O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós · Capítulo 2 de 11

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O Mistério da Estrada de Sintra

Exposição do Doutor

 

 

I

 

Sr. Redactor do Diário de Notícias:

 

Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário, em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substância, pelo menos, do que vou expor.

Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantíssima como chave única para a desencerração de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele senão um só acto e ignore inteiramente quais foram as cenas precedentes e quais tenham de ser as últimas.

Há três dias que eu vinha dos subúrbios de Sintra em companhia de F..., um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.

Montávamos dois cavalos que F... tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Sintra por um criado que viera na véspera para Lisboa. Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A melancolia do lugar e da hora tinha-se-nos comunicado, e vínhamos silenciosos, abstraídos na paisagem, caminhando a passo.

A cerca talvez de meia distância do caminho entre S. Pedro e o Cacém, num ponto a que não sei o nome porque tenho transitado pouco naquela estrada, sítio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem.

Era um cupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha cor de castanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavalos. Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tínhamos de passar, e pareciam ocupados em examinar atentamente o jogo da carruagem. Um quarto indivíduo, igualmente de costas para nós, estava perto do valado, do outro lado do caminho, procurando alguma coisa, talvez uma pedra para calçar o trem.

— É o resultado das sob-rodas que tem a estrada — observou o meu amigo. — Provavelmente eixo partido ou alguma roda desembuchada.

Passávamos a este tempo pelo meio dos três vultos a que me referi, e F... tinha tido apenas tempo de concluir a frase que proferira, quando o cavalo que eu montava deu repentinamente meia volta rápida, violenta, e caiu de chapa.

O homem que estava junto do valado, ao qual eu não dava atenção porque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a máxima força as rédeas que ficavam para o lado dele e impelindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para o lado oposto. O cavalo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das pernas e tombou ao dar a volta rápida e precipitada a que o tinham constrangido. O desconhecido fez levantar o cavalo segurando-lhe as rédeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que ficara debaixo do cavalo. Este indivíduo tinha na voz a entoação especial dos homens bem-educados. A mão que me ofereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma máscara de cetim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapéu. Era um homem ágil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavalo. Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara luta entre o meu companheiro e os outros dois indivíduos que fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aquele de que já falei.

Puro Ponson du Terrail! dirá o Sr. Redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Sintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verosimilhança artística. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente.

F..., vendo o seu cavalo subitamente seguro pelas cambas do freio, tinha obrigado a largá-lo um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregara uma pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lho da mão.

Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha, no entanto, tirado da algibeira a chave de uma porta da casa de Sintra, e esporeava o cavalo estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça daquele que o tinha seguro. O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavalo empinado, apontou com a outra um revólver à cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade:

— Menos fúria! Menos fúria!

O que levara com o chicote na cabeça e ficara por um momento encostado à portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapéu que lhe caíra.

A este tempo o que me derribara o cavalo e me ajudara a levantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, daquelas a que chamam em França coups de poing e que varam uma porta a trinta passos de distância. Depois do que, me ofereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade:

— Parece-me mais cómodo aceitar um lugar que lhe ofereço na carruagem do que montar outra vez a cavalo ou ter de arrastar a pé daqui à farmácia da Porcalhota a sua perna magoada.

Não sou dos que se amedrontam mais prontamente com a ameaça feita com armas. Sei que há um abismo entre prometer um tiro e desfechá-lo. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavalo possante; somos ambos robustos; poderíamos talvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provável, em estrada tão frequentada como a de Sintra nesta quadra, do que aparecerem passageiros que nos prestassem auxílio.

Todavia, confesso que me sentia atraído para o imprevisto de uma tão estranha aventura.

Nenhum caso anterior, nenhuma circunstância da nossa vida nos permitia suspeitar que alguém pudesse ter interesse em exercer connosco pressão ou violência alguma.

Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia também que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicídio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espírito sossegado penso no acontecido, vejo que a minha conjectura se baseava em várias circunstâncias dispersas, nas quais, ainda que de relance, eu atentara, mesmo sem propósito de análise. Lembro-me, por exemplo, que era de cetim alvadio o forro do chapéu do que levara a pancada na cabeça. O que apontara o revólver a F... trazia calçada uma luva cor de chumbo apertada com dois botões. O que me ajudara a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas: as calças, de casimira cor de avelã, eram muito justas e de presilhas. Trazia esporas.

Não obstante a disposição em que me achava de ceder da luta e de entrar no trem, perguntei em alemão ao meu amigo se ele era de opinião que resistíssemos ou que nos rendêssemos.

— Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! — disse gravemente um dos desconhecidos. — Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes saímos ao caminho, mascarados. Damos-lhe a nossa palavra de que amanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavalos ficarão em Sintra daqui a duas horas.

Depois de uma breve relutância, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no cupé. Eu segui-o.

