Os Bravos do Mindello

Faustino da Fonseca · Capítulo 9 de 14

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Os Bravos do Mindello

Capítulo VIII

 

—Alviçaras, senhor morgado, alviçaras! Deus amerceiou-se de nós, e deu por terminada a expiação com que quiz provar os seus servos!

Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de semelhantes boatos.

Mas o frade confirmou, enthusiasmado:

—Victoria! Victoria! E graças sejam dadas ao ceu!

—É então verdade o que para ahi dizem?

—Estão reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados por João Moniz Côrte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de outras freguesias, e vão acclamar el-rei na villa da Praia, e facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!

—E a tropa que marchou hontem contra elles?

—Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados liberaes. Que vergonha para esses fanfarrões!

—E que vergonha para mim, fr. Angelico—exclamou o morgado, n'um impeto guerreiro.—Devia estar ao lado d'elles, como me impõe o nome, a linhagem, o serviço do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.

—Não posso, senhor Martinho Vasques; a minha missão é toda de paz!

—Sei de muitos frades que se teem batido pela bôa causa.

—Sempre houve meus irmãos em Christo que usassem a cruz e a espada. Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes...

—Pois irei eu só. Não quero que notem a minha falta...

—Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem impossibilitado. O melhor serviço que póde prestar ao senhor D. Miguel é dar mais alguma quantia...

—Tem razão, estou já muito velho para essas danças—concordou o morgado, procurando eximir-se á nova contribuição.

—Será tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecerá n'elle a sua bôa vontade.

—Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro?

—Sempre são mil e quinhentas bôcas a comer...

—Tomem á força o que precisarem, como fizémos no Roussillon.

—Não diria o mesmo V. Ex. a se esses valentes realistas andassem cá pelas visinhanças.

—Tem razão, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a choldra, para que eu possa embarcar descansado.

—Ainda persiste em ir para Lisboa?

—E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha, para que de todo esqueça esse disparatado namorico, e se disponha a desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dará á minha casa a tão desejada successão.

—Perdôe V. Ex.a a minha extranheza. Depois do que se tem passado ainda pensa em tão honrosa alliança?

—E porque não?

—Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa peccaminosa aventura...

—Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por ventura alguma coisa?

—Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um liberal; em conclusão: um depravado capaz de tudo.

—Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas estão muito acima d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.

—Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me permitido manifestar as indicações que faz o Creador ás creaturas servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei que uma voz occulta brada em meu peito: «Quero-a para mim! Quero-a para mim!» Significa isto que está indicada a clausura como penitencia da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se arrojaram a cubiçar os bens de V. Ex. a para as suas obras de Satanaz.

—Se fôsse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, não a hei de meter freira.

—Não digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a vocação, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, ficava quite V. Ex.a para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria só foi attingida na sua bôa fama. De mais graves estragos, porém, tem ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.

Meditou um pouco o morgado, e respondeu:

—Não posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto varão, já que Deus não me deixou vingar um filho, que succedesse no meu appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, não tenha receio. Minha filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande nome, terá toda a conveniencia em não dar ouvidos ás intrigas.

—E a senhora D. Maria quererá casar com elle?

—Cumprirá o que lhe ordenar, como deve.

—Assim é em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo os conselhos d'esse perverso que a fizeram má filha, como a hão-de fazer má esposa.

—Entregue-a eu ao marido, e o mais é com elle. Bem sabe a fama de leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido desde casada. Feche-a, como eu faço, tire-lhe as occasiões, e será esposa exemplar como as outras.

—Como a senhora D. Perpetua—exclamou fr. Angelico, pondo a mão no peito—apesar das más linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que até em demasia pratíca a minha senhora os seus deveres religiosos. Appelle V. Ex. a para a sua autoridade de marido, e faça-a limitar a frequencia ao tribunal da penitencia. Ella é insaciavel de mortificações, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe parcimonia, porque o meu ministerio não é o mais proprio para a arrancar a excessos de devoção.

—Não se lhe preste vossa reverendissima ás rabujices de beata. Agora todo o seu tempo será para corrigir minha filha. Sou o primeiro a sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho, pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro ás suas luzes. Repita-lhe as confissões, meta-lhe medo com o inferno e fale-me, á meza, dos sacrilegios d'esses patifes.

