Os Bravos do Mindello
Capítulo XI
Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas, ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:
«Não o merecia».
E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.
Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?
Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçaria a sua felicidade. João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.
E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida, davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.
Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo aquillo por causa d'ella!
Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida em trapos! Desgraçada!
Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome de Deus, limpando uma lagrima.
Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.
E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por consentimento d'elle.
Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dos gritos de Josepha, a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S. Francisco.
Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali, vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado.
Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu.
Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.
Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria individualidade.
Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela porta, vindo do interior.
Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu então que perdera o direito de entrar como d'antes.
Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando vir offegante como de uma grande discussão.
Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles, disse á pressa fr. Angelico:
—Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui. Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos por minhas mãos!
Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe pregavam-a ao sobrado.
Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente preparar-lhe aquella situação.
E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem poder desabafar.
Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.
Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha por melhor esperar ali.
E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que o pae não duvidava acceital-a.
Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeça erguida, caminhou após o frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.
Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos, reprehendeu-a severamente:
—Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus.
—Representou bem o seu papel—respondeu-lhe Maria—mas não julgue que me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.
Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a mãe phrases incomprehensiveis.
Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes.
O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever cumprido.
Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.
Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa.
Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:
—Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.
E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:
—Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros malditos!
Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria limpava compadecida.
—Quero confessar-me a ti, sim, filha—voltava ella n'uma insistencia pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber— Tenho um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher, pódes comprehender-me e perdoar-me.
Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:
—Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor. N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse, contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.
Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha, certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.
Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria, saíu Maria, cada vez mais resoluta.
Encontrou o frade no escriptorio:
—Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende...
E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.
—Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír. Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil.
Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe d'ali.
Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se immediatamente.
Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer.
Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:
—A sua benção, pae.
Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse retirar-lh'a.
Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida:
—Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando da mãe.
Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra.
Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o frade:
—Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a bondade de sentar-se—e offereceu-lhe uma cadeira—que eu tenho de levar até ao fim a missão de que me encarreguei.
Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que continuava comendo, como se nada fosse com elle:
—O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou!
—Com licença, pae!—disse Maria sentando-se.
E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza, mais sangue frio.
Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.
Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.
—Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe.
Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e agarrou-se ao franciscano:
—Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.
Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas, reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si, tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se riam da velha.
No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o medico, que observou demoradamente D. Perpetua.
Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.
Ouviu-o o fidalgo com má sombra, sem responder.
No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João voltasse da Praia e começasse a rondar por ali.
Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino liberal.
Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a professar.
Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João, pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:
—Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do senhor D. Miguel.
Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira, tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque. Rindo inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de lanchas.
Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu noivo, a sua ventura.
No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.
Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os avistou.
Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello, cujas muralhas se avistavam da quinta.
Só podia ser na villa da Praia, onde estava João!
E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas, como a do Pico do Selleiro.
Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando as noticias da batalha.
Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia comprehender.
Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára.
Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou que a nau D. João VI estava perdida.
—Isso póde lá ser, homem de Deus—contestou Martinho—Uma nau de tres pontes, que é a flôr da nossa marinha!
Insistiram, e accrescentaram:
—A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!
Afastaram se repetindo o grito de alegria «viva a nau encalhada!» —Tinham vencido! É porque Deus os protegia—pensava ella—tão poucos, tão fracos, creanças como João, e os academicos que tinham ido para a villa! E elle? Saíria a salvo? Teria ficado ferido ou morto?
Logo de manhã o creado da prima appareceu com um açafate á cabeça, a pedir flôres.
Era o signal da outra vez, querida Josepha!
Agora sim, agora confiava no futuro.
Escoltando carros de bois, cheios de pescados, vinha João entre camaradas, enfarruscados de polvora, espingardas enramadas de louros, cantando na musica do toque da alvorada:
Ai, meu Deus,
Isto é que é rir!
Vêr os caipiras
Da Praia a fugir.
Ainda lhe parecia mentira!
Quando ao desfazer-se o nevoeiro vira a bahia cheia de grandes navios ameaçadores de portinholas, onde apontavam guelas de canhões, creu tudo perdido, porque o grosso das forças liberaes estava a quatro leguas, no castello, e ali só havia quinhentos homens, e onze velhas peças montadas em ruinas de fortes, com simples soldados por commandantes!
Ribombou a artilharia da esquadra, guarnecida de trezentas e quarenta bôcas de fogo, e ensurdecido pelo estrondear, cego do fumo, da terraceira projectada pelas balas, julgou tudo fulminado, vencido de vez.
