O Velho e o Mar

Ernest Hemingway · Capítulo 2 de 2 · parte 1/3

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O Velho e o Mar

Texto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele.

Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro velhos sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota.

O velho era magro e seco, com profundas rugas na parte de trás do pescoço. As manchas castanhas do benigno cancro da pele que o sol provoca ao reflectir-se no mar dos trópicos viam-se-lhe no rosto. As manchas iam pelos lados da cara abaixo, e as mãos dele tinham as cicatrizes profundamente sulcadas, que o manejo das linhas com peixe graúdo dá. Mas nenhuma destas cicatrizes era recente. Eram antigas como erosões num deserto sem peixes.

Tudo nele e dele era velho, menos os olhos, que eram da cor do mar e alegres e não vencidos.

-- Santiago -- disse o rapaz, ao virem da praia para onde fora alado o esquife. -- Posso tornar a ir contigo. Já ganhámos algum dinheiro.

O velho ensinara o rapaz a pescar e o rapaz gostava muito dele.

-- Não -- respondeu o velho. -- Andas num barco de sorte.

Fica com eles.

-- Mas lembra-te de como saíste oitenta e sete dias sem peixe, e depois apanhaste só grandes, todos os dias, três semanas a fio.-- Lembro -- disse o velho. -- Bem sei que não me deixaste por duvidares.

-- Foi o papá quem me mandou. Sou um rapaz pequeno e tenho de lhe obedecer.

-- Bem sei -- disse o velho. -- É assim mesmo.

-- Não têm grande fé...

-- Pois não. Mas nós temos. Então não temos?

Temos -- respondeu o rapaz.

- Posso pagar-te uma cerveja no Terraço e depois levamos a tralha para casa?

-- E porque não? -- disse o velho. -- Entre pescadores!

Sentaram-se no Terraço e muitos dos pescadores fizeram troça do velho e ele não se zangou.

Outros, dos pescadores mais velhos, olhavam-no e ficavam tristes. Mas não o mostravam e falavam atenciosamente da corrente e dos fundos a que haviam deitado as linhas e do bom tempo firme e do que tinham visto. Os pescadores de sorte nesse dia já lá estavam e tinham aberto os grandes peixes e tinham-nos trazido ao comprido em duas tábuas, com dois homens atrapalhados à ponta de cada tábua, até à pescaria onde esperariam pelo camião frigorífico que os levaria ao mercado de Havana. Os que haviam pescado tubarões tinham-nos levado à fábrica, do outro lado da enseada, onde eram içados com um cadernal, e lhes eram extraídos os fígados, cortadas as barbatanas, esfoladas as peles, e a carne feita em postas para salgar.

Quando o vento era leste um cheiro da fábrica atravessava o porto; naquele dia, porém, só a vaga memória de um odor vinha, porque o vento rondara ao norte e caíra, e no Terraço cheio de sol era agradável estar.

-- Santiago -- disse o rapaz.

-- Que é? -- perguntou o velho, segurando o copo e a pensar nos tempos de outrora.

-- Posso ir arranjar-te umas sardinhas para amanhã?

Não. Vai jogar o "baseball". Ainda sei remar e o Rogélio atira a rede.

-- Gostava de ir. Se não posso pescar contigo, gostava de ser útil de qualquer maneira.

Pagaste-me uma cerveja -- Disse o velho. -- Já és um homem.

-- Que idade tinha eu quando me levaste a primeira vez num barco?

-- Cinco, e ias quase morrendo, quando puxei o peixe ainda muito forte e por pouco ele fazia o barco em pedaços. Não te lembras?

-- Lembro-me da cauda a dar e a bater e do banco a partir-se e do barulho da pancada.

Lembro-me de me teres atirado para vante, onde estavam as linhas molhadas, e de sentir o barco tremer todo, e do barulho de tu à pancada a ele como quem deita uma árvore abaixo, e do cheiro doce do sangue por cima de mim.

-- Tu lembras-te disso, ou fui eu quem te contou?

-- Lembro-me de tudo, desde que primeiro saímos juntos.

O velho olhou para ele, com os seus olhos amoráveis, confiantes, ardidos do sol.

-- Se fosses meu filho, levava-te e tentava a sorte --disse. -- Mas és filho do teu pai e da tua mãe, e andas num barco dos bons.

-- E se eu fosse às sardinhas? E sei onde arranjar quatro iscas.

-- Sobraram-me de hoje as minhas. E deixei-as em sal na caixa.

-- Deixa-me arranjar quatro frescas.

-- Uma -- disse o velho. A esperança e a confiança nunca o haviam abandonado. Mas reverdeciam agora, como ao sopro da brisa.

-- Duas -- Disse o rapaz.

-- Duas -- anuiu o velho. -- Não as roubaste?

-- Era capaz. Mas comprei estas.

-- Obrigado -- disse o velho. Era demasiado simples ele, para ficar-se a pensar ao atingir a humildade. Mas sabia que atingira e sabia que não era desgraça e não acarretava perda do amor-próprio autêntico.

-- Amanhã, com esta corrente, vai ser um bom dia -- disse.

-- Para onde vais? -- perguntou o rapaz.

Muito para o largo, para vir quando levantar o vento. Quero sair antes de ser dia.

-- Hei-de ver se o levo bem para o largo -- disse o rapaz.

-- E, se pescas alguma coisa das grandes, podemos ir ajudar-te.

