Os Sertões
Quarta expedição
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Ao outro dia prosseguiam para Monte Santo. E, depois de duas horas de caminho, reanimava-os o aspecto da pequena vila, percebida à distância de uma légua. Repontava ridente no ondear dos tabuleiros amplos — casinhas reunidas derramando-se por um socalco suavemente inclinado às plantas da montanha abrupta, em cujo vértice a capela branca, arremessada na altura, destacando-se nítida, a projetar-se no firmamento azul, parecia enviar-lhes, de longe, um aceno carinhoso e amigo.
Ao alcançarem-na, porém, volviam as desesperanças. Era ainda o deserto. O vilarejo morto, vazio, desprovido de tudo, mal os abrigava por um dia. Havia-o deixado a população, caindo na caatinga, consoante o dizer dos matutos, fugindo, amedrontada, por igual do jagunço e do soldado. Uma guarnição exígua tomara conta da praça humílima e lá atravessava, inútil, os dias, numa mandria mais insuportável que as marchas e as batalhas. Fantasiara-se em casarão acaçapado e escuro um hospital militar. Mas este era o pavor e a condenação suprema de todos os feridos e doentes. De sorte que o vilarejo, com as suas vielas tortas, condecoradas de nomes sonoros — rua Moreira César! rua Capitão Salomão! — era uma agravante na região ingrata; era o deserto metido entre paredes e afogado na trama de alguns becos imundos, cheios de detritos e da farragem repugnante dos batalhões que ali tinham acampado, mais deplorável que o deserto franco purificado pelos sóis e varrido pelos ventos.
Os caminhantes ao chegarem, fugindo à parceria incômoda dos morcegos nas casas em abandono, acampavam na única praça quadrangular e grande, disputando a sombra do velho tamarineiro, ao lado do barracão da feira. No outro dia, cedo, cada um por sua conta, largava para Queimadas, renovando a travessia. Eram mais dezesseis léguas extenuantes, mais seis ou oito dias de amarguras, sob o cautério dos mormaços crestadores, adstritos a escalas inevitáveis à borda das cacimbas, por Quirinquinquá — duas vivendas tristes, circuitadas de mandacarus silentes, erectas sobre larga bossa de granito exposto; pelo Cansanção, lugarejo minúsculo — uma dúzia de casas cingidas de ipueiras —, pela Serra Branca, lembrando uma rancharia de tropeiros, de aspecto festivo, ensombrada de ouricurizeiros apendoados; pelo Jacurici; por todas as lagoas de águas esverdinhadas e suspeitas...
Depredações
E aquele caminho, então povoado, ermou-se. Os bandos revoltos rompiam-no espalhando estragos, como se foram restos de uma caravana de bárbaros claudicantes. Doentes e feridos, em magotes ameaçadores, de onde transudavam alaridos, imprecações e frases arrepiadoras de angústias e revoltas irrefreáveis, abeiravam-se das choupanas, apelando para a hospitalidade incondicional dos tabaréus. Fizeram a princípio pedidos coléricos, mais irritantes que intimações. Depois o assalto franco. Repruía-lhes o ânimo, escandalizando-lhes a vida tormentosa, o quadro tranquilo daqueles lares pobres, onde deriva, quieta, a existência dos matutos. E varejavam-nos — impulsivamente, numa irreprimível hipnose de destruição — fazendo saltar as portas a coices d’armas, enquanto a família sertaneja, apavorada, fugia para os recessos das macegas.
Incêndios
Depois — era preciso uma diversão qualquer estupidamente dramática que lhes distraísse um momento as agonias fundas! — tomando de tições em fogo chegavam-nos aos colmos de sapê. Irrompiam as flamas, num deflagrar instantâneo. Passavam os haustos rijos do nordeste e esparziam as fagulhas pela caatinga seca. Em breve, céleres arrebatadas pelo vento, enoveladas em rolos de fumo cindidos de labaredas, rolando pelas quebradas e transpondo-as, circulando todas as encostas, avassalando o topo dos morros, repentinamente acesos num relampaguear de crateras súbitas, crepitavam as queimadas, inextinguíveis, derramando-se por muitas léguas em roda.
Os foragidos, já agora salvos, suportavam os últimos transes do êxodo penosíssimo requintando nas tropelias, ampliando o círculo de ruínas da guerra e iam-se de abalada para o litoral — ao mesmo tempo miserandos e maus, inspirando a piedade e o ódio — rudemente vitimados, brutalmente vitimando. Chegavam a Queimadas esparsos e exaustos, alguns quase moribundos. Atulhavam os trens da estrada de ferro e desciam para a Bahia.
Primeiras notícias certas
Aguardava-os uma curiosidade ansiosa.
Iam chegar, afinal, as primeiras vítimas da luta que empolgara a atenção do país inteiro. A multidão desbordando da estação terminal da linha férrea, na Calçada, derramando-se pelas ruas próximas até ao forte de Jequitaia, contemplava diariamente a passagem do heroísmo infeliz. E nunca lhe imaginou aspectos tão dramáticos.
Sacudiam-na frêmitos de emoções nunca sentidas.
Os feridos chegavam em estado miserando. Prolongavam pelas ruas da cidade aquela onda repulsiva de trapos e carcaças, que vinham rolando pelas veredas sertanejas o refluxo repugnante da campanha.
Era um desfilar cruel. Oficiais e soldados, uniformizados pela miséria, vinham indistintos, revestidos do mesmo fardamento inclassificável: calças em fiapos, mal os reguardando como tangas; camisas estraçoadas; farrapos de dólmãs sobre os ombros; farrapos de capotes, em tiras, escorridos pelos torsos desfibrados, dando ao conjunto um traço de miséria trágica. Coxeando, arrastando-se penosamente, em cambaleios, titubeantes e imprestáveis, traziam no escavado das faces e na atitude dobrada um traço comovente da campanha. Esta desvendava pela primeira vez sua feição real, naqueles corpos combalidos, varados de balas e de espinhos, retalhados de golpes. E chegavam às centenas todos os dias: a 6 de agosto, 216 praças e 26 oficiais; a 8, 150; a 11, 400; a 12, 260; a 14, 270; a 18, 53; e assim por diante.
A população da capital recebia-os comovida. Como sempre sucede, o sentimento coletivo ampliara as impressões individuais. O grande número de pessoas, identificadas pela mesma comoção, fez-se o expoente do sentir de cada um e, vibrando uníssonas todas as almas, presas do mesmo contágio, e sugestionadas pelas mesmas imagens, todas as individualidades se apagaram no anonimato nobilitador da multidão piedosa que bem poucas vezes apareceu tão digna na História. A vasta cidade fez-se um grande lar. Organizaram-se em toda a linha comissões patrióticas, para agenciar donativos, que espontaneamente surgiram numerosos, constantes. No Arsenal de Guerra, na Faculdade Médica, nos hospitais, nos próprios conventos, se improvisaram enfermarias. Em cada uma dessas os gloriosos mutilados foram postos sob o patrocínio de algum nome ilustre: Esmarch, Claude Bernard, Duplay, Pasteur, jamais tiveram tão bela consagração no futuro.