Mas ao subir a nuvem azulada, reappareceram os exiguos fortes liberaes, e os artilheiros, imperturbaveis, n'essa indifferença do habito que, mais do que tudo, o surprehendia, apontavam agora, e alguns tiros insignificantes, um como brinco de creanças, responderam áquella unanimidade de canhonadas.
Caíu logo uma retranca á nau, e a confusão da tolda demonstrou que os de terra não tinham perdido a serenidade.
No forte de S. José, o velho ilheu Manoel Caetano acompanhava os filhos, artilheiros da costa, para os ensinar a fazerem as pontarias.
—Senhor governador—dissera ao sargento commandante—feche a porta e guarde a chave, porque estes mancebos são muito bisonhos, e ainda não ouviram zunir pelouros.
Ao cahir um d'elles, dirigiu-se ao que lhe restava:
—Desvia teu irmão que já pagou a sua divida á patria, e tratemos de o vingar!
E só assim, dedicações firmes, convicções inabalaveis, poderam resistir a esse infernal canhoneio de cinco horas.
Avançaram ao desembarque mil e tantos homens, o dobro dos que guarneciam meia legua de areal, e a vantagem do numero e da concentração, deu-lhes logo o alto do Facho e o forte do Espirito Santo.
Mas os liberaes voluntarios correram-os á bayoneta, varejaram-os com penedos rolados á força de braços, e ao verem-os vencidos, luctando com as ondas e a braveza dos rochedos, gritavam-lhes que não fizessem mais fogo, porque os desgraçados, que tinham ordem de não dar quartel, contavam ser tratados de egual fórma, e ainda disparavam loucos de desespero.
Desceram a rocha os constitucionaes, meteram-se ao mar para salval-os, e João, entre outros, com agua pelos peitos, tirava a braços os feridos, os estropiados, que a maré dentro em pouco afogaria.
As victimas da tyrannia miguelista, que até ali os arrastára, olhavam pasmados esses homens que, para os salvar, arriscavam a vida, e não comprehendiam a sua fraternidade.
Poz termo ao combate a chegada da columna de Villa-Flôr, voltando a tiro as lanchas do segundo desembarque, e obrigando a frota a cortar amarras e a fazer-se ao largo, podendo agora safar-se com a enchente a nau, que logo ao começo da acção tocára o fundo.
Vinha João calculando o decisivo alcance da victoria, que devia despertar echo em Portugal, levar as potencias a reconhecerem o unico governo português legitimo, permittir a reunião de recursos para o desembarque no continente.
Ao chegar á cidade soube que Maria voltara a casa, perdendo assim a vantagem a tanto custo conquistada, exactamente quando era a seu favor essa absoluta consolidação da ilha.
Conseguira mais o trama de um frade que a natural inclinação dos dois corações; tivera mais força n'ella a intimidação do inferno que o enthusiasmo da mocidade a impellil-a para elle.
Oh! quanto custaria emancipar os espiritos acorrentados ao erro, na treva da oppressão!
Pedia-lhe perdão a carta d'ella por não o haver consultado, mas davam-lhe a mãe agonisante, e a pobre estava realmente mal. Tanto fazia esperar ali como em outra parte, já que não podiam casar tão cedo. Não receiasse que a opprimissem, porque o soffrimento fizera-a mulher. Tivera ensejo de conhecer a hypocrisia que dictava o procedimento dos frades, e perdera o escrupulo religioso que tanto a affligia. Concluia affirmando a sua absoluta fidelidade. Nunca fôra tanto sua como agora.
Não lhe importavam, porém, as palavras.
Caíra na anterior situação, estando de novo sob a alçada do frade, que continuaria a governal-a apesar dos seus ingenuos protestos. Escreveu-lhe desesperado, queixando-se da falta de confiança que denotava a sua precipitação.
Andava como louco. Que havia de fazer para a arrancar novamente d'ali?
Tinha a certeza de que ella, só por orgulho, se não reconhecia victima de uma perfidia, mas que devia anciar por se vêr livre da tyrannia paterna, a que tanto custára arrancal-a.
Appellou para Fulgencio, mas o boticario desilludiu-o:
—Agora? Era pegar-lhe com um trapo quente. Ella quebrára o deposito, recolhera a casa por motu proprio, já a justiça não podia ir reclamal-a, houvesse o que houvesse. Sim, que isso de tirar uma filha a um pae não era brincadeira, nem devia ser.
Enternecido pelas supplicas sahiu a pedir por elle, mas voltou com más novas.