—Cumprirei a minha missão de pastor, chamando ao redil a desgarrada ovelha ... Mas o mais seguro de tudo é a caça aos lobos. É preciso offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religião e de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer á forca!

—Sim, diz bem.

—Pois lembre-se V. Ex.a dos nossos amigos que já começaram a batida.

Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa fórma fr. Angelico, enchendo o seu pé de meia antes que o morgado abalasse para Lisboa.

Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza.

Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o comer.

Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grande partidaria de Carlota Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos.

—Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex. a sentir desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo tão offendido, e estou certo que o senhor morgado não deixará de mandar pôr o seu carroção para dar ás festas o prestigio da sua presença, e á menina Mariquinhas, como é de lei, a lição do castigo dos criminosos.

Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, não respondeu ás solicitações directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos de o descompôr.

Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel.

Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes, anciava vêr Josepha da Esperança que lhe devia contar a verdade.

Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda do pae para a fazer abandonar João.

Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do povo de Lisboa em 1820, invadindo o palacio da inquisição, e despedaçando a estatua da Fé, da frontaria; e as invenções fradescas de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em procissões maçonicas.

Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em peccado mortal pela affeição votada a um adepto de Satanaz.

Mas chocava-a a inverosimilhança de que esse pobre rapazinho, tão meigo, tão ingenuo, tão respeitador, bebesse vinho por caveiras, e escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais excitado pelo verdelho.

Mal se levantou a mãe, ergueu-se logo, e foi para o mirante esperar a prima, deixando o frade no relato dos castigos celestes, provocados pelo peccado da liberdade, os tremores de terra, as perdas de colheitas, a febre amarela que flagellára a Hespanha por causa das suas côrtes constitucionaes.

Confirmou-lhe Josepha a apparição da guerrilha, e a derrota dos dois destacamentos, mas tranquillisou-a, que aquillo não tinha importancia nenhuma.

Fôra pedir-lhe João que a animasse.

N'essa mesma tarde estaria a revolta acabada, porque saíra toda a tropa do castello para ir afugentar os miguelistas.

—Por isso ouvi tantos toques de cornetas, que o vento estava de lá.

—Passaram-me pela porta. Olha que ia bonito! Nunca vi tanta soldadesca junta, carretas com peças, officiaes a cavallo, a musica a tocar o hymno constitucional, a garotada dançando á frente, e povo como bichos atraz. Ao passar, o João abaixou-me a cabeça...

—Pois elle tambem foi?

E Maria abraçou-se á prima a chorar.

—Elle, Josepha, uma creança, metido n'isso por minha causa. Sim, porque se não fosse dar lhe para gostar de mim, não tinha ido sentar praça, não se via agora envolvido n'essas guerras, em risco de lá ficar.

—Então, filha, aquillo não vale nada. Se tu visses como elle ia contente, risonho! Parecia um passeio. Se prenderam as outras forças é porque eram só de vinte homens, e foi cada qual por seu caminho.

—Mas hão de dar tiros, e se algum acerta n'elle? É capaz d'isso, que eu sou muito desgraçada, e nunca vae por diante aquillo a que quero bem. Elle é as flores da minha estima, os canarios das minhas gaiolas. Credo! Credo!

—Acredita que não tem perigo. O mestre Jacintho, que lá ia sentado n'uma carreta, porque percebe muito de peças, a rir-se como um tolinho, disse ao meu creado que ao primeiro tiro fugirão como bando de estorninhos.

—A minha desgraça, Josepha!—continuava Maria, inconsolavel—É como se já o visse morto! Ao que eu ouvi a fr. Angelico, elles teem tudo como feito, e já falam de enforcar os liberaes. No que se vae vêr aquelle pobrinho!

—Agora vejo que te esteve a meter mêdo, o sujo. Não sei o que me contem, que não diga um dia ao tio porque vem elle aqui tanta vez, a exercicios espirituaes. Mas se o maldito continua a fazer-te chorar, olé se o desmascaro. Hypocrita! É tudo mentira, filha, acredita-me.

Maria encarou-a mais esperançada.

—Olha, se o visses, em vez de chorar, rias-te como eu me ri. Elle ia de mochila, capote, bornal, correias por cima de correias, espingarda ao hombro, tão carregado de coisas que nem sei como se podia mecher. Pois apezar d'isso andava tão depressa que desapparecia. Os caçadores vão desesperados por causa dos paisanos lhe terem prendido os camaradas. Olha que elles são soldados de fama! Onde chegam, vencem tudo.

