Os Sertões

Euclides da Cunha · Capítulo 7 de 10 · parte 1/5

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Os Sertões

Quarta expedição

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

I. Desastres. Canudos – uma diátese. A rua do Ouvidor e as caatingas. Versões disparatadas. Mentiras heroicas. O cabo Roque. Levantamento em massa. Planos. Um tropear de bárbaros.

II. Mobilização de tropas. Concentração em Queimadas. Organiza-se a expedição. Delongas. Não há um plano de campanha. A comissão de engenheiros. A marcha. Incidentes. Um guia temeroso: Pajeú. Passagem nas Pitombas. O alto da Favela. Uma divisão aprisionada.

III. Coluna Savaget. Cocorobó. Diante das trincheiras. Carga de baionetas excepcional. A travessia. Macambira e Trabubu. Emissário inesperado. Destrói-se um plano de campanha.

IV. Vitória singular. Começo de uma batalha crônica. Aventuras do cerco. Caçadas perigosas. Desânimos. A atitude do comando-em-chefe.

V. O assalto: preparativos; o recontro. Nova vitória desastrosa. Nos flancos de Canudos. Triunfos pelo telégrafo.

VI. Pelas estradas. Os feridos. Primeiras notícias certas. Versões e lendas.

VII. A brigada Girard. Heroísmo estranho. Em viagem para Canudos.

VIII. Novos reforços. O marechal Carlos Machado Bittencourt. Colaboradores prosaicos demais.

 

Capítulo I

Desastres

A nova deste revés foi um desastre maior.

A quarta expedição organizou-se através de grande comoção nacional, que se traduziu em atos contrapostos à própria gravidade dos fatos. Foi a princípio o espanto; depois um desvairamento geral da opinião; um intenso agitar de conjecturas para explicar o inconceptível do acontecimento e induzir uma razão de ser qualquer para aquele esmagamento de uma força numerosa, bem aparelhada e tendo chefe de tal quilate. Na desorientação completa dos espíritos, alteou-se logo, primeiro esparsa em vagos comentários, condensada depois em inabalável certeza, a ideia de que não agiam isolados os tabaréus turbulentos. Eram a vanguarda de ignotas falanges prontas a irromperem, de remanente, em toda a parte, convergentes sobre o novo regime. E como nas capitais, federal e estaduais, há muito, meia dúzia de platônicos, revolucionários contemplativos e mansos, se agitavam esterilmente na propaganda da restauração monárquica, fez-se de tal circunstância ponto de partida para a mais contraproducente das reações.

Canudos - uma diátese

Era preciso uma explicação qualquer para sucessos de tanta monta. Encontraram-na: os distúrbios sertanejos significavam pródromos de vastíssima conspiração contra as instituições recentes. Canudos era uma Coblentz de pardieiros. Por detrás da envergadura desengonçada de Pajeú se desenhava o perfil fidalgo de um Brunswick qualquer. A dinastia em disponibilidade, de Bragança, encontrara afinal um Monck, João Abade. E Antônio Conselheiro — um Messias de feira — empolgara nas mãos trementes e frágeis os destinos de um povo...

A República estava em perigo; era preciso salvar a República. Era este o grito dominante sobre o abalo geral...

Exageramos?

Deletreemos, ao acaso, qualquer jornal daqueles dias.

Doutrinava-se:

O que de um golpe abalava o prestígio da autoridade

constituída e abatia a representação do brio da nossa pátria no

seu renome, na sua tradição e na sua força era o movimento

armado que, à sombra do fanatismo religioso, marchava

acelerado contra as próprias instituições, não sendo lícito a

ninguém iludir-se mais sobre o pleito em que audazmente

entravam os saudosos do Império, francamente em armas.

Concluía-se:

Não há quem a esta hora não compreenda que o monarquismo

revolucionário quer destruir com a República a unidade do

Brasil1.

Explicava-se:

A tragédia de 3 de março, em que juntamente com o Moreira

César perderam a vida o ilustre coronel Tamarindo e tantos

outros oficiais briosíssimos do nosso exército, foi a confirmação

de quanto o partido monarquista à sombra da tolerância do

poder público, e graças até aos seus involuntários alentos, tem

crescido em audácia e força2.

Afirmava-se:

Trata-se da Restauração; conspira-se; forma-se o exército

imperialista. O mal é grande; que o remédio corra parelhas com

o mal. A monarquia arma-se? Que o presidente chame às

armas os republicanos3.

E assim por diante. A opinião nacional esbatia-se de tal modo na imprensa. Na imprensa e nas ruas.

Alguns cidadãos ativos congregaram o povo na capital da República e resumiram-lhe a ansiedade patriótica numa moção incisiva:

O povo do Rio de Janeiro reunido em meeting e ciente do doloroso revés das armas legais nos sertões da Bahia, tomadas pela caudilhagem monárquica, e congregado em torno do governo, aplaudindo todos os atos de energia cívica que praticar pela desafronta do exército e da Pátria, aguarda ansioso, a sufocação da revolta.

A mesma toada em tudo. Em tudo a obsessão do espantalho monárquico, transmudando em legiões — coorte misteriosa marchando surdamente na sombra — meia dúzia de retardatários, idealistas e teimosos.

O presidente da República por sua vez quebrou a serenidade habitual:

Sabemos que, por detrás dos fanáticos de Canudos, trabalha a

política. Mas nós estamos preparados, tendo todos os meios

para vencer, seja como for contra quem for.

Empastelamento de jornais monárquicos

Afinal a multidão interveio.

Copiemos:

Já era tarde e a excitação do povo aumentava na proporção de

sua massa sempre crescente; assim nesta indignação

lembraram-se dos jornais monarquistas, e todos por um, em um

ímpeto de desabafo, foram às redações e tipografias dos jornais

Gazeta da Tarde, Liberdade e Apóstolo, e, apesar de ter a

polícia corrido para evitar qualquer assalto a esses jornais, não

chegou a tempo de evitá-lo, pois a multidão aos gritos de viva a

República e à memória de Floriano Peixoto invadiu aqueles

estabelecimentos e destruiu-os por completo, queimando tudo.

Então começaram a quebrar e inutilizar tudo quanto

encontraram, atirando, depois, os objetos, livros, papéis,

quadros, móveis, utensílios, tabuletas, divisões etc, para a rua

de onde foram logo conduzidos para o largo de S. Francisco de

Paula, onde formaram uma grande fogueira, ficando outros em

montes de destroços na mesma rua do Ouvidor4.

A rua do Ouvidor e as caatingas

Interrompamos, porém, este respigar em ruínas. Mais uma vez, no decorrer dos sucessos que nos propusemos narrar, forramo-nos à demorada análise de acontecimentos que fogem à escala superior da História. As linhas anteriores têm um objetivo único: fixar, de relance, símiles que se emparelham na mesma selvatiqueza. A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas. A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro. E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintomática apenas. O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos.

Valerá a pena defini-los?