Avantajando-se à ação do governo, o povo constituíra-se tutor natural dos enfermos, amparando-os incondicionalmente, abrindo-lhes os lares, rodeando-os, animando-os, auxiliando-lhes os passos trôpegos nas ruas. Nos dias facultados às visitas, invadia os hospitais, em massa, em silêncio — religiosamente. Abeiravam-se então os visitantes dos leitos como se neles jazessem velhos conhecidos; tratavam com os doentes menos graves sobre as provações sofridas e lances arriscados ocorridos; e, ao deixarem aquelas trágicas exposições da guerra feitas de traumatismos e moléstias horríveis, levavam, afinal, um juízo claro sobre a luta mais brutal dos nossos tempos. Mas, por um contraste inexplicável, sobre esta comiseração profunda e geral pairava, intenso, um entusiasmo vibrante. Os mártires tinham ovações de triunfadores. E estas despontavam ao acaso, sem combinações prévias, rápidas, espontâneas, incisivas, aparecendo e desaparecendo em quartos de hora, num desencadear intermitente de movimentos impulsivos. Os dias sucediam-se agitados numa larga movimentação de multidões ruidosas, turbilhonando nas ruas e nas praças, no meio de expansões discordes, numa alacridade singular rorejada de prantos, por meio da qual se fazia a comemoração sombria do heroísmo. Os feridos eram uma revelação dolorosíssima, certo, mas de algum modo alentadora. Naquelas sevícias retratava-se a energia de uma raça. Aqueles homens que chegavam dilacerados pelas garras do jagunço e pelos espinhos da terra eram o vigor de um povo posto à prova do ferro, à prova do fogo e à prova da fome. Abaladas pelo cataclismo da guerra, as camadas superficiais de uma nacionalidade cindiam-se, pondo à luz os seus elementos profundos naqueles titãs resignados e estoicos. Sobre tudo isto um pensamento diverso, não boquejado sequer mas por igual dominador, latente em todos os espíritos: a admiração pela ousadia dos sertanejos incultos, homens da mesma raça, de encontro aos quais se despedaçavam daquele modo batalhões inteiros...
E um longo frêmito tonificador vibrava nas almas. Faziam-se romarias ao quartel da Palma, onde estava ferido o coronel Carlos Teles; à Jequitaia, onde convalescia o general Savaget; e quando este último pode arriscar alguns passos nas ruas, paralisou-se inteiramente toda a azáfama comercial da Cidade Baixa, em ovação espontânea e imensa, que, irradiando de repente e congregando a população em torno do heroico chefe da 2ª coluna, transmudou um dia comum de trabalho em dia de festa nacional.
Baixas
Sobre esta agitação chegavam diuturnamente pormenores que a acirravam. Sabia-se, por fim, positivamente, com rigor aritmético, a extensão do desastre. Era surpreendente.
De 25 de junho, em que trocara os primeiros tiros com o inimigo, até 10 de agosto, tivera a expedição 2.049 baixas.
Detalhavam-nas os mapas oficiais.
No total entrava a 1ª coluna com 1.171 homens e a 2ª com 878. Discriminadamente eram estes os algarismos:
1ª coluna — Artilharia: 9 oficiais e 47 praças feridas; 2 oficiais e
12 praças mortas; Ala de Cavalaria: 4 oficiais e 46 praças
feridas; 30 oficiais e 16 praças mortas; engenheiros: 1 oficial e 8
praças feridas; 1 praça morta; Corpos de Polícia: 8 oficiais e 46
praças feridas; 8 oficiais e 24 praças mortas; 5º Batalhão de
Infantaria: 4 oficiais e 66 praças feridas; 1 oficial e 25 praças
mortas; 7º: 8 oficiais e 95 praças feridas; 5 oficiais e 52 praças
mortas; 9º: 6 oficiais e 59 praças feridas; 2 oficiais e 22 praças
mortas; 14º: 8 oficiais e 119 praças feridas; 5 oficiais e 42
praças mortas; 15º: 5 oficiais e 30 praças feridas; 10 praças
mortas; 16º: 5 oficiais e 24 praças feridas; 10 praças mortas;
25º: 9 oficiais e 134 praças feridas; 3 oficiais e 55 praças
mortas; 27º: 6 oficiais e 45 praças feridas; 24 praças mortas;
30º: 10 oficiais e 120 praças feridas; 4 oficiais e 35 praças
mortas.
2ª coluna — 1 general ferido; Artilharia: 1 oficial morto; 12º de
Infantaria: 6 oficiais e 128 praças feridas; 1 oficial e 50 praças
mortas; 26º: 6 oficiais e 36 praças feridas; 2 oficiais e 22 praças
mortas; 31º: 7 oficiais e 99 praças feridas; 4 oficiais e 48 praças
mortas; 32º: 6 oficiais e 62 praças feridas; 4 oficiais e 31 praças
mortas; 32º: 10 oficiais e 65 praças feridas; 1 oficial e 15 praças
mortas; 34º: 4 oficiais e 18 praças feridas; 7 praças mortas; 35º:
4 oficiais e 91 praças feridas; 1 oficial e 22 praças mortas; 40º:
9 oficiais e 75 praças feridas; 2 oficiais e 30 praças mortas.
E a hecatombe progredia com uma média diária de oito homens fora de combate. Por outro lado, os adversários pareciam dispor de extraordinários recursos.
Versões e lendas
Transfiguravam-nos, além disto, numa distensão exagerada, as imaginações superexcitadas. Recente mensagem do Senado Federal, onde batera também a onda da comoção geral, tendo requerido, esteada em veementes denúncias, esclarecimentos sobre o terem sido despachadas em Buenos Aires com destino aos portos de Santos e Bahia armas, que tudo delatava se destinarem aos conselheiristas, tal incidente, em que incidiam todas as fantasias, assumiu, ampliado pela nevrose comum, visos de realidade.
Completavam-no, justificando e do mesmo passo refletindo o modo de pensar das repúblicas americanas, todas as notícias transmitidas pelos seus órgãos mais sérios. O de mais peso talvez na América
do Sul1, depois de se referir aos curiosos sucessos da campanha, aditava-lhes pormenores de um simbolismo estranho e pavoroso:
Trata-se de duas missivas que, com intervalo de dois dias
recebemos da “Sección Buenos-Aires de la unión internacional
de los amigos del imperio del Brasil” comunicando-nos, por
ordem da seção executiva em Nova York, que a referida União
tem ainda uma reserva de não menos 15 mil homens — só no
Estado da Bahia — para reforçar em caso de necessidade o
exército de fanáticos; além de 100 mil em vários Estados do
Norte do Brasil e mais 67 mil em certos pontos dos Estados
Unidos da América do Norte, prontos a sair em qualquer
momento para as costas do ex-Império, todos muito bem
armados e preparados para a guerra. Também temos, ajuntam
as missivas, armas dos mais modernos sistemas, munições e
dinheiro em abundância.
De uma redação, caligrafia e ortografia corretas, estas
enigmáticas comunicações trazem à sua frente a mesma
inscrição que as subscreve, escrita com tinta que faz recordar a
violácea cor dos mortos, destacando-se as maiúsculas em
vermelho, da vermelha cor do sangue.