—Estou mais descançada por ir o mestre Jacintho, que ha de tomar conta n'elle.

—Ora vê lá esse velhote, o que tem passado, as guerras em que entrou, e como ahi está são e escorreito. Teu pae mesmo por lá andou, o avô do João veiu morrer á sua cama, e quantos e quantos! Até me parece que elles inventam os perigos, para se darem ares, e que no fundo é tudo uma santa historia.

—Deus te oiça, Josepha!

—O que te posso dizer é que elles iam tão assustados que encaravam com todas as janelas. E que olhares, filha, parece que queimavam, tanto calor me subia á cara! Era tão bonito vêl-os marchar, os officiaes muito empertigados, a retorcerem o bigode, que se me foram os olhos n'elles.

Desanuviou-a um pouco a vivacidade de Josepha:

—Ainda vens a namorar um militar.

—Cuidas que todas gostam de soldados, como tu?

Maria acabou por sorrir, e enxugou as ultimas lagrimas.

—Sabes quem é para ter dó?—continuou Josepha.—É o primo Jorge. Anda com os guerrilhas, o grande maluco. Foi-se-me mostrar, todo pimpão, com uma aguilhada de carreiro para imitar o senhor D. Miguel. No que elle se engana é que aqui os liberaes estão armados, e em Lisboa andavam com as mãos a abanar, por isso el-rei os perseguia a pampilho. O que vale é que, como anda a cavallo, e ha-de ser dos primeiros a fugir, antes que o apanhe alguma bala, põe-se a salvo.

—Que malditas questões!—suspirou Maria, tornando a commover-se.—Succeda o que succeder, pelo menos uma de nós ha-de chorar, se não chorarmos ambas.

—Lá d'elle vir corrido não me importa nada. Até gosto, se queres que te diga, porque o João deu-me volta ao miolo. Se isto é ser constitucional e fica feio, não sei nem quero saber, mas lá em querer acabar com os conventos teem elles carradas de razão. Para que é aquillo bom? Para fazer dôces? Pois em nossa casa fazem-se muito melhores, e não são lambidos por aquellas fufias, crédo, que até me repugnam os seus beijos repenicados.

Por fim, ao despedirem-se, combinou Josepha como havia de dar-lhe noticia certa do que se passasse. Mandaria pelo creado pedir-lhe qualquer coisa, e isso seria o signal de que João estava incólume.

Ficando só, entregue ao seu desgosto, poz-se Maria a contemplar as grandes serras do interior da ilha, a querer descortinar o que atraz d'ellas se estava passando.

 

Para além das escuras cumeadas marchava João entre as cento e cincoenta praças da columna, pensando amargamente na abominavel escravidão mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas hostilisando os libertadores.

Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam, erguendo-os á concepção de uma patria, á realisação de um pais independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos.

Eram forçados a armarem-se de espingardas contra esses cujo soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a terra; abrangendo na mesma redempção o camponês dobrado sobre a enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento, a mulher escravisada na clausura.

Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades intellectuaes, mas não esqueciam o cavador, o pescador, o artifice, formulando as reclamações que elles eram incapazes de conceber, analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da completa submissão.

Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela suppressão do direito dos senhores ao producto do trabalho, expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores das rendas publicas; desembargadores vendilhões da justiça; militares insaciaveis de promoção e de soldos; capitães-móres que dispensavam de soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas; fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si sós eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a maior industria, quasi a unica industria, a exploração da credulidade publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional.

E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em córos de vozes avinhadas:

Rebenta mação

Remoe liberal,

Livre é Portugal

Da constituição.

Ó Virgem da Bôa Morte,

Senhora dae-lhes consumo

Para que os pedreiros levem A volta que leva o fumo.

A fôrca em bolandas

Andando apressada

Da atroz pedreirada Acabe as demandas.

Estavam convencidos os desgraçados populares, arrancados á familia para derramarem sangue pelos seus parasitas, de que se batiam pela religião, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarára guerra a Portugal, e lhe arrancára o Brasil, calcando aos pés emblemas nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara á terra o archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu antigo explendor a fé catholica.