A força portentosa da hereditariedade, aqui, como em toda a parte e em todos os tempos, arrasta para os meios mais adiantados — enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura — trogloditas completos. Se o curso normal da civilização em geral os contém, e os domina, e os manieta, e os inutiliza, e a pouco e pouco os destrói, recalcando-os na penumbra de uma existência inútil, de onde os arranca, às vezes, a curiosidade dos sociólogos extravagantes, ou as pesquisas da psiquiatria, sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesão das leis eles surgem e invadem escandalosamente a História. São o reverso fatal dos acontecimentos, o claro-escuro indispensável aos fatos de maior vulto.

Mas não têm outra função, nem outro valor; não há analisá-los. Considerando-os o espírito mais robusto permanece inerte a exemplo de uma lente de flintglass, admirável no refratar, ampliadas imagens fulgurantes, mas imprestável se a focalizam na sombra. Deixemo-los; sigamos.

Antes, porém, insistamos numa proposição única: atribuir a uma conjuração política qualquer a crise sertaneja, exprimia palmar insciência das condições naturais da nossa raça.

Considerações

O caso, vimo-lo anteriormente, era mais complexo e mais interessante. Envolvia dados entre os quais nada valiam os sonâmbulos erradios e imersos no sonho da restauração imperial. E esta insciência ocasionou desastres maiores que os das expedições destroçadas. Revelou que pouco nos avantajávamos aos rudes patrícios retardatários. Estes, ao menos, eram lógicos. Insulado no espaço e no tempo, o jagunço, um anacronismo étnico, só podia fazer o que fez — bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar cerca de três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas.

Reagiu. Era natural. O que surpreende é a surpresa originada por tal fato. Canudos era uma tapera miserável, fora dos nossos mapas, perdida no deserto, aparecendo, indecifrável, como uma página truncada e sem número das nossas tradições. Só sugeria um conceito — e é que, assim como os estratos geológicos não raro se perturbam, invertidos, sotopondo-se uma formação moderna a uma formação antiga, a estratificação moral dos povos por sua vez também se baralha, e se inverte, e ondula riçada de sinclinais abruptas, estalando em faults, por onde rompem velhos estádios há muito percorridos.

Sob tal aspecto era, antes de tudo, um ensinamento e poderia ter despertado uma grande curiosidade. A mesma curiosidade do arqueólogo ao deparar as palafitas de uma aldeia lacustre, junto a uma cidade industrial da Suíça...

Entre nós, de um modo geral, despertou rancores. Não vimos o traço superior do acontecimento. Aquele afloramento originalíssimo do passado, patenteando todas as falhas da nossa evolução, era um belo ensejo para estudarmo-las, corrigirmo-las ou anularmo-las. Não entendemos a lição eloquente.

Na primeira cidade da República, os patriotas satisfizeram-se com o auto-de-fé de alguns jornais adversos, e o governo começou a agir. Agir era isto — agremiar batalhões.

Versões disparatadas

As primeiras notícias do desastre prolongaram por muitos dias a agitação em todo o país. A parte de combate do major Cunha Matos, deficientíssima, mal indicando as fases capitais da ação, eivada de erros singulares, tinha apenas a eloquência do alvoroço com que fora escrita. Incutia nos que a liam o pensamento de uma hecatombe, ulteriormente agravada de outras informações. E estas, instáveis, acirrando num crescendo a comoção e a curiosidade públicas, desencontradamente, lardeadas de afirmativas contraditórias, derivavam pelos espíritos inquietos num desfiar de conjeturas intermináveis.

Não havia acertar no abstruso das opiniões com a mais breve noção sobre as coisas. Ideavam-se sucessos sofregamente aceitos com todos os visos de realidade, até que outros, diversos, os substituíssem, dominando por um dia ou por uma hora as atenções, e extinguindo-se por sua vez diante de outras versões efêmeras. De sorte que num alarma crescente — do boato medrosamente boquejado no recesso dos lares à mentira escandalosa rolando com estardalhaço pelas ruas — se avolumaram apreensões e cuidados. Era uma tortura permanente de dúvidas cruciantes. Nada se sabia de positivo. Nada sabiam mesmo os que haviam compartido o revés. Na inconsistência dos boatos, uma informação única tomava os mais diversos cambiantes.

Mentiras heroicas Afirmava-se: o coronel Tamarindo não fora morto; salvara-se valorosamente, com um punhado de companheiros leais, e estava a caminho de Queimadas. Contravinha-se: salvara-se, mas estava gravemente ferido em Maçacará, onde chegara exausto.

Depois uma afirmativa lúgubre: o infeliz oficial fora de fato trucidado. E assim em seguida.

Agitavam-se ideias alarmantes: os sertanejos não eram “um bando de carolas fanáticos” eram um “exército instruído, disciplinado” — admiravelmente armados de carabinas Mauser , tendo ademais artilharia, que manejavam com firmeza. Alguns dos nossos, e entre eles o capitão Vilarim, haviam sido despedaçados por estilhas de granadas...

O cabo Roque

Nessas incertezas, a verdade aparecia, às vezes, sob uma forma heroica. A morte trágica de Salomão da Rocha foi uma satisfação ao amor- próprio nacional. Aditou-se-lhe depois, mais emocionante, a lenda do cabo Roque, abalando comovedoramente a alma popular. Um soldado humilde, transfigurado por um raro lance de coragem marcara a peripécia culminante da peleja. Ordenança de Moreira César, quando se desbaratara a tropa, e o cadáver daquele ficara em abandono à margem do caminho, o lutador leal permanecera a seu lado, guardando a relíquia veneranda abandonada por um exército. De joelhos junto ao corpo do comandante, batera-se até ao último cartucho, tombando, afinal, sacrificando-se por um morto...

E a cena maravilhosa, fortemente colorida pela imaginação popular, fez-se quase uma compensação à enormidade do revés. Abriram-se subscrições patrióticas; planearam-se homenagens cívicas e solenes; e, num coro triunfal de artigos vibrantes e odes ferventes, o soldado obscuro transcendia à História quando — vítima da desgraça de não ter morrido —, trocando a imortalidade pela vida, apareceu com os últimos retardatários supérstites, em Queimadas.

A este desapontamento aditaram-se outros, à medida que a situação se esclarecia. A pouco e pouco se reduzia por um lado, agravando-se por outro, a catástrofe. Os trezentos e tantos mortos das informações oficiais ressurgiam. Três dias depois do recontro, três dias apenas, já se achava em Queimadas, a duzentos quilômetros de Canudos, grande parte da expedição. Uma semana depois, verificava-se, ali, a existência de 74 oficiais. Duas semanas mais tarde, no dia 19 de março, lá estavam — salvos — 1.081 combatentes.

Vimos quantos entraram em ação. Não subtraiamos. Deixemos aí, registrados, estes algarismos inexoráveis. Eles não diminuíram, com a sua significação singularmente negativa, o fervor das adesões entusiásticas.

