pretendia matá-lo e mal se aventurava a tomar qualquer coisa que ela lhe trouxesse. Ela ordenou que todos os raios de luz fossem bloqueados do quarto dele; mas, com isso, ele se acostumou um pouco mais com a escuridão. Ela pegava uma de suas flechas e uma hora fazia cócegas nele com a ponta da pena, outra hora o picava com a ponta até o sangue escorrer. O que ela realmente pretendia, não sei dizer, mas ela rapidamente levou Fotógeno à decisão de escapar do castelo: o que ele faria depois seria pensado mais tarde. Quem sabe ele até encontrasse sua mãe em algum lugar além da floresta! Se não fosse pelos grandes trechos de escuridão que dividem os dias, ele não temeria nada!

Mas agora, enquanto jazia indefeso, de vez em quando surgia através da escuridão o rosto da adorável criatura que naquela primeira noite terrível cuidou dele com tanta doçura: será que ele nunca mais a veria? Se ela era, como ele havia concluído, uma ninfa do rio, por que não reapareceu? Ela poderia tê-lo ensinado a não temer a noite, pois, evidentemente, ela própria não a temia! No entanto, quando o dia raiou, ela pareceu assustada — por que isso, visto que não havia nada a temer naquele momento? Talvez alguém que se sentisse tão em casa na escuridão tivesse um medo correspondente da luz! Então, a alegria egoísta que ele sentira com o nascer do sol, cegando-o para a condição dela, o fizera se comportar com ela, em retribuição à sua bondade, com tanta crueldade quanto Watho se comportava com ele!

Como ela era doce, gentil e adorável! Se havia feras que saíam apenas à noite e tinham medo da luz, por que não haveria também garotas feitas da mesma maneira — que não suportavam a luz, como ele não suportava a escuridão? Se ao menos ele pudesse encontrá-la mais uma vez! Ah, como ele se comportaria de maneira diferente! Que lástima! Talvez o sol a tivesse matado, derretido, queimado, ressecado... e seria tarde demais, se ela fosse uma ninfa do rio!

XVII. O LOBO DE WATHO

Desde aquela manhã terrível, Nycteris nunca mais conseguiu ser ela mesma. A luz repentina tinha sido quase a morte para ela: e agora ela estava deitada no escuro com a memória de uma claridade terrível — algo que ela mal ousava recordar, para que o simples pensamento não a ferisse além do suportável. Mas isso não era nada em comparação com a dor que lhe causava a lembrança da rudeza da criatura brilhante de quem ela cuidara enquanto ele sentia medo; no momento em que o sofrimento dele passou para ela e ele se viu livre, o primeiro gesto que ele esboçou com o retorno de suas forças foi para desprezá-la! Ela ficou a imaginar e se indagar; tudo aquilo estava além de sua compreensão.

Em pouco tempo, Watho estava tramando o mal contra ela. A bruxa era como uma criança doente cansada de seu brinquedo: ela iria despedaçá-la para ver se gostava. Ela a colocaria ao sol e a veria morrer, como uma água-viva do oceano abandonada sobre uma rocha quente. Seria um espetáculo para acalmar a dor de seu lobo interior. Um dia, portanto, pouco antes do meio-dia, enquanto Nycteris estava em seu sono mais profundo, ela mandou levar uma liteira escura até a porta e fez com que dois de seus homens a carregassem para o planalto acima. Lá eles a tiraram da liteira, deitaram-na na grama e a deixaram.

Watho assistiu a tudo do topo de sua torre alta, através de seu telescópio; e Nycteris mal havia sido deixada lá quando a viu sentar-se e, no mesmo instante, deitar-se de novo com o rosto no chão.

— Ela terá uma insolação — disse Watho —, e esse será o seu fim.

Logo depois, atormentado por uma mosca, um búfalo de corcunda enorme, com uma grande crina desgrenhada, veio galopando direto para onde Nycteris estava deitada. Ao ver aquela coisa na grama, ele deu uma arrancada, desviou alguns metros para o lado, parou e se aproximou lentamente, parecendo mal-intencionado. Nycteris ficou imóvel e nem mesmo viu o animal.

— Agora ela será pisoteada até a morte! — disse Watho. — É assim que essas criaturas fazem.

Quando o búfalo a alcançou, ele a farejou inteira e foi embora; depois voltou e farejou de novo: então, de repente, fugiu como se um demônio o tivesse pego pela cauda.

