O Mistério da Estrada de Sintra
A Confissão Dela
I
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Parece-me às vezes que tudo isto se passou numa vida distante como um romance escrito, que me causa saudades e dor, ou uma velha confidência de que a minha alma se lembra. Mas, de repente, a realidade cai arrebatadamente sobre mim, e creio que sofro mais então, por ter a consciência de que não devia nunca ter deixado de sofrer. Foi bom que me determinasse a esta confissão. Contar uma dor é consolá-la. Desde que me determinei a escrever estas confidências, há no meu peito um alívio e como um movimento de dores cruéis que desamparam os seus recantos.
O princípio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. Lembra-me o dia, a hora, a cor da relva, a cor do meu vestido. Foi no fim do penúltimo Inverno, em Maio. Ele estava também em Paris. Víamo-nos sempre. Às vezes saíamos da cidade. Íamos passar o dia a Fontainebleu, Vincenas, Bougival, para o campo. A Primavera era serena e tépida. Já estavam floridos os lilases. Levávamos um cabazinho da Índia com fruta, num leito de folhas de alface. Ríamos como noivos...
Havia três meses que estávamos em Paris: o conde — creio que o disse — estava na Escócia com Lorde Grenley caçando a raposa nas tapadas do príncipe de Beaufort.
Houve então um baile no Hotel de Ville, um desses bailes oficiais em que uma multidão de praça pública se acotovela sob os lustres, brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma valsa com um coronel austríaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veio a mim, toda risonha.
— Conheces este nome: miss Shorn?
— Não. Uma americana?
— Uma irlandesa. Uma maravilha. O prefeito dançou com ela: a condessa Walevska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometeu-lhe um desenho. Vai ser apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a insignificante. Bonitos cabelos, sim. Não se fala noutra coisa! Mas tu deves conhecê-la...
— Porquê?
— Tem dançado com Captain Rytmel, parecem íntimos. Tu ris?
— Eu?
— Não... tu riste!
— Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!
— Tiens, tiens! — murmurou ela olhando muito para mim.
E afastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Às vezes, na nossa alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas, acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.
Captain Rytmel aproximara-se.
— Vem radiante — disse-lhe eu. — Quem é miss Shorn?
Ele respondeu, gravemente:
— É a amiga íntima da minha irmã.
Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste. Os movimentos da dança lembravam-me as cerimónias de um culto. O meu ramo ficou espalhado pelo chão. Nesse instante, sem saber porquê, detestei Paris, o ruído, o império; desejei as sombras de Sintra, os retiros melancólicos de Belas, cheios dos murmúrios da água.
Quis sair. Numa das últimas salas uma mulher alta, loura, tomava das mãos de um velho extremamente magro e distinto a sua sortie de bal.
Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto dela, e falando baixo para mim:
— Miss Shorn! — disse ele.
Era realmente linda. Grandes cabelos louros, fortes, luminosos; os olhos largos, inteligentes, sérios; um corpo perfeito.
Nessa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam acesos. Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos ombros o burnous. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem aparecia ao fundo do quadro num vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços nus, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciência de que eu estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser linda!
Dali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um lugar na tribuna do Jockey. Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a corte, a diplomacia — a tribuna resplandecia de fardas, de jóias, de plumas, de reflexos de seda. Os regimentos tinham começado a desfilar. As músicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos batalhões em marcha, o luzir das baionetas, as vozes de comando, o galopar dos cavalos, o brilho dos capacetes, o céu resplandecente, como um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava estranhos sentimentos de guerra e de glória. E todo o corpo estremecia quando aquelas poderosas massas de gente passavam gritando:
— Viva o Imperador!
Sou uma pobre mulher, mas estremeci também!
A infantaria tinha passado. Rytmel fora falar com miss Shorn, que estava em companhia de Lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prússia, ficara colocado junto dela. Ia passar a artilharia e a cavalaria. O Imperador, com o seu Estado-Maior, tinha vindo colocar-se ao pé da tribuna do Jockey. Nós todos nos inclinávamos para ver os generais que o cercavam: Montauban, o que tomara Pequim; Canrobert com os seus longos cabelos brancos; a espessa figura de Bazaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algéria...
Miss Shorn era também muito olhada na tribuna do Jockey. Dizia-se que a Imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a conhecer, um ramo de violetas do pólo.
Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planície, de onde a cavalaria devia partir, e corria um arrepio de entusiasmo perante um tão grande poder militar. Nessa manhã falava-se em certas reservas entre o gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadova, mil coisas que eu não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu túmido sorriso prussiano.
No entanto, a cavalaria formara em linha. Os clarins tocavam, as bandeiras desdobravam-se; e de repente aquela enorme massa despediu à carga cerrada do fundo do campo para a tribuna do Jockey.
Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já os coronéis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar ofegante dos cavalos. O Imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de pé... De repente, por um movimento único, toda aquela enorme coluna estacou firme, vibrante, imóvel, reluzente, agitando as espadas, e gritando:
— Hurra! Viva o Imperador!
A tribuna, de pé, respondeu:
— Hurra!
Então, vendo uma tão admirável cavalaria, uma tão grande força, tanto prestígio imperial, e tomados do indomável orgulho das tradições ou possuídos da febre do sangue militar, muitos oficiais, que estavam nas outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram:
— A Berlim! a Berlim!
Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:
— A Berlim! a Berlim!
E na tribuna algumas vozes clamavam também:
— Sim, sim, a Berlim!
O Imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como impondo silêncio, ou como dizendo: Esperai!
Àquele grito inesperado todo o Estado-Maior se tinha apertado em torno do Imperador, e eu, que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal Mac-Mahon deter subitamente o cavalo, voltar meio corpo rapidamente, e com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava o embaixador da Prússia. Eu segui o olhar do marechal, olhei também e vi...como hei-de dizê-lo? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado, falando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ela olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em que eu vi todo o fim da minha vida!
II
Daí a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu traí as minhas dúvidas, nem ele mostrou preocupações alheias aos interesses do nosso amor.
Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas dele. Estudava-as, decompunha as frases palavra por palavra para encontrar a oculta verdade do sentimento que as criara. E terminava sempre — meu Deus! — por descobrir uma serenidade gradual no seu modo de sentir. Rytmel escrevia-me com muito espírito e com muita lógica para poder pôr o coração no que escrevia. Evidentemente, o seu amor passava da paixão para o raciocínio. Criticava-o: prova de que não estava dominado por ele. Tinha até já palavras engenhosas e literárias. Valia-se da retórica! Ao mesmo tempo a sua letra tornava-se mais firme: já não eram aquelas linhas tortas, convulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um infame cursivo inglês, pausado e correcto. Já me não escrevia como dantes em papel de acaso, em folhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que denotavam as inspirações do amor, os sobressaltos repentinos da paixão; escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido, o que o seu coração tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em marechala!
E eu? É talvez ocasião de falar aqui do meu sentimento. Duvidei fazê-lo. Não queria colocar o meu coração sobre esta página como numa banca de anatomia. Mas pensei melhor. Eu já não sou alguém. Não existo, não tenho individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com pudor. Sou um caso, um acontecimento, uma espécie de exemplo. Não vivo da minha respiração, nem da circulação do meu sangue: vivo abstractamente, da publicidade, dos comentários de quem lê este jornal, das discussões que as minhas mágoas provocam. Não sou uma mulher, sou um romance.