Ante o quadro formidável de homens e armas que nos
oferecem os misteriosos amigos do Império, de forma não
menos misteriosa, não sabemos se pensar em uma daquelas
terríveis associações que forjam nas trevas seus planos de E nesses recontros sucessivos, adrede feitos à pertubação das marchas, começara-se a lobrigar, por fim, uma variante do jagunço, auxiliando-o, indiretamente, com outros intuitos. Distinguiam-se entre os claros das galhadas rarefeitas, passando, céleres, no vertiginoso pervagar das guerrilhas, brilhos de botões de fardas, loivos rubros de calças carmesins...
destruição ou em alguns cavalheiros dados à mistificação do
próximo.
Entretanto, pelo que possa haver no fundo de tudo isto, é que
fazemos constar e acusamos recebimento das repetidas
missivas.
Acreditava-se. A quarta expedição ilhara-se de todo, no território conflagrado, a pique de uma catástrofe. Diziam-no insuspeitos informes. Só do município de Itapicuru, garantia-se, haviam partido 3 mil fanáticos para Canudos, conduzidos por um padre que, aberrando dos princípios ortodoxos, lá se ia comungar das tolices abstrusas do cismático. Pela Barroca passavam centenares de quadrilheiros armados, seguindo o mesmo rumo. Citavam-se nomes de novos cabecilhas. Apelidos funambulescos, como o dos chouans: Pedro, o Invisível, José Gamo, Caco de Ouro, e outros.
Agravando estas conjeturas vinham notícias verdadeiras. Os sertanejos dispartiam pelo sertão em algaras atrevidas: atacaram o termo de Mirandela, guiados por Antônio Fogueteiro; investiram, tomaram e saquearam a Vila de Santana do Brejo; irradiavam para toda a banda. Alargavam o âmbito da campanha, revelando mesmo lineamentos firmes de estratégia segura. Além do arraial duas novas posições de primeira ordem e defensáveis estavam guarnecidas: as vertentes caóticas do Caipã e as cordas de cerros em torno da Várzea da Ema. Desbordando de Canudos, a insurreição espraiava-se desta maneira pelos lados de um triângulo enorme, em que podiam inscrever-se 50 mil baionetas. Alastrava-se.
Os comboios que partiam de Monte Santo, ainda que reforçados, não por batalhões mas por brigadas, tinham viagem acidentada, tolhida de constantes assaltos. Atingido o Aracati, era indispensável que viessem de Canudos dois ou três batalhões a protegê-los. O sinistro trecho de estrada entre o rancho do Vigário e as Baixas, tornara-se o pavor dos mais provados valentes. Era o lugar clássico do estouro das boiadas e da dispersão dos cargueiros, espantados pelos tiroteios vivos e atropelando pelotões inteiros no recuar precípite da fuga.
O desertor faminto atacava os antigos companheiros.
Era um lastimável sintoma, completando com um outro caráter a campanha, cuja feição dia a dia se agravava num episodear extremado dos sucessos mais triviais.
Os soldados enfermos, em perene contato com o povo, que os conversava, tinham-se, ademais, constituído rudes cronistas dos acontecimentos e confirmavam-nos mercê da forma imaginosa por que a própria ingenuidade lhes ditava os casos, verídicos na essência, mas deformados de exageros, que narravam. Urdiam-se estranhos episódios. O jagunço começou a aparecer como um ente à parte, teratológico e monstruoso, meio homem e meio trasgo; violando as leis biológicas, no estadear resistências inconceptíveis; arrojando-se, nunca visto, intangível, sobre o adversário; deslizando, invisível, pela caatinga, como as cobras; resvalando ou tombando pelos despenhadeiros fundos, como espectro; mais leve que a espingarda que arrastava; e magro, seco, fantástico, diluindo-se em duende, pesando menos que uma criança, tendo a pele bronzeada colada sobre os ossos, áspera como a epiderme das múmias...
A imaginação popular, daí por diante, delirava na ebriez dos casos estupendos, apontoados de fantasias.
Alguns eram rápidos, espelhando incisivamente a energia inamoldável daqueles caçadores de exércitos.
“Viva o Bom Jesus !”
Numa das refregas subsequentes ao assalto, ficara prisioneiro um curiboca ainda moço que a todas as perguntas respondia automaticamente, com indiferença altiva:
“Sei não!”
Perguntaram-lhe por fim como queria morrer.
“De tiro!”
“Pois há de ser a faca!” contraveio, terrivelmente, o soldado.
Assim foi. E; quando o ferro embotado lhe rangia nas cartilagens da glote, a primeira onda de sangue borbulhou, escamando, à passagem do último grito gargarejando na boca ensanguentada:
“Viva o Bom Jesus!...”
Um lance épico
Outros tinham delineamentos épicos:
No dia 1º de julho, o filho mais velho de Joaquim Macambira, rapaz de dezoito anos, abeirou-se do ardiloso cabecilha:
“Pai! quero escangalhar a matadeira!”
O astuto guerrilheiro, espécie grosseira de Imanus, acobreado e bronco, encarou-o impassível :
“Consulta o Conselheiro - e vai.”
O valente abalou, seguido de onze companheiros dispostos. Transpuseram o Vaza-Barris, cortado em cacimbas. Investiram com a larga encosta ondulante da Favela. Embrenharam-se, num deslizar flexuoso de cobras, pelas caatingas ralas.
Ia em meio o dia. O Sol irradiava a pino sobre a terra, jorrando sem fazer sombras, até ao fundo dos grotões mais fundos, os raios verticais e ardentes...
Naquelas paragens o meio-dia é mais silencioso e lúgubre que a meia-noite. Transverberando nas rochas expostas, refletindo nas chapadas nuas, repelido pelo solo recrestado e duro, todo o calor emitido para a terra reflui, tresdobrado, para o espaço, nas colunas ascensionais dos ares irrespiráveis e candentes. A natureza queda-se, enervada em quietude absoluta. Não sopra a viração mais leve. Não bate uma asa nos ares, cuja transparência junto ao chão se perturba em ondulações rápidas e ferventes. Repousa, estivando, a fauna das caatingas. Pendem, murchos, os ramos das árvores estonadas.
O exército descansava no alto da montanha, abatido pela canícula. Deitados a esmo pelas encostas, bonés caídos sobre o rosto para os resguardar, dormitando ou pensando nos lares distantes, as praças aproveitavam alguns momentos de tréguas, refazendo forças para a afanosa lide. Em frente, derramado sobre colinas — minúsculas casinhas em desordem, sem ruas e sem praças, acervo incoerente de casebres — aparecia Canudos, deserto e mudo, como uma tapera antiga.
Todo o exército repousava...
Nisto despontam, cautos, emergindo à ourela do matagal rasteiro e trançado, de arbúsculos em esgalhos, na clareira, no alto, onde estaciona a artilharia, doze rostos inquietos, olhares felinos, rápidos, percorrendo todos os pontos. Doze rostos apenas de homens ainda jacentes, de rastro, nos tufos das bromélias. Surgem lentamente. Ninguém os vê; ninguém os pode ver. Dão-lhes as costas com indiferença soberana vinte batalhões tranquilos. Adiante divisam a presa cobiçada. Como um animal fantástico, prestes a um bote repentino, o canhão Whitworth, a matadeira, empina-se no reparo sólido. Volta para Belo Monte a boca truculenta e rugidora que tantas granadas revessou já sobre as igrejas sacrossantas. Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os raios do sol, ajaezando-a de lampejos. Os fanáticos contemplam-na algum tempo. Aprumam-se depois à borda da clareira. Arrojam-se sobre o monstro. Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no. Um traz uma alavanca rígida. Ergue-a num gesto ameaçador e rápido...