Em seguida veio um gnu, um animal ainda mais perigoso, e fez quase o mesmo; e em seguida veio um javali esquálido. Mas nenhuma criatura a machucou, e Watho agora estava com raiva de toda a criação.

Por fim, à sombra de seus cabelos, os olhos azuis de Nycteris começaram a se recompor, e a primeira coisa que viram foi consoladora. Já contei como ela conhecia as margaridas noturnas, cada uma delas um pequeno cone pontiagudo com uma ponta vermelha; e uma vez ela abriu as pétalas de uma delas, com os dedos trêmulos, pois temia estar sendo terrivelmente rude e talvez a estivesse machucando; mas ela queria saber, segundo dissera a si mesma, que segredo a flor carregava escondido com tanto cuidado; e ela encontrou seu coração dourado. Mas agora, bem debaixo de seus olhos, dentro do véu de seus cabelos, no doce crepúsculo cuja escuridão ela conseguia ver perfeitamente, estava uma margarida com a ponta vermelha aberta em um anel carmim, exibindo seu coração dourado em uma bandeja de prata. A princípio, ela não a reconheceu como um daqueles cones despertos, mas uma percepção momentânea revelou o que era. Quem, então, poderia ter sido tão cruel com a adorável criaturinha a ponto de forçá-la a se abrir assim e estender-se de coração nu para a terrível lâmpada mortífera? Quem quer que fosse, devia ter sido a mesma pessoa que a jogara lá para queimar até a morte sob aquele fogo. Mas ela tinha seus cabelos e podia baixar a cabeça e improvisar uma pequena e doce noite ao seu redor! Ela tentou dobrar a margarida para baixo e para longe do sol e fazer suas pétalas penderem em volta dela do mesmo modo como seu cabelo, mas não conseguiu. Que tristeza! A flor já estava queimada e morta! Ela não sabia que a flor não era capaz de ceder à sua força gentil porque estava bebendo a vida, com toda avidez, daquilo que ela chamava de lâmpada mortífera. Oh, como a lâmpada a queimava!

Mas ela continuou pensando — não sabia como; e aos poucos começou a refletir que, como não havia teto nesse cômodo com exceção daquele de onde o grande fogo irradiava, a pequena flor de bico vermelho devia ter visto a lâmpada mil vezes e devia conhecê-la muito bem! E a lâmpada não a havia matado! Não, pensando um pouco mais, ela começou a se indagar se aquela condição, na qual ela agora a via, não seria a mais perfeita. Pois não apenas agora o todo parecia perfeito, como de fato parecia antes, mas cada parte mostrava sua própria perfeição individual, perfeição essa que a tornava capaz de se combinar com o restante na perfeição superior do todo. A própria flor era uma lâmpada! Seu coração dourado era a luz, e a borda de prata era o globo de alabastro, habilmente quebrado e esparramado para deixar sair a glória. Sim, a forma radiante era claramente sua forma perfeita! Portanto, se foi a lâmpada que a abriu naquele formato, a lâmpada não poderia ser hostil a ela, mas devia ser de sua própria espécie, visto que a tornava perfeita! E, de novo, quando ela pensava nisso, não via pouca semelhança entre elas. E se a flor fosse bisneta da lâmpada e a estivesse adorando o tempo todo? E se a lâmpada não tivesse a intenção de machucá-la, apenas não pudesse evitar? Aquelas pontas vermelhas pareciam um dano sofrido pela flor: e se a lâmpada estivesse tentando fazer o melhor que podia por Nycteris — abrindo-a, de alguma forma, como fizera com a flor? Ela suportaria pacientemente e veria. Mas como era grosseira a cor da grama! Porém, talvez, pelo fato de seus olhos não terem sido feitos para a lâmpada brilhante, ela não a via como realmente era!

Então, lembrou-se de como eram diferentes os olhos da criatura que não era uma garota e tinha medo da escuridão! Ah, se as trevas voltassem com seus braços amigáveis e suaves ao redor dela! Ela esperaria e esperaria um tanto mais, suportaria e seria paciente.

Nycteris ficou tão imóvel que Watho não duvidou que ela tivesse desmaiado. Tinha certeza de que ela estaria morta antes que a noite viesse reanimá-la.

