O Jardim de Rama

Arthur C. Clarke e Gentry Lee · Capítulo 25 de 45 · parte 1/3

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O Jardim de Rama

Capítulo 7

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

"Vocês vão ver o vídeo agora a fim de terem três semanas para se prepararem para o encontro. Um plano básico com seus procedimentos concomitantes para o encontro, elaborado em grande detalhe pela AII em conjunto com o pessoal de operações de AEI, já foi transmitido ao comandante MacMillan pelo fluxo de dados de alta velocidade, e cada um de vocês terá um conjunto específico de tarefas. Cada um de vocês terá um pacote de documentos personalizado que os equipará com as informações gerais necessárias para o desempenho de seus deveres.

"É claro que lhes desejamos que tudo corra bem. É mais provável que essa história de Rama não seja nada, e nesse caso terá havido apenas um pequeno atraso na otimização do início dos trabalhos da Colônia Lowell. Se, no entanto, esse vídeo for uma questão séria, então terão de andar depressa para desenvolver planos cuidadosos para acomodar a chegada da Nina e da Santa Maria — nenhum dos colonizadores nessas duas naves terão tido qualquer informação a respeito de Rama ou da mudança de seu projeto." Houve um silêncio momentâneo no apartamento dos Watanabe quando o vídeo acabou repentinamente e foi substituído na tela por uma mensagem escrita dizendo: PRÓXIMO VÍDEO EM DOIS MINUTOS. "Raios me partam", foi o único comentário de Max.

 

7

 

No vídeo, Nicole estava sentada em uma cadeira marrom comum, com uma parede lisa ao fundo. Estava vestida com o uniforme de vôo da AEI que fora o traje normal durante a missão Newton. Nicole leu a mensagem de um note book eletrônico que trazia nas mãos. "Meus co-irmãos terráqueos", começou, "sou a cosmonauta da Newton Nicole des Jardins, falando a vocês de bilhões de quilômetros de distância. Estou a bordo de uma espaçonave Rama semelhante às duas grandes espaçonaves cilíndricas que visitaram nosso sistema solar nos últimos dois séculos. Este terceiro veículo Rama também se dirige a nosso pequeno canto na galáxia. Aproximadamente quatro anos depois de vocês receberem este vídeo, Rama III entrará em órbita em torno do planeta Marte.

"Desde que deixei a Terra, descobri que os veículos da classe Rama eram construídos por uma avançada inteligência extraterrestre como elementos de um vasto sistema de coleta de informações, cujo objetivo último é a aquisição e catalogação de dados sobre a vida no universo. É como parte desse objetivo que esta terceira espaçonave Rama está retornando à vizinhança de nosso planeta natal.

"Dentro de Rama III, um habitat com características terrenas foi concebido para acomodar dois mil seres humanos, além de um número significativo de animais e plantas de nosso planeta de origem. A biomassa precisa e outras especificações para tais animais e plantas estão contidas no primeiro apêndice a este vídeo; no entanto, deve ser salientado que as plantas, em particular as extremamente eficientes na conversão de dióxido de carbono 'em oxigênio, são aspectos básicos no desenho fundamental do habitat terreno a bordo de Rama. Sem as plantas, a vida dos humanos a bordo de Rama ficaria seriamente comprometida.

"O que se espera, como resultado desta transmissão, é que a Terra envie um grupo representativo de seus habitantes — junto com os suprimentos de apoio detalhados no segundo apêndice — para se encontrar com Rama III na órbita de Marte. Os viajantes serão transferidos para dentro de Rama e cuidadosamente observados enquanto vivem em um habitat que reproduz todas as condições ambientais da Terra.

"Em função da resposta hostil a Rama II que, aliás, resultou em danos pequeníssimos à espaçonave alienígena, o plano tal como foi enunciado para esta missão Rama não implica qualquer aproximação da Terra maior do que a órbita de Marte. Tal plano pressupõe, é claro, que as autoridades na Terra concordarão com os pedidos contidos nesta transmissão. Se nenhum ser humano for enviado para o encontro com Rama III na órbita de Marte, não tenho conhecimento de como a espaçonave foi programada para reagir. Posso afirmar, no entanto, baseada em minhas próprias observações, que fica facilmente dentro da capacidade da inteligência extraterrestre adquirir seus dados de observação desejados por outros métodos, menos benignos.

"No que diz respeito aos seres humanos a serem transportados para Marte, é desnecessário dizer que os indivíduos selecionados devem representar um generoso corte transverso da humanidade, incluindo ambos os sexos, todas as idades, e tantas culturas quantas possam ser razoavelmente incluídas. A grande biblioteca de informações sobre a Terra que é pedida no terceiro apêndice do vídeo fornecerá dados adicionais significativos a serem correlacionados com os colhidos dentro de Rama.

"Eu pessoalmente não tenho conhecimento quanto ao período que os humanos deverão passar dentro de Rama, ou exatamente aonde a espaçonave os levará, ou sequer por que a inteligência superior que criou Rama está coletando informações a respeito da vida no universo. Posso dizer, no entanto, que as maravilhas que já testemunhei desde que deixei o sistema solar deram-me um sentido completamente novo de nosso lugar no universo."