E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo...
E um brado de alarma estala na mudez universal das coisas; multiplica-se nas quebradas; enche o espaço todo; e detona em ecos que atroando os vales, ressaltam pelos morros numa vibração triunfal e estrugidora, sacudindo num repelão violento o acampamento inteiro...
Formaram-se em acelerado as divisões. Num segundo os assaltantes se vêem num círculo de espingardas e sabres, sob uma irradiação de golpes e de tiros. Um apenas se salva — chamuscado, baleado, golpeado — correndo, saltando, rolando, impalpável entre os soldados tontos, varando redes de balas, transpondo cercas dilaceradoras de baionetas, caindo em cheio nas macegas, rompendo-as vertiginosamente e despenhando-se, livre afinal, alcandorado sobre abismos, pelos pendores abruptos da montanha...
Estes e outros casos — exagerado romancear dos mais triviais sucessos — dando à campanha um tom impressionante e lendário, abalavam a opinião pública da velha capital e por fim a de todo o país…
1 La Nación, de Buenos Aires, 30 de julho.
Capítulo VII
Outros reforços
Era urgente uma intervenção mais enérgica do governo. Impunham-na, do mesmo passo, as apreensões crescentes, as últimas peripécias da luta e a própria insciência sobre o curso real das operações. As opiniões como sempre disparatavam, discordes. Para a maioria os rebeldes contavam com elementos sérios. Era evidente. Não se compreendia que batidos em todas as ordens do dia — heroicamente escritas — eles, tendo ainda franca a fuga para os sertões de S. Francisco, onde não havia descobri-los, esperassem, pertinazes, no arraial, que se lhes fechassem, pelo complemento do assédio, as derradeiras saídas. Deduziam-se, lógicos, corolários graves. À parte a hipótese do sobre-humano devotamento, fazendo-os sucumbir em massa sob os escombros dos templos consagrados, imaginavam-se-lhes traças guerreiras formidáveis embaralhando de todo a estratégia regular. O número, que se dizia diminuto, dos que permaneciam em Canudos arrostando tudo, era, certo, um engodo armado a arrastar para ali exclusivamente o exército e iludi-lo em combates estéreis, até que se congregassem, noutros lugares, fortes contingentes para o assalto final, por toda a banda, sobre os sitiantes, pondo-os entre dois fogos.
Contravinham, porém, juízes mais animadores. O coronel Carlos Teles, em carta dirigida à imprensa, afirmou de maneira clara o número reduzido de jagunços — duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns — , abastecidos e aparelhados apenas do que haviam tomado às anteriores expedições. O otimismo, de fato exageradíssimo, do valente, porém, afogou-se na incredulidade geral. Aniilavam-no todos os fatos e sobretudo aquelas irrupções diárias de feridos, abalando num crescendo a comoção nacional.
A Brigada Girard
Sobrevieram outros por igual desastrosos. Atendendo aos primeiros reclamos do general Artur Oscar, o governo tinha prontamente organizado uma brigada auxiliar que, ao revés das demais, não entrava na luta distinta por um número seco e inexpressivo. Tinha, segundo louvável praxe, sem curso entre nós, mercê da qual se amplia sobre os comandados a glória do comandante, um nome — Brigada Girard.
Dirigia-a o general Miguel Maria Girard e formavam-na três corpos, saídos da guarnição da Capital Federal: o 22º, do coronel Bento Tomás Gonçalves, o 24º, do tenente Rafael Tobias, e o 38º, do coronel Filomeno José da Cunha. Eram 1.042 praças e 68 oficiais, perfeitamente armados e levando para a luta insaciável o repasto esplêndido de 850 mil cartuchos Mauser.
Mas, por um conjunto de circunstâncias, que fora longo miudear, ao invés de auxiliar esta tropa tornou-se um agente debilitante. Abalou do Rio de Janeiro comandada pelo chefe que lhe dera o nome e foi com ele até Queimadas, onde se reuniu a 31 de julho. Partiu de Queimadas a 3 de agosto, dirigida por um coronel, até Monte Santo. Largou de Monte Santo para Canudos, a 10 de agosto, sob o comando de um major. Deixara na Bahia um coronel e alguns oficiais — doentes. Deixara em Queimadas um general, um tenente-coronel e mais alguns oficiais — doentes. Deixara em Monte Santo um coronel e mais alguns oficiais — doentes...
Heroísmo estranho
Decompunha-se pelas estradas. Partiam-lhe do seio pedidos de reforma mais alarmantes do que aniquilamentos de brigadas. Salteara-a um beribéri excepcional exigindo não já a perícia de provectos médicos senão o exame de psicólogos argutos. Porque afinal o medo teve ali os seus grandes heróis, revelando a coragem estupenda de dizer a um país inteiro que eram covardes.
Ao endireitar de Queimadas para o sertão aquela força encontrara as primeiras turmas de feridos e fora sulcada pelo assombro da guerra. Passaram-lhe pelo meio do acampamento, em Contendas, o general Savaget, o coronel Nery, o major Cunha Matos, o capitão Chachá Pereira e outros oficiais. Recebeu-os ainda entusiasticamente: oficiais e praças enfileirados às margens do caminho, saudando-os. Mas depois amorteceu- se-lhe o fervor. Apenas com três dias de viagem, começou de sofrer privações, vendo diminuídos os víveres que levava e repartia com as sucessivas turmas de feridos encontrados, chegando exausta e esmorecida a Monte Santo.
Em viagem para Canudos Tomou para Canudos onde era ansiosamente esperada, a 10 de agosto, despida inteiramente do esplêndido aparato hierárquico com que nascera. Dirigia-a o fiscal do 24º, Henrique de Magalhães, estando os corpos comandados pelo major Lídio Porto e capitães Afonso de Oliveira e Tito Escobar. A marcha foi difícil e morosa. Desde Queimadas lutava-se com dificuldades sérias de transporte. Os cargueiros, animais imprestáveis, velhos e cansados, muares refugados das carroças da Bahia e tropeiros improvisados — rengueavam, tropeçando pelos caminhos, imobilizando os batalhões, e remorando a avançada.
Chegou desse modo a Aracati, onde lhe foi entregue um comboio que devia guarnecer até Canudos.
Neste comenos dizimava-a a varíola. Destacavam-se das suas fileiras, diariamente, dois ou três enfermos, volvendo para o hospital, em Monte Santo. Outros, estropiados, naquela repentina transição das ruas calçadas da Capital Federal para aquelas ásperas veredas, distanciavam-se, perdidos à retaguarda, confundindo-se com os feridos, que vinham em direção oposta.
