O Jardim de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 22 de 45

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O Jardim de Rama

Capítulo 4

"Não por escolha, Keiko", interrompeu-a Kenji. Depois de hesitar um pouco, disse: "Meu pai foi destacado para ir para a América. Nós nos mudamos para lá no mês que vem", disse ele, afinal.

Kenji jamais vira uma expressão de abandono igual à do lindo rosto de Keiko. Quando ela levantou o olhar para ele, com aqueles olhos terrivelmente tristes, ele pensou que seu coração fosse arrebentar. Abraçou-a estreitamente então na tarde chuvosa, ambos chorando, e ele jurou que só amaria a ela para sempre.

 

4

 

A garçonete mais jovem, a de quimono azul-claro com o obi antiquado, empurrou o biombo deslizável e entrou na salinha. Carregava uma bandeja com cerveja e saque. "Osake onegai shimasu", disse o pai de Kenji polidamente, segurando seu copo para saque enquanto a moça o servia.

Kenji tomou um gole de sua cerveja fria. A garçonete mais velha voltou então, sem ruído, com um pequeno prato de hors d'oeuvres. Ao centro havia alguma espécie de crustáceo com um molho leve, porém Kenji seria incapaz de identificar seja o molusco, seja o molho. Não comera mais de meia dúzia dessas refeições kaiseki nos dezessete anos desde que deixara Kioto.

"Campai", disse Kenji, batendo com sua caneca no copinho de saque do pai. "Obrigado, meu pai. Sinto-me honrado em estar jantando aqui com o senhor." Kicho era o mais famoso restaurante da região Kansai, talvez até de todo o Japão. Era também assustadoramente caro, já que preservava integralmente as tradições de serviço individualizado, salas de jantar privadas e pratos especiais de cada estação, feitos exclusivamente de ingredientes da mais alta qualidade. Cada prato era um deleite para os olhos, tanto quanto para o paladar. Quando o sr. Watanabe informou ao filho que iriam jantar sozinhos, apenas eles dois, Kenji jamais imaginara que seria no Kicho. Estavam conversando sobre a expedição a Marte. "Quantos dos outros colonizadores são japoneses?", indagou o pai.

"Muitos. Quase trezentos, se me lembro bem. Havia várias candidaturas de alto nível do Japão. Só a América tem um contingente maior."

"Você conhece alguns dos outros japoneses pessoalmente? "Dois ou três. Yasuko Horikawa esteve algum tempo na minha turma no curso secundário em Kioto. O senhor se lembra dela. Muitíssimo inteligente. Dentuça, óculos grossos. Ela é, ou deveria dizer era, química da Dai-Nippon."

O sr. Watanabe sorriu. "Creio que me lembro dela", disse. "Não esteve lá em casa na noite em que Keiko tocou piano?"

"Acho que sim", respondeu Kenji muito à vontade. Riu-se. "Mas tenho dificuldade em me lembrar de qualquer coisa além de Keiko, naquela noite." O sr. Watanabe esvaziou seu copo de saque. A garçonete mais moça, discretamente ajoelhada em um canto do tatame da salinha, aproximou-se da mesa para tornar a enchê-lo. "Kenji, estou preocupado com os criminosos", disse o sr. Watanabe depois que a moça se afastou. "Do que é que está falando, meu pai?"

"Li uma longa reportagem em uma revista dizendo que a AEI recrutara várias centenas de condenados para serem parte da Colônia Lowell. O artigo enfatizava o fato de todos os criminosos terem tido fichas perfeitas durante seus períodos de detenção, além de qualificações de alto nível. Mas que necessidade havia de se levar todos esses condenados?"