-- Ele não gosta de trabalhar muito ao largo.

-- Pois não -- reconheceu o rapaz. -- Mas hei-de ver o que ele não pode ver, assim um pássaro à pesca, e levá-lo aos delfins.-- Vê assim tão mal?

-- Está quase cego.

-- É estranho -- disse o velho. -- Ele nunca andou às tartarugas. E é o que dá cabo dos olhos.

-- Mas tu andaste anos e anos às tartarugas na Costa do Mosquito, e vês bem.

-- É que eu sou um velho estranho.

-- Mas ainda tens força para um peixe dos grandes a valer.

-- Acho que sim. E há muitas manhas.

-- Vamos levar a tralha para casa -- disse o rapaz.

-- Para eu arranjar a rede e ir pelas sardinhas.

Pegaram na palamenta do barco. O velho levava o mastro ao ombro, e o rapaz a caixa de madeira com as linhas escuras, ásperas e enroladas, o croque e o arpão na sua bainha. A caixa das iscas estava sob o banco da popa, com o cacete que servia para dominar o peixe graúdo quando era trazido até ao casco. Ninguém roubaria nada ao velho, mas era melhor levar a vela e as linhas grossas para casa, pois que a orvalhada é má para elas, e, embora o velho estivesse certo de que ninguém do sítio lhe roubaria nada, achava que um croque e um arpão são tentações inúteis a deixar num barco.

Subiram juntos o caminho até à choupana do velho e entraram pela porta franca. O velho encostou ao pé da parede o mastro com a sua vela enrolada, e o rapaz pousou a caixa e o resto ao pé. O mastro era quase tão comprido como o compartimento único da choupana. Esta era feita de duros ramos de palmeira, a que chamam guano, e havia nela uma cama, uma mesa, uma cadeira, e um lugar no chão para cozinhar a carvão de choça. Nas paredes escuras, de achatadas e sobrepostas folhas do grosseiramente fibroso guano, havia uma gravura a cores do Sagrado Coração de Jesus e outra da Virgem de Cobre. Eram relíquias de sua mulher. Noutro tempo houvera ainda uma fotografia dela na parede, mas ele tirara-a por se sentir muito só ao vê-la, e estava agora na prateleira do canto, por baixo da camisa lavada.

-- Que tens para comer? -- perguntou o rapaz. -- Um tacho de arroz de peixe. Queres?

-- Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume?

-- Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio. -- Posso levar a rede?

-- Claro que podes.

Não havia rede, e o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido. Mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia.

-- Oitenta e cinco é bom número -- disse o velho. -- Gostavas de me ver trazer um que desse mais de quinhentos quilos?

-- Pego na rede e vou às sardinhas. Sentas-te ao sol, à porta?

-- Sento. Tenho o jornal de ontem e vou ler o "baseball".

O rapaz não sabia se o jornal da véspera também era a fingir. Mas o velho foi buscá-lo abaixo da cama.

-- O Perico deu-mo na bodega -- explicou.

-- Eu volto com as sardinhas. Guardo as tuas e as minhas no gelo, e pela manhã a gente reparte-as. Quando eu voltar, contas-me do "baseball".

-- Os Yankees não podem perder.

-- Mas tenho medo dos Indianos de Cleveland.

-- Tem confiança nos Yankees, meu filho. Pensa no grande DiMaggio.

-- Mas eu tenho medo dos Tigres de Detroit e dos Indianos de Cleveland.

-- Tem cautela, ou acabas com medo dos Vermelhos de Cincinnati e do Sox de Chicago.

-- Tu vês isso, e contas-me quando eu voltar.

-- Achas que a gente compre lotaria com a terminação em oitenta e cinco? Amanhã é o dia oitenta e cinco.

-- Podíamos comprar -- disse o rapaz. -- Mas que é feito do teu grande recorde de oitenta e sete?

-- Isso não acontece duas vezes. Achas que arranjas um oitenta e cinco?

-- Posso encomendar.

-- Um inteiro. São dois dólares e meio. A quem pode a gente pedir isso emprestado?

-- É fácil. Dois dólares e meio posso eu pedir sempre.

-- Parece-me que também eu. Mas faz por não pedir emprestado. A gente começa por pedir emprestado e acaba a pedir esmola.

-- Anima-te, meu velho -- disse o rapaz. -- Lembra-te de que estamos em Setembro.

-- O mês dos grandes peixes -- comentou o velho. -- Em Maio, qualquer é pescador.

-- Vou-me às sardinhas.

Quando o rapaz voltou, o velho adormecera na cadeira e o sol pusera-se já. O rapaz tirou da cama o velho cobertor da tropa e lançou-o sobre as costas da cadeira e os ombros do velho.

Eram ombros estranhos, ainda fortes apesar de muito velhos, e o pescoço era ainda forte também e as rugas não tão evidentes quando o velho dormia e a cabeça lhe pendia para a frente. A camisa dele havia sido remendada tantas vezes que era como a vela, e aos remendos o sol os desbotara matizadamente. A cabeça do velho era, porém, muito velha,

e de olhos fechados, não havia vida no rosto. O jornal estava pousado nos joelhos, e o peso do braço segurava-o da brisa da tarde. Estava descalço.

O rapaz deixou-o ficar, e, quando voltou, ainda o velho dormia.

-- Acorda, velho -- disse o rapaz, e pousou a mão num dos joelhos dele.

O velho abriu os olhos e, por momentos, vinha regressando de muito longe. Sorriu depois.