De sorte que ao passar em Juetê, no dia 14 de agosto, lhe foi providencial o encontro com o 15º Batalhão de Infantaria, já endurado na luta, e que viera de Canudos. Porque no dia seguinte, depois de decampar das Baixas, onde parara na véspera para aguardar a vinda de grande número de praças retardatárias, foi no Rancho do Vigário violentamente atacada. Os jagunços aferraram-na de flanco, pela direita, do alto de um cerro dominante, e quase de frente, de uma trincheira marginal. Abrangeram-na toda uma descarga única. Tombaram mortos na guarda da frente um alferes do 24º e, na extrema retaguarda, outro, do 38º. Baquearam algumas praças nas fileiras intermédias. Alguns pelotões se embaralharam estonteadamente surpresos, bisonhos ainda ante os guerrilheiros ferozes. A maioria disparou desesperadamente as armas. Estrugiram cornetas, vozes trêmulas, altas, entrecortadas, desencontradas, de comando. Dispararam, espavoridos, os cargueiros. A boiada estourou, mergulhando na caatinga...
O 15º Batalhão tomando a vanguarda guiou os lutadores vacilantes. Não se repeliu o inimigo. A retaguarda ao passar pelo mesmo ponto foi, por sua vez, alvejada.
Depois deste revés, porque o foi, bastando dizer-se que de 102 bois que comboiava restaram apenas onze, foi a brigada novamente investida no Angico. Deu uma carga de baionetas platônica em que não perdeu um soldado, entrando afinal em Canudos, onde os enrijados campeadores, que ali estavam sob a disciplina tirânica dos tiroteios diuturnos, a acolheram com a denominação de Mimosa, nome, que, entretanto, mais tarde, os bravos oficiais fizeram que se apagasse, a exemplo do primeiro título.
Capítulo VIII
Novos reforços
Este ataque chegou à Bahia com as proporções de batalha perdida, pondo mais um solavanco no desequilíbrio geral, mais uma dúzia de boatos no turbilhonar das conjecturas; e o governo começou a agir com a presteza requerida pela situação. Reconhecida a ineficácia dos reforços recém- enviados, cuidou de formar uma nova divisão, arrebanhando os últimos batalhões dispersos pelos Estados, capazes de mobilização rápida. E, para pulsear de perto a crise, resolveu enviar para a base de operações um de seus membros, o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt.
Este seguiu em agosto para a Bahia, ao tempo que de todos os ângulos do país abalavam novos lutadores. O movimento armado repentinamente se generalizava, assumindo a forma de um levantamento em massa.
As tropas confluíam do extremo norte e do extremo sul, acrescidas dos corpos policiais de S. Paulo, Pará e Amazonas. Nessa convergência para o seio da antiga metrópole, o paulista, forma delida do bandeirante aventuroso; o rio-grandense, cavaleiro e bravo; e o curiboca nortista, resistente como poucos — índoles díspares, homens de opostos climas, contrastando nos usos e tendências étnicas, do mestiço escuro ao caboclo trigueiro e ao branco, ali se agremiavam sob o liame de uma aspiração uniforme. A antiga capital agasalhava-os no recinto de seus velhos baluartes, rodeando num mesmo afago carinhoso e ardente a imensa prole havia três séculos erradia. Depois de longamente dispersos, os vários fatores da nossa raça volviam repentinamente ao ponto de onde tinham partido, tendendo para um entrelaçamento belíssimo. A Bahia ataviara-se para os receber . Transfigurou-a aquele fluxo da campanha — mártires que chegavam, combatentes que seguiam — e, partida a habitual apatia, revestiu a feição guerreira do passado. As inúteis fortalezas, que se lhe intercalam, decaídas à parceria burguesa das casas, no alinhamento das ruas, prontamente reparadas, cortadas as árvores que nasciam nas fendas das suas muralhas, ressurgiam à luz, recordando as quadras em que rugiam naquelas ameias as longas colubrinas de bronze.
Nelas aquartelavam os contingentes recém-vindos: o 1º Batalhão Policial de S. Paulo, com 458 praças e 21 oficiais, comandado pelo tenente- coronel Joaquim Elesbão dos Reis; os 29º, 39º, 37º, 28º, e 4º, dirigidos pelo coronel João César de Sampaio, tenentes-coronéis José da Cruz, Firmino Lopes Rego e Antônio Bernardo de Figueiredo e major Frederico Mara, com efetivos sucessivos de 240 praças e 27 oficiais, 250 praças e 40 oficiais, 332 praças e 51 oficiais, 250 praças e 11 oficiais, além de 36 alferes adidos, e o 4º com 219 praças e 11 alferes que eram toda a oficialidade, não tendo nem capitães nem tenentes. Por fim dois corpos: o Regimento Policial do Pará, somando 640 combatentes, comandados pelo coronel José Sotero de Meneses, e um da polícia do Amazonas, sob o comando do tenente Cândido José Mariano, com 328 soldados.
Estes reforços, que montavam a 2.914 homens incluídos perto de trezentos oficiais, foram repartidos em duas brigadas, a de linha, ao mando do coronel Sampaio e os da polícia — excluída a de S. Paulo, que seguira isolada na frente, sob o do coronel Sotero — constituindo uma divisão que foi entregue ao general de Brigada Carlos Eugênio de Andrade Guimarães.
Todo o mês de agosto gastou-se em mobilizá-los. Chegavam destacadamente à Bahia; municiavam-se e embarcavam para Queimadas e dali para Monte Santo, onde deviam concentrar-se nos primeiros dias de setembro.
Os batalhões de linha, além de desfalcados, como o indicam os números acima, reduzidos quase a duas companhias, vinham desprovidos de tudo, sem os mais simples apetrechos bélicos — à parte as espingardas velhas e o fardamento ruço, que haviam servido na recente campanha federalista do Sul.
O marechal Bittencourt
O marechal Carlos Machado de Bittencourt, principal árbitro da situação, desenvolveu, então, atividade notável.
Vinha de molde para todas as dificuldades do momento.
Era um homem frio, eivado de um ceticismo tranquilo e inofensivo. Na sua simplicidade perfeitamente plebeia se amorteciam todas as expansões generosas. Militar às direitas, seria capaz — e demonstrou-o mais tarde ultimando tragicamente a vida — de se abalançar aos maiores riscos. Mas friamente, equilibradamente, encarrilhado nas linhas inextensíveis do dever. Não era um bravo e não era um pusilânime.
Ninguém podia compreendê-lo arrebatado num lance de heroísmo. Ninguém podia imaginá-lo subtraindo-se tortuosamente a uma conjuntura perigosa. Sem ser uma organização militar completa e inteiriça, afeiçoara-se todavia ao automatismo típico dessas máquinas de músculos e nervos feitas para agirem mecanicamente à pressão inflexível das leis.
Mas isto menos por educação disciplinar e sólida que por temperamento, inerte, movendo-se passivo, comodamente endentado na entrosagem complexa das portarias e dos regulamentos. Fora disto era um nulo. Tinha o fetichismo das determinações escritas. Não as interpretava, não as criticava: cumpria-as. Boas ou péssimas, absurdas, extravagantes, anacrônicas, estúpidas ou úteis, fecundas, generosas e dignas, tornavam-no, proteiforme, espelhando-as — bom ou detestável, extravagante ou generoso e digno. Estava escrito. Por isto, todas as vezes que os abalos políticos lhas baralhavam, se retraía cautelosamente ao olvido.