Tinham-o ante os olhos, resplandecente, prestigioso, n'esses retratos postos nos altares, como os de santos, ante os quaes se rezava e se diziam missas; n'essas gravuras que o mostravam pujante de juventude, na sympathia dos vinte annos, no vigor dos amplos gestos, na rijeza da musculatura, largo de hombros, amplo arcaboiço, expressão de firmeza no rosto comprido e trigueiro, lampejos de energia no olhar vivo, a figura dominadora a cavallo, chapéo de dois bicos vistoso de plumagens, esmaltado de crachás, espada em punho mandando avançar.

E murmuravam na uncção de orações, as cantigas em que elle apparecia como representante do ceu:

Senhora da Conceição

Madrinha de D. Miguel.

D. Miguel vae p'r'ó altar

Com dois palmitos aos lados.

É Miguel anjo de paz

Que Deus tem por general.

Chegára á villa da Praia, onde celebrou a acclamação de D. Miguel, lavrando o respectivo auto na camara, a grande guerrilha que já reunia cinco mil homens, mas retrocedeu ao Pico do Selleiro a esperar a columna liberal, e ahi rompeu o combate, avançando os soldados em atiradores até duzentos metros da elevação onde tomara posições.

Empallideceu João ao vêr esses homens em attitude aggressiva, apontando-lhe espingardas.

Jurára morrer pela liberdade, mas estremecia á ideia de ter de matar em nome d'ella.

Para que a nova ideia triumphasse era preciso reduzir a um montão de mortos e de feridos aquelles homens, seus patricios, seus irmãos ante a noção da fraternidade.

Era a ignorancia o seu unico crime, e por isso iam ser dizimados pelas peças, pelas espingardas dos caçadores, pela sua propria arma, que d'essa fórma ia estrear.

Mas se até para o bem d'elles era preciso!

E á voz de fogo, na passividade da disciplina que o tornava uma simples peça d'essa machina de morte, poz a espingarda á cara e, fechando os olhos, disparou.

Atordoou-o a descarga geral, a seca detonação da fuzilaria, o sonoro estampido dos canhões e, cambaleante do coice, os olhos a arderem da explosão da carga, a face magoada pela pancada da coronha, alagado em suor frio, mais morto que vivo, sentiu-se agarrado pelo veterano que, mal pudéra, fôra reunir-se a elle.

—Então, menino, isto não vale nada! Anime-se, que até parece mal. Está amarelo como um defunto!

—Ah! És tu, meu amigo!

Recobrando-se, explicou:

—O tiro rebentou-me mesmo na cara, ia-me deitando ao chão.

E segurou a espingarda pela bandoleira:

—Escalda, nem sei por onde lhe hei-de pegar.

—Não tiveram tempo para lhe ensinar o officio. Pois bem fiz eu em vir ser seu padrinho no baptismo de fogo, como seu avô foi para mim. Olhe, pegue-lhe por aqui, pelo delgado do fuste, agarre-a bem, não a encoste á cara, e não lhe succede mal nenhum.

Emquanto lhe explicava os manejos d'arma, continuava o combate; estremecia João ao vêr caír gente do seu lado, sem que parecesse attingida, e baixava instinctivamente a cabeça ao tiroteio do inimigo. —Deixe-os lá—continuou mestre Jacintho—estenderem-se no chão para fazerem fogo deitado. Não me faça cortesias, menino, que não serve de nada, e olhe bem direito para a frente, se quer vêr o enxame de moscas azues e vermelhas que andam a zumbir por entre a gente.

Fez ajoelhar João, collocou-se ao lado, e poz-se tambem a fazer fogo.

—Lá vae uma para aquelle patife de desertor do Cinco, que por lá anda envergonhando a farda Pum! Prompto! Ah! Já fostes escutar a cavallaria? Ande com elles, Joãosinho, aponte aos fardados, que são quem nos faz mal, e nos mandam cada ameixa! A paizanada, estar ali ou não estar, é tudo o mesmo. Mire os que andam a cavallo, que são os chefes, e ferre-me com elles em terra.

Aqueceu João, enthusiasmou-se, agora carregava a arma febrilmente e, tão sereno como se não o visassem as duzentas espingardas da guerrilha, apontava segundo as indicações do veterano, e disparava, de olhos bem abertos, observando se attingia o alvo.

—Agora sim! Está um homem, um bravo como seu avô! Pode servir de exemplo aos mais velhos! Vejam este camarada, rapazes, vocês que andaram na guerra, mas que são galuchos á minha vista!