Levantamento em massa

Os governadores de Estado, os Congressos, as corporações municipais, continuaram vibrantes no anelo formidável da vingança. E em todas as mensagens, variantes de um ditado único, monótono pela simulcadência dos mesmos períodos retumbantes, persistiu, como aspiração exclusiva, o esmagamento dos inimigos da República, armados pela caudilhagem monárquica. Como o da capital federal, o povo das demais cidades entendeu também deliberar na altura da situação gravíssima, apoiando todos os atos de energia cívica que praticasse o governo pela desafronta do exército e (esta conjunção valia por cem páginas eloquentes) da Pátria. Decretou-se o luto nacional. Exararam-se votos de pesar nas atas das sessões municipais mais remotas. Sufragaram-se os mortos em todas as igrejas. E, dando à tristeza geral a nota supletiva da sanção religiosa, os arcebispados expediram aos sacerdotes dos dois cleros ordem para dizerem nas missas a oração Pro pace. Congregaram-se em toda a linha cidadãos ativos, aquartelando. Ressurgiram batalhões, o Tiradentes, o Benjamim Constant, o Acadêmico e o Frei Caneca, feitos de veteranos já endurados ao fogo da revolta anterior, da Armada; — enquanto agremiando patriotas de todos os matizes formavam-se outros, o Deodoro, o Silva Jardim, o Moreira César... Não bastava.

Planos

No quartel-general do exército abriram-se inscrições para o preenchimento dos claros de diversos corpos. O presidente da República declarou, em caso extremo, chamar às armas os próprios deputados do Congresso Federal, e, num ímpeto de lirismo patriótico, o vice-presidente escreveu ao Clube Militar propondo-se valentemente cingir o sabre vingador. Fervilhavam planos geniais, ideias raras, incomparáveis. Engenheiros ilustres apresentavam o traçado de um milagre de engenharia — uma estrada de ferro de Vila Nova a Monte Santo, saltando por cima de Itiúba, e feita em trinta dias, e rompendo de chofre, triunfalmente, num coro estrugidor de locomotivas acesas, pelo sertão bravio dentro.

É que estava em jogo, em Canudos, a sorte da República...

Diziam-no informes surpreendedores: aquilo não era um arraial de bandidos truculentos apenas. Lá existiam homens de raro valor — entre os quais se nomeavam conhecidos oficiais do exército e da armada, foragidos desde a revolta de setembro, que o Conselheiro avocara ao seu partido.

Um tropear de bárbaros

Garantia-se: um dos chefes do reduto era um engenheiro italiano habilíssimo, adestrado talvez nos polígonos bravios da Abissínia. Expunham-se detalhes extraordinários: havia no arraial tanta gente que tendo desertado cerca de setecentos só lhes deram pela falta muitos dias depois. E sucessivas, impiedosas, novas notícias acumulavam-se sobre o fardo extenuador de apreensões, premindo as almas comovidas. Assim, estavam já expugnadas pelos jagunços Monte Santo, Cumbe, Maçacará e, talvez, Jeremoabo. As hordas invasoras, depois de saquearem aquelas vilas, marchavam convergentes para o sul, reorganizando-se no Tucano, de onde, acrescidas de novos contingentes, demandavam o litoral, avançando sobre a capital da Bahia...

As gentes alucinadas ouviam um surdo tropear de bárbaros...

Os batalhões de Moreira César eram as legiões de Varus... Encalçavam-nos, na fuga, catervas formidandas.

Não eram somente os jagunços. Em Juazeiro, no Ceará, um heresiarca sinistro, o padre Cícero, conglobava multidões de novos cismáticos em prol do Conselheiro. Em Pernambuco, um maníaco, José Guedes, surpreendia as autoridades, que o interrogavam, com a altaneria estoica de um profeta. Em Minas, um quadrilheiro desempenado, João Brandão, destroçava escoltas e embrenhava-se no alto sertão do S. Francisco, tangendo cargueiros ajoujados de espingardas.

A aura da loucura soprava também pelas bandas do sul: o Monge do Paraná, por sua vez, aparecia nessa concorrência extravagante para a História e para os hospícios.

E tudo isto, punha-se de manifesto, eram feituras de uma conjuração que desde muito vinha solapando as instituições. A reação monárquica tomava afinal a atitude batalhadora precipitando nas primeiras escaramuças, coroadas do melhor êxito, aquela vanguarda de retardatários e de maníacos.

O governo devia agir prontamente.

1 Gazeta de Notícias.

2 O País.

3

4 Jornal do Brasil.

Capítulo II

Mobilização de tropas

Descoloraram-se batalhões de todos os Estados: 12º, 25º, 30º, 31º, 32º, do Rio Grande do Sul; o 27º, da Paraíba; o 34º, do Rio Grande do Norte; o 33º e o 35º, do Piauí; o 5º, do Maranhão; o 4º, do Pará; o 26º, de Sergipe; o 14º e o 5º, de Pernambuco; o 2º, do Ceará; o 5º e parte do 9º de Cavalaria, Regimento da Artilharia da Capital Federal: o 7º, o 9º e o 16º, da Bahia.

O comandante do 2º Distrito Militar, general Artur Oscar de Andrade Guimarães, convidado para assumir a direção da luta, aceitou-a, tendo antes, numa proclamação pelo telégrafo, definido o seu pensar sobre as coisas: “Todas as grandes ideias tem os seus mártires; nós estamos votados ao sacrifício de que não fugimos para legar à geração futura uma República honrada, firme e respeitada”.

A mesma nota em tudo: era preciso salvar a República...

Concentração em Queimadas

As tropas convergiam na Bahia. Chegavam àquela capital em batalhões destacados e seguiam imediatamente para Queimadas. Esta medida, além de corresponder à urgência de uma organização pronta naquela vila — feita base de operações provisórias — impunha-se por outro motivo igualmente sério.

É que, generalizando-se de um conceito falso, havia no ânimo dos novos expedicionários uma suspeita extravagante a respeito das crenças monárquicas da Bahia. Ali saltavam com altaneria provocante de triunfadores em praça conquistada. Aquilo, preestabelecera-se, era um Canudos grande. A velha capital com o seu aspecto antigo, alteada sobre a montanha, em que embateram por tanto tempo as chusmas dos “varredores do mar”, batavos e normandos; conservando, a despeito do tempo, as linhas tradicionais da antiga metrópole do oceano; ereta para a defesa, com os seus velhos fortes disjungidos, esparsos pelas eminências, acrópoles desmanteladas, canhoneiras abertas para o mar; com as suas ladeiras a prumo, envesgando pela montanha segundo o mesmo traçado das trincheiras de taipa de Tomé de Sousa; e com as suas ruas estreitas e embaralhadas pelas quais passaria hoje Fernão Cardim ou Gabriel Soares sem notar diferenças sensíveis — aparecia-lhes como uma ampliação da tapera sertaneja. Não os comovia; irritava-os. Eram cossacos em ruas de Varsóvia. Nos lugares públicos a população surpreendida ouvia-lhes comentários acerbos, enunciados num fanfarrear contínuo, sublinhado pelo agudo retinir das esporas e das espadas. E a animadversão gratuita, dia a dia avolumando-se, traduzia-se ao cabo em desacatos e desmandos.

Citemos um caso único: os oficiais de um batalhão, o 30º, levaram a dedicação pela República a um assomo iconoclasta. Em pleno dia tentaram despedaçar, a marretadas, um escudo em que se viam as armas imperiais, erguido no portão da alfândega velha. A soldadesca por seu lado, assim edificada, exercitava-se em correrias e conflitos.

A paixão patriótica roçava, derrancada, pela insânia. A imprensa e a mocidade do Norte, afinal, protestaram e, mais eloquente que as mensagens então feitas, falava em toda a parte o descontentamento popular, prestes a explodir.