Cederam-nos os melhores lugares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavalos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; os outros dois entraram connosco e sentaram-se nos lugares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os estores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.

No momento de partirmos, o que ia a guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fora uma charuteira de palha de Java. Pela fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a máscara que tinha no rosto e partimos a galope.

Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um ónibus, talvez uma sege. Se me não iludi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavalos, um dos quais é ruço e o outro castanho, e poderão talvez dar notícia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O cupé era, como já disse, verde e preto. Os estores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.

Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.

Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo por que lhe oculto o meu nome e o nome do meu amigo.

 

II

 

Julho, 24 de 1870. — Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por V. no lugar destinado ao folhetim do seu periódico. Em vista da colocação dada ao meu escrito procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal.

Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surpreendidos na estrada de Sintra. Foi quarta-feira, 20 do corrente mês de Julho.

Passo de pronto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o diálogo que travámos, tanto quanto me seja possível, com as mesmas palavras que nele se empregaram.

A carruagem partiu na direcção de Sintra. Presumo, porém, que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não pressentiram pela intercadência da velocidade no passo dos cavalos. Levaram-me a supô-lo, em primeiro lugar as diferenças de declive no nível do terreno, conquanto estivéssemos rodando sempre em uma estrada macadamizada e lisa; em segundo lugar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do cupé coada de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com relação ao Sol que se escondia no horizonte.

Havia, evidentemente, o desígnio de nos desorientar no rumo definitivo que tomássemos.

É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossível decidir se ia de Lisboa para Sintra ou se vinha de Sintra para Lisboa.

Na carruagem havia uma claridade baça e ténue, que todavia nos permitia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relógio. Eram sete e um quarto.

O desconhecido que ia defronte de mim examinou também as horas. O relógio, que ele não introduziu bem na algibeira do colete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relógio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da notícia que dou dele, pelas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado oposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido.

Havia poucos momentos que caminhávamos, quando o indivíduo sentado defronte de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhássemos, nos disse:

— Eu julgo inútil asseverar-lhes que devem tranquilizar-se inteiramente quanto à segurança das suas pessoas...

— Está visto que sim — respondeu o meu amigo. — Nós estamos perfeitamente sossegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têm coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão criança que se apavore com o aspecto das suas máscaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal; nós devemos pela nossa parte anunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos desagradável, nada nos seria mais fácil do que arrancar-lhes as máscaras, arrombar os estores, convidá-los perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxá-los em seguida aos cuidados policiais do regedor da primeira paróquia que atravessássemos. Parece-me, portanto, justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. Doutro modo ficaríamos todos grotescos: os senhores terríveis, e nós assustados.

Conquanto estas coisas fossem ditas por F... com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvi-lo. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovelo num joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para trás e como se mudasse de resolução:

— No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez que eu fizesse e dissesse o mesmo no seu lugar.

E, tendo meditado um momento, continuou:

— Que diriam, porém, os senhores se eu lhes provasse que esta máscara em que querem ver apenas um sintoma burlesco é em vez disso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento um desses romances como há muitos: uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja há um ano. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está grávida. Que deliberação há-de tomar?

Houve um silêncio.

Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude daquele problema e respondi:

— Enviar ao marido uma escritura de separação em regra. Depois, se é rica, ir com o amante para a América ou para a Suíça; se é pobre, comprar uma máquina de costura e trabalhar para fora numa água-furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa nessas condições, num cottage à beira do lago de Genebra ou num quarto de oito tostões ao mês na Rua dos Vinagres. Morre-se igualmente, de tísica ou de tédio, no esfalfamento do trabalho ou no enjoo do idílio.

— E o filho?

— O filho, desde que está fora da família e fora da lei, é um desgraçado cujo infortúnio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pai clandestino. Se os pais fazem como a legislação, e mandam buscar gente à estrada de Sintra para perguntar o que se há-de fazer, o melhor para o filho é deitá-lo à roda.

— O doutor discorre muito bem como filósofo distinto. Como puro médico, esquece-lhe talvez que na conjuntura de que se trata, antes de deitar o filho à roda há uma pequena formalidade a cumprir, que é deitá-lo ao mundo.

— Isso é com os especialistas. Creio que não é nessa qualidade que estou aqui.

— Engana-se. É precisamente como médico, é nessa qualidade que aqui está e é por esse título que viemos buscá-lo de surpresa à estrada de Sintra e o levamos a ocultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa dele.

— Mas eu não faço clínica.

— É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir nesta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma tese de cirurgia que despertou a atenção e mereceu o elogio da Faculdade. Queira fazer de conta que vai assistir a um parto.

O meu amigo F... pôs-se a rir e observou:

— Mas eu que não tenho o curso médico nem tese alguma de que me acuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?

— Quer saber o motivo por que se encontra aqui?... Eu lho digo.

Neste momento, porém, a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros, sobressaltados, ergueram-se.