O marechal Floriano Peixoto — profundo conhecedor dos homens do seu tempo — nos períodos críticos de seu governo, em que a índole pessoal de adeptos ou adversários influía, deixou-o sempre, sistematicamente, de parte. Não o chamou; não o afastou; não o prendeu. Era-lhe por igual desvalioso como adversário ou partidário. Sabia que o homem, cuja carreira se desatava numa linha reta, seca, inexpressiva e intorcível, não daria um passo a favor ou contra no travamento dos estados de sítio.
A República fora-lhe acidente inesperado no fim da vida.
Não a amou nunca. Sabem-no quantos com ele lidaram. Foi-lhe sempre novidade irritante, não porque mudasse os destinos de um povo senão porque alterava umas tantas ordenanças e uns tantos decretos, e umas tantas fórmulas, velhos preceitos que sabia de cor e salteado.
Ao seguir para a Bahia desenfluíra todos os entusiasmos. Quem dele se abeirasse, buscando alentos de uma intuição feliz ou um traço varonil, sulcando a situação emocionante e grave, que até lá o arrastava, topava, surpreso, a esterilidade de uns conceitos triviais, longas frivolidades cruelmente enfadonhas sobre paradas de tropas, intermináveis minúcias sobre distribuição de gêneros e remontas de cavalhadas — como se este mundo todo fosse uma imensa Casa da Ordem, e a História uma variante da escrituração dos sargentos.
Saltou naquela capital quando ia em sua plenitude o fervor patriótico de todas as classes; e de algum modo o amorteceu. Manifestações ruidosas, versos flamívomos, oradores explosivos passaram-lhe por diante, estrondaram-lhe em torno, deflagraram-lhe aos ouvidos, num estrepitar de palmas e aplausos. Ouviu-os indiferente e contrafeito. Não sabia respondê- las. Tinha a frase emperrada e pobre. Além disso, tudo quanto saía do passo ordinário da vida não o comovia, desorientava-o, contrariava-o.
Recém-vindos da luta, requerendo uma transferência ou uma licença, nada adiantavam se, dispensando a formalidade de um atestado médico, lhe pusessem à vista apenas o rombo de um tiro de trabuco ou um gilvaz sanguíneo ou um rosto cadavérico de esmaleitado. Eram coisas banais, do ofício.
Quadro lancinante
Certa vez essa insensibilidade lastimável calou profundamente. Foi numa visita a um dos hospitais.
O quadro do amplo salão era impressionador...
Imaginem-se dois extensos renques de leitos alvadios, e sobre eles — em todas as atitudes, rígidos debaixo dos lençóis escorridos como mortalhas; de bruços, ou acaroados com os travesseiros, em mudos paroxismos de dores; sentados, ou acurvados, ou estorcendo-se em gemidos — quatrocentos baleados! Cabeças envoltas em tiras sanguinolentas; braços partidos, em tipoias; pernas encanadas, em talas, rigidamente estendidas; pés disformes pela inchação, atravessados de espinhos; peitos broqueados à bala ou sarjados à faca; todos os traumatismos e todas as misérias...
A comitiva que encalçava o ministro — autoridades estaduais e militares, jornalistas, homens de toda a condição — ali entrou silenciosamente, tolhida de assombros.
Começou a lúgubre visita. O marechal aproximava-se de um ou outro leito, lendo maquinalmente a papeleta pendida à cabeceira; e seguia.
Mas teve que estacar um momento. Surgira-lhe em frente, emergindo dos cobertores, a face abatida de um velho, um cabo-de-esquadra, veterano de 35 anos de fileira. Uma vida batida a coice de armas desde os pântanos do Paraguai às caatingas de Canudos... E no rosto macilento do infeliz resplandecia um belo riso jovial e forte. Reconhecera o ministro do qual fora ordenança nos bons tempos de moço, em que o acompanhara na batalha, nos acantonamentos, nas longas marchas fatigantes. E dizia-o, agitado, voz sacudida e rouca, numa alegria dolorosíssima, num delírio de frases rudes e sinceras — olhos refulgentes de alacridade e de febre, e forçando por erguer-se, abordoando o tronco esmirrado aos braços finos e trêmulos; entreaberta a camisa de algodão deixando ver, na clavícula, a nódoa de uma cicatriz antiga...
Era empolgante a cena. Resfolegaram surdamente, opressos, todos os peitos. Empanaram-se todas as vistas, de lágrimas... e o marechal Bittencourt prosseguiu, tranquilamente, continuando a leitura maquinal das papeletas.
É que tudo aquilo — fortes emoções ou quadros lancinantes — estava fora do programa. Não o distraía.
Era realmente o homem feito para aquela emergência. O governo não depararia quem melhor lhe transmitisse a ação, intacta, rompendo retilineamente no tumulto da crise.
Nesse abnegar-se a si próprio, abdicando todas as regalias da própria posição, fez-se, na lídima significação do termo, o Quartel-Mestre-General de uma campanha em que era chefe supremo um seu inferior hierárquico.
É que um bom senso sólido, blindado da frieza que o libertava de quaisquer perturbações, fizera que ele apanhasse, de um lance, as exigências reais da luta. Destas — compreendeu-o logo — a menos valiosa era, de certo, a acumulação de um maior número de combatentes no conflito. Estes, penetrando a região conflagrada, agravariam antes o estado dos companheiros, que pretendessem auxiliar, se lá fossem compartir as mesmas provações, reduzir-lhes os recursos escassos no concorrerem à mesma penúria. O que era preciso combater a todo o transe, e vencer, não era o jagunço, era o deserto. Fazia-se imprescindível dar à campanha o que ela ainda não tivera: uma linha e uma base de operações. Terminava-se por onde devia começar-se. E foi essa a empresa impulsionada com sucesso pelo ministro. Atraído durante toda a estadia na Bahia por sem número de questões de pormenores — equipamento dos batalhões que chegavam e acomodações para as turmas incessantes de feridos — o seu espírito superpunha-lhes sempre aquele objetivo capital, condição preponderante, e talvez única, do sério problema a resolver. Venceu-o, por fim, num destruir tenaz de numerosas dificuldades.
Nos últimos dias de agosto organizara-se, afinal, definitivamente, um corpo regular de comboios, atravessando continuamente os caminhos e ligando de modo efetivo, com breves intervalos de dias, o exército em operações a Monte Santo.
Este resultado pressagiava o desenlace próximo da contenda. Porque desde o começo, revelam-no as expedições antecedentes, as causas do insucesso em grande parte repousavam no insulamento em que cegamente se encravaram os expedicionários perdendo-se na região estéril, isolando-se diante do inimigo em espetaculosas diligências policiais, onde não havia rastrear-se os mínimos preceitos da estratégia.
O marechal Bittencourt fez, pelo menos, isto: transmudou um conflito enorme em campanha regular. A que até então se fizera traduzira- se num prodigalizar inútil da bravura, mas o heroísmo e abnegação mais rara não a impulsionaram. Cristalizara num assédio platônico e dúbio, recortado de fuzilarias inúteis, em que se jogava nobre e estupidamente a vida. E este prolongar-se-ia, indeterminado, até que o arraial sinistro absorvesse, um a um, os que o acometiam. Em tal caso a simples substituição dos que ali tombavam — oito a dez por dia — por outros, tornava-se um círculo vicioso crudelíssimo. Além disto, numerosos assaltantes eram uma agravante. Circulariam todo o povoado, trancar-lhe- iam todas as saídas, mas teriam, passados poucos dias, latentes em roda, as linhas do outro cerco intangível e formidável — o deserto recretado, das caatingas, pondo-os nas aperturas crescentes e inelutáveis da fome.
