O passeio dos bardos ao Baldeador

Floriano Alves da Costa · Capítulo 3 de 4

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O passeio dos bardos ao Baldeador

O Passeio dos Bardos ao Baldeador.

Folgam no campo os naturaes prazeres,

E a rustica alegria apraz aos Deuses.

C --P .

 

O PASSEIO DOS BARDOS AO

BALDEADOR.

 

Que se désse um passeio além das plagas D'esta bella cidade do Janeiro,

Entre si dois amigos1 decidiram, Dando d'est'arte distracção mais ampla

Ás tão communs fadigas do trabalho.

Foi então escolhido o amêno sitio

Que de Baldeador lhe dão o nome;

E já de antemão fruindo mil prazeres,

Descreviam na mente os dois amigos,

Os tantos regozijos que se gozam

No bello apreciar do bello campo,

Já contemplando a basta Natureza,

Já gostando real simplicidade,

Que difficil se encontra, ou não existe

N'esta nossa cidade populosa!

Concebido o passeio, concordaram

Que no dia seguinte se embarcassem

Em direcção ao porto do Coqueiro,

De onde então a pé seguir deviam

Té o sitio por elles destinado,

Onde, diante só da Natureza,

Que n'esta nossa terra tanto sobra,

Resfolegar pudessem os enlevos

Que offerece o risonho panorama

Das montanhas, dos bosques, dos oiteiros, Onde tanta poesia se reúne,

Onde a alma do Bardo se extasia,

No dôce meditar que o arrebata!...

Gasto o dia anterior a esse dia

Em que tanto pensavam estes jovens,

Ao ponto destinado foram ambos

Afim de ahi a elles se juntarem

Mais dois amigos,2 que tomaram parte No bello distrair d'este passeio,

Que tão grato prazer annunciava,

N'um folgar tão ridente. Ahi se achavam

Em breve reúnidos todos quatro,

Quando em meio era o dia do seu giro:

Almo prazer em todos respirava,

Deu-se a voz da partida, eil-os s'embarcam.

Em sujo batel da roça,

De cargas todo tomado,

Entraram os quatro amigos

Qual em pensar mais ousado:

Cada um já assentado

Contemplava o borborinho

Que se fazia sentir

No tão pequeno barquinho.

De vinte quatro pessôas

Já elle tomado estava;

Mulheres, homens e cargas

Tudo mal se acommodava:

Entretanto, a tudo dava

Maior graça, mais acção,

Os ditos que proferia

Do tal barquinho o patrão.

Este, assentado na pôppa,

Tomando do leme conta,

Para seguir a viagem

Bem galhardo já se aprompta:

A prôa do barco aponta

Para o sitio desejado;

Soltam-se as vélas e vê-se

Já o ferro levantando...

O vento a favôr

Que então se agitava,

No barco empregava

Toda actividade,

Que em breve a cidade

Nos fez tão distante,

Que olhar penetrante

Não mais descobria.

Na vasta bahia

Então nos achámos,

E a vista espraiámos

Em seus arredores:

Os bellos verdores

Das ilhas formosas,

Serras alterosas

Fomos contemplando.

Fomos desfructando

Todo o panorama,

Que assaz se darrama

N'esta bella terra,

Aonde se encerra

Tanta poesia,

De noite e de dia,

Em todo o lugar...

N'estes bellos contemplar

Todos engolfados iam,

Que nem ao menos sentiam

Do sol os ardentes raios.

Tal era o contentamento

Que a todos dominava,

Em tudo graça se achava,

Tudo era riso e ventura.

Esquesitos pensamentos

Pelo patrão emittidos,

Feriam mais os sentidos

Da bella reunião.

Pois ninguem mais desejava

Do que nós, se divertir;

Em todos, dôce sorrir

Ineffabil se mostrava.

Entanto o activo vento

Mais e mais se redobrava,

O barco quase voava

Impellido pela força;

Té que tanto foi crescendo

E a tal ponto se elevou,

Qu'em breve se rebentou

Uma das duas escôtas.

Aos gritos de--férra a véla--

A risada foi geral,

Fazendo-se mais cabal

O nosso divertimento.

E em taes brincos

Nos engolfando,

Fômos passando

Toda a bahia.

