O som do silêncio da hepatite C

Francisco Inácio Bastos · Capítulo 1 de 8

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O som do silêncio da hepatite C

Apresentação

 

O escritor argentino Ernesto Sábato denominou, com muita felicidade, uma das suas coletâneas de ensaios O Escritor e seus Fantasmas. De fato, tanto escritores de ficção como de não-ficção se vêem às voltas com seus fantasmas, de natureza algo distinta, uns dos outros. Não resta dúvida de que a escrita ficcional, de romances, contos e poesias, está mais próxima dos sentimentos e angústias pessoais dos seus autores do que a maioria dos livros-texto, ensaios acadêmicos e artigos científicos. Constitui um erro, entretanto, atribuir ao conjunto dos textos de não-ficção um caráter frio, exclusivamente objetivo e impessoal. O presente livro não almeja, de forma alguma, esta suposta objetividade cartesiana, mas, ao contrário, contribuir para o debate acerca de uma epidemia contemporânea de grande magnitude e gravidade, a hepatite C, com aportes que julgo fundamentais e pouco explorados pela literatura corrente, de natureza psicológica, social ou histórica. Faço isso, deste modo, não só em decorrência de minha visão do que constitui um ensaio em saúde pública, mas igualmente acossado pelos meus próprios fantasmas, o que menciono a seguir.

Iniciei minha carreira médica como psiquiatra e, ao longo de muitos anos de prática e pesquisa, trabalhei de forma contínua com a população de usuários de drogas (em especial, nas suas formas mais graves e danosas, como no caso dos usuários de drogas injetáveis). A despeito de ter investido boa parte dos meus esforços na pesquisa referente à infecção pelo HIV/Aids, tema que perpassa a ampla maioria das minhas pesquisas e trabalhos (inclusive um primeiro volume, similar a este, também incluído na Coleção Temas em Saúde, da Editora Fiocruz), a hepatite C vem me assombrando de forma intermitente, como um fantasma ao qual não tenho dedicado a atenção que gostaria e deveria.

Em anos recentes, muitos dos meus pacientes vivendo com Aids, que atendo semanalmente em uma instituição voltada para a população carente, basicamente residente em comunidades faveladas, nas ruas do entorno da Quinta da Boa Vista e Central do Brasil, no Rio de Janeiro, têm falecido, quando não em virtude da violência, em decorrência da dupla infecção (o que, tecnicamente, denominamos co-infecção) pelos vírus da Aids e da hepatite C. Tinha, portanto, de encarar esse grande vilão da minha prática como médico e pesquisador, que é a co-infecção por esses dois vírus, a reverter, em boa medida, os inequívocos ganhos relativos ao tratamento da Aids.

O fato de acompanhar, quase exclusivamente, uma população que faz uso abusivo de álcool e drogas ilícitas, como a cocaína, com problemas psiquiátricos importantes, como depressão e esquizofrenia, me levou a compreender claramente que não há como lidar de forma adequada com os riscos de contrair a hepatite C, assim como com as suas conseqüências entre os cronicamente infectados, se não explorando aspectos não estritamente biomédicos desses pacientes, no seu contexto social e familiar.

Não se trata, de forma alguma, de uma suposta tentativa de 'desconstruir' o modelo biomédico. Estas tentativas me parecem, o mais das vezes, equivocadas e simplistas, e feitas às expensas de um adequado manejo de regimes terapêuticos complexos, que podem fazer a diferença entre a vida e a morte. Não há, por ora, nada por desconstruir, mas sim por construir, pois pouco existe, em nosso país, em termos de assistência médica de qualidade para pacientes com hepatite C crônica, no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). Cotidianamente, vejo meus pacientes tentando, por todos os modos, obter, a custo zero (pois se trata de uma população totalmente desprovida de recursos), os sofisticados e extremamente dispendiosos medicamentos de que necessitam. Como mencionei aos editores da Coleção Temas em Saúde, antes mesmo de iniciar a redação deste livro, queria, no meu íntimo, trazer ao público não especializado informações acessíveis sobre o tema (o que espero ter conseguido), mas, antes de tudo, contribuir, dentro das minhas limitações pessoais e profissionais, para melhorar a assistência prestada a esses pacientes. Estes peregrinam, de cá para lá, em busca de medicações capazes de salvar suas vidas, aguardam em filas de espera por consultas, exames e remédios, e, muitas vezes, vêm a adoecer gravemente e falecer, em meio a essa Odisséia rumo ao Eldorado de um tratamento de qualidade.

Os anos vividos não me permitem ser ingênuo a ponto de achar que um pequeno livro vá, de alguma forma, alterar esse estado de coisas, entretanto, não me fizeram cínico e indiferente o bastante para acreditar que devo assistir a esses gravíssimos problemas de braços cruzados. Se de alguma forma os eventuais leitores deste livro ampliarem suas informações sobre a questão e, mais do que isso, se conscientizarem de que é preciso melhorar, em muito, a prevenção e a assistência referente às pessoas vivendo com hepatite C crônica, um dos meus fantasmas mais queridos terá alçado vôo para longe do sótão da minha memória e consciência.