-- Que arranjaste? -- perguntou.

-- Ceia -- respondeu o rapaz. -- Vamos ter ceia.

-- Não tenho grande fome.

-- Anda comer. Não se pode pescar sem comer.

-- Eu tenho pescado -- disse o velho, levantando-se, pegando no jornal e dobrando-o.

Começou depois a dobrar o cobertor.

-- Deixa-te ficar de cobertor -- recomendou o rapaz. -- Não hás-de pescar sem comer, enquanto eu for vivo.

-- Pois então trata de viver muito tempo -- disse o velho.

-- Que vamos comer?

-- Feijão e arroz, banana frita, e carne.

O rapaz trouxera tudo do Terraço, numa marmita dupla, de metal. As facas, os garfos e as colheres vinham na algibeira, o talher para cada um embrulhado num guardanapo de papel.

-- Quem te deu isto?

-- Martin. O dono.

-- Tenho de lhe agradecer.

Eu já agradeci -- disse

o rapaz. -- Não precisas de agradecer.

-- Hei-de dar-lhe a carne fina de um peixe graúdo. Já fez isto por nós mais que uma vez?

-- Acho que sim.

-- Então tenho de lhe dar mais ainda. Pensa muito em nós.

-- E mandou duas cervejas.

-- Gosto mais de cerveja de lata.

-- Bem sei. Mas esta é Hatuey, de garrafa, e levo outra vez as garrafas.

-- Muito obrigado -- disse o velho. -- Se comêssemos?

-- Tenho estado a pedir-te -- respondeu o rapaz, delicadamente. --Não queria abrir a marmita, enquanto não estivesses pronto.

Já estou pronto. Só precisava de tempo para me lavar.

Onde te lavaste?, pensou o rapaz. O chafariz da aldeia era duas ruas abaixo. Tenho de ter aqui água para ele, e sabão e uma boa toalha. Porque sou tão distraído? Tenho de lhe arranjar outra camisa e um casaco para o Inverno e uns sapatos e outro cobertor.

-- A tua carne é excelente -- disse o velho.

-- Conta-me do "baseball" - pediu o rapaz.

-- Na Liga Americana são os Yankees, como eu disse --

declarou o velho com satisfação.

-- Hoje, perderam -- observou o rapaz.

-- Isso nada significa. O grande DiMaggio é sempre o mesmo.

-- Têm outros homens no grupo.

-- É claro. Mas a diferença está nele. No outro campeonato, entre Brooklyn e Filadélfia, escolho Brooklyn. Mas então penso em Dick Sisler e nos outros.

-- Nunca houve ninguém como eles. O Dick apanha a bola mais comprida que jamais vi.

-- Lembras-te de quando ele costumava vir ao Terraço? Eu queria levá-lo comigo à pesca, mas tinha tanta vergonha de lhe pedir... Depois pedi-te que lhe pedisses, e tu também tiveste vergonha.

-- Bem sei. E foi uma grande tolice. Podia ter ido com a gente. E teríamos tido isso para a vida inteira.

-- Gostava de levar o grande DiMaggio à pesca -- disse o velho. --Dizem que o pai dele era pescador. Talvez tenha sido pobre como nós e percebesse.

-- O pai do grande Sisler nunca foi pobre e jogava, com a minha idade, nos grandes

campeonatos.

-- Quando eu era da tua idade, ia de marujo num navio rumo à África e vi leões nas praias ao anoitecer.

-- Bem sei. Já me contaste.

-- Falamos de África ou de "baseball"?

-- "Baseball", acho eu -- respondeu o rapaz. -- Conta-me do grande John J. McGraw.

-- Em tempos idos, também costumava aparecer pelo Terraço.

Mas era bruto, duro de falas e tinha mau vinho. E trazia a cabeça tão cheia de cavalos como de

"baseball". Andava sempre com listas de cavalos na algibeira e muitas vezes dizia nomes de cavalos ao telefone.

-- Era um grande chefe -- disse o rapaz. -- Meu pai acha que ele era o maior.

-- Porque vinha cá muito -- respondeu o velho. -- Se Durocher tivesse continuado a vir para cá todos os anos, o teu pai acharia que era ele o maior.

-- E quem é de verdade o maior, o Luque ou o Mike Gonzalez?

-- Acho que são iguais.

-- E o melhor pescador és tu.

-- Não. Sei de outros melhores.

-- *Qué va* -- disse o rapaz. -- Há muitos pescadores bons e alguns dos grandes. Mas tu és só tu.

-- Obrigado, alegras-me muito. Espero que não apareça por aí um peixe tão grande que nos desminta a ambos.

-- Não há tal peixe, se ainda és tão forte como dizes.

-- Posso não ser tão forte como julgo -- disse o velho. --

Mas sei muitas manhas e tenho força de vontade.

-- Devias ir para a cama, para estares bem disposto pela manhã. Eu levo as coisas ao Terraço.

-- Então, boa noite. Pela manhã, acordo-te.

-- És o meu despertador -- disse o rapaz.

-- E a idade é o meu -- disse o velho. -- Porque acordam tão cedo os velhos? É para terem mais comprido o dia?

-- Não sei. O que eu sei é que os rapazes pequenos ferram no sono até tarde.

-- Bem me lembro -- concordou o velho. -- Eu acordo-te a tempo.

-- Não gosto que ele me acorde. É como se eu fosse um inferior.