Em todos, prazer

Se manifestava,

Em todos reinava

O contentamento,

E em complemento

A dôce alegria

De todos se via

No rosto expressar.

De tantos enlêvos

Foi o só motôr,

O Baldeador

Já tão desejado!

E tudo já tendo

Bem analisado,

Conforme o ensejo

Nos foi permittindo,

De--terra--uma voz

Se deu, e nós todos

Do barco da roça

Nos fômos saindo.

Então avistámos,

Mesmo á nossa frente,

Um alto coqueiro

Já envelhecido,

O qual nome deu

Ao porto, que achámos

De curta extenção,

Mas appetecido.

Pequenas casinhas,

Em numero breve,

De tôsco trabalho,

Sem ordem alguma,

Postadas em fila

Ao longo da praia...

Do Coqueiro o porto

Este é, em summa.

E já em terra todos, espraiamos

A vista ao derredor do porto ameno;

Tudo n'elle animava, e assaz se via

A Natureza em tudo derramada

N'este sitio tão bello e pitoresco.

Aqui, de uma janella se mostrava

Como que a mêdo a púdica donzella;

Ali, o ancião curvado de annos

Desfructava do porto a vista bella;

Estes, debaixo dos tamarinheiros,

Que em frente ás casas ficam, junto á praia, Abrigados do sol, se distraiam

C'os novos viajôres que saltavam....

Oh! como é bello o habitar bem longe,

Bem longe, das cidades grandiosas!

Ali, a Natureza em toda a parte,

Nos homens e animaes, na flôr, nas hervas, Nas casas, nos costumes dos seus povos; Aqui o luxo e o estridor dos carros

D'esses grandes do mundo... e o labyrinto... Tudo é confusão, tudo é buliço....

Oh! como é bello o habitar bem longe,

Bem longe das cidades grandiosas!

Desfructa-se do campo almos prazeres,

No campo o home'em tudo s'extasia!...

E ahi nós tendo

Pago ao patrão,

E as nossas malas

Tendo na mão;

Dôce espanção

Dêmos á vista,

Pois que no porto

Nada contrista.

A estrada fômos

Depois tomando,

Que em frente 'stava

Se nos mostrando;

Fomos caminhando...

Por todo o passeio

Tudo era alegria,

Tudo era recreio.

E a casa avistámos, emfim,

Que pôz cabo á viagem comprida;

N'ella, a simplicidade esculpida

Nós achámos, no aspecto singelo.

Isolada n'um campo, onde finda

Mui custosa ladeira, escarpada,

Sem abrigos ao vento, assentada

Nós a vimos, e pois a saúdamos.

Oh! então a alegria se fez

Dignamente expressar em nós todos;

O contento se via nos modos,

Nas acções, nas palavras, nos rostos.

Já da casa as pessôas se apinham,

E contentes nos vêm receber;

Seus olhares expressam prazer,

Tudo é natureza e bom grado.

A cancella transpuzémos

E na casa nos achámos;

Declinava o sol então,

E á mesa nos sentámos,

Pois da fome já em nós

O effeito era sentido;

Bem depressa devorámos

O que então nos foi servido.

E tudo acabado

Deixamos a mesa;

Fômos logo vêr

Do sitio a belleza.

Na casa, pois, frequencia limitada

Nós tivemos, porque sómente o bosque,

O caminho, de matos abastado,

A si nos atraiam por um modo

Bem custoso de assaz o expressarmos:

Ahi, sob uma arvore frondosa,

Qual é a do Brasil bella mangueira,

A sombra desfructava-mos contentes

A mais dôce emoção de almos favôres,

Quaes os que a Natureza ha concedido

A este nosso paiz de primavera!

O regato que foge mansamente,

Em seu curso contínuo, murmurando,

Que após si as arêas e as pedrinhas

Leva, no deslisar do seu caminho;

O meigo sabiá, terno ao ouvido

Quando a sua canção gorgêa alegre;

O alvi-negro colleiro, cujo nome,

Amplamente lhe expressa a apparencia;

O serrador, passarinho, que n'um galho

Sempre pulando, arremedar parece

Da serra o exercicio na madeira;

O veloz beija-flôr, esvoaçando,

E no ar se retendo, p'ra d'est'arte

Melhor fruir da flôr o doce succo;

A leve mariquita, a borboleta,

De lindissimas côres matizada,

Que nos deleita a vista, e em nós desperta O poder vasto do Arbitro do Mundo....