 

A duração total do vídeo, metade da qual era dedicada aos apêndices detalhados, era de pouco mais de dez minutos. Ao longo da transmissão, a imagem básica não mudou. A fala de Nicole foi pausada e deliberada, pontuada por pequenas pausas quando seus olhos moviam-se entre a câmera e o caderno eletrônico em suas mãos. Embora houvesse certa modulação em seu tom, a expressão facial de seriedade de Nicole foi virtualmente constante. Só quando deu a entender que os ramaianos poderiam ter "outros métodos, menos benignos" para obter os dados que desejavam é que alguma emoção forte passou por seus olhos. Kenji Watanabe olhou a primeira parte do vídeo com intensa concentração. Durante os apêndices, no entanto, sua mente começou a divagar e a propor várias perguntas. Quem são esses extraterrestres?, ficou ele imaginando. De onde vieram? Por que desejam observar-nos? E por que escolheram Nicole des Jardins para ser sua porta-voz? Kenji começou a rir consigo mesmo, ao se dar conta de que haveria uma corrente sem fim de perguntas. Resolveu então focalizar questões mais tratáveis.

Se Nicole ainda estivesse viva hoje, pensou Kenji a seguir, então estaria com 81 anos. A mulher na televisão tinha fios brancos e seu rosto muito mais rugas do que tivera a cosmonauta des Jardins quando a Newton fora lançada da Terra, porém sua idade na tela não chegava nem perto dos oitenta. Talvez uns 52 ou 53, no máximo, refletiu Kenji.

Será então que ela fez esse vídeo há trinta anos? Ou será que o processo de envelhecimento foi de algum modo retardado? Não lhe ocorreu de todo questionar se quem falava seria Nicole ou não, pois Kenji passara tempo suficiente com os arquivos da Newton para reconhecer imediatamente as expressões faciais e os maneirismos da astronauta. Ela deve ter feito o vídeo há quatro anos mais ou menos, pensou Kenji, mas se assim for... Ele continuava a se debater com toda a situação quando a transmissão de Nicole terminou e o diretor da AEI tornou a aparecer no monitor.

O dr. Koch explicou rapidamente que o vídeo seria integralmente repetido duas vezes em todos os canais, e depois ficaria à disposição de todos os passageiros e da tripulação, segundo a conveniência de cada um.

"Que raios está acontecendo mesmo por aqui?", quis Max Puckett saber tão logo o rosto de Nicole tornou a aparecer no vídeo. Sua indagação era dirigida a Kenji. "Se compreendi corretamente", respondeu Kenji depois de ainda olhar para a imagem na tela por alguns segundos, "nós fomos propositadamente enganados pela AEI quanto a um dos objetivos primários de nosso empreendimento. Ao que parece, essa mensagem foi recebida há quatro anos, quando o financiamento da Colônia Lowell ainda estava incerto, e foi resolvido então — depois de todas as tentativas possíveis de se provar que o vídeo era falso ou que se tratava de alguma grande brincadeira de mau gosto terem fracassado — que a investigação de Rama seria um objetivo secreto de nosso projeto."

"Merda", disse Max Puckett, sacudindo violentamente a cabeça. "E por que raios eles simplesmente não nos contaram a verdade?"

"A minha mente empaca diante da idéia de supercriaturas enviarem toda essa tecnologia só para coletar dados a nosso respeito", comentou o juiz Mishkin, depois de um breve silêncio. "Em outro nível, no entanto, pelo menos agora posso compreender algumas peculiaridades no processo de seleção de pessoal. Fiquei boquiaberto quando um grupo de adolescentes americanos sem teto foi acrescido à colônia há uns oito meses. Agora percebo que os critérios de seleção se basearam no intuito de satisfazer o pedido de 'um generoso corte transverso da humanidade' de Madame des Jardins; a possibilidade ou não de nossa mistura específica de indivíduos e capacitações vir a produzir uma colônia sociologicamente viável em Marte sempre deve ter sido uma consideração secundária."

"Eu odeio mentiras e mentirosos", disse Max, que se levantara da cadeira e andava pela sala. "Todos esses políticos e administradores do governo são iguais — os filhos da mãe mentem sem a menor dor na consciência."

"Mas o que eles poderiam ter feito, Max?", retrucou o juiz Mishkin. "Quase que certamente eles realmente não levaram o vídeo a sério. Pelo menos até a nova nave ter aparecido na órbita de Marte. E se nos tivessem contado a verdade desde o início, teria havido uma onda mundial de pânico."

"Olhe aqui, juiz, eu fui contratado para ser uma porra de um pecuarista em uma colônia em Marte. Não sabia de nada a respeito de ETs e, para falar a verdade, quero continuar a não saber. Para mim já é suficientemente difícil lidar com galinhas, porcos e gente."

"Particularmente com gente", disse logo o juiz Mishkin, sorrindo para seu amigo. Mesmo a contragosto, Max também riu.

Alguns minutos mais tarde, o juiz Mishkin e Max despediram-se e deixaram Kenji e Nai sozinhos. Pouco depois de seus convidados saírem, o videofone tocou no apartamento do casal. "Watanabe?", ouviram dizer o comandante MacMillan. "Sim, senhor", respondeu Kenji.