Assim, como medida preventiva, os batalhões chegavam, desembarcavam, atulhavam os carros da Estrada de Ferro Central e seguiam logo para Queimadas. De sorte que em pouco tempo ali estavam todos os corpos destinados à marcha por Monte Santo; e o comandante geral das forças, em ordem do dia de 5 de abril, pôde organizar a expedição:

Organiza-se a 4ª expedição

Nesta data ficam assim definitivamente organizadas as forças

sob meu comando:

Os 7º, 14º e 30º Batalhões de Infantaria constituem a 1ª

Brigada sob o comando do coronel Joaquim Manuel de

Medeiros; 16º, 25º e 27º Batalhões da mesma arma, a 2ª

Brigada ao mando do coronel Inácio Henrique Gouveia; 5º

Regimento da Artilharia de Campanha, 5º e 9º Batalhões de

Infantaria, a 3ª Brigada sob o comando do coronel Olímpio da

Silveira; 12º, 31º e 33º da mesma arma e uma divisão de

artilharia, a 4ª Brigada sob o comando do coronel Carlos Maria

da Silva Teles; 34º, 35º e 40º, a 5ª Brigada sob o comando do

coronel Julião Augusto de Serra Martins; 26º, 32º da Infantaria e

uma divisão de artilharia, a 6ª Brigada sob o comando do

coronel Donaciano de Araújo Pantoja.

A 1ª, 2ª e 3ª Brigadas formaram uma coluna, sob o comando do

general João da Silva Barbosa, ficando responsável pela

mesma, até a respectiva apresentação daquele general, o

coronel comandante da 1ª Brigada; a 4ª, 5ª e 6ª Brigadas outra

coluna, sob o comando do general Cláudio do Amaral Savaget.

Crítica

Estava constituída a expedição.

A ordem do dia nada dizia quanto ao desdobramento das operações, talvez porque este, desde muito conhecido, pouco se desviara do traçado anterior. Resumia-se naquela divisão de colunas. Ao invés de um cerco à distância, para o que eram suficientes aqueles dezesseis corpos articulando- se em pontos estratégicos e a pouco constringindo-se em roda do arraial, planeara-se investir com os fanáticos por dois pontos, seguindo uma das colunas, a primeira, por Monte Santo, enquanto a segunda, depois de reunida em Aracaju, atravessaria Sergipe até Jeremoabo.

Destas vilas convergiriam sobre Canudos.

Linhas já escritas dispensam o insistir na importância de semelhante plano — cópia ampliada de erros anteriores, com uma variante única: em lugar de uma eram duas as massas compactas de soldados que iriam tombar, todos a um tempo, englobadamente, nas armadilhas da guerra sertaneja. E quando, agitando as mais favoráveis hipóteses, isto não acontecesse, era fácil verificar que a plena consecução dos itinerários preestabelecidos problematizava ainda um desenlace satisfatório da campanha. À simples observação de um mapa ressaltava que a convergência predeterminada, embora se realizasse, não determinaria o esmagamento da rebelião, mesmo à custa do alvitre extremo e doloroso da batalha.

As estradas escolhidas, do Rosário e de Jeremoabo, interferindo-se fora do povoado, num ponto de sua amplíssima periferia, eram inaptas para o assédio. Os jagunços batidos numa direção única, no quadrante de sudeste, tinham, caso fossem desbaratadas, francos para o ocidente e para o norte, os caminhos do Cambaio, do Uauá e da Várzea da Ema; todo o vasto sertão do S. Francisco, asilo impenetrável a que se acolheriam a salvo e onde se aprestariam para a réplica. Ora, a consideração desse abandono em massa do arraial raiava pelo mais exagerado otimismo. Os sertanejos resistiriam, como resistiram, e, reagindo aos assaltos feitos apenas por um único flanco, teriam como tiveram, pelos outros, mil portas por onde comunicarem com as cercanias e abastecerem-se à vontade.

Eram circunstâncias fáceis de deduzirem-se. E, previstas, apontavam naturalmente um corretivo único: uma terceira coluna, que, partindo de Juazeiro ou Vila Nova, e vencendo uma distância equiparada às percorridas pelas outras, com elas convergisse, trancando a pouco e pouco aquelas estradas, originando por fim um bloqueio efetivo.

Não se cogitou, porém, desta divisão suplementar indispensável. Não havia tempo para tal. O país inteiro ansiava pela desafronta do exército e da pátria...

Era preciso marchar e vencer. O general Savaget seguiu logo, nos primeiros dias de abril, para Aracaju; e o comandante-em-chefe, em Queimadas, dispôs-se para a investida.

Delongas

Mas esta só se realizaria dois meses depois, em fins de junho. Os lutadores, soldados e patriotas, chegavam à obscura estação da estrada de ferro do S. Francisco e quedavam impotentes para a partida.

O grande movimento de armas de março fora uma ilusão. Não tínhamos exército, na significação real do termo, em que se inclui, mais valiosa que a existência de alguns milhares de homens e espingardas, uma direção administrativa, técnica e tática, definida por um estado-maior enfeixando todos os serviços, desde o transporte das viaturas aos lineamentos superiores da estratégia, órgão preparador por excelência das operações militares.

Faltava tudo. Não havia um serviço de fornecimento organizado, de sorte que numa base de operações provisória, presa ao litoral por uma estrada de ferro, foi impossível conseguir-se um depósito de víveres. Não havia um serviço de transporte suficiente para cerca de cem toneladas de munições de guerra.

Por fim não havia soldados: os carregadores de armas, que por ali desembarcaram, não vinham dos polígonos de tiro, ou campos de manobra. Os batalhões chegavam, alguns desfalcados, menores que companhias, com o armamento estragado e carecendo das noções táticas mais simples. Era preciso completá-los, armá-los, vesti-los, municiá-los, adestrá-los e instruí- los.

Queimadas fez-se um viveiro de recrutas e um campo de instrução. Os dias começaram a escoar-se monotonamente em evoluções e manobras, ou exercícios de fogo, numa linha de tiro improvisada num sulco aberto na caatinga próxima. E o entusiasmo marcial dos primeiros tempos afrouxava, molificando na insipidez daquela Cápua invertida, em que bocejavam, remansando, centenares de valentes, marcando passo diante do inimigo...

Dali seguiram, batalhão por batalhão, iludindo em transporte parcial a carência de viaturas, para Monte Santo, onde a situação não variou. Continuaram até meados de junho os mesmos exercícios e a mesma existência aleatória de mais de 3 mil homens em armas, dispostos aos combates mas impotentes para a partida e — registremos esta circunstância singularíssima — vivendo à custa dos recursos ocasionais de um município pobre e talado pelas expedições anteriores.

A custo terminara-se a linha telegráfica de Queimadas, pela comissão de engenheiros militares, dirigida pelo tenente-coronel Siqueira de Meneses. E foi a única coisa apreciável durante tanto tempo perdido. O comandante-em-chefe, sem carretas para o transporte de munições, desapercebido dos mais elementares recursos, quedava-se, sem deliberar, diante da tropa acampada, e mal avitualhada por alguns bois magros e famintos dispersos em torno sobre as macegas secas das várzeas. O deputado do Quartel-Mestre-General não conseguira sequer um serviço regular de comboios, que partindo de Queimadas abastecessem a base das operações, de modo a armazenar reservas capazes de sustentar por oito dias a tropa. De sorte que ao chegar o mês de julho, quando a 2ª coluna, atravessando Sergipe, se abeirava de Jeremoabo, não havia em Monte Santo um único saco de farinha em depósito. A penúria e uns como prenúncios de fome condenavam à imobilidade a divisão em que se achava o principal chefe da campanha.