III
Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a aniquilação da minha individualidade.
Por isso não tenho escrúpulos. As almas extremamente desgraçadas são como as criancinhas: devem mostrar-se nuas.
Além de tudo suponho que estas páginas podem ser uma revelação proveitosa para aquelas que estejam nas ilusões da paixão. Que me escutem pois!
São 11 horas da noite. Neste momento, quantas sei eu que sofrem, que esperam, que mentem, possuídas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do que a felicidade de serem desgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de discretos martírios a quem tantas vezes vi os olhos pisados das lágrimas! tu, pobre Th..., que tens passado a tua vida a tremer, a recear, a humilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estais envolvidas pelo elemento cruel da paixão, quase fora da vida, e em luta com a verdade humana, vós todas escutai-me!
Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamente que eu cedia à atracção, era com uma repugnância altiva. Mil coisas choravam dentro em mim, sofria sobretudo o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.
O que eu sofri! O que eu corei! Corei diante da minha pobre Joana, da minha velha ama, um anjo cheio de rugas, que sabe sobretudo amar quando tem de perdoar! Corava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando elas me sorriam, tremia quando lhes via o aspecto sério. Dava-lhes vestidos, ensinava-lhes penteados. Saíam às vezes de tarde, recolhiam alta noite; eu corava profundamente no meu coração, e sorria-lhes.
O olhar dos homens era-me insuportável: parecia-me envolver uma afronta. Imaginava que era pública a aventura do meu coração, que era julgada como uma criatura de paixões fáceis, o que dava a todos o direito de me fazerem corar. Quantas vezes saí do teatro afogada em lágrimas! Analisava os gestos, os olhares, os movimentos dos lábios. «Fulana olhou-me com desdém! Aquele riu-se insolentemente, quando eu passei! Aqueloutra afectou não me ver.» Se numa modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta cor é alegre, é bonita!» eu pensava comigo: «Bem sei, aconselham-me as cores vivas, ruidosas, as cores do escândalo, o género artiste!» E saía, fechava os estores do meu cupé, chorava desafogadamente.
Não me atrevia a beijar uma criança; olhava-a com uma ternura inefável, ia a tomá-la nos braços, mas dizia comigo: «Deixa esse pobre anjinho, não és bastante pura para lhe tocar!»
Devo dizer tudo. Corava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audácia, uma palavra acusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e ele se erguia respeitosamente, eu ficava tão satisfeita daquela prova de atenção, que tinha vontade de o abraçar...
Acha odioso, não?
Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrível: quando meu marido me apertava expansivamente a mão, eu sofria tanto como se o outro me atraiçoasse!
Ai de mim! Quantas vezes quis eu consolar o meu orgulho, pensando nas glórias dramáticas do sofrimento e do martírio! Quantas vezes me comparei às figuras líricas da paixão, que contam as legendas da sua dor ao ruído das orquestras, à luz das rampas, e que são Traviata, Lúcia, Elvira, Amélia, Margarida, Julieta, Desdémona! Ai de mim! Mas onde estavam os meus castelos, os meus pajens, e o ruído das minhas cavalgadas? Uma pobre criatura que vive da existência do Chiado, que veste na Aline, que glorificações pode dar à sua paixão?
E depois é cruel, e é forçoso dizê-lo: há sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades morais do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E há uma profunda humilhação em nossa consciência quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas ideias e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um não sei quê, em que entra talvez a cor do seu cabelo e o nó da sua gravata. Sejamos francas: para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferências? Não quero dizer que as elevações morais não sejam um auxiliar poderoso à simpatia instintiva; mas o que na realidade nos domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidências dolorosas se consultem no silêncio do seu coração e digam o que determinou nelas a sensação; se foi o carácter ou se foi a fisionomia. E as que forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a cor de um fraque, do que a elevação de um espírito.
Sim, digo-o francamente, daqui deste canto do mundo, em que o ruído das coisas tem o som oco da tampa de um esquife; os desvarios do coração em nós outras, nada os absolve, quase nada os explica.
Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tédio assaltadas de quimeras; tive os meus romances íntimos, que nasciam, sofriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Criei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramáticas aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão.
Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a história de muitas sensibilidades. Experimentei eu também os sobressaltos da paixão — e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas atracções nascessem de uma verdade da natureza, da lógica das circunstâncias, da irreparável acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo efémero, romântico, literário, fictício, que habita no cérebro de todas as mulheres.
Vejo-o daqui a sorrir... Não se admire de me ver falar assim. Lembra-se daquelas conversações tão íntimas e tão sérias na rua de…? Lembra-se do terraço de Clarence-Hotel, em Malta, quando a Lua silenciosa cobria o mar? Não se recorda das minhas ideias então e daquelas imaginações que eu denominava gloriosamente os meus sistemas? Não se lembra que me chamava então filósofo louro? O filósofo sentiu, chorou, sofreu, teve por isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lágrimas? A dor é uma verdade eterna, que fica, enquanto as teorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas ideias rectas e precisas saem das incoerências do pranto!
Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres pretendem esquivar-se às responsabilidades. Não creio no que se chama teatralmente as fatalidades da paixão. A vontade é tudo; é um tão grande princípio vital como o Sol. Contra ela as fatalidades, as febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.
Respondem-me chorando: a fatalidade! Mas, meu Deus! tomemos um exemplo — a aventura trivial, a comum, o que se poderia chamar a aventura-tipo, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro número par ou ímpar... a aventura que nós acotovelamos no passeio, que toma connosco neve na Confeitaria Italiana, e que se enterra ao pé de nós no Alto de S. João.
A cena é simples, de três personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu marido é um homem honesto e trabalhador. Cansa-se, luta, prodigaliza-se: logo de manhã sai para o seu escritório, ou para o seu jornal, ou para o seu ofício, ou para o seu ministério; cerceia o seu sono, almoça à pressa, quebra o seu descanso. Todo ele é atenção, vigília, trabalho, sacrifício. Para quê?
Para que os nossos filhos tenham uns bibes brancos, e uma ama asseada; para que as minhas cadeiras sejam de estofo e não de pau; para que os meus vestidos sejam de seda e talhados na Marie, e não de chita e cosidos pelas minhas mãos, de noite, a um candeeiro amortecido.
Meu marido é um homem honesto, simpático, sério, afável. Não usa pó de arroz, nem brilhantina, não tem gravatas de aparato, não tem a extrema elegância de ser moço de forcado, não escreve folhetins; trabalha, trabalha, trabalha! Ganha com o seu cansaço, com os seus tédios, em horas pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuário de todas as estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu ideal e o seu absoluto sou eu! Não faz poemas românticos, porque eu sou o seu poema íntimo, a musa dos seus sacrifícios; não tem aventuras porque eu sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestígio das distâncias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadova mas ganha todos os dias a terrível e obscura batalha do pão dos seus filhos...
É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cansaço é legítimo e puro; gosta da sua robe de chambre porque trabalhou todo o dia. Julga-se dispensado de trazer uma flor na boutonnière porque traz sempre no coração a presença da minha imagem.