"Desculpe incomodá-lo, Watanabe", disse o comandante, "mas você recebeu a primeira incumbência fora da minha equipe imediata. Suas ordens são as de informar toda a tripulação da Pinta a respeito da expedição Newton, dos Ramas e da cosmonauta des Jardins às 19:00h de hoje. Julguei que quisesse começar a preparar-se."

 

"... Toda a mídia informou que em 2200 Rama II foi completamente destruída, vaporizada pelas múltiplas bombas atômicas que explodiram em sua vizinhança. Os cosmonautas desaparecidos, des Jardins, O'Toole, Takagishi e Wakefield foram naturalmente dados como mortos. Com efeito, segundo tanto os documentos oficiais da missão Newton quanto os livros e séries televisivas de grande sucesso distribuídos por Hagenest e Schmidt, Nicole des Jardins presumivelmente morreu em algum ponto de Nova York, a cidade-ilha no centro do Mar Cilíndrico, semanas antes da nave científica da Newton jamais deixar Rama para retornar à Terra."

Kenji parou a fim de olhar para a platéia. Muito embora o comandante MacMillan tivesse explicado aos passageiros e à tripulação da Pinta que um videoteipe da apresentação de Kenji lhes ficaria acessível logo a seguir, muitos dos ouvintes estavam tomando notas. Kenji estava gozando seu momento de evidência. Deu um olhar para Nai, e sorriu antes de continuar. "A cosmonauta Francesca Sabatini, a mais famosa sobrevivente da malfadada expedição Newton, sugeriu em suas memórias que a dra. des Jardins pudesse ter encontrado um bioma hostil, ou talvez caído em alguma das regiões de blackout de Nova York. Já que as duas mulheres haviam passado a maior parte do dia juntas — estavam procurando o cientista japonês Shigeru Takagishi, que desaparecera misteriosamente do acampamento B na noite anterior —, a Signora Sabatini tinha plena consciência da quantidade de comida e água que a cosmonauta des Jardins carregara. 'Mesmo com seu supremo conhecimento do corpo humano', escreveu Sabatini, 'Nicole não teria qualquer possibilidade de sobreviver mais de uma semana. E se, em estado de delírio, ela tentasse obter água do gelo do venenoso Mar Cilíndrico, teria morrido ainda mais cedo.'

"Da meia dúzia de cosmonautas da Newton que não voltaram do encontro com Rama II, foi Nicole des Jardins quem sempre atraiu maior interesse. Mesmo antes de o brilhante estatístico Roberto Lopez haver conjecturado, há sete anos, com base em informações de genomas guardadas em Haia, que o finado rei Henrique IX da Inglaterra fosse pai da filha de Nicole, Geneviève, a reputação da dra. des Jardins já se tornara legendária. Recentemente, a freqüência a seu memorial, construído perto da villa da família em Beauvois, na França, tem tido aumento marcante, em particular por parte de jovens do sexo feminino. Muita gente acorre, não só para prestar suas homenagens à cosmonauta des Jardins e ver os muitos vídeos e fotografias que comemoram sua vida notável, como também para ver as duas soberbas estátuas em bronze criadas pelo escultor grego Theo Papas. Em uma delas, a jovem Nicole é retratada com calção e camiseta, e a medalha de ouro das Olimpíadas pendurada no pescoço; na segunda, ela é vista como uma mulher madura, usando o uniforme de vôo da AEI semelhante ao que acabaram de ver no vídeo."

Kenji apontou para o fundo da sala do pequeno auditório da Pinta e as luzes se apagaram. Momentos depois, uma série de diapositivos começou a ser apresentada em uma das duas telas que havia atrás dele. "Estas são algumas das fotos de Nicole des Jardins guardadas em nossos arquivos na Pinta. A numeração indica que muitas fotos mais, inclusive clips de filmes históricos, poderão ser encontrados na biblioteca de reserva condicionada em nossos porões de carga, porém tais dados não nos são acessíveis durante a viagem, em função das limitações das instalações de dados para o vôo. Tais dados extras não são necessários, no entanto, pois fica claro, graças ao material aqui apresentado, que a pessoa que apareceu na transmissão de hoje à tarde ou é Nicole des Jardins ou uma cópia absolutamente perfeita dela." Um close tirado do vídeo da tarde congelou-se na tela esquerda, justapondo-se a ele uma foto da cabeça de Nicole na noite da festa de Ano-Novo que teve lugar na Villa Adriani, nos arredores de Roma. Não havia dúvida. As duas fotos eram definitivamente da mesma mulher. Um murmúrio de aplauso elevou-se da platéia quando Kenji fez uma pausa em sua apresentação.

"Nicole des Jardins nasceu a 6 de janeiro de 2164", continuou Kenji, em tom controlado. "Portanto, se o vídeo que vimos esta tarde foi efetivamente gravado há quatro anos, ela teria 77 anos na época. Todos nós sabemos que a dra. des Jardins estava em soberba forma física e que se exercitava regularmente, mas se a mulher que vimos hoje à tarde no vídeo tivesse 77 anos, então os ETs que construíram Rama devem ter descoberto, também, o elixir da juventude."