 

III

 

Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir sucessivamente as duas lanternas e raspar um fósforo na roda. Senti depois estalar a mola que comprime a portinha que se fecha depois de acender as velas, e rangerem nos anéis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando.

Não compreendi logo a razão por que nos tivéssemos detido para semelhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.

Isto, porém, explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em lugar onde houvesse gente. Se tivéssemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a acender-se e que nós veríamos através da cortina ou das fendas dos estores, poderiam dar-nos alguma ideia do sítio em que nos achássemos. Por esta forma esse meio de investigação desaparecia. Ao passarmos entre prédios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão dessa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessávamos uma aldeia ou uma rua iluminada.

Logo que a carruagem começou a rodar depois de acesas as lanternas, aquele dos nossos companheiros que prometera explicar a F... a razão por que ele nos acompanhava, prosseguiu:

— O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente neste mundo três amigos meus, amigos íntimos, companheiros de infância, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente pronto a prestar aos outros os derradeiros sacrifícios que pode impor a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um médico. Era mister obtê-lo e era ao mesmo tempo indispensável que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou amanhã pela manhã; não devendo saber ninguém quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indício vir a suspeitar um dia quem ela seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem fala, e qual é a casa em que vai entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma máscara; eis o motivo por que os senhores nos hão-de permitir que continuemos a ter cerrada esta carruagem e que lhes vendemos os olhos, antes de os apearmos defronte do prédio a que vão subir. Agora compreende — continuou ele dirigindo-se a F... —, a razão por que nos acompanha. Era-nos impossível evitar que o senhor viesse hoje de Sintra com o seu amigo, era-nos impossível adiar esta visita, e era-nos impossível também deixá-lo no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.

— A lembrança — notei eu — é engenhosa mas não é lisonjeira para a minha discrição.

— A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.

F... achava-se inteiramente de acordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando 0 espírito da aventura romanesca dos mascarados.

As palavras de F..., acentuadas com sinceridade e com afecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surpreendia desagradavelmente esse corte imprevisto. Ele, que tinha a réplica pronta e a palavra fácil, não achou que retorquir à confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silêncio que devia pesar às suas tendências expansivas e discursadoras.

É verdade que pouco depois deste diálogo 0 trem deixou a estrada de macadame em que até aí rodara e entrou num caminho vicinal ou num atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrépito dos estores embatendo nos caixilhos mal permitiram conversar. Tornámos por fim a entrar numa estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:

— Lá vou!

Voltou pouco depois, e eu ouvi alguém que dizia:

— Vão com raparigas para Lisboa.

O trem prosseguiu.

Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-ia com os meus companheiros a frase que eu ouvira?

Não posso dizê-lo com certeza.

A carruagem entrou logo depois num pavimento lajeado e daí a dois ou três minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:

— Chegámos.

O mascarado, que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma comoção:

— Tenham paciência! Perdoem-mo... Assim é preciso!

F... aproximou o rosto, e ele vendou-lhe os olhos. Eu fui igualmente vendado pelo que estava em frente de mim.

Apeámo-nos em seguida e entrámos num corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e demos passagem a alguém que saía. Quem quer que era disse:

— Levo o trem?

A voz do que nos guiara respondeu:

— Leva.

Demorámo-nos um momento. A porta por onde havíamos entrado foi fechada à chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:

— Vamos!

Demos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar.

Ninguém tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.

Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie de sobressalto pueril.

Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.

— Podem tirar os lenços — disse-nos um dos nossos companheiros.

Descobri os olhos. Era noite.

Um dos mascarados raspou um fósforo, acendeu cinco velas numa serpentina de bronze, pegou na serpentina, aproximou-se de um móvel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.

Não pude conter a comoção que senti, e soltei um grito de horror.

O que eu tinha diante de mim era o cadáver de um homem.

 

IV

 

Escrevo-lhe hoje fatigado e nervoso. Todo este obscuro negócio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para compreender a secreta verdade desta aventura, os hábitos da minha vida repousada subitamente exaltados — tudo isto me dá um estado de irritação mórbida que me aniquila.

Logo que vi o cadáver perguntei violentamente:

— Que quer isto dizer, meus senhores?

Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:

— Não há tempo para explicações. Perdoem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Que tem? Está morto? Está adormecido com algum narcótico?

Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogadora que eu, dominado pelo imprevisto daquela situação, aproximei-me do cadáver, e examinei-o. Estava deitado numa chaise-longue, com a cabeça pousada numa almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descansando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha sinais de congestão, nem vestígios de estrangulação. A expressão da fisionomia não denotava sofrimento, contracção ou dor. Os olhos cerrados frouxamente, eram como num sono leve. Estava frio e lívido.

Não quero aqui fazer a história do que encontrei no cadáver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações científicas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a análise ou a autópsia, pareceu-me que aquele homem estava sob a influência já mortal de um narcótico, que não era tempo de dominar.