Esta estagnação desalentava os soldados e alarmava o país. Como um diversivo, ou um pretexto de afastar por alguns dias de Monte Santo mil e tantos concorrentes aos escassos recursos da coluna, duas brigadas seguiram em reconhecimentos inúteis até ao Cumbe e Maçacará. Foi o único movimento militar realizado e não teve sequer o valor de aplacar a impaciência dos expedicionários.

Uma delas, a 3ª de Infantaria — recém-formada com o 5º e 9º Batalhões de Artilharia, porque esta se reconstituíra com a anexação de uma bateria de tiro rápido e com o 7º destacado da 1ª — estava sob o comando de um oficial incomparável no combate, mas de temperamento irrequieto demais para aquela apatia. E ao chegar a Maçacará, depois de prear em caminho alguns cargueiros que demandavam o arraial sedicioso, em vez de volver à base de operações esteve na iminência de seguir, isolada, pela estrada do Rosário, para o centro da luta. O coronel Thompson Flores, planeando este movimento indisciplinado e temerário, mal contido pela sua oficialidade, delatava, bem que exagerada pelo seu forte temperamento nervoso, a situação moral dos combatentes. Revoltava-os a todos a imobilidade em que se amortecera o arranco marcial dos primeiros dias.

Estremeciam muitos imaginando o desapontamento de receberem, de improviso, a nova da tomada de Canudos pelo general Savaget. Calculavam os efeitos daquela dilação ante a opinião pública ansiosa por um desenlace; e consideravam quão útil se tornaria ao adversário alentado por três vitórias aquele armistício de três meses.

Esta última consideração era capital.

Não há um plano de campanha

O general Artur Oscar determinou de agir traçando, a 19 de junho, a ordem do dia da partida na qual “deixa à imparcialidade da História a justificativa de tal demora”.

Sem o laconismo próprio de tais documentos, o general, após augurar inevitável vitória sobre a gente de Antônio Conselheiro, “o inimigo da República”, aponta às tropas os perigos que as saltearão à entrada do sertão, onde “o inimigo as atacará pela retaguarda e flancos” no meio daquelas “matas infelizes” eivadas “de caminhos obstruídos, trincheiras, surpresas de toda a sorte, e tudo quanto a guerra tem de mais odioso”.

Em que pese à sua literatura alarmante, eram dados verdadeiros estes. A comissão de engenharia realizara reconhecimentos acordes no afirmarem, mais viva, a aspereza do solo, cujos traços topográficos impunham três condições ao favorável sucesso da campanha: forças bem abastecidas, que dispensassem os recursos das paragens pobres; mobilidade máxima; e plasticidade, que as adaptasse bem às flexuras do terreno revolto e agro.

Crítica

Eram três requisitos essenciais, completando-se. Mas nem um só foi satisfeito. As tropas partiriam da base de operações — à meia ração. Seguiriam chumbadas às toneladas de um canhão de sítio. E avançariam em brigadas cujos batalhões, a quatro de fundo, guardavam esses intervalos de poucos metros.

Persistia a obsessão de uma campanha clássica. Mostram-na as instruções entregues, dias antes, aos comandantes de corpos. Resumo de uns velhos preceitos que cada um de nós, leigos no ofício, pode encontrar nas páginas do Vial, o que em tal documento se depara — é a teimosia no imaginar, impactas, dentro de traçados gráficos, as guerrilhas solertes dos jagunços.

O chefe expedicionário alongou-se exclusivamente numa distribuição de formaturas. Não se preocupou com o aspecto essencial de uma campanha que, reduzida ao domínio estrito da tática — se resumia no aproveitamento do terreno e numa mobilidade vertiginosa. Porque a sua tropa mal distribuída ia seguir para o desconhecido, sem linhas de operações — adstrita aos reconhecimentos ligeiros feitos anteriormente, ou dados colhidos, de relance, por oficiais das outras expedições — e nada existe de prático naquelas instruções sobre serviço de segurança na vanguarda e nos flancos. Em compensação ostenta a preocupação da ordem mista, em que os corpos, na emergência da batalha, se deveriam desenvolver, com as distâncias regulamentares, de modo que cada brigada, desarticulando-se em campo raso, pudesse, geometricamente — cordões de atiradores, linhas de apoio e reforço, e reservas — agir com a segurança mecânica estatuída pelos luminares da guerra. E o chefe expedicionário citou, a propósito, Ther Brun. Não quis inovar. Não imaginou que o frio estrategista invocado, um gênio que não valia na ocasião as ardilezas de um capitão-do-mato, capitularia os dispositivos preceituados de idealização sem nome, nas guerras sertanejas — guerras à gandaia, sem programas rígidos, sem regras regulares, rodeadas de mil casos fortuitos, e aos recontros súbitos em todas as voltas dos caminhos ou tocaias em toda a parte.

Copiou instruções que nada valiam, porque estavam certas demais. Quis desenhar o imprevisto. A luta, que só pedia um chefe esforçado e meia dúzia de sargentos atrevidos e espertos, ia iniciar-se enleada em complexa rede hierárquica — uns tantos batalhões maciços entalando-se em veredas flexuosas e emperrados diante de adversários fugitivos e bravos. Prendeu- se-lhe, além disto, às ilhargas, a mola de aço de um Whitworth de 32, pesando 1.700 quilos! A tremenda máquina, feita para a quietude das fortalezas costeiras — era o entupimento dos caminhos, a redução da marcha, a perturbação das viaturas, um trambolho a qualquer deslocação vertiginosa de manobras. Era, porém, preciso assustar os sertões com o monstruoso espantalho de aço, ainda que se pusessem de parte medidas imprescindíveis.

Exemplifiquemos: as colunas partiram da própria base das operações em situação absolutamente inverossímil — à meia ração. Marcharam em desdobramentos que, como veremos em breve, não as forravam dos assaltos. Por fim, não tiveram a garantia de uma vanguarda eficaz, de flanqueadores capazes de as subtraírem a surpresas.

Os que as acompanhavam nada valiam. Tinham que marchar, ladeando o grosso da tropa por dentro das caatingas, e estas tolhiam-lhes o passo. Soldados vestidos de pano, rompendo aqueles acervos de espinheirais e bromélias, mal arriscariam alguns passos, deixando por ali, esgarçados, os fardamentos, em tiras.

Entretanto, poderiam avançar adrede predispostos à remoção de tais inconvenientes. Bastava que fossem apropriadamente fardados. O hábito dos vaqueiros era um ensinamento. O flanqueador devia meter-se pela caatinga, envolto na armadura de couro do sertanejo — garantido pelas alpercatas fortes, pelos guarda-pés e perneiras, em que roçariam inofensivos os estiletes dos xiquexiques, pelos gibões e guarda-peitos, protegendo-lhe o tórax, e pelos chapéus de couro, firmemente apresilhados ao queixo, habilitando-o a arremessar-se, imune, por ali adentro. Um ou dois corpos assim dispostos e convenientemente adestrados acabariam por copiar as evoluções estonteadoras dos jagunços, sobretudo considerando que ali estavam, em todos os batalhões, filhos do Norte, nos quais o uniforme bárbaro não se ajustaria pela primeira vez.