—Pódes dizer-lhe adeus. Pensa n'outra, que é o menos que falta. Não tarda o velho pela barra fóra, que está na lista dos suspeitos, dos que tramam na sombra e ajudam as guerrilhas por baixo de mão. O Villa-Flor é têso, faz elle muito bem; ainda não bebeu agua das Covas, nem bebe, honra lhe seja; não se amolda, pois, aos costumes da terra, e não quer saber se o Martinho é muito ou pouco fidalgo, se vem de reis ou de lacaios. Isso é bom para nós, que na nossa insignificancia ainda caímos de cocoras diante d'esses paparrotões, só porque teem quatro avoengos, embora os renegassem como esse refinadissimo «corcunda», tornado em lacaio dos sotainas, quando o avô ajudou a expulsal-os, cumprindo as medidas de Pombal. Agora que a victoria de 11 de agosto poz isto na ordem, é preciso limpar a terra das hervas damninhas, porque, meu rapaz, ainda ha muito e muito que fazer.
Ouvia-o João, transtornado, sem comprehender bem.
—Quer dizer que Maria se vae embora?
—Não se trata d'ella, meu rapaz. O nome do pae é que eu vi na lista dos deportados.
Foi procurar emigrados, rapazes que o podiam comprehender melhor do que o velho, e cuja deliberação no combate lhe ganhara a sympathia.
—Mas afinal que queres tu?—dizia um academico—A rapariga gosta de ti, não é verdade? Pois muito bem, vamos lá uma noite, tira-se para fóra, dá-se uma sova nos migueis que se fizerem finos, metel-a em tua casa, e não queiras mais saber de deposito. Em teres andado tanto tempo ao rabo da saia d'ella, e deixal-a assim levantar o vôo, bem mostras que foste educado por padres e te tornaste um maricas. Havia de ser commigo!
—Ella é que não quer fugir. Que ha-de casar, e não sae d'ali.
—Pois tira-se mesmo contra vontade, que quem governa somos nós, e como tu és das caras direitas que estiveram na batalha da Praia, fecha-se os olhos á rapaziada.
—Preciso consultal-a primeiro...
—O que tens é medo d'ella. Pois deixa-a ir para o primo, que em chegando a Lisboa não se lembra mais de ti. Aquillo é que é terra!
—Não durmas sobre o caso—lembraram-lhe—olha que elles não tardam a ser corridos, que isto agora é dito e feito.
Escreveu-lhe, pintando o horror d'essa separação. Estava preparado para a ir buscar, acompanhado por amigos. Não havia perigo, e no caso de força maior tinha ella completa justificação aos olhos de todos. E que importava que os censurassem, se a sua felicidade os faria esquecer tudo? Se não acceitasse é porque nunca lhe quizera bem, porque cedera apenas a um capricho.
Quando viu o pae exultando pela ordem de deportação, arrependeu-se amargamente Maria de ter voltado a casa.
Só então o morgado quebrára o teimoso silencio, para se dar como disposto a tratar a mulher, mas procurando prender assim a filha á esperança de salvar a mãe.
Levando Maria para Lisboa, realisaria completamente o seu velho plano.
Mas comprehendia bem que João devia tentar retêl-a, e queria influir n'ella astuciosamente, já que pela força nada poderia contra os que se firmavam em duas victorias, e esmagavam os adversarios.
Para estar precavido, augmentára o numero de homens de trabalho, a pretexto das vindimas, e tinha ali muitos dos guerrilhas do Pico do Selleiro, com armas á mão.
Sentia ella os olhares dos guardas, mas não duvidava que, se quizesse, João a viria buscar n'um momento.
Ainda a carta d'elle a exaltou por instantes, na seducção da aventura, mas repugnava-lhe o coxixar dos mantos apontando-a em mancebia; as invejosas, as rivaes voltando-lhe a cara indignadas, e mais uma vez impoz-se-lhe o orgulho.
Respondeu-lhe com serenidade, meditando muito as palavras.
Devia continuar como enfermeira da mãe, que adoecera por sua causa, e agora ia procurar a cura. Demais, viver com elle, sem casarem, tornava-se indigno d'ambos. Era descer, abandalhar-se aos olhos de todos, e talvez até aos d'elle proprio. Haviam de unir-se dignamente, como mereciam. De outra maneira, não. Só Deus sabia o que lhe custava separarem-se, mas, como sua mulher, havia de ser a guarda da sua honra, e não podia começar por sacrificar-lhe o bom nome. Se era differente das outras, por isso mesmo lhe devia querer mais. Concluia insistindo que, da mesma forma, ficariam separados quando elle embarcasse na expedição liberal ao continente, e ella ficasse na ilha á sua espera. Assim até era melhor, porque iriam encontrar-se em Portugal. Até lá, pois, e ou seria d'elle, ou de ninguem.