XVIII. REFÚGIO

Fixando a mira do telescópio na forma imóvel, para que pudesse vê-la imediatamente ao amanhecer, Watho desceu da torre para o quarto de Fotógeno. Ele estava muito melhor a esta altura e, antes que ela o deixasse, ele já tinha resolvido deixar o castelo naquela mesma noite. A escuridão era verdadeiramente terrível, mas Watho era pior do que a escuridão, e ele não conseguiria escapar durante o dia. Portanto, assim que a casa pareceu tranquila, ele apertou o cinto, pendurou nele sua faca de caça, colocou um frasco com vinho e um pouco de pão no bolso e pegou o arco e as flechas. Ele saiu da casa e subiu imediatamente para o planalto. Mas, com sua doença, os terrores da noite e seu pavor dos animais selvagens, quando chegou ao planalto não conseguiu dar um passo adiante e sentou-se, pensando que era melhor morrer do que viver. Apesar de seus temores, no entanto, o sono conseguiu dominá-lo, e ele se deitou por completo na grama macia.

Não tinha dormido muito quando acordou com uma sensação tão estranha de conforto e segurança que pensou que finalmente o amanhecer deveria ter chegado. Mas era noite escura sobre ele. E o céu — não, não era o céu, mas os olhos azuis de sua náiade olhando para ele! Mais uma vez, ele se deitou com a cabeça no colo dela, e tudo estava bem, pois a garota evidentemente temia a escuridão tão pouco quanto ele o dia.

— Obrigado — disse ele. — Você é como uma armadura viva para o meu coração; mantém o medo longe de mim. Tenho estado muito doente desde que nos vimos. Você saiu do rio quando me viu atravessar?

— Eu não moro na água — respondeu ela. — Eu vivo sob uma lâmpada pálida e morro sob a lâmpada brilhante.

— Ah, sim! Eu entendo agora — respondeu ele. — Eu não teria me comportado como da última vez se tivesse entendido; mas pensei que você estava zombando de mim. Quanto a mim, não posso deixar de ficar assustado com a escuridão. Peço perdão por tê-la deixado como fiz, pois, como eu disse, não entendi. Agora acredito que você estava realmente assustada. Não estava?

— Eu estava, sim — respondeu Nycteris —, e estarei novamente. Mas por que você deveria estar, eu não consigo entender. Você deve saber o quanto a escuridão é branda e doce, o quanto é gentil e amigável, suave e aveludada! Ela leva você para junto do peito e a ama. Há pouco tempo, eu estava desmaiada e morrendo debaixo da sua lâmpada quente. Como você chama aquilo?

— O sol — murmurou Fotógeno. — Como eu gostaria que ele se apressasse!

— Ah! Não deseje isso. Pelo meu bem, não deseje que ele se apresse. Posso proteger você na escuridão, mas não tenho ninguém para me proteger na luz. Como lhe contei, eu estava morrendo ao sol. De repente, respirei fundo. Um vento frio veio e passou pelo meu rosto. Eu olhei para o alto. A tortura tinha acabado, pois a própria lâmpada mortífera tinha ido embora. Espero que ela não morra e fique mais brilhante ainda. A dor de cabeça terrível que eu sentia sumiu, e minha visão voltou. Senti-me nova em folha. Mas não me levantei de imediato, pois ainda estava cansada. A grama ficou fria ao meu redor e ganhou uma cor suave. Algo molhado caiu sobre ela, e então ficou tão agradável aos meus pés que me levantei e comecei a correr. E, quando eu já estava correndo por um bom tempo, de repente encontrei você aqui deitado, assim como eu estava deitada um pouco antes. Então me sentei ao seu lado para cuidar de você, até que sua vida e minha morte voltassem.

— Como você é bondosa, linda criatura! Ora, você me perdoou antes mesmo de eu lhe pedir! — disse Fotógeno.

Assim, eles começaram a conversar, e ele contou a ela o que sabia de sua própria história, e ela contou o que sabia sobre a dela, e eles concordaram que deveriam se afastar de Watho e fugir para o mais longe que pudessem.

— Devemos partir imediatamente — disse Nycteris.

— No momento em que a manhã chegar — redarguiu Fotógeno.

— Não devemos esperar pela manhã — disse Nycteris —, pois então não poderei me mover, e o que você faria na noite seguinte? Além disso, Watho vê melhor durante o dia. Na verdade, você deve vir agora, Fotógeno. Você deve.