Não seria, isto, excessiva originalidade. Mais extravagantes são os dólmãs europeus de listas vivas e botões fulgentes, entre os gravetos da caatinga decídua. Além disto, atestam-no os nossos admiráveis patrícios dos sertões, aquela vestidura bizarra, capaz, em que pese ao seu rude material, de se afeiçoar aos talhos de uma plástica elegante, parece que robustece e enrija. É um mediador de primeira ordem ante as intempéries. Atenua o calor no estio, atenua o frio no inverno; amortece as mais repentinas variações de temperatura; normaliza a economia fisiológica e produz atletas. Harmoniza-se com as maiores vicissitudes da guerra. Não se gasta; não se rompe. Depois de um combate longo, o lutador exausto tem o fardamento intacto e pode repousar sobre uma moita de espinhos. Ao ressoar de um alarma súbito, apruma-se, de golpe, na formatura, sem uma prega na sua couraça flexível. Marcha sob uma chuva violenta e não tirita encharcado; depara, adiante, um ervaçal em chamas e rompe-o aforradamente; entolha-se-lhe um ribeirão correntoso e vadeia-o, leve, da véstia impermeável.

Mas isto seria uma inovação extravagante. Temeu-se colar à epiderme do soldado a pele coriácea do jagunço. A expedição devia marchar corretíssima. Corretíssima e fragílima.

Partira em primeiro lugar, no dia 14, a comissão de engenharia, protegida por uma brigada. Levava uma tarefa árdua: afeiçoar à marcha as trilhas sertanejas; e retificá-las, ou alargá-las, ou nivelá-las, ou ligá-las por estivas e pontilhões ligeiros, de modo que em tais veredas, cindidas de boqueirões e envesgando pelos morros, passasse aquela artilharia imprópria — as baterias de Krupp, alguns canhões de tiro rápido, e o aterrador 32, que por si só requeria estrada de rodagem, consolidada e firme.

Esta estrada foi feita. Abriu-a num belo esforço, e com tenacidade rara, a comissão de engenharia, desenvolvendo-a ao alto da Favela, num percurso de quinze léguas.

A comissão de engenharia

Para este trabalho notável houve um chefe — o tenente-coronel Siqueira de Meneses.

Siqueira de Meneses

Ninguém até então compreendera com igual lucidez a natureza da campanha, ou era mais bem aparelhado para ela. Firme educação teórica e espírito observador tornavam-no guia exclusivo daqueles milhares de homens, tateantes em região desconhecida e bárbara. Percorrera-a quase só, acompanhado de um ou dois ajudantes, em todos os sentidos. Conhecia-a toda; e infatigável, alheio a temores, aquele campeador, que se formara fora da vida dos quartéis, surpreendia os combatentes mais rudes. Largava pelas chapadas amplas, perdia-se no deserto referto de emboscadas, observando, estudando e muitas vezes lutando. Cavalgando animais estropiados, inaptos a um meio galope frouxo, afundava nos grotões; varava-os; galgava os cerros abruptos, em reconhecimentos perigosos; e surgia no Caipã, em Calumbi e no Cambaio, em toda a parte, mais preocupado com a carteira de notas e os croquis ligeiros do que com a vida.

Atraía-o aquela natureza original. A sua flora estranha, o seu facies topográfico atormentado, a sua estrutura geognóstica ainda não estudada — antolhavam-se-lhe, largamente expandidas, em torno, escritas numa página revolta da terra que ainda ninguém lera. E o expedicionário destemeroso fazia-se, não raro, o pensador contemplativo. Um pedaço de rocha, o cálice de uma flor ou um acidente do solo, despeavam-no das preocupações da guerra, levando-o à região remansada da ciência.

Conheciam-no os vaqueiros amigos das cercanias e por fim os próprios jagunços. Assombrava-os aquele homem frágil, de fisionomia nazarena, que, apontando em toda a parte com uma carabina à bandoleira e um podômetro preso à bota, lhes desafiava a astúcia e não tremia ante as emboscadas e não errava a leitura da bússola portátil entre os estampidos dos bacamartes.

Por sua vez o comandante-em-chefe avaliara o seu valor. O tenente- coronel Meneses era o olhar da expedição. Oriundo de família sertaneja do Norte e tendo até próximos colaterais entre os fanáticos, em Canudos, aquele jagunço alourado, de aspecto frágil, física e moralmente brunido pela cultura moderna, a um tempo impávido e atilado — era a melhor garantia de uma marcha segura. E deu-lhe um traçado que surpreendeu os próprios sertanejos.

Estrada de Calumbi

Entre os caminhos que demandavam Canudos, dois, o do Cambaio e o de Maçacará, haviam sido trilhados pelas expedições anteriores. Restava o de Calumbi, mais curto e em muitos pontos menos impraticável, sem as trincheiras alterosas do primeiro ou vastos plainos estéreis do último. Tais requisitos faziam crer que fosse inevitavelmente escolhido. Neste pressuposto os sertanejos fortificaram-no de tal maneira que a marcha da expedição por ali acarretaria desastre completo, muito antes do arraial.

O plano esboçado pela comissão de engenharia evitou-o, norteando a estrada mais para o levante, beirando os contrafortes de Aracati.

A marcha para Canudos

Por ali avançaram, parceladamente, as brigadas.

A de artilharia, decampando de Monte Santo, a 17, deparou, logo aos primeiros passos, dificuldades sérias. Enquanto os canhões mais ligeiros chegavam, transcorridos dez quilômetros, ao Rio Pequeno, o obstruente 32 ficara distanciado de uma légua. Pela estrada, escorregadia e cheia de tremedais, ronceavam penosamente as vinte juntas de bois que o arrastavam, guiadas por inexpertos carreiros, uns e outros pouco afeitos àquele gênero de transportes, inteiramente novo e em que toda a sorte de empecilhos surgiam a todo o instante e a cada passo, nas flexuras fortes do caminho, na travessia das estivas mal feitas, ou em repentinos desnivelamentos, fazendo adernar a máquina pesadíssima.

Somente no dia 19, à tarde, gastando três dias para percorrer três léguas, chegou o canhão retardatário ao Caldeirão Grande, permitindo que se reorganizasse a brigada de artilharia que, juntamente com a 2ª, de Infantaria, tendo à vanguarda o 25º Batalhão do tenente-coronel Dantas Barreto, prosseguiria na manhã subsequente para a Gitirana, distante oito quilômetros da estação anterior, com a mesma marcha fatigante e remorada.

Naquele mesmo dia saíra de Monte Santo o comandante geral e o grosso da coluna constituído pelas 1ª e 3ª Brigadas, com o efetivo de 1.933 soldados.