-- Eu sei.

-- Dorme bem, velhote.

O rapaz saiu. Haviam comido na mesa, às escuras, e o velho tirou as calças e meteu-se na cama. Enrolou as calças para fazerem de travesseiro, metendo o jornal dentro delas.

Enrolou-se ele próprio no cobertor para dormir sobre os outros jornais velhos que cobriam o colchão de arame.

Não tardou que estivesse a sonhar com a África, quando era rapaz, e as extensas praias douradas, e as praias brancas, tão brancas que faziam doer os olhos, e os cabos alterosos e as grandes montanhas escuras. Vivia ao longo da costa todas as noites agora, e em sonhos ouvia o estrondo da ressaca e via as canoas nativas deslizarem por ela. Cheirava o alcatrão e a estopa do convés, a dormir, e cheirava o cheiro da África, que a brisa de terra pela manhã trazia.

Em geral, quando cheirava a brisa de terra, acordava e vestia-se para ir acordar o rapaz. Mas, esta noite, o cheiro da brisa de terra viera muito cedo, e em sonhos soube que era ainda cedo e continuou a sonhar para ver as brancas alturas das Ilhas a erguerem-se do mar, e sonhou depois com os diferentes portos e ancoradouros das Ilhas Canárias.

Já não sonhava com tempestades, nem com mulheres, nem com grandes acontecimentos, nem com grandes peixes, nem com lutas, nem com provas de força, nem com sua mulher.

Sonhava apenas com lugares e os leões na praia. Brincavam quais gatos pequenos no escuro, e gostava deles como gostava do rapaz. Com o rapaz nunca sonhava. Acordou, olhou pela porta para a lua, desenrolou as calças e enfiou-as. Urinou fora da choupana e foi estrada acima para acordar o rapaz.

Tiritava ao frio da manhã. Mas sabia que tiritaria até aquecer, e que daí a pouco estaria a remar.

A porta da casa onde o rapaz vivia não estava trancada, e abriu-a e avançou silenciosamente com os pés descalços. O

rapaz dormia numa maca na sala de entrada, e o velho via-o claramente à luz, que entrava, da lua a pôr-se. Agarrou-lhe delicadamente num pé e segurou-o até o rapaz acordar e se voltar e

olhar para ele. O velho fez um aceno de cabeça, e o rapaz tirou as calças da cadeira ao pé da cama e, sentado na cama, enfiou-as.

O velho saiu a porta e o rapaz veio atrás dele. Estava ensonado, e o velho passou-lhe o braço pelo ombro e disse: -- Desculpa.

-- *Qué va* -- respondeu o rapaz. -- É o que cabe a um homem.

Desceram o caminho até à choupana do velho, e pela estrada fora, no escuro, homens descalços se moviam, acarretando os mastros dos seus barcos.

Quando chegaram à choupana do velho, o rapaz pegou no cesto das linhas e no arpão e no croque, e o velho levava ao ombro o mastro com a vela enrolada.

Queres café? - perguntou o rapaz.

-- Vamos pôr a palamenta no barco e depois tomamos café.

Tomaram café em latas de leite condensado, numa tasca que abria para os pescadores.

-- Que tal dormiste, meu velho? -- perguntou o rapaz. Agora é que ia acordando, embora lhe custasse a largar o sono.

-- Muito bem, Manolin -- respondeu o velho. Sinto-me hoje com confiança.

-- Também eu. E agora vou arranjar-te as sardinhas, mais as minhas e a tua isca fresca. É que é ele quem traz a palamenta. Nunca quer que lhe tragam nada.

-- Somos diferentes -- disse o velho. -- Deixo-te trazer coisas, desde os teus cinco anos.

Bem sei -- disse o rapaz. -- Volto já. Toma outro café.

Aqui fiam à gente.

Saiu, descalço pelos rochedos coralíferos, a caminho do frigorífico onde eram guardadas as iscas.

O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.

O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.

-- Boa sorte, meu velho.

-- Boa sorte -- respondeu o velho. Enfiou as amarrações de corda dos remos nos toletes e, debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar nas trevas para fora do porto. Havia barcos de outras praias saindo para o mar, e o velho ouvia-lhes o mergulhar e o impulso dos remos embora não pudesse vê-los, com a lua já posta atrás dos montes.

Às vezes, num barco alguém falava. Mas a maior parte dos barcos ia silenciosa, à excepção do mergulhar dos remos.

Dispersaram-se, uma vez chegados à embocadura do porto, e cada qual aproou à parte do oceano em que esperava encontrar peixe. O velho sabia que ia muito para o largo, e deixou para trás o cheiro de terra e remou para o lavado e matinal cheiro do oceano. Via a fosforescência dos sargaços do Golfo na água, ao remar por sobre aquela parte que os pescadores chamam "o grande poço" e era uma súbita fossa de setenta braças onde se congregava toda a espécie de peixes arrastados pelo redemoinho da corrente contra a abrupta parede do fundo do oceano. Havia aí concentrações de camarões e de peixes de isca e, às vezes, bandos de calamares nas cavidades mais fundas, e estes subiam à noite até à superfície onde todos os peixes comiam neles.

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trémulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.

Gostava muito dos peixes-voadores, seus dilectos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: "As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à excepção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar".

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

Remava vigorosamente, o que não constituía um esforço para ele, visto que mantinha o andamento, e a superfície do oceano estava chã, com apenas ocasionais redemoinhos da corrente.

