O senhor Dom Miguel I, e a senhora Dona Maria II

João Augusto Novaes Vieira · Capítulo 3 de 5

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O senhor Dom Miguel I, e a senhora Dona Maria II

Reflexões.

 

Quem diz o que quer, ouve o que não quer. Assim reza um adagio, que, pela sua antiguidade, merece, por certo, a approvação dos escribleros do «Portugal.»{14}

«O Snr. D. Miguel—dizem elles—não póde admittir na sua companhia a Snr.ª D.

Maria.»

E é verdade. Não póde—porque assim o quizeram meia duzia de sanguinarios—meia duzia d'aristocratas estupidos—meia duzia de fradalhões devassos—meia duzia d'ambiciosos e algumas duzias de scelerados, que, entre o Tio e a Sobrinha, cavaram um abysmo insondavel, precipitando n'esse abysmo o infeliz Portugal,—não o ridiculo e o infame «Portugal» de que foi editor um sapateiro demente e estuporado—de que é editor e especulador um negociante de algo-DÃO—mas este Portugal de sete seculos, esta nação que se envergonha de ter no seu seio um bando de selvagens e desavergonhados, um bando de parasytas, um bando de zangões e empalmadores.

«O Snr. D. Miguel perseguiu os ladrões e assassinos.»

Mentis, senhores da tripeça-gazetal, e mentis como perros.—O Snr. D. Miguel teve desejos de fazer punir os ladroes—mas os ladroes cercavam-no por toda a parte, e como andavam mascarados, era difficil conhecêl-os

«O Snr. D. Miguel não perseguiu os seus amigos—a Snr.ª D. Maria tem

perseguido a todos.»

Mentis, e mentis com o damnado fim de amargurar a existencia do infeliz Principe, que{15} chora no exilio os negros crimes de que vós e os vossos o fizeram victima.—O Snr. D. Miguel não queria perseguir os seus amigos mas perseguiu-os o estupido bando de scelerados, a que vós pertenceis.—Lembrai-vos de que escreveis no Porto, senhores do «Portugal» e que no Porto, no tempo em que vós dominaveis, foram cacetados, indistinctamente, liberaes e realistas—ainda mais, no Porto foram cacetadas as proprias auctoridades constituidas em nome do Snr. D. Miguel.—É aqui bem publico e notorio que o corregedor do crime foi cacetado, no largo do Carmo, pelos soldados do 12, e como lhes gritasse «Senhores, eu sou o corregedor!»—«É por isso mesmo!»—lhes tornavam elles —redobrando com nova furia as cacetadas.—É aqui bem sabido que n'esse tempo bastavam tres testemunhas das de quartilho de vinho—para se levar um homem á forca;—bastava alcunhar qualquer realista de malhado, para o vêr martyrisar por essas ruas; —bastava calumniar alguém, chamando-lhe pedreiro-livre, para o vêr gemer n'uma cadêa.—Podiamos aqui escrever um longo capitulo d'historia—que vós fingis ignorar—mas poupamo-nos a esse trabalho, porque fallamos no meio d'uma cidade onde todos sabem quantos realistas gemeram nas cadêas por vinganças particulares—quantos caloteiros se fingiam realistas para perseguir os seus crédores—quantos{16} ladrões se infeitavam com o tope azul e vermelho, para atterrarem aquelles a quem tinham roubado. —Era n'esse tempo que o vosso chefe d'então e vosso chefe d'agora—o scelerado fradalhão Luiz................. levava a tiro de pistola as mulheres que se não dobravam aos seus desenfreados appetites;—era n'esse tempo que elle, o malvado pedréca, arranjava empregos para os paes, a troco da deshonra das filhas;— era, finalmente n'esse tempo, que muitos bandoleiros se acobertavam com o nome d'amigos do Snr. D. Miguel, para o tornarem odioso, e para augmentarem, como augmentaram, o partido liberal.—E ainda hoje continuaes a acobertar os vossos crimes com o nome do infeliz Principe, trazendo-o para a discussão a todo o proposito; e ainda hoje continuaes a perseguição aos seus melhores e mais leaes amigos.—Aqui estamos nós—nós que fomos emballados na affeição mais pura á pessoa do Snr. D. Miguel—nós, que, pensando servil-o, temos constantemente sacrificado o nosso futuro e arriscado a nossa vida,—e que hoje, desenganados, só pedimos a Deus que o Augusto Exilado não caia de novo nas vossas mãos—porque seria um instrumento de perseguição e de morte para metade dos filhos d'esta terra;—nós, em fim, que podemos dar testemunho da vossa ferocidade. E porque nos perseguistes vós?... Porque não{17} pudémos deixar-nos roubar, sem que gritassemos aqui-d'el-rei sobre os ladrões, denunciando-os ao publico, de viva-voz e pela imprensa.

Calai-vos, honrada-gente!... calai-vos, que é esse o maior serviço que podeis fazer ao Snr. D. Miguel de Bragança.

Não nos daremos agora ao infadônho trabalho de reflectir sobre cada uma das vossas comparações—talvez o façamos, se continuardes a provocar-nos; no entanto, sempre vos repetiremos que é damnada a intenção com que comparaes S. M. a Rainha com seu Augusto Tio, attribuindo a este alguns actos, com que pretendeis acobertar os vossos crimes, e áquella alguns erros, de que não póde nem deve ser responsavel—porque reina e não governa, como acontece a todos os Monarchas constitucionaes.—O que vós quereis—não nos cançamos de o dizer—é fazer pesar sobre o Snr. D. Miguel a responsabilidade de todos os assassinios, de todos os roubos, de todas as tropellias, de todas as perseguições, que praticastes em seu nome.

As vossas comparações—se não fôsse bem conhecida a damnada intenção com que são feitas—só serviriam para tornar odioso o nome do Augusto Tio da Soberana.

Se a Senhora Dona Maria II deve ser responsavel—como Rainha constitucional—pelos actos do seu governo, como vós quereis; é assaz{18} logico, é concludentissimo, que o Snr. D. Miguel—como Rei absoluto—é o unico responsavel por todos os erros, por todos os crimes, que em seu nome praticou esse bando de scelerados a que pertence o «Portugal.»