 

Muito embora já fosse tarde da noite e Kenji estivesse muito cansado, não conseguia dormir. Os acontecimentos do dia impunham-se à sua mente e o deixavam excitado. Junto dele, na pequena cama de casal, Nai Buatong Watanabe tinha plena consciência de que o marido estava acordado.

"Você tem certeza absoluta de que o que vimos foi a verdadeira Nicole des Jardins, não tem, querido?", disse Nai depois de Kenji se virar na cama pela enésima vez. "Tenho. Mas MacMillan não tem. Exigiu que fizesse aquela declaração a respeito da cópia perfeita. Ele acha que tudo no vídeo é falso..."

"Depois de nossa discussão esta tarde", continuou Nai, após uma pausa, "lembrei-me muito bem do barulho em torno da história de Nicole e o rei Henry há sete anos. Apareceu na maioria das revistas que tratam de personalidades. Mas esqueci de um detalhe. Como foi que estabeleceram com certeza que Henry era o pai de Geneviève? O rei já não estava morto? E a família real inglesa não mantém suas informações sobre genomas privadas e secretas?"

"Lopez usou os genomas pertencentes a pais e parentes de pessoas que se casaram com membros da família real. Depois, usando uma técnica de correlação de dados inventada por ele mesmo, o dr. Lopez mostrou que Henry, que ainda era príncipe de Gales durante os Jogos Olímpicos de 2184, tinha três vezes mais probabilidades do que qualquer outra pessoa presente em Los Angeles para ser o pai do bebê de Nicole. Depois que Darren Higgins admitiu, em seu leito de morte, que Henry e Nicole passaram uma noite juntos durante as Olimpíadas, a família real permitiu que um especialista em genética tivesse acesso a seu banco de dados de genomas. O especialista concluiu, sem qualquer dúvida, que Henry era o pai de Geneviève."

"Que mulher espantosa", disse Nai.

"E era, mesmo", respondeu Kenji. "Mas o que a levou a fazer esse comentário agora?"

"Como mulher", disse Nai, "eu admiro o modo pelo qual protegeu seu segredo e criou sozinha sua princesa tanto ou mais do que qualquer de seus outros feitos."

 

8

 

Eponine localizou Kimberly em um canto da sala enfumaçada e sentou-se a seu lado. Aceitou o cigarro que a amiga lhe ofereceu, acendeu-o deu uma profunda tragada. "Ai, como é bom", disse Eponine suavemente soltando a fumaça em pequenas argolas e olhando enquanto subiam lentamente na direção dos exaustores. "Por mais que você goste de tabaco e nicotina", sussurrou-lhe Kimberly, "sei que ia absolutamente adorar kokomo". A moça americana deu uma tragada em seu cigarro. "Sei que não vai acreditar, Eponine, mas é de verdade melhor do que sexo."

"Não para mim, mon amie", respondeu Eponine em tom caloroso e amigável. "Já tenho vícios o bastante. E nunca, jamais, poderia controlar alguma coisa que fosse melhor do que sexo." Kimberly Henderson deu uma gostosa gargalhada, sacudindo seu grande cacheado louro que chegava até os ombros. Tinha 24 anos, era mais moça do que sua colega francesa. As duas estavam sentadas fumando na sala para fumantes ao lado dos chuveiros femininos. Era uma salinha mínima, quadrada, com não mais de quatro metros em cada parede, na qual no momento cerca de uma dúzia de mulheres fumavam, de pé ou sentadas. "Este lugar me lembra a sala dos fundos do bar de Willie em Evergreen, nos arredores de Denver", disse Kimberly. "Enquanto uns cem caubóis e bóiasfrias ficavam dançando e bebendo no bar principal, oito ou dez de nós nos juntávamos no sagrado 'escritório' de Willie, que é como ele o chamava, e nos fodíamos completamente com kokomo." Eponine olhou para Kimberly através da fumaça azulada. "Pelo menos aqui não há homens para nos chatear. Estes são terríveis, piores do que os caras na aldeia de detenção em Bourges. Esses caras aí acho que não pensam em nada a não ser sexo o dia inteiro."

"É fácil saber por quê", respondeu Kimberly, rindo novamente. "É a primeira vez em não sei quantos anos que não são observados dia e noite sem parar. Quando os homens de Toshio sabotaram todos os monitores ocultos, de repente todo mundo ficou livre." Lançou um olhar a Eponine. "Mas a coisa tem um lado mau, também. Houve mais dois estupros hoje, um bem na área de recreação para os dois sexos."

