O som do silêncio da hepatite C

Francisco Inácio Bastos · Capítulo 7 de 8

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O som do silêncio da hepatite C

Notas finais: o som do silêncio

 

A recentemente falecida ensaísta norte-americana Susan Sontag, ao discutir seu próprio processo de adoecimento, menciona que somos, todos nós, habitantes involuntários de um segundo país (sendo o primeiro, o país ensolarado da saúde), do qual ninguém quer ser cidadão, país, que, metaforicamente, congregaria as várias doenças e males que afligem os seres humanos. Tomando o seu exemplo de luta contra a adversidade (Sontag padeceu de um câncer de mama e complicações daí advindas, por três décadas), cabe retomar sua opção de trazer à luz o sofrimento, de modo a enfrentá-lo face a face e superá-lo, na medida do possível. Seus ensaios sobre as metáforas destrutivas que gravitam em torno de diferentes doenças, como a tuberculose, o câncer e a Aids, me inspiraram a escrever, em ponto menor, algo sobre uma outra forma de fazer com que a doença transite sem obstáculo por esse país de sombras " dar voz ao silêncio.

A idéia dos compositores pop Art Garfunkel e Paul Simon de batizar uma de suas músicas de "O som do silêncio" me parece lapidar nesse sentido. Vamos aos seus primeiros versos, em tradução literal: Alô escuridão, minha velha amiga / Vim para conversar de novo contigo / Porque uma visão rastejando suavemente / Deixou suas sementes enquanto eu dormia / E esta visão que se plantou no meu cérebro / Ainda permanece / Encerrada no som do silêncio (no original: "Hello darkness, my old friend / I've come to talk with you again / Because a vision softly creeping / Left its seeds while I was sleeping / And the vision that was planted in my brain / Still remains / Within the sound of silence").

O propósito deste livro foi dialogar com os sons do silêncio que cercam a epidemia da hepatite C, que, por razões que tentei esboçar, não vêm sendo objeto de uma discussão aberta no âmbito da sociedade, como no caso da Aids, por mais dolorosa e difícil que tenha sido esta última. Se ele puder chamar a atenção de um punhado de eventuais leitores, para além dos profissionais que lidam no seu dia-a-dia com os pacientes vivendo com a hepatite C, terá valido a pena escrevê-lo.

A palavra final, obviamente, é daqueles que convivem diariamente com a infecção e/ou com a doença, que, mais do que ninguém, sabem como é fundamental falar abertamente sobre o tema, mobilizar a sociedade e os meios de comunicação.

Disse Dante que o amor move o sol e as estrelas. Junte-se a isto, o esforço e o cálculo, e teremos o motor da ciência. Nem mesmo Descartes era de todo cartesiano... Não se faz ciência biomédica sem compaixão e solidariedade.