Tudo isto para nós era um portento,

Tudo em nós era grande! e este espetac'lo Bem longe de encontrarmos nas cidades, Nós juntos contemplámos, enlevados,

Bebendo a longos tragos gozos tantos,

Quantos pódem fruir peitos amigos,

Que unidos desde a infancia, se engolfavam Agora meditando n'estas obras

Tão grandes, tão sublimes, da Natura:

Dois peitos, que da idade dos errores

Saíram, para entrar na dos pensares,

Sempre juntos, e sempre alegres, dando

Mais um culto á Amizade, a cujo throno

De per si elles mesmos se elevaram,

Quando dos annos no verdôr brincavam, Quando suas idéas similhantes

Pouco longe avançavam dos limites

Prescriptos a idades tão nascentes....

--Era pequena arvore plantada,

Por mão á experiencia pouco affeita,

Para depois seus ramos alongando,

Chegar ao crescimento precisado

E offerecer o sazônado fructo:

Essa arvore crescida é já bastante,

E o fructo seu gozamol-o mutuamente.

Assim meditando,

Do dia primeiro

Passamos o resto:

E quão lisongeiro

Nos foi tal deleite,

O ar respirando

Do bosque, tão puro!

Até que escuro

Tornando-se o dia,

Não mais se podia

Do Baldeador

Os sitios notar.

E então para casa nos fômos

Muito prestes todos reunir,

E ahi conversando, tivemos

Varias coisas com que distrair.

Referimos, por tanto, o que achámos,

E o que vimos de mais agradavel;

Para nós tudo era sublime,

Tudo era bem admiravel.

E parte da noite

Assim nós passando,

Depois a findamos

O solo jogando;

Pois fóra da côrte

De noite, o passar

É máo, não havendo

Um bello luar.

E foi justamente

O que aconteceu;

O jogo, por tanto,

Logo appareceu.

Alta era a noite quando repoisámos

Os já bastante fatigados membros;

E ainda assim achava-mos bem curto

O espaço que tivemos n'esse dia

Para vêr tudo, tudo apreciando;

Pois a noite tomou-nos pressurosa

Na nossa digressão tão animada,

Tão cheia de elevados pensamentos!

O dia desejava-mos que em breve

Nos viesse fazer deixar os leitos:

E a estes desejos, que do peito eram,

Fazia-mos juntar os promenores

Dos passeios que, ao nascer d'alva,

Havia-mos de dar; pois que nós ambos

Idéas possuindo assaz ardentes,

Parecia-nos pouco tudo quanto

Á nossa vista se nos amostrasse!

Mas ah! que em face de desejos tantos

Tivemos de ceder bem humilhados,

Não mais cuidando da manhã seguinte

Nos passeios que havia-mos pensado!

Oh! que a noite tornou-se bem espessa!

O trovão foi ouvido.... e após momentos

Manifestou-se a chuva em abundancia!... Tudo foi instantaneo; incontinente

A tristeza se fez igual em todos,

Grande parte cabendo aos jovens Bardos Que infructifero viam o passeio.

A chuva foi annuncio de má nova:

A chuva distruiu quantos projectos

Se tinham feito do passeio ao campo.

E ambos de tristura possuidos,

A nada atingiam mais, senão o como

Na roça passariam hinvernados.

Todos, n'estes e n'outros pensamentos

Pouco e pouco nos fômos entregando

Ao mole somno, a que emfim cedemos

Da chuva ouvindo o susurrar monotono.

O repoisar foi breve, que avançada

Já era a noite, quando adormecêmos!

Do dia apenas se mostraram raios

Pelas frestas da casa, dispertámos,

Para depressa o leito abandonarmos,

Para nos embrenhar no espesso bosque; Pois que por cumulo de felicidade

O dia se tornára tão brilhante,

Como se não houvesse antes chovido.

Bem dissemos o céo, do céo em face,

Admirados de prodigios tantos,

Tomando por favôr d'alta valia

Esta mudança, assaz inexperada!