— Que bebeu ele? — perguntei, com uma curiosidade exclusivamente médica.

Não pensava então em crime nem na misteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma história progressiva dos fados que tinham determinado a narcotização.

Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da chaise-longue sobre uma cadeira de estofo.

— Não sei — disse ele — talvez aquilo.

O que havia no copo era evidentemente ópio.

— Este homem está morto — disse eu.

— Morto! — repetiu um deles, tremendo.

Ergui as pálpebras do cadáver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrível.

Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:

— Ignoro o motivo por que vim aqui; como médico de um doente sou inútil; como testemunha posso ser perigoso.

Um dos mascarados veio para mim e com uma voz insinuante e grave:

— Escute, crê, em sua consciência, que esse homem esteja morto?

— Decerto.

— E qual pensa que fosse a causa da morte?

— O ópio; mas creio que devem sabê-lo melhor do que eu os que andam mascarados surpreendendo gente pela estrada de Sintra.

Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.

— Perdão — disse um —, e há que tempo supõe que esse homem esteja morto?

Não respondi, pus o chapéu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... junto da janela, batia o pé impaciente. Houve um silêncio.

Aquele quarto pesado de estofos, o cadáver estendido com reflexos lívidos na face, os vultos mascarados, o sossego lúgubre do lugar, as luzes claras, tudo dava àquele momento um aspecto profundamente sinistro

— Meus senhores — disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem — compreendem perfeitamente, que se nós tivéssemos morto este homem sabíamos bem que um médico era inútil, e uma testemunha importuna! Desconfiávamos, é claro, que estava sob a acção de um narcótico, mas queríamos adquirir a certeza da morte. Por isso o trouxemos. A respeito do crime, estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso à polícia, se cercámos de mistério e de violência a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receávamos que as indagações que se pudessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cúmplice, alguém que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações...

— Essas explicações são absurdas! — gritou F... — Aqui há um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitária, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circunstâncias têm um mistério tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntária assistência, ser parte neste negócio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquela porta.

Com a violência dos seus gestos, um dos mascarados riu.

— Ah! Os senhores escarnecem! — gritou F...

E arremessando-se violentamente contra a janela, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre ele, curvaram-no, arrastaram-no até uma poltrona, e deixaram-no cair, ofegante, trémulo de desespero.

Eu tinha ficado sentado e impassível.

— Meus senhores — observei — notem que enquanto o meu amigo protesta pela cólera, eu protesto pelo tédio.

E acendi um charuto.

— Mas, com os diabos! tomam-nos por assassinos! — gritou um violentamente. — Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a máscara, tiro-a eu! É necessário que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por um assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem.

E fez um gesto furioso. Neste movimento, a máscara desapertou-se, descaindo. Ele voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instintivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-no, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassível. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silêncio. Os mascarados, a um canto, falavam baixo. Eu, no entanto, examinava a sala.

Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete mole, espesso, bom para correr com os pés nus. O estofo dos móveis era de seda vermelha com uma barra verde, única e transversal, como têm na antiga heráldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janelas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tépido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala.

O homem que estava morto era moço, de perfil simpático e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e colete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de pérolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma cor clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.

Pela fisionomia, pela construção, pelo corte e cor do cabelo, aquele homem parecia inglês.

Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, de um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os lugares onde ordinariamente se está, se fala e se vive, aquele quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas caídas, alguma destas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviais.

F... tinha-se aproximado de mim.

— Conheceste aquele a quem caiu a máscara? — perguntei.

— Não. Conheceste?

— Também não. Há um que ainda não falou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.

Um dos mascarados aproximou-se, perguntando:

— Quanto tempo pode ficar o corpo assim nesta chaise-longue?

Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colérico, mas conteve-se. Neste momento o mascarado mais alto, que tinha saído, entrara, dizendo para os outros:

— Pronto!...

Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pêndula e os passos de F..., que passeava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.

— Meus senhores — continuou voltando-se para nós o mascarado —, damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este sucesso. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quiserem. Imaginem que estão aqui pela violência, pela corrupção, pela astúcia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto — disse-me — é naquela alcova, e o seu — apontou para F... — lá dentro. Eu fico consigo, doutor, neste sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Amanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte à polícia ou escrever para os jornais.

Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquilidade. Não respondemos.

Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. Numa das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto de uma poltrona, uma coisa branca semelhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caído. Era efectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma coroa.

Neste momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F...:

— Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessário vendar-lhe os olhos.

F... tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu ele mesmo os olhos, e saíram.

Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz simpática e atraente.

Perguntou-me se queria jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo de água. Ele comeu.

Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quase em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado e tinha lido.

De repente, pouco depois da uma da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quarto onde estávamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobressaltados. O cadáver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes.

Eu estava aterrado. O silêncio era profundo; ouvia-se apenas o ruído da chave que a pessoa que estava fora às escuras procurava introduzir na fechadura.