Deixava que a corrente fizesse um terço do trabalho, e ao começar a ser dia viu que já ia mais longe do que esperava ir àquela hora.

"Andei nos fundões uma semana, e nada, pensou. Pois vou hoje para onde vogam os cardumes de bonitos e albacoras, e talvez por lá apareça um dos grandes".

Antes de ser dia claro, já ele tinha deitado as linhas e ia à deriva na corrente. Uma isca estava a quarenta braças. A segunda a setenta e cinco, e a terceira e a quarta estavam na água azul profunda a cem e a cento e vinte e cinco braças. As iscas pendiam de cabeça para baixo, com o corpo do anzol bem amarrado dentro do peixe; e a parte saliente do anzol, a curva e a ponta, estava coberta de sardinhas frescas. As sardinhas estavam enfiadas pelos olhos e eram assim como que uma grinalda no ferro saliente. Não havia uma porção de anzol que a um peixe graúdo não cheirasse bem e não soubesse melhor.

O rapaz havia-lhe dado duas pequenas "tunas" ou albacoras frescas, que como pesos pendiam das duas linhas mais profundas, e, nas outras, tinha ele um grande enxarreu e um chicharro que já haviam servido, mas estavam ainda em bom estado e as excelentes sardinhas lá lhes davam perfume e atractivo. Cada linha, da grossura de um lápis grande, estava montada numa cana, de modo que qualquer puxão ou toque no anzol logo faria a cana vergar, e cada linha tinha dois tambores de quarenta braças que podiam ser atados às reservas, a ponto de, se necessário, um peixe poder levar consigo mais de trezentas braças de linha.

E o homem observava as três canas à borda do esquife, e remava devagar para manter as linhas direitas e nas profundidades convenientes. Já era dia e de um momento para o outro nasceria o sol.

O sol ergueu-se levemente do mar, e o velho distinguia os outros barcos ao rés do horizonte e muito para terra, dispersos na corrente. Depois, o sol tornou-se mais resplandecente e o brilho veio sobre as águas, e depois, ao erguer-se de todo, o mar chão atirou-lhe o reflexo aos olhos e cegou-lhos, e remou pois sem olhar mais. Debruçou a vista para a água e observou as linhas que desciam direitas para a sombra profunda. Como ninguém ele as mantinha direitas, de modo a haver em cada nível das trevas da corrente uma isca exactamente aonde ele desejava que ela estivesse à espera de um peixe que por aí nadasse. Outros as deixavam ir à deriva na corrente, e às vezes estavam a sessenta braças quando os pescadores as julgavam a cem.

"Mas, pensou, eu aguento-as com precisão. O que já não tenho é sorte. Quem sabe? Talvez a tenha hoje. Cada dia é um novo dia. É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exacto.

Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela".

O sol subira mais duas horas, e os olhos já se não doíam tanto de olhar para o oriente. Havia só três barcos à vista, muito na linha do horizonte e na direcção de terra.

"Durante a vida inteira o sol nascente me fez mal aos olhos, pensou. Contudo, ainda são dos bons. + tarde, sou capaz de o olhar a direito sem ficar a ver negro. + tarde é mais forte. Mas pela manhã magoa".

Nesse momento, viu um petrel com as longas asas negras, a voltear no céu à frente dele. A ave

caiu subitamente, picando com as asas recuadas, e voltou depois a voar em círculo.

-- Arranjou alguma coisa -- disse o velho em voz alta. --

Não está só à procura.

Remou devagar, com firmeza, para onde o pássaro pairava.

Não se apressava e mantinha as linhas em posição. Mas forçava um pouco a corrente, e pescava ainda correctamente, embora mais depressa do que pescaria, se não estivesse a tentar servir-se da ave.

Esta elevou-se no ar e pairou de novo, de asas imóveis.

Depois mergulhou repentinamente, e o velho viu peixes-voadores saltarem da água e voarem desesperadamente sobre a superfície.

-- Delfins -- disse alto o velho. -- Delfins dos grandes.

Embarcou os remos e tirou da proa uma pequena linha. Tinha uma guia de arame e um anzol de tamanho médio, e o velho iscou-o com uma das sardinhas. Deitou-o pela borda fora e amarrou-o a um anel à ré. Iscou a seguir outra linha, que deixou ficar na sombra da proa.

Voltou aos remos e a observar o pássaro negro, de longas asas, que pairava agora ao lume de água.

Enquanto o observava, a ave mergulhou com as asas recuadas, e depois bateu-as furiosamente e sem resultado na perseguição aos peixes-voadores. O velho bem via a ligeira saliência que na água os delfins erguiam atrás dos peixes fugitivos. Os delfins cortavam as águas sob o voo dos peixes e estariam em grande velocidade onde eles caíssem. É um grande bando de delfins, pensou. Vão dispersos e os peixes-voadores têm poucas probabilidades. O pássaro não tem nenhumas. Os peixes-voadores são grandes demais para ele e demasiado velozes.

Viu os peixes-voadores saltarem e tornarem a saltar e os movimentos ineficazes da ave. "Esse bando afasta-se de mim --

pensou. Vão muito depressa e para muito longe. Mas talvez eu apanhe uns desgarrados e talvez que o meu peixe graúdo ande à volta deles. O meu peixe graúdo há-de estar nalguma parte".

As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azuis-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase púrpura. Ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do sol nas águas, com o sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do

sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de um argonauta flutuando junto do barco. Deitou-se de lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água.