Só de Deus a vontade omnipotente

Tornar nos fez alegres, quando antes

Em triste meditar eramos todos.

Procurámos então do rio as graças

Para aos nossos passeios dar comêço:

D'elle, á margem sentados, nossas vistas Tão ávidas de encantos, espraiámos

Pelos contórnos todos.... quão sublime

Se nos mostrou então a Natureza!...

A par da solidão tão agradavel,

Qual a do campo ao despontar da aurora, Gozava-mos prazeres eminentes

Tudo gostando e tudo admirando!

Oh! como é bello o habitar bem longe,

Bem longe das cidades populosas!

Como é dôce ao nascer da manhã clara

Ouvir o meigo canto dos volateis

Tão lindos, tão gentis, da nossa terra!

E estes, o seu gorgeio modulavam

Como o hymno cadente offerecido

Ao no céu e na terra omnipotente,

Ao Deus Senhor dá basta Natureza!

Assim elles saúdavam bem contentes

O despontar do dia magestoso

Que, como nós, talvez não esperassem!

Saúdavam do Senhor a só grandeza

No lédo gorgeiar tão innocente!...

O verde bosque, a relva rociada;

O cantico das aves, tão saúdoso;

O ar tão puro da manhã serena,

Do adusto sol ainda recatada;

As arvores frondosas, verdejantes,

Em fim, a Natureza admirámos

N'estes e n'outros quadros bem tocantes! Oh! que o sabio pincel na mão do homem, Inda tocando do sublime a méta,

Jámais póde imitar grandeza tanta!

Uma empresa tamanha não lhe é dada:

Feitura d'estes quadros, Deus somente

Em Sua Omnisciencia fazer póde!!..

E assim meditando

Na vasta Natura,

As nossas idéas

Pareciam ser

Uma só factura.

Amámos do campo

A magna belleza;

Amámos dos bosques

A tanta soidão,

Tanta singeleza!

Enlevados gozámos assim

A mais terna, a mais dôce emoção,

Engolfados em idéas que, juntas,

Pareciam de um só coração!

Pareciam de um só coração

Os enlevos de almas tão dadas;

E as nossas acções se formavam

No pensar mais profundo escudadas.

Taes eram as delicias que tornavam

Nossas almas assaz extaseadas,

E sempre assim, jámais tempo perdemos, Tudo quizemos vêr, e tudo vimos!

Longas estradas, de abastado mato

Orladas na extenção indefinida,

Cortadas de outras tantas, que conduzem Os viandantes a diversos pontos,

Ora direitas, ora tortuosas,

Alteadas aqui, ali suaves,

Irregulares todas, e de rios

Ás vezes atalhadas; estas estradas

Tão solitarias sempre, e só deixando

Ouvir a intercalada melodia

Dos tantos plumi-varios passarinhos;

D'estas estradas percorrêmos parte,

E apenas encontrávamos de espaço

Cavalgaduras guiadas por seus donos,

Que desciam ao porto, conduzindo

Os cereáes, productos recolhidos,

Das lavouras além d'esses lugares.

E os poucos passageiros

Que encontrávamos, mostravam

Um caracter bem civil,

Bem cortezes nos saudavam.

Ás vezes alguma coisa,

Só por curiosidade,

Inquiriamos, e sempre

Respondiam com bondade;

Perguntando ora o destino

De tão diversas estradas,

Ora as distancias, o fim,

E as respostas eram dadas.

Eis emfim já descripto quase tudo

Quanto fizemos, quanto de agradavel

Achámos no Baldeador, no biduo espaço, Em que tantos prazeres desfructámos

No bello apreciar dos bellos campos;

Porém inda é forçoso que se digam

Duas palavras mais, p'ra concluir-se

O trabalho expontaneo á que propuz-me.

Á esquerda da estrada e pouco antes

Da casa, onde passámos estes dias,

E aonde recebemos os mais puros

Gazalhado e franqueza permittidos;

Esguardámos mui simples fontesinha

Abandonada ahi ao tempo--a tudo.