— Não posso; não ouso — disse Fotógeno. — Não consigo me mexer. Se eu levantar minha cabeça de seu colo, a doença do terror vai se apoderar de mim.

— Eu estarei com você — disse Nycteris, com suavidade. — Vou cuidar de você até que seu sol terrível chegue, e então você pode me deixar e ir embora o mais rápido que puder. Só, por favor, me coloque em um lugar escuro primeiro, se houver.

— Jamais vou deixar você de novo, Nycteris — gritou Fotógeno. — Apenas espere até o sol nascer e trazer as minhas forças de volta, e então vamos juntos e nunca, nunca mais nos separaremos.

— Não, não — insistiu Nycteris. — Precisamos ir agora. E você precisa aprender a ser forte no escuro assim como durante o dia, do contrário você sempre será só meio corajoso. Já comecei não a lutar contra o seu sol, mas a tentar ficar em paz com ele e entender o que ele realmente é e o que ele quer de mim, seja me machucar ou tirar o melhor de mim. Você deve fazer o mesmo com a minha escuridão.

— Mas você não sabe que animais malucos existem no sul — disse Fotógeno. — Eles têm olhos verdes enormes e comeriam você como um pedaço de aipo, bela criatura!

— Venha, venha! Você precisa vir — disse Nycteris — ou terei que fingir que o deixei, para fazer você vir atrás de mim. Eu já vi os olhos verdes de que você fala e vou protegê-lo deles.

— Você! Como poderia fazer isso? Se agora fosse dia, eu poderia defendê-la do pior deles. Mas do jeito como está, não consigo nem vê-los nesta escuridão abominável. Eu não conseguiria ver seus lindos olhos se não fosse pela luz neles; é essa luz que me permite enxergar diretamente o céu através do seu olhar. Eles são janelas para o próprio paraíso além do céu; creio que são o lugar onde as estrelas são feitas.

— Venha, então, ou eu os fecharei — disse Nycteris. — E você não os verá mais enquanto não se comportar. Venha. Se você não consegue enxergar as feras, eu consigo.

— Consegue! E ainda me pede para ir! — disse Fotógeno.

— Sim — respondeu Nycteris. — E, mais do que isso, eu as vejo muito antes que elas consigam me ver, de modo que sou capaz de cuidar de você.

— Mas como? — insistiu Fotógeno. — Você não sabe atirar com arco e flecha nem usar uma faca de caça.

— Não, mas sei ficar fora do caminho de todas as feras. Bem, quando encontrei você, eu estava brincando com duas ou três delas ao mesmo tempo. Eu vejo e também sinto o cheiro delas muito antes que estejam perto de mim, muito antes que consigam me ver ou me farejar.

— Você não está vendo nem cheirando nenhuma agora, não é? — perguntou Fotógeno, inquieto, erguendo-se sobre o cotovelo.

— Não, nenhuma no momento. Vou dar uma olhada — respondeu Nycteris e se levantou de um salto.

— Oh, não! Não me deixe, nem por um momento — gritou Fotógeno, forçando os olhos para manter o rosto dela à vista na escuridão.

— Fique quieto ou elas vão você — respondeu ela. — O vento está vindo do sul, e elas não conseguem nos farejar. Eu descobri tudo sobre isso. Desde que a querida escuridão chegou, tenho me divertido com elas, ficando de vez em quando apenas na borda do vento e deixando que uma delas me cheire.

— Ah, que horrível! — disse Fotógeno. — Espero que não insista mais em fazer isso. Qual foi o resultado?

— Sempre, no mesmo instante, ela se virava com olhos impetuosos e saltava na minha direção; só que não conseguia me ver, você deve se lembrar. Mas, com meus olhos tão melhores que os da fera, eu conseguia vê-la com perfeição e corria em torno dela até sentir seu cheiro, e então entendi que ela não conseguiria me encontrar de maneira alguma. Se o vento mudasse e corresse para o outro lado agora, poderia haver todo um exército delas caindo sobre nós e não haveria espaço para ficar fora do caminho. É melhor você vir.

Ela o pegou pela mão. Ele cedeu e se levantou, e ela o levou embora. Mas os passos dele eram débeis e, à medida que a noite avançava, ele parecia cada vez mais perto de cair.

— Oh, céus! Estou tão cansado e tão assustado! — dizia ele.