Pois bem! Que faço eu?
Aborreço-me.
Logo que ele sai, abro um romance, ralho com as criadas, penteio os filhos, torno a bocejar, abro a janela, olho.
Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou medíocre. Olhamo-nos. Traz um cravo ao peito, uma gravata complicada. Tem o cabelo mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito, usa botas inglesas, pateia as dançarinas!
Estou encantada! Sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espírito e sem gramática. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida.
Manda-me uns versos — uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido, os seus sacrifícios, a sua bondade, o seu trabalho, a sua doçura; não me importam as lágrimas nem as desesperações do futuro; abandono probidade, pudor, dever, família, conceitos sociais, relações, e os filhos, os meus filhos! tudo — vencida, arrastada, fascinada por um soneto errado, copiado da Grinalda!
Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamais — fatalidade da paixão!
E, no entanto, como corresponde ele a este sacrifício terrível?
Como tem uma aventura, não pode ocultar a sua alegria, toma ares misteriosos, provoca as perguntas; compromete-me; deixa-me para ir esperar os touros em intimidades ignóbeis; mostra as minhas cartas em cima da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de conhaque; jura aos seus amigos que me não ama, e que é — para se entreter; e se meu marido o chicotear no meio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se à Boa Hora!
Et voilá D. Juan!...
Não! É necessário demolir pelo ridículo, pela criatura, pelo chicote e pela polícia correccional, esse tipo indigno que se chama o conquistador. O conquistador não tem atracção, nem beleza, nem elevação, nem grandeza como tipo — e como homem não tem educação, nem honestidade, nem maneiras, nem espírito, nem toilette, nem habilidade, nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem ortografia...
Perdoe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionável, vou como se costuma dizer — atrás da frase. Esqueço às vezes as minhas dores modernas, para me lembrar das minhas velhas indignações.
E pensa que, por condenar estes amores triviais, eu me absolvo a mim? Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excelente, cuja superioridade de espírito o meu primo conhecia e amava, de uma distinção tão perfeita e tão completa; posto que a nossa afeição tivesse vivido num meio tão elevado, tão nobre, tão altivo — apesar de tudo, eu tenho-me por tão condenável como aquelas de quem falei — e julgando-me sem justiça e fora da graça faço penitência diante do mundo.
IV
E quanto, quanto sofri então, na modéstia da minha vida, no apartamento do meu segredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu filho pela mão! Dentro do meu cupé, puxado a largo trote à saída do teatro, envolvida num cachemire, com uma pele de marta nos pés, e um aroma doce na seda das almofadas, quantas vezes invejei as pequenas burguesas que saíam das torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agasalho, pisando a lama!
No dia em que recebia as cartas dele, saía de Lisboa, fugia, ia para o campo! Levava-as, amarrotadas e beijadas, ia para a quinta de..., penetrava nas sombras espessas, ali ficava longo tempo, envolta no calor tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, e pelo murmuroso correr da água nas bacias de pedra!
Oh doce vida das árvores e das plantas! passividade da relva, irresponsabilidade da água, pacífico sono dos musgos, suave pousar da sombra! Quantas vezes me consolaste, e me ensinaste a sofrer calada! Quantas vezes invejei a imobilidade do vosso ser!
Era ali só, relendo essas cartas cruéis, que eu sentia o amor daquele homem fugir-me como a água de um regato que se quer tomar entre os dedos.
Que me restaria então?
Voltar outra vez à serenidade legítima da vida? Não podia, ai de mim! Estava para sempre expulsa do paraíso pacífico da família, da casta sombra do dever. Lançar-me nas aventuras e na revolta? Meu Deus! Isso repugnava-me tanto ao meu carácter como o contacto de um animal viscoso à pele do meu peito.
Ficava, pois, sem situação na vida. Não tinha nela um lugar definido. Entrava nessa legião dolorosa e tristemente miserável — das mulheres abandonadas.
A minha única honestidade agora devia ser conservar-me cativa daquele sentimento. A minha única absolvição estava na verdade da minha paixão. Quanto mais me separasse do mundo e me desse ao meu amor; mais me aproximava da dignidade. Nas situações definidas e corajosas há sempre um lado honesto; o que repugna ao instinto casto são as conciliações hipócritas. A posição que me restava, o dever que me restava, a virtude que me restava, era ser de Rytmel, só dele e para sempre: e eu sentia que ele se ia lentamente afastando de mim como eu me afastava de meu marido.
Era a minha entrada na expiação.
Nestes amores, o castigo não vem só do mundo: eles mesmo contêm os elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma paixão. A punição da falta contra a honra vem mais tarde pelos juízos dos homens.
Eu estava então diante da maior miséria moral em que se pode encontrar uma mulher nestas condições lamentáveis.
Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar.
Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquela existência de homem, da linha natural, simples, humana, que leva ao casamento, à família, ao dever?
Devia eu impedir que ele casasse? Mas não era isto impedir, abafar a legítima expansão da sua vida? Não era proscrevê-lo das fecundas e serenas alegrias da família, para o ter preso nos ásperos, nos estéreis sobressaltos duma paixão romântica?
Tinha eu o direito de sequestrar aquele homem para uso exclusivo do meu coração, encarcerá-lo dentro de uma ligação ilegítima e secreta, onde ele se esterilizaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se enferrujariam como armas inúteis, e toda a sua acção social se limitaria a seguir o frufru dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um aspecto de egoísmo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade: a virtude do sacrifício?
Poderia eu privá-lo de ter um dia os filhos, que fossem a continuação do seu ser e a sua imortalidade? Podia eu privá-lo em nome do meu ideal de ter na velhice aquela doce e branca companheira, sob cujo olhar pacífico, o homem justo espera, sossegado, o nobre momento da morte?
E era só isto?... Pode um espírito sincero acreditar na duração destes amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martírios, que não têm o dever por base, e têm a traição por origem? E por dois ou três anos mais que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino da outra, dela, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida sobre o coração dele, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a presença da graça e a consciência viva? Não: isto não podia ser.
Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por ele tudo, desde o pudor íntimo até à honra social, fosse agora arremessada como uma luva velha?
Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada agora porque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por ele, do paraíso doméstico? Por ele não renunciara às alegrias pacíficas da vida, e à sublime esperança de uma morte digna? Como eu tinha sacrificado por ele a honra de um homem, não podia ele sacrificar por mim as esperanças romanescas de uma criança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida, como num arminho, nas aparências do amor, ter-me conduzido com os olhos vendados, atraída, suspensa do ritmo dos seus passos, a um lugar perigoso, a uma situação intolerável, e chegando aí dizer-me: «Adeus, agora! Eu vou para a felicidade. Tu, fica; mas cuidado, que para trás não podes voltar; e se deres um passo para diante, vais abismar-te na infâmia!».
Não, isto não deve ser; o amor não é uma criação literária, é um facto da natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor não os abdico.
Pois quê! Por causa da outra! Hei-de dar tamanha consideração às lágrimas que choram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas léguas de distância e não hei-de apiedar-me das minhas lágrimas, que escorrem aqui na minha face, e que eu aparo na tremura das minhas mãos!