Kimberly acabou seu cigarro e acendeu outro imediatamente. "Você precisa de alguém que a proteja, e eu sei que Walter ia adorar o emprego. Por causa de Toshio, os presos na maioria já desistiram de cismar comigo. Minha maior preocupação agora são os guardas da AEI — eles pensam que são merda importante. Só aquele italiano lindo e parrudo, Marcello não sei das quantas, é que me interessa. Ontem ele me disse que me faria 'gemer de prazer' se fosse me juntar a ele no quarto. Fiquei tentadíssima, até ver um dos capangas do Toshio nos olhando." Eponine também acendeu outro cigarro. Sabia que era ridículo fumar um depois do outro, mas os passageiros da Santa Maria só tinham três "paradas" de meia hora por dia, e era proibido fumar nas superpopulosas áreas de estar. Enquanto Kimberly foi momentaneamente distraída por uma pergunta feita por uma mulher fortona de cerca de quarenta anos, Eponine rememorou os primeiros dias desde que deixara a Terra. Em nosso terceiro dia fora, lembrou ela, Nakamura mandou um mediador me procurar. Eu devo ter sido sua primeira escolha. O imenso japonês, lutador de sumô antes de se tornar cobrador de uma famosa cadeia de jogo, curvara-se formalmente ao aproximar-se dela na sala m/f. "Srta. Eponine", dissera ele em inglês, com muito sotaque, "o meu amigo Nakamura-san pediu-me que lhe dissesse que a acha muito bonita. Ele lhe oferece proteção total em troca de sua amizade e um ocasional momento de prazer".

A oferta tinha seus atrativos, rememorou Eponine, e não difere muito do que a maioria das mulheres de aspecto razoável na Santa Maria acabou por aceitar. Eu já sabia que Nakamura era muito poderoso. Mas não gostei da frieza. E cometi o erro de pensar que poderia permanecer livre.

"Está pronta?" repetiu Kimberly, e Eponine acordou repentinamente de seu devaneio. Apagando o cigarro, dirigiu-se com a amiga para o vestiário. Enquanto se despiam e se preparavam para o chuveiro, pelo menos uma dúzia de olhos banqueteavam-se com seus magníficos corpos.

"Não te chateia", perguntou Eponine quando estavam já lado a lado no chuveiro, "que essas sapatonas fiquem te devorando com os olhos?"

"Neca", respondeu Kimberly. "De certo modo, eu curto. Não deixa de ser elogioso. Não há muitas mulheres por aqui com o nosso aspecto. Até me excita ver a fome com que elas me olham."

Eponine lavou a espuma de sabão de seus seios rijos e fartos, e inclinouse para Kimberly. "Então já fez sexo com outra mulher?"

"É claro", respondeu Kimberly com seu riso grave. "Você, não?" Sem esperar pela resposta, a americana começou com uma de suas histórias.

'Minha primeira fonte de drogas em Denver era sapatão. Eu só tinha dezoito anos e era absolutamente perfeita, da cabeça aos pés. Quando Loretta me viu nua pela primeira vez, pensou que morrera e fora para o céu. Eu acabava de entrar para a escola de enfermagem, de modo que não tinha muito dinheiro para drogas, e por isso fiz um trato com Loretta. Ela podia trepar comigo, mas só se me fornecesse cocaína regularmente. Nosso caso durou uns seis meses. A essa altura eu mesma já estava traficando e, além disso, tinha me apaixonado pelo Mágico."

"Pobre Loretta", continuou Kimberly, enquanto ela e Eponine enxugavam as costas uma da outra no lavatório junto aos chuveiros. "Ela ficou arrasada. Me ofereceu tudo o que você possa imaginar, até mesmo sua lista de clientes. Ela acabou sendo um estorvo, de modo que eu tirei a clientela dela e fiz o Mágico correr com ela de Denver." Kimberly percebeu um fugidio olhar de desaprovação no rosto de Eponine. "Cristo, lá vem você de novo dando uma de moralista em cima de mim. Você é a assassina mais banana que eu conheço. Às vezes, você me faz lembrar todas as santinhas de minhas colegas de secundário." Quando estavam a ponto de sair da área dos chuveiros, uma menininha preta de cabelos trançadinhos aproximou-se por trás delas. "Você é Kimberly Henderson?", perguntou. "Sou", confirmou Kimberly, virando-se. "Mas por que..."

"O seu homem é o rei Jap Nakamura?", interrompeu a moça. Kimberly não respondeu. "Se for, preciso da sua ajuda", continuou a pretinha. "O que é que você quer?", perguntou Kimberly, sem interesse. A moça repentinamente caiu em prantos. "O meu homem Reuben não queria dizer nada. Estava bêbado com aquela merda que os guardas vendem. Ele não sabia que estava falando com o rei Jap."

Kimberly esperou a moça enxugar as lágrimas: "O que é que você tem?", sussurrou ela, enfim. "Três facas e duas doses de dinamite kokomo", respondeu a moça preta também sussurrando. "Traga tudo para mim", disse Kimberly com um sorriso. "E eu arranjo uma hora para Reuben se desculpar com o sr. Nakamura."

 

"Você não gosta da Kimberly, não é?", disse Eponine a Walter Brackeen. Ele era um robusto negro americano de olhos suaves e dedos absolutamente mágicos em um teclado. Estava tocando um medley de jazz leve e olhando para sua linda dama enquanto seus três colegas de quarto tinham ido, de comum acordo, para a área de recreação. "Não, não gosto", respondeu Walter lentamente. "Ela não é como nós. Pode ser muito engraçada, mas no fundo é realmente má."