E como n'essa madrugada em que a chegada do navio, que a devia levar, o decidira a declarar-se, João, depois de a ter visto embarcar desfallecida, olhos vermelhos, ao lado da cadeirinha da entrevada, foi pôr-se á janela.
Viu o barco largar d'entre as escunas da laranja, que baloiçavam como berços o leve bojo, finas, veleiras, atrevidas; que fugiam debaixo de tempo, antes que o suéste as désse á costa; ou redemoinhavam como pedaços de cortiça, quando os inglezes, reconhecendo se impotentes para arcarem com a tormenta, fechavam escotilhas e emborrachavam-se na coberta, para não darem pelo naufragio.
Oh! Mas d'esta vez iria após ella, como então resolvera, sentindo se homem ante o risco de a perder; iria após ella, a essas terras onde tudo se decidia, já sem a emulação de outr'óra, integrado nas mesmas aspirações dos emigrados, tendo como elles ideias a affirmar, victimas a remir.
Desde então só tem um fito a sua vida, partir como ella, e essa ideia fixa mantem-o atravez dos momentos de desanimo que tiram o caracter de decisivo ao combate da Praia; a falta de dinheiro, a intriga diplomatica, as rivalidades da familia liberal.
E essa obsessão leva-o a consagrar-se como um fanatico á conquista do archipelago, com um navio adquirido por subscripção.
Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo á ilha organisar a expedição liberal, pôr-se á frente d'ella; e n'esse imperador de trinta annos, que abdicára duas corôas, assignára duas constituições, proclamára a independencia de um imperio, fôra grão-mestre da maçonaria, e interpretára em dois hymnos a sua ingenua crença liberal; n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil, guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava á Europa a cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela liberdade.
Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que não cabiam nos quadros das forças, constituiram o Batalhão Sagrado, para terem a honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legião portuguêsa ao serviço de Napoleão, se juntavam os voluntarios de 23, os academicos, os alistados agora, os pescados á esquadra, estrangeiros vibrantes da indignação que agitava a Europa contra a oppressão portugueza, toda a juventude sangrada aos Açores para a libertação de Portugal.
Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrára a expedição, cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro escrevera ao vir lançar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno da filha:
Da rainha e da carta o pendão
Já nos mares se vê tremular,
Nobre esforço que a honra dirige,
Vae de Lysia a desgraça acabar.
D'entre a noite no carcere horrendo,
Resurgidos ao dia fatal,
Inda vertem heroes portuguêses
No patibulo o sangue leal.
Nas entranhas da escura masmorra
Onde reina da morte o terror,
Outros mil inda esperam constantes
Igual sorte c'o mesmo valor.
Mesta Lysia em gemidos implora
Que as algemas lhes vamos quebrar;
Já nas praias as mães lagrimosas
Pelos filhos se escutam bradar.
A cada quadra repetia-se o estribilho:
Foge, foge, ó tyranno e não tentes
Ferreo sceptro mais tempo suster;
Que nas aras da patria juramos
Viver livres, ou livres morrer.
Como um signal de que o ceu respondia ao appello do hymno
Nossos votos são carta e rainha;
Nosso guia quem ambas nos deu;
Defendemos a causa do mundo;
É por nós a justiça do ceu.
appareceu azul o sol, velado por tons de anil, pondo em tudo reflexos ceruleos, casando se ás côres da nova bandeira azul e branca, as côres do laço liberal de Vinte, o branco da espuma da onda, o puro azul do ceu de Portugal.
Fez-se ao largo temerariamente, em velhos transportes comboiados por uma esquadrilha, esse punhado de homens, cerca de sete mil e quinhentos, o numero que a tradicção para sempre fixou, n'uma commovida gratidão.
Realisava-se emfim o longo sonho do exilio, e, ao saltarem no Mindello, prostravam-se os expatriados, beijando o querido solo, cujas poças de sangue reflectiam as rubras tintas d'uma nova aurora.
Apertando convulsos as armas fraticidas, com que eram forçados a apoiar os gritos de liberdade, os votos de egualdade e fraternisação, pediam novas forças a essa terra que ainda defenderiam cobrindo-a com o retalho do seu corpo, osculando a na crispação da ultima agonia; sentiam-se felizes ao tocarem-a, embora para morrerem n'ella, ameaçados por oitenta mil soldados, e pelo fanatismo catholico mantido por frades e jesuitas entre as populações a libertar.
Na patria ensanguentada, apunhalada pelos pés das forcas, oscilavam garrotados, como pendulos sinistros, marcando á tyrannia a hora fatal.