Toda a expedição em caminho, forte de uns 3 mil combatentes, avançou até ao Aracati, 46 quilômetros além de Monte Santo, de idêntico modo: as grandes divisões progredindo isoladas, ou concentrando-se e dispersando-se logo, distanciando-se às vezes demais, contrastando sempre a investida ligeira da vanguarda com o tardo caminhar da artilharia.

O 5. Corpo de Polícia Baiana

Mais afastado ainda, no coice de toda a tropa, ia o grande comboio geral de munições, sob o mando direto do deputado do Quartel-Mestre- General, coronel Campelo França, e guarnecido com 432 praças, o 5º Corpo de Polícia Baiana — o único entre todos que se talhara pelas condições da campanha. Recém-formara-se com sertanejos engajados nas regiões ribeirinhas do S. Francisco. Mas não era um batalhão de linha, como não era um batalhão de polícia. Aqueles caboclos rijos e bravos, joviais e bravateadores, que mais tarde, nos dias angustiosos do assédio de Canudos, descantariam, ao som dos machetes, modinhas folgazãs, debaixo de fuzilarias rolantes — eram um batalhão de jagunços. Entre as forças regulares de um e outro matiz, imprimiam o traço original da velha bravura a um tempo romanesca e bruta, selvagem e heroica, cavaleira e despiedada, dos primeiros mestiços, batedores de bandeiras. Eram o temperamento primitivo de uma raça, guardado, intacto, no insulamento das chapadas, fora da intrusão de outros elementos e aparecendo, de chofre, com a sua feição original; misto interessante de atributos antilógicos, em que uma ingenuidade adorável e a lealdade levada até ao sacrifício, e o heroísmo distendido até à barbaridade, se confundem e se revezam, indistintos. Vê-lo- emos ao diante.

Alteração da formatura

O 5º Corpo e o comboio, partindo por último, de Monte Santo, à reçaga da expedição, quando deviam centralizá-la, seguiam, ao cabo, completamente isolados. E isto acontecia aos demais batalhões. A despeito da formatura estatuída, verificara-se logo a impossibilidade de uma concentração imediata, na emergência da batalha. Adstrito ao trabalho dos sapadores, todo o trem da artilharia ficava, por vezes, longamente separado do resto da coluna, como um trambolho obstruente entre a vanguarda e o comboio geral. De sorte que se, por um golpe de ousadia, os jagunços, em trechos adrede escolhidos, houvessem salteado o último, o refluxo da primeira, correndo em auxílio, estacaria de encontro às baterias engasgadas nas veredas estreitas.

Revela-o o roteiro pormenorizado da marcha. Enquanto o grosso da coluna decampava, no alvorecer de 21, do Rio Pequeno, pouco mais de uma légua de Monte Santo, e chegava, seriam nove horas da manhã, ao Caldeirão Grande, depois de caminhar duas léguas, já desta escala largara à retaguarda da artilharia o canhão 32, protegido pela Brigada Medeiros. Na mesma ocasião, mais avantajada, a Brigada Gouveia atingia a Gitirana, à noite, onde já se achavam a comissão de engenheiros e o general Artur Oscar, que até lá fora, escoteiro, seguido de um piquete de vinte praças de cavalaria e do 9º de Infantaria. Considerando-se que o comboio dirigido pelo coronel Campelo França e protegido pelo 5º de Polícia ficara à retaguarda, vê-se que a tropa se espalhara em longura de quase quatro léguas, violando-se inteiramente as instruções preestabelecidas.

No amanhecer do dia 22, enquanto o general Barbosa, que permanecera o resto do dia anterior em Caldeirão, levantava acampamento seguindo para Gitirana, daí partia o comandante geral com a Primeira Brigada, o 9º Batalhão da 3ª e 25º da 2, a ala de cavalaria do major Carlos de Alencar e a artilharia, levando o dispositivo prefixado: na frente o 14º e 30º Batalhões, no centro a cavalaria e a artilharia; depois dois outros corpos, o 9º e o 25º. Ora, enquanto o comandante geral seguia rapidamente naquele dia, chegando em pouco tempo com a vanguarda a Juá, 7.600 metros além de Gitirana, a artilharia imobilizava-se nesta última escala aguardando que a comissão de engenheiros ultimasse a abertura de picadas e trabalhos de sapa; e, como o grosso das forças vinha ainda pela estrada do Caldeirão, estas mais uma vez se subdividiam forçadamente, ficando em condições desvantajosas na emergência de um assalto, porque não vinham adrede dispostas a afastamentos tão largos, que deviam ter sido de antemão estabelecidos, realizando-se não como um vício de mobilidade mas como requisito tático indispensável.

As brigadas reuniram-se, por fim, na noite daquele dia, em Juá. Ali chegou, às 6 horas, logo após a artilharia, o resto da coluna composta dos 5º, 7º, 15º, 16º e 27º corpos de infantaria. Executava-se o comboio, retardado num trecho qualquer dos caminhos.

Daquele ponto seguiram os dois generais, na manhã de 23, para Aracati, 12.800 metros na frente, fazendo a vanguarda os batalhões do coronel Gouveia. Mas a artilharia, protegida pelos do coronel Medeiros, só se moveu ao meio-dia, depois que os engenheiros, apoiados pela Brigada Flores, executaram penosíssimos trabalhos de reparos.

Pormenorizamos, miudeando-a aos menores incidentes, esta marcha, para que se revelem as condições excepcionais que a rodearam.

Depois da partida de Juá e atingida a velha fazenda do Poço, totalmente em ruínas, sobreveio incidente indicador do quanto era conhecido o terreno em que se avançava.

Incidentes

Ao invés de prosseguirem em rumo para a direita — buscando a fazenda do Sítio, de um sertanejo aliado, Tomás Vila-Nova, inteiramente dedicado à nossa gente — entraram os sapadores por um desvio, a esquerda. Quando já iam longe, depois de algumas horas de trabalho, reconheceu o tenente-coronel Siqueira de Meneses a impossibilidade de afeiçoar os caminhos com a presteza necessária. “Tais eram o grande movimento de terras a fazer-se, o cerrado da caatinga, os pesados lajedos a remover-se, além dos acidentes do terreno para a descida e subida dos veículos”. Abandonando então todo o trabalho feito, procurou o sítio de Vila-Nova. Esclarecido por este, atacou à tarde a nova vereda que, embora alongando a distância, tinha melhores condições de viabilidade. A artilharia por ali só avançou ao cair da tarde, passando pelo sítio dos Pereiras. Foi acampar a meia-noite na lagoa da Laje, dois quilômetros aquém de Aracati, onde já estava havia muito toda a coluna. Ficara ainda mais à retaguarda, com a 3ª Brigada, o moroso 32, à borda a pique de um ribeirão, o dos Pereiras, que o adiantado da noite obstara se pudesse atravessar.

Entrava-se, no entanto, na zona perigosa. Nesse dia, na lagoa da Laje, o piquete do comando geral, guiado por um alferes, surpresara alguns rebeldes que destelhavam a casa ali existente. O recontro foi rápido. Os sertanejos, de surpresa acometidos por uma carga, fugiram sem replicar. Um único ficou. Estava sobre o telhado levadio e ao descer viu-se circulado. Reagiu apesar de ferido. Afrontou-se com o adversário mais próximo, um anspeçada; desmontou-o; e arrancou-lhe das mãos a clavina, derreando-o com ela a coronhadas. Encostou-se depois à parede do casebre e fez frente aos soldados, girando-lhes à cabeça a arma, em molinete. Batido, porém, de toda a banda, baqueou, exausto e retalhado. Mataram-no. Era a primeira façanha, exígua demais para tanta gente. Suceder-se-lhe-iam outras.