"O que é que você quer dizer?"

Walter mudou para uma balada suave, com melodia mais fácil, e tocou durante quase um minuto antes de falar. "Acho que aos olhos da lei nós somos todos iguais, todos assassinos. Mas não aos meus olhos. Eu acabei com a vida de um homem que sodomizou meu irmão menor. Você matou um filho da mãe doido que estava acabando com a sua vida." Walter parou por um momento e virou os olhos. "Mas aquela sua amiga, a Kimberly, ela e o namorado liquidaram três pessoas que nem sequer conheciam, só pelo dinheiro e as drogas."

"Ela estava doidona na hora."

"Não importa. Todos nós somos responsáveis por nosso comportamento. Se eu me encho de uma merda que me torna abominável, o erro é meu. Mas não posso tirar o corpo fora de minhas responsabilidades."

"A ficha dela no centro de detenção foi perfeita. Todos os médicos que trabalharam com ela disseram que é uma excelente enfermeira."

Walter parou de tocar seu teclado e olhou para Eponine por vários segundos. "Não vamos falar mais de Kimberly. O tempo que temos para ficarmos juntos já é tão pouco... Você pensou na minha proposta?"

Eponine suspirou. "Pensei, Walter. E embora eu goste de você e ache fazer amor com você ótimo, o arranjo que você sugeriu parece demais com um compromisso... Além do mais, acho que a idéia só agrada a seu ego. A não ser que meu palpite esteja errado, você prefere Malcolm..."

"Malcolm não tem nada a ver conosco", interrompeu Walter. "Há anos que é meu grande amigo, desde os meus primeiros tempos no centro de detenção da Geórgia. Nós tocamos música juntos. Compartilhamos sexo quando estamos ambos muito solitários. Somos irmãos de alma..."

"Eu sei, eu sei... Malcolm não é a questão principal; é antes o princípio da coisa que me incomoda. Eu gosto de você, Walter, você sabe disso. Mas..." A voz dela foi sumindo, enquanto Eponine enfrentava sua luta interior.

"Estamos a três semanas da Terra", disse Walter, "e temos mais seis antes de atingirmos Marte. Eu sou o homem maior da Santa Maria. Se eu disser que você é a minha pequena, ninguém a incomodará durante essas seis semanas."

Eponine relembrou a cena desagradável que acontecera naquela manhã, quando dois condenados alemães conversaram sobre o quanto era fácil estuprar alguém do alojamento dos condenados. Eles sabiam que ela podia ouvi-los e não fizeram o menor esforço para abaixar a voz.

Finalmente, ela se aconchegou dentro dos imensos braços de Walter. "Está bem", disse. "Mas não espere muita coisa... Eu sou uma mulher assim meio difícil."

 

"Acho que Walter talvez tenha um problema cardíaco", sussurrou Eponine. Era tarde da noite e as duas outras companheiras de quarto estavam dormindo. Kimberly, no beliche embaixo do de Eponine, continuava chumbada com o kokomo que fumara havia duas horas. Não conseguiria dormir ainda por várias horas.

"Os regulamentos desta nave são uma porra de uma estupidez. Cruzes, até o Complexo de Detenção de Pueblo tinha menos regulamentos. Por que raios não podemos ficar nas áreas comuns depois da meia-noite? Que mal estamos fazendo?"

"Volta e meia, ele tem umas dores no peito, e quando fazemos sexo com muito vigor, muitas vezes ele se queixa depois de falta de ar... Será que você podia dar uma espiada nele?"

"E que tal aquele Marcello? Hein? Mas que cretino mais estúpido! Dizendo que posso ficar acordada a noite inteira se quiser ir ao quarto dele. Na hora em que estou sentada com Toshio. O que é que ele acha que está fazendo? Ora, nem os guardas têm direito de brincar com o rei Jap... O que foi que você disse, Eponine?"

Eponine levantou o torso, apoiou-se em um cotovelo e inclinou-se para fora de seu beliche. "Walter Brackeen, Kim; estou falando de Walter Brackeen. Será que você pode dar um tempo e ouvir o que eu estou dizendo?"

"Tudo bem, tudo bem. O que é que há com Walter? O que é que ele quer? Todo mundo quer alguma coisa do rei Jap. Acho que isso me faz rainha, de algum modo..."

"Acho que Walter tem um coração meio pifado", disse a exasperada Eponine em voz mais alta. "E gostaria que você desse uma olhada nele."

"Sh..." respondeu Kimberly. "Eles vêm nos pegar, como fizeram com aquela louca sueca... Merda, Ep, eu não sou médica. Eu reconheço quando a batida de um coração está irregular, mas é só... Você devia levar Walter àquele médico também preso, que é um cardiologista de verdade, como é o nome dele, aquele superquieto que fica sozinho sempre que não está examinando alguém..."

"Dr. Robert Turner", cortou Eponine.

"Isso mesmo... muito profissional, isolado, distante, só sabe falar mediquês, é difícil acreditar que ele estourou os miolos de dois homens, com uma escopeta, em um tribunal... não faz sentido." "E como é que você sabe disso?"