Nós, imóveis, não respirávamos.

Finalmente a porta abriu-se, alguém entrou, fechou-a, acendeu um fósforo, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, imóvel, com os braços estendidos.

Amanhã, mais sossegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.

 

P. S. — Uma circunstância que pode esclarecer sobre a rua e o sítio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia-noite. O que cantava dizia esta quadra:

 

Escrevi uma carta a Cupido

A mandar-lhe perguntar

Se um coração ofendido...

 

Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notável esclarecimento dizendo em que rua passavam, e de fronte de que casa, quando cantaram aquelas rimas populares.

V

 

Hoje, mais sossegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nítido, nos diálogos e nos olhares, o que se seguiu à entrada imprevista daquela pessoa no quarto onde estava o morto.

O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de toilette. Voltou a si, e, ainda trémulo e pálido, o seu primeiro movimento instintivo foi correr para a janela!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violência para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

— Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo-lhe o coração!

— Vá, vá — disse eu — breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?

Ele não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia maquinalmente:

— Está perdido tudo! Está tudo perdido!

— Fale — disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço. — Que veio fazer aqui? Que é isto? Como soube?...

A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o cetim negro da máscara.

— Que veio fazer aqui? — repetiu agarrando-o pelos ombros e sacudindo-o como um vime.

— Escute... — disse o homem convulsivamente. — Vinha saber... disseram-me... Não sei. Parece que já cá estava a polícia... queria saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações...

— Sabe tudo! — disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.

Eu estava surpreendido: aquele homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadáver! Só ele o sabia, porque deviam ser decerto absolutamente ignorados aqueles sucessos lúgubres. Por consequência quem sabia onde estava o cadáver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao lugar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surpreendido, estava positivamente envolvido no crime...

— Quem lhe deu a chave? — perguntou o mascarado.

O homem calou-se.

— Quem lhe falou nisto?

Calou-se.

— Que vinha fazer, de noite, às escondidas, a esta casa?

Calou-se.

— Mas como sabia deste absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?...

E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptível do expediente que ia tomar, acrescentou:

— ... nós e o senhor comissário.

O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletó e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martelo e um maço de pregos.

— Para que era isto?

— Trazia naturalmente isso, queria consertar não sei quê, em casa... um caixote...

O mascarado tomou a luz, aproximou-se do morto, e por um movimento rápido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a lívida face do cadáver.

— Conhece este homem?

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e atento.

Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistência implacável nos olhos dele, dominei-o, disse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:

— Porque o matou?

— Eu? — gritou ele. — Está doido!

Era uma resposta clara, franca, natural, inocente.

— Mas porque veio aqui? — observou o mascarado. — Como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martelo? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou daqui a uma hora está no segredo, e daqui a um mês nas galés. Chame os outros — disse ele para mim.

— Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! — gritou o desconhecido.

Esperámos; mas retraindo a voz, e com um a entoação demorada, como quem dita:

— A verdade — prosseguiu — é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, número tantos...

Eu tive um movimento ávido, curioso, interrogador. Ia enfim saber onde estava!

Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôs-lhe a mão aberta sobre a boca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

— Se diz onde estamos, mato-o.

O homem fitou-nos: compreendeu evidentemente que eu também estava ali, sem saber onde, por um mistério; que os motivos da nossa presença eram também suspeitos, e que por consequência não éramos empregados da polícia. Esteve um momento calado e acrescentou:

— Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

— Está preso — gritou o mascarado. — Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.

— Esperem, esperem — gritou ele. — Não compreendo! Quem são os senhores? Supus que eram da polícia... São talvez... disfarçam para me surpreender! Eu não conheço aquele homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça!

— Este miserável há-de falar, ele tem o segredo! — bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astúcia. Ele tinha serenado, falava com inteligência e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Viseu. O mascarado escutava-nos, silencioso e atento. Eu, falando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Ele pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era fácil surpreender a verdade dos seus actos. Com um modo íntimo, confidencial, fiz-lhe perguntas aparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de análise. Ele, com uma boa-fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

— Ora — disse-lhe eu — uma coisa me admira em tudo isto.

— Qual?

— É que não tivesse deixado sinais o arsénico...

— Foi ópio — interrompeu ele, com uma simplicidade infantil.

Ergui-me de salto. Aquele homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.

— Sabe tudo — disse eu ao mascarado.

— Foi ele — confirmou o mascarado convencido.

Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:

— A comédia acabou, meu amigo, tire a sua máscara, apertemo-nos a mão, dêmos parte à polícia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que ver neste negócio.

— Decerto que não. Este homem é o assassino.

E voltando-se para ele com um olhar terrível, que flamejava debaixo da máscara:

— E porque o matou?

— Matei-o... — respondeu o homem.