E abraçou-o entre os applausos da sua esquadra.

—Cá o deixo, já não precisa de mim. Filho de peixe sabe nadar! Temos homem para ir longe. E agora deixe-me chegar até ás peças, a vêr se me deixam apontar uma á minha vontade, que já é tempo de varrer aquella malta.

Partiu, fazendo-se muito baixinho, dobrado ao meio, descendo aos regos do terreno para offerecer menos alvo, occultando-se com pedregulhos, arvores, restos de paredes derrubadas, como soldado afeito á guerra.

E João continuou muito senhor de si, lembrando-se de que a illusão da fraternidade perdera o governo constitucional, e depois a revolução do Porto.

Só pela violencia se dissolveriam as castas; só pelas armas se imporiam as medidas liberaes; nunca o progresso se realisaria sem sangue!

Após hora e meia de fogo, flanqueou uma força liberal a posição miguelista, e a guerrilha debandou ao vêr despedaçar pela metralha o caçador, do Porto Judeu.

—Victoria! Victoria!

E o veterano voltou a abraçal-o, e pegou-lhe ao collo, como se fosse a criança que amimára, envaidecendo-se do seu recruta, recordando enternecido a bravura do seu antigo official.

Respirava João amplamente, na alegria dos vivas, no orgulho do triumpho, e queria apparecer por encanto na quinta, mostrar a Maria que ficára illeso, beijal-a, chorar e rir abraçado a ella, affirmar-lhe que estava salva a causa, garantida a ventura de ambos.

—Pois havemos de lá ir, que o mereceu, galucho de uma cana! Que sustos não terão pregado á pobre menina!

E a essa evocação do receio dos que ficaram, lembrou-se da afflição das pobres tias, que tinham ido logo ajoelhar diante do oratorio, a pedirem por elle ás imagens da sua devoção: Santa Rita, dos impossiveis; S. José, que tinha ao lado uma palma benta em dia de Ramos, maior do que elle; o Christo de prata n'uma cruz de ébano; um coração com tampa de vidro, e dentro um menino entre flôres; um outro menino Jesus barrigudo, córado, vestido de boneca, com a bola do mundo na mão; e ainda outro n'um berço côr de rosa, com uma almofadinha bordada: menino Jesus nusinho para os beijos devotos, em que as beatas bemdiziam a sua santa virilidade. Na manhã seguinte recebeu Maria o recado de Josepha. Mandava pedir flôres. E ao ir ao jardim dal-as ao creado, soube da bôcca d'elle que os liberaes tinham vencido facilmente; que João não soffrera nem uma arranhadura, e que as flôres eram para as visinhas deitarem por cima dos soldados, que n'essa tarde entrariam triumphantes.

N'uma explosão de jubilo colheu quanto havia e ao deitar para o cesto o pouco que lhe dava outubro: «rosas do Japão» vermelhas e brancas, «esporas de cavalleiro» azul escuras, cheirosas baunilhas, a vermelha «flôr do laço», a «corôa de rei» azul-claro, misturadas com ramos de alecrim, era como se das janellas tambem as atirasse para cima de João, inebriada pela sua victoria.

Foi o jantar a antithese da vespera; desabafando o frade em improperios contra os liberaes que vira passar ao som de repiques, com ramos de louro nas espingardas, sob uma chuva de petalas, e Maria finava-se de rir pela parte que tivera na festa.

Veiu á tarde Josepha da Esperança, e contou-lhe que o vira radiante. Dissera-lhe «até logo», e era capaz de apparecer.

Foram ambas, alvoroçadas, esperal-o do lado da canada, aonde vinham dar os atalhos.

 

Mal debandou a força no quartel, correu João a casa, a socegar as velhas.

Ao vel-o a creada, a tia Maria da Assumpção, persignou se de uma maneira especial:

Eu me benzo

Co'o sangue de Christo

Co'o o leite da Virgem

Co'o a flôr da luz

Para sempre amen Jesus.

Foram mostrar-lhe a tia Dorotheia e a tia Pulcheria o oratorio a que ardiam velas em promessa. Proclamavam o milagre, e esperavam que elle se rendesse, caíndo de joelhos, agradecendo o dom do ceu. Mas só a ellas se mostrou grato, beijando-as, tornando-se de novo a creancinha em que não podiam adivinhar o rude soldado da vespera.