"Marcello me contou. Eu estava curiosa, nós estávamos rindo, ele estava me provocando, dizendo coisas como "aquele japonês te faz gemer?" e "e aquele quietinho, será que ele te faz gemer?..."

"Cruzes, Kim", disse Eponine, agora alarmada: "Você tem ido para a cama com o Marcello também?"

A outra riu. "Só duas vezes. Ele é melhor de papo que de foda. E que ego! O rei Jap pelo menos aprecia o que recebe."

"E Nakamura sabe?"

"Está pensando que eu sou louca? Eu não quero morrer. Mas pode ser que ele desconfie... Não vou fazer mais. Mas se o tal do dr. Turner só sussurrasse um pouquinho no meu ouvido, eu me lambusava toda de creme..."

Kimberly continuou a resmungar sem sentido. Eponine pensou uns momentos no dr. Robert Turner. Ele a examinara pouco depois do lançamento, quando ela aparecera com umas marcas peculiares. Ele sequer notou meu corpo, lembrou-se ela. Foi um exame completamente profissional.

Eponine esqueceu de Kimberly e concentrou-se na imagem do belo doutor. Surpreendeu-se ao perceber que estava sentindo uma pequena fagulha de interesse romântico. Havia qualquer coisa de positivamente misteriosa a respeito do médico, pois não havia nada em seus modos ou personalidade que tivessem a mínima relação com um assassinato duplo. Deve haver uma história interessante ali, pensou.

 

*

 

Eponine estava sonhando. Era o mesmo pesadelo que já tivera centenas de vezes desde o assassinato. O professor Moreau estava caído no chão com os olhos fechados, em seu estúdio, e o sangue corria de seu peito. Eponine caminhava até a pia, limpava a grande faca de cozinha, e a colocava de volta no lugar. Quando passava por cima do cadáver, aqueles olhos odiados se abriam e ela via neles sua delirante insanidade. Ele estendia os braços para ela... "Enfermeira Henderson. Enfermeira Henderson." A batida na porta foi ficando mais alta. Eponine acordou de seu sonho e esfregou os olhos. Kimberly e uma das outras companheiras de quarto chegaram à porta quase ao mesmo tempo. O amigo de Walter, Malcolm Peabody, um homem branco, pequenino, amaneirado, de cerca de quarenta anos, estava na porta, desesperado. "O dr. Turner pediu uma enfermeira. Venha depressa. Walter teve um ataque de coração."

Quando Kimberly começou a se vestir, Eponine deslizou para fora da cama. "Como está ele, Malcolm?", perguntou, enfiando um robe. "Está morto?" Malcolm ficou momentaneamente confuso. "Ah, oi, Eponine", disse ele humildemente, "eu me esquecera que você e a enfermeira Henderson... Quando eu saí ele ainda estava respirando mas..."

Tomando cuidado para manter sempre um pé no chão, Eponine correu pela porta afora, pelo corredor, para a área comum central, depois pelo alojamento dos homens. Vários alarmes soaram à medida que os monitores iam lhe seguindo os passos. Quando chegou na entrada da ala de Walter, Eponine parou um momento para tomar fôlego. Um bando de gente estava parada no corredor, do lado de fora do quarto de Walter. Sua porta estava escancarada e o terço inferior de seu corpo jazia para o lado de fora, já no hall. Eponine abriu à força seu caminho até o quarto. O dr. Robert Turner estava ajoelhado ao lado de seu paciente, segurando os eletrodos junto ao peito de Walter. O corpo do homenzarrão sacudia com cada choque, depois saía um pouco do chão até o médico empurrá-lo de novo para a superfície. O dr. Turner olhou para cima quando Eponine chegou. "Você é a enfermeira?", perguntou ele, bruscamente.

Por uma fração de segundo, Eponine ficou sem fala. E embaraçada. Ali estava o seu namorado morrendo, e a única coisa que ela conseguia pensar era no azul dos olhos quase perfeitos do dr. Turner. "Não", conseguiu dizer finalmente, perturbada. "Sou a namorada... A enfermeira Kimberly é minha companheira de quarto... Ela deve estar chegando."

Kimberly e dois guardas AEI como escolta chegaram naquele momento. "O coração dele parou completamente há quarenta e cinco segundos", disse o médico a Kimberly. "É tarde demais para removê-lo para a enfermaria. Vou abri-lo e tentar usar o estimulador Komori. Trouxe suas luvas?"

Quando Kimberly colocou as luvas, o dr. Turner mandou toda aquela gente se afastar do paciente. Eponine não se mexeu. Quando os guardas a agarraram pelos braços, o dr. Turner resmungou alguma coisa e eles a soltaram.

O dr. Turner entregou a Kimberly seus instrumentos cirúrgicos e, trabalhando com incrível velocidade e habilidade, fez uma incisão profunda no peito de Walter. Abrindo as dobras da pele, expôs o coração. "Já executou esse tipo de procedimento, enfermeira Henderson?"

"Não", respondeu Kimberly.

"O estimulador Komori é um engenho eletroquímico que se adapta ao coração, forçando-o a bater e a continuar a bombear o sangue. Se a patologia for temporária, como um coágulo na veia ou uma válvula espástica, então às vezes o problema se resolve e o coração do paciente começa a funcionar novamente."