«És casada», dizem-me. O quê! Porque perdi mais, devo ser atendida menos! Eu, que vivo quase fora do mundo, sem estar ligada a nenhuma destas coisas superiores que amparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve fio, por este amor único, é por isso que devo ir com as minhas mãos quebrar esse fio, quebrar esse amor!
Há algum direito humano que exija isto de mim? Há alguma piedade que o veja friamente? Há alguma consciência que o justifique? Se há, essa consciência poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar!
Mas, meu primo, tudo isto é aqui, neste papel em que lhe escrevo. Porque na realidade eu não podia lutar com ela! Ela era a miss, a que havia de ser esposa e mãe — vencia tudo! Elevava-se sobre as velhas afeições, sobre os velhos erros, como a imagem da Virgem sobre o globo feito de barro e de lama, onde se enrosca a serpente.
Nem tentei lutar!
E foi por esse tempo que recebi uma carta em que ele me dizia: Parto para Portugal.
Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas agonias? Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se cativo ao meu amor? Vinha. Nem ele mesmo sabia mais nada!
V
Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa.
O conde estava então em Bruxelas. Era noite e na minha sala de música achavam-se reunidas algumas pessoas: a marquesa de..., velha legitimista, que fora a graça da corte toureira de D. Miguel; o visconde de..., moço insignificante e vagamente louro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que morrera, fora a minha íntima, a minha confidente de colégio.
Viera também a viscondessa de..., pequenita criatura petulante e medíocre, que tinha a graça de ter vinte anos, junta com a desgraça de os não saber ter, e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa, quando era apenas perfeitamente incaracterística. Mas ao pé de mim, sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido — Carlos Fradique Mendes. Passava por ser apenas um excêntrico, mas era realmente um grande espírito. Eu estimava-o, pelo seu carácter impecável, e pela feição violenta, quase cruel, do seu talento. Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial. Como Baudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quase uma obra de arte, ao mesmo tempo exótica e correcta. Havia em todo o seu exterior o que quer que fosse da feição romântica que tem o Satã de Ary Scheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um gentleman. Tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego. O seu espírito tinha um imprevisto profundo e que fazia cismar: fora ele que dissera da pálida duquesa de Morny: elle a la bêtise melancolique d’un ange. O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo conjuntamente a crítica profunda de uma fisionomia e de um carácter.
Carlos Fradique tinha por mim uma amizade elevada e sincera. Chamava-me seu querido irmão. Conhecia-me desde pequena, andara comigo ao colo. Em Paris tornou-se célebre; era o que se poderia chamar um filósofo de boulevard. Tinha sido l’ami de coeur de Rigolboche, e quando ela rompeu por se ter apaixonado por Capoul, Carlos Fradique deixou-lhe no álbum uns versos quase sublimes, de um desdém cruel, de um cómico lúgubre, uma espécie de Dies iræ do dandismo... Prometia a Rigolboche que quando ela morresse ele velaria para que ainda além do túmulo ela vivesse no chique, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrofes que ele traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e escola...
……………………………………………
E eu qu’inda te amo, ó pálida canalha,
Que sou gentil e bom,
Far-te-ei enterrar numa mortalha
Talhada à Benoiton!
Irei à noite com Marie Larife,
Vénus do macadam,
Fazer sentir ao pó do teu esquife
Os gostos do cancan...
E no tempo das courses, p’lo Verão
— Assim to juro eu –
Irei dar parte à tua podridão
Se o Gladiador venceu...
……………………………………………
Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassível, quase lânguida, contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga. A sua veia, naquele dia, era toda grotesca.
— A pobre criatura — dizia ele — untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço...
— Oh! Sr. Fradique! — gritaram todos, escandalizados com a invenção monstruosa.
— Comeu mais — continuou ele gravemente — gostou e pediu outra vez.
Falava com um sorriso fino, quase beatífico. Nós íamos revoltar-nos contra a cruel excentricidade daquela história.
Neste momento vi à porta da sala, trémula, com um grande espanto nos olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ela tomou-me pela mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo num grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido:
— É ele!
Encostei-me desfalecidamente à parede, sentindo parar o coração.
Betty, com passos discretos, foi abrir a porta do meu toilette. Entrei. De pé junto de uma mesa, extremamente pálido, estava ele. Apertei as mãos sobre o peito, fiquei imóvel, suspensa. Ele caminhou para mim com os braços abertos, para me envolver; eu deixei-me cair aos seus pés e, calada, beijei-lhe os dedos. Ele tinha ajoelhado comigo, e com as mãos enlaçadas, os olhos confundidos, chorávamos ambos. Eu só dizia num murmúrio de lágrimas:
— Há tanto tempo!...
— Minha senhora, minha querida menina — dizia Betty da porta — e aquela gente, santo Deus, que há-de dizer?
Eu não a escutava. Foi ele que disse sorrindo:
— Tem razão, Betty, tem razão! É necessário voltar à sala.
E deu-me o braço. Entrámos: ele grave, eu meio desfalecida, abstracta, com os olhos marejados de lágrimas e um sorriso vago nas feições.
Disse o nome de Captain Rytmel, e a sua antiga amizade com o conde. Vi a marquesa sorrir levemente.
E voltando-me para Rytmel:
— O Sr. Carlos Fradique — disse eu — antigo pirata.
Os dois homens apertaram a mão.
— A senhora condessa lisonjeia-me extremamente. Eu fui apenas corsário — disse Carlos.
Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A luz envolvia-o. Estava mais pálido, o seu rosto apresentava linhas mais graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e funda que a dominava.
Fradique continuava falando. Agora fazia a crítica das mulheres do Norte.
— A irlandesa — dizia ele — tem, mais que nenhuma mulher, a graça... Sobretudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a melhor ciência para um espírito feminino é um lago. Aquela água imóvel, azul, pálida, fria, pacífica, dá um extremo repouso à alma, uma necessidade de coisas justas, um hábito de recolhimento e de pensamento, um amor da modéstia e das coisas íntimas, o segredo de ser infinito sendo monótono, e a ciência de perdoar... Exijo, na mulher com quem casar, que tenha as unhas rosadas e polidas, e um ano de convivência com um lago!
Eu vi Rytmel corar de leve e torcer nervosamente o bigode.
Pelo lúcido instinto da paixão, compreendi que entre aquela glorificação dos lagos, e os ocultos pensamentos de Rytmel, havia uma afinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabelos irlandeses de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique:
— Meu caro amigo, um pouco do seu violoncelo, sim?
A sala abria sobre os jardins. A plácida respiração do vento fazia arfar as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma balada das margens do mar do Norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das águas, o feérico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um pirata norvégio, a fria Lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da varanda, e enquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncelo, lembravam-me as antigas coisas do meu amor, o Ceilão, as noites silenciosas em que ele me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar parecia uma afirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos da Lua, as moitas de rosas de Clarence-Hotel, os prados suaves de Ville d'Avray; via-o ferido, pálido sobre as suas almofadas; via-o abordo do Romantic comandando as manobras da fuga, chorando os desastres do amor... E estas memórias embalavam-se no meu cérebro, confundidas com as melodias do violoncelo.