-- Agua mala -- disse o homem. -- P...

De onde se inclinava ligeiramente contra os remos, olhou para dentro da água e viu os pequeninos peixes, que eram coloridos como os filamentos do argonauta e nadavam entre estes e sob a pequena sombra que o balão fazia indo à deriva.

Eram imunes ao veneno. Mas os homens não o eram, e quando alguns filamentos vinham na linha e nela ficavam, frágeis e purpuríneos, enquanto o velho lidava um peixe, aparecer-lhe-iam borbulhas e inflamações nos braços e nas mãos, daquelas que as plantas venenosas podem causar. Mas estes venenos da agua mala são rápidos e ferem como uma chicotada.

As bolhas iridescentes eram belas. Mas eram a coisa mais falsa do mar, e o velho gostava de ver as grandes tartarugas marinhas comerem-nas. As tartarugas, mal as viam, aproximavam-se pela frente, fechavam os olhos para ficarem completamente carapaçadas, e comiam-nas com filamentos e tudo. O velho gostava de ver as tartarugas comerem-nas, e gostava de as pisar na praia após um temporal e de ouvi-las estalar quando as calcava com as plantas calejadas dos seus pés.

Gostava das tartarugas verdes e das bico de falcão com a sua elegância, a sua ligeireza, a sua grande coragem, e sentia um amigável desprezo pelas feias e estúpidas caretas, de armadura amarela, estranhas na cópula, e comendo consoladamente e de olhos fechados os argonautas.

Não nutria misticismo acerca das tartarugas, embora tivesse andado muitos anos na pesca delas. Faziam-lhe pena todas, mesmo as maiores, tão grandes como o esquife e pesando uma tonelada. A maior parte das pessoas é impiedosa para com as tartarugas, porque o coração delas bate horas e horas, depois de arrancado e esquartejado. "Mas, pensava o velho, também o meu coração é assim, e como os delas são os meus pés e as minhas mãos". E

comia os brancos ovos para que lhe dessem força. Comia-os em Maio para, em Setembro e Outubro, ter força para o peixe graúdo.

Bebia também um copo de óleo de fígado de tubarão, todos os dias, no armazém onde muitos dos pescadores guardavam a palamenta. Havia-o lá para aqueles que o quisessem. A maior parte deles detestava-lhe o sabor. Mas não era pior do que levantar-se um homem à hora a que eles se levantavam, e fazia muito bem aos resfriamentos e gripes, e era bom para os olhos.

O velho ergueu o olhar, e viu que o pássaro continuava a adejar.

•

Deu com peixe -- disse em voz alta. Nenhum peixe-voador rasgava a superfície, e não havia redemoinhos de peixe miúdo. Mas, enquanto observava, um atum saltou no ar, volteou e caiu de cabeça na água. Brilhou como prata ao sol, e logo após ter voltado às águas, outro e outro saltaram, e por todos os lados pulavam, fazendo ferver a água e espinoteando em longos saltos atrás do peixe de isca. Cercavam-no e levavam-no.

"Se não vão muito depressa, apanho-me no meio deles", pensou o velho, e observava o cardume branqueando de espuma as águas e o pássaro já mergulhando em pleno peixe miúdo que o pânico forçava a vir à superfície.

-- O pássaro é uma bela ajuda -- disse o velho. Nesse momento, a linha da popa retesou-se-lhe debaixo do pé, sob o qual segurava uma volta dela, e largou os remos e sentiu o peso do tremente esforço de um pequeno atum, ao segurar firmemente a linha e começar a puxá-la. O

tremor aumentava à medida que ia puxando, e distinguia bem os lombos azuis do peixe na água e o dourado dos flancos, antes de o atirar por sobre a borda para dentro do barco. O animal ficou à popa, ao sol, maciço e em forma de bala, com os olhos grandes e sem inteligência muito arregalados, enquanto ia gastando a vida contra o tabuado do barco, em rápidas e trémulas pancadas da cauda ágil e elegante. O velho, por bondade, deu-lhe uma pancada na cabeça, e com um pontapé atirou-lhe com o corpo ainda palpitante para a sombra da popa.

-- Albacora... -- disse alto. -- Dá uma bela isca. Pesa para aí uns cinco quilos.

Não se recordava já de

quando começara a falar em voz alta, se andava só. Nos bons tempos, andando sozinho, cantava, e cantara às vezes de noite, quando ficava só, de quarto ao leme, nos veleiros ou na pesca da tartaruga. Provavelmente, principiara a falar sozinho em voz alta, quando o rapaz deixara de o acompanhar.

Mas não se lembrava. Quando ele e o rapaz pescavam juntos, em geral falavam só quando era necessário. Falavam de noite, ou quando iam levados pelo temporal, se havia mau tempo. Era considerado uma virtude não falar inutilmente no mar, e o velho sempre assim considerara e respeitava o uso. Mas agora pensava em voz alta muitas vezes, desde que não vinha com ele quem quer que pudesse aborrecer-se.

-- Se os outros me ouvissem falar alto, haviam de julgar que eu estava doido -- disse. -- Mas, como não estou doido, não me ralo. E os ricos têm nos barcos rádios que lhes falam e lhes dão as notícias do "baseball".

"Não é altura de pensar no "baseball". É tempo de pensar numa só coisa. Aquela para que nasci. Podia andar um dos grandes à volta deste cardume. O que eu apanhei dos que estão a comer foi um tresmalhado. Mas vão entretidos e depressa.