Ao passarmos por ella, contemplámos

Como triste e sósinha dimanava,

E apreciámos n'ella a Natureza,

Quão prodiga em seus bens offerecia

N'aquella sua obra, tão propicia,

O dôce refrigerio ao viandante,

Libando a cristalina e pura lympha;

Mas, faltava-lhe o meio que fizesse

Chegar a tanto a sua utilidade,

Pois que em breve bacia pedregosa

A lympha de cristal se concentrando,

Deslisa-se depois, á par seguindo

Por junto do caminho, ao morro junto.

Ententámos, portanto, para ella

Dos tantos cuidados nossos, uma quota

Dedicar, e o fizemos promptamente;

E, tanto quanto coube em nossas forças, Empregámos, e após edificou-se

Pequeno chafariz que foi por ambos

Erigido em memoria do passeio

Que fômos dar a tão jucundo sitio!

Nenhum merito existe n'esta obra,

Que é trabalho imperfeito, e não permitte A duração dos sec'los, desejada;

Porêm n'ella quizémos tão sómente

Chamar a attenção do viandante

A contemplar o monumentosinho

Em que (nos divertindo) offerecemos

Util serviço áquelles que o quizessem.

Este nosso trabalho foi saudado

Por juizos sensatos, em que viam

Distracção tão sómente de dois jovens;

Porêm, a par das bôas intenções,

Vinha tambem o genio malfazejo,

Que nada podendo vêr de utilidade,

De tudo distruir se regozija:

E o nosso chafarisinho, tão humilde.

Soffreu a distruição que almas mesquinhas, Por dôce galardão, lhe offereceram!...

Toda a sua belleza reduziu-se

Ao primitivo estado, e a pobre fonte

Deslisa agora humilde, como d'antes,

Por junto do caminho, ao morro junto!

E agora nem mais

Existe um signal,

Que indique á quem passe

Um trabalho tal.

Que a pobre, coitada!

Soffreu, como tudo,

Do genio do mal

O mesquinho estudo.

Embora quizesse

Seu garbo ostentar,

Por força lhe havia

O mal atacar;

Pois este contagio

Em tudo se vê;

Remedio não ha:

Tambem, para quê?

Sublimes colossos,

Obras grandiosas,

Nada pois resiste

As furias damnosas.

E a pobre, coitada!

Soffreu, como tudo,

Do genio do mal

O mesquinho estudo.

Agora, nem mais

Existe um signal,

Que indique a quem passe

Um trabalho tal!...

E dois dias passámos, bem contentes,

N'estas e n'outras distracções tão ternas, Que á penna e á idéa nos escapam:

Dois dias, que talvez bem tarde, ou nunca, Teremos de gozar, como esses dias,

Em que tanta amizade se reúna,

Casadas no pensar dos jovens Bardos.

Tantas recordações, enlevos tantos,

Assaz nos preoccupam inda, e damos

Largas ao pensamento, cogitando

Uma por uma as scenas de que fômos

Tão gratas testemunhas; e uma por uma

Tão intimas idéas vem, dos Bardos,

Poisar junto das bellas reflexões.

Oh! salve dias felices tão formosos!

Salve, ó Baldeador, a nós tão caro!

Tua imagem jámais será riscada

Das nossas recordações, assaz sinceras!

E quando era a tarde

Já adiantada,

E já nossas malas

Stando preparadas,

Então terno adeus

Dissemos, saúdosos,

Do Baldeador

Aos sitios formosos:

Á toda a familia

Com quem nos achámos,

Nossa gratidão

Assaz penhorámos;

Pois ampla franqueza

Nos foi offertada,

Desde que no sitio

Fizemos entrada!...

Tomando emfim a estrada, a pé seguimos, Contristados bastante das lembranças.

Despertadas em nós a cada instante

Que o Baldeador nos recordava,

E assim andando sempre, era já noite

Quando na joven Nictheroy entrámos,

Onde embarcados

O már passámos,

E assim chegámos

Á vasta côrte.

E d'ella já em terra, pressurosos,

Buscámos nossos lares, já pensando

Que um dia depois entrar deviamos

Nas tão communs fadigas do trabalho!

....................................

Foi assim o passeio terminado

Que será para nós sempre lembrado.

FIM

1 Lourenço Maximiano Pecegueiro e o autor.

2 Dionisio Dutra Corrêa e Evaristo Augusto da Silva.

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