— Matou-o — disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou — para lhe roubar 2.300 libras em bank-notes, que aquele homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas letras de prata, que eram as iniciais do seu nome.

— Eu!... para o roubar! Que infâmia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei!

— Que malditas contradições! — gritou o mascarado exaltado.

A. M. C. objectou lentamente:

— O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o único amigo que ele conhecia em Lisboa?

— Como sabe? — gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. — Fale, diga.

— Por motivos que devo ocultar — continuou o homem — sabia que este sujeito, que é estrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou há poucas semanas, vinha a esta casa...

— É verdade — atalhou o mascarado.

— Que se encontrava aqui com alguém...

— É verdade — disse o mascarado.

Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das ideias perturbada, via aparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicável.

— Além disso — continuou o homem desconhecido — há-de saber também que um grande segredo ocupava a vida deste infeliz...

— É verdade, é verdade — dizia o mascarado absorto.

— Pois bem, ontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava...

Nós esperávamos, petrificados, o fim daquelas confissões.

— Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.

E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.

— Leia — disse ele ao mascarado.

Este aproximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.

Ergui o papel, li:

I declare that I have killed myself with opium.

(Declaro que me matei com ópio.)

Fiquei petrificado.

O mascarado dizia com a voz absorta como num sonho:

— Não é possível. Mas é a letra dele, é! Ah! que mistério, que mistério!

Vinha a amanhecer.

Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até amanhã.

VI

 

Peço-lhe agora toda a sua atenção para o que tenho de contar-lhe.

A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruídos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Também não era uma rua larga, porque o eco das carroças era profundo, cheio e próximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.

O mascarado tinha ficado numa prostração extrema, sentado, imóvel, com a cabeça apoiada nas mãos.

O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.

Eu abri as portas da janela: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candeeiros. Entrava uma luz lúgubre, esverdeada.

— Meu amigo — disse eu ao mascarado — é dia. Coragem! É necessário fazer o exame do quarto, móvel por móvel.

Ele ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e à cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um pano de veludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um edredão de cetim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fofo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vazio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatório, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque.

Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame dela dava na verdade a persuasão de que se estava numa casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um lugar de entrevistas, e não um interior regular.

A casaca e o colete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da chaise-longue; o chapéu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletó estava caído ao pé da cama.

Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do colete estava o relógio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha de ouro, com dinheiro miúdo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de fora o ópio; não apareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em líquido ou em pó; e foi a primeira dificuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicídio.

Perguntei se não havia na casa outros quartos que comunicassem com aquele aposento e que devêssemos visitar.

— Há — disse o mascarado — mas este prédio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquela porta, que comunica com os demais quartos, encontrámo-la fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu desta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.

Como tinha então trazido o ópio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer invólucro que contivesse o narcótico devia aparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da água opiada, ali estava. Um indício mais grave parecia destruir a hipótese do suicídio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que ele a tivesse tirado, que a tivesse destruído ou lançado fora. Não era também racional que tendo vindo àquele quarto esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguém, pois, tinha estado naquela casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo dela. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto.

Ora a presença de alguém naquele quarto, coincidindo com a estada do suposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicídio e dava presunções ao crime.

Aproximámo-nos da janela, examinámos detidamente o papel em que estava escrita a declaração do suicida:

— A letra é dele, parece-me indubitável que é — disse o mascarado — mas, na verdade, não sei porquê, não lhe acho a feição usual da sua escrita!

Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da página a impressão muito apagada, muito indistinta, de uma firma e de uma coroa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era, portanto, papel marcado. Fiz notar esta circunstância ao mascarado; ele ficou surpreendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem penas. A declaração, pois, tinha sido escrita e preparada fora.

— Eu conheço o papel de que ele usava em casa — disse o mascarado —, não é deste; não tinha firma, não tinha coroa. Não podia usar doutro.

A impressão da marca não era bastante distinta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a coroa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escrita nem em casa dele, onde não havia daquele papel, nem naquele quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um buvard, um lápis.

Teria sido escrita fora, na rua, ao acaso? Em casa de alguém? Não, porque ele não tinha em Lisboa, nem relações íntimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com coroa.

Teria sido feita numa loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem coroas.

Seria a declaração escrita em alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia também natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o envelope.

Demais a folha tinha um aroma de pós de marechala, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estávamos.

Além disso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestígio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou húmido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e acetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indício era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente eficaz e seguro.

— Este homem — notou ele — tinha o costume invariável, mecânico, de escrever, abreviando-a, a palavra that, deste modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só dele, original, desconhecida. Nesta declaração, aliás pouco inglesa, a palavra that acha-se escrita por inteiro.

Voltando-se para M. C.:

— Porque não apresentou logo este papel? — perguntou o mascarado. — Esta declaração foi falsificada.

— Falsificada! — exclamou o outro, erguendo-se com sobressalto ou com surpresa.