VI
Ao outro dia eu devia encontrar-me com ele nessa fatal casa n.º... Fui, como sempre, toda vestida de preto, envolta num grande véu. Estava extremamente pálida, palpitava-me o coração de susto. Era aquele um momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel uma explicação clara, definitiva, sem equívocos... Uma palavra que ele dissesse, seca ou indiferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-ia como abandonada, exilada da vida, retirava-me para um chalé na Suíça, ou para Jerusalém, ou para a melancolia de um claustro no Sul da França. Tinha determinado assim a solução do meu destino.
Quando cheguei à casa n.º... ele não estava ainda. Fiquei ali muito tempo, imóvel numa cadeira. Os ruídos da rua chegavam-me como no fundo de um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, através dos vidros foscos como os globos dos candeeiros. Eu sentia aquela impressão indefinida, que nos vem quando estamos durante muito tempo num lugar sossegado e triste, olhando o silencioso cair da chuva.
De repente a porta gemeu docemente, ele entrou.
Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flores miúdas das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-mas cair no regaço...
Depois, falando-me baixo, junto da face:
— Andei todo o dia a pensar em si, à travers champs.
Não respondi, e com os olhos errantes nas cores do tapete, desfolhei cruelmente as pequeninas flores dos prados. Tinha um contentamento amargo em torturar aqueles delicados seres, que vinham dele, e que me parecia terem dele aprendido a mentir.
— Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador — repetiu com uma voz docemente insistente.
Eu ergui os olhos para ele.
— Responda-me: sabe mentir?
— Mas, meu Deus — disse ele, afastando-se — parece que me quer hoje mal, minha querida filha!
Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flores mutiladas.
Ele então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus olhos impassíveis, ficou esperando, numa contemplação amante e paciente, que eu quebrasse aquela imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para ele, numa atracção insensível, mas dominava-me. Até que por fim ele ergueu-se lentamente, arremessou o corpo para um sofá, e ali ficou, como refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa...
Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos:
— Sabe o que é? Não o compreendo, e é necessário que me diga, mas francamente, claramente, sílaba por sílaba, o que tem! Não me ama, é claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me escreveu de Londres. E agora vejo-o pelo seu olhar, as suas menores palavras, o seu silêncio, até. Há uma coisa qualquer, não sei qual, mas há. A verdade é que me abandona, que me não ama. É necessário que se explique. Isto não pode ser assim. Sofro. Se soubesse! Chorei toda a noite...
E recomecei a chorar diante dele, com soluços que me quebravam. Ele tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as coisas mais tocantes, em que havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Afastei-o de mim, e comprimindo o pranto:
— Não, não, é necessário que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sabes o que me deves responder... Diz-me a verdade...
Ele, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez:
— Mas, minha querida amiga, a verdade é que as ilusões do seu espírito são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do carácter feminino. É-lhes insuportável a serenidade. Na vida pacífica procuram o romance, no romance procuram a dor. É necessário que esses pequeninos e graciosos crânios tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer então que lhe diga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão? — Que mais quer? Acha-me reservado, diz. E se eu tivesse as violências de Otelo, achava-me decerto ridículo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lho aqui, sentado num sofá, de sobrecasaca, numa casa que tem número para a rua, e vou aqui a pouco, num cupé, jantar, jogar talvez o xadrez, vestir — quem sabe? — uma robe de chambre! É lamentável tudo isto, bem sei. E é por isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse aqui nos paroxismos de Antony, ou tivesse uma toilette veneziana, ou se isto fosse uma abadia feudal, ou se eu partisse daqui para conquistar Jerusalém, diga-me — tinha mais confiança?
— Tudo isso não quer dizer nada.
— Oh, minha querida amiga...
— A sua querida amiga — interrompi — nada mais pede que um coração franco e recto. São tudo, pois, imaginações minhas? Não há nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma coisa, e juro-lhe que é irremissível, juro que o digo em toda a frieza do meu juízo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o cálculo mais positivo...
— Mas, meu Deus! Diga...
— E esta resolução, aceita-a?
— Uma resolução... E o que envolve ela?
— Envolve a única coisa possível, a única que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. — Aceita?
— Mas como não hei-de aceitar?...
— Pois bem — comecei eu.
E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face numa voz ardente como um beijo:
— Fujamos amanhã.
Rytmel empalideceu levemente e retirando devagar as suas mãos de entre a pressão das minhas:
— E sabe que é uma coisa irreparável?
— Sei.
Ele sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no entanto, de pé junto dele, com a minha mão pousada sobre o seu ombro, dizia-lhe como num murmúrio de um sonho:
— Pensava nisto há um mês. Vamos para Nápoles. Vamos para onde quiser. Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero viver contigo...
Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lágrimas.
— Meu Deus! Rytmel, tu choras...
— Não, não, minha querida! Estava pensando em minha mãe, que não torno talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!
E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como selando um pacto eterno.
VII
Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty.
— Betty — disse eu fechando a porta do quarto. — Betty, depressa, quero dizer-te uma coisa. Não me digas que não...
— Santo Deus! Sossegue, descanse, minha querida menina! Jesus, como vem pálida!
— Betty, é uma coisa irreparável... devia ser. Foi pensada a sangue-frio. Vês como estou tranquila, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução digna. Betty, não me digas que não!...
— Mas, minha rica senhora...
— Não se podia voltar atrás. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão feliz!
— Bem feliz, ao menos?
— Doidamente. E se não fosse assim, morria...
— Mas então...
— Fugimos amanhã.
Ela estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que apareciam lágrimas, e sufocada, com as mãos juntas:
— E eu?
Atirei-me aos seus braços.
— Pois havias de ficar, Betty? Tu vens connosco, Betty.
E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo as palmas e gritando:
— Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja!
Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, triunfava: a minha vida aparecia-me, larga, cheia, esplêndida, coberta de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciências de noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.
— Partes? — perguntavam-me.
— Para França.
— Com a guerra?
— Não há guerra. E, havendo, não é interessante ver matar prussianos?!
À porta do Sassetti, encontrei Carlos Fradique.
— Sabe que parto amanhã? — disse-lhe eu.
— Sabe que parto hoje? — respondeu-me. — Ia lá, apertar-lhe a mão.
— Mas é inesperado isso! Vai para França? Para quê?
— Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver atitudes de mortos muito curiosas.
— Mas vai debalde. Não há guerra. É positivo. Por isso eu vou para Itália.
— Vai para Itália?... Mas, então... Ah! Vai para Itália? Minha pobre amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um trio com o meu violoncelo, sou eu, adesso e sempre.
Apertou-me a mão. Não sei porquê, aquelas palavras deram-me uma sensação triste.
Quis ir ao Aterro. A tarde caía. A água tinha uma imobilidade luminosa. Do outro lado os montes estavam esbatidos num vapor azulado e suave. Sobre o mar havia nuvens inflamadas, de uma cor fulva, como no fundo de uma glória. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz.
Sentia-me vagamente melancólica. O rio, aquelas casas triviais, todos aqueles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até aí quase inexpressivos, apareciam-me, pela última vez que os via, com uma feição simpática. Tive uma saudade piegas daqueles lugares: quis sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquela paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-Hotel, a grosseira e escura Rua do Arsenal, todas essas coisas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo instintivo de tranquilidade, de família, de situações pacíficas, fazendo destacar no fundo da minha vida, num relevo negro, a aventura que eu ia intentar; e aparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas coisas irreparáveis, no exílio e na morte!