— Apoie-se em mim — respondia Nycteris, colocando o braço em volta dele ou dando tapinhas em sua bochecha. — Dê mais alguns passos. Cada passo para longe do castelo é um avanço. Apoie-se mais em mim. Agora me sinto bem e estou mais forte.

E assim eles continuaram. Os olhos noturnos e penetrantes de Nycteris divisaram não poucos pares de olhos verdes reluzindo como buracos na escuridão, e ela deu muitas voltas para se manter fora de seu caminho; mas nunca disse a Fotógeno que os viu. Com cuidado, ela o manteve longe dos lugares acidentados e na lisura macia da grama, falando com ele de forma gentil durante todo o caminho — sobre as flores adoráveis e as estrelas — como as flores pareciam confortáveis em suas camas verdes e como as estrelas estavam felizes em suas camas azuis!

Com a aproximação da manhã, ele começou a melhorar, mas estava terrivelmente cansado de andar em vez de dormir, ainda mais depois de passar tanto tempo doente. Nycteris também, um tanto por ajudá-lo a caminhar, um tanto pelo medo crescente da luz que começava a se infiltrar do leste, estava muito cansada. Por fim, ambos igualmente exaustos, nenhum foi capaz de ajudar o outro. Como que por anuência mútua, eles pararam. Abraçando-se, detiveram-se no meio do vasto campo relvado, nenhum deles capaz de dar um passo, cada um apoiando-se apenas na fraqueza do outro, cada um pronto para cair se o outro se mexesse. Mas, enquanto um ficava ainda mais fraco, o outro começava a ficar mais forte. Quando a maré da noite começou a baixar, a maré do dia começou a subir; e agora o sol despontava no horizonte, carregado por suas ondas espumantes. E, sempre que ele vinha, Fotógeno revivia. Por fim, o sol ergueu-se nos ares, como se fosse um pássaro saído das mãos do Pai das Luzes. Nycteris deu um grito de dor e escondeu o rosto entre as mãos.

— Ai de mim! — suspirou ela. — Estou com tanto medo! Essa luz terrível dói tanto!

Mas, no mesmo instante, através de sua cegueira, ela ouviu Fotógeno dar uma risada baixa e exultante, e no momento seguinte se sentiu ser erguida; ela, que durante toda a noite havia cuidado dele e o protegido como uma criança, estava agora em seus braços, carregada como um bebê, com a cabeça apoiada no ombro dele. Mas ela era a mais forte; por sofrer mais, não temia nada.

XIX. O LOBISOMEM

No exato momento em que Fotógeno pegou Nycteris no colo, o telescópio de Watho estava varrendo furiosamente o planalto. Ela o empurrou com raiva e, correndo para o quarto, se trancou. Lá ela se ungiu da cabeça aos pés com certo unguento; soltou os longos cabelos ruivos e os amarrou na cintura; então começou a dançar, girando e girando cada vez mais rápido, ficando cada vez mais furiosa, até que estivesse espumando pela boca de tanta raiva. Quando Falca foi procurá-la, não a encontrou em lugar nenhum.

À medida que o sol nascia, o vento mudava lentamente e rodopiava, até que começou a soprar direto do norte. Fotógeno e Nycteris estavam se aproximando da borda da floresta, ele ainda carregando-a, quando ela se moveu um pouco em seu ombro, inquieta, e murmurou em seu ouvido.

— Sinto o cheiro de uma fera. Vem dali, do mesmo sentido do vento.

Fotógeno virou-se na direção do castelo e viu uma mancha escura no planalto. Enquanto ele olhava, a mancha ficava ainda maior: estava atravessando o campo relvado com a velocidade do vento. Estava cada vez mais perto. Parecia longa e baixa, mas talvez fosse porque estava correndo muito, rente ao solo. Ele colocou Nycteris embaixo de uma árvore, à sombra escura de seu tronco, esticou seu arco e pegou a flecha mais pesada, mais longa e mais afiada. Assim que ajustou o encaixe na corda, viu que a criatura era um tremendo de um lobo e que corria direto para ele. Ele afrouxou a faca na bainha, puxou outra flecha pela metade na aljava para o caso de a primeira falhar e mirou a uma boa distância, para dar tempo para uma segunda chance. Atirou. A flecha subiu, voou direto, desceu, atingiu a fera e pulou de novo no ar, dobrada como uma letra V. Fotógeno rapidamente agarrou a outra, atirou, largou seu arco e sacou a faca. Mas a flecha havia afundado no peito do animal até a pena; e ele tombou de ponta-cabeça, com um grande baque do dorso no chão; soltou um gemido, fez menção de lutar uma ou duas vezes e depois ficou estendido, imóvel.