Kenji tomou um gole de sua cerveja. "Na verdade, meu pai, houve alguma dificuldade no processo de recrutamento. Primeiro, tivemos uma previsão pouco realista sobre quantas pessoas iriam candidatar-se, e por isso criamos critérios de seleção muito difíceis. Em segundo lugar, o período mínimo de cinco anos foi um erro. Principalmente para os jovens, a decisão de fazer o que quer que seja por período tão longo parece um compromisso arrasador. O mais importante, porém, é que a imprensa solapou seriamente todo o processo da criação de quadros. Na época em que estávamos buscando candidaturas, houve miríades de artigos em revistas e 'especiais' de televisão sobre o desaparecimento das colônias marcianas há centenas de anos. As pessoas ficaram com medo de que a história se repetisse, e que elas também pudessem vir a ser abandonadas permanentemente em Marte." Kenji fez uma ligeira pausa, porém o sr. Watanabe não pronunciou qualquer comentário. "Além do quê, como o senhor bem sabe, o projeto tem tido uma série de crises financeiras. Foi durante um desses apertos orçamentários no ano passado que começamos a pensar em condenados de alta capacidade como um modo de resolver alguns de nossos problemas de pessoal e de orçamento. Embora devessem receber salários apenas modestos, vários outros incentivos levavam os sentenciados a se candidatarem. A escolha significava a concessão de perdão completo, e portanto liberdade quando voltassem à Terra ao fim de cinco anos. Além do mais, os ex-prisioneiros teriam plena cidadania na Colônia Lowell, como todo mundo, sem ter mais de tolerar a onerosa monitoração de todas as suas atividades..." Kenji parou quando dois pequenos pedaços de peixe grelhado, delicados, bonitos e arranjados em um ninho de folhas variadas, foram postos na mesa. O sr. Watanabe pegou um dos pedaços com seus pauzinhos e deu uma dentadinha. "Oishii desu'" comentou ele, sem olhar para o filho. Kenji estendeu a mão para pegar seu pedaço de peixe. Aparentemente, a conversa sobre os condenados estava terminada. Kenji olhou por cima de seu pai, onde podia ver o belo jardim pelo qual era famoso o restaurante. Um fiozinho de água descia por degraus polidos e corria ao lado de meia dúzia de árvores anãs. O assento defronte à janela era sempre o lugar de honra em uma refeição tradicional japonesa. O sr. Watanabe insistira em que Kenji tivesse a vista para o jardim neste último jantar.

"Não puderam atrair colonos chineses?", perguntou o pai, depois que haviam terminado o peixe.

Kenji sacudiu a cabeça. "Só uns poucos, de Cingapura e da Malásia. Tanto o governo da China quanto do Brasil proibiram seus cidadãos de se candidatar. A decisão brasileira já era esperada — seu império sul-americano está virtualmente em guerra com o CDG — mas esperávamos que os chineses amolecessem sua posição. Acho que cem anos de isolamento não morrem com facilidade."

"Não se pode realmente culpá-los", retrucou o sr. Watanabe. "Sua nação passou por horríveis sofrimentos durante o Grande Caos. Todo o capital estrangeiro sumiu da noite para o dia e sua economia entrou imediatamente em colapso."

"Conseguimos recrutar alguns africanos negros, talvez uns cem ao todo, e um punhado de árabes. Mas a maior parte dos colonizadores vem de países que contribuem significativamente para a AEI, o que era mais ou menos de se esperar."

Kenji ficou repentinamente embaraçado. Toda a conversa, desde que os dois chegaram ao restaurante, versava exclusivamente sobre ele e suas atividades. Durante os pratos que se seguiram, Kenji fez perguntas ao pai a respeito de seu trabalho na Robótica Internacional. O sr. Watanabe, que a essa altura era o principal executivo operacional da corporação, sempre se iluminava de orgulho quando falava de "sua" companhia. Tratava-se da maior manufatura de robôs para fábricas e escritórios do mundo inteiro. As vendas anuais da RI, como sempre era chamada, colocava-a entre os cinqüenta principais fabricantes do mundo. "Faço 62 anos no ano que vem", disse o sr. Watanabe, que vários copos de saque haviam tornado mais comunicativo, "e pensava poder me aposentar. Mas Nakamura diz que seria um erro. Diz que a companhia ainda precisa de mim..." Antes que servissem as frutas, Kenji e seu pai estavam novamente discutindo a projetada expedição a Marte. Kenji explicou que Nai e a maioria dos outros colonizadores asiáticos que viajariam na Pinta ou na Nina já se encontravam no centro de treinamento japonês no sul de Kiushu. Ele iria juntar-se a sua mulher tão logo deixasse Kioto, e após mais dez dias de treinamento, eles e os outros passageiros da Pinta seriam transportados para uma estação espacial OTB (Orbita Terrena Baixa), onde teriam uma semana de treino de imponderabilidade. A última etapa de sua viagem junto à Terra seria um passeio a bordo de um rebocador espacial, de OTB até a estação espacial geossincrônica em GTB-4, onde no momento a Pinta estava sendo montada enquanto era submetida aos últimos testes e também sendo equipada para a longa viagem até Marte. A garçonete mais moça trouxe-lhes dois copos de conhaque. "Aquela sua mulher é realmente uma criatura magnífica", disse o sr. Watanabe, tomando um golezinho do licor. "Sempre julguei que as mulheres tai fossem as mais bonitas do mundo."