A minha carruagem subia a passo a Rua do Alecrim. As luzes acendiam-se. O céu estava ainda pálido.
Uma senhora passou, só, a pé, levando uma criança pela mão: era uma mulher nova e distinta; parecia feliz. O pequenino, louro, gordo, ria, palrava naquela linguagem misteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz humana do abc do Céu.
Como seria bom ser assim uma mulher pacífica, com um equilíbrio suave no coração, uma toilette fresca, o amor das coisas justas, e um filho pela mão! Se eu fosse assim seria alegre, amável, passearia, daria bombons ao meu pequerrucho, trá-lo-ia vestido de cores leves, com uma flor no cinto; conversaria com ele, e à volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria a tranquilidade da minha vida. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro; eu, ajoelhada, procuraria despi-lo, sem o acordar, cantando, baixo, em segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a pena do pai rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraísos da vida! como eu me afasto de vós!
Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam fechadas, afiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande pele, apertada na sua correia. Tudo estava pronto, devíamos partir na manhã seguinte. As minhas ideias simples debandaram.
Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de países extensos e distantes, que se atravessam ao galope da posta ou na velocidade de um vagão. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto através das árvores do jardim. Sentei-me à janela.
A minha situação apareceu-me então com o prestígio de um belo romance. Mil imaginações e fantasias cantavam no meu cérebro. Sentia-me à entrada de uma vida de perigos, de êxtases, de glórias. Via-me na tolda de um paquete entre os perigos de um naufrágio: ou numa serra espessa, por um grande luar, numa companhia de contrabandistas que cantam à Virgem; ou no silêncio de uma caravana escoltada de beduínos, acampando no monte das Oliveiras, defronte de Jerusalém. Percorria a Itália; entraria nas cidades ao galope dos cavalos, ao acender o gás, quando a multidão enche os corsos entre fileiras de altivos palácios da Renascença. Via-me em Nápoles, na baía, por um luar calmo; dormindo sob as vinhas em Ísquia; ou na frescura das grutas do Pausílipo, onde ainda choram as náiades... A porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra do envelope, não olhei sequer, mas senti-a! Veio luz. Era verdade, era de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pu-la em cima da pedra de uma console, fui olhar-me ao espelho, vi-me pálida. No entanto a carta atraía-me, parecia-me que luzia sobre o mármore branco. Tomei-a, pesei-a, senti-lhe o aroma, e devagar, cansada, suspirando, com os braços vergados ao peso dela, fui-a lentamente abrindo.
VIII
Transcrevo textualmente essa carta terrível:
«Querida: — Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas fechadas e afiveladas. Tenho o meu passaporte... É verdade! Não te esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um pássaro, ou como uma luva: posso pousá-lo sobre a tolda de um paquete, pô-lo numa mesa de jogo em cima de uma carta, colocá-lo na ponta de uma espada, ou fechar-to na mão e dar-to. Mas tu pelas condições da tua vida tens um lugar definido no mundo, limitado e circunscrito. Estás presa, por um anel de casamento, a uma ordem de coisas, a um certo número de leis, e és na vida como um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu centro legítimo, eu, que tenho a experiência das desgraças, das viagens, e do espectáculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-ão mais estimado ao teu carácter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrai neste momento de mim, da minha honra e da minha fidelidade. Falo do amor, lei ou mistério ou símbolo, força natural ou invenção literária. Fias-te de mais no amor! Aquele amparo superior, aquele apoio sólido e protector, que todo o espírito procura no mundo, e que uns acham na família, outros na ciência, outros na arte, tu parece quereres encontrá-lo somente na paixão, e não sei se isso é justo, se isso é realizável!
«Creio que te fias de mais no amor! Ele não constrói nada, não resolve nada, compromete tudo e não responde por coisa alguma. É um desequilíbrio das faculdades; é o predomínio momentâneo e efémero da sensação; isto basta para que não possa repousar sobre ele nenhum destino humano. É uma limitação da liberdade; é uma diminuição do carácter; especializa, circunscreve o indivíduo; é uma tirania natural, é o inimigo astuto do critério e do arbítrio. E queres que tenha esta base a tua situação na vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possível, enquanto ele viver do imprevisto, do romance e do obstáculo; enquanto necessitar do cupé de estores cerrados; mas logo que entre num estado regular, que se estabeleça definitivamente para durar, que se organize, que se economize, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar-se, tem a miséria de se assemelhar às chamas pintadas de um inferno de teatro. E então, desde o momento que o amor desaparecesse, que razão de ser tinha a tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teu incoerente destino? Ficavas sem uma situação definida; tudo te era vedado, ou pela força das leis sociais, ou pela altivez da tua honra. Recuar para as coisas legítimas, arrepender-te, era impossível: o arrependimento é um facto católico, não é um facto social. Continuar a persistir em viver pelo amor era um equívoco hipócrita, e poderias um dia encontrar-te a viver na libertinagem.
«Imaginas hoje que o amor é a única tendência, a única preocupação da tua vida... Não: é apenas ideia dominante na tua natureza. Há outras exigências, que hoje não sentes clamarem dentro de ti, porque têm sido plenamente satisfeitas no meio legítimo em que tens vivido; mas quando, mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como numa concha, sentirás então amargamente que te falta o quer que seja que é a sociedade, a opinião, o centro de amizades, o rang, as consolações incomparáveis que dá a estima dos que nos saúdam. E o não encontrar então no mundo o teu lugar, elegante, aveludado, agaloado, emplumado e coroado, dar-te-á a sensação do abandono; e as consolações que então te quiser ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o mesmo tédio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor que te fugisse. Uma mulher que foge com o seu amante, só pode ter um lugar no Demi-monde; ou então um lugar equívoco nas salas, quando é célebre por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Itália frequentar, em Nápoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar num teatro, nem cometer a inconveniência de escrever um livro. A viver modesta, tens de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que podes, por um ano sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?
«O segredo, o refúgio, um ninho perfumado num quinto andar, são coisas extremamente doces, no meio da sociedade e das relações do mundo; a publicidade oficial da vida dá então um encanto estranho àqueles momentos de mistério. Mas a perpetuidade do mistério deve ser igual àquela legendária tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram, pelas fatais condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do outro, um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quando isto se não passa na ilha de Robinson, nem entre dois discípulos de Swedenborg, nem entre dois desgraçados cheios de fome — mas numa cidade ruidosa e viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo Segundo Império, e que têm as complacências do luxo, crê que deve ser amargo.
«E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-á tristemente, de país em país, sem um centro amado, sem uma família, sem um fim. Não teremos, nem durante a existência nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. A nossa vida será como a das sombras românticas de Paulo e Francesca de Rimini, levadas pelo vento contraditório. Morreremos enfim como dois seres estéreis, que nada criaram, e que não têm quem fique na terra com a herança do seu carácter; e quando todos pelos seus filhos ganham a única justa imortalidade, nós somente seremos mortais, e para nós mais que para ninguém será terrível a lembrança do fim! Perdoa que te escreva estas coisas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, dizer-te que me sinto feliz, e que o momento de amanhã, quando virmos desaparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar, será para mim tão belo, que só por ele julgarei justificada a minha vida.»
