O Velho e o Mar
Prefácio
Edição de e-book por
Lucas de Asilo
Edição "Livros do Brasil", 1956.
Prefácio
Quando a decisão de reeditar-se esta obra admirável me apresentou a oportunidade de ser eu desta vez a traduzi-la, com alegria aceitei esse trabalho, que o é, porquanto traduzir Hemingway tem sido um dos meus gostos e uma das minhas honras de tradutor. E em particular este pequeno romance passa por ser uma obra-prima da literatura contemporânea e talvez que o tempo o ponha entre as obras-primas da literatura universal. Pode dizer-se que, em toda a parte, e independentemente de felizes ou infelizes traduções, público e crítica receberam com entusiasmo este livro. Não é, no entanto, uma obra extensa, de acção complexa, de variado e movimentado ambiente. É, antes, um breve poema em prosa, uma epopeia de simples trama, singelamente narrada. Mas é, por outro lado, muito mais do que isso: um breviário nobilíssimo da dignidade humana, escrito com a mais requintada das artes.
Poucas vezes, no nosso tempo, terá sido concebida e realizada uma obra tão pura, em que a natureza e a humanidade sejam, frente a frente, tão verdade. Com efeito, a intensidade e a precisão do descrever e do caracterizar, qualidades que, com uma extrema e no entanto subtilmente doseada concisão, colocaram Hemingway entre os grandes escritores --
prosadores -- da nossa época, atingem nesta pequena obra um nível, um poder de visualização, uma emoção artística, uma vibração humana, que, em plano igual, a literatura quase só terá atingido na poesia épica clássica como em certas páginas de romance do século passado. O
que mais irmana tudo isso à prodigiosa vivência da natureza, a um contacto com esta entre íntimo e respeitosamente distante, tão peculiar às grandes epopeias, é precisamente um conhecimento profundo, de todas as horas, de todos os momentos, dir-se-ia que da mínima tonalidade da luz, como do mais comum gesto de uma espécie animal, conhecimento que na literatura contemporânea só Hemingway possuirá tão despreconceituosamente.
O mar e a sua fauna vivem esplendorosamente nestas páginas de O Velho e o Mar. Mas vivem sem a mínima poetização panteísta, sem a mínima deliquescência antropomórfica. Vivem. São.
E a luta titânica do velho pescador com o seu peixe imenso não é sequer titânica senão pela naturalidade da mútua aceitação: é uma luta pela vida, lutada em plena dignidade natural.
Nada há de sobre-humano nela, que não seja o facto admirável de o homem ser capaz de lutar e de sobreviver para além do que parece ser o legítimo limite das suas forças.
Muito se tem escrito -- e é fácil -- sobre o pessimismo de Hemingway. O que sobre o pessimismo de uma tão perfeita narrativa exemplar de que, como o velho pescador pensa, "um homem pode ser destruído, mas não derrotado", se tenha escrito efectivamente, faz-me lembrar o que paralelamente é hábito escrever sobre o cepticismo. Uma vez, li um comentário a um filósofo medieval, que foi para mim, nestes pontos, extremamente iluminante. Do tal filósofo se dizia que era céptico para ter a certeza daquilo em que podia acreditar.
Algo de semelhante se passa com o pessimismo de Hemingway, independentemente do que nele participa do ambiente intelectual de após a Primeira Grande Guerra e de certas atitudes
neste ambiente peculiares aos chamados "expatriados" norte-americanos, de que Hemingway tem sido, ou foi, expoente notório. Esse pessimismo reflecte apenas uma ciência muito certa dos limites humanos, colhida na experiência e na aventura por um homem nado e criado para tal. É típica de Hemingway -- e há nesta obra um episódio importante, apesar de na aparência meramente episódico -- a sua confiança no conhecimento que vitalmente se adquire, aliada a uma desconfiança daquele que uma exterior educação possa dar. O episódio é o do passarito que vem pousar na linha de pesca, e ao qual o velho fala carinhosamente por achá-lo jovem e inerme. Mas, além de que o pássaro não entendia as suas palavras, não valia a pena explicar-lhe quem eram os falcões que o esperariam junto à costa, porque o pássaro não tardaria em aprender por si quem eles eram. Este episódio é simbólico --simbólico de um pessimismo quanto ao que não seja directamente experimentado, embora uma criatura possa, por solidariedade, ser informada, quando a comunicação é possível. Simbólica é igualmente a total solidão do velho entregue a si próprio e à sua experiência de pescador, a contas com o seu poderoso peixe e com os tubarões de que, depois de morto o peixe, ele o defende. É
extremamente comovente, de uma límpida grandeza de romanceiro ou velha saga quanto se passa entre o velho e o peixe. E as apóstrofes que o velho dirige ao seu contendor, a consciência de um respeito e de uma dignidade mútuas à face nua das águas, são de uma pungência e de uma majestade, que só têm contrapartida nos diálogos com o rapaz, em que a dignidade humana é respeitada até à última miséria. Daí o contraste terrível do final, com a antítese entre a ignorância pretensiosa dos "turistas" e a cena do rapaz velando o velho, possivelmente moribundo, que sonha com os leões, esses leões que são, em matéria de sonho, tudo o que lhe resta da vida.
Ante uma obra como esta -- da mais alta qualidade artística e da mais nobre categoria ética --
uma obra que nos eleva à contemplação da dignidade do homem e do mundo em que é um ser pensante, através da mais avassaladora singeleza: devemos curvar-nos gratamente e fazer votos por que, numa tradução que procurei fosse escrupulosa e fiel, pouco se tenha perdido de tão pura obra-prima, do seu poder incantatório, da sua frescura narrativa.
Lisboa, 1956