Previu-o o marechal Bittencourt.
Colaboradores prosaicos demais
Um estrategista superior, atraído pela forma técnica e alta da questão, gizaria rasgos estupendos de tática e não a resolveria. Um lidador brilhante idearia novas arrancadas impetuosas, que esmagassem de vez a rebeldia, e extenuar-se-ia, inútil, a marche-marche pelas caatingas. O marechal Bittencourt, indiferente a tudo isto — impassível dentro da impaciência geral —, organizava comboios e comprava muares...
De feito, aquela campanha cruenta e na verdade dramática só tinha uma solução, e esta singularmente humorística.
Mil burros mansos valiam na emergência por 10 mil heróis. A luta com todo o seu cortejo de combates sangrentos descambava, deploravelmente prosaica, a um plano obscuro.
Dispensava o heroísmo, desdenhava o gênio militar, excluía o arremesso das brigadas, e queria tropeiros e azêmolas. Esta maneira de ver implicava com o lirismo patriótico e doía, feito um epigrama malévolo da História, mas era a única. Era forçada a intrusão pouco lisonjeira de tais colaboradores em nossos destinos. O mais caluniado dos animais ia assentar, dominadoramente, as patas entaloadas em cima de uma crise, e esmagá-la...
Ademais, somente eles podiam dar às operações a celeridade exigida pelas circunstâncias. É o caso que a guerra só podia delongar-se por mais dois meses, no máximo. Mais três meses seriam — e não havia remover a conclusão inabalável — a derrota, o abandono de quanto se havia feito, a paralisação obrigada.
Ia entrar, em novembro, sobre aquela zona, o regime torrencial e dele decorreriam consequências insanáveis.
Nos leitos, até então secos, dos regatos, acachoariam rios de águas barrentas, e o Vaza-Barris, intumescido de repente, transmudar-se-ia em onda enorme e dilatada, rolando transbordante, intransponível, cortando todas as comunicações.
Depois, quando as caudais se extinguissem, rápidas — porque o turbilhão das águas, derivando para o S. Francisco e para o mar, se esgota com a mesma celeridade com que se forma — despontariam entraves mais graves. Sob a adustão dos dias ardentíssimos, cada banhado, cada lagoa efêmera, cada caldeirão encovado nas pedras, cada poça de água — é um laboratório infernal, destilando a febre que irradia latente nos germes do impaludismo, profusamente disseminados nos ares, ascendendo em número infinito de cada ponto em que bata um raio de sol e descendo sobre as tropas, milhares de organismos em que as fadigas criavam receptividade mórbida funesta.
Era preciso liquidar a pendência antes dessa quadra perigosa, dispondo as coisas para um sítio real e firme determinando a rendição imediata. E, vencido o inimigo que podia ser vencido, recuar incontinente ante o inimigo invencível e eterno — a terra desolada e estéril. Mas para tal era indispensável garantir-se a subsistência do exército que, com os recentes reforços, montaria cerca de 8 mil homens.
Conseguiu-o o ministro da Guerra.
De sorte que ao partir, em começo de setembro, para Queimadas — estavam dispostos todos os elementos para desenlace próximo: aguardavam-no, concentradas em Monte Santo, as brigadas da Divisão Auxiliar; seguiam, ainda que raros, os primeiros comboios regulares para Canudos.
Em Canudos Iam ainda a tempo de reanimar a expedição que até àquela data atravessara, presa aos flancos do arraial, quarenta e tantos dias de agitação perigosa e inútil. Definimo-la já, em breve diário, que não alongamos para evitar a mesmice dolorosa de episódios sucedendo-se sem variantes apreciáveis.
Os mesmos tiroteios improvisos, violentos, instantâneos, em horas incertas; os mesmos armistícios enganadores; a mesma apatia recortada de alarmas; a mesma calma estranha e esmagadora, intermitentemente rota de descargas...
Combates diários, ora mortíferos rareando as fileiras e desfalcando-as de oficiais prestimosos, ora ruidosos e longos, mas à maneira dos recontros entre os mercenários na Idade Média, esgotando-se num dispêndio de milhares de balas, sem um ferido, sem um escoriado sequer, de lado a lado. Por fim a existência aleatória, a terços de rações, quando as havia, dividindo-se um boi por batalhão e um litro de farinha por esquadra; e, como nos maus dias da Favela, as empresas diárias, em que se escalavam corpos para arrebanharem gado.
Os comboios eram raros e incertos. Chegavam escassos, extraviando- se parte das cargas pelos caminhos. Diante dos expedicionários se levantou de novo, como perigo único, a fome.
Metidos nos casebres, ou nas tendas por detrás dos morros, ou colados às escarpas das trincheiras, pouco se temiam do jagunço. Os perigos consistiam, exclusivos, nas caçadas, que estes faziam, de incautos que se afastavam dos abrigos. As duas torres da igreja nova lá estavam sobranceiras na altura, como dois mutãs sinistros sobre o exército. E nada escapava à pontaria dos que as guarneciam e que não as abandonavam no maior fragor dos canhoneios. A travessia para a Favela continuava, por isto, perigosa, tornando-se necessário estacionar uma guarda à margem do rio, no ponto em que ia dar o caminho, a fim de impedir que para lá seguissem soldados imprudentes. Naquele ponto recebiam o batismo de fogo os reforços que chegavam: a Brigada Girard a 15 de agosto, reduzida a 892 praças e 56 oficiais; o Batalhão Paulista a 23, com 424 praças e 21 oficiais; o 37º de Infantaria, que precedera a Divisão Auxiliar, com 205 praças e 16 oficiais, comandado pelo tenente-coronel Firmino Lopes Rego. Os rudes adversários deixavam-nos descer em paz as últimas abas da montanha, timbrando em lhes fazer no último passo, embaixo, no álveo do rio, uma recepção retumbante e teatral, de tiros, cortada invariavelmente de estrídulos assovios terrivelmente irônicos.
É que não os assustavam os novos antagonistas. Permaneciam na mesma atitude desafiadora, inamolgáveis. E pareciam disciplinar-se. Correspondiam-se, de um a outro extremo do povoado, ao través do casario, a disparos combinados de bacamartes. Arrojavam-se mais ordenados e seguros nos assaltos. Recebiam, por sua vez, comboios, entrando pelos caminhos da Várzea da Ema, sem que lhos capturasse a tropa assaltante para não desguarnecer as posições ocupadas ou, consideração mais séria, evitar ciladas perigosas. Porque pelas cercanias, derivando invisíveis pelas colinas do norte e dali para Canabrava e Cocorobó, circulando de longe os batalhões, rondavam rápidas colunas volantes de jagunços, das quais havia sinais iniludíveis. Não raro o soldado inexperto, ao avultar sobre um cerro, baqueava atravessado por uma bala, que partia de fora do arraial, das linhas intangíveis daquele outro assédio abarcando a tropa. Os animais de montaria e tração eram muitas vezes espavoridos a tiro, nas pastagens que se alongavam pelas duas margens do rio; e em certo dia de agosto 20 muares da artilharia foram capturados, apesar de estarem sob a guarda de um batalhão aguerrido, o 5º de Linha, sobre o qual se fez carga da importância da presa.