Quando acabei de ler esta carta, sentei-me maquinalmente diante das malas, com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gaveta, tirei não me recordo que pequeno objecto de renda, e tornei a fechar, com um movimento automático, lúgubre, e a ausência absoluta da consciência e da vida. Chamei Betty:
— Betty, que horas são?
— Onze, minha senhora.
— Dá-me água, tenho sede. Dá-me água com limão...
Quando ela saiu fui encostar a cabeça à vidraça, a olhar o movimento ondeado e lento das ramagens escuras. A Lua pareceu-me regelada. Betty entrou.
— Betty — disse-lhe eu numa voz sumida — sabes? Tenho medo de morrer doida...
Ela olhou-me, e viu no meu rosto uma tal expressão de angústia, que me disse:
— Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore...
— Não posso, não posso. Eu morro... Vem para ao pé de mim, Betty!...
— Meu Deus, quer-se deitar? Diga...
E erguendo os olhos e as mãos, numa imploração cheia de dor, de desespero:
— Deus me leve para si! Ai! Nada disto era se a mamã fosse viva, minha senhora!
Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande aflição, senti os olhos húmidos, os soluços sufocaram-me, e arremessando-me aos seus braços, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, chorei pela saudade, chorei pela traição, chorei pelo meu passado legítimo, chorei pelo encanto dos meus pecados, chorei por me sentir chorar...
IX
Sosseguei. Vencida, fiquei numa chaise-longue, muda e como morta. Olhava maquinalmente o tremer da luz.
— Betty — disse eu — deita-te. Eu estou bem. Vai...
Ela saiu, chorando. O quarto estava mal alumiado. Eu via, fora, as ramagens do jardim, recortando-se num relevo negro sob o pálido céu, cheio da Lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciência e sem vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em coisas alheias aos interesses da minha dor: lembrava-me a forma de um vestido que eu tinha desenhado para a Aline.
Por fim ergui-me, passei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me à consciência e à verdade das minhas aflições. Arranquei a folha de uma carteira, e escrevi a lápis tumultuosamente: «Tem razão, tem razão. Espero-o amanhã às 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o amo; só lá lhe direi o que sofro.»
Eu mesma saí do corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, alumiada por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e discreto, e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe:
— Leve este bilhete já... Vá numa carruagem.
E indiquei-lhe a casa de meu primo.
Rytmel estava hospedado lá.
Vim sentar-me à janela do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o luar, as grandes sombras, tinham um repouso romântico e triste. Lentamente, a minha desgraça começou aparecendo-me inteira, nítida, em pormenores, numa grande síntese, como se fosse um mapa.
Eu era traída! Aos vinte anos, com todas as inteligências da paixão, com todos os delicados prestígios do luxo, era traída, era traída! Senti então, pela primeira vez, a presença do ciúme, esse personagem tão temido, tão cantado nas epopeias, tão arrastado pela rampa do teatro, tão conhecido da polícia correccional, tão cruel, tão ridículo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e mordente como um corrosivo; a sua argumentação miúda, jesuíta, implacável, sanguinária: todo o seu processo de acção, que torna de repente o coração mais puro tão imundo como a toca de uma fera.
Senti o mais cruel dos ciúmes todos; aquele que se define, que diz um nome, que desenha um perfil, que no-lo mostra, o nosso inimigo, que nos enche as mãos de armas, que nos obriga a avançar para ele. Eu sentia no meu ciúme um ponto fixo — ela. Era ela, a outra! Lembrava-me confusamente: tinha cabelos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de Longchamps. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar nele o que quer que fosse, que prometia um destino pacífico. Que secreto encanto se irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a inteligência? Era a ciência das coisas do amor?... Como eu ardia por a conhecer! E não sabia nada dela senão que era irlandesa, e que se chamava miss Shorn!
Ah, sim, sabia outra coisa — que ele a amava! Conhecê-la! Conhecê-la! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! Decerto! Ela devia pôr nelas toda a sua íntima personalidade. Era loura, era inglesa, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem sobressaltos e sem inspirações da paixão; nas suas cartas, provavelmente, desfiava o seu coração. Eu conhecê-la-ia bem, se as lesse! Eu saberia o estado de espírito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas dela. Devia lê-las! Era necessário pedi-las, roubá-las, comprá-las, eu sei! Mas era necessário lê-las!
Para pensar assim eu nenhuma prova tinha de que ele recebia cartas dela, mas tinha a certeza que elas existiam e que o seu coração estava cheio delas...
Quis serenar, pacificar-me, dormir.
Deitei-me. O meu pobre cérebro estava numa vibração tempestuosa; era como numa tormenta em que vêm à superfície da mesma vaga os destroços de um naufrágio e as flores da alga; no meu espírito revolto, surgiam, no mesmo redemoinho, as coisas graves e as recordações fúteis, as minhas dores e as minhas fantasias, os desastres do meu amor e ditos de óperas cómicas! Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.
— Betty! Não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. Quero amanhã todas as minhas faculdades em equilíbrio. Se não durmo estou perdida, endoideço... Dá-me alguma coisa.
— Mas o quê, minha senhora?
— Olha, dá-me aquela bebida que davam à mamã, nas insónias, a que tu tomas quando tens as dores... Tens?
— Quer ópio?
— Não sei! Água opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me disse...
— Minha querida menina, eu tenho ópio. Uma gota num copo de água. Eu sei? Talvez lhe faça mal!
— Dá-ma, o doutor disse-mo ontem. Dá, depressa!
Bebi. Era água opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e lembro-me que durante o sono sentia-me caminhar incessantemente, num movimento perpétuo que afectava todas as formas, ora lento e pacífico, como um passeio sob uma alameda; ora rápido, volteado, e era a valsa de Gounod que eu dançava; ora solene e melancólico, e era um enterro que eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era no Inverno, e eu patinava sobre a neve.
Acordei de manhã, serena e decidida. Mandei pôr um cupé. Saí. Fiz parar à porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa manhã, que Rytmel estava com ele, em Belas. Subi. Apareceu um criado português, Luís, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, discreto pelo medo.
— Mr. Rytmel!
— Saiu, senhora condessa.
— Jacques?
— Foi com ele, senhora condessa.
Jacques era um criado antigo de Rytmel.
— Luís, leva-me ao quarto de Mr. Rytmel.
Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras... Nenhumas cartas, apenas cartas indiferentes. Irritada, abri as cómodas, espalhei as roupas, procurei nos baús, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenética, desesperada, infame!
— Luís — disse eu baixo. — Luís, tens vinte libras. Tens cinquenta.
— Mas, minha senhora...
— Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo, estúpido... Onde tem ele as cartas, ele?
— Oh, minha senhora — disse o criado, com uma voz lamentável — eu não sei.
— Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?...
— Tem. Tem uma carteira de marroquim. Trá-la consigo. Anda cheia de cartas... Levou-a decerto. Nunca a deixa.
Saí, desci a escada, correndo, fugindo daquele desastre, daquela vergonha, daquelas confidências. Atirei-me para o fundo da carruagem.
— A casa! — gritei.
Tinha fechado os estores: soluçava, sem chorar.