No dia 24 agravou-se a marcha. A coluna, que decampara de Aracati ao meio-dia, porque teve de aguardar a vinda dos retardatários da véspera, endireitou, unida, para Juetê, distante 13.200 metros — para mais uma vez se subdividir.

Os caminhos pioravam.

Tornou-se necessário, além dos trabalhos de sapa, abrir mais de uma légua de picada contínua através de uma caatinga feroz que naquele trecho justifica bem o significado da denominação indígena

do lugar 1.

Relata o chefe desse trabalho memorável 2:

Ao xiquexique, palmatória, rabo-de-raposa, mandacarus, croás,

cabeça-de-frade, culumbi, cansação, favela, quixaba e a

respeitabilíssima macambira, reuniu-se o muito falado e temido

cunanã, espécie de cipó com aspecto arborescente, imitando

no todo a uma planta cultivada nos jardins, cujas folhas são

cilíndricas. A poucos centímetros do chão o tronco divide-se em

muitos galhos, que se multiplicam numa profusão admirável,

formando uma grande copa, que se mantém no espaço por

seus próprios esforços ou favorecido por algumas plantas que

vegetam de permeio. Estende suas franças de folhas cilíndricas

com oito caneluras e igual número de filetes em gume e pouco

salientes, semelhando-se a um enorme polvo de milhões de

antenas, como elas flexíveis e elásticas, cobrindo, não raras

vezes, considerável superfície do solo, emaranhando-se, por

entre a esquisita e raquítica vegetação destas paragens, em

uma trama impenetrável. A foice mais afiada dos nossos

soldados do contingente de engenharia (“chineses” na frase

gaiata dos companheiros dos corpos combatentes) e polícia

dificilmente as decepava nos primeiros golpes, oferecendo,

portanto, resistência inesperada ao empenho que todos traziam

em ir por diante. Nesse labirinto de nova espécie, teve a

comissão de engenharia em poucas horas de abrir mais de seis

quilômetros de estrada, tendo ao encalço a artilharia, que a

atropelava impaciente. O ingente esforço desenvolvido pelos

distintos e patriotas republicanos, empenhados neste

pesadíssimo labor, não impediu que a noite os viesse

surpreender, antes de chegar à espécie de clareira denominada

pelo povo do lugar de Queimadas, onde esta vegetação

traiçoeira desaparecia de sua frente, como que tomada de

medo. Antes que o desânimo, o cansaço e o sono se

apoderassem dos nossos soldados resignados e trabalhadores,

a citada comissão representada nesta ocasião pelo chefe,

tenentes Nascimento e Crisanto, alferes Ponciano, Virgílio e

Melquíades, os dois últimos da polícia, o terceiro auxiliar e o

quarto comandante do contingente de engenharia, pois o

capitão Coriolano e tenente Domingos Ribeiro achavam-se

mais atrás em outros trabalhos, tomou o alvitre de mandar

acender, já escura a noite, de distância em distância, grandes

fogueiras para à sua luz prosseguirem os obreiros da boa causa

da Pátria.

Assim concluiu-se com alegria geral e contentamento, das oito

para nove horas da noite, este último trecho, em que a cunanã

se dissolveu em mais benigna vegetação ao sair das

Queimadas de que já falamos. O canhão 32, não podendo

vencer os obstáculos avolumados pela noite, ficou dentro da

picada até o dia seguinte e com ele o Dr. Domingos Leite, que

trabalhava desde o Rio Pequeno com uma turma de “chineses”

no empenho de levá-lo a Canudos.

Pouco depois de nove horas estava a comissão reunida e

acampada na clareira debaixo de chuvas torrenciais, que se

prolongaram até ao dia seguinte, a todos contrariando, a todos

causando mal-estar e aborrecimentos. Aí também acampou a

Brigada de Artilharia, o 16º e o 25º Batalhões de Infantaria,

tendo-se conservado em proteção ao 32 o 27º que dormiu na

picada. Foi magnífico, esplêndido mesmo, o espetáculo que a

todos vivamente impressionou, vendo a artilharia com seus

metais faiscantes e polidos, altiva de sua força soberana,

atravessar garbosa e imponente, como rainha do mundo, por

entre os fantásticos clarões de grandes fogos, acesos no

deserto, como que pelo gênio da liberdade, para mostrar-lhe o

caminho do dever, da honra e da glória.

Durante este tempo chegava a Juetê, onde pernoitou, o general Oscar, com o estado-maior e o piquete de cavalaria. Ao passo que o general Barbosa, com a 1ª e 3ª Brigadas, endireitava para a fazenda do Rosário, 4.700 metros na frente.

Ali chegou na antemanhã seguinte o comandante geral; e mais tarde o resto da divisão, tendo-se tornado, ainda, necessário taludar as ribanceiras do Rio Rosário para que o atravessasse a artilharia.

Um guia temeroso: Pajeú

O inimigo apareceu outra vez. Mas célere, fugitivo. Algum piquete que bombeava a tropa. Dirigia-o Pajeú. O quadrilheiro famoso visara, à primeira vista, um reconhecimento. Mas, de fato, como o denunciaram ulteriores sucessos, trazia objetivo mais inteligente: renovar o delírio das cargas e um marche-marche doido, que tanto haviam prejudicado a expedição anterior. Aferrou a tropa num tiroteio rápido, de flanco, fugitivo, acompanhando-a velozmente por dentro das caatingas. Desapareceu. Surgiu, logo depois, adiante. Caiu num arremesso vivo e fugaz sobre a vanguarda, feita neste dia pelo 9º de Infantaria. Passou, num relance, acompanhado de poucos atiradores, por diante, na estrada. Não foi possível distingui-los bem. Trocadas algumas balas, desapareceram. Ficou aprisionado e ferido um curiboca de doze ou quatorze anos, que nada revelou no interrogatório a que o sujeitaram.

No Rosário

A tropa acampou, sem outros sucessos, naquele sítio.

Reuniram-se os combatentes, exceto a 3ª Brigada que se avantajara até às Baixas, seis quilômetros na frente.

O comandante-em-chefe enviou, ao general Savaget, um emissário reiterando o compromisso anterior de se encontrarem, a 27, nas cercanias de Canudos.

Decamparam a 26, seguindo para o Rancho do Vigário dezoito quilômetros mais longe, após pequena alta nas Baixas.

Estavam a cerca de oitenta quilômetros de Monte Santo. Em plena zona perigosa. A breve troca de balas da véspera pressupunha eventualidades de combates. Talvez, esclarecidos pelo reconhecimento feito, os jagunços se dispusessem a refregas mais sérias. Denunciava-os, como sempre, de algum modo, a fisionomia da terra, a conformação do terreno que dali por diante se acidenta, eriçado de cômoros escalvados, até às Baixas, onde se alcantila a Serra do Rosário, de flancos duros e vegetação rara.

Continuar: parte 2 de 5