— Eu o matei, Nycteris! — gritou Fotógeno. — É um enorme lobo vermelho.

— Ah, obrigada! — respondeu Nycteris debilmente de trás da árvore. — Eu tinha certeza de que você conseguiria. Não senti nem um pouco de medo.

Fotógeno foi até o lobo. Era um monstro! Mas ele estava aborrecido por sua primeira flecha ter se saído tão mal e não estava disposto a perder aquela que lhe prestara um serviço tão bom: com um longo e forte puxão, ele a arrancou do peito do animal. Deveria acreditar em seus olhos? Lá estava ela — não um lobo, mas Watho, com os cabelos amarrados na cintura! A bruxa tola tinha se tornado invulnerável, como ela supôs, mas havia se esquecido que, para atormentar Fotógeno, ela havia manuseado uma de suas flechas. Ele correu de volta para Nycteris e contou a ela.

Ela estremeceu e chorou, e não queria olhar.

XX. ESTÁ TUDO BEM

Agora não havia motivo para dar um passo adiante. Eles não temiam ninguém além de Watho. Deixaram-na lá e voltaram. Uma grande nuvem desceu sobre o sol, e a chuva começou a cair forte. Nycteris se sentiu bastante revigorada, conseguiu enxergar um pouco e, com a ajuda de Fotógeno, caminhou com leveza sobre a grama úmida e fria.

Eles não tinham ido muito longe quando encontraram Fargu e os outros caçadores. Fotógeno contou a eles que matara um grande lobo vermelho, e que ele era Madame Watho. Os caçadores pareciam sérios, mas a alegria transparecia.

— Então — disse Fargu —, vou até lá enterrar minha senhora.

Mas, quando chegaram ao local, descobriram que ela já estava enterrada — nas bocas de diversos pássaros e feras que a haviam comido como café da manhã.

Então Fargu, ao alcançá-los, pediu, muito sabiamente, que Fotógeno fosse até o rei e lhe contasse toda a história. Porém Fotógeno, ainda mais sábio que Fargu, não partiria antes de se casar com Nycteris.

— Pois, assim — disse ele —, o próprio rei não poderá nos separar; e, se alguma vez existiram duas pessoas que não podiam viver uma sem a outra, somos Nycteris e eu. Ela tem que me ensinar a ser um homem corajoso no escuro, e eu tenho que cuidar dela até que ela consiga suportar o calor do sol e que ele possa ajudá-la a enxergar, em vez de cegá-la.

Eles se casaram naquele mesmo dia. E, no dia seguinte, foram juntos até o rei e contaram-lhe toda a história. E quem encontraram na corte, senão o pai e a mãe de Fotógeno, ambos nas altas graças do rei e da rainha. Aurora quase morreu de alegria e contou a todos como Watho havia mentido e feito com que ela acreditasse que seu filho estava morto.

Ninguém sabia nada sobre o pai ou a mãe de Nycteris; mas, quando Aurora viu na linda garota seus próprios olhos azuis brilhando através da noite e das nuvens, isso a fez pensar coisas estranhas e se perguntar como até as pessoas malvadas conseguem ser um elo para unir as boas. Por meio de Watho, as mães, que nunca tinham se visto, trocaram os olhos por meio dos filhos.

O rei deu-lhes o castelo e as terras de Watho, onde viveram e ensinaram um ao outro por vários anos que não duraram muito. Mas nem um ano transcorreu antes que Nycteris passasse a amar mais o dia, porque ele era as vestes e a coroa de Fotógeno, e reconhecesse que o dia era maior que a noite, e que o sol era mais majestoso que a lua; enquanto Fotógeno passou a amar mais a noite, porque esta era a mãe e o lar de Nycteris.

— Mas quem sabe — diria Nycteris a Fotógeno — se, quando formos embora, não encontraremos um dia tão maior que o seu dia quanto o seu dia é maior que a minha noite?.

The End

Você terminou O Garoto do Dia e a Garota da Noite

George MacDonald

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