Debatiam-se agora as tres velhas n'um grave caso de consciencia.

Para que tinham forçado ao milagre a senhora Santa Rita dos Impossiveis? Fôra um pedido sacrilego! Vinha João mais hereje do que fôra, sem sequer agradecer aos santinhos que se amerceiaram d'elle. Salvando-o d'essa forma, talvez se tivessem perdido com elle!

 

O mal disfarçado riso com que Maria offendera á meza o seu despeito, encolerizára o morgado e o frade.

A indifferença da vespera, a certeza com que ella n'esse dia se mostrava ao facto da victoria, aggravou a Martinho as suspeitas de que se correspondia com João.

E depois da indispensavel visita ao alambique, foram emboscar-se a vigial-a.

Avistaram-os ellas, e reconheceram-se alvo da sua vigilancia, mas por coisa alguma se resignava Maria a deixar de vêr o namorado. Far-lhe-ia signal para que não parasse, e defender-se-ia do pae mostrando-se extranha a essa mera coincidencia.

Avistaram por fim ao longe o veterano e João, cosendo-se com as paredes dos cerrados.

Ao reconhecel-os, quiz o morgado lançar-se n'um impeto, mas conteve-lhe o frade o mau genio.

Esperava o momento compromettedor, em que a filha não podesse negar a leviandade e, confundida, ao vêr-se descoberta, pedisse perdão da afronta, e se entregasse a um sincero arrependimento.

Cedeu não sem custo, e quando tornou a olhar por entre as faias, notou com surpreza que já tinham desapparecido.

Percebendo os signaes para se afastarem, tinham os dois saltado á canada.

Rente com o muro, correra João a atirar-lhe para cima, enrolado a uma pedra, o bilhete que levava para a hypothese de não poder falar-lhe, e indo ter com mestre Jacintho saíram ao Caminho de Cima, por entre quintas.

Desconfiados, precipitaram-se fr. Angelico e o morgado, ao tempo que Maria devorava as quatro palavras de João.

—Dê-me essa carta, senhora!—bradou o frade, que chegára primeiro.

Sem responder, amarrotou o papel, e com elle fechado na mão, voltou-lhe as costas n'um olhar de desprezo, e afastou-se de braço com a prima.

Deteve-a o pae, exigindo-lhe o bilhete, que Josepha já occultára no seio, e Maria respondeu que nada tinha.

—Vi-lh'a eu, senhor, a carta d'esse hereje, d'esse pedreiro livre, que para deshonra de V. Ex.a perdeu a alma da senhora D. Maria!

E fr. Angelico apoiou a denuncia agarrando-lhe a mão em que a amarrotára.

Soltou-se ella violentamente, e o frade, cambaleando com a sacudidela de Maria e um indignado empurrão de Josepha, caíu contra um renque de vasos, esfarrapando-se e partindo-os.

Então o pae cresceu para ella:

—A menina estava esperando um homem, a quem eu repelli da minha porta. Além de me desobedecer, offendeu-me agora, resistindo a uma ordem minha. Repare bem, sou eu quem lh'o exijo! Dê-me a carta.

—Não tenho carta nenhuma, senhor. Deixe-me passar.

—Isso é que não. Iria escondel-a.

E detendo-a:

—Dê-me esse papel ao bem, ou arrepende-se!

—Senhor, já lhe disse que não tenho. E se tivese não devia dal-o, nem o pae m'o devia pedir.

—Ah! Não tem? É o que vamos vêr.

E segurando-a, o morgado apalpou-lhe o corpete, rebuscou-lhe a algibeira da saia, apertando-lhe brutalmente os pulsos emquanto ella se debatia, e como tudo fosse inutil, atirou-a rudemente contra o muro.

—A menina ha-de ficar sabendo que não se zomba d'um pae, e não se emporcalha um nome fidalgo namorando soldados.

N'um choro convulso Maria bradava, caída na banqueta:

—O pae bateu-me! Mas foi a ultima vez. Está enganado commigo. Não quero ter a sorte da mãe!

E para Josepha da Esperança, que os dois levavam adiante de si, tratando-a de encobridora, de enredeadeira:

—Não me desampares, Josepha! Conta o que vistes, e não te esqueças de que me bateram, e de que esse frade me magoou! É preciso que elle o saiba!

Tornara-se João tudo para ella!