"Ela também é bonita por dentro", acrescentou logo Kenji, sentindo falta repentinamente de sua nova esposa. "E também é muito inteligente."

"Seu inglês é excelente", comentou o pai, "mas sua mãe diz que o japonês dela é horrível." Kenji encrespou-se. "Nai tentou falar japonês — que, aliás, ela jamais estudou — porque mamãe se recusou a falar em inglês. Foi tudo feito deliberadamente para fazer Nai sentir-se pouco à vontade..."

Kenji controlou-se. Seus comentários em defesa de Nai não eram adequados à ocasião. "Gomen nasai", disse ele ao pai.

O sr. Watanabe tomou um bom gole de seu conhaque. "Bem, Kenji, esta será a última vez que ficamos juntos sozinhos por pelo menos cinco anos. Apreciei muitíssimo nosso jantar e nossa conversa." Fez uma pausa. "Há, porém, mais um item que gostaria de discutir com você."

Kenji mudou de posição (não estava mais acostumado a ficar sentado no chão de pernas cruzadas por períodos de quatro horas) e esticou bem o corpo, tentando ficar com a mente clara. O tom usado pelo pai já lhe dizia que aquele "mais um item" era sério.

"Meu interesse nos criminosos em sua Colônia Lowell não vem apenas de mera curiosidade", começou o sr. Watanabe, mas parou um pouco para organizar seus pensamentos antes de continuar. "Nakamura-san veio ao meu escritório no final da semana passada, no fim do expediente, e disse-me que a segunda candidatura de seu filho para a Colônia Lowell também fora recusada. Perguntou-me se eu podia pedir a você para dar uma olhada no assunto." O assunto atingiu Kenji como um raio. Jamais fora informado de que seu rival de infância tivesse se candidatado à Colônia Lowell, e agora lá estava seu pai... "Não estive envolvido no processo de seleção de candidaturas de condenados", respondeu Kenji lentamente. "Essa é uma divisão completamente diferente do projeto." O sr. Watanabe não disse nada por alguns segundos. "Nossos contatos nos informam", continuou, depois de terminar seu conhaque, "que a única oposição à candidatura vem de um psiquiatra, um sr. Ridgemore, da Nova Zelândia, que considera, apesar da excelente ficha de Toshio durante seu período de detenção, que o filho de Nakamura continua a achar que não fez nada de errado... Eu creio que você foi pessoalmente responsável pelo recrutamento do dr. Ridgemore para a equipe da Colônia Lowell."

Kenji ficou estarrecido. Seu pai não estava fazendo um pedidozinho qualquer. Ele fizera pesquisas exaustivas sobre todo o quadro. Mas por quê?, perguntava-se Kenji. Por que razão está ele tão interessado?

"Nakamura-san é um engenheiro brilhante", disse o sr. Watanabe. "É pessoalmente responsável por muitos dos produtos que nos colocaram como líderes em nossa área. Porém, seu laboratório não tem sido muito inovador ultimamente. De fato, sua produtividade começou a cair mais ou menos ao tempo da prisão e condenação de seu filho." O sr. Watanabe inclinou-se na direção de Kenji, apoiando os cotovelos na mesa. "Nakamura-san perdeu a confiança em si mesmo. Ele e a mulher têm de visitar Toshio naquele apartamento de detenção uma vez por mês, um permanente lembrete de como a família Nakamura caiu em desgraça. Se o filho pudesse ir para Marte, talvez..." Kenji compreendeu muito bem o que lhe pedia seu pai. Emoções de há muito reprimidas ameaçavam entrar em erupção. Kenji ficou zangado e confuso. Estava a ponto de dizer a seu pai que tal pedido era "impróprio" quando o velho Watanabe tornou a falar. "Tudo tem sido igualmente duro para Keiko e a menininha. Aiko está com quase sete anos. Um fim de semana sim, um não, elas disciplinadamente tomam o trem para Ashiya..." Por mais que tentasse, Kenji não pôde evitar que lhe viessem lágrimas aos olhos. A imagem de Keiko, alquebrada e deprimida, levando a filha até a área restrita a cada duas semanas para visitar o pai, foi mais do que pôde suportar.