Estes incidentes delatavam raro alento entre os rebeldes.
Não lhes davam, entretanto, tréguas os assaltantes. Os três Krupps que desde 19 de julho emparcavam sobre a encosta, tendo no sopé a vanguarda do 25º sobranceando a praça, batiam-nos noite e dia ateando incêndios a custo debelados e arruinando inteiramente a igreja velha, de madeiramento já todo exposto a ressaltar no telhado abatido em parte e em cujo campanário não se compreendia que ainda subisse à tarde o impávido sineiro, tangendo as notas consagradas da Ave-Maria.
O sino da igreja
Como se não bastasse aquele bombardeio à queima-roupa, descera, a 23 de agosto, do alto da Favela, o Whitworth. Naquele dia fora ferido o general Barbosa, quando inspecionava a bateria do centro, próxima ao quartel-general da 1ª coluna. De sorte que a vinda do monstruoso canhão dava oportunidade a revide imediato. Este realizou-se logo ao amanhecer do dia subsequente. E foi, de fato, formidando. A grande peça detonou: viu-se arrebentar, com estrondo, o enorme shrapnel entre as paredes da igreja, esfarelando-lhe o teto, derrubando os restos do campanário e fazendo saltar pelos ares, revoluteando, estridulamento badalando, como se ainda vibrasse um alarma, o velho sino que chamava ao descer das tardes os combatentes para as rezas...
Fuzilaria
Mas, tirante este incidente, fora perdida a jornada: quebrara-se uma peça do aparelho obturador do canhão fazendo-o emudecer para sempre. Caíram nas linhas de fogo oito soldados, e uma fuzilaria fechada, estupenda, incomparável, entrou pela noite dentro até ao amanhecer. Reatou-se durante o dia, após ligeiro armísticio, vitimando mais quatro soldados, que com seis do 26º, que aproveitando o tumulto desertaram, elevaram a dez as perdas do dia. Continuou no dia 26, abatendo cinco praças; matando quatro, no dia 27; quatro, no dia 28; no dia 29, quatro soldados e um oficial; e assim por diante na mesma escala inflexível, que exauria a tropa.
As baixas, somando-se diariamente em parcelas pouco díspares, com os claros abertos em todas as fileiras pelos combates anteriores, tinham já, desde meados de agosto, imposto a reorganização das forças rarescentes. Na diminuição que tivera o número de brigadas, passando de sete a cinco, e no descair das graduações dos comandos, percebia-se, apesar dos reforços
recém-vindos, o enfraquecimento da expedição 1.
Dos vinte batalhões de infantaria que lá estavam — à parte o 5º Regimento de Artilharia, o 5º da Polícia Baiana, uma bateria de tiro rápido e um esquadrão de cavalaria —, quinze eram comandados por capitães e duas brigadas por tenentes-coronéis, não descendo o das companhias aos sargentos por ser maior que o destes o número de alferes.
Breve, porém, a situação mudaria. Canudos teria em torno, em algarismos rigorosamente exatos, trinta batalhões, excluídos os
corpos de outras armas 2.
Avançava pelos caminhos a divisão salvadora.
1 “Quartel-General do Comando-em-chefe – Campo de combate em Canudos, 17 de agosto de 1897 – Ordem do dia nº 102 – Reorganização das forças em operações no interior do Estado.
Nesta data passa a ter a seguinte organização a força do meu comando: 14º batalhão de infantaria sobre o comando do capitão do 32º Antônio da Silva Paraguaçu; 22º sob o comando do major do mesmo corpo Lídio Corpo; 24º sob o comando do major do mesmo corpo Henrique José de Magalhães; 38º sob o comando do capitão do mesmo corpo Afonso Pinto de Oliveira, todos da arma de infantaria, constituindo a 1ª brigada, sob o comando do coronel do 14º Joaquim Manoel de Medeiros; 15º sob o comando do capitão do 38º José Xavier de Figueiredo Brito; 16º sob o comando do capitão do 24º Napoleão Felipe Aché; 27º sob o comando do capitão do 24º Tito Pedro Escobar; 33º sob o comando do capitão José Soares de Melo, constituindo a 2ª brigada, sob o comando do coronel do 27º Inácio Henrique de Gouveia; 5º comando pelo capitão Leopoldo Barros e Vasconcelos, do mesmo corpo; 7º sob o comando do capitão do mesmo corpo Alberto Gavião Pereira Pinto; 25º sob o comando do major Henrique Severiano da Silva; 34º comandado pelo capitão Pedro de Barros Falcão, constituindo a 3ª brigada, sob o comando do tenente-coronel do 25º Emídio Dantas Barreto; 5º regimento de artilharia , comandado pelo capitão do mesmo João Carlos Pereira Ibiapina; bateria do 2º regimento sob o comando do 1º tenente do 5º batalhão de posição Afrodísio Borba e bateria de tira rápido comandada pelo capitão do 1º de posição Antônio Afonso de Carvalho, constituindo a brigada de artilharia, sob o comando do coronel do 5º regimento Antônio Olímpio da Silveira, cujas brigadas ficam fazendo parte da 1ª coluna, sob o comando do general de brigada João da Silva Barbosa; 9º batalhão de infantaria, sob o comando do capitão do 31º José Lauriano da Costa; 26º do comando do capitão do 40º Francisco de Moura Costa; 32º sob o comando do major do mesmo corpo Florismundo Colatino dos Reis Araújo Góis; 35º comandado pelo campitão Fortunato de Sena Dias, constituindo a 4ª brigada, do comando do coronel do 32º Donaciano de Araújo Pantoja; 12º de infantaria do comando do capitão do 31º Joaquim Gomes da Silva; 30º comandado pelo capitão Altino Dias Ribeiro; 31º sob o comando do major do mesmo corpo João Pacheco de Assis; 40º sob o comando do major Manual Nonato Neves de Seixas, constituindo a 5ª brigada do comando do tenente-coronel do 30º Antônio Tupi Ferreira Caldas, as quais formarão a 2ª coluna sob o comando interino do coronel Joaquim Manuel de Medeiros, passando a comandar interinamente a 1ª brigada o major do 16º Aristides Rodriguez Vaz.”
2 4º, 5º, 7º, 9º, 12º, 14º, 15º, 16º, 22º, 23º, 24º, 25º, 26º, 27º, 28º, 29º, 30º, 31º, 32º, 33º, 34º, 35º, 37º, 38º, 40º de linha; 5º da Bahia; 1 de São Paulo, 2 do Pará; 1 do Amazonas. Ao todo 30.
Adite-se: 5º regimento de artilharia; bateria do 2º regimento da mesma arma; uma bateria de tiro rápido; um esquadrão de cavalaria; o 4º corpo de polícia baiana e o batalhão patriótico “Moreira César”, dos comboios.