O dr. Turner inseriu o estimulador Komori, que tinha o tamanho de um selo, atrás do ventrículo esquerdo do coração e ligou a força no sistema portátil que estava pousado no chão. O coração de Walter começou a bater lentamente dois ou três segundos mais tarde. "Agora temos mais ou menos oito minutos para localizar o problema", disse o médico para si mesmo. Ele completou sua análise dos subsistemas primários do órgão em menos de um minuto. "Nada de coágulos, nem veias ou válvulas defeituosas..." resmungou ele; "então, por que parou de bater?"

O dr. Turner levantou com eficiência o coração latejante e inspecionou os músculos da parte inferior. O tecido muscular do aurículo direito estava descolorido e mole. Ele o tocou muito de leve com um de seus instrumentos pontudos e partes do tecido caíram como flocos.

"Meu Deus", disse o médico "mas o que é isso?" Enquanto o dr. Turner sustentava o coração, o órgão de Walter Brackeen contraiu-se mais uma vez e uma das longas estruturas fibrosas no meio do tecido muscular descolorido começou a se desenrolar. "Mas o que...?" Turner piscou duas vezes e levou a mão direita ao rosto.

"Olhe isto aqui, enfermeira", disse ele, baixo. "É absolutamente espantoso. Os músculos estão completamente atrofiados. Nunca vi nada parecido. Não posso ajudar este homem." Os olhos de Eponine encheram-se de lágrimas quando o dr. Turner retirou o estimulador e o coração de Walter tornou a parar de bater. Kimberly começou a tirar os grampos que prendiam a pele em torno da área, mas o médico a impediu. "Ainda não. Vamos levá-lo para a enfermaria para eu poder fazer uma autópsia completa. Quero aprender tudo o que for possível."

Os guardas e dois dos companheiros de quarto de Walter colocaram-no cuidadosamente na maca e o corpo foi removido do alojamento. Malcolm Peabody soluçava em silêncio no beliche de Walter. Eponine caminhou até ele. Trocaram um abraço silencioso e depois ficaram sentados juntos, de mãos dadas, durante a maior parte da noite.

 

9

 

"O senhor ficará encarregado de tudo aqui enquanto eu estiver lá dentro", disse o comandante MacMülan a seu segundo em comando, um bonito e jovem engenheiro russo chamado Dmitri Ulanov. "No caso, sua principal responsabilidade é a segurança de passageiros e tripulantes. Se ouvir ou vir alguma coisa ameaçadora ou até mesmo suspeita, acenda os foguetes e afaste a Pinta de Rama."

Era a manhã da primeira missão de reconhecimento da Pinta no interior de Rama. A espaçonave da Terra atracara no dia anterior em uma das extremidades circulares da imensa espaçonave cilíndrica. A Pinta tinha sido estacionada bem ao lado do selo externo, mais ou menos no mesmo local das expedições ramaianas anteriores de2130e2200. Como parte das preparações para a primeira incursão, Kenji Watanabe instruíra a equipe exploratória na noite anterior a respeito da geografia das duas primeiras Rama. Quando terminou seus comentários, fora procurado por seu amigo Max Puckett. "Você acha que a nossa Rama vai se parecer com todas aquelas fotos que nos mostrou?"

"Não exatamente", respondeu Kenji. "Espero algumas mudanças. Lembrese de que o vídeo dizia que um habitat terreno fora construído em algum ponto dentro de Rama. No entanto, já que o exterior da espaçonave é idêntico ao das outras duas, não creio que tenham mudado tudo do lado de dentro."

Max ficou perplexo. "Tudo isso fica muito para lá do meu alcance", disse ele, sacudindo a cabeça. "Falar nisso, você tem certeza de não ser o responsável por eu estar na equipe exploratória?"

"Como lhe disse hoje à tarde", respondeu Kenji, "nenhum de nós a bordo da Pinta teve qualquer coisa a ver com a seleção dessas equipes. Todos os dezesseis integrantes foram selecionados pela AEI e a AII lá na Terra".

"Mas por que me equiparam com toda essa porcaria desse arsenal? Me deram uma metralhadora laser de última geração, granadas autodirigidas e até um punhado de minas sensíveis a massa. Tenho mais poder de fogo neste momento do que tive durante a expedição de preservação da paz em Belize."

Kenji sorriu. "O comandante MacMillan, como muitos outros membros do estado-maior militar no Quartel-General do CDG, ainda acredita que toda essa história é algum tipo de armadilha. Sua designação nessa equipe exploratória é 'soldado'. A minha convicção pessoal é de que nenhuma de suas armas será necessária." Max ainda resmungava na manhã seguinte, quando MacMillan deixou Ulanov encarregado da Pinta e liderou pessoalmente a equipe exploratória que entraria em Rama. Embora estivessem sem peso, o equipamento militar que Max carregava em cima de seu traje espacial era canhestro e restringia sua liberdade de movimentos. "Isto é ridículo", resmungou para si mesmo. "Eu sou um fazendeiro, não um raio de um comando."

Continuar: parte 2 de 3