— Falsificada; feita para encobrir o assassinato; tem todos os indícios disso. Mas o grande, o forte, o positivo indício é este: onde estão as 2.300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?

M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.

— Não aparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.

— Senhor — observou gravemente A. M. C. — fala-me em 2.300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.

Eu então disse lentamente, pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo:

— Esta declaração é falsa, evidentemente; não percebo o que quer dizer este novo negócio das 2.300 libras, de que só agora se fala; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cúmplice é uma mulher.

— Não pode ser, doutor! — gritou o mascarado. — É uma suposição absurda.

— Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, iluminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés daquela volteriana aquele tapete feito de uma pele de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestígio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...

— Ou a qualquer outro fim.

— E este papel? Este papel de marca pequeníssima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?

— Muitos homens o usam!

— Mas não o cobrem como este foi coberto, com um sachet em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente desta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que ele encerra, que assistiu a ela, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos húmidos, deixando no papel um vestígio tão claro...

O mascarado calava-se.

— E um ramo de flores murchas, que está ali dentro? Um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... É o vestígio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabelo!

— Esse ramo podiam ter-lho dado, podia tê-lo trazido ele mesmo de fora.

— E este lenço que encontrei ontem debaixo de uma cadeira?

E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou nele avidamente, examinou-o e guardou-o.

M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquilado pela dura lógica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com uma voz humilde, quase suplicante:

— Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indícios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?

— E não se lembra também que não lhe encontrámos gravata?

O mascarado calou-se sucumbido.

— No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte — exclamei eu. — Deploro vivamente esta morte, e falo nisto unicamente pelo pesar e pelo horror que ela me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caísse às mãos de uma mulher ou às mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não pode ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair.

— Tem razão, vai sair já — cortou o mascarado.

E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:

— Um momento! Eu volto já!

E saíram ambos pela porta que comunicava como interior da casa, fechando-a à chave pelo outro lado.

Fiquei só, passeando agitadamente.

A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos daqueles que me haviam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol.

Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.

Maquinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.

Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com estranha comoção, sobre a alvura do travesseiro, preso num botão de madrepérola, um longo cabelo louro, um cabelo de mulher.

Não me atrevi logo a tocar-lhe. Pus-me a contemplá-lo, ávida e longamente.

— Era então certo! Aí estás, pois! Encontro-te finalmente... Pobre cabelo! Apieda-me a simplicidade inocente com que te ficaste aí, patente, descuidado, preguiçoso, lânguido! Podes ter maldade, podes ter malvadez, mas não tens malícia, não tens astúcia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não coras; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no entanto, ténue, exígua, quase microscópica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ela autora do crime? É inteiramente inocente? É apenas cúmplice? Não sei, nem tu mo poderás dizer.

De repente, tendo continuado a considerar o cabelo, por um processo de espírito inexplicável, pareceu-me reconhecer de súbito aquele fio louro, reconhecê-lo em tudo: na sua cor, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, apareceu-me então a mulher a quem aquele cabelo pertencia! Mas quando o nome dela me veio insensivelmente aos lábios, disse comigo:

— Ora! Por um cabelo! Que loucura!

E não pude deixar de rir.

Esta carta vai já demasiadamente longa. Continuarei amanhã.

VII

 

Contei-lhe ontem como inesperadamente havia encontrado à cabeceira da cama um cabelo louro.

Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo luminoso, languidamente enrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido.

A pessoa a quem ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, mignonne, porque o fio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente organizada.

O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.

Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.

Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, porque o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, hábito das mulheres do Norte, completamente estranho às meridionais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura natural.

Isto eram apenas conjecturas, deduções da fantasia, que nem constituem uma verdade científica, nem uma prova judicial. Esta mulher, que eu reconstruía assim pelo exame de um cabelo, e que me aparecia doce, simples, distinta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astúcia daquela oculta tragédia? Mas conhecemos nós, porventura, a secreta lógica das paixões?

Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cúmplice. Aquele homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o ópio. O narcótico tinha-lhe sido dado, sem violência evidentemente, por ardil ou engano, num copo de água. A ausência do lenço, o desaparecimento da gravata, a colocação do fato, aquele cabelo louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença de alguém naquela casa durante a noite da catástrofe. Por consequência: impossibilidade de suicídio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabelo, a disposição da casa (evidentemente destinada a entrevistas íntimas), aquele luxo da sala, aquela escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte dela naquela aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cúmplice, o ocultador do cadáver? Não sei. M. C. não podia ser estranho a essa mulher. Não era decerto um cúmplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar ópio num copo de água não é necessário chamar um assassino assalariado. Tinham por consequência um interesse comum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E acudia-me à memória aquela inesperada referência a 2.300 libras que de repente me tinha aparecido como um novo mistério. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei-de repetir eu todas as ideias que se formavam e que se desmanchavam no meu cérebro, como nuvens num véu varrido pelo vento?