— Betty! Betty! — clamei logo no corredor.
Ela apareceu, correndo.
— Betty — disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. — Diz-me: aquela água com ópio não faz mal?
— Porquê? Sente-se doente?
— Não. Estou bem. Não faz mal?
— Nenhum.
— Juras?
— Juro. Mas...
— Jura sobre estes santos Evangelhos.
— Oh, senhora! Mas, porquê? Juro. Mas, porquê?
— Tens o ópio? Dá-mo.
— Quer dormir?
— Não.
Ela então olhou-me, fez-se extremamente pálida.
— Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?
— Dá-mo. Dá-mo, Betty. Pensas que me quero matar?
Ela calou-se.
— Oh, doida! — disse eu, rindo. — Se me quisesse matar não to pedia. Mas sou feliz... Passaram-se outras coisas, vês tu? Não tas digo, mas sou feliz. Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com ele.
E com a voz mais baixa, como envergonhada:
— É às dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar.
— Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lho dou. O frasco de ópio está aqui nesta gaveta do lavatório. Não lhe faça isto mal, meu Deus!
— Não, não, minha Betty! Ah! Está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a conversar comigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa esperar. Está então naquela gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? Sou feliz. Não quero dormir. Conta-me uma história.
A pobre criatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos fitos na gaveta do lavatório. Betty falava, falava! Eu ouvia as suas palavras sem compreender, como se ouve um murmúrio de água.
X
A tarde descia no entanto, e eu sentia uma inquietação, uma angústia crescente.
Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes daquela noite. Não o exigirá decerto. Nada seria mais terrível do que ter de redigir e colorir o meu crime. Perdoe-me a confusão aflita das minhas palavras e os arabescos trémulos da minha letra.
Eram dez horas da noite: fui à casa n.º... Rytmel estava lá. Achei-o pálido, e instintivamente estremeci. Conversámos. Enquanto ele falava, eu olhava-o avidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão húmida o bolso do meu vestido: tinha nele o frasco do ópio. Era um frasco de cristal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel nessa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do seu coração? Era uma retórica artificial à flor dos lábios, enganadora, como um pano de teatro? Não o sabia: só as cartas dela mo poderiam revelar, e ele tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha infelicidade insondável, ou a imensa pacificação do meu futuro! Podia porventura hesitar? — Ele falava no entanto. Eu tremia toda. Olhava fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé de uma garrafa de cristal da Boémia. O reposteiro da alcova achava-se corrido: dentro estava escuro.
Betty tinha ido comigo, e ficara num quarto distante, que dava para uns terrenos vagos...
— E se houvesse um desastre! — pensei eu de repente. — Não há pessoas que sucumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no túmulo?
Mas eu via sempre a saliência da carteira, que me tentava como uma coisa resplandecente e viva. Podia aproximar-me dele de repente, enfraquecê-lo ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente, arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu cupé, e fugir. Mas se ele resistisse? Se perdesse a consciência da sua dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?
Não podia ser. Era necessário que dormisse tranquilamente! Se as cartas fossem inocentes, simples, inexpressivas, como eu ajoelharia depois, ao pé do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ânsia feliz que ele acordasse! Que aurora sublime acharia ele nos meus olhos quando os seus se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!
Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com água. Bebia aos pequenos golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de ópio no copo.
Tive um expediente trivial, estúpido.
— Rytmel — disse eu, como num teatro, como nas comédias de Scribe, com uma voz imbecilmente risonha — vá dizer a Betty, que pode ir, se quiser. A pobre criatura dormiu pouco, está doente.
Ele saiu; ergui-me. Mas ao aproximar-me da mesa, defronte do copo, fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessário, eu tinha-o ouvido falar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco, e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvaziei-o no copo.
Ele entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula, em suor frio, e, não sei porquê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e quase chorando:
— Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.
Ele sorriu. E — meu Deus! — aproximou-se, creio que sorriu, e tomou o copo! E com o copo na mão:
— E sabe — disse ele — que ninguém o crê mais do que eu!... Se não fosse o teu amor como poderia eu viver?
E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da água, parecia-me vagamente esverdeada. Via as cintilações do cristal facetado.
Finalmente bebeu!
... Desde esse momento fiquei num terror. Se ele morresse? Meu Deus, porquê? Não se dá ópio às crianças, aos doentes? Não é ele a clemente pacificação das dores? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua amiga, tão terna com ele, para me absolver daquela aventura imprudente! Ainda que seja culpado, amá-lo-ei! pensava eu. Pobre dele! Não lhe bastava ter de dormir assim forçadamente num sono pesado e cruel? Amá-lo-ia, culpado. Traída, amá-lo-ia ainda!
Ele, entretanto, estava calado, no sofá, com a cabeça encostada. De repente pareceu-me vê-lo empalidecer, ter uma ânsia, sorrir. Não sei o que houve então. Não me lembra se falámos, se ele adormeceu brandamente, se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.
Achei-me ajoelhada ao pé dele. Devia ser meia-noite. Estava imóvel, deitado no sofá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o lívido, não me atrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto numa distracção idiota. Cobri-o com uma manta.
— Vai acordar — dizia eu maquinalmente.
Compus-lhe os cabelos ligeiramente desmanchados. De repente a ideia da morte apareceu-me nítida e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de todas as coisas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura...
— Rytmel! Rytmel!
E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei, olhei-o avidamente, precipitei-me sobre o corpo dele, gritando sufocada:
— Rytmel! Rytmel!
Ergui-o: a alucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e nesse momento senti o volume, a saliência que na sua casaca fazia a carteira. Veio-me a ideia das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as ler. Tirei-lhe a casaca; era difícil; os seus músculos estavam hirtos. Junto com a carteira havia outros papéis e um maço de notas de banco. Ao tomá-los, os papéis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as, apertei-as na gravata branca e meti tudo no bolso.
Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos em Rytmel. Pela primeira vez vi a contracção mortal do seu rosto. Chamei-o, falei-lhe! Estava frenética! Porque não queria ele acordar? Empurrei-o, irritei-me com ele. Porque estava assim; porque me fazia chorar? Tinha vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.
— Acorda! Acorda!
Insensível! Insensível! Morto! Ouvi passar na rua um carro. Havia pois alguém vivo?
De repente, não sei porquê, lembrei-me que tinha esvaziado o frasco! Deviam ser só duas gotas! Estava morto!
Gritei:
— Betty! Betty!
Ela apareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto dele. Ajoelhei. Chamei-o. Quis dar-lhe um beijo: toquei-lhe com os lábios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive horror dele. Tive medo do seu rosto lívido, das suas mãos geladas!
— Betty, Betty, fujamos!
Consciência, vontade, raciocínio, pudor, perdi tudo aos pedaços. Tinha medo, somente medo, um medo trivial, vil!
— Fujamos! Fujamos!
Não sei como saí.
Fora da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! Caminhava, crescia! Havia alguém, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser sangue! A luz crescia. Esperei, a tremer. Aquilo caminhava para mim. Aproximava-se! Eu estava encostada à porta, na sombra, fria de pedra. A luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma lanterna. Iam levar a alguém a extrema-unção...
Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar, sem saber para onde, como louca.
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