"Falei pessoalmente com Keiko na semana passada", acrescentou o pai, "a pedido de Nakamura. Estava muito deprimida, mas pareceu ficar um pouco mais animada quando disse que ia pedir-lhe que intercedesse por seu marido."

Kenji respirou fundo e olhou para o rosto inexpressivo do pai. Já sabia o que iria fazer, mesmo sabendo que era realmente "impróprio" — não errado, só impróprio. Mas não valia a pena torturar-se por uma decisão que já vinha implícita no pedido. Kenji terminou seu conhaque. "Diga a Nakamura-san que procurarei o dr. Ridgemore amanhã", disse ele.

 

E se minha intuição estiver errada? Então terei desperdiçado uma hora, no máximo noventa minutos, pensou Kenji ao desculpar-se na reunião familiar com sua irmã Fumiko e suas filhas, e correr para a rua. Virou imediatamente no sentido da colina. Faltava mais ou menos uma hora para o sol se pôr. Ela vai estar lá, disse ele para si mesmo. Esta será minha única oportunidade de me despedir.

Kenji dirigiu-se primeiro ao pequeno templo Anraku-Ji. Entrou no hondo esperando encontrar Keiko em seu lugar favorito, em frente ao altar lateral de madeira que homenageava duas freiras budistas do século XII, anteriormente integrantes do harém da corte, que haviam se suicidado quando o Imperador GoToba lhes ordenou que repudiassem os ensinamentos do Santo Honen. Keiko não estava lá. Nem do lado de fora, onde as duas mulheres estavam enterradas, nos limites da floresta de bambus. Kenji começou a pensar que se enganara. Keiko não estava lá, talvez estivesse muito envergonhada. Sua única outra esperança era a de que Keiko estivesse esperando por ele no cemitério ao lado de Honen-In, onde dezessete anos antes ele lhe dissera que ia embora do Japão. O coração de Kenji deu um salto quando tomou o caminho que levava ao templo. Ao longe, à direita, ele vislumbrou uma figura de mulher. Ela usava um vestido preto simples e estava de pé ao lado do túmulo de Junichiro Tanizaki.

Embora ela estivesse virada para o lado oposto e ele não tivesse visão muito clara no crepúsculo, Kenji ficou certo de que a mulher era Keiko. Ele correu pelos degraus do cemitério e finalmente parou a uns cinco metros da mulher de preto. "Keiko", disse ele, recuperando o fôlego, "fico tão contente..."

"Watanabe-san", disse formalmente a figura, virando-se, de cabeça baixa e os olhos no chão. Ela curvou-se profundamente, como se fosse uma empregada. "Domo arrigato gozaimasu", repetiu ela duas vezes. Finalmente levantou-se, mas continuou a não olhar para Kenji. "Keiko", disse ele suavemente. "É só o Kenji. Estou sozinho. Por favor, olhe para mim."

"Não posso", respondeu ela com voz quase inaudível. "Mas posso agradecer pelo que fez por Aiko e por mim." Curvou-se novamente. "Domo arrigato gozaimasu."

Kenji curvou-se impulsivamente e pôs a mãos sob o queixo de Keiko, levantando delicadamente seu rosto até poder ver-lhe a face. Keiko ainda era bonita, mas Kenji ficou chocado ao ver tamanha tristeza permanentemente esculpida naquelas feições delicadas.

"Keiko", murmurou ele, e as lágrimas da moça cortaram-lhe o coração como pequenas facas. "Tenho de ir", disse ela. "Eu lhe desejo felicidades." Afastou-se do toque dele e tornou a curvar-se. Depois ergueu-se e, sem olhar para ele, desceu lentamente o caminho para as sombras do crepúsculo.

Os olhos de Kenji seguiram-na até que desaparecesse na distância. Foi só então que se deu conta de que tinha estado encostado na lápide de Tanizaki. Ele ficou olhando por vários segundos para os dois caracteres Kanji, Ku e Jaku, na pedra cinza. Um dizia "Vazio"; o outro, "Solidão".