Há decerto na minha hipótese ambiguidades, contradições e fraquezas, há nos indícios que colhi lacunas e incoerências: muitas coisas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memória, mas eu estava num estado mórbido de perturbação, inteiramente desorganizado por aquela aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mistérios, se instalara na minha vida.

O senhor redactor, que julga de ânimo frio, os leitores, que sossegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deduções mais certas, e melhor aproximar-se pela indução e pela lógica da verdade oculta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapéu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.

— Vamos — disse ele.

Tomei calado o meu chapéu.

— Uma palavra antes — disse ele. — Em primeiro lugar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora à carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.

— Bem! — continuou — agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu carácter, a sua delicadeza. Ser-me-ia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdém, ou necessidades de vingança. Por isso afirmo-lhe: sou perfeitamente estranho a este sucesso. Mais tarde talvez entregue este caso à polícia. Por ora sou eu polícia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um cárcere. Vejo que o doutor leva daqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu neste crime: não o suponha, não podia ser. No entanto, se alguma vez lá fora falar, a respeito deste caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnância, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.

E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os estores fechados. Não pude ver quem guiava os cavalos porque só dentro do cupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pele era fina, pálida, o cabelo castanho, levemente anelado.

A carruagem seguiu um caminho, que pelos acidentes da estrada, pela diferença de velocidade indicando aclives e declives, pelas alternativas de macadame e de calçada, me parecia o mesmo que tínhamos seguido na véspera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.

— Ah, doutor! — dizia o mascarado com desenfado — sabe o que me aflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se pôde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacém fica a dois passos, e aí encontra facilmente condução para Lisboa.

E ofereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.

— Chegámos — disse o mascarado. — Adeus, doutor.

E abriu por dentro a portinhola.

— Obrigado! — acrescentou. — Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permita Deus que ambos tenhamos no aplauso das nossas consciências e no prazer que dão cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da cena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!

Apertámo-nos a mão, eu saltei. Ele fechou a portinhola, abriu os estores e estendendo-me para fora um pequeno cartão:

— Guarde essa lembrança — disse — é o meu retrato.

Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a fotografia avidamente, olhei. O retrato estava também mascarado!

— É um capricho do ano passado, depois de um baile de máscaras! — gritou ele, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.

Vi-a afastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapéu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.

Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquele trem levava consigo um segredo inexplicável. Nunca mais veria aquele homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.

O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sofá, que lhe servia de sarcófago!

Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancólica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponês apareceu vindo do lado oposto àquele por onde ele desaparecia.

— Onde fica o Cacém?

— De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de légua.

A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Sintra.

Cheguei ao Cacém fatigado. Mandei um homem a Sintra, à quinta de F..., saber se tinham chegado os cavalos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janela, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as árvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavalo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quase indistinto do cavaleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.

Tomei informações a respeito da carruagem que passara na véspera connosco. Havia contradições sobre a cor dos cavalos.

Voltou de Sintra o homem que eu ali mandara, dizendo que na quinta de F... tinham sido entregues os cavalos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacém, tinham encontrado um amigo que os levara consigo em uma caleche para Lisboa. Daí a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F... O criado tinha recebido este bilhete a lápis: Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F... estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.

Entregar à polícia este negócio, tão vago e tão incompleto como ele é, seria tornar-me o denunciante de uma quimera. Sei que, em resultado das primeiras notícias que lhe dei, o governador civil de Lisboa oficiou ao administrador de Sintra convidando-o a meter o esforço da sua polícia no descobrimento deste crime. Foram inúteis estas providências. Assim devia ser. O sucesso que constitui o assunto destas cartas está por sua natureza fora da alçada das pesquisas policiais. Nunca me dirigi às autoridades, quis simplesmente valer-me do público, escolhendo para isso as colunas populares do seu periódico. Resolvi homiziar-me, receando ser vítima de uma emboscada.

São óbvias, depois disto, as razões por que lhe oculto o meu nome: assinar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetrável retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do Sol nascente através das minhas gelosias. Ouço os pregões dos vendedores matinais, os chocalhos das vacas, o rodar das carruagens, o murmúrio alegre da povoação que se levanta depois de um sono despreocupado e feliz... Invejo aqueles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, mourejam na rua. Eu — pobre de mim! — estou encarcerado por um mistério, guardado por um segredo!

P. S. — Acabo de receber uma longa carta de F... Esta carta, escrita há dias, só hoje me veio à mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Aí tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte dessa carta, da qual depois de amanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento neste obscuro sucesso; é um vestígio luminoso e profundo. F... é um escritor público, e descobrir pelo estilo um homem é muito mais fácil do que reconstruir sobre um cabelo a figura de uma mulher. É gravíssima a situação do meu amigo. Eu, aflito, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me à decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autógrafo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se puderem. Adeus!