Tudo o que hoje me aparece à superfície vai depressa e para nordeste. Será da hora? Ou

algum sinal do tempo que eu não conheça?"

Já não via a verdura da costa e apenas os topes das montanhas azuis que pareciam brancas como se tivessem neve, e as nuvens sobre elas, como altas montanhas nevadas. O mar estava muito escuro, e a luz irisava-se nas águas. O sol alto anulava as miríades de pontos do plâncton, e só aos grandes prismas profundos na água azul agora ele via com as linhas descendo na água que tinha uma milha de profundidade.

Os atuns, como os pescadores chamavam a todos os peixes da espécie "tuna", que só distinguiam pelos nomes próprios quando vinham vendê-los ou trocá-los por iscas, os atuns haviam-se sumido. O sol estava quente, e o velho sentia-o no cachaço, como sentia o suor correr-lhe pelas costas abaixo, ao remar.

"Podia ir à deriva, pensou, e dormir e dar uma volta de linha num dedo de um pé, que me acordava. Mas hoje faz oitenta e cinco dias, e devo pescar como deve ser."

Nesse preciso instante, observando as linhas, viu uma das canas verdes dobrar-se subitamente.

-- Sim -- disse. -- Sim -- e embarcou os remos sem tocar no barco. Estendeu a mão para a linha, e segurou-a delicadamente entre o polegar e o indicador da mão direita. Não sentiu tensão nem peso, e segurava muito ao de leve a linha.

Novamente veio. Desta vez, um puxão a tentear, nem firme, nem pesado, e o velho sabia exactamente o que era. A cem braças, um peixe graúdo estava a comer as sardinhas que cobriam a ponta e o corpo do anzol onde o anzol feito à mão se projectava da cabeça da pequena "tuna".

O velho segurava delicadamente a linha, e cuidadosamente, com a mão esquerda, soltou-a da cana. Podia assim deixá-la correr entre os dedos, sem que o peixe sentisse qualquer oposição.

"Este das profundas, é mês de estar no bom tamanho, pensou.

Come-as, peixe. Come-as. Faze favor de as comer. Como estão frescas, e tu a seiscentos pés, nas trevas, nessa água fria.

Dá outra volta no escuro e volta a comer nelas".

Sentiu o ligeiro e delicado puxão, e depois um puxão mais forte, quando a cabeça da sardinha teria custado mais a arrancar do anzol. Depois, mais nada.

•

Anda -- disse alto o velho. -- Dá uma volta. Cheira-as. Pois não são boas? Come nelas, que ainda há a tuna.

Tesa e fresca e saborosa. Não te acanhes, peixe. Come.

Esperou com a linha entre o polegar e o dedo, observando-a e às outras linhas, porque o peixe podia ascender ou afundar-se mais nas águas. Houve então o mesmo delicado toque.

-- Há-de morder -- disse o velho, em voz alta. -- Deus permita que ele morda.

Não mordera, todavia. Fora-se embora, e o velho nada sentia.

-- Não pode ter ido. Deus sabe que não pode. Está a dar uma volta. Talvez já tenha engolido um anzol, e ainda se lembre um pouco.

Sentiu de novo o suave puxão, e ficou feliz.

-- Tinha dado a sua volta. Há-de cair.

Sentir o puxão ligeiro era uma felicidade, e de repente sentiu algo incrivelmente pesado. Era o peso do peixe, e deu linha, linha, linha, recorrendo às duas pilhas de reserva.

Enquanto ela descia, deslizando levemente entre os dedos do velho, ainda sentia o grande peso, embora a pressão do polegar e do dedo fosse quase imperceptível.

-- Que peixe! Tem-na de esguelha na boca e vai-se com ela.

Há-de dar uma volta e engoli-la. Não dizia isto, por saber que, se se diz uma coisa boa, pode ela não acontecer. É que ele sabia que grande peixe aquele era, e imaginava-o afastando-se na treva, com a "tuna" atravessada na boca.

Nesse momento sentiu que ele parava, mas o peso mantinha-se. O peso aumentou; e largou mais linha. Apertou por instantes o polegar e o dedo, e o peso aumentava e ia para baixo.

-- Caiu. Deixá-lo comer à vontade.

Permitiu que a linha deslizasse entre os dedos, enquanto com a mão esquerda prendia a ponta das duas pilhas de reserva às reservas da outra linha. Estava preparado. Tinha agora três tambores de quarenta braças, além do que ia desenrolando-se.

-- Come mais um bocadinho. Come à vontade.

"Come, de maneira que o bico do anzol se te espete no coração e te mate, pensou. Vem para cima sossegado, que eu meto-te o arpão. Muito bem. Já acabaste? Estiveste à mesa o tempo que quiseste?"

•

Agora! -- exclamou, e deu um puxão a mãos ambas, recuperou uma jarda de linha, tornou a puxar, e outra e outra vez, atirando alternadamente cada braço à corda, com toda a força dos braços e o peso do corpo em alavanca.

Nada aconteceu. O peixe continuava a afastar-se devagar, e o velho não conseguia fazê-lo ascender uma polegada. A linha era forte, própria para peixe graúdo, e segurava-a contra as costas, tão tensa que gotículas de água saltavam dela.

Depois, a linha principiou a chiar baixinho nas águas, mas continuava a segurá-la, retesando-se contra o banco e deitado contra o sentido da força. O barco começou a vogar lentamente para noroeste.

O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer.

Quem me dera agora o rapaz -- disse alto o velho. -- Vou a reboque de um peixe, e sou eu as abitas (1).

(1) Termo náutico: prisão de madeira a que se seguram as amarras (N. do T.) Eu podia amarrar a linha, mas podia ele rebentá-la. Tenho de o segurar o mais que possa, e de lhe dar linha quando ele precisar. Graças a Deus que vai de longada e não mergulha.

"Que hei-de fazer, se ele decide mergulhar, não sei. Que hei-de fazer, se vai para o fundo e morre, não sei. Mas hei-de fazer alguma coisa. Há uma data de coisas que eu posso fazer".

Segurava a linha contra as costas, e observava o viés dela na água e o esquife movendo-se firmemente para noroeste.

"Isto há-de matá-lo, pensava o velho. Não pode continuar assim eternamente". Mas, quatro horas mais tarde, o peixe continuava a nadar para o largo, rebocando o esquife, e o velho estava ainda solidamente retesado com a linha pelas costas.

-- Era meio-dia, quando o apanhei. E nunca o vi.

O chapéu de palha, que enterrara na cabeça com força antes de anzolar o peixe, cortava-lhe agora a testa. Estava, além disso, cheio de sede, e pôs-se de joelhos e, com cuidado, para não fazer vibrar a linha, chegou-se quanto pôde à proa e estendeu uma das mãos para a garrafa de água. Abriu-a e bebeu um pouco.

Depois, descansou encostado à proa. Descansou sentado no mastro desarmado, e fez por não pensar, aguentar apenas.

Olhou então para trás, e viu que não havia terra à vista.

"Não tem importância, pensou. Posso sempre voltar guiado pelo clarão de Havana. Ainda há mais duas horas até o sol se pôr e talvez que ele venha ao cimo antes disso. Se não vier, talvez venha com a lua. Se também não vier, talvez venha com o nascer do sol. Não sinto cãibras e estou em forma. Quem tem o anzol na boca é ele. Mas que peixe, para puxar assim! Deve ter a

boca cerrada no fio. Quem me dera vê-lo. Quem me dera vê-lo, ao menos uma vez, para saber com quem tenho de me haver".

O peixe não mudou de andamento nem de direcção durante essa noite, tanto quanto pelas estrelas o homem avaliava. Depois de o sol se pôr, arrefeceu, e o suor do velho secou-lhe nas costas, nos braços e nas velhas pernas. Durante o dia, tirara o saco que cobria a caixa das iscas, e estendera-o a secar ao sol. Posto o sol, passou-o ao pescoço, por forma a que lhe descesse pelas costas, e cuidadosamente foi-o interpondo sob a linha que estava agora ao través dos ombros. O saco almofadava a linha, e o velho arranjara maneira de dobrar-se contra a proa, quase confortavelmente. A posição era, de facto, apenas um pouco menos intolerável; mas achava-a quase confortável.

"Nada lhe posso fazer, nem ele a mim, pensou. Pelo menos, enquanto ele continuar assim".

Uma vez, levantou-se e urinou pela borda fora, e olhou para os astros a verificar o rumo. A linha brilhava na água como uma fita fosforescente que lhe saísse dos ombros. Iam então mais devagar, e o clarão de Havana era menos intenso; a corrente levava-os, portanto, para leste.

"Se perco o reflexo de Havana, é porque vamos mais para leste, pensou. Porque, se o rumo do peixe é certo, devia eu vê-lo por muitas mais horas. Que se passará com o "baseball" da 1.a divisão? Isto com um rádio é que era bom". E, a seguir, pensou: "Não te distraias. Pensa no que estás a fazer. Não faças alguma asneira".

Depois, em voz alta, disse: -- Quem me dera o rapaz! Para me ajudar e para ver isto.

"Ninguém devia estar só na velhice, pensou. Mas é inevitável. Tenho de me lembrar de comer a "tuna", antes de se estragar, para aguentar as forças. Lembra-te, por pouco que te apeteça, tens de a comer pela manhã". Lembra-te, repetiu de si para si.

Durante a noite, dois porcos marinhos vieram para junto do barco, e bem os ouvia espinoteando e bufando. Era capaz de diferençar o ruído assoprado que o macho fazia, e o sopro suspirado da fêmea.

-- São bons. Brincam e divertem-se e amam-se. São nossos irmãos como os peixes-voadores.

Depois, começou a sentir pena do grande peixe que apanhara.

"É maravilhoso e estranho, e quem sabe como será velho, pensou. Nunca apanhei um peixe tão forte, nem que se portasse tão estranhamente. Talvez não esteja disposto a saltar. Podia dar cabo de mim com um pulo ou uma correria desenfreada. Mas talvez já saiba o que é um anzol e que é assim que lhe convém lutar. Não pode saber que é um só contra ele, nem que é um velho. Mas que grande peixe! E, se a carne é boa, o que não dará no mercado! Mordeu a isca como um macho, é como um macho que puxa, e luta sem pânico algum.

Terá quaisquer planos, ou estará apenas tão desesperado como eu?"

Recordou-se da vez em que apanhara um peixe graúdo, de um casal. O macho deixa sempre a

fêmea comer primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e todo o tempo o macho estivera ao pé dela, cruzando a linha e dando voltas com a fêmea à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma.

Continuar: parte 2 de 3